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História da Filosofia Moderna
O desenvolvimento dos principais conceitos elaborados ao longo da Filosofia moderna com ênfase em
questões políticas.
Profa. Raquel de Azevedo e Prof. Rafael Mófreita Saldanha
1. Itens iniciais
Propósito
Compreender as transformações da Filosofia moderna em correspondência com as mudanças seculares do
período, bem como, em razão da influência do discurso filosófico em inúmeros campos de saber, entender
conceitos que fundamentam as mais diversas disciplinas, no campo das Ciências Humanas e das Ciências
Naturais.
Preparação
Antes de iniciar o estudo deste tema, é importante ter à mão um bom dicionário de Teoria Política ou mesmo
de Filosofia. Sugerimos o Dicionário de Filosofia, de Abbagnano, e o Dicionário de Política, de Bobbio,
Matteucci e Pasquino, ambos disponíveis virtualmente.
Objetivos
Identificar a relação entre o contexto histórico do Renascimento e as reflexões políticas dos filósofos
humanistas
Distinguir as concepções do contrato social na Filosofia política moderna
Reconhecer os principais conceitos do pensamento iluminista
Introdução
Você está prestes a penetrar nos caminhos da modernidade, pelo campo da Filosofia, com ênfase na Filosofia
política. Para percorrer os eventos associados à modernidade, focaremos três momentos centrais do período.
 
O primeiro deles é o Renascimento e a Filosofia humanista que foi construída nesse contexto. Em seguida,
analisaremos a noção de contrato social como modo de reestruturar o mundo social e político de acordo com
os modelos fornecidos pela razão. Por fim, discutiremos sobre as questões novas trazidas para a Filosofia
política a partir do Iluminismo, da Revolução Francesa e de suas consequências.
 
Com essas análises, poderemos ter uma visão da pluralidade de questões e ideias que circularam ao longo
desse período.
• 
• 
• 
Homem Vitruviano, Leonardo da Vinci, 1492.
1. Contexto do Renascimento e filosofia humanista
Contexto histórico
O período histórico que costumamos chamar de
Renascimento é geralmente concebido como
uma fase de transição entre dois momentos
considerados mais importantes. Antes do
Renascimento, encontramos a Era Medieval: um
momento em que houve o predomínio de
valores e de uma visão de mundo articulada a
partir da centralidade do Deus cristão que
influenciava boa parte da Europa Ocidental.
 
Após o Renascimento, deparamo-nos com o
início da modernidade: um período que
costumamos associar ao desenvolvimento de
uma cultura articulada a partir da razão, da
ciência e da centralidade do humano. Ainda
assim, quando prestamos atenção nessa “fase de transição”, vemos que ela é mais do que um simples
entreposto. Trata-se de um período que se estende mais ou menos da metade do século XIV até o início do
século XVII e que concentrou boa parte de suas atividades na Europa Mediterrânea, ainda que não tenha se
restringido a esse espaço.
No que diz respeito à Filosofia, suas principais contribuições para a tradição foram as reflexões sobre as
noções de indivíduo e de governo a partir de certa ideia de humanismo herdada da Antiguidade Clássica. Essa
herança permitia pensar as questões de maneira cada vez mais descolada dos valores e das visões de um
mundo teocêntrico, sem que isso implicasse as especificidades da era moderna, sobre a qual discutiremos
mais adiante.
 
Antes de comentar alguns dos momentos-chave desse período, cabe explicar três elementos que ajudam a
entender o contexto em que o Humanismo do Renascimento foi elaborado. São eles:
O declínio do feudalismo e o fortalecimento das cidades-Estados
Obra de arte: Portal de São Frediano em Florença, Filippino Lippi, século XV.
As trocas culturais estimuladas pelas trocas comerciais na região
mediterrânea
Obra de arte: A Fonte do Rei, autoria desconhecida, século XVI.
O novo olhar sobre a Antiguidade greco-romana
Obra de arte: David, Michelangelo, século XVI.
O primeiro elemento que devemos mencionar é a situação política da região que identificamos atualmente
como a Itália – espaço que teve papel central no desenvolvimento do Renascimento. Nesse contexto, os
centros urbanos voltados para trocas comerciais se fortaleciam aos poucos até conseguirem se tornar
potências políticas por causa de suas riquezas advindas do comércio.
 
Entre as cidades que cresceram nesse momento, podemos destacar duas que foram grandes centros culturais
ao longo do Renascimento: a cidade-Estado de Florença e a de Veneza. A vantagem que os centros urbanos
italianos possuíam e que permitiu que se tornassem potências era sua posição no norte do Mediterrâneo, que
transformou essa região em um ponto central nas rotas de trocas comerciais que atravessavam a Europa.
Saiba mais
No período do Renascimento, ainda não havia o “país” Itália – pois a unificação italiana aconteceu apenas
em meados do século XIX –, mas sim cidades-Estados, com autonomia, administração e até idiomas
independentes. 
O segundo elemento que devemos mencionar – uma consequência da natureza própria das cidades
comerciais – é que elas tendiam a ser um espaço de ampla circulação não apenas de bens, mas de pessoas e
ideias. No caso específico das cidades-Estados italianas, tratava-se de um espaço que recebia influxos de
todos os cantos do mar Mediterrâneo. Assim, havia nesse mesmo espaço a circulação da cultura católica
europeia, mas também da cultura árabe e do que tinha sobrado da cultura bizantina – portanto, remanescente
da cultura greco-romana. Isso foi responsável por tornar a região um espaço multicultural que acabava
diminuindo a força do pensamento medieval católico pelo contato com outras ideias.
É esse efeito, por fim, que nos permite compreender o terceiro elemento do contexto do Renascimento: o fato
de que é um período de redescoberta da Antiguidade Clássica. É preciso esclarecer, antes, que isso não
significa que os autores clássicos estavam esquecidos ou que tinham sido ignorados de alguma maneira ao
longo da Era Medieval. Há cerca de mil anos de distância entre o fim da Era Clássica e o início do que
chamamos de Renascimento.
 
Para que qualquer vestígio da cultura da Antiguidade chegasse a esse momento, era necessário que os textos
e as ideias fossem preservados e transmitidos ao longo desse tempo. Isso aconteceu por meio das inúmeras
escolas filosóficas no Império Bizantino, nos impérios islâmicos e nas universidades medievais da Igreja
Católica. Esses espaços de aprendizagem não apenas mantiveram tais pensamentos vivos, como deram
sequência a essas tradições, ainda que subordinando a tradição clássica a questões trazidas pelo catolicismo
e islamismo.
 
Ainda que certos textos tenham sido de fato descobertos no contexto do Renascimento – como alguns
discursos do filósofo Cícero (106 a.C.-43 a.C.) e o poema filosófico epicurista de Lucrécio (94 a.C.-50 a.C.),
intitulado Sobre a natureza das coisas –, a novidade desse período tem mais relação com recuperar os textos
da Antiguidade sob outro olhar. O que vemos, portanto, é um retorno a esses textos sem que estejam
subordinados aos valores e à visão de mundo católica – algo que foi possível por conta do espaço multicultural
que eram as cidades-Estados italianas.
 
A consequência disso foi o desenvolvimento do Humanismo, que, com auxílio dos textos clássicos, buscou
colocar o ser humano na centralidade da reflexão histórica. E é justamente nesse ponto que reside a
singularidade do pensamento do Renascimento: não se trata de um mero retorno às fontes clássicas, mas de
retornar aos clássicos como uma estratégia para se afastar de uma tradição medieval que se mostrava
insuficiente.
 
Mas o inverso também poderia ser relevante nesse momento, isto é, a tradição medieval, de influência
predominantemente cristã, poderia estar atrapalhando o desenvolvimento comercial e, por isso, deveria ser
substituída. Em outras palavras:
Fim da Era Clássica
Período que pode ser datado a partir da divisão do Império Romano em: Império Romano do Ocidente e
Império Bizantino. 
O usurário, igualmente cortejado e temido por seudinheiro, é desprezado e temido por causa dele, numa
sociedade em que o culto a Deus exclui o culto público a Mammon (deus-riqueza).
(LE GOFF, 2004)
Renascimento e modernidade
Agora, vamos aprofundar como o período do Renascimento representa a transição da Idade
Média para modernidade, destacando principais equívocos acerca desses períodos.
Conteúdo interativo
Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.
Retrato de Michel de Montaigne, artista desconhecido,
século XVI.
Com esse contexto estudado até aqui, podemos dimensionar o pensamento que se elaborou nesse período e
entender suas principais figuras. Trata-se de um período muito rico, mas que pode ser introduzido a partir de
três problemas filosóficos que povoaram inúmeros dos pensadores renascentistas:
 
A imagem renovada dos indivíduos descolada da tradição católica.
As questões de participação política que surgiram em um contexto de valorização dos indivíduos.
As reflexões sobre a forma de ação política dessas novas figuras políticas que foram as cidades-
Estados e que prefiguraram os Estados Modernos em alguns sentidos.
No caso, analisaremos a novidade desse período a partir dos conceitos de três autores: Michel de Montaigne
(1533-1592), Étienne de La Boétie (1530-1563) e Nicolau Maquiavel (1469-1527). Discutiremos sobre a nova
noção de indivíduo a partir da obra de Montaigne, falaremos sobre o problema da servidão voluntária a partir
de Étienne de La Boétie e terminaremos com as reflexões de Maquiavel sobre Estado.
Michel de Montaigne
Um dos principais filósofos do Renascimento,
tanto pelas ideias que elaborou em suas obras
quanto pelas inovações literárias. 
 
