Prévia do material em texto
UNIVERSIDADE DA AMAZÔNIA Aspectos da Economia Política Brasileira Economia (Direito)A Economia Política Brasileira No momento em que pensarmos sobre os primeiros conceitos referentes ao pensamento econômico brasileiro de maneira mais estruturada, certamente iremos pensar, de imediato, na publicação do livro Formação econômica do Brasil, em 1959, pelo economista Celso Furtado. Essa obra representou a síntese expressiva das avaliações parciais da economia brasileira realizadas até então, e serviu de base para compreender a dinâmica do sistema econômico. Sem dúvidas, a partir da visão de Celso Furtado, outros estudiosos, como Maria da Conceição Tavares e Caio Prado Junior, conseguiram fundar a economia política brasileira. Contextualizando, é preciso entender que o pensamento econômico no período entre os anos 1950 e 1960 estava pautado em uma discussão política. A discussão política confrontava um modelo tradicional agroexportador em declínio e plenamente defensor do liberalismo econômico com o surgimento de novos segmentos sociais ligados ao processo de acumulação de indústrias, que seguia uma corrente mais desenvolvimentista e com intervenção estatal para implantar a industrialização no Brasil. De fato, essas foram as duas principais correntes ideológicas debatidas pelos intelectuais brasileiros ao longo dos anos 1950. Segundo Mantega (1987, p. 12), o desenvolvimentismo intervencionista e o liberalismo econômico já se confrontavam desde os anos 1940, quando Roberto Simonsen, líder empresarial desenvolvimentista, confrontava suas ideias com Eugênio Gudin, professor defensor do monetarismo neoclássico fruto do liberalismo. É bom deixar claro que, sob o olhar teórico, o liberalismo era visto como um modelo engessado e pautado em práticas que não respondiam mais às questões econômicas daquele momento. Já o desenvolvimentismo, por meio da CEPAL, representava a inovação da economia por meio da industrialização e do planejamento. Qual a importância da CEPAL? Essa comissão contribuiu na formulação teórica do desenvolvimentismo e, principalmente, na elaboração de diversos planos governamentais executados na segunda metade dos anos 1950. Outro aspecto importante é o fato de que o ideário desenvolvimentista foi amplamente defendido pelos grupos políticos de esquerda, como o Partido Comunista Brasileiro. Porém vale ressaltar que a liderança desse movimento ficou com um grupo de intelectuais de centro esquerda, mais tarde transformado pelo governo Kubitschek (1956 – 1960) no Instituto Superior de Estudos Brasileiros, com a função dar suporte aos programas do governo. Mesmo diante de um governo considerado liberal e financiado por capital estrangeiro, como foi o de Juscelino Kubitschek, esse Instituto agregou um número significativo de intelectuais progressistas, criando um cenário adequado para o surgimento dos primeiros conceitos do modelo Nacional Desenvolvimentista. É nesse contexto que Celso Furtado e Ignácio Rangel conseguem se destacar, pois o primeiro defendeu a teoria do processo de substituição de importações, enquanto o segundo buscava compreender a estrutura oligopolista da economia brasileira, mesmo convergindo para diagnósticos semelhantes em relação às estratégias de desenvolvimento. Uma outra corrente ideológica dividiu espaço com o pensamento desenvolvimentista no seio do movimento político de esquerda: a abordagem marxista. Importante frisar que essas ideias tinham como base a revolução democrático-burguesa russa, formulada em 1905, e procuravam analisar o perfil semifeudal exportador da economia brasileira, que impedia a expansão da industrialização. Nesse cenário, nós vamos observar a similaridade entre o modelo democrático burguês em relação ao modelo de substituição das importações, diferenciando-se apenas naquilo que se refere às questões políticas. Importante mencionar que essas correntes ideológicas não geraram, por meio das políticas desenvolvimentistas aplicadas, os resultados sociais mais profundos em meados dos anos 1960. Diante disso, houve uma série de críticas proferidas pelos partidos que haviam se aliado a esse ideário. Para se ter uma ideia, dentro do PCB houve uma onda de descontentamento, levando à execução de ações no sentido de se conciliar com a burguesia, patrulhar um caminho ao socialismo ou, até mesmo, analisar mais genericamente os aspectos da economia brasileira a partir de uma tese feudal, o que gerou a criação de outros partidos políticos de esquerda. Um dos principais críticos da revolução democrática burguesa foi Caio Prado Junior que, por meio de sua obra A revolução brasileira, contestou a ideia de que o Brasil se encontrava em uma economia feudal pré-capitalista como demonstrava o PCB. Segundo Mantega (1987, p. 14-15), Caio Prado indicava um Brasil que praticava uma agricultura capitalista e proveniente dos interesses comerciais europeus, o que nos relegava à condição de fornecedora de produtos primários. Isso indica que o Brasil, mesmo em um estágio semicolonial, já era de fato um País capitalista. Bem, a ideia reformista do PCB passou a ser descartada pela sociedade brasileira, trazendo o entendimento de que o cenário em que o Brasil se apresentava era consequência da expansão do capitalismo mundial. Em outras palavras, podemos afirmar que o Brasil se encontrava em um modelo de subdesenvolvimento capitalista, em que um determinado País explora o excedente produzido pelo outro. Importante lembrar que esse modelo era proveniente de uma cadeia de ações que envolvia desde um subimperialismo brasileiro, até uma superexploração da força de trabalho. Mantega (1987, p. 15) evidencia que há uma semelhança importante entre o modelo de subdesenvolvimento capitalista e as concepções revolucionárias de Trotski, referentes às questões que tratavam do desenvolvimento desigual nos países emergentes em relação aos países mais avançados, o que os condicionavam a se manterem no subdesenvolvimento e submissão ao imperialismo. A partir disso, é natural entender que os países como o Brasil, que trazem estas características, irão apresentar, normalmente, duas perspectivas políticas: aderir ao fascismo ou ao socialismo para manter o controle da situação. Em meio a esse conceito, que foi introduzido no Brasil a partir da segunda metade dos anos 1960, surgiu uma nova linha de pensamento em contraposição ao modelo de subdesenvolvimento capitalista: a Teoria da Dependência. A partir das ideias de um conjunto de intelectuais, como Paul Singer e Maria da Conceição Tavares, essa corrente ideológica visava a criação de um novo ciclo de acumulação de capital que fosse expansivo, o que promoveria um salto de qualidade no pensamento econômico brasileiro. Importante frisar que essas ideias já eram debatidas antes mesmo da concretização do chamado milagre econômico, ocorrido no início dos anos de 1970. Em meio a essa tese, surgiu uma corrente de pensamento contrário às propostas desenvolvimentistas adotadas até aquele momento. Tratava-se do Modelo Brasileiro de Desenvolvimento (instituído após o golpe de 1964, mas que vigora de certa maneira até os dias atuais), que consistia na adaptação das teorias neoclássicas à grande necessidade de intervenção estatal, considerando que a economia brasileira se encontrava em um estágio de acumulação incipiente. Nesse contexto, a presença dos intelectuais Roberto Campos e Mario Henrique Simonsen foi fundamental para desmistificar a ideia de estatização, assegurando as condições essenciais para a acumulação monopolista em uma escala maior. Diante de todas essas conceituações críticas ao desenvolvimentismo, a quem podemos responsabilizar o seu insucesso prático? Mantega (1987, p. 17) demonstrou que Celso Furtado e Ignácio Rangel responsabilizavam o perfil monopolista e concentrador da industrialização brasileira, contrastando com a disponibilidade de recursos locais como um dos fatores que impactaram negativamente no projeto desenvolvimentista brasileiro. O PCB culpou a estrutura agrária semifeudal no Brasil, enquanto Caio Prado Júnior indicava como culpadaa condição semicolonial atrelada a uma exploração imperialista dos países dominadores. Portanto, ao longo deste trabalho iremos observar a consolidação do pensamento econômico instituído por meio desses modelos de análise, evidenciando as suas origens teóricas e proposições essenciais. Antecedentes do desenvolvimento e o pensamento da CEPAL A manutenção do capitalismo naquele período dependia de uma renovação em sua economia política e, para isso, era necessário introduzir novas ferramentas de intervenção para solucionar as suas contradições. O ideário marxista acabou sendo descartado. Segundo Mantega (1987, p. 25), a nova economia política formulada deveria levar em consideração que a concorrência capitalista era imperfeita, reiterando o que defendiam alguns intelectuais como Piero Sraffa, e deveria conter ciclos econômicos capazes de neutralizar os efeitos danosos em momentos de retração das atividades, assim como frisavam os pensadores Michael Kaleki e John Keynes. A visão keynesiana indicava que as forças de mercado eram insuficientes para alocar os recursos de maneira eficiente. Dessa forma, cabia ao Estado intervir, de maneira mais assertiva e direta, na produção, ao elevar os níveis de investimento e gastos da sociedade, dentre outros aspectos. As teorias que defendiam o intervencionismo deram origem a um confronto de duas correntes ideológicas importantes: o intervencionismo e o liberalismo. No