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48 Escritos sobre Educação Conservei os longos parágrafos de Nietzsche que aparecem Friedrich Nietzsche em algumas oportunidades, para deixar intocado o ritmo e o fôlego do texto. No entanto, sempre que as citações feitas por Nietzsche são mais longas, elas foram destacadas na tradução, embora no texto original elas não aparecessem assim. AGRADECIMENTOS SOBRE FUTURO DOS NOSSOS Devo, em primeiro lugar, um agradecimento especial ao Prof. DE ENSINO Fernando de Almeida Sá, amigo perene, pela indicação para a publicação destes escritos de Nietzsche, ainda inéditos como tex- tos integrais em português. Agradeço também ao Colégio Pedro II, na pessoa do seu Diretor Geral, o Prof. Wilson Choeri, velho amigo, por me ter disponibilizado o tempo necessário para a consecução deste tra- PREFÁCIO balho, que certamente deverá ser objeto de discussões nos meios acadêmicos do Colégio. O título que dei a minhas conferências deveria, como é o dever Agradeço ao Prof. Luiz Carlos de Oliveira e Silva, amigo-irmão, de qualquer título, ser tão preciso, claro e persuasivo quanto pos- que me trouxe a versão em espanhol dos escritos de Nietzsche aqui sível; mas, observo agora, um excesso de precisão o torna muito publicados e me ajudou pacientemente nas revisões da tradução. sumário e faz que ele perca em clareza, de modo que me é preciso Agradeço, enfim, ao Prof. James Arêas, amigo e companheiro começar explicando, ou seja, como é necessário, pedindo des- de trabalho na UERJ, a quem devo o esclarecimento de algumas culpas, na presença dos meus honrados ouvintes, por este títu- notas da tradução. lo e também pela tarefa atribuída a estas conferências. Quando prometi falar do futuro dos nossos estabelecimentos de ensino, não pensava em primeiro lugar e particularmente no futuro e no desenvolvimento das instituições deste tipo que a nossa cidade da Basileia possui. Parecerá muitas vezes que muitas das minhas afirmações gerais poderiam ser aplicadas aos estabelecimentos de educação que temos aqui; mas não serei eu quem fará estas aplicações e não quero, por esta razão, carregar a responsabili- dade dos usos que poderiam ser feitos dos meus propósitos, sim- plesmente porque me vejo nisso como estranho e inexperiente, porque sinto que tenho poucas raízes aqui para fazer um julga-50 Escritos sobre Educação Sobre o Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Ensino 51 mento correto sobre um aspecto tão particular dos problemas universidade alemã: fazendo isso, renunciamos provisoriamente do ensino, ou para desenhar seu futuro com alguma segurança. a qualquer comparação e a qualquer julgamento de valor, como Por outro lado, tenho plena consciência do lugar onde vou fazer se as condições que são as nossas, em relação às de outros povos estas conferências, quer dizer, uma cidade que, com o espírito de cultos, fossem modelos universais jamais superados. Basta que uma elevação incomparável, numa escala que tem algo de humi- sejam escolas onde adquirimos a cultura; não é fortuito que este- lhante para os Estados mais importantes, busca fazer progredir jam associadas a nós e não colocadas sobre nós como uma vesti- a formação e a educação dos seus cidadãos; além disso, eu não menta: como traços vivos de importantes movimentos culturais, estaria certamente errado em supor que lá onde se faz mais neste em certos casos "material doméstico dos nossos domínio, se deve também pensar mais. Mas devo justamente fa- elas nos unem ao passado do povo e, nos seus aspectos essen- zer o voto, e mesmo supô-lo realizado, de me achar convivendo ciais, são um patrimônio tão sagrado e tão venerável, que eu não com ouvintes que refletiram sobre as questões da educação e do poderia falar de futuro dos nossos estabelecimentos de ensino se- ensino e que tiveram também a vontade de realizar nos fatos o não na esperança me de aproximar deles, tanto quanto possível, que reconheceram ser conveniente: e, em vista da importância o espírito ideal de onde nasceram. A propósito disso, permanece da tarefa e da brevidade do tempo que me foi concedido, não me diante dos meus olhos o fato de que muitas mudanças dos nossos farei compreender por meus ouvintes a não ser que eles adivi- estabelecimentos de ensino, que a nossa época se permitiu para nhem imediatamente o que não pode ser senão indicado, a não torná-los "atuais", são em boa parte aspectos falhos e errâncias ser que supram o que seria preciso ocultar e que, de uma maneira em relação à tendência sublime que originariamente presidiu sua geral, tenham somente necessidade de que se lhes lembre o que fundação: e o que, nesta visão, podemos esperar do futuro é uma sabem e não que se lhes ensine novamente. renovação, um refrigério, uma purificação tão geral do espírito Se, então, devo recusar absolutamente passar por alguém que alemão, que estes estabelecimentos conhecerão por isso, numa viria, sem ser convidado, a dar conselhos em matéria de escola e certa medida, um novo nascimento e que, depois, eles parecerão de educação nas questões específicas da Basileia, imagino ainda ao mesmo tempo jovens e velhos, ainda que agora não preten- menos profetizar o futuro da educação e dos meios de educação, dam na maioria das vezes ser senão "modernos" e "atuais". confundindo todo o horizonte dos povos cultos de hoje: con- É somente com esta esperança que falo de um futuro dos nos- templando a imensidão deste campo, meu olhar fica cego, assim estabelecimentos de ensino: é sobre este segundo ponto que como perde sua segurança ao examinar objetos muito próximos. é preciso preventivamente me explicar e me desculpar. Querer Pela expressão nossos estabelecimentos de ensino, não entendo ser profeta é sem dúvida a maior das presunções, de modo que portanto nem aqueles que são particulares da Basileia, nem as parece ridículo declarar que não se quer sê-lo. Ninguém teria o muitas formas que oferece a realidade maior que envolve todos direito de falar com tom de oráculo sobre o futuro da nossa cul- os povos, mas as instituições deste tipo, das quais, aqui tura e sobre a questão que está ligada a ela, o futuro dos nossos também, podemos gozar os benefícios. É o futuro destas insti- tuições alemãs que nos deve reter, quer dizer, o futuro da escola 1. Cf. Goethe [1749-1832] Faust I, 408. [Nota da edição francesa]. Há uma edição brasileira desta obra de Goethe, traduzida por Jenny Klabin Segall [Editora Itatiaia, primária alemã, da escola técnica alemã, do ginásio alemão, da Belo Horizonte, 1987].52 Escritos sobre Educação Sobre o Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Ensino 53 meios e dos nossos métodos educacionais, se não pudesse provar que disse até agora, é preciso que meus honrados ouvintes que esta cultura vindoura é já, numa certa medida, um presen- o entendam como um prefácio, cuja tarefa não poderia ser senão te e que, numa medida maior ainda, ela deve se expandir para a de ilustrar o título das minhas conferências e de protegê-lo exercer uma influência necessária sobre a escola e as instituições contra incompreensões possíveis e contra exigências injustifica- educacionais. Que se me permita adivinhar o futuro, como um das. Para designar, desde já, no início de minhas considerações, arúspice nas entranhas do presente, o que, no caso que quando passo do título à coisa, o círculo geral de pensamentos a nos ocupa, significa somente anunciar a vitória futura de uma partir do qual se deve tentar avaliar nossos estabelecimentos de tendência da cultura que já existe, ainda que no momento ela ensino, uma tese claramente formulada deve, como estes brasões não seja nem amada, nem honrada, nem divulgada. Ela vencerá, acima deste portão, lembrar aquele que chega a quem pertencem tenho plena confiança nisso, porque possui o maior e o mais a casa e o domínio onde vai entrar, caso ele não prefira, depois poderoso aliado, a natureza: e não temos o direito de silenciar de ter considerado bem os brasões, voltar suas costas à casa e ao sobre o fato de que muitos pressupostos dos nossos métodos edu- domínio que eles indicam. Eis aqui minha tese: cacionais modernos levam consigo o caráter do não-natural e Duas correntes aparentemente opostas, ambas nefastas nos que as mais graves fraquezas do nosso tempo estão justamente seus efeitos e finalmente unidas nos seus resultados, dominam ligadas a estes métodos antinaturais de educação. que hoje os nossos estabelecimentos de ensino, originariamente fun- se sente unido ao tempo presente e que o considera como algo dados em bases totalmente diferentes: por um lado, a tendência que "é evidente", não lhe invejamos, nem sua crença, nem esta de estender tanto quanto possível a cultura, por outro lado, a expressão à moda do "é evidente", uma união escandalosa; mas tendência de reduzi-la e enfraquecê-la. De acordo com a pri- aquele que, tendo chegado ao ponto de vista oposto, desespera, meira tendência, a cultura deve ser levada a círculos cada vez não tem mais necessidade de lutar e se abandona à solidão para mais amplos; de acordo com a segunda, se exige da cultura que se achar logo isolado. Entre os servidores do que "é evidente" e ela abandone suas mais elevadas pretensões de soberania e se os solitários, estamos nós, os lutadores, quer dizer, os que estão submeta como uma serva de outra forma de vida, especialmente cheios de esperança, aqueles para quem a expressão mais nobre e aquela do Estado. Ao examinar estas duas tendências fatais à mais sublime é nosso grande Schiller, tal como Goethe o descre- extensão e à redução, nos desesperaríamos totalmente, se não ve no seu epílogo a O Sino: fosse em determinado momento possível ajudar a vencer estas duas tendências opostas, realmente alemães e de uma maneira Agora seu rosto se inflama / Com esta juventude que jamais geral ricas de futuro, quer dizer, a tendência ao estreitamento e nos fugiu, / Com esta coragem que, cedo ou tarde, / Vence a resistência de um mundo inerte, estúpido, / Com esta fé que à concentração da cultura, como réplica à extensão, e a tendên- sempre mais elevada / Avança intrepidamente ou se curva li- cia ao fortalecimento e à soberania da cultura, como réplica à geiramente, / Para que o bem aja, cresça, sirva, / Para que che- redução. A crença na possibilidade de uma vitória é justificada, gue enfim o dia dos nobres. porque sabemos que estas duas tendências à extensão e à re- dução são tão contrárias aos desígnios constantes da natureza 2. Arúspice é um sacerdote romano da Antiguidade que fazia prognósticos e pressá- gios, consultando as entranhas das vítimas. quanto a concentração da cultura num pequeno número é uma54 Escritos sobre Educação Sobre o Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Ensino 55 lei necessária da natureza, e de uma maneira geral uma verdade, de se deixar esmagar por suas rodas - portanto, a bem poucos embora as duas outras tendências só possam chegar a fundar homens! Mas estes homens não podem já habituar-se a calcular uma cultura mentirosa. o valor de cada coisa pelo tempo economizado ou pelo tempo perdido, eles têm "ainda tempo"; e lhes é ainda permitido, sem experimentar remorso, escolher e buscar as boas horas do dia e 2° PREFÁCIO seus momentos fecundos e poderosos para meditar sobre o futu- ro da nossa cultura, eles têm o direito de acreditar que passaram O leitor de quem espero algo deve ter três qualidades: ele deve ser seu dia de maneira digna e verdadeiramente útil, na meditatio calmo e ler sem pressa, não deve sempre privilegiar a si e à sua generis Um homem como este ainda não desaprendeu a "cultura", não deve, enfim, esperar por encerrar um quadro de pensar lendo, ele conhece ainda o segredo de ler nas entrelinhas; resultados. Não prometo quadros e novos horários para os giná- ele tem inclusive caráter tão pródigo, que ainda medita sobre sios e as escolas técnicas, admiro bem mais a natureza poderosa leu, talvez durante muito tempo depois de ter fechado o daqueles que são capazes de percorrer toda a via das profundezas livro. E não para escrever um resumo ou ainda um livro, não, da experiência até o cume dos verdadeiros problemas da cultu- somente como tal, para meditar! Abominável dissipador! Ele que ra, e inversamente destes cumes até os porões dos regulamentos é tão calmo e indiferente para comprometer-se com o autor num mais áridos e dos quadros mais esmerados; mas fico satisfeito caminho, cujo fim não aparecerá em toda sua clareza senão numa se, estafando-me, tiver subido uma montanha de alguma impor- geração muito longínqua! Se, ao contrário, o leitor, violentamente tância; e se posso gozar de um horizonte mais livre, não poderei excitado, se precipita imediatamente na ação, se ele quer colher jamais neste livro satisfazer os amantes de quadros. no chão os frutos que gerações inteiras podiam somente obter, é Vejo certamente vir um tempo em que os homens sérios, a preciso então temer que ele não tenha compreendido o autor. serviço de uma cultura inteiramente renovada e purificada e num A terceira e a mais importante de nossas exigências é enfim trabalho comum, se tornarão os legisladores da educação roti- que, num caso, à maneira dos homens de hoje, ele não coloque, neira - da educação que leva a esta cultura; é verdade que então a si e à sua cultura, como medida e critério seguro de todas as eles produzirão quadros - mas este tempo está ainda distante! coisas. Desejamos antes que seja bastante culto para não ter da E o que deve ser produzido neste meio-tempo? Talvez entre este sua cultura senão uma opinião modesta, ou seja, desprezível; ele tempo e o tempo presente se vá assistir à destruição do giná- poderia então abandonar-se com toda confiança à condução do sio, talvez mesmo à destruição da Universidade, ou pelo menos autor que ousou falar-lhe assim, somente por não-saber e saber a uma transformação tão completa destes estabelecimentos de de seu não-saber. Ele não exige senão um sentimento inflamado ensino, que seus quadros antigos, aos olhos vindouros, parecerão com aquilo que há de específico na nossa barbárie alemã atual, restos de uma civilização lacustre. com aquilo que nos distingue tão admiravelmente, nós, os bárba- Este livro é destinado aos leitores calmos, aos homens que ros do século XIX, dos bárbaros das outras épocas. não foram ainda arrastados pela pressa vertiginosa da nossa época precipitada e que não experimentaram um prazer idólatra 3. Em latim no texto, significando "reflexão geradora do futuro".56 Escritos sobre Educação Sobre o Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Ensino 57 E agora, com este livro na mão, ele procura pessoas que sejam belecimentos de ensino, que ele se propusesse repeti-lo diante de impulsionadas de todos os lados por sentimentos análogos. Per- vocês; é possível que os mestres que tiveram tenham sido gran- mita-se que se os encontre, homens isolados, em cuja existência des personagens, com capacidade de predizer o futuro, e isto, à acredito! Seres cheios de abnegação, que sofrem em si mesmos maneira dos arúspices romanos, examinando as entranhas do os sofrimentos e as perversões do espírito alemão, seres dotados presente. pela contemplação, cujo olho não desliza num exame prematuro De fato, é por algo deste gênero que vocês devem esperar. na superfície das coisas, mas sabe encontrar o caminho até o Certa vez me ocorreu, graças a circunstâncias estranhas, mas no núcleo do seu ser, seres de uma grande elevação, a quem Aristó- fundo totalmente inocentes, ser testemunha de uma conversa que teles elogia, por atravessarem a vida hesitando e sem agir, exceto homens admiráveis tiveram exatamente sobre este assunto, e te- quando exigem uma grande honra e uma grande obra4. É a vocês nho profundamente gravado na minha memória os pontos mais que apelo! Não se escondam desta vez nas cavernas do seu recolhi- importantes das suas reflexões, assim como toda sua maneira mento e da sua desconfiança! Sejam pelo menos leitores deste livro, de considerar a questão, não para que eu, quando me proponho para logo, com sua ação, destruí-lo e esquecê-lo! Imaginem que ele semelhantes objetos, venha a seguir sempre a mesma via: apenas está destinado a ser o arauto de vocês: quando vocês, na sua pró- me falta às vezes esta coragem segura da qual, para meu espanto, pria armadura, aparecerem no campo de batalha, quem terá ainda estes homens deram então prova diante de mim, seja exprimindo desejo de lançar um olhar sobre o arauto que os convoca? com ousadia verdades interditas, seja inflamando suas próprias esperanças com uma ousadia maior ainda. Assim, me pareceu cada vez mais útil descrever enfim com boa fé um diálogo assim, PRIMEIRA CONFERÊNCIA de maneira a animar os outros a emitir um juízo sobre pontos de vista e declarações tão admiráveis: e, para este fim e por razões Caros ouvintes, particulares, acreditei poder aproveitar esta ocasião que me pro- porcionaram estas conferências públicas. O assunto sobre o qual vocês têm a intenção de refletir comi- De fato, tenho plena consciência do lugar em que agora acon- go é tão sério, tão importante e, num certo sentido, tão pertur- selho a refletir e a meditar a respeito deste diálogo, quer dizer, bador, que eu próprio, como vocês, me voltaria de boa-vontade esta cidade que, com o espírito de uma elevação incomparável, para o primeiro que me prometesse ensinar algo a respeito disso, procura fazer progredir a formação da educação de seus cida- por mais jovem que ele fosse e por mais improvável que fosse que dãos, numa escala que só pode ter algo de humilhante para os ele por si mesmo pudesse, com suas próprias forças, alcançar um Estados mais importantes: assim, certamente não estou errado resultado suficiente e proporcional à grandeza da tarefa. Seria, quando suponho que lá onde se faz mais neste domínio se deve no entanto, sempre possível que ele tivesse querido dizer algo de também pensar mais. É justamente a tais ouvintes que poderei justo sobre esta perturbadora questão, futuro dos nossos esta- me fazer compreender quando contar o diálogo ao qual me refi- ro - ouvintes que adivinham imediatamente o que somente pode 4. Cf. Aristóteles, Étique à Nicomaque, 1124 b 24-25. [Nota da edição francesa]. ser indicado, que completem o que foi preciso calar e que, deSobre Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Ensino 59 58 Escritos sobre Educação uma maneira geral, somente precisem que se lhes lembre o que já ordinária coincidência nos obrigava a executá-lo. Decidimos en- sabem, e não que lhes seja ensinado uma coisa nova. tão fundar uma pequena sociedade de colegas pouco numerosa, Escutem, portanto, senhores, a minha inocente experiência e com o fim de dar uma organização sólida e obrigatória às incli- a conversa menos inocente destes homens a quem até agora não nações que deveríamos criar no domínio da arte e da literatura; dei os nomes. ou, para ser mais claro, cada um de nós devia comprometer-se Coloquemo-nos no estado de espírito de um jovem estudante, em enviar todo mês uma produção sua, quer se tratasse de um quer dizer, num estado de espírito que, na época tumultuada poema, de um tratado, de um projeto de arquitetura ou de uma e agitada em que vivemos, é algo totalmente incrível: é preciso obra musical, e cada um dos outros ficava encarregado de julgar tê-la experimentado para que pudesse parecer simplesmente pos- esta produção com a sinceridade absoluta de uma crítica ami- sível esta ilusão despreocupada, esta tranquilidade, conquistada gável. Pensávamos assim, graças a esta vigilância mútua, tanto no momento e, por assim dizer, estranha ao tempo. Foi neste mais estimular ou refrear nossas inclinações para a cultura; de estado de espírito que, com um amigo de minha idade, passei um fato, sucesso foi tal que só pudemos conservar um sentimento ano em Bonn, cidade da Universidade nas margens do Reno: um de reconhecimento solene para o momento e o lugar de onde esta ano no qual a ausência de qualquer plano e de qualquer objetivo, ideia nos vinha. o desinteresse quanto a qualquer projeto de futuro têm diante Este sentimento encontrou logo um modo justo de expressão: de minha consciência de hoje o jeito de um sonho, ainda que de comprometemos-nos todos a voltar, na medida em que isto fosse ambos os lados, antes e depois, ele se cercasse de períodos de possível, a cada ano, na mesma data, ao lugar solitário perto de vigília. Nada nos perturbava, porém, vivíamos ambos no meio Rolandseck, onde então, no fim do verão, sentados todos juntos, de muitos colegas, cujas aspirações e estímulos eram fundamen- perdidos em nossos pensamentos, sentimos de repente o mesmo talmente diferentes dos nossos; ficávamos um pouco inquietos entusiasmo pela mesma decisão. Para falar a verdade, este com- quando tínhamos de satisfazer ou rejeitar as exigências às vezes promisso não foi respeitado assim tão fielmente; mas foi justa- muito grandes dos nossos colegas. Mas mesmo este jogo contra mente porque tínhamos na consciência alguns pecados de omissão um elemento contrário tem ainda agora, quando o imagino, um que, num ano em que éramos ainda estudantes em Bonn, final- caráter que o faz parecer com estes obstáculos que cada um ex- mente fixados durante algum tempo nas margens do Reno, decidi- perimenta em sonho; por exemplo, quando se crê poder voar, mos obedecer desta vez não somente à lei que nos tínhamos dado, mas se sente impedido por obstáculos inexplicáveis. mas também ao nosso sentimento, a nosso impulso de gratidão, e Meu amigo e eu tínhamos em comum muitas lembranças do visitar solenemente, no dia marcado, o sítio perto de Rolandseck. nosso anterior estado de vigília, da época do ginásio; devo in- As coisas não foram fáceis, pois, exatamente neste dia, a nu- dicar especialmente uma delas, porque ela acarretou uma tran- merosa e alegre companhia de estudantes, que nos impedia de sição na minha inocente experiência. Durante uma viagem no fugir, nos causou muitas dificuldades e se aferrou com todas as Reno, realizada no fim de um verão, tínhamos, meu amigo e eu, suas forças a todos os fios que nos pudessem reter aí. Nossa asso- no mesmo lugar e quase ao mesmo tempo e, contudo, cada um ciação tinha decidido, nesta data, uma grande excursão solene a por sua conta imaginado um plano: sentíamos que esta extra- Rolandseck, a fim de se certificar mais uma vez de todos os seus60 Escritos sobre Educação Sobre o Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Ensino 61 membros no fim do semestre do verão e deixá-los retornar com a mentos de claridade a uma das várias ocupações solitárias que melhor lembrança da sua despedida. estava à nossa disposição. Era um desses dias perfeitos, como somente o fim do verão Estávamos então apaixonados pelo tiro de pistola e esta téc- pode oferecer, pelos menos no nosso clima: céu e terra irradian- nica foi mais tarde útil a cada um de nós em nossa carreira mili- do numa harmonia pacífica, onde se misturavam maravilhosa- tar. servente da nossa associação conhecia um lugar elevado, mente o calor do verão, a frescura do outono e a intensidade muito distante, que nos serviria de campo de tiro, e para lá ele do azul. Fantasticamente vestidos de mil cores, prazer que só o já tinha levado nossas armas. Este sítio se achava na orla supe- estudante pode tirar diante da tristeza geral dos trajes comuns, rior do bosque que recobre as baixas colinas situadas atrás de subimos num barco a vapor que estava enfeitado em nossa hon- Rolandseck, um pequeno platô de solo acidentado e muito perto ra e fincamos num ponto a bandeira da nossa associação. Nas do lugar consagrado para a fundação da nossa associação. Perto duas margens do Reno, ressoava vez por outra o sinal de um tiro da encosta do bosque, ao lado do nosso campo de tiro, se esten- que devia, segundo nossas disposições, avisar da nossa chegada dia uma pequena clareira que convidava a que nos sentássemos, todos os ribeirinhos sobretudo, o nosso estalajadeiro em Ro- pois se tinha daí, por cima das árvores e das moitas, uma vista landseck. Sem falar no ruidoso cortejo que formamos desde o para o Reno: as curvas harmoniosas do Siebengebirg e sobretu- desembarcadouro, para atravessar uma vila excitada pela curio- do do Drachensfels fechavam o horizonte pelo lado de conjunto sidade, nem nas pilhérias e os gracejos que nos permitíamos, e de árvores, enquanto que o Reno cintilante, que tinha nos seus que não eram compreensíveis a todos; passo por alto o festim braços a ilha de Nonnenwoerth, constituía ele próprio o centro cada vez mais movimentado e mesmo desenfreado, e um incrí- desta perspectiva circular. Este era o lugar consagrado por nos- vel espetáculo musical, em cuja execução todos os convidados sonhos e nossos projetos comuns; era para aí que, à noite, deviam, seja com seus exercícios de solo, seja com intervenções queríamos, ou melhor, nos retirar, se nos fosse dado conjuntas, tomar parte, e que, na minha qualidade de conselhei- terminar o dia no espírito da nossa lei. ro musical da associação, eu tinha antes ensaiado para dirigi-lo Não longe daí, num pequeno platô de solo acidentado, o pode- agora. Durante a execução do final muito desabrido e cada vez roso tronco de um carvalho se desenhava solitário numa superfí- mais rápido, eu tinha já feito um sinal a meu amigo e, ainda cie, aliás, sem árvores nem moitas, e nas pequenas ondulações do antes do último acorde, que parecia mais um uivo, saímos e de- terreno. Neste tronco tínhamos outrora, unindo nossos