Prévia do material em texto
UNIDADE 1 A TRANSIÇÃO DO FEUDALISMO PARA CAPITALISMO 1. o COMÉRCIO, A CIDADE E AS CORPORAÇÕES A primeira coisa que você precisará entender ao estudar o início do capitalismo é que a Europa feudal de séculos passados - em que o modo de produção foi pensado e criado -, não tem nenhum paralelo com o mundo moderno. Para uma breve síntese sobre o feudalismo, ver HUBERMAN (2010). Caminhar por locais como a Avenida Paulista, entrar em lojas, consumir e até mesmo trabalhar são atividades fundamentalmente dife- rentes no Brasil do presente do que eram na Europa feudalista. Mesmo assim, o feudalismo é considerado uma das primeiras formas de organização social, política e econômica que emergiu na Europa durante o século V, logo após a queda do Império Romano. Nesse momento o que imperava era a posse por terra e por esse motivo, os proprietários dessas terras eram chamados de "Senhores Feudais" e tinham os trabalhadores como mão de obra para várias atividades em seus territórios. Figura 01. Pirâmide do feudalismo 2019 Realeza Alta nobreza e alto clero Nobreza Separação entre Média privilegiado e povo comum Grupos médios (artesãos e ricos) Grupos modestos (artesãos) Pobres Marginalizados (servos) e escravos 6Começando pela ideia de comércio, temos que ter em mente que pessoas trocavam coisas por necessidade de sobrevivência. A maior parte dos bens de uso humano no pe- ríodo feudal era produzida pelas próprias pessoas que os utilizavam, com insumos tam- bém feitos por elas O grande valor de um produto se exprimia por seu uso particular. 1 Do mesmo modo, as trocas que existiam não eram necessariamente feitas de mer- cadorias por moedas, mas de mercadorias por mercadorias, o chamado escambo. E, basicamente, entre as pessoas que trocavam coisas, existiam mais para que tivessem acesso a poucos bens de consumo que não produziam sozinhas. A noção de acúmulo de riqueza com fins de ascensão social não existia. Como características do feudalismo temos: A organização social do feudalismo apresentava uma divisão social baseada em 3 classes: servos, nobreza e clero. Essas classes sociais estariam hierarquica- mente distribuídas da seguinte forma: Figura 02. Hierarquia no Feudalismo CLERO NOBREZA SERVOS Fonte: Elaborada pelo autor, 2019. Os servos eram representados pelos trabalhadores rurais e população com menos pos- se de terras e dinheiro. A nobreza era representada pelos reis e o clero tinha represen- tantes religiosos. Outra característica marcante era que se uma pessoa estivesse incluída na clas- se dos servos, lá permaneceria até a morte. Não havia no feudalismo nenhuma possibilidade de ascensão social. Essa distribuição era hierárquica, ou seja, os servos estariam subordinados às classes sociais mais altas sempre. Economia Política 7A Transição do Feudalismo para o Capitalismo IMPORTANTE 1 Existem alguns termos empregados nessa época como "suserano" e Esses termos estão associados, processo de doação feito entre os nobres e designação dada ao nobre que recebeu a doação. Como dito anteriormente, não existia comércio no feudalismo. Os processos agrícolas eram considerados de subsistência e autossufi cientes para garantir a sobrevivência de todas as classes sociais, dentro do padrão que lhe convinha e de acordo com a posição que ocupavam. Figura 03. Feudalismo Fonte: Wikipedia, 2019. Todo poder seja ele de ordem econômica, social ou política, estava centrado no "Senhor Feudal" e este tinha como instituição mais poderosa a seu favor, a igreja que infl uenciava fortemente a forma de pensar das pessoas. Os servos, além de serem submetidos à exploração da sua mão de obra para movimentar o processo produtivo da época, ainda eram explorados economicamente pagando impos- tos. Esses impostos eram chamados de capitação, talha, dízimo e banalidade. Na passagem da Idade média para a Idade moderna, meados do século XV, temos o surgimento do capitalismo que tem como uma das mudanças a possibilidade de acú- Figura 04. Acúmulo de capital mulo de capital. Ao pensarmos no momento em que o ca- pitalismo era gestado, tampouco