Costuma-se creditar a Montaigne a criação do
gênero literário do ensaio por conta do tipo de
escrita peculiar que realizou em sua única obra
publicada, intitulada Os ensaios. Se Montaigne
pode ser considerado um pensador marcante
nesses dois campos é porque seu estilo de
escrita encena o tipo de Filosofia que ele
acabou elaborando.
 
Seus ensaios costumam ser textos que
misturam anedotas autobiográficas, citações de
autores da Antiguidade Clássica e reflexões aguçadas sobre os mais variados temas, dos mais clássicos
(como ensaios sobre a natureza do conhecimento ou sobre a amizade) aos mais mundanos (sobre o sono ou
sobre estar bêbado).
 
Apesar dessa variedade – ou justamente por ela –, a Filosofia elaborada por Montaigne acabou atravessando
toda a sua obra.
Ela pode ser resumida, nas palavras do próprio autor:
Não busco apreender o ser, mas sim sua passagem.
(MONTAIGNE, 2010)
• 
• 
• 
Canibais, Theodore de Bry, século XVI.
Seu pensamento era, portanto, uma tentativa
de analisar a experiência sem se ater a
qualquer ideia ou doutrina prévia, de modo que
é possível tomar Montaigne como um herdeiro
do ceticismo da Antiguidade Grega.
 
É essa sensibilidade com as transformações do
indivíduo, mas que não deixa de olhar
atentamente para o mundo ao redor (como em
seus comentários sobre um contato com
indígenas no ensaio Os canibais), que nos
permite situar Montaigne como um dos
pensadores mais fundamentais desse
momento. 
 
Seu pensamento pode ser compreendido, portanto, a partir de dois pontos centrais: seu ceticismo e seu 
ensaísmo literário.
O ceticismo é uma das tradições mais antigas da Filosofia e tem como princípio certa desconfiança sobre
nossa experiência da realidade, o que forçaria o filósofo a suspender o que pensa sobre suas experiências. A
radicalidade dessa posição pode ser vista em um de seus pais fundadores: Pirro de Élis (360 a.C.- 270 a.C.).
 
Montaigne herdou de Pirro e dos céticos a desconfiança do que sentimos. O que Montaigne fez com essa
suspensão foi tomar o mundo como espaço de constante reavaliação, uma vez que, diante da impossibilidade
de ter certeza sobre o que vemos e o que experimentamos, restaria à Filosofia tomar como compromisso não
se prender a nenhuma posição e sempre estar aberta às transformações, em nós e no mundo, que demandam
mudar de posição.
 
Foi a partir desse compromisso filosófico que seu estilo se tornou uma questão. Diante da impossibilidade de
determinar absolutamente suas reflexões, ao autor só restaria ensaiar posições, sem se preocupar se essa
posição seria superada ou não.
 
Diante das questões postas por seu ceticismo, Montaigne tornou tudo no mundo objeto de avaliação e
reflexão, permitindo que comentasse seu cálculo renal e a história romana sem que um tópico fosse de
antemão superior ao outro. Em Montaigne, vemos, portanto, uma ideia de humano que acaba concentrando
boa parte do que foi pensado no contexto renascentista.
Étienne de La Boétie
Monumento a Étienne de La Boétie, na cidade de
Dordogne, na França, 1892.
Se na obra de Montaigne encontramos certa
imagem de indivíduo que carregamos até os
dias atuais, em Étienne de La Boétie, seu
amigo, vemos a formulação de um dos maiores
enigmas da vida política: o problema da
servidão voluntária. Esse problema é tratado na
obra Discurso sobre a servidão voluntária.
 
Apesar de um tratamento curto, o problema
apresentado não deixa de ser um dos mais
relevantes não apenas no contexto político do
Renascimento, em que disputas políticas se
acirravam no contexto de crise cada vez maior
do feudalismo, mas também diante do novo
individualismo que surgia nas Filosofias
humanistas do Renascimento, como nas de
Montaigne.
 
O problema da política aparece a partir de uma questão que é até bem simples de formular: La Boétie (2020)
tenta entender a relação de subordinação entre um soberano e seus súditos em um contexto de ditadura,
sobretudo quando se considera que o ditador é apenas um, e o povo é numericamente superior.
O que se esperaria, ao menos em termos lógicos, é que, se um ditador está no poder e age para prejudicar o
povo, esse povo se apoiaria em sua superioridade numérica para retirá-lo do poder. Mas isso não parece ser o
caso!
 
O que parece acontecer – e é esta a questão que La Boétie põe – é que o ditador só pode se manter no poder,
nessas condições, caso o próprio povo abdique de seu poder e de sua liberdade.
Mas por que o povo abdicaria de sua liberdade?
Para o filósofo, o poder que possibilita a ditadura estaria na maneira como o ditador maneja sua
imagem, iludindo seus súditos sobre o que está em jogo, sobre seus interesses, e tentando, também,
afetar seus súditos de modo afetivo. Não se trataria, porém, de um poder real, visto que ele
funcionaria apenas enquanto a ilusão se mantivesse. E porque esse poder é fundado ilusoriamente
seria possível enxergar uma saída: bastaria deixar de servi-lo, tomando consciência da situação. Mas,
claro, sabemos que isso não é fácil, que esse é justamente o problema, e que é difícil tomar
consciência de algo quando se está imerso em uma ilusão.
Ainda assim, mesmo que não concordemos com a solução proposta por La Boétie (ou que até concordemos,
mas a achemos vaga demais), é interessante notar que, apesar de não ficar explicitado, toda a análise do
filósofo é construída a partir da imagem de um indivíduo que pode desejar sua liberdade. Vemos aqui que a
subordinação é um problema na medida em que fere o indivíduo em sua singularidade.
 
É com isso em mente que podemos enxergar que a formulação do problema da servidão voluntária só faz
sentido a partir de um contexto do Humanismo renascentista. Afinal, se o que se está tentando defender é a
liberdade inata ao indivíduo singular, então esse valor só pode ser preservado se estamos inseridos em uma
cultura que celebra a dignidade da vida humana. Esse é um dos pilares do pensamento elaborado no
Renascimento.
Nicolau Maquiavel
Retrato de Nicolau Maquiavel, Santi di Tito, século XVI.
A principal característica das reflexões de Nicolau
Maquiavel sobre o exercício do poder é a ruptura com a
visão dos autores da Idade Média e do Renascimento de
que haveria uma relação direta entre a bondade do
governante e a legitimidade de seu poder.
À recomendação de que os governantes deveriam se
comportar conforme um padrão de bondade e de ética para
manterum reinado longo e pacífico, Maquiavel responde
que a bondade não assegura o poder ou a capacidade de
ser obedecido. A única preocupação do governante é, nas
palavras de Maquiavel, a manutenção do Estado. Há uma
ambiguidade intencional nessa formulação, pois o objetivo
de alguém que governa é manter o território político sob seu
domínio e manter sua própria situação de governante.
O que a experiência havia ensinado a Maquiavel é que bondade e retidão não são suficientes para manter o
poder político. Pelo contrário, é o uso adequado do poder que fará com que os indivíduos obedeçam e com
que o governante mantenha seu Estado.
 
Explicaremos adiante o sentido do uso adequado do poder para Maquiavel. Mas, antes, vamos nos ocupar, por
um instante, com a experiência do pensador na vida pública, que, como veremos, serviu de fundamento para
suas análises.
 
Nascido em Florença, na Itália, Maquiavel assumiu, em 1498, o cargo de segundo chanceler da República. Por
quatorze anos, esteve engajado nas atividades diplomáticas em nome da República italiana. O regime
republicano vigorava em Florença desde 1494, quando a família Medici foi sacada do poder.
Os membros da família Médici colocados alegoricamente na comitiva de um rei dos
Três Reis Magos na zona rural da Toscana, em um afresco de Benozzo Gozzoli
(Século XV).
Em 1512, no entanto, os Medici derrotaram as forças armadas republicanas com a ajuda das tropas papais e
dissolveram o governo. Maquiavel perdeu o emprego com a mudança de regime: foi exilado, torturado e,
finalmente, aposentado.
 