esforços, saparecemos ambos pela porta: um abismo bramante se fechou, gravado um pentagrama bem visível, que as intempéries e as tem- por assim dizer, atrás de nós. pestades dos últimos anos tinham feito mais ainda intensamente De repente, a quietude silenciosa e reparadora da natureza. ressaltar e que oferecia um bom alvo para nossos exercícios de As sombras já se alongavam um pouco, o sol brilhava, se bem tiro. A tarde acabava já, quando chegamos a nosso campo de que já no ocaso, e o cintilar das ondas verdes do Reno enviava tiro, e o nosso tronco de carvalho lançava uma grande sombra um sopro leve para nossos rostos inflamados. Nossa cerimônia pontuda sobre a charneca descarnada. silêncio era profundo. de consagração somente nos obrigava nas últimas horas do dia, As árvores elevadas que cresciam a nossos pés nos impediam de e tínhamos por esta razão pensado em consagrar os últimos mo- mergulhar nosso olhar diretamente no Reno. O ruído seco de62 Escritos sobre Educação Sobre o Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Ensino 63 nossos tiros de pistola, repetido pelo eco, tinha nesta solidão um so, mesmo quando a diferença está profundamente oculta e não, efeito muito mais impressionante; logo que tinha dado o segundo como aqui, ao alcance da mão; neste caso, meus bons amigos, tiro no pentagrama, me senti agarrar violentamente pelo braço e procurem outro meio honrado de fazer seu caminho no mundo, vi ao mesmo tempo em que meu amigo tinha sido surpreendido tornem-se soldados e aprendam um ofício; não há um ofício, por da mesma maneira enquanto recarregava sua arma. menor que seja, que não alimente um homem." Eu me voltei bruscamente e vi o rosto irritado de um velho, e A esta fala grosseira, ainda que verdadeira, respondemos com ao mesmo tempo sentia que um cão robusto pulava sobre minhas irritação, cortando constantemente a palavra um do outro: "Em costas. Antes que nós, eu e meu colega - imobilizados também primeiro lugar, você comete um erro sobre o fato principal: não por um segundo homem, um pouco mais jovem - tivéssemos re- estamos aqui para nos bater, mas para fazer exercícios de tiro tomado nosso fôlego e podido exprimir, de uma maneira ou de com a pistola. Em segundo lugar, você parece ignorar totalmente outra, a nossa surpresa, o velho começou uma fala, cujo tom como se realiza um duelo: acredita você que iríamos nos enfren- era violentamente ameaçador. "Não! Não!, gritava ele para nós, tar numa tal solidão, como dois bandidos de estrada, sem padri- não quero duelo aqui! E entre vocês menos ainda, vocês que são nhos, sem médicos etc.? Em terceiro lugar, enfim, temos cada um jovens estudantes! Entreguem-me suas pistolas! Calma, recon- de nós - nosso ponto de vista sobre a questão do duelo e não quere- ciliem-se, apertem as mãos! Como! Vocês serão o sal da terra, mos nos deixar surpreender nem assustar com lições como as suas." a inteligência do futuro, a semente das nossas esperanças - e Esta resposta, certamente muito indelicada, causou uma má nem sequer são capazes de se libertar deste insensato catecismo impressão no velho: ele primeiro nos olhou com mais benevo- de honra e de princípio que consagra o direito do mais forte? lência, quando viu que não se tratava de um duelo, mas o fio Não quero sondar os seus corações, mas isto não é digno de que tomaram finalmente nossas explicações o contrariou e ele se suas cabeças. Vocês, cuja juventude teve como nutriz a língua e a pôs a resmungar; e quando tivemos o atrevimento de falar dos sabedoria da Hélade e do Latium, vocês que foram beneficiados nossos próprios pontos de vista, ele agarrou violentamente seu com o inestimável cuidado que se teve de fazer cair logo sobre companheiro, voltou-se rapidamente e nos gritou amargamente seus jovens espíritos o raio dos sábios e nobres corações da bela indo embora: "É preciso ter também pensamentos e não somente Antiguidade - vocês querem começar por tomar como linha de pontos de vista! E, acrescentou seu companheiro, um pouco de conduta o código da honra cavalheiresca, quer dizer, o código da respeito, ainda quando um homem como ele se tenha enganado!" desrazão e da brutalidade? - Considerem-no bem, reduzam-no Neste ínterim, meu amigo tinha já recarregado sua arma e a conceitos claros, desvelem nele a miserável estreiteza, façam atirou novamente no pentagrama gritando: "Atenção!" Este ruí- dele a pedra de toque não do seu coração, mas do seu intelecto. do repentino às suas costas enfureceu velho; ele se voltou mais Se este último não o rejeita, é porque sua cabeça não é capaz de uma vez, lançou a meu amigo um olhar de ódio e disse logo com trabalhar num campo onde as qualidades absolutamente exigi- uma mais baixa a seu companheiro mais jovem: "O que deve- das são uma enérgica capacidade de julgamento que rompe sem mos fazer? Como estes jovens me incomodam com suas explosões!" piedade os liames do preconceito, um intelecto para as justas mais jovem se voltou para nós: "É preciso que saibam que, pretensões que sabe distinguir claramente o verdadeiro do fal- no caso presente, seus divertimentos explosivos são um verdadei-64 Escritos sobre Educação Sobre o Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Ensino 65 ro atentado contra a filosofia. Olhem este homem venerável: ele com esta exigência incompreensível, mas tão premente, estar tem o direito de pedir a vocês que não atirem aqui. Quando um com um aspecto algo ridículo. Nossos filósofos estraga-prazeres homem como ele Ora, é contudo assim que se deve agir", nos olhavam pelo menos com um sorriso interrogador, como se disse o velho interrompendo-o e nos lançando um olhar severo. tivéssemos dito algo para nos desculpar. Mas nos calamos, pois No fundo, não sabíamos bem o que pensar sobre o que esta- não queríamos absolutamente nos denunciar. va acontecendo; não tínhamos uma ideia clara das relações que Os dois grupos permaneceram em silêncio, um diante do ou- poderiam existir entre os nossos divertimentos um pouco rui- tro, a luz do crepúsculo vespertino se derramava so- dosos e a filosofia; e víamos menos ainda porque deveríamos bre o pico das árvores. O filósofo olhava o sol, o acompanhante abandonar nosso campo de tiro em função de incompreensíveis olhava o filósofo e nós olhávamos o nosso refúgio no bosque, considerações de polidez, e tínhamos sem dúvida nesse momento que corria um tão grande perigo. Um sentimento próximo ao um aspecto bastante indeciso e contrariado. O acompanhante furor apoderou-se de nós. Para que serve toda a filosofia, pensá- se apercebeu da nossa perplexidade passageira e nos explicou o vamos, se ela nos impede de estar sós e de gozar da amizade na que se passava: "Estamos obrigados, disse ele, a esperar algumas solidão, se ela nos impede mesmo que nos tornemos filósofos? horas aqui perto de vocês; combinamos uma entrevista com um Pois acreditávamos que nossa festa comemorativa era realmente personagem importante, amigo deste homem importante que vo- de natureza filosófica: queríamos aí fazer projetos e planos sé- cês vêem aqui, e que deve chegar esta noite; escolhemos para este rios para a nossa existência futura; esperávamos encontrar na encontro um lugar tranquilo aqui perto do bosque, onde existem reflexão solitária algo que formasse e apaziguasse no futuro o alguns bancos. Não há nada mais desagradável do que ser con- mais íntimo da nossa alma, como o tinha feito antes a atividade tinuamente sobressaltado por causa dos exercícios de tiro que criadora dos nossos anos de adolescência. Era isto justamente o ocorrem aqui perto; vocês próprios perceberão, supomos, que essencial da nossa cerimônia de consagração; esta era a única não é aconselhável continuar disparando aqui, quando souberem coisa que tínhamos decidido: ficar sozinhos, ficar sentados a re- que foi um dos nossos grandes filósofos que escolheu a calma fletir, como fizemos cinco anos antes, quando ambos juntamos desta solidão distante para aí rever seu amigo." nossas ideias para tomar a decisão da qual falei. Esta devia ser Esta explicação só nos fez inquietar mais: víamos presentemente uma festividade silenciosa, totalmente projetada para a lembran- despontar um perigo mais grave ainda do que a simples perda do ça, totalmente projetada para o futuro - e o presente no meio, nosso campo de tiro, e perguntamos precipitadamente: "Onde fica como simples pontos de suspensão. E eis que um destino adverso este lugar tranquilo? Não fica aqui à esquerda, atrás do bosque?" entrava no nosso círculo mágico - e não sabíamos como afastá- Sim, exatamente. lo; sentíamos mesmo nesta coincidência estranha algo de miste- Mas este lugar nos pertence esta noite, gritou meu amigo. riosamente atraente. "Este lugar deve ficar conosco", gritamos os dois. Ficamos algum tempo calados, separados em grupos opostos, Nossa celebração, decidida desde longa data, era então mais uns ao lado dos outros; as nuvens da tarde ficavam púrpuras aci- importante do que todos os filósofos do mundo e exprimimos ma de nós, a tarde se tornava cada vez mais calma e agradável, nosso sentimento com tanta energia e irritação que devíamos, escutávamos por assim dizer a respiração regular da natureza66 Escritos sobre Educação Sobre o Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Ensino 67 que, contente com sua obra-prima, concluía uma jornada per- mas horas. E nos resta saber se é uma fatalidade ou um demônio feita, a sua tarefa cotidiana - de repente, em meio à calma do vivo que nos vem tornar responsáveis por esta coincidência. crepúsculo, retumbou um clamor de alegria, impetuoso e con- De resto, meu amigo, disse o filósofo apaziguado, estou fuso, que vinha do Reno; escutávamos ao longe várias vozes - agora mais satisfeito do que antes com os nossos amantes da pis- eram sem dúvida os estudantes, nossos colegas, que resolveram tola. Observaste como eles estavam calmos quando olhávamos o passear de barco no Reno. E nos veio à mente que eles tinham sol? Eles não falavam, não fumavam, estavam tranquilos - creio notado a nossa ausência e sentiram a nossa falta; levantei minha até que meditavam." pistola quase ao mesmo tempo em que meu amigo; o eco repercu- E, voltando-se bruscamente para nós: "Meditavam? Digam- tiu nossos tiros e escutamos chegar do vale um grito bem conhe- me enquanto nos dirigimos juntos para este lugar tranquilo que cido, como sinal de reconhecimento. Pois na nossa associação, nos é comum." Demos alguns passos juntos e entramos seguindo nossa reputação, talvez mal ajuizada, de atiradores apaixonados, a encosta na atmosfera cálida de uma floresta inundada de vapo- já era conhecida. Imediatamente, nosso comportamento teve o res, onde as sombras já assomavam. Enquanto caminhávamos, efeito de uma indelicadeza extrema para com os filósofos, estes meu amigo expunha francamente seus pensamentos ao filósofo: intrusos que até então estavam numa tranquila contemplação e como tinha ele temido que hoje, pela primeira vez, o filósofo o que então os dois tiros fizeram pular de susto. Aproximamo-nos impedisse de filosofar. rapidamente deles e lhes dissemos por nossa vez: "Perdoem-nos. O velho se pôs a rir: "Como? Vocês temem que o filósofo os Foi o último tiro e era para avisar os nossos colegas no Reno. impeça de filosofar? Eis que isto pode mesmo ocorrer, e vocês Eles compreenderam. Ouvem? Se vocês querem a todo custo não o experimentaram ainda? Não tiveram a experiência disso ter para si este lugar tranquilo à esquerda, nos bosques cerrados, na sua Universidade? Não ouviram, enfim, aulas de filosofia?" devem pelo menos permitir que nos instalemos aí também. Há lá Esta questão nos oprimia, pois este não era absolutamente muitos bancos; ficaremos tranquilos e nos calaremos; já deu sete o nosso caso. Além disso, naquela época acreditávamos ainda horas e é preciso ir agora para lá." ingenuamente que aquele que, numa universidade, tem o nível e "Tudo isso é mais misterioso na aparência do que na realida- a dignidade de filósofo deve ser também filósofo: sim, tínhamos de, acrescentei eu depois de uma pausa. Prometemos seriamente pouca experiência e estávamos mal-informados. Confessamos passar lá estas próximas horas; temos também as nossas razões que não tínhamos ainda feito qualquer curso de fi- para fazê-lo. Este lugar é para nós sagrado por causa da boa losofia, mas que agarraríamos certamente a ocasião que havía- lembrança que nos traz, e por isso está destinado a inaugurar mos deixado passar. também um belo futuro para nós. Eis porque tomamos cuidado "O que é então, perguntou ele, isto que vocês chamam de de não deixar em vocês qualquer má lembrança - depois de tê-los filosofia? - Estamos, disse eu, em apuros para dar uma defini- tantas vezes afligido e assustado." ção. Mas, no atacado, temos em vista refletir sobre a melhor filósofo permaneceu calado, mas seu companheiro disse: maneira de nos tornar homens cultos. - Isto é ao mesmo tempo "Infelizmente, nossas promessas e nossas convenções nos com- pouco e muito, murmurou o filósofo. Reflitam bem sobre isso! prometem da mesma maneira, para o mesmo lugar e para as mes- Aqui estão nossos bancos: coloquemo-nos agora longe uns dos68 Escritos sobre Educação Sobre o Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Ensino 69 outros; não quero impedi-los de refletir sobre a melhor maneira Não esqueçamos que, graças a esta associação, jamais pensa- de se tornarem homens cultos. - Desejo a vocês uma boa sorte e D mos naquilo que se chama comumente de profissão. A explora- - pontos de vista, como na questão do duelo, por exemplo, pon- ção quase sistemática que o Estado fez destes anos, na medida em tos de vista justos, originais, novos, dignos dos homens cultos. que quis o mais cedo possível atrair para si funcionários utilizá- O filósofo não quer impedi-los de filosofar; mas não o assustem veis e se assegurar, através de exames excessivamente rigorosos, com suas pistolas. Imitem pelos menos hoje os pitagóricos, que da sua docilidade incondicional, tudo isso estava muito distante tinham de se calar durante cinco anos, porque serviam a uma da nossa formação; não éramos determinados por qualquer espí- filosofia autêntica - e talvez vocês devam fazer o mesmo durante rito utilitário, qualquer desejo de progredir rapidamente e fazer cinco quartos de hora, para servir à sua futura formação, com a rapidamente uma carreira; percebemos todos um fato que agora qual vocês se preocupam de maneira tão urgente." nos parece consolador: naquele momento, nenhum de nós sabia Alcançamos nosso objetivo; assim começava a nossa festa no que nos tornaríamos, e inclusive isto não nos preocupava. Foi comemorativa. Como cinco anos antes, o Reno se banhava num a nossa sociedade que alimentou em nós esta feliz indiferença doce vapor, como então, o céu resplandecia, a floresta exalava pela qual, durante esta comemoração, lhe somos reconhecidos aromas. Um banco distante no canto mais recolhido; estávamos do fundo do nosso coração. Já disse que esta maneira de se satis- lá quase escondidos: nem o filósofo nem seu companheiro po- fazer com o momento sem imaginar um objetivo, de se embalar diam ver o nosso rosto. Estávamos sós; a VOZ do filósofo chegava numa cadeira de balanço ao ritmo do momento, deve parecer apagada a nós, mas se tornava, entrementes, através do fremir das quase incrível, em todo caso, censurável na época atual, que se folhas e do zumbido de mil vidas que habitavam os cumes da flo- desvia de tudo o que é inútil. Como éramos inúteis! E como es- resta, uma música natural; ela tinha o efeito de um som, como um távamos orgulhosos por sermos a tal ponto inúteis! Podíamos lamento monótono ao longe. Realmente nada nos vinha perturbar. rivalizar entre nós quem teria a glória de ser mais inútil. Não Assim se passou um momento, durante o qual o pôr do sol queríamos significar nada, nada representar, nada nos propor, empalidecia cada vez mais, enquanto se levantava sempre mais queríamos não ter futuro, não queríamos ser úteis para nada, clara diante de nós a lembrança daquela empresa de nos culti- confortavelmente estendidos no limiar do presente - e estáva- var que tínhamos projetado na nossa juventude. E parecia que mos. Como éramos felizes! éramos devedores de um extremo reconhecimento a esta estra- Este era então o nosso sentimento, Senhores! nha associação; ela não se tinha constituído somente como um Perdido nestas reflexões quase religiosas sobre mim mesmo, complemento para os nossos estudos ginasianos, ela tinha sido a estava quase a ponto de responder com o mesmo tom satisfeito sociedade nos marcos da qual tínhamos inscrito tam- à questão que tocava o futuro dos nossos estabelecimentos de bém o nosso ginásio como um meio particular a serviço de nossa ensino, quando se impôs pouco a pouco a impressão de que a aspiração universal de cultura. música natural que vinha de longe, do banco dos filósofos, per- dia o caráter que tinha tido até então, e chegava a nós muito mais penetrante e clara. De repente, percebi que escutava, que 5. Alusão de Nietzsche a uma academia fundada com este nome, "Sociedade Pródiga" [die fruchtbringende Gesellschaft], em 1617, em Weimar. prestava atenção, que prestava uma atenção apaixonada, que es-70 Escritos sobre Educação Sobre o Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Ensino 71 cutava com todos os meus ouvidos. Cutuquei com o cotovelo realmente cultos seria possível, a não ser que uma grande massa, meu amigo, que talvez estivesse cansado, e lhe disse em VOZ baixa: determinada no fundo contra a sua própria natureza e unica- "Não durma! Há algo aí que podemos aprender. Aquilo nos con- mente por ilusões sedutoras, se dedicasse à cultura; que nada vém, ainda que não seja destinado a nós." se devia portanto revelar publicamente a respeito desta ridícula De fato, eu ouvia o companheiro se defender com alguma desproporção entre o número de homens verdadeiramente cultos emoção, enquanto o filósofo o atacava com uma VOZ cada vez e o enorme aparelho da cultura; que o verdadeiro segredo da cul- mais sonora. "Tu não mudaste, lhe dizia ele, tu infelizmente não tura estava aí: a maioria dos homens luta para adquirir cultura, mudaste; a mim me parece incrível que tu sejas ainda o mesmo trabalha pela cultura, aparentemente no seu próprio interesse, de há sete anos, quando então eu te vi pela última vez, quando mas no fundo unicamente para permitir a existência de um pe- me despedi de ti com pouquíssimas esperanças. Esta pele de cul- queno número. tura moderna de que te revestiste neste meio-tempo me é infeliz- - É aí que se encontra princípio, disse o filósofo, e não mente preciso, e não certamente para meu prazer, obstante, esqueceste o seu verdadeiro sentido, a ponto de crer de ti - e o que encontro por baixo dela? sempre imutável e que pertencias ao pequeno número? Tu o pensaste, vejo bem. mesmo caráter tal como o compreende Kant6, mas Mas eis aí um dos traços da indignidade que caracteriza a nossa também infelizmente, o mesmo caráter intelectual imutável - o cultura atual. Democratiza-se os direitos do gênio para suavi- que é verdadeiramente também uma necessidade, mas bem pou- zar o trabalho que exige uma formação, para arrefecer a carên- consoladora. Eu me pergunto para que serve ter vivido na cia pessoal de cultura. Todos preferem se instalar, tanto quanto filosofia, se os anos inteiros que passaste na minha companhia possível, à sombra da árvore que o gênio plantou. E desejariam não deixaram em ti marcas mais claras, embora não tenhas tido se subtrair à dura necessidade de trabalhar para o gênio, para o espírito obtuso e teu desejo de saber fosse real! Tu te comportas tornar possível o seu surgimento. O que? Tu estás tão orgulhoso como se jamais tivesses ouvido o princípio capital de toda cultu- a ponto de querer ser um mestre? Desprezas a multidão que se ra, ao qual eu me referi tão frequentemente no curso das nossas comprime em volta de ti para ouvir? Falas com desprezo da ta- relações anteriores. Vamos lá, qual era este princípio? refa do mestre? Querias logo, longe desta multidão que odeias, - Eu me lembro dele, respondeu o discípulo assim repreen- levar uma vida solitária, me copiar, a mim e a minha maneira de dido; você costumava dizer que ninguém aspiraria a cultura se viver? Acreditas alcançar com um só golpe o que eu pude final- soubesse a que ponto o número de homens verdadeiramente cul- mente conquistar, depois de um combate longo e obstinado, com tos é, enfim, e não poderia deixar de ser, incrivelmente pequeno; o objetivo exclusivo de viver como filósofo? E não temes que a e que, no entanto, nem sequer este pequeno número de homens solidão se vingue de ti? Experimenta apenas ser um solitário da cultura é preciso uma riqueza transbordante para viver com 6. Immanuel Kant [1724-1804]: filósofo alemão de Königsberg; um dos principais interlocutores de Nietzsche, no correr de cuja obra seu nome aparece citado direta ou suas próprias forças, e viver para todos! - Estranhos discípulos! indiretamente mais de 300 vezes. Nesta época da carreira intelectual de Nietzsche, co- Vocês acreditam que estão obrigados a imitar sempre o que há nhecida como a fase da "metafísica do artista", diretamente ou indiretamente através da obra de Schopenhauer, ele se encontra bastante atraído pela obra de Kant, de onde de mais difícil, mais elevado, o que só era possível justamente extrai muitos dos seus problemas ao mestre, quando deveriam, por outro lado, saber como isto é72 Escritos sobre Educação Sobre o Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Ensino 73 difícil e perigoso, e quantas naturezas de primeira ordem foram dinheiro possível. Do ponto de vista desta tendência, a cultura assim destruídas. deve mais ou menos ser definida como o discernimento graças Eu não quero esconder nada de você, mestre, disse então o ao qual alguém se mantém no cume de sua época>>, graças ao discípulo. Entendi muito bem suas palavras e vivi bastante tempo qual se conhece todos os caminhos que permitem mais facilmen- perto de você, e por isso acredito poder lidar também com os te ganhar dinheiro, graças ao qual se possui todos os meios pelos problemas da nossa cultura e da nossa educação nas condições quais se dá o comércio entre os homens e os povos. A verdadeira atuais. Percebo bastante bem os erros irreparáveis, os defeitos tarefa da cultura seria então criar homens tão quan- que você efetivamente me apontou e, não obstante, observo em to possível, um pouco no sentido em que se fala de uma mim muito pouco desta força que, num combate corajoso, me Quanto mais houvesse homens correntes, mais um traria o sucesso. Um desencorajamento geral abateu-se sobre povo seria feliz; e o propósito das instituições de ensino contem- mim: a fuga na solidão não foi nem orgulho nem presunção. porâneas só poderia ser justamente o de fazer progredir cada um Com boa vontade, descreverei para você quais foram as caracte- até onde sua natureza conclama a se tornar formar ? rísticas que encontrei nos problemas da cultura e da educação, os indivíduos de tal modo que, do seu nível de conhecimento e de que surgem hoje de maneira tão viva e tão premente. Assim, me saber, ele possa extrair a maior quantidade possível de felicidade pareceu que se tratava de distinguir duas orientações principais: e de lucro. Cada um deveria avaliar-se a si próprio com preci- duas correntes aparentemente opostas, ambas nefastas nos seus são, cada um deveria saber o quanto poderia pretender da vida. efeitos, mas unidas enfim nos seus resultados, dominam atual- união da inteligência e da que se coloca como mente os estabelecimentos de ensino: a tendência à extensão, à princípio nesta concepção do mundo, toma valor de uma exi- ampliação máxima da cultura, e a tendência à redução, ao enfra- gência moral. Segundo esta perspectiva, se chega mesmo a odiar quecimento da própria cultura. A cultura, por diversas razões, toda cultura que torne solitário, que proponha fins para além deve ser estendida a círculos cada vez mais amplos, eis que do dinheiro e do ganho, ou que demande muito tempo; aqui, se exige uma tendência. A outra, ao contrário, exige que a cultura tem o costume de descartar as tendências divergentes, que ape- abandone as suas ambições mais elevadas, mais nobres, mais su- lam para um ou para imoral blimes, e que se ponha humildemente a serviço não importa de da cultura>>. A moral que está aqui em vigor exige seguramente que outra forma de vida, do Estado, por exemplo." algo de inverso, um dinheiro sonante, uma cultura rápida, para "Acredito ter observado de que lado é mais claro apelo à ex- que alguém pudesse rapidamente se tornar um ser que ganha tensão, à ampliação máxima da cultura. Esta extensão é um dos dinheiro, mas também uma cultura muito fundamentada, para dogmas da economia política Dogmen] que alguém pudesse se tornar um ser que ganha muito dinheiro. mais caros da época atual. O máximo de conhecimento e cul- Não se permite cultura a um homem senão na proporção com tura possível - portanto o máximo de produção e necessidades que demanda seu interesse de ganho, mas é também na mesma possível portanto máximo de felicidade possível: - eis mais proporção que se exige algo dele. Em suma: a humanidade tem ne- ou menos a fórmula. Temos aqui, como objetivo e fim da cultu- cessariamente uma pretensão justa à felicidade na terra, e é por esta ra a utilidade, ou, mais exatamente, o lucro, maior ganho de razão que a cultura é necessária, mas unicamente por esta