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F A C U L D A D E S F A C E T E N 
 
1 
 
 
DIREITO DA CRIANÇA E DO 
ADOLESCENTE 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Rafael Penela Ribeiro 
 
DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 
2 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 
 
 
 
 
 
Prof. Me. Rafael Penela Ribeiro 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
BOA VISTA 
2019 
 
 
F A C U L D A D E S F A C E T E N 
 
3 
 
DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 
FACETEN 
1.ª Edição, 2019 
 
Autor: Rafael Penela Ribeiro 
 
Faculdade de Ciências, Educação e Teologia do Norte do Brasil 
Av: Bandeirantes, 900, Pricumã 
69309-100 Boa Vista/RR 
Tel: (95) 3625-5477 
www.faceten.edu.br 
E-mail: isef.faceten@gmail.com 
 
©Todos os direitos reservados. 
É proibida a reprodução total ou parcial, por qualquer meio, sem 
autorização por escrito da Faceten 
FICHA CATALOGRÁFICA 
CIP-Brasil. Catalogação na fonte 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
FICHA CATALOGRÁFICA: BIBLIOTECA DA FACETEN 
Bibliotecária responsável: Ângela Marcela Almeida Marciel. CRB/11-515 
 
 
RIBEIRO, Rafael Penela. 
 
Direito da Criança e do Adolescente. Boa Vista: Editora FACETEN, 
2019, p. 81. 
 
1. História do Direito Infantojuvenil. 2. Doutrina da Proteção 
Integral. 3. Direitos Fundamentais da Criança e do 
Adolescente. 4. Princípios do Direito da Criança e do 
Adolescente. 5. Rede de Proteção e Política de Atendimento. 6. 
Menoridade, Responsabilidade Penal, Atos Infracionais e 
Medidas Socioeducativas. 7. A Justiça da Infância e da 
Juventude. 
I. Titulo. II. Faculdade de Ciências, Educação e Teologia do 
Norte do Brasil. 
CDU - 301 
 
http://www.faceten.edu.br/
mailto:isef.faceten@gmail.com
DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 
4 
 
SUMÁRIO 
 
INTRODUÇÃO ........................................................................ 5 
1. HITÓRIA DO DIREITO INFANTOJUVENIL ............... 6 
2. DOUTRINA DA PROTEÇÃO INTEGRAL ................. 34 
3. DIREITOS FUNDAMENTAIS DA CRIANÇA E DO 
ADOLESCENTE ................................................................... 40 
3.1. Direito Fundamental à Vida e à Saúde .............. 42 
3.2. Direito Fundamental à Liberdade, ao Respeito e 
à Dignidade ....................................................................... 43 
3.3. Direito Fundamental à Convivência Familiar e 
Comunitária ....................................................................... 46 
3.4. Direito Fundamental à Educação, à Cultura, ao 
Esporte e ao Lazer ........................................................... 47 
3.5. Direito Fundamental à Profissionalização e à 
Proteção no Trabalho ...................................................... 49 
4. PRINCÍPIOS DO DIREITO DA CRIANÇA E DO 
ADOLESCENTE ................................................................... 50 
4.1. Princípio da Prioridade Absoluta ......................... 51 
4.2. Princípio do Melhor Interesse da Criança ......... 53 
4.3. Princípio da Municipalização ............................... 57 
5. REDE DE PROTEÇÃO E POLÍTICA DE 
ATENDIMENTO .................................................................... 59 
6. MENORIDADE, RESPONSABILIDADE PENAL, 
ATOS INFRACIONAIS E MEDIDAS 
SOCIOEDUCATIVAS ........................................................... 63 
7. A JUSTIÇA DA INFÂNCIA E DA JUVENTUDE ....... 67 
REFERÊNCIAS .................................................................... 73 
F A C U L D A D E S F A C E T E N 
 
5 
 
 
INTRODUÇÃO 
 
O que se pretende aqui é fornecer ao discente 
um material de apoio para seus estudos sobre a 
disciplina de Direitos da Criança e 
do Adolescente, para que possa 
conhecer, de forma sucinta, os 
principais antecedentes históricos, 
alguns conceitos e princípios 
fundamentais utilizados pelo ordenamento jurídico 
nacional e internacional, bem como, o sistema brasileiro 
de proteção dos direitos de crianças e adolescentes. 
Trata-se de uma disciplina em constante 
evolução e que, portanto, requer atualização periódica de 
todos os profissionais que se dedicam ao seu estudo, 
bem como daqueles que trabalham direta ou 
indiretamente com o público infantojuvenil. 
Para uma compreensão mais profunda do tema, 
recomenda-se a leitura integral dos instrumentos 
normativos nacionais e internacionais mencionados aqui 
e nas aulas, bem como a consulta à bibliografia básica e 
complementar da disciplina. 
DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 
6 
 
1. HITÓRIA DO DIREITO INFANTOJUVENIL 
 
No período denominado Antiguidade Clássica 
(4000 a. C. até 476 d. C.) as civilizações grega e romana 
adotavam o sistema patriarcal para a organização da 
família e da sociedade. Através de um instituto do direito 
civil romano chamado patria potestas, o império 
delegava poder e autoridade única e exclusivamente ao 
pai de família (pater familias). O termo pater diz respeito 
a um território comandado por um patriarca, daí deriva a 
palavra pátria. 
Nesse modelo de sociedade, o pai de família era 
considerado proprietário de todos os bens: filhos, 
esposa, escravos, animais, terras etc. Desta forma, cabia 
a ele, no exercício de sua autoridade maior, decidir sobre 
a vida ou morte de qualquer dos seus descendentes, 
conforme seu juízo de conveniência e oportunidade. 
Os filhos, mesmo que fossem adultos, não 
podiam fazer qualquer negócio jurídico em nome próprio, 
apenas o pai tinha capacidade jurídica para comprar, 
vender e celebrar quaisquer contratos válidos. Os 
descendentes não tinham liberdade sequer para casar 
sem a aprovação do pai. 
F A C U L D A D E S F A C E T E N 
 
7 
 
Abandonar os filhos ao relento é uma prática que 
infelizmente acompanha a humanidade desde tempos 
imemoriais. O próprio infanticídio era uma prática 
comum: bebês não desejados ou nascidos com qualquer 
deficiência eram afogados ou atirados em um poço1 ou 
desfiladeiro, como uma coisa descartável, uma vez que 
eram considerados um peso para a sociedade. Crianças 
ricas ou pobres, como já mencionado, eram bens, 
objetos e, assim, não tinham dignidade. 
A chamada Lei das XII Tábuas2, de 450 a. C., 
considerada uma das primeiras legislações escritas e 
origem do Direito Romano, previa, em sua Tábua IV, o 
chamado pátrio poder. Tal norma assegurava ao pai a 
 
1 Alguns anos atrás foi noticiada a descoberta dos restos mortais de 
centenas de bebês em Atenas, vide: KAPA, Raphael. Descoberta de 
450 bebês em um poço de Atenas evidencia concepção da infância 
na Grécia Antiga. O GLOBO, Rio de Janeiro, 20/06/2015. Disponível 
em: https://oglobo.globo.com/sociedade/historia/descoberta-de-450-
bebes-em-um-poco-de-atenas-evidencia-concepcao-da-infancia-na-
grecia-antiga-16503923. Acesso em: 20/11/2019. 
2 Lei das XII Tábuas, Tábua IV, que cuida “Do pátrio poder e do 
casamento” assevera: “l. É permitido ao pai matar o filho que nasceu 
disforme, mediante o julgamento de cinco vizinhos. 2. O pai terá 
sobre os filhos nascidos de casamento legítimo o direito de vida e de 
morte e o poder de vendê-los. 3. Se o pai vender o filho três vezes, 
que esse filho não recaia mais sob o poder paterno. 4. Se um filho 
póstumo nascer até o décimo mês após a dissolução do matrimônio, 
que esse filho seja reputado legítimo”. Disponível em: 
http://www.dhnet.org.br/direitos/anthist/12tab.htm. Acesso em: 
21/11/2019. 
https://oglobo.globo.com/sociedade/historia/descoberta-de-450-bebes-em-um-poco-de-atenas-evidencia-concepcao-da-infancia-na-grecia-antiga-16503923
https://oglobo.globo.com/sociedade/historia/descoberta-de-450-bebes-em-um-poco-de-atenas-evidencia-concepcao-da-infancia-na-grecia-antiga-16503923
https://oglobo.globo.com/sociedade/historia/descoberta-de-450-bebes-em-um-poco-de-atenas-evidencia-concepcao-da-infancia-na-grecia-antiga-16503923
http://www.dhnet.org.br/direitos/anthist/12tab.htm
DIREITO DA CRIANÇAoutros que44: 
Art. 3º, §1º Todas as ações relativas às 
crianças, levadas a efeito por instituições 
públicas ou privadas de bem estar social, 
tribunais, autoridades administrativas ou 
órgãos legislativos, devem considerar, 
primordialmente, o interesse maior da 
criança. 
(...) 
Art. 9º, §1º Os Estados Partes deverão 
zelar para que a criança não seja separada 
dos pais contra a vontade dos mesmos, 
exceto quando, sujeita à revisão judicial, as 
autoridades competentes determinarem, 
em conformidade com a lei e os 
procedimentos legais cabíveis, que tal 
separação é necessária ao interesse 
maior da criança. Tal determinação pode 
ser necessária em casos específicos, por 
exemplo, nos casos em que a criança 
 
44 Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1990-
1994/D99710.htm. Acesso em: 13/12/2019. 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1990-1994/D99710.htm
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1990-1994/D99710.htm
F A C U L D A D E S F A C E T E N 
 
55 
 
sofre maus tratos ou descuido por parte de 
seus pais ou quando estes vivem 
separados e uma decisão deve ser tomada 
a respeito do local da residência da 
criança. 
§ 2º Caso seja adotado qualquer 
procedimento em conformidade com o 
estipulado no parágrafo 1 do presente 
artigo, todas as partes interessadas terão a 
oportunidade de participar e de manifestar 
suas opiniões. 
§ 3º Os Estados Partes respeitarão o 
direito da criança que esteja separada de 
um ou de ambos os pais de manter 
regularmente relações pessoais e contato 
direto com ambos, a menos que isso seja 
contrário ao interesse maior da criança. 
(...) 
Art. 18, § 1º Os Estados Partes envidarão 
os seus melhores esforços a fim de 
assegurar o reconhecimento do princípio 
de que ambos os pais têm obrigações 
comuns com relação à educação e ao 
desenvolvimento da criança. Caberá aos 
pais ou, quando for o caso, aos 
representantes legais, a responsabilidade 
primordial pela educação e pelo 
desenvolvimento da criança. Sua 
preocupação fundamental visará ao 
interesse maior da criança. 
(...) 
Art. 20, § 1º As crianças privadas 
temporária ou permanentemente do seu 
meio familiar, ou cujo interesse maior 
exija que não permaneçam nesse meio, 
terão direito à proteção e assistência 
especiais do Estado. 
(...) 
Art. 21 Os Estados Partes que reconhecem 
ou permitem o sistema de adoção 
atentarão para o fato de que a 
DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 
56 
 
consideração primordial seja o interesse 
maior da criança. 
(...) 
Art. 37 Os Estados Partes zelarão para 
que: (...) c) toda criança privada da 
liberdade seja tratada com a humanidade e 
o respeito que merece a dignidade 
inerente à pessoa humana, e levando-se 
em consideração as necessidades de uma 
pessoa de sua idade. Em especial, toda 
criança privada de sua liberdade ficará 
separada dos adultos, a não ser que tal 
fato seja considerado contrário aos 
melhores interesses da criança, e terá 
direito a manter contato com sua família 
por meio de correspondência ou de visitas, 
salvo em circunstâncias excepcionais; 
(...) 
Art. 40, § 1º Os Estados Partes 
reconhecem o direito de toda criança a 
quem se alegue ter infringido as leis penais 
ou a quem se acuse ou declare culpada de 
ter infringido as leis penais de ser tratada 
de modo a promover e estimular seu 
sentido de dignidade e de valor e a 
fortalecer o respeito da criança pelos 
direitos humanos e pelas liberdades 
fundamentais de terceiros, levando em 
consideração a idade da criança e a 
importância de se estimular sua 
reintegração e seu desempenho 
construtivo na sociedade. 
§ 2º Nesse sentido, e de acordo com as 
disposições pertinentes dos instrumentos 
internacionais, os Estados Partes 
assegurarão, em particular: 
(...) 
b) que toda criança de quem se alegue ter 
infringido as leis penais ou a quem se 
acuse de ter infringido essas leis goze, 
pelo menos, das seguintes garantias: 
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57 
 