Fortuna distribui suas dádivas, Simon Floquet, 1645.
Em 1513, escreveu O príncipe, que foi publicado apenas postumamente, em 1532. A escrita dessa obra foi um
esforço de Maquiavel para retornar à política florentina, uma vez que muitos de seus colegas do período
republicano conseguiram restabelecer seus postos no regime dos Medici.
 
Somente em 1520, no entanto, Maquiavel conseguiu recuperar algum vínculo com o poder por meio do pedido
do cardeal Giulio Medici de que escrevesse uma história de Florença. Antes que pudesse alcançar uma
reabilitação plena no novo regime de governo, Maquiavel morreu, em 1527.
Maquiavel defendia que o fundamento da autoridade de um governante é a própria posse do poder,
isto é, a autoridade de um governante não está separada do poder de impor essa autoridade.
Em um sistema político bem ordenado, o poder se impõe por meio da legislação e do exército, mas Maquiavel
identificava uma prioridade do segundo sobre o primeiro. Em suas palavras, não podia haver boas leis sem
bons exércitos.
 
Considerando que a legitimidade das leis deriva da força coercitiva, a conclusão é que o afeto que um
governante deve preferencialmente estimular em seus súditos é o medo, não o amor. Se um súdito acredita
que não deveria obedecer a uma lei específica, aquilo que o forçaria a se submeter a essa lei seria o medo do
poder do Estado ou o exercício efetivo desse poder. O súdito só se veria em condições de não obedecer em
duas situações: se tivesse o poder de resistir ao Estado ou se estivesse disposto a aceitar as consequências
da força coercitiva do Estado.
 
Vemos que o poder político não está separado do exercício efetivo desse poder. Maquiavel chamou de virtù as
qualidades que um governante deve possuir para manter seu Estado. Não é muito adequado traduzir o termo
italiano virtù por virtude, pois não são a bondade e a ética que garantem seu poder. Um governante dotado de
virtù é, para Maquiavel, alguém que se caracteriza por uma “disposição flexível”, isto é, alguém que é capaz de
modificar sua conduta do bem para o mal e novamente para o bem, conforme as circunstâncias exigirem.
Maquiavel também utiliza o termo virtù para
descrever, em seu livro A arte da guerra, as
estratégias de um general que se adapta às
diferentes condições do campo de batalha. É
como se a política fosse um campo de batalhas
em outra escala. Assim como o general, o
governante deve se valer de técnicas e
estratégias adequadas para cada
circunstância. 
 
Um governante dotado de virtù saberá exercer
adequadamente o poder, ou seja, saberá
subjugar a fortuna – termo que designa, na obra
O príncipe, os eventos que podem ameaçar a
segurança do Estado.
Verificando o aprendizado
Questão 1
O período do Renascimento possui esse nome porque é geralmente considerado um momento
em que as fontes da tradição clássica greco-romana foram retomadas com novo vigor. Qual é
o elemento contextual que permite entender a renovação de olhar sobre essa tradição?
A
A descoberta de novos textos, que mudaram completamente o olhar sobre a Antiguidade.
B
O surgimento de grupos pagãos que procuravam restabelecer laços com o politeísmo da Antiguidade Greco-
romana.
C
O incentivo da Igreja Católica na tradução de textos de Filosofia clássica para expandir seu horizonte de
influência.
D
A tentativa de valorizar e construir um sentido de cultura europeia que apresentasse a continuidade dos
tempos da Antiguidade Greco-romana, passando pela Era Medieval até o Renascimento.
E
O contato com textos clássicos em um ambiente multicultural propiciado pelas cidades-Estados da região da
Itália.
A alternativa E está correta.
Trata-se do contato com os textos clássicos mediado por um ambiente multicultural que acabava por
diminuir a influência da cultura católica na recepção dos textos da Antiguidade e que permitia que um novo
olhar fosse construído com vistas a novos problemas.
Questão 2
É possível identificar a inovação do pensamento de Nicolau Maquiavel a respeito do exercício
do poder a partir do conceito de virtù. De acordo com Maquiavel, um governante dotado de 
virtù é aquele que:
A
É sempre capaz de agir segundo a bondade e a ética para manter seu poder político.
B
Quer ser amado pelos súditos em vez de temido.
C
Foi conduzido ao poder por meio de um arranjo suprapartidário que buscava pôr fim às guerras religiosas.
D
É dotado de uma disposição flexível para manter seu poder político.
E
É cético em relação à nossa experiência da realidade.
A alternativa D está correta.
Para Maquiavel, um governante dotado de virtù é alguém que se caracteriza por uma “disposição flexível”,
alguém capaz de modificar sua conduta para manter seu Estado.
Retrato de René Descartes, Frans Hals, século XVII.
2. Concepções do contrato social na Filosofia Moderna
Contexto histórico
A Era Moderna é geralmente caracterizada pela
primazia da razão e pelo desenvolvimento das
Ciências Naturais. Seu início remonta à
elaboração da Filosofia de René Descartes
(1596-1650) no início do século XVII – momento
em que a razão humana se consolidou como
principal ferramenta para compreender o
mundo: não foram os valores e as ideias dos
cristãos que articularam as filosofias que
predominaram nesse momento.
 
Trata-se de um período que se caracterizou por
confirmar o movimento de descolamento da
cultura católica que havia se iniciado no
Renascimento. Não significa, porém, que o
catolicismo e a cultura cristã em geral deixaram de ter um papel importante. 
 
Também não significa que os autores dessa época eram ateus ou não acreditavam em Deus. Pelo contrário: a
maior parte era católica ou protestante!
Ao longo do Renascimento, era a cultura da Antiguidade Clássica que permitia deslocar a centralidade para o
indivíduo. Na Era Moderna, por sua vez, foi a Revolução Científica, a partir de meados do século XVI, que teve
o papel de auxiliar nesse deslocamento.
 
Mas como ocorreu esse desenvolvimento?
Aconteceu, sobretudo, a partir das revoluções no campo da Astronomia, tendo como um de seus momentos
fundantes a descoberta feita por Copérnico, na metade do século XVI, de que não são o Sol e os astros que
giram em torno da Terra, mas sim a Terra e os demais planetas que giram em torno do Sol. A descoberta de
Copérnico foi revolucionária, porque se opunha ao sistema geocêntrico formulado por Claudio Ptolomeu no
século II – um sistema que já durava quase 1.500 anos.
 
Com as descobertas de Copérnico – e as elaboraçõesda Astronomia e das outras Ciências Naturais –, a Terra
não pôde mais ser compreendida como centro de nada, forçando, também, que houvesse uma reavaliação
sobre a própria posição do homem. Os efeitos desse deslocamento foram fundamentais para a valorização do
indivíduo, pois permitiram separar a finalidade do humano das finalidades pensadas a partir de um contexto
católico.
Copérnico
Nicolau Copérnico (1473-1543) Astrônomo polonês que formulou a teoria heliocêntrica, cujo princípio
afirmava que a Terra orbitava ao redor do Sol. Ele iniciou a Revolução Científica que acompanhou o
Renascimento europeu junto à sistematização da Física e a uma profunda mudança nas convicções
filosóficas e religiosas. Essa ruptura foi chamada de Revolução Copernicana, de tão longo alcance que
ultrapassou o reino da Astronomia e da Ciência para marcar a história das ideias e da cultura. Fonte:
Biografías y Vidas. Tradução nossa.
Os Burgueses de Calais, Benjamin West, 1789.
Astrônomo Copérnico, ou Conversa com Deus, Jan Matejko, século XIX.
Ainda que nessa nova visão do universo o homem não estivesse no centro de nada, parecia que estava cada
vez menos subordinado a algo fora dele. Os efeitos desses deslocamentos se fazem sentir ainda no presente,
sobretudo quando nos damos conta de que as ciências e a razão são elementos centrais de nossa vida.
 
Isso poderia nos fazer acreditar que ainda vivemos na Era Moderna (e, em certo sentido, vivemos), mas o que
nos impede de afirmar isso completamente é que a situação política já não é a mesma daquele momento. O
que vimos entre o início do século XVI e o final do século XVII foi um período em que ainda estavam se
formando os Estados Nacionais Modernos, tal como os conhecemos nos dias atuais.
 
