A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
313 pág.
Ivy Cassa - Contrato de Previdência Privada - Ano 2009

Pré-visualização | Página 3 de 50

a formação de poupança interna, a qual financia impor­
tantes investimentos no país, propiciando o seu desenvolvimento. A 
expansão da previdência privada impacta de maneira decisiva todo 
esse arranjo, o que só pode ser compreendido em sua totalidade por 
pesquisas paralelas em outros campos do saber.
C O N TR A TO DF l'KI VII >1 N i IA l* UIVA DA
No linal de 2008, o sistema contava com 371 entidades fe­
chadas, com mais de 2300 patrocinadores, cobrindo aproximada­
mente VXi da população ativa, com um patrimônio de cerca de R$ 
i2() bilhões, pagando mais de 600 mil benefícios de aposentadorias 
c pensões por mês. N o âmbito das entidades abertas, o patrimônio 
acumulado até o final de 2008 era de cerca de R$ 100 bilhões.
Com a nova regulamentação - que, dentre outras impor­
tantes inovações, introduziu institutos que garantiram maior fle­
xibilidade ao participante, tais como a portabilidade, o benefício 
proporcional diferido, o autopatrocínio e o resgate - esse sistema 
revigorou-se, pois abriu novas possibilidades ao participante que 
troca de vínculo profissional.
Ademais, outro passo importante dado nesse setor foi a im­
plantação de um novo regime tributário (tributação regressiva), que 
combinou alíquotas de imposto de renda com prazo de acumulação. 
Dessa maneira, privilegiaram-se os participantes que desejam efe­
tivamente acumular recursos com finalidade previdenciária, e não 
meramente especulativa ou de investimento.
Assim, apesar da crise financeira que assolou o mundo no ano 
de 2008, e de algumas oscilações que acabaram por afetar especial­
mente alguns fundos de pensão, pode-se afirmar que a previdência 
privada vive um momento de prosperidade e encontra-se em franca 
expansão, sendo a perspectiva de crescimento para as próximas dé­
cadas bastante otimista.
E essa demanda crescente pela previdência privada gera tam ­
bém um grande número de desafios. Com um sistema que ainda 
está em fase de desenvolvimento, é natural que as pessoas não se sin­
tam à vontade para falar sobre o assunto.
Além disso, ainda é grande a desconfiança no sistema por 
conta de experiências negativas ocorridas no passado. Mas é certo 
que quanto mais se conhece algo, maior é a certeza para se falar a 
respeito. Dito de outro modo, é muito fácil criticar algo que não se 
conhece, ou cujo conhecimento é apenas superficial. Neste livro,
I . Illlind tl^ .in
procurei examinar cuidadosamente os elementos principais do con-
11 ato de previdência privada. Uma vez destrinchados, torna-se mais
I á*. i 1 proferir comentários a respeito do assunto.
O cenário, repito, é novo e intrincado. Do lado do poder pú­
blico, emerge a necessidade de se desenvolverem de políticas públicas 
que se compatibilizem com o atual momento de transição demográ- 
lica, verificado pelo registro do aumento da longevidade dos partici­
pantes do sistema previdenciário brasileiro. Do lado dos operadores 
do direito, evidencia-se a urgência de um aprofundamento no co­
nhecimento da matéria, dada a expansão do quadro legislativo que a 
regula, como meio indispensável à criação de soluções consistentes e 
de respostas adequadas às demandas.
2. Seguridade social
2.1. Conceito
Seguridade social é um instrumento complexo adotado pelo 
Estado como mecanismo de prevenção e proteção do indivíduo con­
tra riscos, especialmente aqueles decorrentes da vida em sociedade, a 
fim de garantir condições de sobrevivência adequadas no futuro.
Nos termos da Constituição Federal, compreende um con­
junto integrado de ações de iniciativa dos Poderes Públicos e da so­
ciedade, destinado a assegurar os direitos relativos à saúde, à previ­
dência e à assistência social.
Art. 194. A seguridade social compreende um conjunto inte­
grado de ações de iniciativa dos Poderes Públicos e da sociedade, 
destinadas a assegurar os direitos relativos à saúde, àprevidên­
cia e à assistência social. ” (grifamos)
Muitos autores procuraram explicar o seu conceito.
