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NARRATIVAS JORNALÍSTICAS DIGITAIS OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM > Identificar os perfis de diferentes leitores, da era industrial à era digital. > Analisar os perfis de leitores das novas gerações. > Reconhecer os conteúdos digitais que mais fazem sucesso entre leitores atuais. Introdução Em 1450, aproximadamente, o artesão alemão Johann Gutenberg, da cidade de Mainz, inventou a prensa gráfica (BRIGGS; BURKE, 2006). Na China e no Japão, a impressão já era praticada desde, pelo menos, o século VIII. O método utilizado nesses países era o da “impressão em bloco”, que utilizava blocos de madeira para imprimir uma única página de um texto específico em uma folha de papel. Portanto, a invenção da impressão com tipos móveis, que permitia combinar rapidamente as letras necessárias para construir frases e páginas, foi uma verdadeira revolução. Nesse contexto, a tentação é de comparar a revolução digital com a revolução da prensa de Gutenberg. Entretanto, a história do livro e da leitura é bem mais complexa do que rupturas extremas. Os modelos de leitores provocados pelas inovações tecnológicas não eliminam os modelos anteriores, mas sim se sobrepõem a eles. Ou seja, nem o livro, nem seu leitor, deixaram de existir após a invenção e a disseminação do digital. Pelo contrário, essa interação entre os tipos de leitores Narrativas jornalísticas para leitores digitais Marcio Telles da Silveira é o que cria um panorama muito mais rico e complexo, ao qual o jornalista deve ser capaz de se adaptar. Neste capítulo, você conhecerá os perfis de diferentes leitores, da era industrial à era digital. Além disso, verá alguns exemplos de conteúdos digi- tais que fazem sucesso e que podem ser pensados a partir da tipologia dos leitores atuais. A leitura da era do livro à modernidade Em meados da década de 1450, na Europa, só era possível copiar um texto à mão. Os livros eram raros, guardados em bibliotecas reais e, sobretudo, em mosteiros. O trabalho de cópia era realizado por uma casta especializada, os monges copistas. Com a invenção da prensa, o custo dos livros diminuiu, e o tempo de reprodução das cópias foi reduzido (CHARTIER, 1998). Contudo, os livros pré e pós-Gutenberg não são tão distintos quanto parece, uma vez que eles são baseados no códice ou codex, isto é, objetos de folhas dobradas por um determinado número de vezes, que determinam o formato livro. As folhas são organizadas em cadernos, que são costurados juntos e pro- tegidos por uma encadernação. Instrumentos como paginação, numeração, índice e sumário existem desde a época do manuscrito (CHARTIER, 1998), assim como os usos relacionados a tamanhos diversos, como, por exemplo: o livro grande (in-folio), que se coloca sobre a mesa para a leitura; os livros médios, dos primeiros humanistas; e o livro de bolso (libellus), para preces e diversão. O livro manuscrito, por sua vez, não deixou de existir após a invenção da prensa; na verdade, ele sobreviveu até meados do século XIX. Com a Revolução Industrial, “o incremente das técnicas de impressão e sua fusão com as imagens fotográficas levaram ao aparecimento e multipli- cação dos meios impressos de massa: os jornais e as revistas” (SANTAELLA, 2004, p. 15). Com essas técnicas, surgiram novas habilidades de percepção e cognição, dando vazão a novos tipos de leitores e modelos de leitura. A leitura é entendida de maneira ampla, incluindo o leitor de imagens e outras formas híbridas, como o espectador de cinema, TV e vídeo e o inter- nauta. Conforme aponta Santaella (2004, p. 17), com os livros ilustrados e, mais tarde, os jornais, as revistas e as histórias em quadrinho, “o ato de ler passou a não se restringir apenas à decifração de letras, mas veio também incorporado, cada vez mais, às relações entre palavra e imagem, desenho e tamanho de tipos gráficos, texto e diagramação”. Ou seja, ler jornais e revistas não se resume à decifração das letras em sequência, mas ao engajamento com a linguagem jornalística, que é híbrida, aproveitando o espaço da página, Narrativas jornalísticas para leitores digitais2 a mistura de tipos gráficos e a combinação entre textos e imagens (SANTAELLA, 2019). Portanto, é possível dizer que há diferentes modos de ler. Santaella divide essa multiplicidade em quatro tipos de leitores: con- templativo, movente, imersivo