Com o enfraquecimento dos nobres aristocratas, que eram detentores dos feudos, vimos uma centralização
do poder nas mãos de figuras monárquicas (que estavam enfraquecidas ao longo da era feudal) por meio da
criação de exércitos e da realização de inúmeras guerras para unificar e delimitar as fronteiras de seus
Estados, que, agora, eram pensados, também, como nações.
Além disso, vimos, a partir dessas unificações, o
desenvolvimento de economias nacionais, que passaram a
tornar a economia um campo cada vez mais central para a
política. É a partir dessa chave que podemos entender
como na Europa havia o patrocínio e o incentivo de Estados
fortes a políticas de colonização ao redor do globo.
A isso tudo se somava o surgimento de uma nova classe
social que também almejava maior participação política: a
burguesia. Tratava-se de uma parcela da população
envolvida no comércio e na produção de mercadorias. 
A nova classe social tinha recursos econômicos que cada vez mais se traduziam em força política,
mas, diferentemente das classes nobres, não possuía legitimidade para participar da política.
Revolução científica e modernidade
Vamos compreender o impacto causado pela chamada Revolução Científica, a partir do séc.
XVII na sociedade europeia, e especialmente seu impacto na visão de mundo e organização
política daquela sociedade.
Thomas Hobbes, John Michael Wright, 1670.
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É nesse contexto que uma série de questões de ordem política surge, exigindo que se pense tanto na
natureza dessa nova figura do campo político – os Estados-nações modernos – quanto na origem de sua
legitimação como instância de ação política.
 
Esse aspecto, que geralmente é designado como a questão do contrato social, será o fio central deste
módulo. 
 
Investigaremos, a seguir, três pensadores-chave desse momento que tocam nesses problemas: 
Thomas Hobbes (1588-1679), 
John Locke (1632-1704) e 
Baruch de Espinosa (1632-1677).
Thomas Hobbes
A Filosofia política de Thomas Hobbes foi
marcada por um esforço de elaboração de uma
estrutura estatal capaz de pôr fim às guerras
religiosas que se estenderam durante o século
XVI e a primeira metade do século XVII no
continente europeu.
 
O historiador alemão Koselleck (1999) afirma
que todos os teólogos, filósofos da moral e
juristas que antecederam Hobbes falharam nas
soluções que propunham para o impasse que a
Europa vivia, porque suas doutrinas apoiavam
os direitos de determinada parte e, assim,
incitavam ainda mais a guerra civil em vez de
elaborar um ordenamento que estivesse acima
das partes.
 
A teoria do contrato social é um método de análise do arranjo político que ocorre por meio do acordo entre
partes racionais, livres e iguais entre si.
Não é irrelevante que Hobbes (2015) suponha a igualdade entre as partes em meados do século XVII. Mas a
astúcia de seu sistema suprarreligioso e suprapartidário, apresentado no livro Leviatã (1651), é que seu
resultado – o Estado – está contido nas premissas da guerra civil. O motivo da guerra era, para Hobbes, o
desejo incessante pelo poder, ao qual só a morte põe fim. A causa da guerra civil era a invocação das
consciências sem um amparo externo, era a inexistência de um ordenamento que pudesse tomar os partidos
como elementos de uma unidade.
• 
• 
• 
Capa da obra Leviatã, de Thomas Hobbes. Gravura de
Abraham Bosse.
Para Hobbes, a paz só seria assegurada se, na formação do
Estado, essa moral se convertesse em dever de obediência.
Note que o problema hobbesiano envolve a passagem do
âmbito da convicção, a que Hobbes havia reduzido todos os
conteúdos religiosos, para o âmbito do Estado, em que as
convicções privadas são destituídas de sua repercussão
política. O próprio estado de natureza, que é o reino da
convicção, é definido pela ausência do Estado. 
À medida que os indivíduos transferem sua agência política
ao soberano, a consciência individual se transforma em
moral privada.
No arranjo hobbesiano, a racionalidade está associada à obediência das leis, independentemente de seu
conteúdo. Em outros termos, o arranjo racional, que seria capaz de pôr fim às guerras religiosas, exigia a
submissão total ao monarca. A obediência às leis soberanas só era possível se o súdito fosse capaz de
separar convicção e ação, moral e política.
Koselleck (1999) afirma que Hobbes divide o homem em duas partes: uma privada e outra pública.
Os atos são submetidos à lei do Estado, mas a convicção é livre. E é justamente à ampliação desse
foro interior da convicção que, como veremos, está associado o Iluminismo.
Embora Hobbes insista que o monarca deve possuir autoridade absoluta, os súditos possuem a liberdade de
desobedecer ou resistir quando suas vidas estão em perigo. Isto é, os súditos mantêm o direito à autodefesa
diante do poder soberano. 
 
A explicação é que se o monarca falha em prover proteção adequada a seus súditos, extingue-se, também, o
dever dos indivíduos de obedecer. Essa exceção mencionada por Hobbes mostra, por um lado, que
obediência e proteção são elementos inseparáveis na formação do Estado, e, por outro, que se os súditos
mantêm a capacidade de avaliar a adequação da proteção oferecida pelo monarca, o medo que caracteriza o
estado de natureza não é inteiramente eliminado.
John Locke
Ao delegar sua agência política ao soberano, os súditos ficam reduzidos à instância moral privada. Esse é o
único espaço no interior do contrato social em que o Estado não legisla, em que os indivíduos gozam de certa
autonomia. 
 
Como veremos, o Iluminismo se caracteriza justamente pela expansão desse foro interior privado (ao qual o
Estado havia limitado os súditos) para um domínio público.
 
John Locke fornece certa consistência a esse espaço da moral ao escrever, em seu Ensaio sobre o
entendimento humano, publicado em 1670, sobre os três tipos de leis que devem orientar a vida dos cidadãos:
Lei divina
Aquela que regulamenta o que é pecado e o que é dever, e da qual só se
pode ter conhecimento por meio da natureza ou da revelação.
Lei civil
Aquela que regula o crime e a inocência, elaborada pelo Estado para proteger
o cidadão.
Lei moral
Aquela que é a medida dos vícios e das virtudes.
Note que, diferentemente de Hobbes, Locke (2012) estabeleceuma separação entre a lei divina e a lei civil. Há
uma ruptura entre direito natural e direito político, que haviam sido reunidos por Hobbes na figura do
soberano. Mais do que isso, Locke cristaliza a divisão entre política e moral a partir do estabelecimento da lei
moral, ao lado da lei divina e da lei civil. Trata-se da lei dos filósofos ou, como também a chama, da lei da
opinião ou da reputação.
 
Locke associa a origem das leis morais ao foro interior da consciência humana, que estava excluído do
domínio do Estado. Como vimos, os súditos abdicam de sua agência política em favor do soberano, o que
significa que sua ação em relação aos demais cidadãos está limitada pelas leis civis, mas isso não impede que
mantenham a capacidade de formar uma opinião a respeito daqueles com quem convivem.
 
Koselleck (1999) afirma que os indivíduos não têm poder executivo, mas conservam o poder espiritual do juízo
moral, e suas opiniões sobre os vícios e as virtudes não se restringem a opiniões privadas. Os juízos morais
têm caráter de lei.
Retrato de Baruch Espinosa, artista desconhecido.
 
Enquanto as leis do Estado se impõem por meio da coerção, os cidadãos só se submetem às leis da moral civil
com base em um consentimento secreto e tácito. Entretanto, com Locke, a moral deixa de ser algo que se
restringe ao foro individual. O portador da moral não é o indivíduo, mas a sociedade. Os indivíduos formam
juntos uma sociedade que desenvolve suas próprias leis morais – leis que se situam ao lado das leis divinas e
do Estado.
Diferentemente de Hobbes, portanto, a moral entra, com Locke, no espaço público, e as opiniões
privadas dos cidadãos são elevadas à condição de lei por meio do elogio e da censura. Essa é a
razão pela qual Locke também chama a lei da opinião pública de lei da censura privada.
Koselleck (1999) explica que a ideia é que o espaço público emana do privado. É na certeza que o foro privado
tem de si que está sua capacidade de se tornar público, e é somente no espaço público que as opiniões
privadas se manifestam como lei.
 
Para Locke (2012), a moral não é a moral hobbesiana de obediência ao soberano, mas a fonte de uma
legislação que rivaliza com as leis do Estado. Enquanto a legislação do Estado se realiza diretamente pelo
poder político, a lei moral tem ação indireta por meio da opinião pública. Embora não detenha os meios
estatais de coerção, a lei da opinião se impõe a partir do elogio e da censura.
 
A eficiência da lei moral está em seu alcance: ninguém pode escapar ao juízo moral. Essa característica faz
dela um poder político que age de modo indireto, mas, quando considerada diretamente, permanece
politicamente invisível. É mero juízo.
 