devemos imaginar que os restritos comerciantes que existiam eram ricos proprietários de grandes lojas. A bem da verdade, o conceito atual de loja não existia e a ideia mais aproximada de local de comércio do passado, em compara- ção ao que existe no presente, é aquela de comércio de rua, ou de feiras improvisadas e itinerantes. Comerciantes eram, igualmente, artesãos produtores de mercadorias, bem 8como, algumas vezes, viajantes (estes mais especializados no comércio do que os arte- sãos). Em uma imagem possível e muitas vezes romantizada em filmes sobre a Idade Média, feiras de produtores eram organizadas debaixo de lonas, como aquelas de circos. 1 Figura 05. Shopping medieval Fonte: Plataforma Pixabay (2019) Uma ideia de acumulação de riqueza, não obstante, começou a ser lentamente cons- truída naquele momento. A Igreja católica e as diferentes coroas europeias guardavam seu ouro (em grande parte saqueado das Américas, via grandes navegações e coloni- zações) ou o empregava na expansão de seu domínio territorial. Pessoas se ocupavam em manter estilos de vida, mas a ideia de guardar (coisas, não necessariamente moe- da) para não faltar não era desconhecida, tampouco a noção de fortuna era estranha, ainda que inicialmente fosse acessível apenas a grupos sociais nobres. Assim, com o tempo, uma nova forma coletiva de se pensar calmamente se formou, em que o acúmu- lo de riquezas, independentemente de nobreza, ganhou centralidade. O dinheiro, por sua vez, ainda que mercadorias pudessem ser abstraídas por seu valor de troca, subs- tituiu escambo. E, nesse processo, a classe comerciante, ou burguesa, se fortaleceu. Acumulação de riquezas: importante para o modo de vida capitalista e potencializada com as grandes navegações e colonização das Américas. As cidades também se modificaram nesse processo. É importante que você se lembre que esta Europa do passado era basicamente rural, com a maior parte das pessoas vivendo de pequenas produções agrícolas nos diferentes feudos. Não obstante, a po- pulação crescia, o que levava a migrações do campo para as vilas, a princípio também ligadas aos senhores feudais. De pequenas vilas, habitadas por poucas pessoas, tornaram-se centros maiores e com uma importância político-econômica em que a produção de mercadorias para a venda era uma ideia menos abstrata. Economia Política 9A Transição do Feudalismo para o Capitalismo Esses centros se tornaram locais mais propícios ao desenvolvimento de um estilo de vida menos rural, menos feudal, em que a produção de manufaturas e seu comércio prosperavam como atividades especializadas. 1 Figura 06. Cidade europeia medieval Fonte: Plataforma Pixabay (2019). Em um segundo momento, esse comércio ganhou ainda mais volume e passou a ser realizado também entre cidades. Um importante exemplo de cidade comercial medieval é Veneza, sobre seus canais, com o comércio do Mar Mediterrâneo, o qual potencializou o enriquecimento de comerciantes viajantes e dos artesãos produtores das mercadorias comercializadas. Estes foram os embriões das cidades modernas. Figura 07. Veneza - Cidade comercial que mantem características medievais Fonte: Plataforma Pixabay (2019). Ainda sobre as vilas e sua produção de mercadorias, você também deve ter em mente que esta não era uma atividade assemelhada ao livre empreendimento produtor do pre- sente. Pelo contrário: a produção de bens era realizada por meio do trabalho artesanal/ 10manual de diferentes pessoas, ou seja, era o ofício de artesãos. Esses trabalhadores costumavam se reunir e formar corporações de ofício. Essas instituições eram organi- zadas em redes de artesãos-mestres e aprendizes, controladas por um mestre expe- riente, e monopolizavam determinada produção e o comércio que decorria dela. Essas 1 corporações foram a raiz da empresa capitalista moderna. 