(...) 
III) ter a causa decidida sem demora por 
autoridade ou órgão judicial competente, 
independente e imparcial, em audiência 
justa conforme a lei, com assistência 
jurídica ou outra assistência e, a não ser 
que seja considerado contrário aos 
melhores interesses da criança, levando 
em consideração especialmente sua idade 
ou situação e a de seus pais ou 
representantes legais; 
De acordo com o princípio do melhor interesse, 
sempre que houver conflito ou divergência a respeito de 
direito ou garantia de crianças e adolescentes, deverá 
prevalecer o interesse infantojuvenil. Em qualquer 
processo ou procedimento jurídico ou administrativo que 
envolva direitos das pessoas em desenvolvimento, o 
objetivo primordial é assegurar o melhor interesse da 
criança e do adolescente. 
Tanto a família (pais, tios, avós etc.), quanto a 
sociedade (pessoas naturais e pessoas jurídicas) e o 
Estado (legisladores, juízes, promotores, delegados e 
demais autoridades), devem orientar suas decisões pelo 
melhor interesse da criança. 
4.3. Princípio da Municipalização 
De acordo com o art. 204, I da CRFB/88, as 
ações governamentais na área da assistência social 
DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 
58 
 
devem ser organizadas com base na diretriz da 
“descentralização político-administrativa, cabendo a 
coordenação e as normas gerais à esfera federal e a 
coordenação e a execução dos respectivos programas 
às esferas estadual e municipal, bem como a entidades 
beneficentes e de assistência social”. 
Já o art. 227, § 7º da CRFB/88 determina que 
“no atendimento dos direitos da criança e do adolescente 
levar-se-á em consideração o disposto no art. 204”, ou 
seja, desconcentra e democratiza poderes e 
responsabilidades com vistas a facilitar a concretização 
dos direitos infantojuvenis. 
Complementando a Constituição, o ECA 
expressamente determina que a municipalização do 
atendimento é uma das diretrizes da política de 
atendimento, ao lado da criação de conselhos municipais 
dos direitos da criança e da criação e manutenção de 
programas específicos de atendimento que observem a 
descentralização político-administrativa (art. 88, I, II, III). 
O princípio da municipalização busca dar maior 
eficiência e eficácia à aplicação da legislação referente 
aos direitos da criança e do adolescente, uma vez que as 
F A C U L D A D E S F A C E T E N 
 
59 
 
pessoas vivem e trabalham nas cidades, não nos 
estados ou na União. 
Todavia, é preciso ressaltar que as três esferas 
de governo (municípios, estados e União) possuem 
responsabilidade primária e solidária quanto à plena 
efetivação dos direitos assegurados a crianças e a 
adolescentes previstos pelo ordenamento jurídico 
brasileiro, “sem prejuízo da municipalização do 
atendimento e da possibilidade da execução de 
programas por entidades não governamentais” (art. 100, 
p. u., III). 
5. REDE DE PROTEÇÃO E POLÍTICA DE 
ATENDIMENTO 
 
A chamada Rede de Proteção é “composta por 
um conjunto de atores e instituições cujo objetivo é zelar 
pela proteção das crianças e dos adolescentes, e em um 
esquema de responsabilidades civis, penais e 
administrativas que podem ser acionadas em vista da 
garantia do cumprimento dessas normas”45. 
 
45 JEREZ, Daniela et al. O direito à proteção integral das crianças e 
dos adolescentes no contexto de grandes empreendimentos: papéis 
e responsabilidades das empresas. Grupo de Direitos Humanos e 
Empresas (GDHeE), 2013, p. 2. 
DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 
60 
 
Para prevenir ameaças e violações aos direitos 
de crianças e adolescentes existe um sistema de 
garantias fundado três diretrizes46: 
 Promoção dos direitos da criança e do 
adolescente; 
 Proteção e defesa dos direitos da 
criança e do adolescente; 
 E a participação e controle social. 
As três diretrizes acima devem orientar o 
trabalho dos membros deste sistemade garantias: as 
Polícias, os Juízes da Infância e da Juventude, a 
Defensoria Pública, o Ministério Público, os Conselhos 
Tutelares e de Direitos, além da família, das ONGs e da 
sociedade como um todo, que integram a denominada 
Rede de Proteção47. 
As Políticas de Atendimento podem ser 
compreendidas como “o conjunto de instituições, 
princípios, regras, objetivos e metas que dirigem a 
elaboração de planos destinados à tutela dos direitos da 
população infantojuvenil, permitindo, dessa forma, a 
 
46 JEREZ, Daniela et al. Idem, p. 7. 
47 Idem, ibidem. 
F A C U L D A D E S F A C E T E N 
 
61 
 
materialização do que é determinado, idealmente, pela 
ordem jurídica”48. 
O ECA determina, em seu art. 86 que a “política 
de atendimento dos direitos da criança e do adolescente 
far-se-á através de um conjunto articulado de ações 
governamentais e não-governamentais, da União, dos 
estados, do Distrito Federal e dos municípios”. 
Elas podem ser divididas em três níveis 
sequenciais49: 
 Políticas básicas: sistema de 
prevenção primário, cuida das políticas 
públicas sobre direitos e garantias 
fundamentais como a vida e saúde, 
além dos demais previstos pelo art. 4º 
do ECA50; 
 
48 MACIEL, Kátia Regina Ferreira Lobo Andrade. Curso de Direito da 
Criança e do Adolescente. Editora Saraiva, 2018, p. 340. 
49 SARAIVA, João Batista Costa. O Adolescente em Conflito com a 
Lei e sua Responsabilidade: Nem abolicionismo penal, nem direito 
penal máximo. Revista Brasileira de Ciências Criminais, v. 12, 2006. 
50 Lei Nº 8.069/90, Art. 4º: “É dever da família, da comunidade, da 
sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta 
prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à 
alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, 
à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência 
familiar e comunitária”. 
DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 
62 
 
 Políticas de proteção: sistema de 
prevenção secundário previsto pelo 
Título II do ECA (arts. 98 e 101)51 
destinado a prevenir ou reparar direitos 
ameaçados ou violados; 
 Políticas socioeducativas: sistema 
terciário que entra em operação quando 
o adolescente pratica ato infracional 
(art. 103) que pode levar à aplicação de 
medida socioeducativa (art. 112)52. 
 
51 Idem, Art. 98: “As medidas de proteção à criança e ao adolescente 
são aplicáveis sempre que os direitos reconhecidos nesta Lei forem 
ameaçados ou violados: I - por ação ou omissão da sociedade ou do 
Estado; II - por falta, omissão ou abuso dos pais ou responsável; III - 
em razão de sua conduta”. E Art. 101: “Verificada qualquer das 
hipóteses previstas no art. 98, a autoridade competente poderá 
determinar, dentre outras, as seguintes medidas: I - 
encaminhamento aos pais ou responsável, mediante termo de 
responsabilidade; II - orientação, apoio e acompanhamento 
temporários; III - matrícula e freqüência obrigatórias em 
estabelecimento oficial de ensino fundamental; IV - inclusão em 
serviços e programas oficiais ou comunitários de proteção, apoio e 
promoção da família, da criança e do adolescente; V - requisição de 
tratamento médico, psicológico ou psiquiátrico, em regime hospitalar 
ou ambulatorial; VI - inclusão em programa oficial ou comunitário de 
auxílio, orientação e tratamento a alcoólatras e toxicômanos; VII - 
acolhimento institucional; VIII - inclusão em programa de 
acolhimento familiar; IX - colocação em família substituta”. 
52 Idem, Art. 103: “Considera-se ato infracional a conduta descrita 
como crime ou contravenção penal”. E Art. 112: “Verificada a prática 
de ato infracional, a autoridade competente poderá aplicar ao 
adolescente as seguintes medidas: I - advertência; II - obrigação de 
F A C U L D A D E S F A C E T E N 
 
63 
 
6. MENORIDADE, RESPONSABILIDADE PENAL, 
ATOS INFRACIONAIS E MEDIDAS 
SOCIOEDUCATIVAS 
 
Como destacamos no capítulo referente à 
História do Direito Infantojuvenil, o Código Criminal de 
1830 adotava o critério bio-psicológico (biológico: ter 
14 anos de idade; e psicológico: ter discernimento) para 
definir se haveria ou não a responsabilização penal. 
Todavia, o Código Penal de 1940 (atual) adotou 
apenas o critério biológico e definiu que a maioridade 
penal ocorre apenas a partir dos 18 anos de idade 
completos. O art. 27 do CP foi recepcionado pela 
Constituição de 1988, pois esta também determina a 
inimputabilidade penal aos menores de 18 anos: 
CP, art. 27: Os menores de 18 (dezoito) 
anos são penalmente inimputáveis, ficando 
sujeitos às normas estabelecidas na 
legislação especial. (Redação dada pela 
Lei nº 7.209, de 11.7.1984). 
 
CRFB/88, art. 228: São penalmente 
inimputáveis os menores de dezoito anos, 
sujeitos às normas da legislação especial. 
 
reparar o dano; III - prestação de serviços à comunidade; IV - 
liberdade assistida; V - inserção em regime de semi-liberdade; VI - 
internação em estabelecimento educacional; VII - qualquer uma das 
previstas no art. 101, I a VI”. 
DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 
64 
 
Desta forma, nosso atual ordenamento jurídico 
prevê que a menoridade, aqui entendida como idade 
biológica inferior a 18 anos completos, acarreta a 
inimputabilidade penal, ou seja, em razão do estado 
peculiar de pessoa em desenvolvimento, o menor de 18 
anos não tem a capacidade de entender o caráter ilícito 
do fato ou de determinar-se de acordo com esse 
entendimento. 
Quando alguém menor de 18 anos pratica uma 
conduta descrita como crime ou contravenção penal, o 
art. 228 da CRFB/88, em sua parte final, determina que o 
mesmo submete-se à legislação especial, que no caso é 
o ECA. Já o Estatuto afirma que a conduta delituosa do 
menor de 18 anos configura um ato infracional (art. 
103). 
Menoridade não significa impunidade. O menor 
de 18 anos que pratica um ato infracional está sujeito às 
medidas previstas pelo ECA: crianças (pessoa até 12 
anos incompletos) podem ser alvo de medidas 
protetivas (art. 105) e os adolescentes (entre 12 e 18 
anos de idade) submetem-se às medidas 
socioeducativas. 
F A C U L D A D E S F A C E T E N 
 
65 
 
As chamadas medidas protetivas estão 
previstas no art. 101 do ECA, assim elencadas: 
Art. 101. Verificada qualquer das hipóteses 
previstas no art. 98, a autoridade 
competente poderá determinar, dentre 
outras, as seguintes medidas: 
I - encaminhamento aos pais ou 
responsável, mediante termo de 
responsabilidade; 
II - orientação, apoio e acompanhamento 
temporários; 
III - matrícula e frequência obrigatórias em 
estabelecimento oficial de ensino 
fundamental; 
IV - inclusão em serviços e programas 
oficiais ou comunitários de proteção, apoio 
e promoção da família, da criança e do 
adolescente; 
V - requisição de tratamento médico, 
psicológico ou psiquiátrico, em regime 
hospitalar ou ambulatorial; 
VI - inclusão em programa oficial ou 
comunitário de auxílio, orientação e 
tratamento a alcoólatras e toxicômanos; 
VII - acolhimento institucional; 
VIII - inclusão em programa de 
acolhimento familiar; 
IX - colocação em família substituta. 
Já as medidas socioeducativas trazidas pelo 
ECA, em seu art. 112 são: 
Art. 112. Verificada a prática de ato 
infracional, a autoridade competente 
poderá aplicar ao adolescente as 
seguintes medidas: 
I - advertência; 
II - obrigação de reparar o dano; 
DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 
66 
 
III - prestação de serviços à comunidade; 
IV - liberdade assistida; 
V - inserção em regime de semiliberdade; 
VI - internação em estabelecimento 
educacional; 
VII - qualquer uma das previstas no art. 
101, I a VI. 
§ 1º A medida aplicada ao adolescente 
levará em conta a sua capacidade de 
cumpri-la, as circunstânciase a gravidade 
da infração. 
§ 2º Em hipótese alguma e sob pretexto 
algum, será admitida a prestação de 
trabalho forçado. 
§ 3º Os adolescentes portadores de 
doença ou deficiência mental receberão 
tratamento individual e especializado, em 
local adequado às suas condições. 
A Lei Nº 12.594/2012 criou o Sistema Nacional 
de Atendimento Socioeducativo (Sinase) e regulamentou 
a execução das medidas socioeducativas destinadas a 
adolescente que pratique ato infracional da seguinte 
maneira: 
Art. 1º Esta Lei institui o Sistema Nacional 
de Atendimento Socioeducativo (Sinase) e 
regulamenta a execução das medidas 
destinadas a adolescente que pratique ato 
infracional. 
§ 1º Entende-se por Sinase o conjunto 
ordenado de princípios, regras e critérios 
que envolvem a execução de medidas 
socioeducativas, incluindo-se nele, por 
adesão, os sistemas estaduais, distrital e 
municipais, bem como todos os planos, 
políticas e programas específicos de 
F A C U L D A D E S F A C E T E N 
 
67 
 
atendimento a adolescente em conflito 
com a lei. 
§ 2º Entendem-se por medidas 
socioeducativas as previstas no art. 112 
da Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990 
(Estatuto da Criança e do Adolescente), as 
quais têm por objetivos: 
I - a responsabilização do adolescente 
quanto às consequências lesivas do ato 
infracional, sempre que possível 
incentivando a sua reparação; 
II - a integração social do adolescente e a 
garantia de seus direitos individuais e 
sociais, por meio do cumprimento de seu 
plano individual de atendimento; e 
III - a desaprovação da conduta infracional, 
efetivando as disposições da sentença 
como parâmetro máximo de privação de 
liberdade ou restrição de direitos, 
observados os limites previstos em lei. 
É importante destacar que o adolescente privado 
da liberdade deverá cumprir sua internação em local 
destinado exclusivamente aos adolescentes, diverso do 
destinado ao abrigo, rigorosamente separados conforme 
a idade, a compleição física e gravidade da infração (art. 
123 do ECA). 
 