É na possibilidade de conflito entre moral e política que se desdobra a história do pensamento iluminista.
Quando os dois âmbitos se opõem de maneira irreconciliável – como na véspera da Revolução Francesa ou
mesmo no arranjo do governo inglês, depois da Revolução Gloriosa, em que o poder político e a moral
burguesa estão oficialmente separados –, o juízo moral da sociedade deixa as leis do Estado para trás,
argumentam os iluministas. O progresso impõe-se.
Revolução Gloriosa
A Revolução Gloriosa, ocorrida em fins do séc. XVII, iniciou-se por questões religiosas (moral católica x
moral protestante), mas acabou tornando-se a precursora de um importante documento (Bill of Rights/
Declaração de Direitos, 1689), que limitou os poderes da monarquia, fortalecendo a burguesia.
Baruch de Espinosa
Entre os principais interlocutores de Hobbes na
modernidade, encontramos o filósofo holandês
Baruch de Espinosa. 
 
Herdeiro de René Descartes, sua Filosofia tem
como principal motor tentar fornecer uma ideia
de vida boa que seja construída a partir de uma
investigação racional do que é o ser humano,
sem qualquer apoio em valores externos, como
os religiosos, por exemplo.
 
Em sua obra Ética, Espinosa deteve-se, sobretudo, no caráter afetivo e racional dos seres humanos. Para ele,
a vida afetiva significa que os desejos dos seres humanos são sua essência (ESPINOSA, 2009). Isso quer dizer
que a singularidade de um indivíduo qualquer está atrelada não ao que ele quer de maneira abstrata, mas ao
que ele quer na medida em que se engajar nesse movimento.
E o que os indivíduos querem, em última instância, é perseverar em seu ser (o que Espinosa chama de conatus
dos seres), independentemente do que seja esse perseverar. Além disso, esse “perseverar” tem de lidar com
objetos no mundo que dificultam ou impedem a realização desse desejo.
É nesse ponto que Espinosa fornece sua teoria dos afetos. Para ele, os seres humanos são, ao
mesmo tempo, seres que procuram realizar seus desejos (suas finalidades), mas também são seres
inicialmente ignorantes das causas que os movem. Isso significa que os indivíduos conseguem
entender o que querem, mas não conseguem saber por que querem.
Essa estrutura não apenas aponta uma dificuldade de se situar no mundo, mas também deixa claro como os 
afetos (alegria, tristeza, esperança, medo etc.) são os modos que os homens têm para se orientar
inicialmente. Os afetos não nos ajudam a entender os objetos com que nos deparamos no mundo, mas apenas
seu efeito em nós – se contribuem com nosso desejo ou não. Esse seria o jeito mais simples de navegação no
mundo para os humanos, de acordo com o filósofo.
 
Mas isso não é tudo, pois, para Espinosa, a partir de certos encontros positivos com algo que faz bem a nós
mesmos, é possível desenvolver um pensamento racional sobre as coisas, isto é, experimentá-las para além
de seus efeitos em nós. Podemos compreender as coisas a partir de como elas combinam conosco. O
pensamento racional seria, portanto, não algo que se opõe aos afetos, mas algo que emerge e é elaborado a
partir das coisas que afetam positivamente o humano. Isso tem efeitos importantes para a Filosofia política de
Espinosa e em sua visão sobre a sociedade em geral.
 
Espinosa parte de pontos bem semelhantes aos de Hobbes para pensar no contrato social. Ele também pensa
que, sem qualquer intervenção externa, os seres humanos inevitavelmente entram em disputas intermináveis,
uma vez que cada um simplesmente buscaria realizar seus desejos. Também como Hobbes, ele acredita que
algum tipo de autoridade política externa é necessário para frear certos impulsos e produzir alguma
estabilidade política.
Comentário
Diferentemente de Hobbes, porém, Espinosa não considera que os governos autoritários apresentem
apenas uma forma absolutista. O autoritarismo em Espinosa significa, antes, uma estrutura que ocorre
em uma escala de outra ordem que a dos humanos – uma força de outra grandeza. Isso implica,
portanto, reposicionar a maneira como se enxerga o surgimento do Estado. 
Isso é compreensível se retomamos as ideias de Espinosa sobre o humano. Como vimos, o humano é
compreendido a partir de seus afetos e de sua razão. Por um lado, ele procura realizar seu desejo de
perseverar em si mesmo. Por outro, ele se depara com coisas capazes de auxiliá-lo ou configurar obstáculos.
 
É nesse ponto que vemos, respectivamente, a aproximação e o afastamento de Espinosa do pensamento
hobbesiano. Por um lado, sendo semelhantes, é inevitável que os seres humanos acabem disputando os
mesmos recursos, isto é, coisas que permitem que perseverem. Por outro lado, como são semelhantes, certos
encontros podem fazer com que percebam suas semelhanças e comecem a trabalhar em conjunto. Esse
trabalho em conjunto pode, inclusive, implicar a criação de estruturas entre os indivíduos que transferem o
Primeira edição do Tratado político-teológico, de
Espinosa, 1610.
poder de seus membros para o corpo social, que é o Estado. O Estado é, portanto, um corpo composto a
partir (mas não é redutível a) dos indivíduos que participam dele.
 
Isso significa que, para Espinosa, a organização de seres humanos entre si não é algo que emerge apenas a
partir de uma tentativa de afastar a disputa que há entre eles. A organização pode surgir, também, quando se
dão contados benefícios mútuos. Vemos, portanto, que, apesar de Espinosa ver o Estado como um ponto
importante para a estabilidade (e para dar fim a certo caos), essa solução não é completamente pessimista.
Além disso, essa transferência de poder dos
indivíduos para o Estado não é uma renúncia
absoluta. Para Espinosa, os seres individuais
são essencialmente seus desejos. Isso significa,
também, que eles são o que eles podem ser. 
 
O direito natural na Filosofia política espinosana
é que um indivíduo pode fazer aquilo que ele
tem capacidade de fazer. Assim, não haveria
nenhuma limitação moral inata que poderia ser
descoberta e utilizada para forçar a renúncia da
capacidade dos indivíduos. 
 
Mas isso tem algumas implicações que cabe
observar.
 
A primeira é que um indivíduo não tem como realmente renunciar a suas capacidades, pois são suas – é
justamente sua natureza. O que ele pode fazer é apenas aplicar sua força a uma série de estruturas
burocráticas que acabam constituindo o Estado – é esse o objeto de análise do Tratado político.
Um caso contemporâneo que pode ser lido na chave espinosana da “aplicação a uma estrutura burocrática” é
a participação política da população no processo político por meio das eleições – como se dirigíssemos nosso
desejo e nossa capacidade para esses momentos de participação política. Contudo, como se trata apenas de
um direcionamento das forças do indivíduo, ele também pode, caso a situação necessite, caso haja algum
abuso de poder, rebelar-se, deixar de fortalecer o Estado.
 
Assim, a Filosofia política de Espinosa resguarda um espaço para que os indivíduos se revoltem contra os
poderes constituídos em casos de abuso de poder ou de opressão interna. Apesar dessa possibilidade, a
rebelião, porém, não é um evento normal para Espinosa. Afinal, assim como o indivíduo limitaria sua
capacidade de agir em nome de uma estabilidade comunitária, o soberano tenderia a agir da mesma maneira,
reduzindo sua dominação sobre seus súditos, a fim de evitar revoltas – o que não significa que as renúncias
sejam simétricas.
Verificando o aprendizado
Questão 1
Segundo Thomas Hobbes, o soberano:
A
Legisla sobre todas as esferas da vida social, inclusive sobre a moral privada.
B
Pode ser desobedecido, caso o súdito julgue que sua vida está em perigo.
C
Deve ser dotado de virtù para exercer adequadamente o poder e subjugar a fortuna.
D
Encarna a separação entre lei divina e lei civil.
E
Impõe as leis do Estado por meio da opinião pública.
A alternativa B está correta.
Embora Hobbes insista que o monarca deve possuir autoridade absoluta, os súditos possuem a liberdade
de desobedecer ou resistir quando suas vidas estão em perigo.
Questão 2
A justificativa para a criação de uma autoridade estatal, na Filosofia política de Baruch de
Espinosa, é construída a partir da ideia de que, em condições naturais, os homens acabam
entrando em conflito. Sabemos também que, para Espinosa, as ideias sobre política estão
pautadas em sua concepção do indivíduo humano. 
 