1.1. BURGUESIA: UMA NOVA CLASSE SOCIAL Figura 08. Sala de jantar senhoril Assim como a ideia de comércio não é recente na história da humanidade, a no- ção de que como um letivo, formariam uma espécie de grupo com importância própria, esta sim é uma ideia mais atual. E é como coletivo que devemos considerar os comerciantes como uma classe social. Classes sociais são, grosso modo, gran- des grupos de pessoas que desempe- nham um papel estruturador das so- ciedades. Marx (2013) nos ensina que, geralmente, há duas classes sociais: a dominante, que detém o poderio econô- Fonte: Plataforma Pixabay (2019). mico e controla os rumos da sociedade, política e economicamente. E a classe dominada, que trabalha para a dominante, con- forme as regras impostas. Seguindo esse raciocínio, no mundo feudal, as classes eram dividas em aristocracia (senhores feudais, donos de terras e títulos de nobreza) e servos (demais pessoas). Classe social: conceito importante no estudo da humanidade e da economia política e cen- tral para a teoria sobre a história do pensador alemão Karl Marx. Figura 09. Acúmulo de dinheiro, a fonte do por sua vez, fa- enriquecimento burguês ziam parte da classe dominada mes- mo com suas corporações monopolistas. Não eram senhores de terra e deviam vi- ver conforme as regras destes. Não obs- tante, ao acumularem riquezas a partir da ascensão em importância do comér- cio, passaram a destacar-se dos demais servos como uma terceira camada, uma classe média. Todavia, não foi um processo rápido. Pelo contrário: ocorreu de forma lenta, Fonte: Plataforma Pixabay (2019). Economia Política 11A Transição do Feudalismo para o Capitalismo que se deu ainda no seio da Europa feudal, que via o crescimento de cidades e mudan- ça no padrão de acumulação prévio. Foi, não obstante, um movimento paulatino, em que a burguesia, a nova classe social média, comerciante, surgiu e enriqueceu. 1 Estabelecida como classe, caberia à burguesia medieval desempenhar um novo papel social, transitório, o de almejar o poder e a mudança de seu status prévio, ou seja, dei- xar de ser classe social dominada a classe social dominante. No entanto, mesmo que tivessem um padrão de vida melhor do que os demais servos, burgueses ainda não eram senhores, não dominavam territórios e tropas, tampouco o destino da vida coletiva. Acu- mulavam riquezas, mas poderiam vê-las tomadas pela aristocracia a qualquer momento. A ela deviam subserviência, ainda que tivessem, eventualmente, se tornado mais ricos. Burguesia: classe dominante do presente, surgiu entre os servos do passado europeu a partir do crescimento da importância das corporações de ofício, do comércio e do enriqueci- mento dos comerciantes. Figura 10. Revolução industrial, pintura "Ferro e Ao almejarem e buscarem - poder po- Carvão" de William Bell Scott lítico, os burgueses começaram a propor uma mudança nas relações sociais euro- peias antigas que foram determinantes para o surgimento do modo de vida mo- derno. Tratava-se do fim do feudalismo e do antigo regime, em que a aristocracia detinha todo o poder político, mesmo quando este deixou de ter lastro eco- nômico. Neste, as ideias por detrás da formação de cidades se chocaram com aquelas que sustavam os feudos. Todo este movimento foi a base para as cha- madas revoluções burguesas, entre as quais se destacam a Revolução Indus- trial, que começou na Inglaterra, e a Re- volução Francesa. Fonte: Wikipedia, 2019. Vale lembrar que, na Revolução indus- trial, a grande mudança refere-se à substituição da mão de obra. Além do trabalho sendo remunerado, para algumas funções o uso das máquinas começa a fazer parte do processo produtivo. Essa transição pode ser dividida em três etapas diferentes: Revolução Industrial: presença das máquinas a vapor; primeiras indústrias pro- dutora de tecidos a base de algodão. Revolução Industrial: uso do aço passa a incorporar o processo produtivo além da energia elétrica e outros combustíveis que culminaram também com o desenvolvi- mento de novos produtos. Revolução industrial: considera os avanços tecnológicos. 