Brasil, podemos verificar que esse confronto ocorreu a partir dos anos 1930 e se consolidou nos anos 1940, sendo representado por Roberto Simonsen (defensor do intervencionismo) e Eugênio Gudin (representante do pensamento liberal). É preciso ter em mente que havia um grande jogo de interesses do liberalismo, por meio das oligarquias agroexportadoras, que buscavam manter as estruturas comerciais, e do intervencionismo, responsável pelo deslocamento de recursos para uma expansão urbano-industrial. É importante ressaltar que a ideia desenvolvimentista acabou prevalecendo devido a um aspecto: Roberto Simonsen. O grande idealizador dessa teoria propunha um projeto de desenvolvimento que não impactasse tanto no modelo agroexportador vigente, ou seja, havia uma necessidade de alterar o perfil das atividades econômicas executadas até aquele momento, porém esse projeto não objetivava modificar a estrutura política do Brasil, mantendo as bases autoritárias existentes. Como podemos perceber, o projeto de Simonsen buscava inserir um nível mais acelerado na economia brasileira por meio da industrialização e do aproveitamento dos recursos disponíveis para a produção. Portanto, independente da formação econômica do Brasil até aquele momento, era fundamental criar uma estrutura desenvolvimentista industrial, além das condições adequadas para a sua viabilização. Não podemos deixar de ressaltar que, mesmo não projetando uma dominação política, o projeto desenvolvimentista foi amplamente aceito pela burguesia industrial, classe média e principalmente pelas forças armadas, que sempre representaram um peso político importante. Dessa forma, esse projeto passou a ser visto como uma força política ideológica que colocou, no final dos anos 1940, os interesses agroexportadores liberais em segundo plano. A partir daí, surgiu o nacionalismo desenvolvimentista. Um aspecto importante a ser mencionado é o fato de que a introdução desse projeto desenvolvimentista burguês despertou o surgimento de movimentos sociais oriundos dos processos de urbanização, o crescimento do proletariado e as ideias democráticas pós Segunda Guerra Mundial. É nesse contexto que o populismo é introduzido ao projeto, com uma alteração nas forças dominantes em prol dos segmentos industriais, além do processo institucional do poder político das classes populares. Você pode estar se questionando: qual a consequência destas alterações? Ao longo dos anos 1950 houve uma retração significativa das atividades agroexportadoras, entretanto, as diversas distinções políticas causaram a falsa impressão de que o populismo defenderia os anseios populacionais das ações imperialistas da elite brasileira. Na verdade, o projeto desenvolvimentista, na prática, manteve os interesses conservadores da burguesia. PENSAMENTO CEPALINO A economia política latino-americana tem a sua origem explicada a partir do pensamento formulado pela CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina), por se tratar de um marco importante para a criação de teorias que explicavam os níveis de desenvolvimento periférico pós-guerra. No Brasil, há uma limitação extensa de trabalhos relacionados à CEPAL, o que acabou subestimando a sua influência na origem da economia política brasileira, e tendo impacto negativo nas teorias produzidas posteriormente. Vamos considerar que a CEPAL possibilitou a compreensão das correntes fundamentais da economia brasileira entre os anos 1950 e 1960, e colaborou para a formulação dos planos econômicos de desenvolvimento do Brasil, como com a Comissão Mista Estados Unidos–Brasil e o plano de metas do Governo Juscelino Kubitschek. Certamente, esses projetos tinham como objetivo a dominação nacional desenvolvimentista, que vigorou no Brasil até o golpe de 1964. Importante mencionar que a CEPAL surgiu em um contexto em que os países latino-americanos buscavam a emancipação em relação aos centros considerados hegemônicos, ou seja, esses países desejavam superar a imagem de meras colônias para se tornarem nações soberanas e independentes. Sendo assim, cabia à CEPAL explicar quais as razões justificavam o atraso econômico da América Latina, e de que forma era possível superar estas barreiras. A ideia era explicar que as disparidades entre os centros econômicos desenvolvidos e a América Latina estavam basicamente na estrutura e no dinamismo econômico de cada País. Um dos pontos críticos da CEPAL em relação ao modelo capitalista liberal vigente estava na Lei das Vantagens Comparativas, em que os países emergentes deveriam se especializar em produtos primários, enquanto os países desenvolvidos focariam nos produtos industrializados, devido a sua capacidade tecnológica na produção. Para a CEPAL esse processo só aumentaria as desigualdades