razão!74 Escritos sobre Educação Sobre o Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Ensino 75 Queria introduzir aqui uma observação, diz o filósofo. popular mais extensa, procuro habitualmente distinguir se este Esta concepção que descreveste não sem clareza faz nascer um grito foi provocado por uma tendência exagerada para o ganho e grande e mesmo um enorme perigo: a grande massa irá um dia para a posse, ou pelas marcas da opressão religiosa anterior, ou pular grau intermediário e se lançar sem rodeios à felicidade pela clara consciência que um Estado tem do seu valor. terrena. É isto o que se chama agora de social>>. Pois a "Mas acreditei, por outro lado, poder ouvir de outros lados, massa poderia ter a impressão de que a cultura estendida à maio- uma outra canção, menos retumbante certamente, mas com a ria dos homens não era senão um meio para uma minoria obter mesma ênfase, aquela da redução da cultura. a felicidade na terra: a cultura universal quanto "Em todos os círculos acadêmicos, se tem o costume de co- enfraquece a tal ponto a cultura, que ela não pode mais admi- chichar nos ouvidos algo desta canção, quer dizer, este fato em tir qualquer privilégio ou garantir qualquer respeito. cultura todo lugar difundido: a utilização tão desejada em nossos dias mais universal é exatamente a barbárie. Mas eu não quero inter- do a serviço de sua disciplina torna a cultura do erudito romper tua cada vez mais aleatória e Pois o campo de estudo companheiro continuou: "Esta extensão e esta ampliação das ciências é hoje tão extenso, que aquele que, com boas dis- da cultura a todos, objetivo que é almejado em todo lugar tão posições mas não excepcionais, quer aí produzir algo, se consa- denodadamente, têm ainda outros motivos, independentemente grará a uma especialidade muito particular e não terá qualquer deste dogma tão popular da economia política. Em certos preocupação com todas as outras. Se na sua especialidade ele países, o temor da opressão religiosa é tão geral e o medo das está acima do para tudo mais, quer dizer, para tudo que consequências desta opressão tão marcado, que em todas as classes é importante, não se mostra diferente deste. Assim, um erudito, da sociedade se encontra um desejo ávido de cultura e se absorve exclusivamente especializado, se parece com um operário de fá- de preferência os elementos que destroem os instintos religiosos. brica que, durante toda sua vida, não faz senão fabricar certo Em outros lugares, ao contrário, um Estado deseja uma extensão parafuso ou certo cabo para uma ferramenta ou uma máquina máxima da cultura para garantir sua própria existência, pois ele determinadas, tarefa na qual ele atinge, é preciso dizer, uma in- se sente ainda forte o bastante para ter sob seu jugo a cultura crível virtuosidade. Na Alemanha, onde se pretende recobrir os mais violentamente desencadeada, e encontra sua confirmação fatos mais dolorosos com um glorioso manto de pensamento, se logo que a cultura mais extensa de seus funcionários e de seus admira como sendo um fenômeno moral esta acanhada especia- exércitos fornece afinal de contas uma a ele, Estado, na sua rivalidade com os outros Estados. Neste caso, é preciso 7. termo savant, de acordo com o Dictionaire de Langue Française, Le Petit Ro- que o fundamento do Estado seja amplo o bastante e sólido o bert, Grand Format, significa, em primeiro lugar, aquele que sabe muito em matéria de erudição e ciência; é sinônimo de culto, douto, esclarecido, erudito, instruído, bastante, para servir de contrapeso às abóbadas complicadas da letrado. Na maioria das vezes, ele se refere a um especialista, mas também a alguém cultura, assim como, no primeiro caso, é preciso que os traços de que possui muitos conhecimentos. Para efeito desta tradução, usei como substantivo a palavra "erudito" e como adjetivo as palavras "acadêmico" ou "intelectual"; mas, uma antiga opressão religiosa sejam ainda muito sensíveis, para em ambos os casos, o termo tem a conotação de "especialidade", uma habilidade que ele seja obrigado a recorrer a um expediente tão desesperado. pontual, um saber específico. Aí portanto, onde o grito de guerra da massa exige uma cultura 8. Em latim no texto, significando aqui o que se refere ao "povo", à "multidão", ao que é "vulgar".76 Escritos sobre Educação Sobre o Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Ensino 77 lização dos nossos eruditos e seu distanciamento cada vez maior sobre a cultura: o jornalista, o senhor do momento, tomou o lu- da verdadeira cultura: a nas pequenas coisas>>, a gar do grande gênio, do guia estabelecido para sempre, daquele delidade do se torna um tema de ostentação, a falta que livra do momento atual. Diga para mim, você mesmo, meu de cultura fora dos limites da disciplina é apresentada como sinal caro mestre, que esperanças devo ter ainda nesta luta contra a de uma nobre sobriedade. perversão em todo lugar encontrada, em todas as verdadeiras "Durante muito tempo, entender como homem culto o eru- aspirações à cultura, com que coragem poderia eu me apresentar, dito e unicamente erudito, isto foi considerado simplesmente mestre solitário, quando sei que, sobre cada semente de verda- como algo evidente; a experiência do presente não nos permite deira cultura lançada à terra, deve passar logo sem piedade o absolutamente estabelecer uma equivalência tão ingênua. Pois rolo esmagador desta pseudocultura? Imagine como seria vão agora a exploração de um homem em proveito das ciências é mesmo o trabalho mais renitente de um mestre que quisesse, por um princípio em todo lugar recebido com aprovação: quem se exemplo, levar seu aluno ao mundo helênico, tão infinitamente pergunta ainda que valor pode ter uma ciência que usa assim longínquo, tão difícil de compreender, por considerá-lo como suas criaturas, como um vampiro? A divisão do trabalho nas a verdadeira pátria da cultura: tudo isso seria inútil, quando o ciências visa praticamente o mesmo objetivo que aquele a que mesmo estudante, um minuto antes, tenha pego um jornal, um visam conscientemente aqui e ali as religiões: a redução, ou seja, romance da moda ou um destes livros doutos, cujo estilo já traz o aniquilamento da cultura. Mas o que para certas religiões, de consigo os brasões repugnantes da barbárie cultivada que está acordo com a sua origem e a sua história, constitui uma exigên- em curso hoje em dia. cia completamente justificada, só pode levar a ciência a um sui- Espera! Interveio o filósofo com uma voz forte e cheia de cídio por tiro de arma da fogo. Atingimos agora o ponto onde, lástima. te compreendo melhor agora; não vejo absolutamen- em todas as questões gerais de natureza séria e sobretudo nos te por que antes lhe fiz censuras tão duras. Tu tens razão em tudo, problemas filosóficos mais elevados, o homem de ciência enquan- exceto no teu desânimo. Agora, vou te dizer algo que te to tal não tem absolutamente palavra; ao contrário, esta trama de cola viscosa que se infiltra agora nas ciências, o jornalismo, acredita aí cumprir sua tarefa, que ele a realiza de acordo com SEGUNDA CONFERÊNCIA sua natureza própria, quer dizer, como o seu nome mesmo indi- ca, como uma tarefa de jornalista. Meus caros ouvintes, "O jornalismo é de fato a confluência das duas tendências: ampliação e redução da cultura dão aqui as mãos; o jornal subs- Aqueles dentre os senhores, a quem só pude saudar como ou- titui a cultura, e quem ainda, a título de erudito, tem pretensões vintes a partir de agora e que talvez não tenham ouvido falar à cultura, este se apoia habitualmente nesta trama de cola vis- desta conferência que proferi há três semanas, devem aceitar ser cosa que cimenta as juntas de todas as formas de vida, de todas introduzidos sem mais preparação no ambiente de uma grave as classes sociais, de todas as artes, de todas as ciências. É no conversa que eu tinha então começado a fazer e da qual hoje vou jornal que culmina o desígnio particular que nossa época tem lembrar os últimos desenvolvimentos. companheiro do filóso-78 Escritos sobre Educação Sobre o Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Ensino 79 fo, mais jovem do que ele, com sinceridade e confiança, acabava são, ainda que ele próprio deva ser sacrificado. E, no entanto, em de pedir desculpas consternadas ao homem de importância que lugar nenhum se chega à sinceridade total; a triste causa disso é tinha sido seu mestre, por ter, desalentadamente, deixado seu a pobreza de espírito pedagógico da nossa época; eis que estão posto de professor e decidido passar sem consolo seus dias numa ausentes justamente os talentos realmente inventivos, eis que fal- solidão livremente consentida. A causa desta decisão tinha sido tam os homens práticos, quer dizer, aqueles que têm ideias boas tudo, menos uma orgulhosa presunção. e novas e que sabem que a verdadeira genialidade e a prática "Eu o ouvi muito bem, mestre, disse honrado discípulo, reta devem necessariamente encontrar-se no mesmo indivíduo: tenho vivido durante muito tempo perto de você para poder me embora aos práticos prosaicos faltem justamente as ideias e, por dedicar confiantemente ao sistema da cultura e da educação que esta razão, também a prática correta. foi o nosso até agora. Eu percebo muito claramente os erros e os "Basta apenas entrar em contato com a literatura pedagógica defeitos incuráveis que você tinha costume de me apontar: e, desta época; é preciso estar muito corrompido para não ficar no entanto, só vejo em mim escassear esta força que me permi- assustado, quando se estuda este tema, com a suprema pobreza tiria obter sucesso num combate arrojado e destruir os bastiões de espírito e com esta verdadeira brincadeira de roda infantil. desta pretensa cultura. Um desânimo geral apoderou-se de mim: Nossa filosofia deve aqui começar não pela admiração, mas pelo minha fuga para a solidão não era nem orgulho nem presunção." terror: a quem não pode provocá-lo, roga-se não tocar nas coi- Em seguida, para se desculpar, ele descreveu tão bem as caracte- sas da pedagogia. É verdade que até agora o inverso disso é que rísticas gerais desta situação cultural, que o filósofo não se pode foi a regra: aqueles que foram tomados de terror fugiram como impedir de interrompê-lo com uma VOZ impressa de piedade e de tu, meu pobre amigo, e foram as pessoas impávidas e tranquilas acalmá-lo nestes termos. que pousaram mais extensamente suas grandes mãos na mais "Espera, meu pobre amigo, disse ele, agora eu te compreendo delicada das técnicas que poderia existir numa arte, a técnica melhor, e acho que não deveria, como fiz ainda há pouco, ter da formação cultural. Mas isto não será mais possível durante dito a ti palavras tão duras. Tu tens razão em tudo, exceto no teu muito tempo; basta que chegue o homem sincero que tenha estas desânimo. Quero te dizer algo que te console. Quanto tempo tu ideias boas e novas e que para realizá-las ouse romper com tudo acreditas que esta espécie de cultura que te custa tanto suportar o que existe, basta que ele mostre com um grande exemplo o que vai durar ainda na escola atual? Eu não quero te ocultar a mi- as mãos grosseiras, que até agora foram as únicas a intervir, não nha desconfiança a esse respeito: seu tempo já passou, seus dias sabem imitar - e em todo lugar se começará pelo menos a distin- estão contados. primeiro que tiver a ousadia de ser totalmente guir, se perceberá pelo menos o contraste e se poderá refletir nas sincero neste domínio ouvirá o eco da sua sinceridade devolvido causas deste contraste, enquanto que hoje ainda muitas pessoas num milhar de almas corajosas. Pois, no fundo, existem entre acreditam com toda boa fé que as mãos grosseiras são necessá- os homens desta época, aqueles cujas disposições são nobres e rias para a profissão pedagógica. calorosos de sentimentos, um acordo tácito: cada um deles sabe Eu desejaria, meu venerado mestre, disse então o discípu- que precisou sofrer por causa da situação da cultura na escola, lo, que com um único exemplo você me ajudasse a adquirir esta cada um desejará libertar pelo menos seus herdeiros desta opres- esperança que se revela tão corajosamente em você. Ambos co-80 Escritos sobre Educação Sobre o Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Ensino 81 nhecemos o ginásio; você acredita, por exemplo, a propósito des- "Primeiramente, vou te dizer o que ele deveria ser. Por nature- ta instituição, que se pudesse dar um fim, com honradez e com za, agora cada um fala e escreve a língua alemã tão má e tão vul- novas e boas ideias, a seus velhos e rígidos hábitos? Para mim, garmente quanto lhe é possível na época do alemão jornalístico: neste caso, não é uma sólida muralha que se opõe aos aríetes do também seria necessário que o adolescente nobremente dotado assalto, mas a fatal rigidez de todos os princípios, sobre a qual fosse colocado à força sob a campana de vidro do bom gosto e tudo desliza. O agressor não tem um adversário visível e fixo a do severo ensino linguístico: se isto é impossível, preferirei voltar esmagar: este adversário está antes mascarado, ele sabe revestir- a falar latim, porque tenho vergonha de uma língua tão desfigu- se de cem formas diferentes, escapar com uma destas formas à rada e tão profanada. mão que o agarra, confundindo sempre o agressor com retiradas "Qual seria nesse caso a tarefa de um estabelecimento de en- fracas e tenazes retornos. Foi justamente o ginásio que me levou sino de alta qualidade, senão justamente a de levar ao caminho a uma fuga desanimada para a solidão, exatamente porque per- correto, através da autoridade e com uma severidade digna, os cebo que, se o combate neste terreno não levar à vitória, todos jovens cuja língua se tornou selvagem, e lhes gritar: sua os outros estabelecimentos de cultura deverão sucumbir, e aquele língua a sério! Aquele que não chega ao sentimento de um dever que renuncia a esta luta deve renunciar de uma maneira geral sagrado para com ela, este não tem mais em si o germe que con- às questões pedagógicas mais sérias. Assim, mestre, ensine-me vém a uma cultura superior. É aqui que se pode ver que valor e algo a propósito do ginásio: que tipo de decadência, que tipo de que desprezo vocês atribuem à arte e em que medida vocês estão renascimento do ginásio podemos ainda esperar? ligados à arte, aqui, no manejo da sua língua materna. Se vocês Eu tenho, disse filósofo, uma opinião tão elevada quanto a não chegarem a experimentar um desgosto físico por certas pa- tua a respeito da importância do ginásio: todas as outras institui- lavras e jargões, aos quais os jornalistas nos habituaram, então, ções devem medir-se pelo objetivo cultural que é visado pelo giná- devem renunciar à aspiração da cultura: pois é aqui, bem perto sio, pois elas sofrem com os desvios de sua tendência, e assim serão de vocês, a cada momento em que falam e escrevem, que têm uma também purificadas e renovadas com sua purificação e renovação. pedra de toque para compreender a dificuldade, a imensidão da Nem mesmo a Universidade pode pretender esta importância de tarefa do homem culto e a improbabilidade que deve haver para centro motriz, já que, na sua constituição atual, ela não é, pelo que muitos dentre vocês alcancem uma cultura menos num aspecto essencial, senão a culminação da tendência "No espírito de uma exortação deste gênero, o professor de do ginásio, como o demonstrarei daqui a pouco. Examinemos por alemão teria no ginásio a obrigação de tornar seus alunos aten- um momento, ao mesmo tempo, onde nasce em mim esta alterna- tos para mil detalhes e impedir, com toda segurança que pro- tiva tão cheia de esperança: ou o espírito do ginásio, tal como foi porciona um bom gosto, que eles empregassem palavras como cultivado até agora, tão variegado e tão difícil de compreender, algo em será inteiramente reduzido a pó, ou ele poderá ser fundamental- a iniciativa>>, e assim em seguida cum taedio in mente purificado e renovado; e para que eu não te assuste com frases gerais, imaginemos primeiro uma das experiências que to- 9. As expressões respectivas em alemão, empregadas por Nietzsche aqui são: beans- dos fazemos no ginásio e com a qual padecemos. O que é então, pruchen [reclamar], vereinnahmen [cobrar dinheiro], einer Sache Rechnung tragen [levar algo em conta], die Initiative ergreifen [tomar a iniciativa], selbstverstdädlich se olharmos com um olho severo, o ensino do alemão no ginásio? [é evidente].82 Escritos sobre Educação Sobre o Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Ensino 83 infinitum10. O próprio mestre deveria logo mostrar, ao analisar e a tarefa do mestre da cultura começa justamente pelo repressão os nossos clássicos linha por linha, com que cuidado e com que de um "interesse histórico" que em todo lugar procura pene- rigor é preciso fazer cada exame, quando se tem no coração um trar, lá onde é preciso antes de tudo agir adequadamente, e não verdadeiro sentimento artístico e diante dos olhos a compreen- conhecer. Ora, a nossa língua materna é um domínio no qual são total do que se escreve. Ele deveria incessantemente obrigar o aluno deve aprender a operar convenientemente: e é somente seus alunos a exprimir o mesmo pensamento mais uma vez e deste ponto de vista prático que o ensino do alemão é necessário melhor, e encontraria limite para sua ação até que os menos do- nos nossos estabelecimentos de ensino. É verdade que o método tados chegassem a um terror sagrado diante da língua e os mais histórico parece ser para o mestre bem mais fácil e bem mais dotados a um nobre entusiasmo para com ela. cômodo; além disso, este método parece igualmente exigir dispo- "Bem, eis aí uma tarefa daquilo que se chama de educação sições bem mais reduzidas, e geralmente um ímpeto menos forte formal, e uma das mais preciosas: e o que encontramos no giná- na vontade e na aspiração do mestre. Mas seria preciso fazer esta sio, em lugar desta educação formal, como se diz? Aquele que mesma advertência em todos os campos da atividade pedagógi- sabe ordenar que vai encontrar nas rubricas convencionais sa- ca: é o mais fácil e o mais cômodo que se esconde sob o manto berá também que é preciso considerar o ginásio de hoje como um de pretensões soberbas e de títulos pomposos: o que é verdadei- falso estabelecimento de ensino: ele achará de fato que o ginásio, ramente da ordem do prático, a atividade que é a essência da for- segundo sua constituição primitiva, forma não para a cultura, mação, porque no fundo é a mais difícil, só recolhe os olhares do mas unicamente para a erudição e, em seguida, que, nos últimos descrédito e da depreciação: eis porque o homem honesto deve tempos, ele tomou como tarefa não mais formar sequer para a também esclarecer, para si e para os outros, este erudição, mas unicamente para o jornalismo. E se pode mostrar "O que oferece habitualmente o professor de alemão, além desta maneira como é dispensado o ensino do alemão, que é um destas indicações de viés científico, a um estudo da língua? Como exemplo realmente comprovado. liga ele o espírito do seu estabelecimento de ensino ao espírito "Em vez desta instrução puramente prática, por intermédio dos homens raros e verdadeiramente cultos que possui o povo da qual o mestre deve habituar seus alunos a uma severa edu- alemão, ao espírito dos seus poetas e dos seus artistas clássicos? cação de si no domínio da língua, encontramos em todo lugar Este é um domínio obscuro e perigoso, para onde não se pode le- a tendência de lidar com a língua materna através da erudição var a luz sem terror: mas aí também não queremos ocultar nada, histórica: quer dizer, se usa dela como se fosse uma língua morta porque um dia tudo deverá ser renovado nesta esfera. No giná- e como se não houvesse nenhuma obrigação em relação ao pre- sio, se imprime o caráter repulsivo do nosso jornalismo estético sente e ao futuro desta língua. A forma histórica se tornou a tal nos espíritos ainda não formados dos jovens: o próprio mestre ponto comum na nossa época, que o corpo vivo da língua foi, ele aí semeia os germes de uma grosseira e deliberada compreensão também, sacrificado a seus estudos anatômicos: mas a cultura dos nossos clássicos, compreensão que logo se fará passar como começa justamente quando se começa a tratar o vivo como vivo, crítica estética, embora sendo somente uma impertinente bar- bárie. No ginásio, os alunos aprendem a falar do nosso Schiller 10. Em latim no texto, significando "com uma angústia infinita". único com uma superioridade pueril; no ginásio, se lhes habitua84 Escritos sobre Educação Sobre o Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Ensino 85 a rir dos seus esboços mais nobres e mais alemães, do marquês de mais retornará. Todas as ousadias da natureza são evocadas dos Posa, de Max e de Thekla - um riso que provoca a cólera do gê- seus abismos, todas as vaidades, sem que as retenha qualquer nio alemão e do qual se envergonhará uma posteridade melhor. barreira mais poderosa, têm pela primeira vez o direito de tomar "O último domínio no qual o professor de alemão do ginásio uma forma literária: o jovem tem a percepção de que está daqui costuma exercer sua atividade e que não raro se considera como o por diante realizado, que é um ser capaz de falar, de conversar, e ponto culminante de sua atividade, havendo mesmo quem o consi- mesmo que é convidado a fazê-lo. Estes temas de fato o obrigam dere como o ponto culminante da cultura do ginásio, é o domínio a manifestar o seu juízo sobre as obras poéticas, ou a fazer entrar constituído pela composição alemã. Pelo fato de que é neste domí- personagens históricos na forma coagulada de uma pintura de nio que quase sempre os alunos melhor dotados se divertem com caracteres, ou a expor de forma autônoma graves problemas éti- uma alegria singular, dever-se-ia reconhecer a que ponto a tarefa cos, ou mesmo, invertendo o foco, a esclarecer o seu próprio de- aqui proposta pode ser perigosamente estimulante. A composição senvolvimento e fazer de si mesmo um resumo crítico: em suma, alemã é um apelo à individualidade: e quanto mais um aluno está todo um mundo de tarefas que exige uma reflexão profunda se firmemente consciente das qualidades que o distinguem, mais ele abre diante de um jovem perplexo, que até aí era quase incons- dará à sua composição alemã um tom pessoal. Além disso, este ciente, e que é abandonado à sua decisão. é exigido, na maior parte dos ginásios, pela sim- "Vejamos agora a maneira habitual de agir do mestre diante ples escolha dos assuntos: a maior prova disso, na minha opinião, destas primeiras produções originais, tão ricas de consequências. reside no fato de que já nas turmas menores se propõe temas em O que lhe aparece censurável nestas composições? Sobre o que si antipedagógicos, que incitam o aluno a descrever sua própria chama ele a atenção de seus alunos? Sobre todos os excessos de vida, o seu próprio desenvolvimento. Basta ler uma só vez a lista forma e de pensamento, quer dizer, sobre tudo o que nesta idade destes temas desenvolvidos na maioria dos ginásios, para chegar à é de uma maneira geral característico e individual. mestre cri- que tem verdadeiramente a maior parte dos alunos, por tica aspecto verdadeiramente autônomo que, nestas excitações toda a sua vida, e sem que isto venha de um erro seu, de sofrer com prematuras, não pode justamente exprimir-se senão como inabi- estes trabalhos sobre a personalidade que logo se exige deles, com lidades, como saliências e como traços grotescos; portanto, é o este parto de pensamentos, quando eles não estão ainda maduros: indivíduo na sua acepção exata que é repreendido pelo mestre e e como é frequente que toda atividade literária que um homem rejeitado em proveito de um meio conveniente, privado de origi- terá mais tarde apareça como a triste consequência deste pecado nalidade. Em troca, a mediocridade uniformizada recebe elogios original que a pedagogia comete contra o espírito! dispensados de má-vontade: pois é ela justamente que habitual- "Basta apenas imaginar o que se passa nesta idade tão jo- mente aborrece mestre, e por boas razões. vem, quando se exige do aluno a produção de um semelhante "Há talvez ainda pessoas que veem em toda esta comédia da trabalho. Esta é sua primeira produção original; as forças que composição alemã no ginásio o elemento não somente mais ab- ainda não se desenvolveram tendem pela primeira vez a uma surdo, mas também o mais perigoso do ginásio hoje em dia. Exi- cristalização; o sentimento embriagador da autonomia reveste ge-se aí originalidade, mas se rejeita a única originalidade que é estas produções com um encanto primitivo, admirável, que ja- possível nesta idade: supõe-se aí uma cultura formal, a qual agora86 Escritos sobre Educação Sobre o Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Ensino 87 somente um número absolutamente pequeno de homens em ida- cando para nos oferecer realmente algo para beber. Aprender de madura pode alcançar. No ginásio, todos são considerados, neste domínio hábitos e visões graves e impiedosos, eis aí uma sem um exame mais rigoroso, como seres capazes de fazer lite- das tarefas mais elevadas da educação formal, ao passo que o ratura, com o direito de ter opiniões pessoais sobre os fatos e os universal do que se chama personagens mais sérios, embora uma educação correta devesse só pode ser o sinal distintivo da barbárie. Mas que, pelo menos justamente aspirar, com todos os seus esforços, reprimir as ridí- no curso de