7. A JUSTIÇA DA INFÂNCIA E DA JUVENTUDE 
 
Com o advento da Doutrina da Proteção Integral 
(vide capítulo 2), a Justiça da Infância e da Juventude 
DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 
68 
 
assume um papel mais qualificado do que o 
desempenhado anteriormente pelo Juiz de Menores. Isto 
porque, após o ECA, o Conselho Tutelar assumiu boa 
parte das atribuições que cabiam ao Juiz de Menores e, 
agora, o Juiz da Infância e da Juventude passa a ter 
“uma atuação muito mais voltada à solução dos 
problemas na esfera coletiva (e preventiva)”, com vistas 
à “estruturação do Poder Público para fazer frente às 
demandas na área infanto-juvenil”53. 
O acesso à Justiça é gratuito e garantido a toda 
criança ou adolescente. Esse direito se concretiza 
através da Defensoria Pública, do Ministério Público e do 
Poder Judiciário, a quem incumbe a criação de varas 
especializadas da infância e da juventude para 
atendimento adequado e prioritário de crianças e 
adolescentes, conforme determina o ECA: 
Art. 141. É garantido o acesso de toda 
criança ou adolescente à Defensoria 
Pública, ao Ministério Público e ao Poder 
Judiciário, por qualquer de seus órgãos. 
§ 1º. A assistência judiciária gratuita será 
prestada aos que dela necessitarem, 
 
53 DIGIÁCOMO, Murillo José; DIGIÁCOMO, Ildeara de Amorim. 
Estatuto da criança e do adolescente anotado e interpretado. 
Ministério Público do Estado do Paraná. Centro de Apoio 
Operacional das Promotorias da Criança e do Adolescente, 2017, p. 
269. 
F A C U L D A D E S F A C E T E N 
 
69 
 
através de defensor público ou advogado 
nomeado. 
§ 2º As ações judiciais da competência da 
Justiça da Infância e da Juventude são 
isentas de custas e emolumentos, 
ressalvada a hipótese de litigância de má-
fé. 
(...) 
Art. 145. Os estados e o Distrito Federal 
poderão criar varas especializadas e 
exclusivas da infância e da juventude, 
cabendo ao Poder Judiciário estabelecer 
sua proporcionalidade por número de 
habitantes, dotá-las de infra-estrutura e 
dispor sobre o atendimento, inclusive em 
plantões. 
De acordo com o ECA, compete à Justiça da 
Infância e da Juventude: 
Art. 148. A Justiça da Infância e da 
Juventude é competente para: 
I - conhecer de representações promovidas 
pelo Ministério Público, para apuração de 
ato infracional atribuído a adolescente, 
aplicando as medidas cabíveis; 
II - conceder a remissão, como forma de 
suspensão ou extinção do processo; 
III - conhecer de pedidos de adoção e seus 
incidentes; 
IV - conhecer de ações civis fundadas em 
interesses individuais, difusos ou coletivos 
afetos à criança e ao adolescente, 
observado o disposto no art. 209; 
V - conhecer de ações decorrentes de 
irregularidades em entidades de 
atendimento, aplicando as medidas 
cabíveis; 
DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 
70 
 
VI - aplicar penalidades administrativas 
nos casos de infrações contra norma de 
proteção à criança ou adolescente; 
VII - conhecer de casos encaminhados 
pelo Conselho Tutelar, aplicando as 
medidas cabíveis. 
Parágrafo único. Quando se tratar de 
criança ou adolescente nas hipóteses do 
art. 98, é também competente a Justiça da 
Infância e da Juventude para o fim de: 
a) conhecer de pedidos de guarda e tutela; 
b) conhecer de ações de destituição do 
pátrio poder poder familiar, perda ou 
modificação da tutela ou guarda; 
(Expressão substituída pela Lei nº 12.010, 
de 2009) 
c) suprir a capacidade ou o consentimento 
para o casamento; 
d) conhecer de pedidos baseados em 
discordância paterna ou materna, em 
relação ao exercício do pátrio poder poder 
familiar; (Expressão substituída pela Lei nº 
12.010, de 2009) 
e) conceder a emancipação, nos termos da 
lei civil, quando faltarem os pais; 
f) designar curador especial em casos de 
apresentação de queixa ou representação, 
ou de outros procedimentos judiciais ou 
extrajudiciais em que haja interesses de 
criança ou adolescente; 
g) conhecer de ações de alimentos; 
h) determinar o cancelamento, a retificação 
e o suprimento dos registros de 
nascimento e óbito. 
Art. 149. Compete à autoridade judiciária 
disciplinar, através de portaria, ou 
autorizar, mediante alvará: 
I - a entrada e permanência de criança ou 
adolescente, desacompanhado dos pais ou 
responsável, em: 
a) estádio, ginásio e campo desportivo; 
F A C U L D A D E S F A C E T E N 
 
71 
 
b) bailes ou promoções dançantes; 
c) boate ou congêneres; 
d) casa que explore comercialmente 
diversões eletrônicas; 
e) estúdios cinematográficos, de teatro, 
rádio e televisão. 
II - a participação de criança e adolescente 
em: 
a) espetáculos públicos e seus ensaios; 
b) certames de beleza. 
§ 1º Para os fins do disposto neste artigo, 
a autoridade judiciária levará em conta, 
dentre outros fatores: 
a) os princípios desta Lei; 
b) as peculiaridades locais; 
c) a existência de instalações adequadas; 
d) o tipo de freqüência habitual ao local; 
e) a adequação do ambiente a eventual 
participação ou freqüência de crianças e 
adolescentes; 
f) a natureza do espetáculo. 
§ 2º As medidas adotadas na 
conformidade deste artigo deverão ser 
fundamentadas, caso a caso, vedadas as 
determinações de caráter geral. 
Em suma, sob a égide da Doutrina da Proteção 
Integral e dos princípios norteadores do Direito da 
Criança e do Adolescente, o Sistema de Justiça deve 
atuar com Prioridade Absoluta para garantir a 
concretização das promessas feitas pela Constituição de 
1988 e pelo Estatuto da Criança e do Adolescente para a 
população infantojuvenil. É certo que apenas a letra da 
lei não opera modificação na realidade, mas um Sistema 
DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 
72 
 
de Garantia dos Direitos da Infância e da Juventude 
composto pela família, pela sociedade e pelo Estado 
reúne todas as condições para transformar a realidade. 
Por fim, é importante relembrar uma das frases 
contidas no Preâmbulo da DeclaraçãoUniversal dos 
Direitos da Criança de 1959: “a humanidade deve à 
criança o melhor de seus esforços”! 
 
F A C U L D A D E S F A C E T E N 
 
73 
 
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DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 
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DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 
80 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Informações sobre o autor: 
Rafael Penela Ribeiro 
Advogado, Mestre e Professor de Direito. 
F A C U L D A D E S F A C E T E N 
 
81E DO ADOLESCENTE 
8 
 
permissão para “matar o filho que nasceu disforme, 
mediante o julgamento de cinco vizinhos” (Tábua IV, nº 
1), bem como o direito de vida e de morte e o poder de 
vender qualquer um deles (Tábua IV, nº 2). 
 
Lei das XII Tábuas. Fonte: Wikiwand. 
F A C U L D A D E S F A C E T E N 
 
9 
 
Com o passar do tempo, aos poucos, a 
população infantojuvenil foi ganhando alguns direitos: o 
Código de Manu, escrito entre 200 a. C. e 200 d. C., 
previa uma multa para quem abandonasse filho que não 
fosse culpado de algum “crime grande”3. 
As maiores contribuições para o direito 
infantojuvenil, com a defesa de dignidade para todos, 
inclusive crianças, vieram do Cristianismo, já na Idade 
Média (período entre 476 d. C. e 1500 d. C.). Através de 
diversos Concílios, a Igreja concedeu proteção aos 
menores, ao prever e aplicar penas corporais e 
espirituais aos pais que abandonavam ou expunham 
seus filhos legítimos4, aqueles nascidos do casamento. 
Já os frutos de relações extraconjugais, chamados de 
filhos naturais ou expostos, eram considerados 
espúrios ou ilegítimos e não gozavam da mesma 
proteção que os descendentes legítimos, como se verá 
adiante. 
 
3 Código de Manu, Livro 8º, Art. 386: “Uma mãe, um pai, uma 
esposa e um filho não devem ser abandonados; aqueles que 
abandonam um deles, quando não é culpado de nenhum crime 
grande, deve sofrer uma multa de seiscentos panas”. Disponível em: 
http://www.dhnet.org.br/direitos/anthist/manu2.htm. Acesso em: 
25/11/2019. 
4 MACIEL, Kátia Regina Ferreira Lobo Andrade. Curso de Direito da 
Criança e do Adolescente. Editora Saraiva, 2018, p. 37. 
http://www.dhnet.org.br/direitos/anthist/manu2.htm
DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 
10 
 
No Reino de Portugal e nas suas colônias, entre 
elas, o Brasil, o sistema jurídico se guiava pelas 
Ordenações Reais: Ordenações Afonsinas (1446 – 
1512), Ordenações Manuelinas (1521 – 1569) e as 
Ordenações Filipinas (cujo nome remete ao reinado de 
Filipe I, que ordenou sua compilação e ao Rei Filipe II, 
que as promulgou em 1603). 
Também conhecido como Código Filipino, 
tratava-se de um compilado de leis sobre diversos 
assuntos e ramos do Direito. Até hoje é a legislação mais 
duradoura da história tanto de Portugal, quanto do Brasil, 
onde vigorou até 1830 em matéria penal e até 1916, em 
matéria cível. 
O Direito Romano e o Direito Canônico foram as 
duas grandes influências das Ordenações Filipinas e 
serviam como fontes de consulta para a solução de 
casos não previstos pela lei portuguesa, devendo ser 
aplicados subsidiariamente. 
Desta forma, ainda prevalecia a referência ao pai 
como o chefe da família (pater familias), aquele que 
detinha o monopólio do pátrio poder e a quem cabia o 
dever de criar e educar seus filhos, valendo-se inclusive 
de castigos físicos para a consecução desse objetivo. 
F A C U L D A D E S F A C E T E N 
 
11 
 
As punições corporais tinham um caráter 
disciplinador e eram aceitas naturalmente. Em alguns 
casos eram até desejáveis e deveriam ser usadas com 
sabedoria por pais, mestres e senhores cristãos5. Por 
vezes, tal comportamento amparava-se na passagem 
bíblica: “Aquele que poupa a vara aborrece a seu filho; 
mas quem o ama, a seu tempo o castiga” (Provérbios, 
13:24). 
Ressalte-se que embora não houvesse mais o 
direito de vender ou matar os próprios descendentes, 
caso um filho fosse lesionado ou viesse a falecer em 
virtude da aplicação de castigos corporais, as 
Ordenações Filipinas determinavam que não haveria 
punição para os pais6 e, caso os filhos que fossem 
considerados incorrigíveis, podiam ser entregues aos 
magistrados de polícia7. 
 