121.2. A FORMAÇÃO DOS ESTADOS NACIONAIS Para além da ascensão da burguesia como classe social, outra mudança nas relações sociopolíticas europeias marcou a transição do mundo feudal para o moderno e o sur- gimento do capitalismo. Trata-se do nascimento dos Estados nacionais e, com eles, da 1 nova geografia europeia, posteriormente globalizada. Para compreender corretamente o que significa um Estado nacional, você deve, a prin- cípio, entender, separadamente, o que são Estados e o que são nações. Grosso modo, de acordo com Nascimento (1996), Estado é a "unidade política" que controla um determinado território, sobre o qual tem o direito de monopolizar a violência (formulação weberiana), ou, melhor dizendo, as forças armadas, empregadas no con- trole da população e das fronteiras. Estados são construtos políticos, criados para subs- tituírem o conjunto de antigos feudos e unificarem o poder político de um rei sobre seu território e tudo o que ocorre dentro de suas fronteiras. Em outras palavras, ao surgirem, derrubam o poder microterritorial dos feudos e abaixo o domínio estabelecido por um rei e sua possiblidade de fazer sua própria política, moeda etc. Ao unificar territórios, possibilita o surgimento dos diferentes países, tal como conhecemos no presente. Figura 11. Países da Europa Minsk Warszawa Berlin E R GERMANY E R W Praha Krakow Paris Bay Munchen of Budapest Biscar RANCE AUSTRIA HUNGARY ROMANIA B Bordeaux Lyon B Milano Sofiya Marseille Madrid Corse Bursa Barcelona Roma N Napoli Sardegna Valencia Baleares M E D I T R Fonte: Plataforma Pixabay (2019). Nações são, por sua vez, a contraparte dos Estados no mundo moderno. Nascimen- to (1996) nos ensina que, no presente, são sinônimo de povo e buscam dar sentido de unidade às variadas pessoas que vivem dentro de um território sobre o qual se estende o Estado. Estado e nação não são termos recentes, mas devemos compreender que seu signifi- cado atual é moderno e surge no momento de transição do feudalismo para o capitalis- mo. E, da forma como são entendidos no presente, implicam Economia Política 13A Transição do Feudalismo para o Capitalismo Nações são, por sua vez, a contraparte dos Estados no mundo moderno. Nascimento (1996) nos ensina que, no presente, são sinônimo de povo e buscam dar sentido de unida- de às variadas pessoas que vivem dentro de um território sobre o qual se estende o Estado. 1 Estado e nação não são termos recentes, mas devemos compreender que seu significa- do atual é moderno e surge no momento de transição do feudalismo para o capitalismo. E, da forma como são entendidos no presente, implicam que cada Estado corresponde a uma nação única e unifi cada, ainda que isso resulte em submeter pessoas diferentes a uma identifi cação nacional inventada (espanhóis castelhanos, catalães, andaluzes etc.), o que resulta na existência de vários Estados-nação pelo mundo. Para a burguesia medieval ascendente, o surgimento dos Estados-nação signifi cou a pos- sibilidade de expansão de seus negócios de uma forma muito mais fácil e rápida por gran- des extensões territoriais. Assim, Estados criaram um modo distinto de viver em seus territó- rios, o que facilitou trocas comerciais. Igualmente, leis e impostos únicos, nacionais, e o fi m de barreiras aduaneiras entre diferentes feudos. Um novo ambiente propício para negócios surgiu com os Estados-nação, que potencializou o enriquecimento dos comerciantes. Figura 12. Bandeiras, os símbolos máximos dos Estados-nação * Fonte: Plataforma Pixabay (2019). SAIBA MAIS Em se tratando de Estado-nação, mais especificamente na América Latina, sugerimos a leitura do artigo Colonialidade do poder, de Aníbal Quijano (texto famoso, disponível em português. Disponível em: https://www.lipsum.com/feed/html ou vários outros, de diferentes universidades brasileiras e estrangeiras). Este autor nos lembra que o modelo europeu de Estados nacionais não foi transplantado para as Américas sem conflitos. 