e ubíquo. Nesta seção, serão apresentados os dois primeiros tipos, o leitor contemplativo e o leitor movente, os quais correspondem à transição da cultura livresca à modernidade da virada do século XX. Na seção seguinte, serão apresentados os leitores imersivo e ubíquo, ligados à cultura ubíqua das redes digitais. O leitor contemplativo Desde a Idade Média, a leitura nas bibliotecas era feita em silêncio. Com isso, houve uma grande mudança no processo de entendimento de um texto, pois a leitura passou a ser algo íntimo e pessoal. Sem o intermédio de um orador, a leitura dispensava as interferências externas e era feita apenas pelo mo- vimento dos olhos e o uso da ponta dos dedos para virar as páginas. Nesse cenário, nascia o leitor contemplativo (SANTAELLA, 2004). O leitor contemplativo é o leitor do texto impresso, e sua prática acompa- nha a história do códice. A prática silenciosa de leitura cria uma intimidade entre o leitor e o livro. Em virtude de ser uma atividade individual e solitária, essa leitura exige a reclusão para alcançar certo nível de atenção dirigida e concentração mental. Desse modo, esse tipo de leitor se isenta das situações da vida cotidiana para dedicar-se à leitura concentrada, que pode ser inter- rompida para tomar notas ou refletir. A partir dessa leitura dedicada, há a “oportunidade ímpar de penetrar nos sentimentos e ideias de outra pessoa” (SANTAELLA, 2019, p. 22–23). Por isso, o isolamento faz-se necessário para a absorção do conteúdo, e o leitor não tem pressa para terminar. A leitura contemplativa possibilitou aos leitores lerem mais e lerem textos mais complexos. O processo de atenção dirigida e reflexão pode ser realizado dezenas de vezes, até que o entendimento seja alcançado do modo alme- jado. Desse modo, é importante que os objetos de leitura sejam facilmente manuseáveis: livros, gravuras, mapas, partituras; ou seja, objetos imóveis, localizados no espaço e durantes no tempo, podendo ser revisitados conforme a vontade do leitor. “Embora a leitura de um livro seja sequencial, a solidez do objeto-livro permite idas e vindas, retornos, ressignificações” (SANTAELLA, 2019, p. 23). Além disso, da mesma maneira que contemplam textos e refletem sobre eles, os leitores contemplativos podem “ler” quadros em uma galeria, ou admirar a arquitetura ao seu redor. Narrativas jornalísticas para leitores digitais 3 Para muitos estudiosos da leitura, a invenção da imprensa, no século XV, criou mudanças consideráveis. Isso porque, além da aparência dos im- pressos, a sua produção em grandes quantidades e a distribuição rápida e fácil, houve uma diminuição do tempo mínimo para a difusão de ideias. Se, no início da Idade Média, o problema era a escassez de livros, no século XVI era o oposto. Em 1550, um escritor italiano fez uma queixa — que soa bastante contemporânea para nós, usuários das redes digitais — de que havia “tantos livros que não temos nem tempo de ler os títulos” (BRIGGS; BURKE, 2006, p. 27). As publicações se tornaram padronizadas, e a preservação do conhecimento acumulado — que, até então, havia sido muito fluida, pois se dava por manuscritos e pela oralidade — finalmente pôde ser estabelecida de forma confiável. A imprensa também possibilitou a divulgação de visões não compatíveis com as das autoridades eclesiásticas que detinham o monopólio do conheci- mento. Por isso, para alguns autores, como a historiadora Elizabeth Eisenstein, a Revolução Científica do século XVII e as Revoluções Francesa e Americana do século XVIII são consequências diretas da imprensa (EINSENSTEIN, 1980). O leitor movente Após a Revolução Industrial,surgiu o leitor movente. Esse leitor, criado junto ao cinema, à luz elétrica, ao telégrafo, aos jornais e às revistas, possuía outro ritmo de percepção e adaptou-se à aceleração dos centros urbanos. É um novo tipo de leitor, cuja atenção se torna oscilante, com distrações momentâneas e sensações velozes. Em meio ao burburinho dos centros urbanos, os textos luminosos dos estabelecimentos comerciais, os cartazes de propaganda, as placas de sinalização, as vitrines de lojas, os boulevards, os automóveis e as fachadas provocam estímulos visuais que exigem um novo regime de atenção do leitor. É um leitor que precisa navegar por esse mar de estímulos com rapidez, em um piscar de olhos. Portanto, o leitor movente é apres- sado e de linguagem