Eliane Romeiro1 ensina que:
“ela se apresenta como o conjunto de idéias adotadas pelo Estado 
objetivando o bem-estar do indivíduo. O valor fundam ental para
o ideal de Seguridade é a proteção do todo, do conjunto de cida­
dãos, cujas metaspriorizam as situações das necessidades indivi­
duais. A otimização das condições econômicas do conjunto social 
não elimina a situação de risco individual, cabendo essa tarefa
1 COSTA, Eliane Romeiro. Previdência Complementar na Seguridade Social: 0 risco velhice e a idade 
para a aposentadoria. São Paulo: LTr, 2003, p. 36.
2 . SE G U R ID A D E S O C aA l, .M ( ........
à política de seguridade social estatal. (...) H á muitos conceitos 
de seguridade social. As concepções demonstram a dificuldade de 
precisar o sentido. A seguridade como segurança que ameniza as 
situações futuras éprocesso que concretiza a realização do ser hu­
mano. O direito social à seguridade intenta a igualdade, a gene­
ralidade da cobertura e a redistribuição dos riscos. A seguridade 
desempenhafunção de seguradora.”
Para Póvoas2:
“é um processo sócio-econômico ao nível de cada nação utilizan­
do a solidariedade entre entidades e pessoas que representam 
as suas forças produtivas e beneficiando de uma estrutura ope­
racional definida, orientada e controlada pelo estado, objetiva 
proporcionar a cada pessoa os meios indispensáveis para, nas 
eventualidades negativas da sua vida, em termos de perda de 
sua capacidade de ganho por razões aleatórias como o desempre­
go, a doença, o acidente, ou por razões inerentes à própria con­
dição humana como o casamento, a maternidade, a infância, 
a velhice e a morte, poder suportar as conseqüências, nomeada­
mente ter assegurado o sustento da família. ’’
Por fim, Celso Barroso Leite3 apresenta a seguridade social
como:
“o conjunto das medidas com as quais o Estado, agente da 
sociedade, procura atender à necessidade que o ser humano 
tem de segurança na adversidade, de tranqüilidade quanto 
ao dia de amanhã. ”
De maneira bastante sucinta, e numa perspectiva contratua- 
lista clássica, pode-se afirmar que o papel do Estado justifica-se exa­
2 POVOAS, Manuel Póvoas .Previdência Privada - Filosofia, Fundamentos Técnicos, Conceituação 
jurídica. Rio de janeiro: FUNENSEG, 1985, p. 23.
3 BARROSO LEITE, Celso. Conceito de Seguridade Social in Curso de Direito Previdenciário. Home­
nagem a Moacyr Velloso Cardoso de Oliveira (coordenação de Wagner Balera), 5a edição. São Paulo: I Tr, 
2002, p. 17 e 18.
C O N T R A T O D E P R E V iD i-N C IA PR IV A D A
tamente por tais riscos decorrerem da vida em sociedade. De acordo 
com a teoria cie Rousscau, como o homem abriu mão de parte da sua 
liberdade em prol dos benefícios da vida coletiva, o Estado assume
o dever de protegê-lo contra os riscos sociais, ou seja, os perigos ine­
rentes à própria vida cm sociedade4.
Pode-se, ainda, abordar o conceito de Seguridade Social a 
partir uma perspectiva histórica, reconstruindo, em linhas gerais e 
esquemáticas, a trajetória de sua afirmação no século XX. Essa tra­
jetória, por sua vez, vai de par com um processo de ampliação cres­
cente das funções desempenhadas pelo Estado. Tal tendência pode 
ser observada já nas primeiras décadas do século XX, notadamente 
a partir da Primeira Guerra M undial. De mero espectador da vida 
civil, de mero garantidor externo das relações econômicas - de acor­
do com a caracterização típica do modelo liberal clássico —, o Estado 
passa a uma postura de intervenção direta na atividade econômi­
ca, de gestão minuciosa de cada vez mais setores da vida social. Tal 
transformação visa a objetivos múltiplos: a proteção de um conceito 
alargado de dignidade individual, a estabilização da relação entre 
diferentes classes e grupos sociais, a necessidade de expandir a esfera 
do consumo em um período de contrações econômicas e recessões 
graves,