Qual é a característica que gera essa condição de disputas entre homens e que só pode ser
superada a partir da submissão a uma autoridade externa?
A
O desejo de perseverar em si mesmo (conatus).
B
O componente racional dos humanos.
C
A incapacidade de compreender sua conjuntura política.
D
O fato de o homem ser dominado por afetos tristes.
E
O fato de o homem possuir em si uma maldade que lhe é inerente.
A alternativa A está correta.
O que faz com que surjam conflitos entre homens é o desejo de perseverar em si mesmo (conatus). Afinal,
na medida em que se esbarram no mundo, caso não haja uma força externa para conciliá-los, os desejos de
uns podem entrar no caminho dos desejos de outros. É, portanto, essa característica que torna a
autoridade externa uma condição necessária para a convivência pacífica.
3. Conceitos do pensamento iluminista
Contexto histórico
A Liberdade guiando o povo, Eugène Delacroix, 1830.
O Iluminismo está diretamente associado às transformações políticas dos séculos XVII e XVIII. Esse período foi
marcado por três grandes revoluções políticas que constituem a base das democracias modernas: 
 
a Revolução Inglesa (1688), 
a Revolução Americana (1775-1783) e 
a Revolução Francesa (1789-1799).
 
Os avanços científicos do início da modernidade servem de estímulo ao projeto iluminista de reestruturação
do mundo social e político de acordo com os modelos fornecidos pela razão. Os pensadores iluministas se
relacionam com a ordem existente por meio do exame minucioso da crítica. Além disso, a crítica é
suplementada com a elaboração de teorias de modelos de instituição.
 
É nesse período que se elabora, como vimos, o modelo básico de governo fundado no consentimento do
governado, bem como a articulação dos ideais políticos de liberdade e igualdade com a teoria de sua
realização institucional. 
 
Também se consolidam nessa fase uma lista de direitos humanos individuais básicos a serem respeitados por
um sistema político legítimo, a tolerância religiosa, os poderes políticos como um sistema de freios e
contrapesos, e tantas outras características com as quais identificamos as democracias modernas.
 
O grande impasse da Filosofia política iluminista é que não está claro como a razão pode substituir o objeto de
sua crítica por um novo tipo de autoridade. Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) é um dos pensadores que
encarnam essa dificuldade.
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Jean-Jacques Rousseau, Maurice Quentin de La Tour,
1764.
 
Um dos grandes legados do período é justamente a questão sobre os limites da razão. Um exemplo marcante
é a Revolução Francesa.
Que destino assumem os ideais de igualdade, liberdade e fraternidade tão logo as velhas
instituições criticadas pelos iluministas são tomadas?
Não se trata apenas de nos lembrarmos do recurso à violência e ao terror ainda no auge da revolução, mas da
forma como o Código Civil de Napoleão, de 1804, passou a figurar para Hegel (1770-1831), por exemplo, como
o destino para o qual a história convergia.
Jean-Jacques Rousseau
Com Rousseau, notamos que o campo da moral
já havia crescido de tal modo que seria preciso
que a oposição entre moral e política fosse
transferida para o próprio campo da política. 
 
Em outras palavras, ao diagnóstico iluminista do
progresso infinito parecia cada vez mais se
impor uma decisão política, considerando o
crescente desacordo entre os juízos morais e a
estrutura do Estado.
 
O entendimento de Rousseau é que os Estados
não se extinguem de forma apolítica, pela
simples crença na Filosofia da história e no
poder da crítica. Outros pensadores antes de
Rousseau também profetizavam a iminência de uma revolução, mas o aspecto político da revolução – a guerra
civil – sempre ficava encoberto.
 
O caráter político da revolução estava reduzido, até então, à crítica ao despotismo.
Rousseau não se unia ao coro de que a derrubada da ordem estabelecida correspondia ao simples progresso
moral. Em lugar da vitória dos interesses sociais, o que a revolução traria seria insegurança, incerteza e crise.
Mas o que significava, para Rousseau, a constituição
de um Estado legítimo, em que a nova sociedade
ocupasse o poder político sem perder sua liberdade?
Em O contrato social, publicado em 1762, ele argumenta que só pode haver uma reconciliação entre
autoridade e liberdade, com a submissão de todos a cada um e de cada um a todos. O arranjo em que
todos obedecem e são livres ao mesmo tempo é o que seria, no entendimento de Rousseau, a
unidade entre moral e política.
Para Rousseau, a sociedade possui uma vontade una e incondicional, e, mesmo que o soberano seja
destronado, a chamada vontade geral se mantém. Essa vontade não é a soma de vontades individuais, mas a
emanação de uma totalidade. O impasse a que chega Rousseau é que uma nação tem uma vontade geral que
faz dela uma nação, mas essa vontade não se realiza de maneira direta, não há um executor.
 
Napoleão cruzando os Alpes, Jacques-Louis David,
1801.
A conclusão é que cabejustamente ao Estado criar, de modo permanente, essa identidade complexa entre a
sociedade civil e a decisão soberana. O cidadão só é livre quando participa da vontade geral, mas, como o
homem, não tem como saber quando sua vontade coincide com a vontade geral. De fato, a vontade geral
opera uma correção permanente dos indivíduos que ainda não foram integrados a ela.
A ditadura da soberania se distingue do absolutismo, pois
deve abarcar, inclusive, o foro privado que Hobbes havia
excluído do domínio do Estado. 
No arranjo estatal de Rousseau, o líder não é aquele que
incorpora unicamente o poder político, como em Hobbes,
mas alguém mais esclarecido a respeito da vontade geral
do que o restante dos indivíduos. Sua tarefa é estabelecer a
identidade complexa entre moral e política. 
Para isso, é preciso guiar não só as ações dos indivíduos,
mas também suas convicções – diferenciando-se, portanto,
do soberano hobbesiano, que não se ocupava de legislar
sobre o foro íntimo dos súditos.
Koselleck (1999) argumenta que Rousseau estatizou a censura moral, isto é, o líder deve legislar sobre a
opinião pública permanentemente para estabelecer a unidade entre convicção e ação. Sua tarefa mais
importante é substituir a autoridade pelo poder da opinião pública.
A moral do cidadão e a política do Estado não são coincidentes. Por isso, cabe ao líder manter essa
identidade complexa a partir de meios como o terror e a ideologia. É como se, em Rousseau, a crítica
progressista fosse transferida para o âmbito político.
Nas palavras de Koselleck (1999), é como se a ideia de progresso moral cobrasse suas notas promissórias por
meio da ditadura da soberania. O estado de crise que Rousseau descreve é como se fosse o cumprimento da
crítica dos iluministas ao absolutismo, a execução de seus juízos. É, como dizíamos, uma forma de trazer a
oposição entre moral e política para o campo da política.
Immanuel Kant
Immanuel Kant (1724-1804) é possivelmente um dos filósofos mais influentes de toda a modernidade. Suas
contribuições no campo da Filosofia incluem a teoria do conhecimento, a estética e as questões éticas e
políticas. 
 
A partir de sua obra Crítica da razão pura, vemos a elaboração de uma ideia que procura traçar os limites da
razão ao diferenciar o pensamento do conhecimento.
Conhecimento 
O conhecimento é concebido por Kant (2015)
como uma experiência das coisas fora de nós,
mediada por conceitos do sujeito que conhece
Pensamento
O pensamento, por sua vez, seria o uso da
razão para elaborar ideias e princípios sem
qualquer referência à experiência. Isso não
significa, porém, que a razão não tem sentido
ou que é irrelevante.
O Triunfo da Liberdade, Jacques Réattu, 1794.
O que Kant procura fazer é apenas delimitar seu campo de atuação. Ela não pode, por conta própria, mostrar-
nos como o mundo é, mas apenas nos fornecer ideias consistentes capazes de regular nossas ações, sem que
essas ideias possam ser determinadas como reais ou não.
 
Isso teve um papel importantíssimo em sua ética e em sua política, pois, ainda que não se pudesse averiguar a
realidade de certas questões filosóficas por não serem objeto da experiência, elas ainda podiam ser
pensadas: era o caso da liberdade dos homens.
 
A ética kantiana pode ser reduzida a três ideias fundamentais:
 
Todo homem é livre, mesmo quando parece ser coagido.
Por ser livre, agir eticamente implica assumir sua liberdade na escolha de suas ações.
Visto que os homens são todos livres, nenhum homem deve ser um meio para um fim.
 
Isso significa que, como não haveria nenhuma contradição nesse conceito, o homem poderia ser pensado
como livre, ainda que essa ideia jamais pudesse ser comprovada de fato. Disso resulta que, se essa ideia
fosse preservada como certo princípio regulador de nossas vidas (ainda que não fosse passível de
comprovação), uma situação de coação significaria que haveria certa escolha na submissão.
 
Nesses casos, para Kant, o homem estaria livremente escolhendo delegar o poder de decisão e controle para
outras pessoas ou até para outros valores. Assim, as ações dos homens seriam meios para fins, isto é, o
homem estaria agindo sempre de acordo com um outro.
Com isso em mente, podemos entender o que é a ação ética para Kant. Trata-se de realizar uma
ação como um fim em si mesmo, como uma ação que é assumida (independentemente de seu
conteúdo) como decisão do sujeito que age e que se assume como sujeito livre.
Essa demanda pela ação responsável foi descrita por Kant como imperativo categórico: uma espécie de
princípio que não tem nenhum conteúdo específico, mas que nos urge a agir de forma que assumamos a
autoria de nossas ações. A consequência disso no âmbito social é que, como os seres humanos são livres,
nenhum pode ser tratado como meio para fim, ou seja, nenhum ser humano pode ser usado, pois isso seria
uma afronta à sua liberdade.
Nesse sentido, também podemos entender a
posição de Kant sobre a organização do
Estado.
 