5 FERREIRA, Ricardo Alexandre. Polissemias da desigualdade no 
Livro V das Ordenações Filipinas: o escravo integrado. História, 
Franca, v. 34, n. 2, p. 165-180, Dez. 2015. Disponível em: 
. Acesso em: 26/11/2019. 
6 Ordenações Filipinas, Livro V, Título XXXVI - Das penas 
pecuniárias dos que matam, ferem ou tiram arma na Corte. 
Disponível em: http://www1.ci.uc.pt/ihti/proj/filipinas/l5p1187.htm. 
Acesso em 26/11/2019. 
7 SIMÃO, José Fernando. Notas sobre as relações familiares no 
período das Ordenações Filipinas. Jornal Carta Forense, 2013. 
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-90742015000200165&lng=en&nrm=iso
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-90742015000200165&lng=en&nrm=iso
http://www1.ci.uc.pt/ihti/proj/filipinas/l5p1187.htm
DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 
12 
 
No que tange à capacidade jurídica para usar, 
gozar e dispor livremente sobre bens, sob a égide das 
Ordenações, os filhos podiam ser proprietários dos frutos 
de herança, doação e do que resultasse de seu trabalho. 
Todavia, era garantido ao pai o usufruto sobre tais bens, 
por força do pátrio poder8. 
Em tal período da nossa história, o ordenamento 
jurídico ainda atribuía pouca importância a crianças, 
mulheres, idosos e pessoas com problemas mentais. 
Estas pessoas eram consideradas portadoras de uma 
humanidade inferior, enquanto os homens inteligentes, 
razoáveis e prudentes mereciam maior respeito e 
importância9. 
 
Disponível em: 
http://www.cartaforense.com.br/conteudo/colunas/notas-sobre-as-
relacoes-familiares-no-periodo-das-ordenacoes-filipinas/12754. 
Acesso em: 26/11/2019. 
8 SIMÃO, José Fernando. Op. cit. 
9 FRANCO, Renato. Órfãos e expostos no Império luso-brasileiro. 
Arquivo Nacional e a História Luso-Brasileira. Mai, 2018. Disponível 
em: 
. Acesso em 30/11/2019: 
“De acordo com o Direito das sociedades que surgiam no alvorecer 
da época moderna, a célula fundamental era composta pela família, 
e a maior importância era garantida aos homens de pleno poder de 
ação. Aqueles considerados desprovidos das capacidades 
intelectuais - a inteligência, a razão e a prudência - constituíam 
grupos de humanidade diminuída. Nesse esquema mental, 
http://www.cartaforense.com.br/conteudo/colunas/notas-sobre-as-relacoes-familiares-no-periodo-das-ordenacoes-filipinas/12754
http://www.cartaforense.com.br/conteudo/colunas/notas-sobre-as-relacoes-familiares-no-periodo-das-ordenacoes-filipinas/12754
http://historialuso.arquivonacional.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=5201&Itemid=344
http://historialuso.arquivonacional.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=5201&Itemid=344
F A C U L D A D E S F A C E T E N 
 
13 
 
Nesse grupo de pessoas menos favorecidas 
estavam também os órfãos e expostos. Os primeiros 
descendiam de pais falecidos ou eram filhos de pai 
desconhecido e mãe falecida, mas cuja ascendência era 
ao menos em parte conhecida. Já as crianças chamadas 
de expostas ou enjeitadas eram completamente 
diferentes, pois tinham grau zero de ascendência e, 
assim, eram consideradas livres10. 
Órfãos eram considerados um segmento 
particularmente frágil da sociedade cuja tutela, através 
de funcionários, cabia ao rei, caso os laços familiares 
fossem inexistentes ou ineficazes.11 Tal responsabilidade 
era expressamente prevista pela legislação desde as 
Ordenações Afonsinas12: "uma das coisas que são 
encomendadas ao Rei na sua terra, assim é guardar, e 
 
mulheres, crianças, velhos e dementes eram portadores de uma 
humanidade inferior”. 
10 FRANCO, Renato. Órfãos e expostos no Império luso-brasileiro. 
Arquivo Nacional e a História Luso-Brasileira. Mai, 2018. Disponível 
em: 
ntent&view=article&id=5201&Itemid=344>. Acesso em 30/11/2019. 
11 FRANCO, Renato. Idem. 
12 Ordenações Afonsinas, Livro IV, Título LXXXVIII - Das Escusas 
dos Tutores e Curadores. Disponível em: 
http://www.ci.uc.pt/ihti/proj/afonsinas/l4p329.htm. Acesso em 
30/11/2019. 
http://historialuso.arquivonacional.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=5201&Itemid=344
http://historialuso.arquivonacional.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=5201&Itemid=344
http://www.ci.uc.pt/ihti/proj/afonsinas/l4p329.htm
DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 
14 
 
manter, e defender esses órfãos" (Livro IV, Título 
LXXXVIII). 
Por sua vez, expostos ou enjeitados eram 
crianças abandonadas anonimamente por pais que as 
rejeitavam por razões que iam da pobreza até a tentativa 
de ocultar a desonra de mulheres e famílias, passando 
pelo mero desprezo e desinteresse pelo filho13. Essas 
crianças eram habitualmente deixadas nas portas de 
residências, conventos ou igrejas e muitas vezes 
morriam de fome, frio ou devoradas por cães e porcos14. 
Tal quadro de sofrimento e abandono 
incomodava a sociedade, uma vez que os chamados 
“anjinhos” acabavam morrendo sem receber o batismo e, 
assim, estavam condenados a vagar no Limbo15. Desta 
maneira, mais uma vez por influência do Cristianismo, 
 
13 FRANCO, Renato. Op. cit. 
14 MESGRAVIS, Laima. A Santa Casa de Misericórdia de São Paulo 
(1599?-1884): contribuição ao estudo da assistência Social no 
Brasil. 1976. Apud NASCIMENTO, Alcileide Cabral do. A sorte dos 
enjeitados O combate ao infanticídio e a institucionalização da 
assistência às crianças abandonadas no Recife (1789-1832). 2006. 
15 RUSSEL-WOOD, A. J. R. Fidalgos e filantropos: a Santa Casa de 
Misericórdia da Bahia, 1550-1755. 
Brasília: Editora UnB, 1981. Apud NASCIMENTO, Alcileide Cabral 
do. A sorte dos enjeitados O combate ao infanticídio e a 
institucionalização da assistência às crianças abandonadas no 
Recife (1789-1832). 2006. 
F A C U L D A D E S F A C E T E N 
 
15 
 
instituições de caridade voltadas ao acolhimento dessas 
crianças desafortunadas foram surgindo. 
As práticas do aborto e do infanticídio já eram 
punidas severamente, mas com vistas a enfrentar essa 
mazela social e para tentar salvar os “anjinhos”, foi 
criada a Roda dos Expostos. Como pode ser visto na 
imagem a seguir, tratava-se de uma janela com um 
cilindro giratório vertical que era instalado no muro de 
instituições religiosas para garantir o anonimato da mãe 
e assegurar chances de sobrevivência à criança. 
Também chamada de Roda dos Enjeitados ou 
simplesmente de Roda, esse modelo de acolhimento se 
espalhou pela Europa cristã no séc. XVI e chegou ao 
Brasil em meados do séc. XVIII, através das Santas 
Casas de Misericórdia. As instituições que acolhiam os 
enjeitados deviam ser mantidas pelas Câmaras 
Municipais, as quais tinham autorização para cobrar 
tributos específicos para manter tal atividade. 
Embora órfãos e expostos recebessem 
tratamento inicialmente diverso, seus destinos se 
cruzavam após completarem 7 anos. A partir daí, cabia a 
um juiz decidir qual seria o futuro delas, de acordo com 
os interesses de quem as sustentava. Geralmente, essas
DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 
16 
 
 
Roda dos Expostos. Fonte: Gazeta do Povo. 
F A C U L D A D E S F A C E T E N 
 
17 
 
crianças eram incorporadas ao mercado de trabalho 
desde pequenas16. 
Os 7 anos de idade marcavam também o início 
da responsabilidade penal. Crianças com menos de 7 
anos eram consideradas inimputáveis, ou seja, não 
podiam ser consideradas responsáveis por seus atos, 
logo, não podiam ser punidas. Entre os 7 e os 17 anos 
de idade era proibido aplicar a pena de morte natural 
(por enforcamento), cabendo ao juiz dar-lhe uma pena 
menor. Dos 17 aos 21 anos, cabia ao juiz decidir se 
aplicaria a pena total ao “jovem adulto”, ou a diminuiria. 
As Ordenações Filipinas referiam-se às pessoas 
com menos de 21 anos simplesmente como menores e 
lhes asseguravam punições mais brandas do que as 
aplicadas aos adultos. O texto literal do Código Filipino, 
em seu Livro V, Título CXXXV – “Quando os menores 
serão punidos por os delictos que fizerem”17 determinava 
que: 
 
16 RIZZINI, Irene; PILOTTI, F. A arte de governar crianças. Lições do 
passado, reflexões para o presente. Rizzini I, Pilotti F, 
organizadores. A arte de governar crianças. A história das políticas 
sociais, da legislação e da assistência à infância no Brasil. 3ª Ed. 
São Paulo: Cortez Editora, 2011, p. 19. 
17 Ordenações Filipinas, Livro V, Título CXXXV - Quando os 
menores serão punidos por os delitos que fizerem. Disponível em: 
DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 
18 
 
Quando algum homem, ou mulher, passar 
de vinte annos, commetter qualquer 
delicto, dar-se-lhe-há a pena total, que lhe 
seria dada, se de vinte e cinco annos 
passasse. 
E se fôr de idade de dezasete annos até 
vinte, ficara em arbitrio dos Julgadores dar-
lhe a pena total, ou diminuir-lha. 
E em este caso olhará o Julgador o modo, 
com que o delicto foi commettido, e as 
circumstancias delle, e a pessôa do menor; 
e se o achar em tanta malicia, que lhe 
pareça que merece total pena, dar-lhe-há, 
postoque seja de morte natural. 
E parecendo-lhe que a não merece, poder-
lha-há diminuir, segundo a qualidade, ou 
simpleza, com que achar, que o delicto foi 
commettido. 
E quando o delinquente fôr menor de 
dezasete annos cumpridos, postoque o 
delicto mereça morte natural, em nenhum 
caso lhe será dada, mas ficará em arbitrio 
do Julgador de dar-lhe outra menor pena. 
E não sendo delicto tal, em que caiba pena 
de morte natural, se guardará a disposição 
do Direito Commum. 
Como era comum até então, as leis previam 
penas severas como forma de inibir as condutas não 
desejadas. Elas variavam do perdimento e confisco de 
bens, passando por açoites, até a morte natural (por 
enforcamento) e podia, inclusive, chegar à chamada 
morte atroz (por esquartejamento). 
 
http://www1.ci.uc.pt/ihti/proj/filipinas/l5p1311.htm. Acesso em 
26/11/2019. 
http://www1.ci.uc.pt/ihti/proj/filipinas/l5p1311.htm
F A C U L D A D E S F A C E T E N 
 
19 
 
Após a independência do Brasil em 7 de 
setembro de 1822, um Conselho de Estado elaborou a 
Constituição Política do Império do Brasil18 que foi 
outorgada pelo Imperador D. Pedro I, em 25 de março de 
1824. Nela não havia previsão de direitos para os 
menores, apenas a proibição de votar e ser votado para 
quem tivesse menos de 25 anos, com exceção para os 
que já fossem casados, oficiais militares e bacharéis 
formados ou clérigos maiores de 21 anos (art. 92, I). 
Mesmo com a independência, as Ordenações 
Filipinas continuaram em vigor até que fossem 
elaboradas novas legislações do Império do Brasil, como 
nossa primeira lei sobre crimes, delitos e penas, o 
“Código Criminal do Império do Brazil”19, de 16 de 
dezembro de 1830. 
O Código Criminal de 1830 adotava o chamado 
critério bio-psicológico, pois previa que os menores de 
14 anos (idade biológica) não seriam considerados 
criminosos (art. 10, § 1º), exceto se ficasse provado que 
 