efêmera, de memória curta e ágil, atento às novidades (SANTAELLA, 2019). Se o leitor do livro era um observador meditativo, sem urgências, o leitor urbano tem pressa. Para orientar-se nos grandes centros urbanos, inchados após as transformações tecnológicas, econômicas e sociais provocadas pela Revolução Industrial, é preciso atenção para ler rapidamente as setas, seguir as direções e avaliar a velocidade do movimento dos outros transeuntes e dos automóveis. Para isso, é preciso ler em movimento: “ler formas, volumes, Narrativas jornalísticas para leitores digitais4 massas, interações de forças, movimentos, [...] direções, traços, cores, luzes que se acendem e se apagam” (SANTAELLA, 2019, p. 23–24). Enquanto a cultura do livro tende a desenvolver um pensamento linear, analítico e sequencial, a exposição a conteúdos móveis (p. ex., as imagens audiovisuais do cinema) leva a um pensamento associativo, intuitivo e sintético (SANTAELLA, 2019). O movimento e a velocidade das cidades são replicados pelas câmeras nas imagens de cinema. A sensibilidade adapta-se às intensi- dades fugidias de estímulos efêmeros. Nesse cenário volátil, o ser humano moderno passa a se preocupar mais com a vivência do que com a memória (SANTAELLA, 2004). O passado cede lugar à necessidade de se adaptar ao estilo de vida frenético, o novo modo de vida imposto pelo mercado. Surge, então, a publicidade, que povoa a cidade de imagens em lojas, bazares, galerias, vitrines. Graças à reprodutibilidade técnica (BENJAMIN, 1990), inaugurada pelas técnicas de impressão e fotografia, o mundo é povoado por imagens fugidias e hipnotizantes do cotidiano. Assim, o ser humano vai adaptando o seu olhar ao cenário caótico de informações fugazes, uma instabilidade cognitiva que marca a modernidade por sua tensão nervosa, sua velocidade, sua efemeridade e seu imediatismo. Nesse contexto, surge um leitor fugaz, de memória curta, mas ágil, capaz de navegar com fluidez e sem tempo de reter muitas informações. O ritmo diário da imprensa é o seu: assim que as informações se tornam “velhas”, elas precisam ser esquecidas para que a atenção possa se dedicar aos novos estímulos. Desse modo, o leitor movente prepara a sensibilidade perceptiva para o surgimento de um novo tipo de leitor capaz de navegar os nós das redes informacionais da internet, o leitor imersivo. O leitor imersivo e o leitor ubíquo: a nova geração da leitura Graças à digitalização, qualquer tipo de signo pode ser armazenado, proces- sado e transmitido via computador. Com a telecomunicação e a informática, é possível que conteúdos cruzem o oceano e sejam difundidos por todo o globo, em uma rede gigantesca, com pontos de acesso variados. Esses con- teúdos estão a um toque de mouse de distância. À medida que a rede digital se torna cada vez mais presente no nosso dia a dia, multimídia (suporte) e hipermídia (linguagem) cruzam-se para criar dois novos tipos de leitores: o leitor imersivo e o leitor ubíquo. Narrativas jornalísticas para leitores digitais 5 O leitor imersivo Sempre em estado de prontidão, o leitor imersivo conecta-se em redes, seguindo caminhos multilineares que ele mesmo ajuda a construir por meio da interação com textos, imagens, documentos, músicas, entre outros. A leitura não tem mais ordem, ou pelo menos não uma única; pois entra-se por qualquer ponto nela, e é possível sair por qualquer outro. Para tanto, é preciso estar sempre em prontidão para receber novas informações. Na web, o texto se transforma em uma “tessitura informativa formada por um conjunto de blocos informativos ligados através de hiperligações (links), ou seja, num hipertexto” (CANAVILHAS, 2014, p. 4). O conceito de hipertexto foi criado em 1965 pelo pesquisador norte-americano Ted Nelson, em seu projeto Xanadu, que, por sua vez, era baseado no Memex, desenvolvido por Vannevar Bush. A proliferação de estímulos e de informações que assolavam o leitor movente provocou Bush a criar um dispositivo capaz de disponibi- lizar uma grande quantidade de informação de maneira rápida e eficiente, focando, sobretudo, nos pesquisadores universitários. A ideia de conexão entre assuntos mais ou menos similares inspirou Nelson a criar um conjunto de nós — palavras, páginas, imagens, gráficos, áudios, vídeos, documentos complexos — interligados por conexões. “Os itens de informação não são ligados linearmente, como