1.3. COLONIALISMO E AS FACETAS DA ACUMULAÇÃO PRIMITIVA Como vínhamos explanando nos itens anteriores, a ascensão da burguesia como classe social emergente, do grande grupo dos servos das aristocracias europeias, para classe social dominante, foi um processo que incluiu mudanças sociopolíticas e econômico-geográfi cas locais em um primeiro momento e, em um segundo momento, 14globais. Na história europeia/eurocentrada, esse período fi cou conhecido como grandes navegações, que levaram à colonização das A colonização das Américas fortaleceu um processo que já não existia apenas como abstração entre reinos, exploradores 1 Figura 13. Grandes navegações dos exploradores e comerciantes europeus, que é a europeus acumulação primitiva de capital. Em outras palavras, possibilitou que reinos, como aqueles de Portugal e Espanha, enriquecessem seus cofres com ouro, prata e outros metais preciosos, além de pedras e outras riquezas, retiradas NORT além-mar por meio do trabalho escravo de africanos e indígenas. Possibilitou, igualmente, que a Igreja católica encontrasse novos locais e pessoas para catequizar e ampliar sua influência cultural e dispersão de seus valores, formas de ver o mundo etc., que era a mesma dos reinos, reis e seus servos Fonte: Plataforma Pixabay (2019) aos quais se associava. A riqueza o capital extraída das Américas, portanto, foi, em um primeiro momento, acumulada por aristocratas e pelo clero europeu e, em um segundo momento, utilizada para financiar transações comerciais com outros reinos da própria Europa. Esse movimento potencializou não só a atividade comercial, mas também a riqueza dos comerciantes. Além disso, fortaleceu as bases materiais para que, entre os séculos XVII e XIX, a burguesa preparasse e realizasse aquela que seria a maior mudança ocorrida com antigo regime feudal: seu fim, por meio das grandes revoluções burguesas. Colonialismo: processo continuado em que terras e povos distantes foram subjugados por reinos europeus, para fins de expansão territorial e acumulação de capital. colonialismo cria as bases para o surgimento do capitalismo moderno. 1.4. A REVOLUÇÃO INDUSTRIAL Figura 14. Ruínas de missão na Financiada com recursos adquiridos pelo América Latina crescente comércio dos séculos XVI e XVII e possibilitada pela ascensão do modo de vida burguês citadino, a Revo- lução Industrial, primeira das grandes re- voluções burguesas, marcou o início da produção de bens de consumo por meio de máquinas. Em outras palavras, signi- ficou o início da industrialização da pro- dução, fato que possibilitou a redução de custos e aumento da velocidade de cria- ção/reprodução de mercadorias. Economia Política 15A Transição do Feudalismo para o Capitalismo O movimento começou na Inglaterra, mas você deve sempre lembrar que não se tratou de um processo unicamente inglês. Pelo contrário, no fim do século XIX e início do XX, a maior parte dos Estados-nação do oeste europeu já estava industrializada, assim como os 1 Estados Unidos da América. O modo de produção capitalista era do tipo globalizado, com comércio sendo realizado via navios com países estrangeiros. Com efeito, a industrializa- ção era uma realidade planetária, mesmo que nem todos os países fossem industrializados (muitos, como o Brasil, seguiam como fornecedores de matéria-prima para as indústrias). Revolução Industrial: começou na Inglaterra, em meados do século XVIII, e rapidamente se espalhou pela Europa ocidental e chegou aos Estados Unidos da América. No fim do século XIX, a maior parte dessa região era industrializada e possuía corporações participando do comércio internacional. Figura 15. Advento das máquinas inglesas A industrialização começou com a mecanização da tecelagem, ao substituir o trabalho manual dos ar- tesãos. A atividade comercial de produção e venda de produtos têxteis já existia no século XVIII, mas se viu incrementada pelo advento da máquina. Pouco tempo depois, não obstante, máquinas se- riam usadas em outras atividades produtivas, sem- pre substituindo a mão de obra artesanal. Com o passar do tempo, as máquinas seriam em- pregadas em todo tipo de atividade humana, substi- tuindo, embora sem eliminar, não somente a mão de obra operária na fabricação de coisas, mas também o uso de animais. Em termos econômicos, isso im- plica ganho de eficiência produtiva e, consequente- Fonte: Plataforma Pixabay (2019). mente, economia de recursos valiosos, como tempo de produção de itens (máquinas produzem mais rápido do que pessoas) e quantidade ma- nufaturada (máquinas depreciam, mas não se cansam e trabalham mais horas seguidas). A Revolução Industrial possibilitou, portanto, uma mudança total na matriz produtora de bens de consumo, e consolidou, definitivamente, o capitalismo como forma econômica europeia, incialmente, e global, posteriormente. Figura 16. Veículo antigo motorizado Fonte: Plataforma Pixabay (2019). 