18 Constituição Política do Império do Brasil. Disponível em: 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao24.htm. 
Acesso em: 30/11/2019. 
19 Código Criminal do Império do Brazil. Disponível em: 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/lim/LIM-16-12-1830.htm. 
Acesso em: 30/11/2019. 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao24.htm
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/lim/LIM-16-12-1830.htm
DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 
20 
 
tinham discernimento (critério psicológico) para 
compreender a ilicitude da conduta (art.13): 
Art. 10. Tambem não se julgarão 
criminosos: 
1º Os menores de quatorze annos. 
(...) 
Art. 13. Se se provar que os menores de 
quatorze annos, que tiverem commettido 
crimes, obraram com discernimento, 
deverão ser recolhidos ás casas de 
correção, pelo tempo que ao Juiz parecer, 
com tanto que o recolhimento não exceda 
á idade de dezasete annos. 
E, embora fosse considerada uma circunstância 
atenuante ter o delinquente menos de 21 anos (art. 18, 
§10), o juiz podia aplicar penas por cumplicidade 
(reduzidas) aos adolescentes que tivessem entre 14 e 17 
anos de idade. Significa dizer que os adolescentes 
podiam ser presos e condenados a penas que eram 
cumpridas em prisões comuns, junto com adultos. 
Com a proclamação da República em 15 de 
novembro de 1889 chegou ao fim o sistema de governo 
monárquico e teve início o período republicano, que dura 
até hoje. Mas antes mesmo de surgir nossa primeira 
constituição republicana em 1891, Manoel Deodoro da 
Fonseca, então Chefe do Governo Provisório da 
F A C U L D A D E S F A C E T E N 
 
21 
 
Republica dos Estados Unidos do Brasil promulgou o 
Código Penal de 1890. 
Segundo o Código Penal dos Estados Unidos do 
Brasil20, de 11 de outubro de 1890, a criança com menos 
de 9 anos de idade era penalmente inimputável. Já os 
maiores de 9 e menores de 14 anos só podiam ser 
responsabilizados tivessem agido com discernimento: 
Art. 27. Não são criminosos: 
§ 1º Os menores de 9 annos completos; 
§ 2º Os maiores de 9 e menores de 14, 
que obrarem sem discernimento; 
Crianças e adolescentes entre 9 e 14 anos de 
idade que cometessem crimes não eram encaminhadas 
para prisões, mas para estabelecimentos disciplinares 
industriais onde não poderiam ficar mais do que 3 anos, 
durante os quais teriam seu tempo ocupado com a 
aprendizagem de um ofício: 
Art. 30. Os maiores de 9 annos e menores 
de 14, que tiverem obrado com 
discernimento, serão recolhidos a 
estabelecimentos disciplinares industriaes, 
pelo tempo que ao juiz parecer, comtanto 
que o recolhimento não exceda á idade de 
17 annos. 
 
20 Código Penal dos Estados Unidos do Brasil. Disponível em: 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1851-
1899/D847.htmimpressao.htm. Acesso em: 30/11/2019. 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1851-1899/D847.htmimpressao.htm
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1851-1899/D847.htmimpressao.htm
DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 
22 
 
 
Crianças trabalham em fábrica de sapatos no início do séc. XX. 
Fonte: Museu da Justiça do Estado do Rio de Janeiro 
Já os delinquentes entre 14 e 17 anos 
continuavam sujeitos às penas da cumplicidade (art. 65), 
mas agora já não seriam presos com adultos (art. 49) e o 
fato de terem menos de 21 anos continuava sendo uma 
circunstância atenuante: 
Art. 42. São circumstancias atenuantes: 
(...) 
§ 11. Ser o delinquente menor de 21 
annos. 
(...) 
Art. 49. A pena de prisão disciplinar será 
cumprida em estabelecimentos industriaes 
especiaes, onde serão recolhidos os 
menores até á idade de 21 annos. 
(...) 
Art. 65. Quando o delinquente for maior de 
14 e menor de 17 annos, o juiz lhe a 
applicará as penas da cumplicidade. 
F A C U L D A D E S F A C E T E N 
 
23 
 
Tal código foi a primeira legislação brasileira a 
introduzir inúmeras disposições voltadas exclusivamente 
à proteção dos menores21, com a criminalização de 
 
21 Nesse sentido, vide o Código Penal de 1890: “Art. 289. Tirar, ou 
mandar tirar, infante menor de 7 annos da casa paterna, collegio, 
asylo, hospital, do logar emfim em que é domiciliado, empregando 
violencia ou qualquer meio de seducção: 
Pena - de prisão cellular por um a quatro annos. 
Paragrapho unico. Si o menor tiver mais de 7, porém menos de 14 
annos: 
Pena - de prisão cellular por uma a tres annos. 
Art. 290. Sonegar, ou substituir, infante menor de 7 annos: 
Pena - de prisão cellular por um a quatro annos. 
Paragrapho unico. Em igual incorrerá o encarregado da criação e 
educação do menor, que deixar sem causa justificada de apresental-
o, quando exigido, a quem tenha o direito de reclamal-o. 
Art. 291. Aquelle que, tendo commettido qualquer dos crimes 
supraindicados, não restituir o menor, soffrerá a pena de prisão 
cellular por dous a doze annos. 
Art. 292. Expor, ou abandonar, infante menor de 7 annos, nas ruas, 
praças, jardins publicos, adros, cemiterios, vestibulos de edificios ou 
particulares, emfim em qualquer logar, onde por falta de auxilio e 
cuidados, de que necessite a victima, corra perigo sua vida ou tenha 
logar a morte: 
Pena - de prisão cellular por seis mezes a um anno. 
§ 1º Si for em logar ermo o abandono, e, por effeito deste, perigar a 
vida, ou tiver logar a morte do menor: 
Pena - de prisão cellular por um a quatro annos. 
§ 2º Si for autor do crime, o pae ou mãe, ou pessoa encarregada da 
guarda do menor, soffrerá igual pena com augmento da terça parte. 
Art. 293. Incorrerão em pena de prisão cellular por um a seis mezes: 
§ 1º Aquelle que, sem prévio consentimento da pessoa ou da 
autoridade, que lh'a houver confiado, entregar a qualquer particular, 
ou estabelecimento publico, o menor de cuja criação e educação 
estiver encarregado. 
DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 
24 
 
condutas atentatórias à dignidade de crianças e 
adolescentes como o abandono, a subtração, a 
ocultação, o abuso e a exploração. 
O Código Civil de 1916 – CC/1916 (que 
revogou as Ordenações e vigorou até 2002) previa que o 
marido era o chefe da sociedade conjugal (art. 233) e, 
como tal, cabia a ele o exercício do pátrio poder (art. 
380), e, apenas excepcionalmente, à mulher22. Já havia 
previsão de suspensão ou perda do pátrio poder23 tanto 
 
§ 2º Aquelle que, encontrando recem-nascido exposto, ou menor de 
7 annos abandonado em logar ermo, não o apresentar, ou não der 
aviso, á autoridade publica mais proxima. 
(...) 
Art. 371. Jogar com menores de 21 annos ou excital-os a jogar: 
(...) 
Art. 395. Permittir que uma pessoa menor de 14 annos sujeita a seu 
poder, ou confiada á sua guarda e vigilancia, ande a mendigar, tire 
ou não lucro para si ou para outrem”. Disponível em: 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1851-
1899/D847.htmimpressao.htm. Acesso em 30/11/2019. 
22 Código Civil de 1916: “Art. 233. O marido é o chefe da sociedade 
conjugal; (...) Art. 380. Durante o casamento, exerce o pátrio poder o 
marido, como chefe da família (art. 233), e, na falta ou impedimento 
seu, a mulher”. Disponível em: 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L3071impressao.htm. 
Acesso em 02/12/2019. 
23 Idem: “Art. 392. Extingue-se o pátrio poder: I. Pela morte dos pais 
ou do filho. II. Pela emancipação, nos termos do parágrafo único no 
art. 9, Parte Geral. III. Pela maioridade. IV. Pela adoção. Art. 393. A 
mãe, que contrai novas núpcias, perde, quanto aos filhos do leito 
anterior, os direitos do pátrio poder (art. 329); mas, enviuvando, os 
recupera. Art. 394. Se o pai, ou mãe, abusar do seu poder, faltando 
aos deveres paternos, ou arruinando os bens dos filhos, cabe ao 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1851-1899/D847.htmimpressao.htm
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1851-1899/D847.htmimpressao.htm
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L3071impressao.htm
F A C U L D A D E S F A C E T E N 
 
25 
 
para o pai, quanto para a mãe (arts. 392 a 395), inclusive 
com a previsão de que a mãe que viesse a contrair 
novas núpcias perderia o pátrio poder sobre os filhos da 
relação anterior (art. 393). 
Sob a égide do CC/1916 ainda havia a diferença 
entre os filhos legítimos (arts. 337 e seguintes) e 
ilegítimos (arts. 355 e seguintes). Contudo, passou a 
existir a possibilidade de legitimação com o casamento 
dos pais (art. 353), bem como o reconhecimentode filhos 
ilegítimos (art. 355 e seguintes). 
Embora já pudessem ser penalmente 
responsabilizados por seus atos desde os 9 anos, como 
visto anteriormente, na esfera civil, o CC/1916 definia 
que os menores de 16 anos eram absolutamente 
incapazes de praticar validamente qualquer ato da vida 
civil. Somente a partir dos 16, tornavam-se relativamente 
incapazes, podendo praticar alguns atos e a maioridade 
 
juiz, requerendo alguma parente, ou o Ministério Publico, adotar a 
medida, que lhe pareça reclamada pela segurança do menor e seus 
haveres, suspendendo até, quando convenha, o pátrio poder. 
Parágrafo único. Suspende-se igualmente o exercício do pátrio 
poder ao pai ou mãe condenados por sentença irrecorrivel em crime 
cuja pena exceda de dois anos de prisão. Art. 395. Perderá por ato 
judicial o pátrio poder o pai, ou mãe: I. Que castigar 
imoderadamente o filho. II. Que o deixar em abandono. III. Que 
praticar atos contrários à moral e aos bons costumes”. 
DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 
26 
 
civil ocorria apenas aos 21 anos24. Até para casar, os 
filhos legítimos com menos de 21 anos precisavam do 
consentimento dos pais (art. 185). Mas ainda assim, 
podiam ser responsabilizados pela prática de qualquer 
ato ilícito, se fossem culpados (art. 156). 
Em 1923 foi criada a primeira norma brasileira 
voltada especificamente à proteção da infância e da 
juventude, com a aprovação do Regulamento da 
Assistência e Proteção aos Menores Abandonados e 
Delinquentes25, através do Decreto Nº 16.272. 
Esta legislação determinou que menores de 14 
anos não sofreriam processo penal de espécie alguma 
(art. 24) e, entre os 14 e os 18 anos, seriam submetidos 
 
24 Código Civil de 1916: “Art. 5º. São absolutamente incapazes de 
exercer pessoalmente os atos da vida civil: I. Os menores de 
dezesseis anos. (...) e Art. 6º. São incapazes, relativamente a certos 
atos (art. 147, n. 1), ou à maneira de os exercer: I. Os maiores de 
dezesseis e menores de vinte e um anos (arts. 154 a 156). (...) Art. 
9º. Aos vinte e um anos completos acaba a menoridade, ficando 
habilitado o indivíduo para todos os atos da vida civil. (...) Art. 156. O 
menor, entre dezesseis e vinte e um anos, equipara-se ao maior 
quanto às obrigações resultantes de atos ilícitos, em que for 
culpado. (...) Art. 185. Para o casamento dos menores de vinte e um 
anos, sendo filhos legítimos, é mister o consentimento de ambos os 
pais”. Disponível em: 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L3071impressao.htm. 
Acesso em 02/12/2019. 
25 Decreto Nº 16.272/1925. Disponível em: 
http://legis.senado.leg.br/norma/430797/publicacao/15797742. 
Acesso em: 30/11/2019. 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L3071impressao.htm
http://legis.senado.leg.br/norma/430797/publicacao/15797742
F A C U L D A D E S F A C E T E N 
 
27 
 
a um processo especial (art. 25). O mesmo decreto 
também criou o Juízo de Menores do Distrito Federal 
(Rio de Janeiro) “para assistencia, protecção, defesa, 
processo e julgamento dos menores abandonados e 
delinquentes” (art. 37). 
Na esfera internacional havia um consenso de 
que era necessário proporcionar à criança uma proteção 
especial e, assim, a Liga das Nações (antecessora da 
Organização das Nações Unidas – ONU) adotou a 
Declaração de Genebra dos Direitos da Criança, ou 
apenas Declaração dos Direitos da Criança, em 1924. O 
texto trazia apenas 5 disposições26: 
1. A criança deve receber os meios 
necessários para o seu desenvolvimento 
normal, tanto material quanto 
espiritualmente. 
2. A criança que está com fome deve 
ser alimentada, a criança que está doente 
deve ser amamentada, a criança que está 
atrasada deve ser ajudada, a criança 
delinquente deve ser recuperada, e o órfão 
e a mãe devem ser protegidos e 
socorridos. 
3. A criança deve ser a primeira a 
receber alívio em momentos de angústia. 
4. A criança deve ser posta em 
condições de ganhar a vida e deve ser 
 