em uma corda com nós, mas cada um deles, ou a maioria, estende suas conexões em estrela, de modo reticular” (LÉVY, 1993, p. 33). Nesse modelo reticular, cada nó pode conter uma rede inteira. Portanto, o hipertexto é “uma escrita não sequencial, um texto com várias opções de leitura que permite ao leitor efetuar uma escolha [...], uma série de blocos de texto ligados entre si por links, que formam diferentes itine- rários para os leitores” (CANAVILHAS, 2014, p. 4–6). Ou seja, um hipertexto é a junção de vários blocos informativos. Nos textos de internet, além de parágrafos, imagens e infográficos, esses blocos devem ter sentido entre si, já que a entrada no texto pode se dar por cada um deles. As hiperligações possuem duas funções: a) documental, quando funcionam como elementos de contextualização; b) narrativa, quando ofertam diferentes percursos de leitura (CANAVILHAS, 2014). O hipertexto é uma mudança significativa do modo linear de leitura e escrita de textos associado à cultura do livro, e vai além do modelo indus- trial de leitura, ao promover uma leitura que, virtualmente, não tem fim. O leitor passeia por várias dimensões de conteúdos pelos nós que os unem, saltando entre as conexões. Portanto, não se trata mais de um leitor que esbarra em signos materiais, como livros ou vitrines, mas sim de um leitor Narrativas jornalísticas para leitores digitais6 que navega na tela, programando suas leituras, em um universo evanescente de informações (SANTAELLA, 2004). Para tanto, é preciso que o leitor esteja em permanente estado de prontidão, seguindo o roteiro multilinear que ele mesmo ajudou a criar. Ao navegarmos no ciberespaço, estamos acionando “circuitos cerebrais diferentes daqueles que se desenvolvem quando lemos um livro” (SANTAELLA, 2019, p. 24). Lúcia Santaella chama esse tipo de leitor de “implodido”, pois a sua “sub- jetividade se mescla na hipersubjetividade de infinitos textos num grande caleidoscópio tridimensional onde cada novo nó e nexo pode conter uma outra grande rede numa outra dimensão” (SANTAELLA, 2004, p. 33). Esses nós fazem da internet uma máquina de encontro de pessoas e signos, mudando a forma de propagação da informação. Algo crucial para o leitor imersivo é a interatividade. Conforme Fragoso (2001, p. 83), a interatividade é um dos elementos principais “da redefinição das formas e processos psicológicos, cognitivos e culturais decorrentes da digitalização da comunicação”. Ainda que, no senso comum, a interatividade seja entendida como uma ação exercida mutuamente entre duas ou mais coisas, é preciso compreender que ela é mais um efeito da interface dos artefatos digitais do que uma propriedade única do meio. Ou seja, ela é a propriedade de plataformas específicas que permitem ao usuário desenvolver certas operações. Logo, a interatividadenão ocorre entre duas pessoas, mas sim entre o usuário e o produto. Por isso, diz-se que a interatividade é um efeito das narrativas, reforçando a atenção que os jornalistas precisam dar para criar histórias que sejam divertidas e interativas. O engenheiro e matemático norte-americano Vannevar Bush acre- ditava que o pensamento humano era organizado por “trilhas as- sociativas” que ligavam informações de maneira aleatória, e não sequencial. Pensando nisso, ele propôs o desenvolvimento do Memex — que nunca saiu do papel. O Memex deveria ser uma mesa de trabalho com telas de projeção, teclado, botões e alavancas. O conteúdo seria armazenado em microfilme e poderia ser recuperado rapidamente, já que era indexado por códigos mnemônicos. Para navegar entre as páginas do microfilme, o usuário pressionaria a alavanca para trás ou para a frente, e um botão o levaria à página inicial. Também existiria uma plaqueta de vidro, na qual o usuário poderia fazer anotações para que fossem microfilmadas e armazenadas junto ao microfilme. As “trilhas associativas” conectariam as informações umas às outras, criando um caminho mais ou menos navegável entre a grande quantidade de informações que seriam armazenadas. Embora o Memex nunca tenha sido construído, ele inspiraria o jovem pesquisador Ted Nelson a criar os hyperlinks vinte anos mais tarde. Narrativas jornalísticas para leitores digitais 7 O leitor ubíquo O leitor ubíquo nasce do cruzamento entre o leitor movente e o leitor imersivo. É um leitor sempre atento, equilibrando-se entre o espaço físico e