161.5. A REVOLUÇÃO FRANCESA A vida humana coletiva - a vida social - é estruturada a partir da economia, mas, para além dela, é também constituída de formas de se pensar, se relacionar e se organizar 1 em grupos e pelo governo. Isto posto, não basta que a economia e a forma como produzimos se revolucionem para que sistemas sociais se alterem: é preciso também que existam mudanças comporta- mentais nas relações de poder. Figura 17. Tomada da Bastilha-considerada o marco para início da Revolução Francesa, Prise de la Bastille por Jean-Pierre Houel Para o ascendente modo de vida capitalista, a Revolução Francesa representou uma mudança na forma como povos eram governados, a começar pela própria França e em toda a Europa. Naquele momento, insatisfeitos com regras impositivas e com o gover- no aristocrático, franceses, liderados por sua ascendente e rica burguesia, tomaram o poder político daquele país e passaram a definir as regras e governar a vida coletiva. Trata-se, portanto, de uma revolução política, que marca o fim do antigo regime francês e a consolidação definitiva da burguesia como classe dominante. Figura 18. Revolução Francesa Economia Política 17A Transição do Feudalismo para o Capitalismo Revolução Francesa: movimento político que marca a tomada do poder da França pela burguesia, então convertida a classe social dominante, rebelião que, em pouco tempo, es- 1 palhou-se por toda a Europa. Além do caráter disruptivo e transformador de relações de poder que a Revolução Fran- cesa marcou, é importante que você se lembre que este não foi um levante curto e rápido. Pelo contrário: durou quase um século e foi marcado por sucessivas mudanças de governo e de sistema político. Iniciou-se com um rei absolutista e coroado por um padre, ocupando o trono em seu palácio, e terminou com um presidente como chefe de Estado, eleito por voto e controlado por um parlamento, em um dos países então mais poderosos da Europa. Seguiu recheado de pequenos golpes, com grupos populares prontos para se armar e lutar por diferentes causas, como impostos excessivos sobre pequenas produções. Diferentes momentos marcam essa revolução, a começar pelo confinamento do rei em seu próprio palácio, seguido de sua execução por guilhotina. Mas, para além da execu- ção de aristocratas, de mudanças de leis, de regras da vida coletiva e um novo balanço na divisão do poder são momentos importantes da revolução que, junto à industrializa- ção, marcou a definitiva tomada do poder estatal pela classe burguesa, uma realidade que ainda perdura na Europa e que se espalhou pelo mundo. Revolução Francesa: movimento político que marca uma mudança de poder na França, com a derrocada da aristocracia e ascensão da burguesia. Figura 19. Guilhotina Fonte: Plataforma Pixabay (2019). CONCLUSÃO Buscamos, nesta unidade, uma introdução à compreensão do capitalismo como base do sistema político-econômico moderno, a relembrar como a vida se estruturava nos antigos feudos europeus. Controladas por senhores feudais, que eram parte da elite 18aristocrática de antigos reinos e dominavam a vida política, social e econômica, todas as pessoas eram a eles subordinadas na condição de servos (notamos que escravos também eram servos). 