alemão, não se pense de fato na educação, mas em culas pretensões de autonomia de julgamento e apenas habituar outra coisa, quer dizer, na que acabo de o jovem a uma estrita obediência sob a autoridade do gênio. No nomear, isto se tornou sem dúvida claro depois de tudo o que ginásio, se supõe adquirida uma forma de exposição num quadro acabo de reportar. E enquanto os ginásios alemães, cultivando a de grandes dimensões, numa idade em que toda frase pronuncia- composição alemã, trabalharem para preparar este abominável da ou escrita é um barbarismo. Imaginemos, além disso, o perigo dilúvio da escrita que não tem consciência, enquanto eles não que oculta a futilidade da autossatisfação que surge facilmente considerarem como um dever sagrado a disciplina prática mais nesta idade, imaginemos o sentimento de coquetismo com o qual minuciosa da palavra e da escrita, enquanto tratarem a língua o jovem contempla, então, sua imagem literária pela primeira vez materna como se ela fosse um mal necessário ou um corpo mor- no espelho então, quem poderia ainda duvidar, compreenden- to, eu não poderei incluir estes estabelecimentos de ensino entre do com um único olhar todos estes efeitos, de que todos os males as instituições consagradas à verdadeira cultura. de que sofre a vida literária e artística são novamente impressos "Em relação à língua, mais do que em qualquer outro lugar, nas novas gerações através do ginásio: a tendência de produzir de observa-se que nada restou da influência do modelo clássico: e modo apressado e vão, a mania desprezível de escrevinhar livros, esta única constatação me permite ver naquilo que é chamado a total ausência de estilo, um modo de se expressar não refinado de clássica>>, que deveria sair do nosso ginásio, algo de e sem caráter, ou tristemente grandiloquente, a perda de todo câ- muito duvidoso e De fato, bastaria dar uma olhada a none estético, a voluptuosidade da anarquia e do caos, em suma, este modelo, para constatar a imensa seriedade com a qual os os traços literários do nosso jornalismo, assim como da nossa Gregos e os Romanos consideravam e tratavam sua língua desde produção acadêmica. a adolescência. Não se poderia deixar de reconhecer o seu valor "Muito raros são aqueles que sabem hoje que, talvez dentre de modelo num ponto tão importante, caso o plano da educação muitos milhares, há apenas um que tem o direito de se fazer dos nossos ginásios adotasse realmente como o supremo mode- entender pela escrita e que todos os outros que tentarem isso, lo de ensino o mundo clássico da Grécia e de Roma. Quanto a por sua conta e risco, mereceriam como recompensa, caso se en- isto, pelo menos tenho minhas dúvidas. A mim me parece bem contrem entre pessoas capazes de julgar, um riso homérico para mais que, nesta pretensão do ginásio de implantar a cada frase impressa pois é verdadeiramente um espetáculo para clássica>>, se tratava somente de uma escapatória torpe, à qual os deuses ver um da literatura aproximar-se claudi- se recorre quando se contesta de alguma maneira a capacidade 11. Hefesto: deus do fogo na mitologia grega; sua peculiaridade é que ele era coxo, ou 12. Em francês no texto, significando literalmente "deixa-fazer", mas é traduzido porque nasceu assim, ou por causa de um castigo imposto por Zeus. frequentemente como "liberalismo".88 Escritos sobre Educação Sobre o Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Ensino 89 do ginásio de formar para a cultura. Cultura clássica! A palavra apropriadas para fazer calar o adversário. Pois nada podemos tem tantas acepções! Ela envergonha o invasor, retarda o assal- encontrar no curso de alemão que lembre a antiga grandeza da to - pois quem pode no momento ver até o fundo desta fórmula educação linguística: quanto à cultura formal, tal como a realiza confusa? E esta é a tática à qual o ginásio, desde há muito tempo, o referido curso de alemão, ela se revelou como sendo o capri- se acostumous de acordo com o lado de onde se faz ouvir o apelo cho absoluto da quer dizer, a barbárie e ao combate, ele escreve no seu escudo, que não é propriamente a anarquia; e no que concerne à formação para a ciência como falando ornado de signos honoríficos, uma destas fórmulas con- consequência deste ensino, nossos germanistas avaliaram com fusas, clássica>>, que forma a justiça como exatamente estes objetivos de viés científico no gi- ciência>>: três coisas gloriosas que infelizmente são contraditórias násio constituíram uma fraca contribuição para fazer florescer entre si, contradições que, se as reuníssemos pela força, não da- sua ciência e qual foi o peso da personalidade de alguns profes- riam mais do que um cultural. Pois uma verdadeira sores de universidade isolados. In summa: ao ginásio falta até clássica>> é algo tão extraordinariamente difícil e raro e agora primeiro objeto de estudo, mais simples, com o qual demanda dons tão complexos, que não é permitido, senão por começa uma verdadeira cultura, a língua materna: e por isso ingenuidade ou por insolência, apresentá-la como um objetivo mesmo lhe falta solo natural e fecundo necessário a todos os acessível ao ginásio. A expressão pertence a esforços posteriores no sentido da cultura. Pois é somente sobre uma fraseologia grosseira e muito pouco filosófica da qual é pre- o fundo de uma aprendizagem, de um bom uso da língua, estri- ciso tanto quanto possível se desfazer: pois não existe to, artístico, cuidadoso, que se afirma o verdadeiro sentimento Quem atribui como objetivo do ginásio a que da grandeza dos nossos clássicos, que até agora não se aprendeu forma a ciência>>, este sacrifica por isso a clássica>> e a estimar no ginásio, senão graças ao amadorismo estetizante e também o que se chama de e, de uma maneira suspeito de alguns mestres isolados, ou pelo efeito de um úni- geral, todos os objetivos do ginásio que têm relação com a cultu- CO conteúdo de algumas tragédias e de alguns romances: mas é ra: pois o homem de ciência e o homem culto pertencem a duas preciso saber, por experiência própria, como a língua é difícil; é esferas diferentes que, às vezes, têm num indivíduo um ponto de preciso, ao preço de longas pesquisas e de longas lutas, alcançar contato, mas que jamais chegam a coincidir. a via por onde marcharam os nossos grandes poetas, para perce- "Se compararmos estes três pretensos objetivos do ginásio ber com que leveza e beleza eles marcharam e com que inaptidão com a realidade que se observa no que concerne ao curso de e grandiloquência os outros os seguiram. alemão, reconheceremos que estes objetivos são muito frequen- "É somente este tipo de ensinamento que pode criar no jo- temente, no uso ordinário, escapatórias ocasionais, inventadas vem a aversão física diante desta chamada do estilo, para a luta e para a guerra, e também bastante frequentemente tão amada e tão prezada por aqueles que trabalham nas usinas do jornalismo e que escrevem romances; e para elevá-lo com 13. Em grego transliterado no texto, significando algo referente à tragédia, ao que é um único golpe e definitivamente acima de toda uma série de trágico. Encontramos, numa versão espanhola, no lugar de "tragélaphos" a palavra significando um animal mitológico composto de bode e veado. questões e de escrúpulos verdadeiramente cômicos, está pro-90 Escritos sobre Educação Sobre Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Ensino 91 blema de saber, por exemplo, se ou Gutzkow15 são "Reconhecemos aqui as consequências fatais do nosso gi- realmente poetas ou não: o tédio impede simplesmente que se násio de hoje: na medida em que ele não está em condições de os leia, e eis estabelecida a questão. E que ninguém acredite que implantar a cultura verdadeira e autêntica, que é, sobretudo, é fácil formular o sentimento desta aversão física: mas também obediência e hábito, porque antes, no melhor dos casos, não se que ninguém espere chegar a um julgamento estético por uma atinge um objetivo qualquer senão excitando e fecundando os outra via senão pela vereda espinhosa da língua, não da ciência instintos científicos, por isso explica-se agora a união tão fre- linguística, mas da formação linguística. quente da erudição com a barbárie do gosto e da ciência com o "Todos aqueles cujos esforços são de fato sérios devem expe- jornalismo. Hoje, se pode, na imensa maioria dos casos, consta- rimentar aqui a mesma impressão daquele que na idade adulta, tar que os nossos eruditos caíram e se precipitaram destes cumes por exemplo, como soldado, é obrigado a aprender a marchar, da cultura, que o ser da Alemanha tinha atingido pelos esforços ainda que até então só tivesse sido um grosseiro diletante e um de de de Lessing18 e de uma empírico da marcha. Estes são tempos penosos: teme-se que as queda que se faz ver precisamente no cometimento dos grossei- fibras se rompam, perde-se toda esperança de executar alguma ros erros de compreensão aos quais estão expostos estes grandes vez, cômoda e facilmente, os movimentos e as posições do pé que homens entre nós, tanto pelo lado dos historiadores da literatura se aprendeu artificial e conscientemente: vê-se com terror como se é grosseiro e inepto para colocar um pé diante do outro e se 16. Johann Wolfgang Goethe [1749-1832]: poeta filosófico alemão. Enquanto filóso- teme ter desaprendido qualquer tipo de marcha e jamais poder fo e poeta, chefiou os movimentos literários do Sturm und Drang romântico e do clas- aprender a boa maneira de fazê-lo. Mas, de repente, se percebe sicismo alemão. Todo o seu pensamento gira em torno da Natureza, concebida como uma Natureza que não se esconde porque não tem nada a esconder e se manifesta que os movimentos artificialmente estudados se tornaram um através de uma infinidade de formas a partir do que ele chama de "protoformas", novo hábito e uma segunda natureza, e que a segurança e a força que são acessíveis ao pensamento através das intuições. Citado centenas de vezes por que tinha outrora o passo retornam agora reforçadas e mesmo Nietzsche, é considerado por este como o maior dos poetas alemães, por quem ele sempre nutriu uma grande admiração. acompanhadas de um certo garbo: sabe-se então como é difícil 17. Friedrich von Schiller [1759-1805]: poeta, historiador e sobretudo dramaturgo marchar e se pode zombar do empírico grosseiro ou do diletante alemão, ele evoluiu do romantismo do Sturm und Drang para o classicismo; sua obra da marcha com seus gestos elegantes. Nossos escritores que se está centrada sobre a ideia de liberdade. Do ponto de vista filosófico, Schiller tentou integrar os dados da sensibilidade natural ao imperativo moral absoluto. Para ele, dizem como seu estilo o prova, jamais aprenderam o homem é um ser colocado entre a necessidade natural e a liberdade da vontade e, a marchar: e nos nossos ginásios não se aprende, como nossos enquanto tal, deve ele fazer da moral uma "segunda natureza" apoiada na sensibi- lidade, cujo fundamento é a condição estética do homem. Também frequentemente escritores o demostram, a marchar. Mas a cultura começa por citado por Nietzsche. Encontram-se publicadas em português pelo menos duas de um caminhar correto da língua: o qual, quando começou bem, suas obras: Teoria da Tragédia [Editora Pedagógica e Universitária Ltda., São Paulo, 1991] e A Educação Estética do Homem [Ed. Iluminuras, São Paulo, 1990]. faz nascer logo, aos olhos destes escritores "elegantes", um senti- 18. Gotthold Ephraim Lessing [1729-1781]: escritor e erudito alemão ligado à eclo- mento físico que se chama "aversão". são do Aufklärung e à constituição da literatura alemã moderna. Enquanto pensador, ele afirmou que a verdade se revela na história como razão e que esta funciona para a 14. Bertold Auerbach [1812-1882]: romancista alemão de Wurtenberg. humanidade tal como a educação para o indivíduo. 15. Karl Gutzkow [1811-1878]: escritor alemão, animador do movimento Jovem- 19. Johann Joachim Winckelmann [1717-1768]: teólogo e historiador da arte clássi- Alemanha, crítico severo da sociedade do seu tempo. Para Nietzsche, ele era um "pro- ca. Como autor da famosa História da Arte dos Antigos, obra produzida a partir de fessor de liceu degenerado". um método rigoroso, angariou a admiração de Nietzsche.92 Escritos sobre Educação Sobre o Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Ensino 93 quer eles se chamem ou Julian quanto "Desta única relação possível entre os nossos clássicos e a em cada reunião, quase mesmo em cada conversação, que há cultura clássica, não foi certamente ouvido senão um leve ruí- entre homens e mulheres. Mas esta queda aparece justamente da do entre os muros vetustos do ginásio. Os filólogos estão mais maneira mais evidente e mais dolorosa na literatura pedagógica, infatigavelmente preocupados em apresentar por si mesmos às naquela que concerne ao ginásio. Pode-se comprovar que o valor almas jovens o seu e o seu e, sem um maior único que estes homens deram a um verdadeiro estabelecimen- exame, eles chamam o resultado disso, com um eufemismo in- to de ensino, durante meio século ou mais, não foi uma só vez contestável, de clássica>>. Qualquer um pode consultar expresso e, por via de consequência, reconhecido: quer dizer, o sua própria experiência para ver o que se recebeu de Homero e valor destes homens como guias e mistagogos que preparam para de Sófocles graças a estes mestres infatigáveis. Eis aí um domínio a cultura clássica, os únicos nos quais se poderia encontrar a onde se encontram as mais frequentes e as mais fortes ilusões e verdadeira via, aquela que leva à Antiguidade. também os erros de compreensão vertidos despropositadamente. "Toda cultura clássica, como se diz, só tem um expediente Eu jamais encontrei no liceu alemão [seja pelo lado dos professo- sadio e natural, o hábito de usar com seriedade e rigor artísticos res, seja pelo lado dos alunos] algo que não fosse uma coisa sem a sua língua materna: mas para isto, é raro que alguém seja con- valor a respeito do que poderia verdadeiramente ser chamado de duzido do interior, com suas próprias forças, para o segredo da clássica>>: e não é surpreendente imaginar que o ginásio forma, pelo atalho conveniente; na maioria dos casos, todos têm se tenha separado dos clássicos alemães e da construção da lín- necessidade destes grandes guias e mestres e devem entregar-se à gua alemã. Com um salto no vazio, não se leva ninguém à Anti- sua proteção. De qualquer maneira, não há cultura clássica que guidade: e, porém, todo modo de tratar os escritores antigos nas possa crescer sem este sentido aberto à forma. Lá onde pouco a escolas, todo comentário intrépido e toda paráfrase dos nossos pouco é despertada a percepção diferencial da forma e da bar- professores de filologia não são senão um salto no vazio. bárie, batem pela primeira vez as asas que levam à verdadeira e "A percepção do helenismo clássico é um resultado tão raro à única pátria da cultura, a Antiguidade grega. É verdade que na do combate mais encarniçado pela cultura e do dom artístico, nossa tentativa de nos aproximar deste castelo do mundo helêni- que é somente por uma incompreensão grosseira que o ginásio co, infinitamente distante e cercado de muros de diamante, não pode evocar a pretensão de despertar esta percepção. Com que iríamos muito longe, com o auxílio somente destas asas: mais idade? Numa idade em que se é ainda arrastado cegamente pe- uma vez, antes de mais nada, temos a necessidade dos mesmos las inclinações mais variadas do momento, em que não se pode guias, dos mesmos mestres, dos nossos clássicos alemães, para ainda suspeitar que a percepção do helenismo, quando é des- sermos arrastados pelo bater das asas dos seus esforços para o pertada, se torna imediatamente hostil e não pode exprimir-se antigo para o país do nosso para a Grécia. senão por um combate incessante contra a pretensa cultura do 20. Georg Gottfried Gervinus [1805-1871]: historiador da literatura e político ale- mão, representante da oposição liberal. 23. Homero [século IX a.C.]: poeta épico grego, autor da Ilíada e da 21. Julian Schmidt [?]: escritor e jornalista alemão, colaborador dos Grenzboten. 24. Sófocles [496-404/406 a.C.]: poeta trágico grego. Suas tragédias apresentam como característica comum o fato de valorizar o lado da vontade humana diante da 22. Cf. Goethe, Iphiénie en Tauride, I, 1. [Nota da edição francesa]. natureza.94 Escritos sobre Educação Sobre o Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Ensino 95 tempo presente. Para o ginasiano de hoje, os Helenos enquanto terreno, se aprende a respeitar uma língua fixada pelas regras, Helenos estão mortos: certamente ele se diverte lendo Homero, pela gramática e pelo léxico; neste domínio, se sabe ainda o que é mas um romance de Spielhagen o prende bem mais: certamente um erro; aí não se é torturado a cada momento pela reivindicação ele bebe com algum prazer a tragédia e a comédia gregas, mas de que os caprichos e os maus hábitos gramaticais e ortográficos, um drama bem moderno, como Os Jornalistas de o tal como ocorrem no estilo do alemão de hoje, são também jus- toca de maneira absolutamente diferente. Sim, ele se inclina a tificados. Desgraçadamente, desgraçadamente, este respeito pela falar de todos os autores antigos mais ou menos como o crítico língua carece de um fundamento sólido; trata-se antes de algo de arte Hermann Grimm, que, no fim de um ensaio tortuoso semelhante a um fardo teórico do qual é preciso se desfazer logo a respeito da de Milo, chega da mesma maneira a se que se queira lidar com sua língua materna! Sobretudo, habitu- perguntar: almente, é o professor de latim ou de grego que dá pouco valor a esta língua materna, tratando-a desde o início como um domínio O que é para mim esta figura de deusa? Que utilidade têm os no qual se pode descansar aliviadamente do uso correto e estrito pensamentos que ela desperta em mim? Orestes e Édipo, Ifi- do latim e do grego, onde é novamente permitida a confortável gênia e Antígona, o que têm em comum com o meu coração? negligência com a qual os Alemães têm o costume de tratar tudo que diz respeito a eles. Estes magníficos exercícios de tradução Não, jovens ginasianos, a de Milo não tem a menor de uma língua para outra, que podem fecundar da maneira mais importância para vocês: e a seus mestres menos ainda - e eis aí a salutar o sentido artístico da sua própria língua, não são jamais, desgraça, eis aí o segredo do ginásio hoje. Quem os conduzirá à por parte dos Alemães, tratados com o rigor e a dignidade cate- pátria da cultura, se os seus guias são cegos, ainda que se façam góricos que conviriam, e que são aqui sobretudo indispensáveis, passar por videntes?! Quem dentre vocês chegará a uma verda- já que se trata de uma língua indisciplinada. Desde então, estes deira percepção da gravidade sagrada da arte, se são perverti- exercícios também foram desaparecendo cada vez mais: ficamos dos metodicamente a balbuciar indistintamente por si mesmos, satisfeitos com conhecer as línguas clássicas estrangeiras, mas se quando se deveria ensiná-los a falar, a estetizar por si mesmos, quando se deveria levá-los ao fervor diante da obra de arte, a fi- detesta a possibilidade de falá-las. "Aqui, se introduz novamente a tendência de viés científico losofar por si mesmos, quando se deveria obrigá-los a escutar os grandes pensadores? Tudo isso trazendo como resultado o fato que reina no modo de conceber o ginásio: um fenômeno que de vocês ficarem eternamente distantes da Antiguidade e se tor- lança uma luz esclarecedora na cultura das humanidades, que foi outrora levada a sério como sendo a finalidade do ginásio. narem os servidores do momento. Aquela era a época dos nossos grandes poetas, quer dizer, da- O remédio mais seguro que está oculto na atual instituição do queles raros Alemães verdadeiramente cultos, quando o grande ginásio é, em todo caso, a seriedade com a qual as línguas latina Friedrich August introduziu nos ginásios o novo espírito e grega são tratadas durante uma longa sequência de anos: neste 26. Friedrich August Wolf [1759-1824]: filósofo e erudito alemão, cujo interesse lite- 25. Gustav Freitag [1816-1895]: historiador e escritor, diretor da revista Die Grenz- rário estava voltado para a Ilíada e a Odisseia de Homero. Wolf realizou uma refor- boten e porta-voz da burguesia liberal ma do ensino médio na Alemanha, na qual privilegia os estudos clássicos.96 Escritos sobre Educação Sobre o Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Ensino 97 clássico que vinha da Grécia e de Roma, por intermédio destes frequência que se conservou muitas vezes este espírito alemão homens; sua iniciativa ousada teve sucesso em impor uma nova autêntico, se bem que numa forma à qual falta a graça e venha imagem do ginásio, que não deveria mais ser unicamente um misturado com aparências grosseiras. Ao contrário, aquilo a que viveiro para a ciência, mas sobretudo o lugar consagrado a toda se dá agora, com uma presunção singular, o nome de cultura nobre e superior. é um agregado cosmopolita que tem tanta relação com "Dentre as medidas que pareciam necessárias, as mais impor- o espírito alemão quanto um jornalista tem com Schiller, ou tantes foram aquelas que, com um sucesso duradouro, atravessa- Meyerbeer27 com neste caso, a influência mais forte ram a constituição moderna do ginásio: mas justamente a mais aqui é aquela exercida pela cultura dos Franceses, antigermânica importante foi a que malogrou, a iniciação dos próprios mestres no seu fundamento mais profundo, que é imitada sem talento e neste novo espírito; assim, portanto, o objetivo do ginásio ficava com o gosto mais duvidoso ainda e que, por causa desta imitação, novamente muito distante da cultura humanista que Wolf dese- dá uma forma hipócrita à sociedade, à imprensa, à arte e ao estilo java. E foi antes a antiga estima absoluta pela erudição e pela cul- dos Alemães. Certamente, esta cópia não alcançará em lugar tura acadêmica, estima que o próprio Wolf tinha já ultrapassado, nenhum aquele efeito tão artisticamente comum encontrado na foi ela que, depois de um combate desprezível, tomou o lugar do França, inclusive hoje, que é esta civilização original, saída do princípio de cultura que ele tinha introduzido e que agora reivin- ser da romanidade. Para observar este contraste, que se compare dicava de novo, não publicamente como outrora, mas com uma os nossos romancistas alemães mais renomados com qualquer máscara e com o rosto coberto, o seu direito exclusivo. E se fra- romancista de renome da França ou da Itália, ainda que sejam cassou a tentativa de introduzir no ginásio o grande movimento os menos renomados: dos dois lados, as mesmas tendências e os da cultura clássica, isto se deveu ao caráter não alemão, quase mesmos meios duvidosos, mas lá ligados a uma seriedade artística, estrangeiro e cosmopolita destes esforços no campo da cultura, ou pelo menos à correção da língua, muitas vezes à beleza, em isto é, à crença de que era possível eximir-se da base do solo todo lugar como o eco de uma cultura social adequada; aqui, no nacional e continuar, porém, a ficar de pé, em suma, à ilusão de primeiro caso, tudo carece de originalidade, tudo é vacilante, que se podia saltar diretamente, sem a utilização de pontes, ao vestido com o do pensamento e da expressão, mundo grego, tendo já negado o espírito alemão e, de uma ma- ou desagradavelmente grandiloquente; além disso, sem a menor neira geral, o próprio espírito nacional. forma social verdadeira no seu fundamento, e lembrando no "Certamente, é preciso saber primeiro rastrear este espírito seu ponto mais alto, por suas maneiras e seus conhecimentos, alemão nos seus esconderijos, sob as suas máscaras da moda ou sob um monte de escombros, é preciso amá-lo muito para não ter Giácomo Meyerbeer [1791-1864]: compositor alemão de óperas. mesmo vergonha de suas formas mirradas, é preciso sobretudo 28. Ludwig von Beethoven [1770-1827]: grande compositor musical alemão. Ele ti- nha um pai que era alcoólatra e amiúde atacado por acessos de cólera e que buscou abster-se de confundi-lo com o que se intitula agora, com um sempre tirar proveito da genialidade musical do filho; pouco depois dos 30 anos de gesto de orgulho, cultura alemã de Esta última é antes idade foi ficando progressivamente surdo, mas nem por causa disso deixou de compor suas sinfonias. Muitas vezes citado na obra de o inimigo íntimo deste espírito alemão: e é justamente nas esferas 29. Em francês no texto, significando "camisola de dormir", como quem diz a respei- de cuja falta de cultura este costuma lamentar com to de uma roupa que só se usa em casa.98 Escritos sobre Educação Sobre o Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Ensino 99 o sábio que, na Alemanha, é o erudito corrompido que se torna um objetivo incoerente, que flutua ao sabor dos ventos: e pelo jornalista, ao passo que, nos países latinos, é o homem provido menos não se deve censurar aqueles que desejam introduzir nos de educação artística que abraça esta carreira. Com esta cultura ginásios, ainda que com um espírito tão limitado, o cientificismo pretensamente alemã, mas no fundo [cosmopolita e] despida de e a erudição, para assim ter diante dos olhos um objetivo real, qualquer originalidade, os Alemães não podem esperar vitórias sólido e ao mesmo tempo ideal, e salvar seus alunos das seduções em nenhum setor: os Franceses e os Italianos lhes farão ficar deste brilhante fantasma, que se faz chamar agora de e envergonhados com esta