o espaço informacional. As presenças física e informacional "reinventam o corpo, a arquitetura, o uso do espaço urbano e as relações complexas nas formas de habitar" (SANTAELLA, 2019, p. 25), com repercussões em toda a sociedade, do entretenimento ao aprendizado. O leitor ubíquo herda do movente a habilidade de transitar em um ambiente com vários estímulos sensoriais: luzes que se acendem e se apagam, volumes, massas, formas, movimentos, direções. O seu organismo é treinado para a aceleração e o nomadismo dos carros e das pessoas que circulam em alta velocidade na cidade. Ao mesmo tempo que perambula pelos espaços físicos — casa, trabalho, ruas, parques, escolas —, lendo os signos desses espaços, o leitor ubíquo, além de movente, também é imersivo, entrando nos espaços virtuais sem alterar a sua marcha. Ao toque dos dedos no celular, a qualquer momento, ele entra no ciberespaço, conversa com pessoas que podem estar a continentes de distância ou a poucos metros dele. Portanto, o que caracteriza o leitor ubíquo “é uma prontidão cognitiva ímpar para orientar-se entre nós e nexos multimídia, sem perder o controle da sua presença e do seu entorno no espaço físico em que está situado” (SANTAELLA, 2019, p. 25). Santaella (2013) chama esse deslocamento no espaço físico conectado ao ciberespaço de hipermobilidade. A hipermobilidade, por meio do uso das tecnologias digitais móveis, transforma as pessoas em seres ubíquos, passíveis de serem encontrados a qualquer momento, em qualquer lugar. Essas pessoas apresentam uma forte dualidade entre presente e ausente, o que pode ter impacto nas suas relações pessoais e mesmo computacionais; por exemplo, pessoas que, em um encontro no bar com os amigos, não largam as telas de seus celulares. Com a popularização de wearables e a eminência de adoção em larga escala da tecnologia 5G, a chamada Internet das Coisas (IoT, Internet of Things) deverá popularizar essa navegação ubíqua. Por exemplo, em breve, será possível receber publicidade direcionada em vitrines eletrônicas assim que você passar na frente delas — o que coloca vários questionamentos importantes sobre a privacidade. Narrativas jornalísticas para leitores digitais8 Essas são mudanças cruciais para a leitura. A própria literatura é agora “expandida”, caracterizada pelo hibridismo de linguagens, a interatividade entre o leitor e o conteúdo e a convergência para dispositivos móveis (SAN- TAELLA, 2013). Assim, faz-se necessário pensar digitalmente e criar tipos de conteúdo adaptados a essa leitura dispersa, mas, ao mesmo tempo, potente. É importante ressaltar que os quatro tipos de leitor — contemplativo, movente, imersivo e ubíquo — não são excludentes, tampouco substituem uns aos outros. Cada um deles desenvolve perfil cognitivo distinto, o que faz deles complementares. Os leitores contemplativos e moventes continuam existindo. Contudo, embora os quatro tipos de leitores coexistam, é notável que a aceleração das transformações digitais das últimas décadas tem pendido a balança para o quarto tipo de leitor, o ubíquo. É com esse perfil em vista que novas experiências narrativas têm sido criadas. Lendo os novos conteúdos digitais Em 2016, a executiva Nicola Mendelsohn, vice-presidente do Facebook na Europa, no Oriente Médio e na África, previu que o site de rede social seria composto principalmente de vídeos no início da década de 2020. Além disso, seria um site cada vez mais móvel. Para ela, a aceitação de vídeos tem a ver com a quantidade de estímulos aos quais as pessoas estão expostas dia- riamente. Logo, “A melhor forma de contar histórias neste mundo — no qual tanta informação chega até nós — é o vídeo, que ordena essa informação num período muito mais rápido” (ZILLMAN, 2016, documento on-line). Como visto, se o leitor movente aprendeu a se mover no espaço físico prestando atenção aos estímulos que recebia de diversas fontes, o leitor ubíquo precisa navegar nesse ambiente físico e no digital ao mesmo tempo. Em meio a essa hiperestimulação, as mídias precisam criar estratégias para chamar a atenção do seu público. No contexto que estamos estudando, a leitura não se limita à decifração de estruturas lineares de caracteres, pois abrange a gama de signos com os quais interagimos diariamente. Mantendo essa definição e considerando a previsão de Mendelsohn, pode-se perceber como a nossa cultura contem- porânea