1 A vida eminentemente rural dos feudos, entretanto, não foi capaz, com o lento passar de anos do período medieval, de sustentar as condições de vida para toda a população europeia e pessoas que migravam às incipientes cidades, nas quais começavam a es- boçar um estilo de vida diferente. Estas eram ainda ligadas aos feudos, mas contavam com uma maior especialização de atividades entre diferentes grupos de ofícios que, com o tempo, começaram a se organizar coletivamente como corporações, que mono- polizavam a produção e o comércio local de mercadorias. O comércio, por sua vez, não foi uma atividade econômica que se manteve restrita às cidades e, eventualmente, se expandiu além-fronteiras já na Idade Média. Cidades como Veneza são um bom exemplo de vila do passado que se enriqueceu via comércio maríti- mo. A transação de mercadorias, mais adiante, não foi a única motivação encontrada por antigos reinos para empreender em navegações. A busca por riquezas além-mar também motivou exploradores do passado a chegarem às Américas, sempre servos de Recursos saqueados das Américas colonizadas ampliaram a acumulação de riquezas por reinos do passado o que já era o embrião do capitalismo moderno. Essas riquezas não eram guardadas de forma estática, mas empregadas na compra de mercadorias, com o que fortaleceram ainda mais a atividade comercial e enriqueceram a classe burguesa. Burgueses seguiam dominados por aristocratas, que se tornavam cada dia mais ricos e eco- nomicamente poderosos. E, ao passo que crescia a demanda por mercadorias comercializa- das, a técnica produtiva sofreu a maior mudança, ainda hoje conhecida, que foi a substituição da mão de obra humana por máquinas. Trata-se da Revolução Industrial, iniciada na Inglater- ra, rapidamente disseminada por toda a Europa e pelos Estados Unidos da América. Por certo, tais mudanças na matriz produtiva ocorreram em uma Europa que se dividia em Estados-nação que, gradativamente, substituíam os antigos reinos como unidades políticas a controlar territórios e a unificar pessoas dentro de fronteiras ao mesmo tem- po. Isso também fortalecia o comércio, pois derrubava barreiras aduaneiras internas, padronizava moedas etc. Máquinas trouxeram ainda mais riqueza à classe burguesa, mas seria necessário um movi- mento político para que se tornasse um grupo dominante. A revolta foi alcançada pela Revo- lução Francesa, momento em que uma das maiores potências europeias do século XVIII viu ser substituída em seu governo a aristocracia monárquica pela burguesia, convertida em classe social dominante. A Revolução Francesa marcou, portanto, o fim do antigo regime feudal, já minguante, mas que ainda reservava privilégios à aristocracia. Ao longo de séculos, portanto, uma mudança político-econômica foi vista na Euro- pa e a partir desta, via colonialismos variados, internacionalizada -, que foi a as- censão da burguesia de uma condição servil nos feudos do antigo regime europeu para classe dominante mundial. Com a ascensão burguesa, nascia e se fortalecia o capitalismo, então convertido em novo modo de produção dominante que estruturou toda a economia global. Economia Política 19A Transição do Feudalismo para o Capitalismo SAIBA MAIS 1 Uma boa ilustração do funcionamento de fábricas, cidades e da vida humana logo após a Revolução Industrial - e já sob domínio da burguesia moderna - é o filme "Tempos Modernos", de Charles Chaplin, previsto na bibliografia complementar. 20REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS HUBERMAN, L. História da riqueza do homem: do feudalismo ao século XXI. 22. ed. São Paulo: LTC, 2010. 1 MARX, K. A lei geral da acumulação capitalista. In: o capital: contribuição à crítica da economia política. São Paulo: Boitempo, 2013. A mercadoria. In: o capital: contribuição à crítica da economia política. São Paulo: Boitempo, 2013. NASCIMENTO, P. Dilemas do nacionalismo. Bib - Revista Brasileira de Informação Bibliográfica em Ciências Sociais. São Paulo, n. 41, p. 33-53, 1996. Disponível em: http://www.anpocs.org.br/portal/images/ bib56.pdf. Acesso em: 5 maio 2019. Plataforma Pixabay. https://pixabay.com/pt/. QUIJANO, A. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: A colonialidade do saber: eurocen- trismo e ciências sociais. Perspectivas LANDER, E. (Org.). Colección Sur Sur, CLACSO: Ciudad Autónoma de Buenos Aires, 2005. Disponível em: https://bit.ly/2ksBQQP. Acesso em: 16 fev. 2019. TEMPOS modernos. Direção: Charles Chaplin. Estados Unidos, 1936. DVD (87 min.). Economia Política 21