cultura e, caso se trate de imitar Eis a triste situação do ginásio atualmente: os pontos engenhosamente uma cultura estrangeira, os Russos, mais do de vista mais limitados estão numa certa medida justificados, por- que todos, os farão parecer ridículos. que ninguém está em condições de alcançar ou pelo menos indi- "Por esta mesma razão, devemos nos apegar cada vez mais car o ambiente onde todos estes pontos de vista se tornam falsos. firmemente ao espírito alemão que se revelou na Reforma alemã Ninguém?", pergunta o discípulo ao filósofo com uma cer- e na música alemã e que provou esta força tenaz, hostil a toda ta emoção na VOZ: e ambos se calaram. aparência, na ousadia e no rigor extraordinários da filosofia ale- mã e, há pouco, na fidelidade comprovada do soldado alemão, esta força da qual podemos esperar também uma vitória sobre a TERCEIRA CONFERÊNCIA pseudocultura à moda da Arrastar para esta luta uma escola voltada para a verdadeira cultura e inflamar, particu- Honrada assistência, larmente no ginásio, a nova geração para o que é verdadeiramente alemão, eis a atividade futura que esperamos da escola: onde, Aquela conversa da qual antes fui testemunha e da qual, ago- enfim, o que se chama de cultura clássica encontrará também seu ra, diante de vocês, procuro reproduzir os traços essenciais, tal solo natural e seu único ponto de partida. como estão gravados profundamente na minha memória, foi, no "Uma renovação e uma purificação verdadeiras do ginásio só momento em que tinha pela última vez interrompido meu dis- virão de uma renovação e de uma purificação do espírito alemão curso, suspensa por uma pausa longa e grave. O filósofo, assim que sejam profundas e poderosas. Misterioso e difícil de com- como seu companheiro, ficaram mergulhados num silêncio som- preender é o laço que une verdadeiramente o ser profundo da brio: cada um deles percebia singular estado de miséria que Alemanha e o gênio grego. Mas, enquanto a necessidade mais acometia o mais importante dos estabelecimentos de ensino, o nobre do verdadeiro gênio alemão não procurar a mão deste gê- ginásio, a propósito do qual eles tinham acabado de falar, com nio grego como um firme apoio no rio da barbárie, enquanto este um grande peso no coração, peso que nem um indivíduo de boa- espírito alemão não exprimir aquela nostalgia angustiante pelos vontade tinha força bastante. nem a massa tinha boa-vontade Gregos, enquanto a perspectiva da pátria grega, penosamente bastante para aliviar. alcançada, fonte de deleite para Goethe e para Schiller, não se ti- Duas coisas perturbavam particularmente nossos pensadores ver tornado lugar de peregrinação dos homens melhores e mais solitários: por um lado, a clara visão do fato de que aquilo que bem dotados, nesse caso, o ginásio se proporá na cultura clássica de direito devia ser chamado de "cultura clássica" era agora so-100 Escritos sobre Educação Sobre o Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Ensino 101 mente um ideal de cultura flutuante e inconsistente que não po- "Cada vez mais firmemente, disse o filósofo, devemos nos dia se desenvolver no solo dos nossos meios de educação, e, por manter apegados ao espírito alemão que se revelou na Reforma outro lado, a visão do fato de que aquilo que se designava agora alemã e na música alemã, que experimentou esta força tenaz, pelo eufemismo corrente e incontestável de "cultura clássica" só hostil a toda aparência, na ousadia e no rigor extraordinários da tinha o valor de uma ilusão pretensiosa, cujo efeito mais notável filosofia alemã e, há pouco, na fidelidade comprovada do solda- era a circunstância de que a própria expressão "cultura clássica" do alemão, esta força com a qual podemos esperar também uma ainda continuava subsistindo e não perdera ainda sua sonorida- vitória sobre a pseudocultura à moda da Arrastar de patética. Em seguida, a propósito do ensino do alemão, estes nesta luta uma escola voltada para a verdadeira cultura e infla- homens honrados ao mesmo tempo chegaram a esclarecer que o mar, particularmente no ginásio, a nova geração ascendente para ponto de partida justo para uma cultura superior, apoiada sobre o que é verdadeiramente alemão, eis a atividade futura que espe- os pilares da Antiguidade, até então não tinha sido encontrado: o ramos da escola: onde, enfim, o que deve ser chamado de cultura abandono do ensino da língua, a introdução de orientações his- clássica encontrará também um solo natural e o seu único pon- tóricas com viés científico, em vez de uma construção prática e to de partida. Uma renovação e uma purificação verdadeiras do de um hábito, a ligação de certos exercícios exigidos nos ginásios ginásio só poderão vir de uma renovação e de uma purificação com o espírito suspeito do nosso ambiente jornalístico todos do espírito alemão que sejam profundas e poderosas. Misterioso estes fenômenos perceptíveis no ensino do alemão nos dão a tris- e difícil de compreender é o liame que junta verdadeiramente te certeza de que as forças mais sadias que vêm da Antiguidade o ser profundo da Alemanha e o gênio grego. Mas, enquanto clássica não foram ainda descobertas nos nossos ginásios, isto é, a necessidade mais nobre do verdadeiro gênio alemão não pro- aquelas forças que dão as armas para o combate contra a bar- curar a mão deste gênio grego como um apoio firme no fluxo bárie do presente e que talvez um dia venham a transformar os da barbárie, enquanto este espírito alemão não expressar aquela ginásios em arsenais e laboratórios para este combate. nostalgia angustiante pelos Gregos, enquanto a perspectiva da Até então, parecia inclusive àqueles homens que o espírito da pátria grega, penosamente atingida, fonte de deleite para Goethe Antiguidade estava destinado a ser deliberadamente perseguido e para Schiller, não se tiver tornado o lugar de peregrinação dos e expulso desde o começo do ginásio e que aí também se queria homens melhores e mais dotados, neste caso, o ginásio proporá abrir as portas tão escancaradamente quanto possível a este ser para si na cultura clássica um objetivo incoerente, que flutua ao corrompido pelas bajulações, a nossa pretensa "cultura sabor dos ventos: e pelo menos não se deve censurar aqueles que de hoje. E se parecia haver assim uma esperança para os nossos desejam introduzir nos ginásios, ainda que com um espírito tão interlocutores solitários, esta era a de que tudo ficaria ainda pior, limitado, o cientificismo e a erudição, para ter diante dos olhos que aquilo que até agora bem poucos tinham compreendido se um objetivo real, sólido e ao mesmo tempo ideal, e salvar seus tornaria para a maioria uma evidência opressora, mas que, en- alunos das seduções deste brilhante fantasma que se faz chamar tão, nestas circunstâncias, não devia estar longe a época em que agora de "cultura" e homens honrados e decididos trabalhariam também no sério do- Depois de um certo tempo de reflexão silenciosa, o compa- mínio da educação do povo. nheiro se voltou para o filósofo e lhe disse: "Você quis me dar102 Escritos sobre Educação Sobre o Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Ensino 103 esperanças, mestre; mas você superestimou minha compreensão grandemente suas capacidades medíocres, de esperanças que não das coisas, e com isso a minha força, a minha coragem: é ver- despertam neles qualquer ressonância, de combates, cujos gritos dade que agora lanço sobre o campo de batalha um olhar mais de guerra nem sequer compreendem e nos quais intervêm somen- intrépido, é verdade que no momento desaprovo esta minha fuga te como massas pesadas e inertes de chumbo. Esta deveria, sem demasiado precipitada. Mas não é em nós que devemos pensar; exagero, ser necessariamente a situação da maior parte dos pro- e não devemos mais nos preocupar em saber quantos indivíduos fessores nos estabelecimentos de ensino superior: mas aquele que morrerão neste combate ou se nós próprios cairemos entre os imagina como mais amiúde se produz este tipo de professores, primeiros. Justamente porque levamos a coisa a sério, não de- como se constrói este mestre da cultura superior, este não ficaria veríamos levar tanto a sério nossas pobres individualidades; no admirado com uma tal situação. Existe agora, quase em todo momento em que desaparecermos, um outro pegará a bandeira, lugar, um número tão excessivo de estabelecimentos de ensino símbolo de uma honra na qual acreditamos. Nem sequer desejo superior, que normalmente se utiliza aí um número muito maior refletir para saber se sou bastante forte para este combate, se de professores do que a natureza de um povo, mesmo ricamen- resistirei durante muito tempo; pode mesmo ser que seja uma te dotado, pode produzir; ocorre então, nestes estabelecimentos, morte gloriosa tombar sob os risos zombeteiros dos inimigos, um excesso de pessoas que não têm vocação, mas que, pouco a cujo andar grave tão frequentemente nos pareceu ter algo de ridí- pouco, por causa do seu número esmagador e com seu instin- culo. Quando penso na maneira como aqueles que são da minha to do similis simili determinam o espírito destes esta- idade se preparam para mesmo ofício que eu, o belo ofício de belecimentos. Estas pessoas estão sem dúvida exageradamente professor, sei que muitas vezes vamos de coisas opostas e distanciadas das coisas pedagógicas e acham que a riqueza apa- levar a sério as coisas mais rente dos nossos ginásios e de nossos mestres, que só consiste no Muito bem, meu amigo, disse o filósofo, interrompendo-o número, poderia, não sei por que leis e regras, ser transforma- com um riso, você fala como alguém que quisesse pular na água do numa verdadeira riqueza, numa ubertas sem que, sem saber nadar, e que, mais do que se afogar, temesse não se afogar e ser alvo de risos. Mas os risos são a última coisa que por outro lado, este número fosse reduzido. Contudo, é preciso devemos temer; pois estamos aí num domínio onde há tantas que sejamos unânimes a este respeito: para alcançar realmente verdades a dizer, tantas verdades terríveis, penosas, imperdoá- a cultura, a própria natureza não destinou senão um número veis, que o ódio mais franco não nos faltará e somente furor infinitamente restrito de homens, e, para o feliz desenvolvimento poderá motivar aqui e ali um riso embaraçado. Imagine apenas destes, basta um número muito mais restrito de estabelecimentos os muitos grupos de professores que adotaram com a melhor fé de ensino superior; e aqueles que por carência se sentem menos do mundo o sistema de educação em uso até agora e que eles per- favorecidos nos estabelecimentos de hoje, que são concebidos petuam bravamente sem um escrúpulo sério qual seria, creia, para as grandes massas, são justamente os únicos para quem há a reação deles, quando pretenderem falar de planos de que estão de fato um sentido em fundar algo deste gênero. excluídos, e, beneficio de exigências que ultrapassam 31. Em latim no texto, significando "o semelhante se alegra com o semelhante". 30. Em latim no texto, significando "para o bem da natureza". 32. Em latim no texto, significando "fecundidade do caráter natural".106 Escritos sobre Educação Sobre o Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Ensino 107 "Mas sabemos que aspiram aqueles que querem interromper professores de nível superior; e é justamente neste domínio que o sono salutar do povo, aqueles que lhe gritam sem cessar: acumulei as experiências que me comprovam que a tendência de, seja consciente! Seja Sabemos que eles visam, estes educativa do ginásio só pode exatamente ser dirigida por esta que fingem satisfazer uma forte necessidade de cultura, através imensa maioria de mestres que, no fundo, não têm nada a ver do crescimento extraordinário do número de estabelecimentos com a cultura e somente por causa da necessidade que se tem de ensino e, por conseguinte, através da criação de uma classe de deles é que chegaram a esta via e a estas pretensões. Todos os professores conscientes da sua importância. São eles justamente, homens que, no instante fulgurante de uma iluminação, estão e justamente com estes meios, que lutam contra a hierarquia na- convencidos do caráter singular e inacessível da Antiguidade gre- tural no reino do intelecto, que destroem as raízes destas forças ga e que, em penosos combates, defenderam contra si mesmos culturais mais elevadas e mais nobres da cultura que vêm do esta todos estes homens sabem que o acesso a estas inconsciente do povo, e cuja destinação materna é gerar o gênio iluminações não será jamais aberto a muitos e consideram um e depois elevá-lo e educá-lo Somente a com- comportamento absurdo e mesmo indigno o fato de que alguém paração com a mãe nos permite compreender a importância e as se relacione com os Gregos, por assim dizer, por razões profis- obrigações que a verdadeira cultura de um povo tem com relação sionais, com o fito de ganhar seu pão, como se tratasse de uma ao gênio: seu verdadeiro nascimento não depende propriamente ferramenta de uso cotidiano, e manipule estes objetos sagrados dela, pois ele só pode ter, por assim dizer, uma origem metafísi- com mãos de artesão, sem o menor respeito. Mas é justamente ca, uma pátria metafísica. Mas que ele venha a aparecer, que ele nesta classe que se recruta a maior parte dos professores do ginásio, surja no meio de um povo, que ele seja por assim dizer a imagem é na classe dos filólogos que este sentimento grosseiro e desrespei- refletida, o jogo completo das cores de todas as forças particula- toso é um fato absolutamente universal: por isso, a propagação e res deste povo, que ele faça ver o mais alto destino deste povo no a transmissão de um tal estado de espírito não deverá, de modo ser metafórico de um indivíduo e numa obra eterna, religando algum, causar surpresa. assim seu povo à eternidade e libertando da esfera mutante da "Basta que se olhe bem esta jovem geração de filólogos. Como instantaneidade tudo isso gênio só pode fazer quando se tor- é raro que se observe neles aquele sentimento de pudor que faz nar maduro e alimentado no seio materno da cultura de um povo que, diante de um mundo como o mundo grego, acreditemos pois, sem esta pátria que o protege e o acalenta, ele ficaria na não ter qualquer direito à existência; com que audácia, com que impossibilidade absoluta de abrir suas asas para seu VOO eterno, ousadia, ao contrário, esta jovem raça edifica seus miseráveis e logo se distanciaria tristemente deste país inóspito, como um ninhos no interior dos templos mais grandiosos! Para a maior estrangeiro lançado às solidões invernais. parte daqueles que, desde a época dos seus estudos universitá- Mestre, disse então seu discípulo, você me assusta e me rios, passeiam sem qualquer pudor e com um tal contentamento surpreende com esta metafísica do gênio, e só imagino vaga- consigo mesmos nas admiráveis ruínas deste mundo, seria preci- mente o quanto estas metáforas têm de justas. Em compensação, verdadeiramente que uma VOZ poderosa gritasse para eles de compreendo perfeitamente o que você disse a respeito do núme- todos os cantos: daqui, profanos, a quem não se deveria ro excessivo de ginásios e do consequente número excessivo de jamais iniciar, saiam em silêncio deste santuário, em silêncio e108 Escritos sobre Educação Sobre o Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Ensino 109 cobertos de Infelizmente, no entanto, esta voz so- era Édipo, no fundo, senão um patife apaixonado, despido de aria em vão: pois é preciso ter já um pouco da raça grega para qualquer doçura cristã? Ele inclusive, uma vez, teve um acesso de compreender simplesmente uma maldição e um anátema gregos! fúria totalmente inconveniente quando o chamou de Mas aqueles são tão bárbaros, que habitualmente se instalam monstro e maldição de todo seu Sejam serenos! Eis o que comodamente nestas ruínas: eles levam consigo todas as suas talvez Sófocles queria ensinar: ou senão, será preciso que vocês comodidades modernas e seus divertimentos favoritos, eles se tenham de casar com suas mães e matar seus pais! Outros ainda, escondem também atrás das estátuas antigas e dos monumentos durante toda a sua vida, contam os versos dos poetas gregos e funerários: e se rejubilam intensamente quando encontram num latinos e se alegram com a proporção 7:13 = 14:26. Para termi- quadro antigo que aí se introduziu pela astúcia. Pode ser que nar, há inclusive aqueles que prometem resolver uma questão tão um deles faça versos, por saber consultar o léxico de Hesíquios: séria, como é a questão homérica, estudando as preposições, e então, ficará imediatamente convencido de que está em condi- que acreditam com ava e fazer sair a verdade dos seus po- ções de também traduzir os versos de Ésquilo, e encontrará ain- Mas todos, por mais diferentes que sejam suas tendências, da também partidários que declaram que ele, um pobre diabo de esquadrinham e revolvem o solo grego com uma tal constância poeta, é da mesma natureza de Ésquilo! Outro, com o olho des- e uma tal imperícia desmedida, que deveriam verdadeiramente confiado de um policial, procura todas as contradições, todas as assustar um amigo sério da Antiguidade: e eu gostaria de tomar sombras de contradição de que Homero se teria tornado culpado: pela mão qualquer homem, dotado ou não, que deixasse per- este gasta sua vida a dilacerar e de resto depois a costurar os tra- ceber uma certa inclinação pela Antiguidade, da qual ele faria pos homéricos que inicialmente ele mesmo roubou do magnífico sua profissão, e perorar diante dele assim: que perigos manto. Um terceiro se sente pouco à vontade diante do aspecto te espreitam, jovem que se a caminho com um saber esco- misterioso e orgiástico da Antiguidade: ele se decide de uma vez lar tão medíocre? Ouviste dizer que, segundo Aristóteles, não é por todas a não deixar subsistir senão um Apolo iluminado e a uma morte trágica ser esmagado por uma Mas esta é ver no ateniense um indivíduo apolíneo sereno e sensato, ainda que levemente imoral. Como ele suspira quando consegue trazer 34. Tirésias: célebre adivinho grego de Tebas. Conta-se que ele tinha ficado cego por obra de Palas, porque ele a tinha visto nua, mas em troca lhe concedeu o dom da pro- uma nova cunha sombria da Antiguidade à altura do seu próprio fecia. Mas a versão mais admitida é que, perguntado sobre quem tinha mais prazer no conhecimento, quando, por exemplo, descobre no velho Pitágo- amor, se o homem ou a mulher, ele respondeu que era a mulher, e como castigo Hera, por ter ouvido revelar o seu segredo, o cegou, mas então Zeus concedeu a ele o dom um bravo coirmão que tem as mesmas políticas da profecia e uma vida mais longa do que podia viver o comum dos mortais. Tirésias ilustradas que ele. Outro ainda se tortura em refletir porque Édi- é citado tanto por Homero quanto por Sófocles. po foi condenado pelo destino a coisas tão abomináveis, como a 35. Cf. Sófocles, Oedipe-Roi, V. 353 [Nota da edição francesa]. de ter de matar seu pai e casar com sua mãe. Onde está o erro?! 36. Em grego no texto. Cf. Dicionário de de Isi- doro Pereira S.J., a preposição ava significa: sobre, em cima de, para cima, através de, Onde está a justiça poética?! De repente, ele sabe a resposta: não ao longo de, durante, por, cada, e a preposição pode significar: do alto de, sobre, dentro de, em, acerca de, contra, ou ainda: de alto a baixo, durante, enquanto, cerca de, através de, sobre, para, em direção a, contra, no que diz respeito a, ou também: 33. Pitágoras 500 a.C.]: filósofo e matemático grego, aluno especialmente conforme a, segundo, em contraposição. de Anaximandro; defendeu a metempsicose e exigia de seus discípulos uma moral rígida e ascética. 37. Cf. Aristóteles, Poétique, 1452 a 7-10 [Nota da edição francesa].110 Escritos sobre Educação Sobre o Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Ensino 111 justamente a morte que te espreita. Tu te surpreendes com isso? cles e Aristófanes jamais pode alcançar uma impressão fora do Saibas portanto que os filólogos tentam há séculos reerguer a comum, um pensamento digno de atenção, aí também ele se ins- estátua da Antiguidade grega, que caiu e foi enterrada; mas isto talou com um certo sucesso no ofício de tecer a etimologia ou de foi feito até agora com forças insuficientes: pois ela é um colosso ficar encarregado de reunir os restos de um dialeto longínquo e no qual os indivíduos trepam como anões. E se recorre, então, sua viagem consiste em ligar e separar, juntar e dispersar, correr à reunião de forças imensas e a todas as da cultura de um lado para outro e consultar os livros. Mas eis que este moderna: mas sempre, logo depois de ter sido levantada do solo, linguista, que se empenha tão utilmente, deve ainda sobretudo ela cai novamente e esmaga os homens na sua queda. Isto seria ser professor! Neste caso, de acordo com suas obrigações e para ainda admissível: pois todo homem deve morrer de alguma coisa: bem da juventude dos ginásios, ele deve justamente ensinar mas quem garante que nestas tentativas a própria estátua não se algo sobre os autores antigos, sobre os quais ele, porém, jamais quebraria?! Os filólogos morrem por causa dos Gregos - se pode chegou a ter sequer uma impressão, ainda menos uma ideia! Que aqui concordar - mas a Antiguidade foi ela própria quebrada embaraço! A Antiguidade não lhe diz nada e, por conseguinte, em pedaços pelos filólogos! Reflita bem nisso, jovem de pouco ele não tem nada a dizer sobre a Antiguidade. Mas, de repente, cérebro, recua, se tu não és um ele vê claro e se sente melhor: para que serve um linguista? Por De fato, disse o filósofo rindo, há agora muitos filólogos que estes autores escreveram em latim ou em grego? E assim ele que recuaram como tu exiges; e percebo um grande contraste em começa alegremente, partindo de Homero, a fazer a etimologia e relação às experiências da minha juventude. Um grande número a chamar em seu socorro o lituano ou o velho eslavo, e sobretudo destes filólogos chega agora, conscientemente ou não, à convic- o sagrado sânscrito, como se as horas consagradas ao estudo do ção de que o contato direto com a Antiguidade clássica é para grego fossem somente um pretexto para uma introdução geral à eles inútil e desesperada: eis porque inclusive estudo desta é linguística e como se Homero tivesse cometido um delito essen- então considerado pela maioria dos filólogos como estéril, ul- cial, aquele de não ter escrito no indo-europeu primitivo. Quem trapassado, digno somente de epígonos. Muito maior é a alegria conhece os ginásios de hoje sabe até que ponto seus professores com a qual este grupo se lança na linguística: aí, num terreno se distanciaram da tendência clássica e como a percepção desta infinito, recém removido, que pode ainda ser cultivado, onde, ausência acarretou que justamente estes exercícios acadêmicos agora ainda, os dons mais medíocres podem ser utilmente em- de linguística comparada tivessem sido privilegiados. pregados e onde uma certa lucidez é imediatamente considerada Acho, porém, disse o companheiro, que o que importa como um talento positivo, por causa da novidade e da pouca justamente para o professor de cultura clássica é não confundir segurança dos métodos e do perigo contínuo de errâncias fantás- os Gregos e os Romanos com os outros povos que eram bárba- ticas - aí, onde um trabalho ordenado é precisamente o que se ros, e que, para ele, o grego e latim não deveriam ser jamais deseja mais - aí, aquele que se aproxima não se vê surpreendido línguas como as outras: é justamente indiferente para a sua por esta VOZ majestosa que se faz perceber no mundo em ruínas tendência clássica saber se o esqueleto destas línguas coincide da Antiguidade e que a todos contradiz: aí, enfim, se acolhe com com a das outras línguas ou se é semelhante a estas: seu verda- os braços abertos a todos, e mesmo aquele que diante de Sófo- deiro interesse deve levá-lo exatamente ao que não é comum,112 Escritos sobre Educação Sobre o Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Ensino 113 ao que coloca estes povos, enquanto não são bárbaros, acima cultura, só porque os impulsiona a necessidade de ganhar o pão dos outros, e isto na medida em que ele é justamente um mestre de cada dia e porque o excessivo número de escolas exige para si de cultura e deve querer ele próprio transformar-se segundo o um excessivo número de mestres!? Para onde vão eles fugir, se a modelo sublime do clássico. Antiguidade os rechaça com um gesto imperioso!? Não deverão E, se não me engano, disse o filósofo, suspeito que, da eles cair vítimas destes poderes da atualidade, que gritam para maneira como hoje se ensina o latim e o grego nos ginásios, não eles dia após dia, pela infatigável VOZ dos órgãos da imprensa: se saiba mais a língua, que se tenha perdido este domínio fá- somos a cultura! Nós somos a educação! Nós estamos nos cil que se expressa na palavra e na escrita, quer dizer, algo que cumes! Nós estamos no vértice da pirâmide! Nós somos a meta distinguia a minha geração, a qual, é verdade, está agora mais da história quando ouvem estas promessas sedu- velha e mais dispersa. Em troca, os mestres de hoje me parecem toras, quando os jornais e as revistas os exaltam como sendo o usar deste expediente com seus alunos, e o fazem de maneira tão fundamento de uma forma de cultura totalmente nova, superior genérica e tão histórica, que seriam no melhor dos casos peque- a todas as outras, porque mais madura do que elas, aí surgem nos sanscritólogos, ou demoníacos