tem se voltado para o desenvolvimento de narrativas imagéticas e audiovisuais. Por exemplo, uma das plataformas digitais mais populares Narrativas jornalísticas para leitores digitais 9 de 2019 foi o TikTok, mídia social chinesa que permite criar e compartilhar vídeos de até 60 segundos. Essa rede social é o principal destino para vídeos móveis curtos, cuja principal característica é a criatividade inteligente. A rede prioriza conteúdos criativos, simples e alegres, como esquetes de humor ou dublagens de músicas, filmes e séries. Por isso, o TikTok tem sido utilizado sobretudo por jovens: segundo a própria empresa, 66% de seus usuários têm menos de 30 anos. Além disso, ele possui uma diversidade de efeitos visuais que podem ser inseridos nos vídeos pelos usuários. Outra novidade é o uso de inteligência artificial para organizar a “linha do tempo” do usuário, mostrando conteúdos mais compatíveis com o seu estilo de navegação. Apesar do caráter interativo da web, muitos dos canais de notícias on-line continuam com textos estáticos, nos quais a única interação possível é por meio de hipertexto (links) e alguns gráficos ou vídeos inseridos dentro do documento. Uma alternativa a esse formato estático é o aplicativo Wibbitz, que colhe automaticamente os principais fatos dos artigos e os apre- senta em vídeo, com narração, gráficos e imagens. Os vídeos, que têm no máximo dois minutos de duração, explicam os pontos-chave dos textos, como pessoas, datas, lugares, entre outros. Eles são narrados por um leitor digital, com uma voz bastante natural. O mote da empresa é que, com o Wibbitz, o usuário pode se atualizar sobre as notícias on the go, sem precisar ler textos longos no celular. Isso reforça a afirmação de que o leitor ubíquo é hiperestimulado pelo mundo físico e pelo digital, e não tem “tempo a perder” com leituras contemplativas, uma mudança radical desde a invenção da prensa de Gutenberg. As características do TikTok (Figura 1) são exemplares daquilo que é chamadode cultura do remix (KRAPP; FISCHER, 2020). A partir de fragmentos de mídias facilmente acessíveis e operando por meio de montagem, arranjos efêmeros de tempos e espaços são criados a partir do compartilhamento e da veiculação de conteúdo. Esse é um tipo de conteúdo talhado para as pessoas mais jovens, que já não estão mais acostumadas à TV a cabo, pois preferem consumir mídia audiovisual em tablets, smartphones ou laptops. Em virtude da grande adesão, agências de publicidade digital têm investido no desenvolvimento de conteúdos para o TikTok, participando de “desafios”, usando hashtags e patrocinando influenciadores, tudo para se aproximar dos novos leitores ubíquos. Conforme Krapp e Fischer (2020), a popularidade do remix nas redes digitais é um desafio à compreensão comum do que é um autor e seus direitos autorais. Muitos desses remixes, como os vídeos do TikTok, são aquilo que Jenkins, Green e Ford (2014) chamam de mídia propagável, isto é, conteúdos de mídia que as pessoas se sentem compelidas a compartilhar com seus amigos e suas redes, difundido o conteúdo bem mais longe do que os criadores intentavam. Narrativas jornalísticas para leitores digitais10 Figura 1. Algumas das principais características do TikTok, bastante utilizado pelos jovens, são um feed personalizado e a facilidade no uso de filtros. Fonte: Ferguson (2019, documento on-line). Outro exemplo interessante é o Instagram, rede de compartilhamento de imagens e vídeos, que foi comprada pelo Facebook em 2012 e, desde então, tem se mostrado uma das favoritas entre os usuários, sendo uma das redes sociais mais populares do mundo. Entre as suas funcionalidades estão os stories, que permitem aos usuários produzir publicações efêmeras, com duração de até 15 segundos cada, que ficam disponíveis aos outros usuários por apenas 24 horas. A função foi lançada em 2016 como concorrência a outra plataforma baseada em vídeos curtos, o Snapchat. O Instagram Stories fornece aos usuários a possibilidade de adicionar aos vídeos e fotos filtros, efeitos, gifs animados e tags de geolocalização. O jornalismo tem explorado essas experiências digitais visuais para criar narrativas que interessem a esses leitores hiperestimulados. Por exemplo, há experimentos que utilizam o Instagram para distribuir conteúdo jorna- lístico. A duração efêmera dos stories faz os conteúdos jornalísticos nessa