entre esses países e manteria inalterada a estrutura econômica vigente. Posteriormente, essa produção seria intercambiada e, devido às forças de mercado, haveria uma transferência de produtividade para os países emergentes. Na prática, isso não ocorreu, pois o que se observou foi uma ampliação nas desigualdades de produção entre esses países e a América Latina na condição de mero fornecedor de produtos primários para os grandes centros econômicos. Segundo Mantega (1987, p. 36), os países emergentes situados na América Latina se encontravam nessa situação devido à ausência de dinamismo produtivo, composto basicamente por bens primários; baixo desenvolvimento tecnológico; e visível dependência das ações dos países pertencentes aos grandes centros europeus. Outro aspecto era a falta de integração entre as economias periféricas, o que dificultava a disseminação homogênea dos avanços de produtividade de um País para outro. Todo esse cenário sempre favoreceu os países dos grandes centros comerciais europeus, que destinam todo o seu aparato tecnológico para difundir a sua produção em escala. A CEPAL explicava, também, o motivo pelo qual as exportações dos países periféricos apresentavam uma variação de preços mais lenta em relação às exportações dos grandes centros. Em outras palavras, a demanda por produtos manufaturados que exigem tecnologia era superior à procura por produtos primários. Em relação ao mercado de trabalho e organização sindical, a CEPAL observou que a mão de obra nos países centrais apresentava maior qualificação e poder de barganha salarial superior aos países emergentes. Diante dessas concepções, é possível afirmar que o desenvolvimento nessas regiões vai depender bastante do nível estrutural, de integração e desemprego estrutural presentes nessas regiões. Outro fator é a questão de o subdesenvolvimento estar atrelado àsrelações comerciais dos países periféricos com os grandes centros, que impulsionavam uma queda no poder de compra dos países menos desenvolvidos. Como sair desse quadro? A CEPAL defendia a ideia de que somente a introdução de uma política voltada para o desenvolvimento industrial seria capaz de inserir um modelo de reforma agrária mais amplo, aliado a uma alocação mais assertiva dos recursos produtivos e que evitaria a evasão de produtividade. Todo esse processo objetivava alterar o eixo básico da economia, visando o desenvolvimento interno. Nesses termos, a doutrina cepalina passou a adquirir um espectro mais nacionalista de acumulação capitalista industrial, mesmo ainda tendo base na atividade agroexportadora e no uso do capital estrangeiro. Como é possível perceber, o uso do capital estrangeiro não estava proibido. Pelo contrário, ele era recomendável desde que fosse utilizado para atender aos objetivos que visavam o processo de industrialização e o desenvolvimento nacional. Dessa forma, a CEPAL recomendava, por exemplo, que os empréstimos fossem realizados entre os governos de cada nação, com a cobrança de juros menores em relação ao uso do capital estrangeiro privado. Entretanto, vale ressaltar que a CEPAL impunha algumas restrições em relação, por exemplo, à participação estrangeira em setores públicos brasileiros. Diante do que já foi exposto, um questionamento pode ser realizado: o modelo capitalista idealizado pela CEPAL trouxe os benefícios esperados? A resposta é negativa, pois se observou, na prática, um aumento da concentração de renda e desigualdade social das populações periféricas latinas durante os anos 1950. Importante ressaltar que a CEPAL se equivocou no seu diagnóstico ao deixar de analisar, de maneira mais efetiva, os aspectos sociais e políticos presentes na América Latina nesse período. O pensamento cepalino entendia que a organização econômica traria o progresso social para todas as classes inseridas em uma determinada nação de maneira automática, o que de fato não ocorreu. Outro equívoco foi supor que o subdesenvolvimento de uma nação era fruto das práticas feudais ou pré-capitalistas inseridas até aquele momento, ou seja, a ausência do capitalismo provocava essas distorções. Porém, o que se viu foi um fortalecimento dos países centrais e o empobrecimento dos países periféricos diante das desigualdades sociais. Sendo assim, qual o panorama observado na América Latina após a introdução do pensamento cepalino? Se observarmos o Brasil, por exemplo, vamos notar um êxito no campo econômico, ou seja, houve uma estruturação econômica capitalista consolidada, apresentando uma capacidade de acumulação por parte dos oligopólios nacionais, além da forte intervenção estatal. O modelo de substituição de importações Muito presente nos países latino-americanos, o processo de substituição de importações se configurou como um