etimologistas, ou libertinos os signos mais vergonhosos da incultura, o caráter plebeu pu- da conjectura, porém, ainda assim, nenhum deles poderia ler seu blicamente alardeado daquilo que se chama de cul- ou seu com prazer que temos nós, os velhos. Para onde vão eles fugir, estes pobres indivíduos, se é Os ginásios podem portanto ser ainda hoje viveiros de erudição, que têm ainda em si um resto de faro para perceber que estas mas não desta erudição que é somente, por assim dizer, o efeito promessas são mentirosas - para onde, senão para a ocupação secundário natural e não premeditado de uma cultura dirigida científica mais obtusa, mais mesquinha, mais baixa, para que aos objetivos mais nobres, mas antes daquela que seria preciso não precisem ouvir mais os gritos que se dão infatigavelmente a comparar com a inchação hipertrofiada de um corpo malsão. Os propósito da cultura? Ao se verem assim perseguidos, não seriam ginásios são exatamente os viveiros para onde é transplantada eles enfim levados a se esconder como faz avestruz, metendo esta obesidade acadêmica, quando não degeneraram a ponto de a cabeça num monte de areia!? Não seria uma verdadeira felici- se transformarem em escolas de gladiadores desta elegante barbá- dade para eles poder, escondidos sob os dialetos, as etimologias rie, que agora se pavoneia com o nome de alemã e as conjecturas, levar uma vida de formigas, há milhas certa- Mas, para onde vão fugir, respondeu o companheiro do mente da verdadeira cultura, mas pelo menos com os ouvidos filósofo, todos estes pobres mestres tão numerosos, a quem a tapados, surdos e fechados à da cultura elegante da época? natureza não concedeu dons para uma verdadeira cultura, e que Tu tens razão, meu amigo, disse o filósofo, mas qual é a chegaram mesmo à pretensão de fazer as vezes de mestres da necessidade absoluta que impõe a manutenção de um número ex- cessivo de escolas de cultura e, por conseguinte, que seja também 38. Platão [428-347 a.C.]: filósofo grego, discípulo de Sócrates e mestre de Aristóte- inevitável um número excessivo de mestres de cultura - quando, les. Citado centenas de vezes na obra de Nietzsche, foi um interlocutor permanente na realidade, compreendemos muito claramente que a exigência deste até o final de sua carreira intelectual. deste excesso vem de uma esfera hostil à cultura e que as conse- 39. Tácito 55-120 d.C.]: historiador latino; escreveu particularmente Os Costumes dos Germanos. quências deste excesso são vantajosas somente à falta de cultura?114 Escritos sobre Educação Sobre o Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Ensino 115 Na verdade, não se pode falar de semelhante necessidade abso- sidade, e mesmo com os privilégios militares de maior amplitude, luta, senão na medida em que o Estado moderno se intrometa e isto num país onde tanto o serviço militar obrigatório para habitualmente nas conversas sobre estas questões e faça acompa- todos, aprovado e apoiado por toda a população, quanto a am- nhar suas exigências com a apresentação de suas armas: um fe- bição política desenfreada dos funcionários atraem inconscien- nômeno que, evidentemente, surte efeito na maioria dos homens, temente nesta direção todas as naturezas dotadas. Na Prússia, como se diante dela ele se erguesse como uma eterna necessidade o ginásio é considerado sobretudo como portador de um certo absoluta, como se a lei fundamental das coisas se fizesse ouvir. grau de honra: e quem quer que se sinta empurrado para a esfera De resto, um Estado como se diz agora, que fala com do governo deverá seguir a via do ginásio. Este é um fenômeno este tipo de exigências, é um fenômeno recente e foi somente no novo e em todo caso original: o Estado aparece como o mistago- último meio século que ele se tornou quer dizer, go da cultura e, ao mesmo tempo em que persegue seus próprios numa época à qual, segundo sua expressão favorita, parecem fins, ele obriga a todos os seus servidores a só se apresentarem muitas coisas que em si não são absolutamente diante dele munidos da luz da cultura universal do Estado: sob evidentes. Foi exatamente mais poderoso dos Estados moder- esta luz turva, eles devem reconhecer nele o objetivo supremo, nos, a Prússia, que levou mais a sério o direito de ser o guia como aquele que recompensa todos os seus esforços na direção supremo em matéria de cultura e de escola, que, dada a ousadia da cultura. Ora, este último fenômeno deveria desconcertá-lo, de- que é própria deste Estado, princípio duvidoso do qual ele se veria lembrá-los, por exemplo, de uma tendência parecida, uma apoderou adquiriu um significado universalmente ameaçador e tendência que se compreende pouco a pouco, a de uma filosofia perigoso para o autêntico espírito alemão. Pois foi deste lado que lançada em proveito do Estado e visando os objetivos do Estado, vimos formalmente sistematizada a aspiração de levar o ginásio a tendência da filosofia hegeliana: mais ainda, talvez não fosse ao que se chama de da nossa época>>: foi aí que se viu exagerado afirmar que, submetendo todos os esforços da cultura florescer todas as regras que impulsionam maior número pos- aos objetivos do Estado, a Prússia se apropriou com sucesso da sível de alunos a uma educação pelo ginásio: foi aí que o Estado parte praticamente válida da herança da filosofia hegeliana: sua empregou mesmo mais poderoso dos seus meios, a atribuição apoteose do Estado atinge sem dúvida seu ápice nesta submissão. de certos privilégios que se referem ao serviço militar, e com um Mas, perguntou o companheiro, que desígnios pode per- sucesso tal que, segundo o testemunho imparcial de profissionais seguir Estado numa tendência tão perturbadora? Pois, que ele da estatística, foi justamente por isto, e unicamente por causa persiga um desígnio político, isto se pode ver pelo fato de que a disto, que se pode explicar o fato de que todos os ginásios prus- organização prussiana da escola é admirada por outros Estados, sianos estejam saturados e que exista uma imperiosa e contínua maduramente discutida e em todo lugar imitada. Evidentemen- necessidade de criação de novas escolas. que mais pode fazer te, estes outros Estados supõem que isto traga benefícios para Estado em prol de um excesso de estabelecimentos de ensino, do a estabilidade e para a força do Estado, mais ou menos como que estabelecer uma relação necessária entre o ginásio e os pos- ocorre com este famoso serviço militar obrigatório que se tornou tos mais elevados da classe dos funcionários, e também com uma completamente popular. Quando se vê que todo mundo carrega grande parte dos cargos menos elevados, com o acesso à Univer- periodicamente e com orgulho o uniforme militar, quando se116 Escritos sobre Educação Sobre o Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Ensino 117 vê que quase todo mundo, graças aos ginásios, assimilou uma tais alemães a memória dos nossos grandes poetas e dos nos- cultura de Estado uniformizada, aqui, os indivíduos hiperbólicos grandes artistas, e no modo como os planos artísticos mais poderiam quase falar de um regulamento digno da antiguidade, elevados destes mestres alemães foram sempre sustentados por desta potência do Estado que não foi realizada senão uma vez na parte do Estado. Antiguidade, e que quase todos os jovens são instintivamente so- "Portanto, deve haver algo de particular nesta tendência esta- licitados a considerar como o desabrochar e o objetivo supremo tal que favorece, de todas as maneiras, aquilo que se chama aqui da existência humana. de assim como na cultura deste modo favorecida que Esta comparação, disse o filósofo, seria certamente hiper- se submete a esta tendência estatal. Esta tendência estatal está bólica e claudicaria nas duas pernas. Pois de fato o Estado antigo em guerra, declarada ou não, com o autêntico espírito alemão e se manteve exatamente tão distante quanto possível desta consi- com a cultura que pode emanar dele, tal como te descrevi, meu deração utilitária, que somente leva a admitir a cultura na medi- amigo, com traços hesitantes: o espírito da cultura que favorece da em que ela é diretamente útil ao Estado, e a negar os instintos esta tendência estatal e que ela sustenta com um interesse tão que não encontram nestes desígnios seu emprego imediato. No forte, em razão da qual ela faz o estrangeiro admirar seu siste- mais profundo do seu pensamento, os Gregos, justamente por ma escolar, deve por conseguinte vir de uma esfera que não tem esta razão, tinham pelo Estado este sentimento poderoso de ad- qualquer contato com este autêntico espírito alemão, com este miração e de reconhecimento, quase escandaloso para o homem espírito que nos fala tão maravilhosamente da essência mais pro- moderno, porque eles reconheciam que, sem esta instituição de funda da Reforma alemã, da música alemã, da filosofia alemã, e assistência e proteção, não se poderia desenvolver um só germe que, como um nobre exilado, é olhado com tanta indiferença e de cultura, e que sua cultura absolutamente inimitável e para desprezo justamente por esta cultura que prolifera nos caminhos sempre única não teria justamente alcançado esta exuberância, do Estado. Este é um estrangeiro que se distancia no seu luto senão sob a guarda atenta e prevenida de suas instituições polí- solitário: e lá no fundo se agita o turíbulo diante desta pseudo- ticas de assistência e de proteção. O Estado não era para aquela -cultura que, sob as aclamações dos professores e dos jornalistas cultura um guarda de fronteiras, um regulador, um superinten- "cultos", se enfeita com seu nome e com suas dignidades e se dente, mas o companheiro de viagem, e companheiro de an- entrega a um jogo vergonhoso com a palavra Por que dar vigoroso, forte, disposto ao combate, que escoltava através o Estado tem necessidade deste número excessivo de estabeleci- das rudes realidades o seu amigo mais nobre e, por assim dizer, mentos de cultura, de mestres de cultura? Por que esta formação quase divino, pelo qual se tinha admiração e do qual ele rece- do povo e esta educação popular tão amplamente difundidas? bia em troca reconhecimento. Se agora, ao contrário, o Esta- Porque se odeia o autêntico espírito alemão, porque se teme a do moderno pretende um reconhecimento exaltado deste tipo, natureza aristocrática da verdadeira cultura, porque se quer in- não é certamente porque ele tenha a consciência de ter ajudado, centivar os grandes indivíduos a buscar um exílio voluntário, como cavalheiro, a cultura e a arte alemães mais elevadas: pois, propagando e alimentando no grande número uma pretensão deste ponto de vista, seu passado é tão vergonhoso quanto seu à cultura, porque se busca escapar da elevação dura e rigorosa presente: basta pensar na maneira como se celebra nas capi- pelos grandes mestres, persuadindo a massa de que ela própria118 Escritos sobre Educação Sobre o Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Ensino 119 encontrará o caminho guiado pela estrela do Estado. Aqui, te- mos um fenômeno novo! O Estado como estrela-guia da cultura! No entanto, uma coisa me consola: este espírito alemão, contra QUARTA CONFERÊNCIA o qual se luta tão violentamente, ao qual se substituiu um vigário enfeitado com mil cores, este espírito é valente: combatendo, ele Meus caros ouvintes, poderá encontrar sua via de salvação numa época mais pura; ele conservará, nobre como é e vitorioso como será, um certo Já que até agora vocês seguiram fielmente meu discurso e que sentimento de piedade para com o Estado, ainda que este, na juntos ouvimos até o final esta conversa solitária, distante, em sua miséria, torturado ao máximo, tenha tomado como aliado certos momentos injuriosa, que mantiveram o filósofo e seu com- esta pseudocultura. De fato, quem faz ideia de como é difícil a panheiro, devo esperar agora que vocês queiram também, como tarefa de dirigir os homens, quer dizer, a tarefa de manter a lei, vigorosos nadadores, superar a segunda parte da nossa viagem, a ordem, a calma e a paz entre os milhões de homens que com- até porque posso prometer-lhes que, no pequeno teatro de ma- uma raça que na sua maioria é desmesuradamente egoísta, rionetes da minha lembrança, outros bonecos vão agora aparecer injusta, iníqua, desleal, invejosa, maligna e, além disso, obtu- e que, de uma maneira geral, se vocês resistiram até agora, as sa e teimosa, e ao mesmo tempo proteger sem descanso, contra vagas do discurso vão levá-los então mais facilmente e mais rapi- os vizinhos ávidos e contra os bandidos pérfidos, as posses que damente até o fim. Chegamos de fato quase a uma encruzilhada: o próprio Estado adquiriu? Um Estado assim torturado busca e seria tanto melhor nos assegurarmos, ainda uma vez, com um qualquer aliado: e quando este é daqueles que se oferecem com breve olhar para trás, dos resultados que acreditamos ter alcan- expressões pomposas, quando se diz dele, o Estado, como faz, çado com aquela conversa tão rica de peripécias. por exemplo, que é organismo ético absolutamente "Permaneça no teu posto." Era isto que o filósofo parecia que- perfeito>>, quando se fixa para cada um como tarefa cultural en- rer dizer a seu companheiro. "Pois tu podes alimentar esperan- contrar o lugar ou o ambiente onde seu serviço é o mais útil para ças. De fato, fica cada vez mais claro que não temos absolutamen- o Estado quem teria o direito de se surpreender com fato de te estabelecimentos de ensino, mas que devemos tê-los. Nossos que o Estado, num dado momento, se lance nos braços deste ginásios, predestinados por sua natureza a realizar este sublime aliado espontâneo e lhe faça uma saudação, cheio de desígnio, ou se transformaram em lugares onde se cultiva uma com sua VOZ profunda e bárbara: Tu és a educação! Tu és cultura duvidosa, que rechaça com ódio profundo a verdadeira a cultura, ou seja, a cultura aristocrática, que se funda numa sá- bia seleção dos espíritos, ou antes, cultivam afincadamente uma erudição microscópica e estéril, em todo caso distante da cultura 40. Georg Wilhelm Friedrich Hegel [1770-1831]: a maior expressão do idealismo alemão, interlocutor necessário de todos os filósofos que vieram depois dele, para e cujo mérito se deva talvez justamente a que esta fecha os olhos defendê-lo ou para criticá-lo. Hegel foi contemporâneo de Schopenhauer, que se opôs e os ouvidos às seduções desta cultura contestável." O filósofo decididamente à sua filosofia. Contudo, em alguns momentos, a despeito de suas pró- prias críticas a Hegel, especialmente no que diz respeito à história, Nietzsche censura tinha chamado atenção do seu companheiro sobretudo para a Schopenhauer, de quem foi discípulo na juventude, por ter exagerado suas críticas estranha decadência que está claramente no cerne de uma cultu- contra aquele.120 Escritos sobre Educação Sobre o Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Ensino 121 ra, na qual o Estado tem razão em acreditar que ele a domina, questão é então saber o quanto um homem estima sua existência na qual ele atinge, por intermédio desta cultura, seus próprios subjetiva diante dos outros, o quanto emprega sua força nesta fins, na qual, aliado a ela, ele ataca as outras potências hostis luta individual pela vida. Alguns, limitando estoicamente suas e ao mesmo tempo espírito que o filósofo ousava chamar de necessidades, se elevarão rápida e facilmente até estas esferas "autenticamente alemão". Este espírito, ligado aos Gregos pela onde pode esquecer e, por assim dizer, rejeitar sua individua- mais nobre das necessidades, tenaz e corajoso como demonstrou lidade, para gozar de uma eterna juventude num sistema solar ser num difícil passado, puro e sublime nos seus fins, capaz por de fatos estranhos à época e à sua pessoa. Outros, por sua vez, sua arte de enfrentar a missão suprema, ou seja, a de libertar o estendem grandemente sua ação e as necessidades da sua indi- homem moderno da maldição do moderno este espírito está vidualidade e com dimensões assombrosas, o mau- condenado a viver à parte, estranho à sua origem; mas quando soléu desta sua individualidade, como se estivesse em condições seus lamentos tardios ressoam através do deserto da atualidade, de superar na luta o seu maior adversário, o tempo. Também a caravana da cultura desta atualidade, sobrecarregada e enfei- nesta aspiração se revela um desejo de imortalidade: riqueza e tada com todas as cores, fica aterrorizada. Devemos inspirar não poder, sagacidade, presença de espírito, eloquência, uma reputa- somente espanto, mas terror: esta era a opinião do filósofo. Ele ção ascendente, um nome de peso todas estas coisas constituem aconselhava não esconder-se atemorizado, mas antes passar ao unicamente aqui os meios com os quais a insaciável vontade de ataque; e sobretudo exortava a seu companheiro para que não viver pessoal busca uma nova vida, com os quais se deseja uma ficasse preocupado ou refletisse muito a respeito do indivíduo, de eternidade, afinal de contas, ilusória. quem, por um instinto superior, provém esta aversão pela barbá- "Mas nem sequer nesta mais elevada forma da individuali- rie de hoje. "Que ele morra: o deus pítico não vacilava na hora dade, nem sequer na necessidade aumentada de um indivíduo de encontrar um novo trípode, ou uma segunda enquanto mais estendido e, por assim dizer, coletivo, nem aí, podemos ver o vapor místico saía ainda das profundezas." qualquer contato com a verdadeira cultura; e se, partindo desta O filósofo elevou de novo a "Prestem bem atenção, meus perspectiva, tendemos, por exemplo, para a arte, então, se leva amigos, disse ele, há duas coisas que não se deve confundir. Para em consideração justamente aqueles efeitos que divertem ou que viver, para travar sua luta pela existência, homem deve apren- estimulam, efeitos que a arte pura e sublime não sabe provocar, der muito, mas tudo o que ele, enquanto indivíduo, aprende e faz e que correspondem perfeitamente, por sua vez, à arte degra- com este desígnio nada tem a ver com a cultura. Ao contrário, dada e corrompida. Efetivamente, quem aja desta maneira, por esta só tem início numa atmosfera que está muito acima deste mais grandioso que seja seu comportamento para o espectador, mundo das necessidades, da luta pela existência, da miséria. A jamais se liberta, em toda a sua atividade, da sua individualidade ambiciosa e inquieta: o éter iluminado da contemplação livre de subjetividade escapa diante dele e por isso deverá viver eter- 41. Pítia: filósofo pitagórico do tempo de Dionisos. Diz a lenda que, condenado à morte, Pítia pediu ao soberano algum tempo para tratar de seus negócios; mas Dá- namente distante e banida da verdadeira cultura, por mais que mon ofereceu-se para morrer no seu lugar, caso aquele não viesse na hora marcada. aprenda, viaje e acumule. Pois a verdadeira cultura rejeita com Quando Dámon começar a ser supliciado, Pítia apareceu, e Dionisos o perdoou e pediu em vão que Pítia e Dámon o acolhessem como amigo. desdém contaminar-se no contato com indivíduos assim tão ne-Sobre o Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Ensino 123 122 Escritos sobre Educação cessitados e cheios de desejos: a autêntica cultura sabe escapar sa- relação pessoal e imediata que ele tem com a natureza: é preciso biamente daquele que quisesse apoderar-se dela como de um meio que a floresta e o rochedo, a tempestade, o abutre, a flor solitá- para realizar seus desígnios egoístas; e quando alguém imagina ria, a borboleta, a campina, a encosta da montanha, cada uma tê-la capturado, para tirar dela algum proveito e apaziguar com dessas coisas fale a sua linguagem; é preciso que ele se reconheça sua utilização a miséria de sua vida, então, ela desaparece subita- nelas como em inumeráveis reflexos e cintilações dispersos, no mente com passos inaudíveis e com uma expressão de escárnio. turbilhão com mil cores de aparências cambiantes; então, experi- "Portanto, meus amigos, não confundam esta cultura, esta mentará inconscientemente a unidade metafísica de todas as coi- deusa etérea, delicada e de pés ligeiros, com esta útil escrava que sas na grande metáfora da natureza, e assim se acalmará com o se costuma chamar às vezes também de mas que é so- espetáculo de sua eterna permanência e de sua necessidade. Mas mente a criada e a conselheira intelectual das carências da vida, a quantos jovens se pode permitir viver tão próximos da nature- do ganho, da miséria. Além disso, toda educação que deixa vis- za e numa relação quase pessoal com ela?! Os outros devem logo lumbrar no fim de sua trajetória um posto de funcionário ou um aprender uma outra verdade: como se pode subjugar a natureza. ganho material não é uma educação para a cultura tal como a Aqui, se deixa de lado esta ingênua metafísica: e a fisiologia das compreendemos, mas simplesmente uma indicação do caminho plantas e dos animais, a geologia, a química inorgânica obrigam que podem percorrer para o indivíduo se salvar e se proteger na seus estudantes a uma contemplação da natureza totalmente di- luta pela existência. Sem dúvida, esta indicação tem uma impor- ferente. O que se perde, com esta espécie de consideração nova e tância máxima e imediata para a grande maioria dos homens: e imposta, não é uma simples fantasmagoria poética, mas a única quanto mais difícil é a luta, mais o jovem deve aprender, mais ele compreensão verdadeira e instintiva da natureza: no seu lugar, deve incrementar as suas forças. interveio agora um hábil cálculo que busca vencer a natureza "Mas que ninguém vá pensar que os estabelecimentos que o pela astúcia. Ao homem verdadeiramente culto, portanto, se lhe impulsionam e o preparam para este combate possam, de uma concede este bem inestimável de poder, sem qualquer transgres- maneira ou de outra, ser considerados como estabelecimentos são, permanecer fiel aos instintos contemplativos de sua infância de cultura num sentido sério da palavra. Trata-se aqui de insti- e alcançar com isto uma calma, uma unidade, uma coerência e tuições que se propõem superar as necessidades da vida; assim uma harmonia, da qual o homem educado na luta pela vida não portanto, podem prometer formar funcionários, comerciantes, pode sequer pressentir. oficiais, atacadistas, agrônomos, médicos ou técnicos. Nestas "Não vão com isso crer, meus amigos, que eu quero mitigar instituições, se aplicam, em todo caso, leis diferentes e medidas os elogios às nossas escolas técnicas e às nossas escolas primá- diferentes daquelas que permitem fundar estabelecimentos para rias importantes: eu honro os lugares onde se aprende a calcular a cultura: e o que no primeiro caso é permitido, ou seja, ordenado adequadamente, onde se domina a língua, onde se leva a sério como possível, seria no segundo caso uma injustiça criminosa. a geografia, onde se é instruído pelos conhecimentos admirá- "Vou, meus amigos, dar-lhes um exemplo. Se vocês querem veis que nos dão as ciências naturais. Estou também inclinado guiar um jovem no verdadeiro caminho da cultura, abstenham- a concordar de bom grado com o fato de que os estudantes que se de romper a relação ingênua, confiante e, por assim dizer, a se instruem nas melhores escolas técnicas da nossa época estão124 Escritos sobre Educação Sobre o Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Ensino 125 perfeitamente autorizados a ter os mesmos direitos que se tem e da matéria e interpretar o como a de um co- o costume de atribuir aos alunos dos ginásios no final dos seus nhecimento, de uma configuração e de uma dominação do estudos; e não está longe o dia em que se abrirão, para as pes- "Quanto a mim, só conheço uma única verdadeira oposição, soas que receberam este ensino, as portas das Universidades e aquela que existe entre os estabelecimentos para a cultura e os da administração pública, com a mesma largueza com a qual se estabelecimentos para as necessidades da vida: à segunda cate- beneficiou exclusivamente até agora os alunos do ginásio bem goria pertencem todos os estabelecimentos que existem, mas, ao entendido, do ginásio atual! No entanto, não me posso furtar de contrário, é da primeira que falo." acrescentar este se é verdade que a escola técnica e o Mais ou menos duas horas se passaram, desde que os dois ginásio, nos seus fins atuais, são em tudo tão semelhantes e não amigos filósofos começaram seu colóquio sobre estas questões se distinguem senão por detalhes mínimos, de modo que podem tão singulares. Neste intervalo, a noite caiu: e se já no crepúsculo contar com um tratamento igual diante do fórum do Estado isto a do filósofo ressoava como uma música natural no bosque ocorre assim porque nos falta completamente um certo tipo de fechado, agora, na escuridão total da noite, quando ele falava estabelecimento de ensino: o estabelecimento de cultura! Isto não com energia ou com paixão, o som eclodia em mil trovões, es- é de maneira nenhuma uma recusa dirigida às escolas técnicas trondos e silvos, através dos troncos das árvores e dos blocos que perseguiram até agora, com tanta felicidade e honestidade, de rocha que se iam perdendo no vale. De repente, ele se calou; tendências bem mais modestas, mas altamente necessárias; de tinha acabado de repetir algo com um tom que exprimia quase fato, na esfera do ginásio, há muito menos honestidade e também uma lástima: "Não temos estabelecimentos para a cultura; não muito menos felicidade: pois encontramos aí algo como um senti- temos estabelecimentos para a cultura" quando então algo, tal- mento instintivo de vergonha, porque