plataforma serem curtos, agregando informações complementares que podem ser acessadas por meio de um hyperlink. No Brasil, O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo e O Globo são exemplos de jornais tradicionais que têm investido em produtos específicos para o Instagram. O Sextou, do O Globo, é uma espécie de “telejornal” com drops das principais notícias da semana, com uma linguagem descontraída e jovial. Narrativas jornalísticas para leitores digitais 11 Já no YouTube, uma plataforma interativa de compartilhamento de vídeos criada em 2005, o usuário pode criar, compartilhar e assistir a vídeos. Assim como um aparelho televisivo, a plataforma apresenta canais com temas diversificados, e o usuário pode “mudar de canal” com apenas um clique, a fim de escolher o assunto desejado. Qualquer pessoa — seja um indivíduo, uma empresa ou órgão de um governo — pode compartilhar conteúdo na plataforma. Entre os diversos usuários que publicam material em seu canal do YouTube de maneira periódica, alguns se destacam por seu conteúdo e pela quantidade de seguidores, podendo viver da renda de seu trabalho digital. Esses são os youtubers se levadas em consideração as outras plataformas. Esse potencial de influência é maior sobre crianças e adolescentes, mas não é exclusivo a estes. Inspirados pelos ídolos virtuais, os influenciados imitam sinais, piadas e até a maneira de se comunicar daqueles que consideram interessantes, que podem ser desde uma influencer infantil até um guru político. Os influen- cers se tornam referência em dado assunto, seja por meio de suas opiniões, ou por suas ações e estilo de vida, direcionando o seu público em termos de consumo e de comportamento. Hoje, eles são uma fonte valiosa para as marcas. Além de criarem material original, os influencers desempenham a importante função de organizar a quantidade gigantesca de informações disponíveis on-line, servindo de guia para que os usuários possam navegar na miríade de conteúdo. Uma característica central para o leitor ubíquo é a possibilidade de criar comunidades sobre os seus interesses. Uma plataforma que trabalha de maneira interessante a ligação entre leitura contemplativa, interatividade e ubiquidade é o Skoob, uma rede social em que os participantes podem partilhar as suas leituras com outros usuários (Figura 2). Embora os livros não sejam lidos diretamente nessa plataforma, o Skoob transforma a leitura em uma atividade altamente social, pois é possível que os usuários apontem os livros lidos ou abandonados, indiquem obras que lhes agradou ou desagra- dou, escrevam resenhas, postem comentários, interajam com outros leitores, expressem suas preferências por determinados autores, citem fragmentos de obras, troquem livros físicos, entre outras possibilidades. Narrativas jornalísticas para leitores digitais12 Figura 2. O Skoob é uma comunidade virtual de leitores, na qual os usuários/leitores podem trocar impressões sobre histórias e personagens, envolver-se em debates com a comunidade e forjar novas amizades. Como visto, o leitor ubíquo está sempre em busca de estímulo — ou seja, ele é um sujeito distraído. Uma característica atual do consumo televisivo, por exemplo, é o uso da chamada “segunda tela” — smartphones, tablets, laptops com conexão com a internet, utilizados de forma simultânea à programação de televisão. Por meio desses dispositivos, os espectadores acrescentam algo ao processo de significação da experiência de assistir à televisão, ora de maneira espontânea (p. ex., comentando livremente nas redes sociais ou buscando informações na internet sobre o que se está assistindo), ora com estímulo da emissora. Sabendo desse costume cada vez mais popular entre os telespectadores, as emissoras têm incentivado explicitamente o uso da segunda tela. Esse incentivo pode ocorrer de duas maneiras (MÉDOLA; SILVA, 2015): incitando o espectador a desenvolver algumas atividades; ou Narrativas jornalísticas para leitores digitais 13 conduzindo-o por conteúdos simultâneos, disponibilizados para acesso em sites ou aplicativos de dispositivos móveis. O uso de hashtags para que os espectadores possam acrescentar algo ao texto da teletransmissão e interagir com outros espectadores é um exemplo claro da tentativa das emissoras de se aproveitarem da atenção dispersa do leitor ubíquo. Aplicativos como o do The Voice Brasil, da Rede Globo, ou