26 Declaração de Genebra dos Direitos da Criança. Tradução do 
autor a partir do texto original disponível em: http://www.un-
documents.net/gdrc1924.htm. Acesso em: 04/12/2019. 
http://www.un-documents.net/gdrc1924.htm
http://www.un-documents.net/gdrc1924.htm
DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 
28 
 
protegida contra todas as formas de 
exploração. 
5. A criança deve ser conscientizada 
de que seus talentos devem ser dedicados 
ao serviço de seus semelhantes. 
Assim, poucos anos depois, surgiu o Código 
dos Menores27 de 1927 (Decreto Nº 17.943-A), que 
consolidou as leis de proteção e assistência a crianças e 
adolescentes. Também conhecido como Código Mello 
Mattos, esta foi a primeira legislação direcionada à 
população infantojuvenil a trazer dezenas de artigos 
voltados a disciplinar o trabalho infantil, proibindo-o a 
menores de 12 anos (art. 101) e vedando atividades 
perigosas, insalubres ou fatigantes a menores de 18 
anos de idade (art. 105). 
Na seara penal, consolidou-se a orientação que 
vinha desde o Decreto Nº 16.272 de 1923, ou seja: 
menores de 14 anos eram penalmente inimputáveis e 
deveriam ser colocados em institutos de educação (art. 
68, § 2º); entre 14 e 18 anos sofreriam um processo 
especial (art. 69), com responsabilidade atenuada, sendo 
certo que nenhum menor de 18 poderia ser recolhido a 
 
27 Decreto Nº 17.943-A/1927. Disponível em: 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1910-
1929/D17943Aimpressao.htm. Acesso em: 03/12/2019. 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1910-1929/D17943Aimpressao.htm
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1910-1929/D17943Aimpressao.htm
F A C U L D A D E S F A C E T E N 
 
29 
 
prisão comum (art. 86) e deveria sempre ser segregado 
dos maiores de 18 anos (art. 169, § 4º). 
A Constituição dos Estados Unidos do Brasil, de 
10 de novembro de 1937 também se mostrou atenta à 
necessidade de proteger os menores contra a 
exploração da mão-de-obra infantil, ao elevar a idade 
mínima para o trabalho de 12 para 14 anos e, ao 
determinar, em seu art. 137, alínea “k” que28: 
Art 137 - A legislação do trabalho 
observará, além de outros, os seguintes 
preceitos: (...) k) proibição de trabalho a 
menores de catorze anos; de trabalho 
noturno a menores de dezesseis, e, em 
indústrias insalubres, a menores de 
dezoito anos e a mulheres; 
Foi apenas com o Código Penal de 1940 
(Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940, em 
vigência até o presente momento) que menores de 18 
anos passaram a ser considerados penalmente 
irresponsáveis, ficando sujeitos às normas estabelecidas 
em lei especial (antigo art. 23 e atual art. 27). 
 
28 Constituição dos Estados Unidos do Brasil, de 10 de novembro de 
1937. Disponível em: 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao37.htm. 
Acesso em: 05/12/2019. 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao37.htm
DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 
30 
 
Em seguida, o Decreto-Lei Nº 3.799 de 1941 
criou o Serviço de Assistência a Menores (S. A. M.) que, 
entre outras atribuições, tinha como finalidade (art. 2º) 
recolher e abrigar menores, sistematizar e orientar os 
serviços de assistência a menores desvalidos e 
delinquentes29. O S. A. M. teve suas competências 
ampliadas pelo Decreto-Lei Nº 6.865 de 1944 para 
abarcar a necessidade de incentivar iniciativas 
particulares de assistência a menores e promover a 
colocação de menores desligados, conforme a instrução 
que tenham recebido e as aptidões que tenham 
demonstrado30. 
Com o fim da Segunda Guerra Mundial, a 
Assembleia Geral das Nações Unidas cria, em 1946, o 
Fundo Internacional de Emergência das Nações Unidas 
para a Infância – em inglês,United Nations International 
Children's Emergency Fund (UNICEF). O objetivo era 
atender às necessidades emergenciais das crianças 
durante o período pós-guerra. 
 
29 Decreto-Lei Nº 3.799 de 1941. Disponível em: 
http://legis.senado.leg.br/norma/528886/publicacao/15635723. 
Acesso em 05/12/2019. 
30 Decreto-Lei Nº 6.865 de 1944. Disponível em: 
http://legis.senado.leg.br/norma/531965/publicacao/15612531. 
Acesso em 05/12/2019. 
http://legis.senado.leg.br/norma/528886/publicacao/15635723
http://legis.senado.leg.br/norma/531965/publicacao/15612531
F A C U L D A D E S F A C E T E N 
 
31 
 
Por reconhecer que “a humanidade deve à 
criança o melhor de seus esforços”31 e que elas 
precisam de proteção e cuidados especiais, surge a 
Declaração Universal dos Direitos da Criança, em 1959, 
também como decorrência da Declaração Universal dos 
Direitos Humanos de 1948 e da Declaração de Genebra 
de 1924. 
No Brasil, problemas com o S. A. M. que iam da 
ineficiência ao desvio de verbas32 levaram à sua extinção 
e à criação da Fundação Nacional do Bem-Estar do 
Menor (Funabem), através da Lei Nº 4.513 de 1º de 
dezembro de 1964. O objetivo da Funabem era “formular 
e implantar a política nacional do bem-estar do menor”33. 
Durante o Regime Militar, em 21 de outubro de 
1969, os comandantes das Forças Armadas decretaram 
um novo Código Penal (que vigorou até 1978), através 
 
31 Preâmbulo da Declaração Universal dos Direitos da Criança de 
1959. Disponível em: https://www2.camara.leg.br/atividade-
legislativa/comissoes/comissoes-permanentes/cdhm/comite-
brasileiro-de-direitos-humanos-e-politica-externa/DeclDirCrian.html. 
Acesso em: 06/12/2019. 
32 MACIEL, Kátia Regina Ferreira Lobo Andrade. Curso de Direito da 
Criança e do Adolescente. Editora Saraiva, 2018, p. 39. 
33 Lei Nº 4.513/1964, art. 5º. Disponível em: 
https://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/1960-1969/lei-4513-1-
dezembro-1964-377645-publicacaooriginal-1-pl.html. Acesso em: 
06/12/2019. 
https://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/comissoes/comissoes-permanentes/cdhm/comite-brasileiro-de-direitos-humanos-e-politica-externa/DeclDirCrian.html
https://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/comissoes/comissoes-permanentes/cdhm/comite-brasileiro-de-direitos-humanos-e-politica-externa/DeclDirCrian.html
https://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/comissoes/comissoes-permanentes/cdhm/comite-brasileiro-de-direitos-humanos-e-politica-externa/DeclDirCrian.html
https://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/1960-1969/lei-4513-1-dezembro-1964-377645-publicacaooriginal-1-pl.html
https://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/1960-1969/lei-4513-1-dezembro-1964-377645-publicacaooriginal-1-pl.html
DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 
32 
 
do Decreto-Lei Nº 1.004, que reduzia a maioridade para 
16 anos e aplicaria penas diminuídas, caso o menor 
infrator demonstrasse aquilo que outrora se chamava de 
discernimento34: 
Art. 33. O menor de dezoito anos é 
inimputável salvo se, já tendo completado 
dezesseis anos, revela suficiente 
desenvolvimento psíquico para entender o 
caráter ilícito do fato e determinar-se de 
acôrdo com êste entendimento. Neste 
caso, a pena aplicável é diminuída de um 
terço até a metade. (Menores). 
Em 10 de outubro de 1979 o Congresso Nacional 
decretou e o Presidente João Figueiredo sancionou o 
Código de Menores de 1979, através da Lei Nº 6.697, 
que consolidou aquilo que ficou conhecido como 
Doutrina da Situação Irregular. 
Segundo seu art. 1º, I, o Código dispunha sobre 
a assistência, proteção e vigilância dos menores de 18 
anos de idade que estivessem em “situação irregular”. O 
alcance da expressão era assim definido35: 
 
34 Decreto-Lei Nº 1.004/1969, art. 33. Disponível em: 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/1965-
1988/Del1004.htm. Acesso em: 06/12/2019. 
35 Lei Nº 6.697/1979, art. 2º. Disponível em: 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/1970-
1979/L6697impressao.htm. Acesso em: 06/12/2019. 
 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/1965-1988/Del1004.htm
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/1965-1988/Del1004.htm
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/1970-1979/L6697impressao.htm
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/1970-1979/L6697impressao.htm
F A C U L D A D E S F A C E T E N 
 
33 
 
Art. 2º Para os efeitos deste Código, 
considera-se em situação irregular o 
menor: 
I - privado de condições essenciais à sua 
subsistência, saúde e instrução obrigatória, 
ainda que eventualmente, em razão de: 
a) falta, ação ou omissão dos pais ou 
responsável; 
b) manifesta impossibilidade dos pais ou 
responsável para provê-las; 
Il - vítima de maus tratos ou castigos 
imoderados impostos pelos pais ou 
responsável; 
III - em perigo moral, devido a: 
a) encontrar-se, de modo habitual, em 
ambiente contrário aos bons costumes; 
b) exploração em atividade contrária aos 
bons costumes; 
IV - privado de representação ou 
assistência legal, pela falta eventual dos 
pais ou responsável; 
V - Com desvio de conduta, em virtude de 
grave inadaptação familiar ou comunitária; 
VI - autor de infração penal. 
Com a promulgação da Constituição da 
República Federativa do Brasil, em 5 de outubro de 1988 
– CRFB/88 chegou ao fim a Doutrina da Situação 
Irregular e surgiu a Doutrina da Proteção Integral que 
pouco depois fez surgir o famoso Estatuto da Criança e 
do Adolescente, com a Lei Nº 8.069, em 13 de julho de 
1990. Ambos serão analisados a seguir. 
DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 
34 
 
2. DOUTRINA DA PROTEÇÃO INTEGRAL 
 
Para crianças e adolescentes, a Constituição da 
República de 1988 – CRFB/88 representou o fim de uma 
era marcada pelo binômio abandono-delinquência e o 
início de um novo tempo no qual deixaram de ser objeto 
de proteção assistencial e passaram a ser titulares de 
direitos subjetivos36. 
A Doutrina da Proteção Integral inaugura uma 
nova ordem jurídica de caráter universal, voltado à 
defesa e ao amparo de todas as pessoas em 
desenvolvimento. Crianças, adolescentes e jovens sem 
qualquer tipo de discriminação ganham dignidade e 
direitos que devem ser respeitados por todos: família, 
sociedade e Poder Público. 
Chamada de “Constituição Cidadã” por Ulysses 
Guimarães, a CRFB/88 trouxe muitas inovações, direitos 
e garantias tanto individuais quanto coletivos, direitos 
políticos, sociais, trabalhistas e, também, deveres e 
responsabilidades particularmente com as pessoas em 
 
36 MACIEL, Kátia Regina Ferreira Lobo Andrade. Curso de Direito da 
Criança e do Adolescente. Editora Saraiva, 2018, p. 42. 
F A C U L D A D E S F A C E T E N 
 
35 
 
desenvolvimento, como podemos ver nos seus artigos 
227 a 229: 
Art. 227. É dever da família, da sociedade 
e do Estado assegurar à criança, ao 
adolescente e ao jovem, com absoluta 
prioridade, o direito à vida, à saúde, à 
alimentação, à educação, ao lazer, à 
profissionalização, à cultura, à dignidade, 
ao respeito, à liberdade e à convivência 
familiar e comunitária, além de colocá-los a 
salvo de toda forma de negligência, 
discriminação, exploração, violência, 
crueldade e opressão. (Redação dada 
Pela Emenda Constitucional nº 65, de 
2010) 
§ 1º O Estado promoverá programas de 
assistência integral à saúde da criança, do 
adolescente e do jovem, admitida a 
participação de entidades não 
governamentais, mediante políticas 
específicas e obedecendo aos seguintes 
preceitos: (Redação dada Pela Emenda 
Constitucional nº 65, de 2010) 
I - aplicação de percentual dos recursos 
públicos destinados à saúde na assistência 
materno-infantil; 
II - criação de programas de prevenção e 
atendimento especializado para as 
pessoas portadoras de deficiência física, 
sensorial ou mental, bem como de 
integração social do adolescente e do 
jovem portador dedeficiência, mediante o 
treinamento para o trabalho e a 
convivência, e a facilitação do acesso aos 
bens e serviços coletivos, com a 
eliminação de obstáculos arquitetônicos e 
de todas as formas de discriminação. 
(Redação dada Pela Emenda 
Constitucional nº 65, de 2010) 
DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 
36 
 