modelo de industrialização que vigorou principalmente entre os anos 1930 a 1960. Certamente, tratou-se de um modelo proveniente do colapso da comercialização externa, e destacou-se pela restrição contínua no nível de importações de um determinado País. É preciso deixar claro que as alterações ocorridas na sociedade e na economia são frutos da expansão industrial e da urbanização, pois ambas causam impactos positivos na formação da renda e na oferta de emprego, além das possíveis mudanças no campo político e social. Diante disso, é possível observar o surgimento de novas classes sociais: o empresariado industrial, o trabalhador urbano e o tecnoburocrata. Sendo assim, podemos verificar a transição do chamado estado oligárquico mercantil para o estado populista. Como esse modelo foi idealizado? As indústrias que passaram inicialmente por esse processo de substituição foram aquelas que visavam à produção de bens e serviços simples, normalmente destinados ao consumo. Entre as décadas de 1930 e 1940, iniciou-se a primeira etapa da inclusão do modelo de substituição das importações. O que podemos observar nessa fase é a inserção de empresários nacionais que adotavam um tipo de tecnologia bem simplificada e empresas com capacidade reduzida de produção. Na fase seguinte, ocorrida a partir dos anos 1950, houve a integração maciça das empresas multinacionais, especializadas em manufaturas focadas principalmente na produção de automóveis e bens duráveis. Nessa etapa, o que podemos verificar é a instalação de uma série de indústrias com alto nível de sofisticação tecnológica, com perfil oligopolista e capazes de produzir de maneira escalada, o que representou a inserção da modernização dentro de um modelo industrial considerado subdesenvolvido, como era o caso da América Latina. Nesse contexto, as indústrias responsáveis pela distribuição de insumos essenciais e bens de capital passam a ganhar maior relevância e sofisticação no que se refere aos aspectos tecnológicos. O aço, por exemplo, foi um dos principais insumos básicos utilizados e contou, através de investimentos, com a intervenção estatal para sua extração. No que se refere aos bens de capital, observou-se a capacidade empresarial na produção de maquinário em pequenas unidades e que, aos poucos, foi se expandindo, além da entrada de multinacionais nesse cenário. Não podemos deixar de evidenciar que o modelo de substituição das importações no Brasil ganhou relevância a partir do processo de decadência da cultura cafeeira, pós-crise internacional de 1929. Nesse período, o País se encontrava em um estágio de total dependência do volume das exportações, em que o resultado almejado era mensurado de acordo com o cenário apresentado pelo mercado internacional do café. Sendo assim, a crise econômica mundial fez com que o governo da época buscasse ações que minimizassem as perdas financeiras ocorridas. Diante de uma crise econômica mundial relevante, como a que ocorreu em 1929, o modelo agroexportador agrário brasileiro cedeu espaço para o modelo de substituição de importações, ou seja, houve a necessidade de produzir internamente aquilo que era importado, com o objetivo principal de proteger as atividades econômicas do País. características do modelo de substituição de importações: O que podemos notar é que o ciclo de funcionamento do modelo de substituição de importações começou quando houve um estrangulamento do setor externo, simbolizado pela retração do valor das exportações e pela demanda interna constante. Ao se manter a demanda por importações, consequentemente há uma escassez por divisas. No que se refere à taxa de câmbio desvalorizada, vamos notar que essa ação eleva o nível de competitividade e o grau de renda da produção interna, já que os preços dos produtos importados tendem a aumentar nessas condições. A consequência é a inserção de uma série de investimentos nos setores que irão substituir as importações, elevando o nível de demanda e renda. Por fim, diante desse cenário, é possível notar uma nova visão de estrangulamento do mercado externo, pois uma fração dos investimentos e da renda são revestidas novamente em importações, o que provoca um retorno ao ciclo inicial. É preciso deixar claro que esse processo serve como um incentivador e um regulador dos investimentos realizados pela indústria nacional e um indicador importante para medir as variações no crescimento econômico. O investimento e o processo produtivo são setoriais, o que cria uma série de obstruções nos outros departamentos da economia. Com isso, a procura por bens e serviços dos outros setores é suprida, inicialmente, pelas importações, até que uma nova onda de investimentos seja implantada e que o modelo de substituição de importações seja efetivamente