o ESPN Sync, da ESPN, incentivam o uso da segunda tela ao promoverem elementos interativos, como quizzes, envio de perguntas para os apresentadores, enquetes e exibição de comentários dos telespectadores (MÉDOLA; SILVA, 2015). Um exemplo interesse do uso de segunda tela é a exibição de mensagens dos telespectadores durante a transmissão de um programa televisivo. A exi- bição dessas mensagens não é espontânea, pois depende de um chamamento da televisão, ao qual os telespectadores respondem em suas segundas telas. Isso desfaz a lógica que separa os emissores dos espectadores, apontando, também, para uma espécie de interatividade mais próxima entre esses dois polos. Para a mensagem aparecer na tela, há um longo percurso, que pode ser dividido em: convocação; anúncio dos canais; comunicação de regras de procedimento; atuação do público; uso dos conteúdos (VASCONCELOS; FECHINE, 2020). Em suma, a convocação é quando os profissionais do estúdio incentivam o público a participar, apontando por onde essa comunicação será bem-vinda (anúncio dos canais). A explicação do padrão das mensagens esperados é a “comunicação das regras de procedimento”. Após esses avisos, o público participae, então, o conteúdo é utilizado na teletransmissão. O procedi- mento mais comum é a leitura ao vivo das mensagens pelos apresentadores ou jornalistas. Outro modo de uso corriqueiro é a publicação no gerador de caracteres, no rodapé da tela. Esse uso “é uma recompensa ao empenho de quem aceitou o contrato, mobilizou-se, cumpriu as regras necessárias e decidiu se envolver” (VASCONCELOS; FECHINE, 2020, p. 125). Todos esses exemplos se encaixam naquilo que Santaella (2019) chama de leitor ubíquo, embora os suportes sejam mais audiovisuais e menos textuais. Como visto, o leitor ubíquo é caracterizado pela prontidão cognitiva, sendo capaz de orientar-se nos espaços híbridos físicos e virtuais sem perder o con- trole do seu entorno. Assim como o leitor imersivo, está sempre em prontidão para conferir as últimas novidades e seguir por caminhos multilineares pelas redes. Essas são características que os jornalistas precisam explorar para conquistar esse leitor que está sempre escapando pelos poros das redes. Narrativas jornalísticas para leitores digitais14 De forma mais ampla, no jornalismo, reportagens hipermidiáticas (i.e., reportagens que combinam hipertexto a multimídia e multi- linguagens) têm demonstrado a vontade dos jornalistas de explorarem novas possibilidades narrativas (SANTAELLA, 2004). Um exemplo brasileiro bastante interessante é a série de reportagens TAB, do portal brasileiro UOL. Essas repor- tagens inovam ao trazerem recursos narrativos além do texto, como infográficos animados, testes e newsgames. O design dessa plataforma é pensado para cada um dos temas abordados, ligando o design das páginas e a tipografia ao conteúdo — algo que o leitor movente já estava acostumado. Em um primeiro momento, o portal investia na programação de designs específicos para cada matéria. Contudo, como esse modelo se mostrou custoso, os designs foram passados para templates, com locais predeterminados para a inserção de fotos, vídeos, textos, entre outros. Essa modularização facilitou a migração de conteúdo para as plataformas móveis, nas quais o portal segue investindo até hoje. Referências BENJAMIN, W. A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica. In: LIMA, L. C. (org.). Teoria da cultura de massa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990. p. 209–240. BRIGGS, A.; BURKE, P. Uma história social da mídia: de Gutenberg à Internet. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2006. 376 p. CANAVILHAS, J. Hipertextualidade: novas arquiteturas noticiosas. In: CANAVILHAS, J. (org.). Webjornalismo: 7 caraterísticas que marcam a diferença. Covilhã: Livros LabCom, 2014, p. 3–24. Disponível em: http://labcom.ubi.pt/livro/121. Acesso em: 13 nov. 2020. CHARTIER, R. A aventura do livro: do leitor ao navegador. São Paulo: Unesp, 1998. 159 p. (Coleção Prismas). EISENSTEIN, E. L. The printing press as an agent of change: communications and cul- tural transformations in early-modern Europe: volumes I and II. New York: Cambridge University Press, 1980. 794 p. 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No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. Narrativas jornalísticas para leitores digitais16