§ 2º A lei disporá sobre normas de 
construção dos logradouros e dos edifícios 
de uso público e de fabricação de veículos 
de transporte coletivo, a fim de garantir 
acesso adequado às pessoas portadoras 
de deficiência. 
§ 3º O direito a proteção especial 
abrangerá os seguintes aspectos: 
I - idade mínima de quatorze anos para 
admissão ao trabalho, observado o 
disposto no art. 7º, XXXIII; 
II - garantia de direitos previdenciários e 
trabalhistas; 
III - garantia de acesso do trabalhador 
adolescente e jovem à escola; (Redação 
dada Pela Emenda Constitucional nº 65, 
de 2010) 
IV - garantia de pleno e formal 
conhecimento da atribuição de ato 
infracional, igualdade na relação 
processual e defesa técnica por 
profissional habilitado, segundo dispuser a 
legislação tutelar específica; 
V - obediência aos princípios de brevidade, 
excepcionalidade e respeito à condição 
peculiar de pessoa em desenvolvimento, 
quando da aplicação de qualquer medida 
privativa da liberdade; 
VI - estímulo do Poder Público, através de 
assistência jurídica, incentivos fiscais e 
subsídios, nos termos da lei, ao 
acolhimento, sob a forma de guarda, de 
criança ou adolescente órfão ou 
abandonado; 
VII - programas de prevenção e 
atendimento especializado à criança, ao 
adolescente e ao jovem dependente de 
entorpecentes e drogas afins. (Redação 
dada Pela Emenda Constitucional nº 65, 
de 2010) 
F A C U L D A D E S F A C E T E N 
 
37 
 
§ 4º A lei punirá severamente o abuso, a 
violência e a exploração sexual da criança 
e do adolescente. 
§ 5º A adoção será assistida pelo Poder 
Público, na forma da lei, que estabelecerá 
casos e condições de sua efetivação por 
parte de estrangeiros. 
§ 6º Os filhos, havidos ou não da relação 
do casamento, ou por adoção, terão os 
mesmos direitos e qualificações, proibidas 
quaisquer designações discriminatórias 
relativas à filiação. 
§ 7º No atendimento dos direitos da 
criança e do adolescente levar-se- á em 
consideração o disposto no art. 204. 
§ 8º A lei estabelecerá: (Incluído Pela 
Emenda Constitucional nº 65, de 2010) 
I - o estatuto da juventude, destinado a 
regular os direitos dos jovens; (Incluído 
Pela Emenda Constitucional nº 65, de 
2010) 
II - o plano nacional de juventude, de 
duração decenal, visando à articulação das 
várias esferas do poder público para a 
execução de políticas públicas. (Incluído 
Pela Emenda Constitucional nº 65, de 
2010) 
Art. 228. São penalmente inimputáveis os 
menores de dezoito anos, sujeitos às 
normas da legislação especial. 
Art. 229. Os pais têm o dever de assistir, 
criar e educar os filhos menores, e os 
filhos maiores têm o dever de ajudar e 
amparar os pais na velhice, carência ou 
enfermidade. 
A partir da nova ordem constitucional, crianças e 
adolescentes em “situação irregular” deixam de ser o 
alvo prioritário do poder sancionador do Estado e entram 
DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 
38 
 
na mira os responsáveis por garantir sua proteção. Ao 
lado da ampliação de direitos, veio também o aumento 
das responsabilidades e seu compartilhamento entre 
diversos os diversos integrantes desse sistema: família, 
sociedade e o Estado (poder Público). 
Se no período da Doutrina da Situação Irregular 
prevalecia um sistema de caráter filantrópico e 
assistencial comandado pelo Poder Judiciário de forma 
centralizada, com a Doutrina da Proteção Integral foi 
criada uma Rede de Proteção para a garantia dos 
direitos de crianças e adolescentes, como veremos em 
tópico específico mais adiante. 
Com vistas a garantir a eficácia e aplicabilidade 
imediata das normas definidoras de direitos e garantias 
fundamentais, como determina o art. 5º, § 1º da 
CRFB/88, foi criado o Estatuto da Criança e do 
Adolescente – ECA37, através da Lei Nº 8.069, de 13 de 
julho de 1990. 
Desta forma, o ECA é considerado um 
“microssistema aberto de regras e princípios”38 que 
 
37 Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm. 
Acesso em: 10/12/2019. 
38 MACIEL, Kátia Regina Ferreira Lobo Andrade. Curso de Direito da 
Criança e do Adolescente. Editora Saraiva, 2018, p. 44. 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm
F A C U L D A D E S F A C E T E N 
 
39 
 
produz efeitos em diversos campos do direito (civil, 
administrativo, penal, processual e outros) e cria a 
necessidade de interação de profissionais dos mais 
diversos ramos científicos (juristas, médicos, psicólogos, 
psiquiatras, assistentes sociais, pedagogos e outros). 
Trata-se de uma lei inovadora, que criou um complexo 
Sistema de Garantia de Direitos da Infância e da 
Juventude, sem precedentes no Brasil. 
Resumidamente é possível traçar o seguinte 
quadro comparativo entre as doutrinas da situação 
irregular (anterior) e da proteção integral (atual)39: 
ASPECTO ANTERIOR ATUAL 
Doutrinário Situação Irregular Proteção Integral 
Caráter Filantrópico Política Pública 
Fundamento Assistencialista Direito Subjetivo 
Centralidade Local Judiciário Município 
Competência 
Executória 
União/Estados Município 
Decisório Centralizador Participativo 
Institucional Estatal 
Cogestão 
Sociedade Civil 
Organização 
Piramidal 
Hierárquica 
Rede 
Gestão Monocrática Democrática 
 
 
39 BRANCHER, Leoberto Narciso. Organização e gestão do Sistema 
de Garantia de Direitos da Infância e da Juventude. KONZEN et al. 
Pela Justiça na Educação. Brasília: MEC, 2000, p. 126. 
DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 
40 
 
3. DIREITOS FUNDAMENTAIS DA CRIANÇA E DO 
ADOLESCENTE 
 
Direitos fundamentais podem ser definidos como 
um alicerce básico de direitos, essenciais e 
indispensáveis a todo e qualquer ser humano, sem 
nenhum tipo de distinção. São direitos que integram um 
núcleo intocável e inviolável de garantias das pessoas 
submetidas a um ordenamento jurídico. 
Na esfera internacional, os direitos fundamentais 
costumam ser chamados de direitos humanos, mas o 
conteúdo de ambos é o mesmo, o que muda é apenas a 
nomenclatura adotada. 
O rol dos Direitos Fundamentais é 
exemplificativo, ou seja, ele pode sofrer acréscimos além 
da previsão inicial. O art. 227 da CRFB/88, aponta como 
direitos fundamentais infantojuvenis: a vida, a saúde, a 
alimentação, a educação, o lazer, a profissionalização, a 
cultura, a dignidade, o respeito, a liberdade e a 
convivência familiar e comunitária. 
Preliminarmente, o ECA informa que a pessoa 
até 12 anos incompletos é considerada criança e dos 12 
F A C U L D A D E S F A C E T E N 
 
41 
 
aos 18 anos, adolescente. Excepcionalmente o jovem 
entre 18 e 21 anos será protegido pelo Estatuto40. 
Em seguida, o ECA estabelece que “a criança e 
o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais 
inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção 
integral de que trata esta Lei, assegurando-se-lhes, por 
lei ou por outros meios, todas as oportunidades e 
facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento 
físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de 
liberdade e de dignidade” (art. 3º). O parágrafo único do 
mesmo dispositivo esclarece que os direitos previstos 
pelo ECA aplicam-se a todas as crianças e adolescentes, 
sem nenhuma discriminação. 
O Título II do ECA cuida especificamente “Dos 
Direitos Fundamentais” e prevê: o direito à vida e à 
saúde (capítulo I), o direito à liberdade, ao respeito e à 
dignidade (cap. II), o direito à convivência familiar e 
comunitária (cap. III), o direito à educação, à cultura, ao 
 
40 Lei Nº 8.069/90: “Art. 2º Considera-secriança, para os efeitos 
desta Lei, a pessoa até doze anos de idade incompletos, e 
adolescente aquela entre doze e dezoito anos de idade. 
Parágrafo único. Nos casos expressos em lei, aplica-se 
excepcionalmente este Estatuto às pessoas entre dezoito e vinte e 
um anos de idade”. 
DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 
42 
 
esporte e ao lazer (cap. IV) e o direito à 
profissionalização e à proteção no trabalho (cap. V). 
3.1. Direito Fundamental à Vida e à Saúde 
A proteção do direito à vida e à saúde da criança 
e do adolescente deve ser efetivado através de “políticas 
sociais públicas que permitam o nascimento e o 
desenvolvimento sadio e harmonioso, em condições 
dignas de existência” (art. 7º). 
Para assegurar o nascimento saudável, o ECA 
protege a vida da criança desde a fase intrauterina e 
assegura “a todas as mulheres o acesso aos programas 
e às políticas de saúde da mulher e de planejamento 
reprodutivo e, às gestantes, nutrição adequada, atenção 
humanizada à gravidez, ao parto e ao puerpério e 
atendimento pré-natal, perinatal e pós-natal integral no 
âmbito do Sistema Único de Saúde” (art. 8º). 
Em 2019, preocupado com as altas taxas de 
gravidez durante a adolescência, o legislador incluiu o 
art. 8-A no ECA e criou a Semana Nacional de 
Prevenção da Gravidez na Adolescência, para 
“disseminar informações sobre medidas preventivas e 
educativas que contribuam para a redução da incidência 
da gravidez na adolescência”. 
F A C U L D A D E S F A C E T E N 
 
43 
 
Entre as demais regras relativas à vida e à saúde 
destaca-se a obrigatoriedade de comunicar ao Conselho 
Tutelar da localidade qualquer caso “de suspeita ou 
confirmação de castigo físico, de tratamento cruel ou 
degradante e de maus-tratos contra criança ou 
adolescente” (art. 13). 
3.2. Direito Fundamental à Liberdade, ao 
Respeito e à Dignidade 
O ECA afirma que “a criança e o adolescente 
têm direito à liberdade, ao respeito e à dignidade como 
pessoas humanas em processo de desenvolvimento e 
como sujeitos de direitos civis, humanos e sociais 
garantidos na Constituição e nas leis” (art. 15). 
Essa liberdade, segundo o Estatuto compreende 
os seguintes direitos: ir, vir e estar nos logradouros 
públicos e espaços comunitários, ressalvadas as 
restrições legais (art. 16, I); opinião e expressão (art. 16, 
II); crença e culto religioso (art. 16, III); brincar, praticar 
esportes e divertir-se (art. 16, IV); participar da vida 
familiar e comunitária, sem discriminação (art. 16, V); 
participar da vida política, na forma da lei (art. 16, VI); 
buscar refúgio, auxílio e orientação (art. 16, VII). 
DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 
44 
 
O direito fundamental ao respeito traduz-se na 
“inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral da 
criança e do adolescente, abrangendo a preservação da 
imagem, da identidade, da autonomia, dos valores, 
ideias e crenças, dos espaços e objetos pessoais” (art. 
17). 
Dignidade é ser tratado como um fim em si 
mesmo e nunca como meio para algum fim. Assim, o 
direito fundamental à dignidade das crianças e 
adolescentes configura-se com a proibição “de qualquer 
tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório 
ou constrangedor” (art. 18). 
Em 2014, entrou em vigor a Lei nº 13.010, mais 
conhecida como “Lei da Palmada”, que inseriu os artigos 
18-A e 18-B no ECA para resguardar ainda mais a 
dignidade e a incolumidade infantojuvenil: 
“Art. 18-A. A criança e o adolescente têm o 
direito de ser educados e cuidados sem o 
uso de castigo físico ou de tratamento 
cruel ou degradante, como formas de 
correção, disciplina, educação ou qualquer 
outro pretexto, pelos pais, pelos 
integrantes da família ampliada, pelos 
responsáveis, pelos agentes públicos 
executores de medidas socioeducativas ou 
por qualquer pessoa encarregada de 
cuidar deles, tratá-los, educá-los ou 
protegê-los. 
F A C U L D A D E S F A C E T E N 
 