Em seu nível interno, seu objetivo deve ser
garantir e preservar a liberdade de seus
cidadãos. Na prática, significa que o Estado
deve lutar para preservar a liberdade de que os
indivíduos procurem sua felicidade como bem
entenderem, assim como a liberdade religiosa e
a liberdade de expressão – sobretudo
considerando que seria a liberdade para se
exercer a razão publicamente.
Externamente, os Estados devem procurar
reproduzir no cenário internacional as relações
éticas que os cidadãos teriam entre si. Isso significa que, no campo internacional, nenhum Estado poderia se
1. 
2. 
3. 
Retrato de Georg W. F. Hegel, Jakob Schlesinger, 1831.
utilizar de outro Estado para seus próprios ganhos. Essa situação, uma vez alcançada, configura o que Kant
chama de paz perpétua.
 
Mas não há, por parte do filósofo, uma crença de que isso ocorra de maneira absolutamente espontânea. Kant
enxerga essa possibilidade como uma ideia que deve regular as ações do Estado, mesmo que se viva em
períodos de disputas turbulentas. Para ele, as guerras devem ser compreendidas não como entraves para a
paz, mas como sinais de desequilíbrios entre os países, que, uma vez resolvidos, reconfiguram as relações
internacionais de modo mais balanceado.
 
A paz perpétua, para Kant, funciona, portanto, como algo que vai se tornando cada vez mais real, na medida
em que os Estados ficam cada vez mais balanceados entre si, mesmo que o caminho para isso seja feito –
paradoxalmente – por meio da guerra.
Georg Wilhelm Friedrich Hegel
O pensamento de Hegel, concebido e
formulado enquanto a Revolução Francesa se
transformava no Império Napoleônico, tem
como principal mérito trazer para a Filosofia, de
maneira inédita, a questão da História. Mas isso
não significa dizer apenas que Hegel elogiava a
História ou valorizava esse campo de saber.
 
Vamos entender o que isso significa com base
em duas aproximações dessa inserção da
História na Filosofia a partir da Filosofia política
de Hegel: 
 
o fato de a Filosofia hegeliana ser aquela
que lida com os problemas de seu tempo e
aquela que lida com as consequências de o movimento histórico ser a condição da verdade das coisas.
Em primeiro lugar, inserir a História na Filosofia não é nada mais que tomar a Filosofia como a apreensão de
seu próprio tempo pelo pensamento (HEGEL, 2006). Se a Filosofia de Hegel foi gestada quando a Revolução
Francesa se desdobrou e se deparou com suas tensões e seus limites, seu pensamento também se viu diante
dessas questões. 
 
Observamos isso em sua Filosofia política, em que a distinção entre sociedade civil e Estado aparece como
fundamental devido aos desdobramentos da Revolução Francesa, sobretudo se considerarmos que ela foi
motivada por uma incapacidade do Estado de dar conta das demandas dos cidadãos.
 
• 
• 
Para explicar essa disjunção, podemos nos apoiar na
conceituação que Hegel fez da sociedade civil em
oposição ao Estado.
Sociedade civil
Campo que emerge a partir das relações de indivíduos em determinado ambiente. Isso não se resume
ao fato deque esses indivíduos convivem, mas envolve a consideração de que a satisfação dos
desejos de um indivíduo está conectada à satisfação do desejo de outros indivíduos. Afinal, para que
esses desejos sejam satisfeitos, é preciso que uma série de relações de trocas recíprocas (de
comércio, trabalho, proteção etc.) ocorra, mesmo que ela não seja visível para os indivíduos em
questão. 
Nesse sentido, a sociedade civil é o conjunto de relações entre indivíduos e famílias que compõem
determinada comunidade.
Estado
Concretização formal dos laços e valores sociais por meio de leis, estruturas burocráticas estatais e
instâncias de poder regulamentadas – uma concretização que não necessariamente se articula com a
sociedade civil.
Como vimos, há também outro sentido em que a questão da História se torna central no pensamento
hegeliano. Para Hegel, é apenas por meio do que chama de dialética que se pode observar a verdade das
coisas.
 
Por exemplo, a verdade de uma flor não estaria apenas em sua fase final, em seu “estado florescido”, mas no
fato de que ela, antes de desabrochar, foi um botão, embora este tenha sido negado pela própria flor. Nos
termos de Hegel, diz-se, portanto, que a verdade da flor conserva negativamente (como algo que foi negado e
superado) o botão.
 
Vemos isso, porém, também no campo político, quando pensamos na Filosofia da história de Hegel. No que diz
respeito às ideias do Iluminismo, como liberdade, igualdade e fraternidade, ainda que servissem como
imagens desejáveis da política, não se pode deixar de notar a distância entre elas e a sociedade tal como
existia naquele momento. Essa distância, para Hegel, não é simplesmente um problema, mas é o que acaba
sendo o motor para que as condições atuais da sociedade sejam transformadas em nome das ideias a que se
aspira.
 
Nesse sentido, vemos como os próprios acontecimentos históricos em Hegel são encarados a partir da
dialética, de modo que procuram realizar as transformações que adéquam o mundo social a suas aspirações.
Dialética 
Desenvolvimento das coisas no tempo por meio de uma série de negações sucessivas.
Utilitarismo
Retrato de Jeremy Bentham, Henry William Pickersgill,
1875.
Retrato de John Stuart Mill.
O progresso do conhecimento científico, com a criação da Royal Society na segunda metade do século XVII,
influenciou Jeremy Bentham (1748-1832) a trazer os princípios básicos do experimentalismo e do empirismo
para as Ciências Morais.
 
Bentham (1974) argumentava que as Ciências Morais deveriam ser pensadas em analogia com as Ciências
Naturais, ou seja, aquilo que um físico é para um corpo natural o legislador deveria ser para o corpo político. A
legislação seria a Medicina exercida em larga escala.
Royal Society
Academia Nacional de Ciências do Reino Unido: associação dos cientistas mais importantes do mundo. 
Bentham acreditava que toda matéria é quantificável em
termos matemáticos, inclusive as dores e os prazeres, que
seriam, segundo seu entendimento, o fundamento a que
toda atividade humana pode ser reduzida. As dores e os
prazeres são, assim, uma espécie de base material do
utilitarismo.
Embora as entidades fictícias sejam necessárias para o
discurso humano, seu sentido só se torna manifesto, para
Bentham, por meio de sua conexão com essas entidades
reais. 
Direitos e deveres, por exemplo, só se tornam conceitos
plenos de sentido a partir das dores e dos prazeres que significam para os indivíduos.
As proposições teológicas, por sua vez, não lidam com fatos da experiência comum, mas com uma realidade
que transcende o mundo físico, de modo que, assim como a opinião não tem lugar no discurso das Ciências
Naturais, as verdades teológicas não têm lugar nas Ciências Morais.
 
Além disso, Bentham argumenta que princípios como o senso comum e a justiça natural são vazios e não
expressam mais do que o sentimento das pessoas que os enunciam. O princípio da utilidade, ao contrário,
estaria fundamentado em fatos verificáveis na experiência, que são as dores e os prazeres. O princípio da
utilidade toma, portanto, as dores e os prazeres como causa última da ação humana e como causa eficiente
da felicidade.
Outro teórico do utilitarismo, John Stuart Mill
(1806-1873) argumenta que, assim como há um
fundamento para o raciocínio teórico – o
princípio da indução enumerativa –, há,
também, um fundamento para a razão prática
(MILL, 2020).
 
O raciocínio teórico envolve o desvelamento de
uma razão para acreditar, e a razão prática, de
uma razão para agir. 
 
Nas palavras de Mill (2020), não há apenas
princípios fundamentais do conhecimento, mas
também princípios fundamentais da conduta. E
é na utilidade que Mill encontra esse princípio. 
 
Para ele, a felicidade é o único fim da ação humana, e sua busca é o teste pelo qual se pode avaliar qualquer
conduta.
Mill (2020) julga apresentar uma prova do princípio da utilidade ao caracterizar a felicidade da forma a seguir.
 
A felicidade é desejável.
Nada além da felicidade é desejável.
A felicidade de todos é igualmente desejável.
 
