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Arthur Bragança de Vasconcellos Weintraub - Previdência Privada - Ano 2005

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do sis­
tema.
As contribuições para a manutenção da Previdência Social têm 
natureza de tributo (contribuições sociais). H á ainda a parafiscalida- 
de na figura do INSS.
Por sua vez, a Previdência Complementar (ao Regime Geral - 
trabalhadores do setor privado - e ao Regime Jurídico Único - servi­
dores públicos), subdividida em Oficial e Privada, é um modelo típi­
co de capitalização (funding system) com baixo ou nenhum grau de 
solidariedade, em que cada participante do sistema contribui (adim- 
plemento de sinalagma), em princípio, para um fundo privado espe­
cífico que irá subvencionar a sua própria aposentadoria.
A solidariedade mitigada existiria em planos cujos benefícios 
não programados pendessem para o regime de repartição de capital 
de cobertura. Estes planos envolvem o evento morte ou invalidez, e. 
g. Os demais participantes contribuem para que, no infortúnio da 
morte de um participante do plano em comum, possa o beneficiário(s) 
receber benefício. Esta solidariedade, porém, distancia-se daquela 
existente no Regime Geral, muito mais pendente ao mutualismo.
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Reiteramos aqui a diferenciação dos termos Previdência Priva­
da, Previdência Oficial e seguro privado. A Previdência Oficial diz 
respeito ao Regime Geral da Previdência Social (RGPS - ligado ao 
INSS), ou ao Regime Jurídico Único (RJU - regimes próprios de 
previdência dos servidores públicos). O seguro privado possui até 
uma existência paralela à Previdência Privada, mas pelas razões que 
já foram exploradas, não há sinonímia.
A Previdência Privada está disposta horizontalmente frente à 
Previdência Social. A Previdência Oficial Com plementar versa so­
bre a previdência suplementar de determinados grupos de servido­
res públicos. Tal sistema não é privado, pois requer subvenção estatal 
para o pagamento dos benefícios, e possui legislação específica para 
sua criação regional (v.g. previdência complementar dos servidores 
públicos de um Estado ou de uma cidade). É um regime próprio.
A facultatividade é factível com o regime de capitalização, 
pois no regime de repartição simples é imprescindível um elevado 
grau de participação para cotizar os benefícios dos aposentados e 
pensionistas.
Constitucionalmente, a concessão do benefício estatal básico é 
tida como principal e obrigatória (desencadeada por uma contingên­
cia social), relegando à vontade da pessoa a contribuição comple­
mentar. Mesmo após a Emenda Constitucional n° 41 (reforma que 
remodelou o regime previdenciário dos servidores públicos), a con­
tribuição ainda é voluntária. Mesmo havendo liberdade contratual 
no sistema previdenciário privado, justam ente a face acessória cons­
titucional acaba por submeter o modelo particular (imbuído pelos 
institutos jurídicos de Direito Privado) às previsões e mudanças im ­
postas pelo governo.
Então, o caráter suplementar da Previdência Privada acaba apre­
sentando um cunho legal e não fático, pois nem sempre em termos 
pecuniários ocorre essa acessoriedade. Perante o achatamento progres­
sivo e inexorável dos benefícios da Previdência Social e inclusive do
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Regime Jurídico Unico, em valores reais de benefícios, a Previdência 
Complementar Privada oferece benefícios maiores do que a Previdên­
cia Oficial, até porque no campo oficial há um teto para os benefícios.
Nos socorramos novamente da etimologia. A palavra previ­
dência é oriunda do latim “praevidentia”, no sentido de prever, an­
tever. O indivíduo sabe que não terá vitalidade eterna para se manter 
com dignidade ou manter seu padrão de vida. O risco social da 
perda de força vital é equalizado dentro do Contrato Social com a 
resposta previdenciária.
A pessoa prevê que precisará se aposentar eventualmente. Quer 
chegar idade avançada, mas sabe que poderá se acidentar ou morrer 
até lá. O Estado também não fica inerte ante esta situação.