45 
 
Parágrafo único. Para os fins desta Lei, 
considera-se: 
I - castigo físico: ação de natureza 
disciplinar ou punitiva aplicada com o uso 
da força física sobre a criança ou o 
adolescente que resulte em: 
a) sofrimento físico; ou 
b) lesão; 
II - tratamento cruel ou degradante: 
conduta ou forma cruel de tratamento em 
relação à criança ou ao adolescente que: 
a) humilhe; ou 
b) ameace gravemente; ou 
c) ridicularize.” 
Art. 18-B. Os pais, os integrantes da 
família ampliada, os responsáveis, os 
agentes públicos executores de medidas 
socioeducativas ou qualquer pessoa 
encarregada de cuidar de crianças e de 
adolescentes, tratá-los, educá-los ou 
protegê-los que utilizarem castigo físico ou 
tratamento cruel ou degradante como 
formas de correção, disciplina, educação 
ou qualquer outro pretexto estarão sujeitos, 
sem prejuízo de outras sanções cabíveis, 
às seguintes medidas, que serão aplicadas 
de acordo com a gravidade do caso: 
I - encaminhamento a programa oficial ou 
comunitário de proteção à família; 
II - encaminhamento a tratamento 
psicológico ou psiquiátrico; 
III - encaminhamento a cursos ou 
programas de orientação; 
IV - obrigação de encaminhar a criança a 
tratamento especializado; 
V - advertência. 
Parágrafo único. As medidas previstas 
neste artigo serão aplicadas pelo Conselho 
Tutelar, sem prejuízo de outras 
providências legais.” 
DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 
46 
 
3.3. Direito Fundamental à Convivência Familiar 
e Comunitária 
O ECA estabelece que toda criança e 
adolescente tem direito de “ser criado e educado no seio 
de sua família e, excepcionalmente, em família 
substituta, assegurada a convivência familiar e 
comunitária, em ambiente que garanta seu 
desenvolvimento integral” (art. 19). 
A Lei Nº 13.509/17 inseriu os artigos 19-A e 19-B 
no ECA e, assim, revitalizou o instituto da adoção: 
garantiu atendimento especializado à mãe que não tenha 
interesse em permanecer com o filho e determinou a 
busca de alguma pessoa apta na família extensa para 
receber a guarda, se não houver indicação do genitor. O 
art. 19-B prevê o programa de apadrinhamento para 
proporcionar vínculos externos e convivência familiar e 
comunitária às crianças e adolescentes de programas de 
acolhimento. 
Entre as regras relativas ao direito à convivência 
familiar e comunitária destaca-se ainda o a isonomia de 
direitos entre todos os filhos “havidos ou não da relação 
do casamento, ou por adoção”, além da proibição de 
F A C U L D A D E S F A C E T E N 
 
47 
 
“quaisquer designações discriminatórias relativas à 
filiação” (art. 20). 
Pai e mãe têm direitos, deveres e 
responsabilidades iguais: o sustento, a guarda e a 
educação dos filhos incumbe a ambos (art. 22). O 
exercício do poder familiar também cabe aos dois, em 
condições iguais e no caso de divergências, qualquer um 
deles pode recorrer à autoridade judiciária para 
solucionar a questão (art. 21). E a carência de recursos 
materiais não ensejará a perda ou suspensão do poder 
familiar (art. 23). 
3.4. Direito Fundamental à Educação, à Cultura, 
ao Esporte e ao Lazer 
A educação é um direito fundamental de toda 
criança e adolescente que se apoia no seguinte tripé: 1) 
desenvolvimento pleno da pessoa, 2) preparo para o 
exercício da cidadania e 3) qualificação para o trabalho 
(art. 53). 
Para a concretização do direito à educação, é 
assegurado às crianças e adolescentes: igualdade de 
condições para o acesso e permanência na escola 
(art.53, I); direito de ser respeitado por seus educadores 
(art.53, II); direito de contestar critérios avaliativos, 
DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 
48 
 
podendo recorrer às instâncias escolares superiores 
(art.53, III); direito de organização e participação em 
entidades estudantis (art.53, IV); e acesso à escola 
pública e gratuita, próxima de sua residência, garantindo-
se vagas no mesmo estabelecimento a irmãos que 
frequentem a mesma etapa ou ciclo de ensino da 
educação básica (art.53,V, com redação dada pela Lei 
nº 13.845, de 2019). 
É assegurado aos pais ou responsáveis a 
participação no processo educacional, uma vez que eles 
têm direito de “ter ciência do processo pedagógico, bem 
como participar da definição das propostas educacionais” 
(art.53, parágrafo único). 
A Lei Nº 13.840/2019 acrescentou o art. 53-A ao 
ECA para obrigar as instituições de ensino, clubes, 
agremiações recreativas e semelhantes a “assegurar 
medidas de conscientização, prevenção e enfrentamento 
ao uso ou dependência de drogas ilícitas”. 
A cultura, o esporte e o lazer de crianças e 
adolescentes ficam a cargo dos municípios, que devem 
estimular e facilitar a “destinação de recursos e espaços 
para programações culturais, esportivas e de lazer 
F A C U L D A D E S F A C E T E N 
 
49 
 
voltadas para a infância e a juventude”, com apoio dos 
demais entes federativos: estados e União (art. 59). 
3.5. Direito Fundamental à Profissionalização e 
à Proteção no Trabalho 
O exercício do direito fundamental à 
profissionalização destina-se apenas a adolescentes e 
existem dois aspectos que devem ser obrigatoriamente 
observados: o respeito à condição peculiar de pessoa 
em desenvolvimento; e a capacitação profissional 
adequada ao mercado de trabalho (art. 69, I e II). 
O trabalho dos menores de 14 anos é 
terminantemente proibido tanto pela Constituição da 
República de 1988, em seus arts. 7º, XXXIII e 227, § 3º, 
I, quanto pelo ECA, em seu art. 60 e pela Consolidação 
das Leis do Trabalho – CLT, em seu art. 403. Todos 
esses dispositivos determinam que entre os 14 e os 16 
anos, o adolescente poderá trabalhar como aprendiz. 
Mesmo na condição de aprendiz, é assegurado 
ao adolescente os direitos trabalhistas e previdenciários 
(art. 65) e, tanto ao aprendiz (dos 14 aos 16 anos), 
quanto ao adolescente empregado (dos 16 aos 18 anos) 
é proibido o trabalho: noturno, realizado entre as vinte e 
duas horas de um dia e as cinco horas do dia seguinte 
DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 
50 
 
(art. 67, I); perigoso, insalubre ou penoso (art. 67, II); 
realizado em locais prejudiciais à sua formação e ao seu 
desenvolvimento físico, psíquico, moral e social (art. 67, 
III); realizado em horários e locais que não permitam a 
frequência à escola (art. 67, IV). 
É importante destacar que a CLT impõe que 
estabelecimentos de qualquer natureza empreguem e 
matriculem nos “cursos dos Serviços Nacionais de 
Aprendizagem número de aprendizes equivalente a cinco 
por cento, no mínimo, e quinze por cento, no máximo, 
dos trabalhadores existentes em cada estabelecimento, 
cujas funções demandem formação profissional” (art. 429 
da CLT). E determinar também que a “duração do 
trabalho do aprendiz não excederá de seis horas diárias, 
sendo vedadas a prorrogação e a compensação de 
jornada” (art. 432 da CLT). 
4. PRINCÍPIOS DO DIREITO DA CRIANÇA E DO 
ADOLESCENTE 
 
Princípios são “normas-do-que-deve-ser”, eles 
“estabelecem um estado ideal de coisas a ser atingido 
(state of affairs, Idealzustand), em virtude do qual deve o 
aplicador verificar a adequação do comportamento a ser 
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51 
 
escolhido ou já escolhido para resguardar tal estado de 
coisas”41. 
Entre os inúmeros princípios do Direito da 
Criança e do Adolescente previstos pelos legisladores, 
por doutrinadores e pelos operadores do Direito, 
destacam-se alguns que podem ser considerados 
norteadores da aplicação do Direito da Criança e do 
Adolescente no Brasil: 1) princípio da prioridade 
absoluta; 2) princípio do melhor interesse da criança; 3) 
princípio da municipalização. 
Há outros princípios adicionais relativos à 
interpretação e aplicação do Estatuto da Criança e do 
Adolescente previstos, sobretudo no art. 100, e em seu 
parágrafo único, além de outros assegurados por 
tratados e convenções internacionais dos quais o Brasil 
seja signatário. A seguir veremos os três princípios 
norteadores, suas definições e características. 
 
4.1. Princípio da Prioridade Absoluta 
Ainda que o art. 5º da CRFB/88 afirme que todos 
são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer 
 
41 ÁVILA, Humberto. Teoria dos Princípios – da definição à aplicação 
dos princípios jurídicos, 7ª. Brasil: Malheiros, 2007, p. 71 e 72. 
DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 
52 
 
natureza, a mesma Constituição, no capítulo que cuida 
“Da Família, da Criança, do Adolescente, do Jovem e do 
Idoso”, determina que há um “público preferencial”: 
Art. 227. É dever da família, da sociedade 
e do Estado assegurar à criança, ao 
adolescente e ao jovem, com absoluta 
prioridade, o direito à vida, à saúde, à 
alimentação, à educação, ao lazer, à 
profissionalização, à cultura, à dignidade, 
ao respeito, à liberdade e à convivência 
familiar e comunitária, além de colocá-los a 
salvo de toda forma de negligência, 
discriminação, exploração, violência, 
crueldade e opressão. (Redação dada 
Pela Emenda Constitucional nº 65, de 
2010) 
Além de ser um princípio de índole 
constitucional, ele também encontra-se expressamente 
previsto pelo art. 4º do ECA: 
Art. 4º É dever da família, da comunidade, 
da sociedade em geral e do poder público 
assegurar, com absoluta prioridade, a 
efetivação dos direitos referentes à vida, à 
saúde, à alimentação, à educação, ao 
esporte, ao lazer, à profissionalização, à 
cultura, à dignidade, ao respeito, à 
liberdade e à convivência familiar e 
comunitária. 
O princípio da prioridade absoluta tem caráter 
norteador, pois deve orientar a atuação da família, da 
sociedade e, sobretudo, do Estado (Poder Público). 
Aplica-se a todas as situações que envolvam direitos 
F A C U L D A D E S F A C E T E N 
 
53 
 
infantojuvenis e estabelece que mesmo quando estiver 
diante de outras prioridades, esta deve prevalecer, 
devido ao caráter absoluto imposto pelo constituinte. 
Portanto, quando o administrador público estiver 
formulando ou executando políticas públicas, o princípio 
da prioridade absoluta atua como limitador e 
condicionante do seu poder discricionário e deve se 
traduzir em primazia na destinação de recursos42. 
4.2. Princípio do Melhor Interesse da Criança 
A Declaração dos Direitos da Criança de 1959, 
ratificada pelo Brasil, prevê o melhor interesse da criança 
em dois dispositivos43: 
Princípio 2º: A criança gozará proteção 
social e ser-lhe-ão proporcionadas 
oportunidades e facilidades, por lei e por 
outros meios, a fim de lhe facultar o 
desenvolvimento físico, mental, moral, 
espiritual e social, de forma sadia e normal 
e em condições de liberdade e dignidade. 
Na instituição das leis visando este 
objetivo levar-se-ão em conta sobretudo, 
os melhores interesses da criança. 
 
42 DIGIÁCOMO, Murillo José; DIGIÁCOMO, Ildeara de Amorim. 
Estatuto da criança e do adolescente anotado e interpretado. 
Ministério Público do Estado do Paraná. Centro de Apoio 
Operacional das Promotorias da Criança e do Adolescente, 2017, p. 
v. 
43 Disponível em: https://www.unicef.org/brazil/convencao-sobre-os-
direitos-da-crianca. Acesso em: 12/12/2019. 
https://www.unicef.org/brazil/convencao-sobre-os-direitos-da-crianca
https://www.unicef.org/brazil/convencao-sobre-os-direitos-da-crianca
DIREITO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 
54 
 
(...) 
Princípio 7º: Os melhores interesses da 
criança serão a diretriz a nortear os 
responsáveis pela sua educação e 
orientação; esta responsabilidade cabe, 
em primeiro lugar, aos pais. A criança terá 
ampla oportunidade para brincar e divertir-
se, visando os propósitos mesmos da sua 
educação; a sociedade e as autoridades 
públicas empenhar-se-ão em promover o 
gozo deste direito. 
O Decreto Nº 99.710/1990 que internalizou a 
Convenção sobre os Direitos da Criança de 1990 firmou 
o princípio do melhor interesse em nosso ordenamento 
jurídico ao prever, entre

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