Não se trata de uma prova no sentido tradicional, ou seja, de uma dedução lógica do princípio de utilidade. Em
sentido estrito, os fins últimos não são passíveis de uma prova direta. O que Mill procura mostrar, no entanto,
é que o princípio da utilidade – isto é, a doutrina de que todas as coisas são boas ou ruins em razão da dor ou
do prazer que produzem – possui fundamentos racionais.
Iluminismo e política
Agora, a doutora Raquel Azevedo esclarece a importância do Iluminismo para a mudança na concepção
acerca da política, e como isso influenciou toda a idade contemporânea.
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Verificando o aprendizado
Questão 1
Os pensadores iluministas se relacionam com a ordem existente por meio do exame minucioso
da crítica. As formulações de Jean-Jacques Rousseau encarnam o impasse desse
procedimento, pois:
A
A oposição crescente entre moral e política exigia que o conflito fosse transferido para o próprio campo da
política.
B
O filósofo defendia que a Filosofia política deveria se limitar à crítica ao despotismo.
C
O filósofo julgava que o governante não deveria legislar sobre o foro privado dos cidadãos.
D
O absolutismo se extinguiria de forma apolítica.
E
• 
• 
• 
A atuação do governante sobre a opinião pública não é um meio adequado para estabelecer uma identidade
entre convicção e ação.
A alternativa A está correta.
Com Rousseau, o campo da moral já havia crescido de tal forma que seria preciso que a oposição entre
moral e política fosse transferida para o próprio campo da política. Em outras palavras, ao diagnóstico
iluminista do progresso infinito parecia cada vez mais se impor uma decisão política, considerando o
crescente desacordo entre os juízos morais e a estrutura do Estado.
Questão 2
Segundo Immanuel Kant, os princípios éticos não devem apenas reger as relações entre
indivíduos, mas também ser espelhados nas relações entre diferentes Estados-nações. Entre
pessoas, isso significaria que ninguém pode se utilizar do outro como meio para um fim, ou
seja, como caminho para atingir seus objetivos. 
 
Essa relação ética espelhada no âmbito internacional implicaria que tipo de relação ideal entre
países?
A
Guerra de todos contra todos.
B
Paz perpétua entre os Estados-nações.
C
Alianças entre países com afinidades históricas e culturais.
D
Formação de blocos com laços geográficos.
E
Relações econômicas livres, mas suspeitas militares.
A alternativa B está correta.
Apenas a paz perpétua pode ser tomada como ideal de relação internacional, pois é a única situação em
que nenhum Estado-nação procuraria se sobrepor aos outros e explorá-los para seus benefícios,
independentemente dos interesses do país explorado.
4. Conclusão
Considerações finais
Revisitamos os principais conceitos construídos ao longo da modernidade a partir dos inúmeros eventos que
compõem esse período. A partir do Renascimento, é possível identificar uma série deformas e valores
políticos que ainda tem relevância na organização sociopolítica atual.
 
Vimos, sobretudo, como o surgimento da noção de indivíduo e o descolamento das questões políticas do
âmbito teológico estão atrelados à emergência das cidades-Estados. Com a emergência dos Estados
Nacionais, coloca-se, também, o problema da legitimidade política a partir do contrato social.
 
Por fim, vimos como o pensamento iluminista, diante da democratização crescente da política (de maior
participação popular), acabou tendo de repensar o que se entendia por liberdade, sociedade civil e até a
finalidade dos governos. Foi possível investigar a formação histórica de ideias tão importantes como
individualidade, soberania e liberdade política. Isso significa investigar não apenas a história do conceito, mas
a relação do conceito com o contexto em que surgiu.
Podcast
Agora, o especialista Rafael Mófreita Saldanha conversa com a professora Raquel Azevedo e aprofunda
o conceito de política na obra de Maquiavel e dos demais pensadores da Idade Moderna, apresentando
sua influência na teoria política contemporânea.
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Explore+
Se quiser ampliar o seu conhecimento sobre este tema, sugerimos o acesso ao site Artepensamento,
em que é possível encontrar uma série de textos acessíveis e introdutórios, mas que abdicam de uma
reflexão aprofundada.
Referências
BENTHAM, J. Uma introdução aos princípios da moral e da legislação. São Paulo: Abril Cultural, 1974.
 
ESPINOSA, B. Ética. Belo Horizonte: Autêntica, 2009.
 
HEGEL, G. Introdução à história da filosofia. Porto: Edições 70, 2006.
 
HOBBES, T. Leviatã. São Paulo: Edipro, 2015.
 
KANT, I. Crítica da razão pura. Petrópolis: Vozes, 2015.
• 
 
KOSELLECK, R. Crítica e crise: uma contribuição à patogênese do mundo burguês. Tradução de Luciana Villas-
Boas Castelo-Branco. Rio de Janeiro: Contraponto, 1999.
 
LA BOÉTIE, E. Discurso sobre a servidão voluntária. São Paulo: Edipro, 2020.
 
LE GOFF, J. A bolsa e a vida: a usura na Idade Média. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 2004.
 
LOCKE, J. Ensaio sobe o entendimento humano. São Paulo: Martins Fontes, 2012.
 
MAQUIAVEL, N. O príncipe. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
 
MILL, S. O utilitarismo. São Paulo: Iluminuras, 2020.
 
MONTAIGNE, M. Os ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
 
ROUSSEAU, J. O contrato social. São Paulo: Lafonte, 2020.
	História da Filosofia Moderna
	1. Itens iniciais
	Propósito
	Preparação
	Objetivos
	Introdução
	1. Contexto do Renascimento e filosofia humanista
	Contexto histórico
	O declínio do feudalismo e o fortalecimento das cidades-Estados
	As trocas culturais estimuladas pelas trocas comerciais na região mediterrânea
	O novo olhar sobre a Antiguidade greco-romana
	Saiba mais
	Renascimento e modernidade
	Agora, vamos aprofundar como o período do Renascimento representa a transição da Idade Média para modernidade, destacando principais equívocos acerca desses períodos.
	Conteúdo interativo
	Michel de Montaigne
	Étienne de La Boétie
	Mas por que o povo abdicaria de sua liberdade?
	Nicolau Maquiavel
	Verificando o aprendizado
	O período do Renascimento possui esse nome porque é geralmente considerado um momento em que as fontes da tradição clássica greco-romana foram retomadas com novo vigor. Qual é o elemento contextual que permite entender a renovação de olhar sobre essa tradição?
	É possível identificar a inovação do pensamento de Nicolau Maquiavel a respeito do exercício do poder a partir do conceito de virtù. De acordo com Maquiavel, um governante dotado de virtù é aquele que:
	2. Concepções do contrato social na Filosofia Moderna
	Contexto histórico
	Revolução científica e modernidade
	Vamos compreender o impacto causado pela chamada Revolução Científica, a partir do séc. XVII na sociedade europeia, e especialmente seu impacto na visão de mundo e organização política daquela sociedade.
	Conteúdo interativo
	Thomas Hobbes
	John Locke
	Lei divina
	Lei civil
	Lei moral
	Baruch de Espinosa
	Comentário
	Verificando o aprendizado
	Segundo Thomas Hobbes, o soberano:
	A justificativa para a criação de uma autoridade estatal, na Filosofia política de Baruch de Espinosa, é construída a partir da ideia de que, em condições naturais, os homens acabam entrando em conflito. Sabemos também que, para Espinosa, as ideias sobre política estão pautadas em sua concepção do indivíduo humano.
	Qual é a característica que gera essa condição de disputas entre homens e que só pode ser superada a partir da submissão a uma autoridade externa?
	3. Conceitos do pensamento iluminista
	Contexto histórico
	Jean-Jacques Rousseau
	Mas o que significava, para Rousseau, a constituição de um Estado legítimo, em que a nova sociedade ocupasse o poder político sem perder sua liberdade?
	Immanuel Kant
	Conhecimento
	Pensamento
	Georg Wilhelm Friedrich Hegel
	Para explicar essa disjunção, podemos nos apoiar na conceituação que Hegel fez da sociedade civil em oposição ao Estado.
	Sociedade civil
	Estado
	Utilitarismo
	Iluminismo e política
	Conteúdo interativo
	Verificando o aprendizado
	Os pensadores iluministas se relacionam com a ordem existente por meio do exame minucioso da crítica. As formulações de Jean-Jacques Rousseau encarnam o impasse desse procedimento, pois:
	Segundo Immanuel Kant, os princípios éticos não devem apenas reger as relações entre indivíduos, mas também ser espelhados nas relações entre diferentes Estados-nações. Entre pessoas, isso significaria que ninguém pode se utilizar do outro como meio para um fim, ou seja, como caminho para atingir seus objetivos.
	Essa relação ética espelhada no âmbito internacional implicaria que tipo de relação ideal entre países?
	4. Conclusão
	Considerações finais
	Podcast
	Conteúdo interativo
	Explore+
	Referências

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