A esperança do ser humano para o futuro é a velhice, apesar de 
ser conhecida como uma etapa da vida sem o vigor jovial. Cícero, 
sempre exaltou a velhice ativa (jovialidade espiritual). M orrer pro- 
vecto é desejo quase universal. E, afinal, como diria São Jerônimo, 
ninguém é tão velho que não acredite poder viver mais um ano35.
Ao nosso ver, a Previdência Privada tem um caráter comple- 
tivo, ou suplementar, em relação à Previdência Social. Pode-se com­
pletar algo que não precisa, necessariamente, ser principal, tampouco 
o que completa ser acessório.
O vocábulo privado é oriundo do latim “priva tu”; “privus”, e 
tem um significado de particular, que não é público.
Ainda que a Previdência Privada venha a ser obrigatória, isto 
não retira seu alicerce privado. Ao contrário, é importante destacar 
que os valores existentes no âmago da Previdência Privada não são 
estatais, mas sim dos participantes.
O fundamento dos planos de Previdência Privada não é o enri­
quecimento do participante. Os planos previdenciários privados vi­
35 Nemo est tam senex, qui se annum non putet posse vivere.
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sam a permitir uma continuidade no padrão de vida da pessoa, com- 
jilelando ou não uma aposentadoria oficial. Ainda que o participante 
nao tenha aposentadoria oficial, poderá obter benefícios previdenci- 
a rios privados.
Seria então complementar a que?
A própria Lei Complementar n° 109 não utiliza o termo “Pre­
vidência Privada Complementar”, inscrevendo apenas o termo “Pre­
vidência Privada”.
O caráter aparentemente acessório/complementar fatalmente de­
saparecerá, numa tendência inexorável de fortalecimento da Previ­
dência Privada e enfraquecimento da Previdência Social por meio do 
achatamento dos benefícios do INSS e do RJU.
7 .1 . T e r m o s " c o m p l e m e n t a r " e " s u p l e m e n t a r "
Até a criação da Lei Com plementar n° 109/2001, a Previ­
dência Privada tinha imanente os conceitos de complementar ou 
suplementar.
Era complementar quando, dentro de um plano de benefício 
definido, era direcionado a completar o valor do benefício oficial 
até alcançar o valor do trabalho ativo.
Era suplementar quando apenas acrescia valor ao benefício oficial.
A característica da complementaridade da Previdência Privada 
em relação à Previdência Pública não tem o conteúdo de outrora. É 
complementar no sentido da suplementação facultativa dos benefí­
cios, como determina o art. 202 da Constituição.
Antes do advento da Emenda Constitucional n° 20, havia uma 
conexão generalizada dos planos previdenciários privados e a con­
cessão de benefícios previdenciários oficiais.
Como a maioria dos planos era de benefício definido, o valor 
efetivo do benefício da Previdência Privada dependia do montante
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do benefício oficial, pois “complementava”, ou melhor, completava o 
valor do benefício oficial até alcançar o montante de remuneração do 
período ativo (manutenção absoluta do padrão de vida). Quando não 
alcançava o valor da ativa era denominado de subsidiário.
O termo “complementar”, preceituado na Constituição, tem in­
terpretação agora de suplemento, expressão inócua, pois o valor mé­
dio dos benefícios na Previdência Privada suplanta aqueles da 
Previdência Social. Entender como suplemento algo que é mais ex­
pressivo seria como considerar uma folha de alface o almoço e com­
primidos de vitaminas como suplemento: as vitaminas seriam aí a 
nutrição principal.
Será então não complementar, mas sim ancilar ao participante na 
sua necessidade de aposentação. Sendo auxiliar, utiliza esta ajuda a quem 
quiser. A facultatividade de ingresso na Previdência Privada propicia 
ao trabalhador um ingresso voluntário na Previdência Privada, na bus­
ca pela manutenção do padrão de vida quando da inatividade.
Hoje estes termos estão ultrapassados, pois constitucionalmen­
te não há vinculação dos benefícios da Previdência Privada com os 
benefícios oficiais. O art.