se sabe inconscientemente vez um pomo de pinheiro, caiu justamente diante dele, e o cão que toda a instituição está ignominiosamente degradada, e que a do filósofo se precipitou latindo: assim interrompido, o filósofo realidade barbaramente deserta e estéril contradiz as palavras so- ergueu a cabeça e sentiu de um só golpe a noite, o frio e a solidão. noras que, para fazer sua apologia própria, os astutos professores "Já escureceu, o que fazemos aqui?, disse ele a seu companheiro. pronunciam sobre a cultura. Não há, portanto, estabelecimentos Tu sabes já por quem esperamos aqui: mas ele não virá mais. Foi para a cultura! E aqueles que dissimulam ainda suas atitudes são, em vão que ficamos aqui durante tanto tempo: vamos embora." porém, mais desesperados, mais enfraquecidos e mais descon- Agora, senhores, devo levá-los a conhecer os sentimentos com tentes do que aqueles que são partidários do que se chama de os quais, meu amigo e eu, acompanhamos em segredo este coló- De resto, meus amigos, vejam vocês a que extremo quio claramente perceptível que escutamos avidamente. Já lhes chegou a grosseria e a falta de instrução nos meios professorais contei que, naquele lugar e naquela hora da noite, tínhamos a in- para compreender equivocadamente o rigoroso termo filosófico tenção de celebrar uma festa comemorativa: esta lembrança ape- a ponto de aí farejar uma oposição do espírito nas tinha a ver com os assuntos que tocavam à cultura e à edu- cação e dos quais, segundo a nossa crença de jovem, tínhamos 42. Segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, "codicilo" é uma palavra acumulado até aí na nossa vida uma rica e feliz colheita. Estáva- latina que significa: um documento jurídico em que alguém expressa a sua última vontade a respeito do seu enterro e lega bens pessoais de pouco valor a terceiros. mos então particularmente inclinados a recordar com gratidão a126 Escritos sobre Educação Sobre o Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Ensino 127 instituição que outrora, naquele lugar, tínhamos projetado com guns instantes até que meu amigo conseguiu gritar, parodian- fim, como disse antes, de estimular e despertar mutuamente, num do com VOZ forte as palavras do filósofo: "Em nome de toda a pequeno círculo de camaradas, os nossos mais vigorosos impul- cultura e da pseudocultura! O que quer de nós este cão estúpido! SOS em prol da cultura. De repente, caiu sobre todo este passado Maldito cão! Fora daqui, tu que não foste iniciado, tu que não uma luz absolutamente inesperada, enquanto silenciosamente nos poderás jamais sê-lo, fique longe de nós e das nossas entranhas, abandonávamos aos enérgicos discursos do filósofo. Experimen- retira-te em silêncio, calado e cheio de vergonha!" tamos o que deve experimentar um homem que, caminhando sem Depois disso a cena ficou um pouco mais clara, pelo menos rumo certo, percebe de repente que está à beira de um abismo: a na medida em que podia ficar clara na total escuridão do bosque. nós nos parecia que, mais do que termos escapado dos maiores "São eles!, gritou o filósofo, nossos atiradores! De fato, como perigos, o que tínhamos feito foi correr na sua direção. Foi aí, nes- vocês nos assustaram! Que mosca os picou para se lançarem so- te ambiente para nós tão memorável, que entendemos grito de bre mim a estas horas da noite! São a alegria, a gratidão, o advertência: "Para trás! Nem um passo a mais! Sabem vocês para respeito que nos impulsionam, dissemos nós, estreitando as mãos onde levam estes passos, para onde atrai este caminho brilhante?" do velho, enquanto o cão ladrava cheio de compreensão. Não Parecia, agora já sabíamos, e o sentimento de uma gratidão queríamos deixá-lo partir sem lhe dizer isto. E para que possa- transbordante nos conduzia tão irresistivelmente para este fiel mos explicar-lhe t tudo, é preciso que você não vá embora ainda: que nos tinha tão seriamente advertido, que os dois jun- queremos questioná-lo sobre muitas coisas que nos oprime agora tos ficamos de pé para abraçar o filósofo. Mas este estava para o coração. Pois então fique: conhecemos de perto cada passo des- partir e já se tinha virado de costas; e quando, com um passo te caminho; em seguida, nós o acompanharemos até lá embaixo. bastante ruidoso, nos precipitamos sobre ele tão inopinadamente Talvez o hóspede que você espera venha ainda. Olhe lá embaixo o e o cão se lançou na nossa direção latindo fortemente, ele devia Reno: se pode ver aí claramente algo que flutua em meio ao clarão ter achado, ele e seu companheiro, que aquilo parecia mais um de um grande número de tochas de fogo. Acredito que seu amigo ataque de bandidos do que um abraço entusiasta. Evidentemen- deve estar aí no meio de tudo isso; mais ainda, tenho o pressenti- te, ele nos tinha esquecido. Em suma, ele foi embora. E, quando mento que ele virá até aqui em meio a todas estas tochas." conseguimos alcançá-lo, nosso abraço foi interrompido brusca- Assim, deixamos o velho estupefato, com nossas súplicas, mente. Pois, neste momento, meu amigo deu um grito, porque o nossas promessas, nossas invenções fantásticas, até que final- cão o tinha mordido, e companheiro do filósofo pulou sobre mente o próprio companheiro se pôs também a persuadir o fi- mim com uma tal fúria que ambos caímos no chão. Seguiu-se lósofo a ficar ainda por algum tempo no cume daquela colina, entre o homem e cão uma batalha perturbadora que durou al- perambulando na doçura do ar noturno, "liberto de todos fumos do acrescentou ele. "Vocês deviam ter vergonha, disse o filósofo; pois, quando 43. Mestre Eckart 1260-1327]: pensador e teólogo germano, condenado postuma- mente pelo papa da época, João XXII, por ensinar e preconizar teorias consideradas querem fazer uma citação, só sabem fazê-la tirando-a do Fausto. místicas e panteístas. Mestre Eckart é visto como sendo o iniciador da filosofia alemã, ou pelo menos como aquele que abordou primeiramente temas filosóficos na língua 44. Cf. Goethe, Faust, I, 395 [Nota da edição francesa].128 Escritos sobre Educação Sobre o Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Ensino 129 Mas eu cederei a seus desejos, com ou sem citação, contanto que me perguntasse o que fazer amanhã ou, em geral, o que os nossos jovens permaneçam aí e não fujam com a mesma rapi- pretendo fazer daqui por diante, eu não saberia responder. Pois é dez com que vieram: pois são como fogos fátuos, fica-se admira- evidente que vivemos até agora e nos formamos de uma maneira do quando aparecem e também quando desaparecem." totalmente diversa do que seria preciso mas como vamos fazer E, nesse momento, meu amigo recitou: "O reverência, espero para transpor o abismo que separa o hoje do amanhã? eu, nos permitirá / Refrear nossa natureza veloz, / Pois habitual- Sim, confirmou meu amigo, a mim me vem a mesma coisa mente só corremos em e coloco a mesma questão: mas me parece que pontos de vista O filósofo parou admirado. "Vocês me surpreendem, disse tão elevados e tão ideais sobre a tarefa que se deve atribuir à ele, senhores fogos fátuos: contudo, não estamos num pântano! cultura alemã me atinge quando estou distante dela e atemoriza- Qual é a sua opinião sobre este lugar? que significa para vocês do, e que não me sinto digno de participar da sua obra. A única a presença de um filósofo? Aqui, o ar é fresco e claro, o solo é coisa que vejo é um brilhante cortejo das naturezas mais ricas seco e duro. Para que suas inclinações caminhem em zig-zags, avançando para este fim, adivinho os precipícios que este cortejo vocês devem buscar uma razão mais fantástica. transpõe, as tentações que deixará para trás. Quem teria ousadia Se me lembro bem, interveio então o companheiro, os se- () bastante para se juntar a este cortejo?" nhores acabam de nos dizer que uma promessa os ligava a esta companheiro se voltou então para o filósofo e lhe disse: hora e a este lugar: mas, ao que me parece, vocês ouviram tam- "Rogo para que não me censure pelo fato de eu ter um sentimen- bém, como se fossem um coro, a nossa comédia da cultura, ou to análogo que agora externo na sua presença. Quando falo com seja, como um verdadeiro pois não nos per- você, me ocorre muitas vezes me sentir elevado acima de mim turbaram e nos fizeram acreditar que estávamos sós. mesmo e me reanimar com sua coragem e suas esperanças, até o Sim, disse o filósofo, é verdade: não se lhes pode recusar autoesquecimento. Depois vem um instante mais frio, e não sei este elogio, mas me parece que merecem um elogio ainda maior." que sopro vívido da realidade me açoita a consciência e me faz Segurei então a mão do filósofo e lhe disse: "Seria preciso refletir sobre mim mesmo e só então vejo o vasto abismo que se ser estúpido como um réptil, que vive com o ventre no chão e a abre entre nós, acima do qual, como em sonho, você me transpor- cabeça na lama, para poder ouvir discursos como os seus, sem ta a salvo também. Assim, o que você chama de se agita se tornar grave e meditativo, e mesmo inflamado e ardente. Al- em torno de mim ou descansa pesadamente no meu peito: é como guém talvez poderia se irritar, por despeito ou descontentamento uma couraça que me esmaga e uma espada que não sei brandir." consigo mesmo; mas a nossa impressão foi diferente, embora eu De repente, estávamos os três de acordo diante do filósofo, não saiba como descrevê-la. Esta circunstância foi para nós exce- c, estimulando-nos e encorajando-nos mutuamente, montamos lente, atingimos um certo estado de espírito, estávamos aí como juntos para ele o seguinte discurso, enquanto andávamos len- vasos vazios e agora nos parece que estamos cheios até a borda tamente de um lado para o outro com ele, naquele espaço sem desta nova sabedoria, pois não sei mais o que fazer; e se alguém árvores que nos tinha naquele mesmo dia nos servido de campo de tiro, numa noite escura absolutamente silenciosa e sob um céu 45. Cf. Goethe, Faust, I, V. 3860-3862 [Nota da edição francesa]. estrelado vasto e tranquilo.130 Escritos sobre Educação Sobre o Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Ensino 131 "Você nos falou tanto a respeito do gênio, foi o que disse- de quem temos orgulho, porque eles são os autênticos guias e mos mais ou menos a ele, nos falou sobre a sua peregrinação os fiéis condutores deste genuíno espírito alemão, cuja memória penosa e solitária no mundo, como se a natureza só produzisse honramos nas festas e nas estátuas, cujas obras mostramos ao os contrastes mais extremos; de um lado, a massa no seu sono estrangeiro com um sentimento do nosso próprio valor; de onde estúpido e torpe, que se reproduz por instinto, e de outro, muito lhes veio uma cultura como esta que você exige e em que medida distante dela, os grandes indivíduos contemplativos, capazes de eles se mostraram nutridos e maduros sob o sol de uma cultura criações eternas. A estes você chamou de vértice da pirâmide nacional? E no entanto, eles foram possíveis, e se constituíram intelectual: mas parece que, entre os grandes e pesados funda- no que agora devemos tanto admirar: talvez suas obras justi- mentos e o cume que se eleva com toda liberdade, é necessário fiquem exatamente a forma de desenvolvimento adquirida por um número infinito de graus intermediários, e aí deve valer, por- estas nobres naturezas, e talvez também a falta de cultura que tanto, o princípio: natura non facit saltus46. Mas, onde começa precisamos admitir na sua época e no seu povo. O que Lessing o que você chama de cultura, onde estão os muros de pedra que ou Winckelmann tinham para extrair da cultura alemã que es- separam a esfera governada por baixo daquela governada pelo tava sob seus olhos? Nada, ou quando muito tão pouco quanto alto? E, na medida em que só se pode verdadeiramente falar de tinham Beethoven, Schiller, Goethe, e todos os nossos grandes cultura em relação a estas naturezas mais longínquas, como seria artistas e poetas. Talvez seja uma lei da natureza que somente as possível fundar instituições com base na existência problemática gerações posteriores devam tomar consciência dos dons celestiais de semelhantes naturezas, seria legítimo pensar em estabeleci- que marcaram a geração precedente." mentos de ensino que só aproveitam a estes eleitos? A nós nos O velho filósofo foi então tomado por uma violenta raiva e parece bem mais que estes sabem procurar a sua própria via, e gritou para seu companheiro: "Ah, cordeiro ingênuo do conhe- sua força se mostra exatamente na sua capacidade de andar sem cimento! Ah, vocês todos: vocês deviam ser chamados de mamí- muletas educacionais, das quais todos os outros têm necessidade, feros! Que argumentos tortos, ineptos, estreitos, toscos, entreva- e de atravessar impassíveis através da multidão e dos choques da dos! Sim, acabo de ouvir falar a cultura do nosso tempo, e nos história universal, como um fantasma numa grande reunião de meus ouvidos ressoam ainda todos estes fatos históricos simples pessoas onde se está encerrado." e puro senso comum de historiadores malignos e Foi isso mais ou menos o que dissemos juntos, sem muita impiedosos! Deves prestar atenção, tu mesmo, natureza que não arte nem ordem [mais por instinto do que por conhecimento]; foi profanada: tu envelheceste e há séculos este céu estrelado se mas o companheiro do filósofo foi ainda mais longe e disse a seu estende acima de ti mas tu jamais ouviste uma tagarelice culta mestre: "Imagine então, você mesmo, todos estes grandes gênios e no fundo tão maligna quanto esta, e como esta época gos- ta dela! Então, meus queridos Alemães, vocês ficam orgulhosos com isso, com seus poetas e seus artistas? Vocês os apontam 46. Em latim no texto, significando "a natureza não dá saltos". Esta expressão acha- se já na obra do Mestre Eckart, no século XIV: "Die Nature ubertritet nicht, em Lineu com o dedo e se gabam deles diante do estrangeiro? E porque [1707-1778], um naturalista sueco que escreveu Philosophia botanica, e também não lhes custou nada tê-los entre si, vocês deduzem disso a se- em Leibniz [1646-1716]; pode-se vê-la ainda em Fourier [1772-1837]: non facit saltus". dutora teoria de que daqui por diante não terão mais de fazer132 Escritos sobre Educação Sobre o Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Ensino 133 esforços por eles? Mas, sem dúvida, crianças inexperientes, eles combates. Ninguém pode imaginar o que estes homens heroicos vêm por si mesmos: é a cegonha quem os traz! De que serve falar destinados a alcançar, se o autêntico espírito alemão de parteiras! Ora, meus caros, vocês precisam de uma severa tivesse, numa poderosa instituição, estendido sobre eles o seu lição: como poderiam ainda ficar orgulhosos com o fato de que teto protetor, este espírito que, sem uma instituição deste gênero, todos estes espíritos brilhantes e nobres que vocês nomearam leva uma existência isolada, dispersa, degenerada. Todos estes fossem por vocês, por sua barbárie, prematuramente sufocados, homens foram aniquilados: e é preciso uma fé fanática no caráter usados, apagados? Como poderiam pensar, sem se envergonhar, racional de tudo que ocorre, para com isso desculpar sua culpa. em Lessing, que morreu pela estupidez de vocês, combatendo E não se trata somente destes homens! De todos os campos da su- seus ídolos ridículos e ignorantes, aterrado pela miséria dos seus perioridade intelectual, os acusadores se insurgem contra vocês: teatros, dos seus especialistas, dos seus teólogos, sem uma vez NC considero todos os talentos da poesia, da filosofia, da pintura, sequer poder alçar este eterno para o qual ele viera ao mun- da escultura, e não somente pelos talentos de primeira grandeza, do? E o que sentem vocês quando pensam em Winckelmann que, todo lugar vejo que não chegaram à maturidade, mas ficaram para livrar sua perspectiva de suas tolices grosseiras, foi men- exacerbados ou prematuramente relaxados, que foram queima- digar a ajuda dos A sua conversão vergonhosa recai dos ou congelados antes de florescer; em todo lugar, farejo esta sobre vocês, e sobre vocês pesará como uma mancha indelével? do mundo estúpido>>, quer dizer, a culpa de Vocês poderiam falar o nome Schiller sem enrubescer? Olhem É a isto que me refiro, quando reivindico estabelecimentos para para sua imagem! Este olho que lança relâmpagos, este olhar cultura e quando acho lamentável o estado daqueles aos quais que passa desdenhoso acima de suas cabeças, esta face que fica NC dá agora este nome. Aquele que se alegra em falar aqui de envergonhada com a aproximação da morte tudo isto não lhes e em geral de e acredita com isso me diz nada? Vocês tinham nele um brinquedo magnífico e divino fazer calar com um elogio, basta como resposta dizer-lhe que a que quebraram. E se excetuarmos a amizade de Goethe por esta situação atual é uma infâmia e uma vergonha e que aquele que vida precipitada, melancólica, perseguida até a morte em tudo exige calor, ainda que o frio lhe faça tiritar os dentes, só pode fi- mais, naquilo que depende de vocês, teriam contribuído para ex- car mesmo enraivecido quando dizemos que isso é uma tingui-la ainda mais rapidamente. Vocês não ajudaram nenhum cia Trata-se aqui de realidades urgentes, presentes, que dos nossos gênios e querem agora criar um dogma para impe- se impõem e saltam aos olhos: quem aí perceba algo assim sabe dir o socorro a eles? Mas, perante todos eles, vocês foram até também que há aí uma miséria tal como o frio e a fome. Quanto agora antes de tudo resistência do mundo estúpido>>, como que não percebe nada bem, este terá pelo menos uma disse explicitamente Goethe no epílogo de O Sino; comparados escala para medir onde acaba o que chamo de e em a eles, vocês foram os imbecis carrancudos, os invejosos de co- que lugar da pirâmide se distinguem a esfera que é governada ração estreito, ou os egoístas malignos. Foi apesar de vocês que pelo alto e a esfera que é governada por baixo." eles criaram suas obras, e foi ainda contra vocês que eles lança- O filósofo parecia estar bastante excitado: nós o convidamos ram seus ataques, foi graças a vocês que eles morreram tão cedo, para passear um pouco mais. De fato, ele tinha pronunciado seu com sua tarefa inacabada, despedaçados e entorpecidos pelos último discurso parado e em pé, perto daquele tronco de árvore134 Escritos sobre Educação Sobre o Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Ensino 135 que tinha servido de alvo para os nossos exercícios de tiro. Um vez todas as nossas fantasias anteriores que tínhamos formado silêncio absoluto se estabeleceu por algum tempo entre nós. An- sobre nossa própria cultura se apresentavam agora como proble- damos lentamente de um lado para o outro, meditando. Experi- máticas, e eram impulsionadas pela necessidade de encontrar a mentamos então menos humilhação por ter avançado argumen- qualquer preço razões contra uma maneira de ver que rejeitava tos tão loucos, sentíamos como se algo da nossa personalidade absolutamente nosso pretenso desejo de cultura. Mas, com ad- tivesse sido restituído: foi justamente depois desta fala violenta e versários que experimentam de maneira tão pessoal a violência pouco lisonjeira para nós, que acreditamos nos sentir mais pró- de uma argumentação, não se deve discutir; ou, no nosso caso, a ximos do filósofo, numa relação mais pessoal com ele. Pois o moral poderia ser a seguinte: com estes adversários não se devia homem é tão miserável, que nada o aproxima mais rapidamente discutir, não se devia polemizar. de um estranho do que quando observa nele uma fraqueza, um Andávamos, pois, ao lado do filósofo, envergonhados, cheios defeito. Nosso filósofo estava irascível até o insulto, e isto nos de piedade, descontentes conosco e mais convencidos do que oferecia uma ponte que nos permitia superar a tímida veneração, nunca de que o velho devia ter razão e que tínhamos sido injus- o único sentimento que tínhamos experimentado até então: para tos com ele. Na verdade, estava muito longe o nosso sonho de quem possa considerar chocante esta observação, acrescentarei juventude com uma instituição para a cultura; reconhecíamos já que esta ponte conduz frequentemente do respeito distante ao claramente o perigo do qual só tínhamos até então escapado por amor pessoal e à piedade. E foi exatamente esta piedade que, acaso, o perigo de nos vender de pés e mãos atados a um sistema depois do sentimento da restituição da nossa personalidade, se cultural que desde a nossa infância, desde o ginásio, nos havia mostrou cada vez mais forte. Por que conduzíamos este velho ho- falado com sedução. Então, a que se devia o fato de que não ti- mem, naquela hora noturna, entre árvores e rochedos? E, já que véssemos entrado ainda no coro público dos seus admiradores? tinha concordado conosco, por que não encontramos uma forma Talvez pelo fato de sermos ainda realmente estudantes e de que, mais tranquila e mais modesta para ele nos instruir, por que era portanto, tínhamos podido nos proteger, nesta ilha que também preciso que todos os três suportássemos nossa contradição de ia logo também ser arrastada, contra as garras sedentas e os ata- maneira desastrosa? ques das aves de rapina, contra as vagas infatigáveis e reiteradas Efetivamente, observávamos agora até que ponto nossas ob- da vida pública. jeções careciam de reflexão, de preparo e de experiência, até Dominados por estes pensamentos, estávamos a ponto de di- que ponto se fazia ressoar nelas o eco da época atual, cuja voz, rigir a palavra ao filósofo, quando de repente ele se voltou para quando tratava da cultura, era insuportável para o velho. Além nós e começou a falar com uma VOZ mais doce: "Não devo me disso, as nossas não nasceram puramente do intelecto: surpreender em vê-los se comportar como jovens imprevidentes o fundamento com que os discursos do filósofo tinham agitado muito apressados. De fato, vocês demoraram em refletir seria- e estimulado a nossa resistência se achava verdadeiramente em mente sobre aquilo que ouviram de mim. Não tenham pressa, outro lugar. Talvez só expressasse em nós a angústia instintiva levem este problema com vocês, mas pensem nele dia e noite. de saber se justamente nossas individualidades poderiam tirar Pois vocês estão agora numa encruzilhada, sabem agora para proveito de visões como aquelas que o filósofo manifestava; tal- onde conduzem as duas vias. Numa delas serão bem recebidos136 Escritos sobre Educação Sobre o Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Ensino 137 por sua época, ela não lhes deixará faltar as coroas e os signos ser, por assim dizer, depurada dos traços da subjetividade e ele- honoríficos: imensos partidos os conduzirão, em todo lugar en- vada acima do jogo cambiante do tempo, como puro reflexo do contrarão pessoas que pensam como vocês. E quando aquele que ser eterno e imutável das coisas. E todos aqueles que participem vai na frente lança um slogan, ele repercutirá em todas as fileiras. desta instituição devem esforçar-se, com tal depuração da sub- Nesta via, o primeiro dever é combater enfileirado e cada um no jetividade, em preparar o nascimento do gênio e a criação de seu posto, o segundo é destruir aqueles que não queiram entrar sua obra. Não é pequeno o número daqueles que, ainda quando nestas fileiras. Na outra via, terão companheiros menos numero- seus dons sejam de segunda ou terceira ordem, estão destinados sos; esta via é mais difícil, mais tortuosa e mais escarpada: aque- a semelhante colaboração, e só chegam ao sentimento de viver les que trilham a primeira via zombarão de vocês, porque vocês para seu dever servindo a estas autênticas instituições de cultu- marcham com muita dificuldade, eles tentarão também atraí-los ra. Contudo, agora são justamente estes dons que se desviaram para lado deles. Mas se por acaso as duas vias se cruzarem, aí do seu caminho por obra das artes de sedução incontestes desta vocês serão maltratados, deixados de lado, ou antes eles se afas- da moda, e assim tornados estranhos a seus instintos. tarão de vocês aterrorizados e os Esta tentação se dirige exatamente aos seus movimentos egoís- "Qual poderia ser agora significado de um estabelecimento tas, às suas fraquezas e às suas vaidades, é a eles justamente que o de ensino para estes viajantes tão diferentes que trilham estas espírito da época murmura: Aí embaixo, vocês serão duas vias? O imenso grupo que, na primeira via, avança para somente os servidores, os auxiliares, os instrumentos, eclipsados seus fins entende com isso uma instituição onde seus membros pelas naturezas superiores, jamais felizes com sua singularidade, podem encontrar seus congêneres, uma instituição diferente puxados pelos fios, como escravos, como autômatos: aqui, perto e afastada de tudo que visa fins mais elevados e mais distan- de mim, vocês gozarão como senhores de sua livre personali- tes. Evidentemente, eles pretendem pôr em circulação palavras dade, seus dons poderão brilhar por si mesmos, graças a eles pomposas para designar sua tendência: falam, por exemplo, de vocês próprios estarão no primeiro plano; um séquito imenso os completo da livre personalidade no marco de escoltará e a aprovação da opinião pública lhes dará mais prazer sólidas comuns, nacionais e humanamente morais>>, do que o elogio distinto vindo das alturas do Agora, os ou antes designam como sendo seu objetivo fundação de um melhores sucumbem vítimas destas seduções: e no fundo, não é a Estado popular baseado na razão, na cultura e na qualidade dos dons que decide aqui se alguém é receptivo ou não "Para o outro grupo, menos numeroso, um estabelecimento a estas vozes, mas sobretudo o grau e o nível de uma certa ele- de ensino é uma coisa completamente diferente. Na sua defesa de vação moral, o instinto do heroísmo, do sacrifício enfim, uma uma sólida organização, este grupo quer evitar que ele próprio necessidade autêntica de cultura, conduzida por uma educação seja arrastado e dispersado pelo outro grupo, e que os indivíduos adequada e tornada um hábito: cultura que é antes de mais nada, que o compõem sejam prematuramente debilitados ou desvia- como já disse, uma obediência e uma habituação à disciplina que dos, degenerados, destruídos e assim percam de vista sua nobre e caracteriza o gênio. Mas a respeito deste ensinamento, a respeito sublime missão. Estes indivíduos devem levar a cabo a sua obra, deste hábito, as instituições agora chamadas de este é sentido da sua instituição comum uma obra que deve tos de não sabem, por assim dizer, absolutamente nada;138 Escritos sobre Educação Sobre o Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Ensino 139 apesar disso, não há para mim dúvida de que originariamente as estrelas que mostrem o caminho. Com que intensidade expe- ginásio era uma verdadeira instituição de cultura deste tipo, rimento agora o perigo da marcha solitária! E quando eu, como ou pelo menos uma organização preparatória, e que, na época lhe disse, imaginava me salvar pela fuga do tumulto e do contato maravilhosa e profunda da Reforma, ele tenha realmente dado direto com o espírito da época, esta fuga era somente uma ilu- os primeiros passos ousados nesta direção. E estou também certo são. E, continuamente, por mil canais, a cada respiração, esta de que, na época do nosso Schiller e do nosso Goethe, se tenha atmosfera chega até nós; e não há solidão solitária e longínqua o feito ver um primeiro indício desta necessidade, vergonhosamen- suficiente na qual ela não possa nos alcançar com suas neblinas te desviado e cortado das suas raízes; como o germe, por assim e suas nuvens. Disfarçadas de dúvida, de ganho, de esperança, dizer, destas asas das quais fala Platão no Fedro, que emplumam de virtude, carregando as máscaras mais cambiantes, as imagens e carregam a alma, logo que ela toca o belo até o reino das desta cultura se esgueiram em volta de nós: e aqui inclusive, jun- imutáveis e puras formas primitivas das to de você, pela mão, por assim dizer, de um eremita da cultura, Ah, meu venerado e admirável mestre, começou então a esta hipocrisia soube nos seduzir. Com que constância e com que falar o companheiro, já que você citou o divino Platão e o mundo fidelidade este pequeno grupo que possui uma cultura que seria das ideias, não acredito mais que esteja irritado comigo, embora preciso chamar de cultura de seita deverá ser vigilante! Como com meu discurso anterior eu tenha merecido a sua desaprova- deverá ela ser fortalecida! Com que rigor deverá ela censurar o ção e a sua fúria. Assim que você falou, esta asa platônica me- passo em falso, com que piedade deve este passo ser perdoado! xeu comigo; e foi unicamente nos intervalos que, cocheiro de Assim, que me perdoe você também, mestre, depois de me ter tão minha alma, pude lutar contra a resistência do cavalo selvagem seriamente repreendido! e rebelde, que Platão também descreveu como sendo cambaio e Tu empregas uma linguagem, meu bom amigo, disse o fi- desastrado, com uma nuca dura, um pescoço curto e um focinho lósofo, de que não gosto e que me lembra as pequenas comuni- chato, negro, os olhos injetados de sangue, a orelha peluda, um dades religiosas. Não tenho nada a ver com isto. Mas teu cavalo pouco surdo, capaz de todos os crimes e malignidades e quase platônico me agradou, e é por causa dele que te perdoarei. Eu impossível de dominar com o chicote e a Pense então na troco meu mamífero por este cavalo. De resto, não tenho mais quantidade de tempo que vivi longe de você e no fato de que pre- desejo de continuar a andar com você nesse frio. O amigo que es- cisamente sobre mim se pudesse exercer as artes de sedução das pero é bastante louco para aqui chegar ainda à meia-noite, já que quais você fala, talvez não sem algum êxito, ainda que eu pró- ele prometeu vir. Mas é em vão que espero o sinal que tínhamos prio não tenha quase observado. Exatamente agora compreendo combinado: não chego a compreender o que o fez demorar até muito melhor até que ponto é necessária uma instituição que agora. Pois ele tem o costume de ser pontual e preciso, tal como abra a possibilidade de convivência com estes homens raros, que temos o costume de ser, nós, os velhos, coisa que a juventude possuem uma autêntica cultura, para encontrar neles os guias e de hoje acha antiquada. Desta vez ele me deixou esperar: isto é vexatório! Sigam-me! Já é hora de partir!" 47. Cf. Platão, Phèdre, 246 c-e; 248 [Nota da edição francesa]. Neste momento apareceu algo de novo. 48. Cf. Platão, Phèdre, 253 d-e [Nota da edição francesa].140 Escritos sobre Educação Sobre o Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Ensino 141 QUINTA CONFERÊNCIA pistolas para o céu estrelado, enquanto lá em baixo aquela suges- tiva melodia, depois de um breve ensaio, se extinguia. primei- Meus caros ouvintes, ro, o segundo e o terceiro tiros ressoaram secamente na noite então, o filósofo exclamou: "Falta de medida!" Efetivamente, de Se aquilo que lhes contei, a respeito dos discursos que o fi- repente tínhamos nos tornado infiéis à nossa tarefa rítmica: exa- lósofo proferiu no silêncio da noite e agitado de diferentes ma- tamente depois do terceiro tiro, uma estrela cadente caíra com neiras, foi recebido por vocês com uma certa simpatia, então, a rapidez de uma flecha, e quase involuntariamente o quarto e o sua decisão desanimadora, a que me referi no final, deve tê-los quinto tiros foram disparados na direção de sua queda. tocado mais ou menos como então ela nos tocou. De fato, ele nos "Falta de medida!, gritou o filósofo, quem lhes disse para ati- anunciou de repente que ia partir: abandonado por seu amigo e rar nas estrelas cadentes! Elas explodem por si mesmas, sem a pouco recompensado com aquilo que, num tal deserto, nós e seu sua intervenção; é preciso saber o que se quer quando se está companheiro soubemos lhe dizer, ele parecia agora querer colo- envolvido com armas." car imediatamente um termo à sua estada na colina, que para ele Nesse momento, vindo do Reno, veio de novo a melodia, mas se prolongava inutilmente. Ele devia ter achado que seu dia fora desta vez entoada por vozes mais numerosas e mais fortes. "Fomos perdido: e sem dúvida, se ouso dizer, movendo-se apressadamen- também compreendidos, gritou rindo meu amigo, e quem poderia te, ele teria também de bom grado deixado para trás a lembrança resistir quando um fantasma tão brilhante passa diante da nossa das relações que tivemos. Assim, enfadado, ele nos incentivava a mira? Silêncio, disse o companheiro interrompendo-o, que ban- partir, quando um novo fenômeno o obrigou a se deter; depois de do é este que canta este sinal? Calculo que sejam de vinte a quaren- ter já levantado partir, hesitante, teve de interromper ta vozes, poderosas vozes masculinas... e de onde nos saúda este sua marcha. bando? Parece que ainda não saíram da outra margem do Reno; Vinha do lado do Reno um clarão colorido e um ruído estre- mas isto poderemos constatar se retornarmos ao banco onde es- pitoso, cujo eco se perdeu rapidamente, atraindo a nossa atenção; távamos sentados. Que eles venham rapidamente de onde estão!" e imediatamente depois, nos chegou de longe uma lenta frase me- De fato, do lugar em que perambulávamos de um lado para lódica, cantada em uníssono e reforçada por um grande número () outro, a vista do Reno estava inteiramente bloqueada por um de vozes juvenis. "Mas este é seu sinal, gritou o filósofo, então, bosque elevado, denso e sombrio. Mas, como já disse, deste lugar meu amigo virá enfim, eu não o esperei em vão. Tornaremos a destinado às paradas, um pouco mais abaixo da clareira no alto nos encontrar à meia-noite mas como fazê-lo saber que ainda da colina, se tinha uma vista por cima das copas das árvores, e estou aqui? Vamos, atiradores de pistola, mostrem de novo a sua no centro desta visão circular se podia ver justamente o Reno, arte! Podem ouvir o ritmo próprio desta melodia que nos saúda? cercando com seus braços a ilha de Nonnenwoerth. Corremos Retenham este ritmo e repitam-no na sucessão dos seus disparos!" apressadamente, mas prestando atenção no velho filósofo, para Esta era uma tarefa que se coadunava com nosso gosto e este lugar: a escuridão na floresta era total e, guiando para a di- as nossas aptidões; carregamos o mais rápido possível e, depois reita ou para esquerda o filósofo, conseguíamos apenas adivinhar de nos termos rapidamente postos de acordo, levantamos nossas () caminho a percorrer, pois não podíamos vê-lo claramente.142 Escritos sobre Educação Sobre o Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Ensino 143 Mal alcançamos o banco, um clarão incandescente, turvo, por assim dizer, como os cavalheiros de uma nova Vehme50, o grande e inquieto, que vinha certamente da outra margem do desígnio mais grave. Aceito que nos escute quem nos possa com- Reno, feriu nossos olhos. "São as tochas, gritei eu; são eles, com preender, mas por que trazer um bando que certamente não nos certeza, são meus colegas de Bonn, e seu amigo deve estar entre compreenderá? Não te reconheço mais, meu distante amigo!" eles. Eram eles que estavam cantando, são eles que vão acompa- Não nos pareceu conveniente interrompê-lo nos seus tristes nhá-lo. Vejam! Escutem! Agora estão embarcando nas canoas: lamentos: e quando, melancolicamente, ele se calou, não ousa- em mais ou menos meia hora o cortejo das tochas chegará aqui." mos dizer-lhe o quanto ele nos indignou ao rechaçar cheio de O filósofo deu um salto para trás: "O que dizem vocês, repli- desconfiança os estudantes. cou ele, seus colegas de Bonn, quer dizer, estudantes; então meu Enfim, o companheiro se voltou para o filósofo e disse: "Você amigo virá acompanhado de estudantes?" me faz lembrar, mestre, que também você, outrora, antes que eu Esta pergunta, lançada quase com raiva, nos indignou. "O () tivesse conhecido, vivera em várias universidades e que, desde que você tem contra os estudantes?", replicamos, mas não ob- esta época, circulam ainda rumores sobre as suas relações com tivemos resposta. Foi somente depois de um certo tempo que o os estudantes e sobre os seus métodos de ensino. Mas, pelo tom filósofo começou a falar, lentamente, com um tom de lamenta- de resignação com a qual você acaba de falar dos estudantes, ção, como se se dirigisse a alguém que estivesse ainda distante: muitos poderiam imaginar que você tenha tido experiências "Então, meu amigo, mesmo à meia-noite, mesmo na montanha particularmente decepcionantes; mas eu acredito antes que você mais solitária, não estaremos e tu mesmo trazes para cá um experimentou e viu o que cada um pode experimentar e ver nes- grupo de estudantes buliçosos, apesar de saberes que eu gostaria tes lugares, e que ainda assim julgou tudo isso com mais severi- de me afastar voluntária e prudentemente desta genus omne49. dade e justiça do que qualquer outro. Mas pelo menos aprendi Por isso, não te entendo, meu distante amigo: e, não obstante, com o seu convívio que as experiências mais admiráveis, mais é muito importante voltar a nos encontrar depois de uma lon- instrutivas, as experiências decisivas, são exatamente as expe- ga separação, tendo escolhido para isso um lugar tão remoto riências cotidianas, que estas constituem justamente o grande e uma hora tão insólita. Que necessidade témos de um coro de enigma que cada um tem sob os olhos, mas que poucos compre- testemunhas, e de testemunhas assim tão desprezíveis? O que nos endem como sendo um enigma, e que, para o pequeno número conclama hoje a nos reunir não é, de maneira nenhuma, a neces- de verdadeiros filósofos, são justamente estes os problemas que sidade sentimental de dois corações tenros: pois há muito tempo permanecem ignorados, abandonados no meio do caminho e, aprendemos ambos a viver sós e num digno isolamento. Não foi por assim dizer, pisoteados pela multidão, antes que eles os re- esta a nossa intenção, não foi para cultivar tenros sentimentos ou colham cuidadosamente e a partir desse momento resplandeçam desempenhar uma patética cena de amizade que decidimos nos como pedras preciosas do conhecimento. No curto intervalo ver aqui; mas neste lugar onde outrora, numa hora memorável, que nos separa da chegada do seu amigo, talvez você ainda de- eu te encontrei solenemente só, queríamos conceber para nós, 50, Vehme: tribunal secreto da Alemanha do século XV para a repressão dos crimes 49. Em latim no texto, significando "de toda esta raça". dos senhores feudais.144 Escritos sobre Educação Sobre o Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Ensino 145 vesse nos dizer algo mais a respeito de suas descobertas e de suas terreno vasto, no qual se permite a ele uma liberdade completa: experiências na esfera da Universidade, completando assim a por isso o ginásio deverá tentar torná-lo autônomo." série de considerações a que fomos forçados involuntariamente Continuei então o discurso do meu colega: "A mim me parece a propósito dos estabelecimentos de ensino. Além disso, que nos inclusive, disse eu, que tudo quanto você, certamente com razão, seja permitido lembrá-lo que, num momento anterior da discus- tem a objetar no ginásio não é senão o fato de ele ser o instru- são, você me fez inclusive uma promessa. Quando se referiu ao mento necessário para criar, numa idade ainda muito prematura, ginásio, você afirmou a sua extraordinária importância: os obje- uma espécie de autonomia, para o que o curso de alemão deveria tivos de cultura que ele visa deviam dar a medida para todas as servir. O indivíduo deve, nesta ocasião, congratular-se com os outras instituições, os desvios de sua tendência deviam afetá-las seus pontos de vista e com os seus propósitos, para poder andar de alguma maneira. Nem mesmo a Universidade podia aspirar por si mesmo e sem muletas. Por isso, imediatamente, ele é con- agora este papel importante de centro motor, pois, em vista da vidado a produzir com originalidade, e mais cedo ainda a julgar sua estrutura atual, ela deve ser considerada, num dos seus as- e a criticar com precisão. E, ainda que os estudos latinos e gregos pectos essenciais, como uma mera continuação da tendência do não sejam capazes de provocar entusiasmo no aluno para com a ginásio. Foi então que você me prometeu uma exposição futura, longínqua Antiguidade, ainda assim, e graças ao método através que talvez nossos amigos estudantes possam testemunhar, pois do qual estes estudam são vistos, é despertado nele o sentido é possível que nesse momento eles já tenham ouvido a nossa científico, o desejo de uma rigorosa causalidade na descoberta, a conversa. sede de achar e inventar. E sem dúvida são muitos os que, ao des- Nós o testemunhamos, repliquei eu. Então, o filósofo se cobrir uma nova maneira de ler aprendida no ginásio, captada voltou para nós e respondeu: Bem, se vocês realmente ouviram, por um instinto juvenil, ficam seduzidos por longo tempo pelos podem me descrever o que entendem como sendo tendência atual encantos da ciência. O aluno do ginásio deve aprender e recolher do ginásio. Além disso, vocês estão muito mais próximos desta muitas coisas diferentes: é verdade que com isso é possível que esfera, de modo que podem portanto comparar meus pensamen- pouco a pouco seja despertado nele um impulso que logo o leva- tos com suas experiências e suas impressões." rá na Universidade a aprender e a recolher de uma maneira aná- Meu amigo respondeu, com a prontidão e a rapidez que são loga, mas também de maneira autônoma. Em suma, acreditamos da sua natureza, mais ou menos o seguinte: "Até agora, sempre que a tendência do ginásio consiste em preparar e habituar o tínhamos acreditado que a única intenção do ginásio era pre- aluno de tal maneira que depois ele pudesse continuar a viver e a parar para a Universidade. No entanto, esta preparação deseja aprender autonomamente, tal como teve de viver e aprender sob nos tornar autônomos o suficiente, em harmonia com a condição o constrangimento do regulamento do ginásio." extraordinariamente livre que é aquela de um estudante universi- Diante disso, o filósofo se pôs a rir, mas de um modo que não tário. Portanto, me parece que, em nenhuma outra esfera da vida era exatamente benevolente, e respondeu: "Você acaba de me dar atual, é permitido ao indivíduo tomar decisões e dispor sobre um bom exemplo desta autonomia. E é justamente esta autono- tantas coisas como na esfera da vida estudantil. Ele deve poder mia que me aterroriza tanto e faz com que eu me sinta tão de- se guiar por si mesmo durante um bom punhado de anos, num primido na proximidade dos estudantes atuais. Sim, meus caros,146 Escritos sobre Educação Sobre o Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Ensino 147 vocês já estão formados, são adultos, a natureza rompeu já a sua "Quanto ao professor, ele por sua vez fala aos estudantes que e seus mestres podem já contemplá-los com satisfação. escutam. O que ele pensa ou faz está, aliás, separado por um Que liberdade, que determinação, que falta de preconceito na imenso abismo da percepção dos estudantes. Amiúde, o professor hora de julgar! Que originalidade e agudeza na hora de conhe- le enquanto fala. Em geral, ele quer ter o maior número possível cer! Vocês se fazem de juízes e então todas as culturas de todos de ouvintes; em caso de necessidade, ele se contenta com alguns, os tempos se retiram. O sentido científico se inflama e irrompe mas quase nunca com um único ouvinte. Uma só boca que fala de vocês como uma chama que se tenha cuidado para não se para muitos ouvidos e metade de mãos que escrevem eis o apare- deixar queimar ao seu contato! Se agora considero também seus lho acadêmico externo, eis a máquina cultural universitária posta professores, volto a encontrar novamente a mesma autonomia, em funcionamento. Para todos os demais, o possuidor desta boca mas numa intensidade muito mais vigorosa e arrogante; jamais está separado e é independente dos detentores daqueles muitos houve uma época tão rica em tão belas autonomias, jamais se ouvidos: e esta dupla autonomia é louvada entusiasticamente com detestou tão intensamente qualquer tipo de escravidão, mesmo a () nome de De resto, para que esta liber- escravidão da educação e da cultura. dade seja ainda aumentada o professor pode dizer praticamente "Não obstante, me permitam avaliar sua autonomia com a escala desta cultura e considerar sua Universidade unicamente o que quer e o aluno pode ouvir praticamente o que quer: só que, bem perto e atrás dos dois grupos, a uma distância conveniente, como um estabelecimento de cultura. Quando um estrangeiro vem conhecer o sistema das nossas Universidades, ele pergunta se o Estado, com o semblante atento do vigia, para lembrar primeiro com insistência: que modo estudante está ligado de vez em quando que ele é o objetivo, o fim e a quintessência à Nós respondemos: ouvido, como ouvin- destes estranhos procedimentos que são o falar e o ouvir. te. O estrangeiro se espanta: através dos "Nós, a quem é preciso permitir considerar este fenômeno pergunta ele novamente. através dos ouvidos>>, res- surpreendente somente como instituição para a cultura, fazemos pondemos novamente. O estudante escuta. Quando fala, quando então saber ao pesquisador estrangeiro que tudo que é cultu- vê, quando anda, quando está acompanhado, quando tem uma ra nas nossas universidades vai da boca aos ouvidos, que toda atividade artística, em suma, quando vive, ele é autônomo, quer educação e cultura é, como disse, exclusivamente Mas, dizer, independente do estabelecimento de ensino. Com bastante como inclusive o fato de escutar e a escolha dos cursos a ouvir frequência, o estudante escreve enquanto ouve. Estes são os mo- são deixados à decisão autônoma do estudante academicamente mentos em que está preso pelo cordão umbilical à livre, como, por outro lado, ele pode recusar toda credibilidade Ele pode escolher o que quer ouvir, não precisa acreditar naquilo e toda autoridade àquilo que ouve, nesse caso, toda educação e que ouve, pode tapar os ouvidos quando não queira ouvir. Eis o toda cultura, estritamente falando, só compete a ele, e a autono- método de ensino 51. Cf. Arioste, Roland furieux, X, 84: "Natura lo fece, e poi ruppe lo slampo", de discípulos; tratava-se de um ensino "esotérico", em oposição ao ensino "exotéri- muitas vezes citado por Schopenhauer [Nota da edição francesa]. co" ministrado para o público em geral. termo significava também o ensino que era transmitido oralmente, durante o qual não se permitia aos discípulos qualquer 52. No texto das "Conferências". Nietzsche usa o termo "acroamático", que origina- intervenção. "Acroamática" era enfim um método pedagógico oposto ao de Sócrates, riamente significava o ensino que era ministrado por Aristóteles a um círculo restrito que lançava mão do diálogo como via de acesso ao conhecimento.148 Escritos sobre Educação Sobre o Futuro dos Nossos Estabelecimentos de Ensino 149 mia buscada através do ginásio se revela agora com um extremo corretamente, cairá imediatamente neste espanto filosófico du- orgulho, sob as formas de uma acadêmica da cul- radouro, sobre o qual unicamente, como sobre um solo fecundo, e se enfeita com as suas plumas mais brilhantes. pode crescer uma cultura profunda e nobre. Mais frequentemente, "Tempos felizes estes, em que os jovens são sábios e cultos são suas próprias experiências que o levam a estes problemas e, o bastante para se guiarem a si mesmos! Insuperáveis ginásios, sobretudo no período tempestuoso da juventude, cada aconteci- que chegam a implantar a autonomia lá onde, noutras épocas, se mento pessoal se reflete num duplo clarão, como exemplificação acreditava dever implantar a dependência, a disciplina, a submis- da realidade cotidiana e ao mesmo tempo como um problema são, a obediência, e afastar qualquer presunção de autonomia! eterno, espantoso e digno de explicação. Nesta idade, em que vê Veem agora mais claramente, meus caros, por que, do ponto de suas experiências, por assim dizer, envolvidas por um arco-íris vista da cultura, eu prefiro ver na Universidade de hoje uma con- metafísico, o homem tem a necessidade suprema de uma mão tinuação da tendência do ginásio? A cultura aprendida no giná- que o guie, porque, de repente e quase instintivamente, ele é per- sio passa, como um todo realizado e com pretensões de liberdade suadido da ambiguidade da existência e porque perdeu já o solo de opção, pelas portas da Universidade: ela exige, dita as leis e firme das opiniões tradicionais às quais estava até então ligado. julga como num tribunal. Assim, não alimentem ilusões sobre "Este estado natural de extrema indigência deve, o que é fa- estudante culto: pois ele é apenas ainda, na medida em que acre- cilmente compreensível, ser o inimigo mais encarniçado desta dita ter recebido a consagração da cultura, um aluno do ginásio autonomia tão querida, para a qual o jovem culto da nossa épo- formado pelas mãos dos seus mestres; e como tal, desde o seu ca, me parece, devia ser guiado. Todos os jovens de que isolamento acadêmico, e mesmo depois de ter deixado o ginásio, se refugiaram na se esforçam zelosamente para re- ele fica privado de toda formação ou de toda direção ulterior que primir e paralisar este estado natural, para desviá-lo e sufocá-lo: o levaria à cultura, para assim viver por si mesmo e ser livre. e o meio favorito é imobilizar este instinto filosófico natural por "Livre! Meçam esta liberdade, vocês que conhecem os ho- meio do que se chama agora de "cultura histórica" [historische mens! Construída sobre os pés de barro da atual cultura dos Bildung]. Um sistema que até há pouco tempo gozava de uma ginásios, quer dizer, sobre um fundamento que se esfarela, sua celebridade mundial escandalosa encontrou a fórmula desta au- fundação fica torta e insegura, se lhe sobrevem um turbilhão de todestruição da filosofia: e agora se revela em todo lugar, com vento. Vejam o estudante livre, o arauto da cultura autônoma, este tratamento histórico das coisas, esta propensão ingênua e imaginem os seus instintos, interpretem-no em função de suas privada de escrúpulos de transformar o que é mais irracional necessidades! O que lhes pareceria a sua formação, se vocês sou- em e de apresentar como branco o que é mais negro, bessem medi-la com três instrumentos, em primeiro lugar, por de modo que se poderia muitas vezes perguntar, parodiando o sua necessidade de filosofia, em segundo lugar, por seu instinto princípio de Hegel: que esta irracionalidade é Ora, artístico e, enfim, em relação à antiguidade grega e romana, que é o imperativo categórico concreto de qualquer cultura. 53. Nietzsche certamente faz alusão aqui à famosa afirmação de Hegel nos seus Principes "O homem se encontra tão completamente assediado pelos de la Philosophie du Droit [Galimard, Paris, 1940, p. 52] onde ele diz: "O que é racional é real e o que é real é racional, esta é a convicção de toda a consciência livre de prevenção, problemas mais graves e mais difíceis, que, se é levado a estes e a filosofia parte daí sempre que considera o universo espiritual e o universo natural."