inserido. É importante notar que todo esse processo traz a ideia de desenvolvimento da soberania nacional, ao incentivar a construção de uma sociedade mais autônoma e industrializada que seja capaz de se sobressair às questões externas, e que disponibiliza produtos primários de maneira especializada. As importações econômicas são cíclicas, portanto os estrangulamentos ou limitações oriundasdo mercado externo podem ser classificados de maneira absoluta, no momento em que há uma estagnação ou até mesmo um declínio das possibilidades de importação, ou relativas, no instante em que as chances de importação se elevam, porém em uma sequência menor do que a renda. A que conclusões podemos chegar? Na verdade, é preciso entender que os estrangulamentos ocorridos no mercado externo não podem ser vistos apenas como motivações para o desenvolvimento da industrialização interna, mas podem, também, ser vistos como restrições, caso atinjam um nível que dificulte o fluxo básico de importações, que são essenciais para a produção industrial. Como podemos notar, o modelo de substituição de importações altera, não só as quantidades de bens e serviços demandados ao mercado externo, mas também o seu perfil. O setor externo que antes apresentava uma dinâmica econômica pautada na formação da renda e do emprego, como ocorria no modelo agroexportador, agora passa a ter a função de assegurar o fluxo de divisas essenciais para importar produtos que serão utilizados no processo produtivo. Portanto, é preciso deixar claro que substituir importações não significa criar um desenvolvimento de autossuficiência nos países. Como é possível perceber, para cada produto ou serviço gerado internamente é necessário, por diversas vezes, buscar insumos ou bens de capital importados. Isso ocorre pelo fato de os países periféricos, como o Brasil, apresentarem um modelo de industrialização tardio em relação aos grandes centros comerciais. Diante dessas concepções, é possível fazer os questionamentos: quais os limites do modelo de substituição? Quais as suas influências no funcionamento do mercado? Sabe-se que para responder esses questionamentos é preciso observar, primeiramente, que de imediato, os limites do modelo de substituição das importações podem trazer um desequilíbrio externo pautados nos seguintes aspectos: Valorização cambial – Esse aspecto objetivava incentivar o processo de investimento industrial, o que certamente provoca a transferência de renda do setor agrícola para o industrial, causando uma desmotivação nas exportações oriundas da agricultura; Indústria voltada ao mercado interno – O que provoca a ausência de competitividade no setor; Nível de demanda por importações em alta – É proveniente do aumento na renda e dos investimentos. Outro fator importante foi o aumento da intervenção do Estado no processo de industrialização do Brasil, por meio de algumas concepções importantes. A primeira foi a implementação de normas, como a CLT, que estabeleceram as obrigações e os direitos dos trabalhadores e empresários, além da criação de órgãos governamentais responsáveis por gerir esse processo. A segunda concepção está no investimento direcionado à infraestrutura, principalmente no que se refere à energia e transporte. É valido falar que a participação do Estado foi fundamental no fornecimento de insumos essenciais à produção. A Petrobrás é um exemplo importante de instituição estatal que apresenta uma capacidade tecnológica abrangente na extração de petróleo e gás. Além disso, a figura do Estado é fundamental com captação e distribuição de recursos, por meio dos bancos de financiamento como o BNDES. Devido à ausência de uma fonte de financiamento adequada, vale lembrar que essa participação estatal poderia causar déficit público nas contas governamentais. A elevação da concentração de renda era outro limite do modelo de substituição de importações. Isso ocorria por conta de algumas situações, como: ÊXODO RURAL Consiste na transferência populacional do campo para a cidade. Esse fator estava baseado no fato de que a agricultura passava por um período de ausência de investimentos no setor, aliado a uma estrutura que não se mostrava capaz de criar postos de trabalho no setor rural e uma legislação trabalhista redigida basicamente para atender aos trabalhadores urbanos; CAPITAL INTENSIVO INDUSTRIAL Esse modelo de investimento não possibilitava a criação de empregos no setor urbano. Importante ressaltar que esses fatores causavam um excesso de mão de obra e o pagamento de baixos salários. Em compensação, a falta de concorrência possibilitava o aumento significativo dos níveis de preço e alta lucratividade na área das indústrias. Por fim, podemos observar a escassez das fontes de financiamento, ou seja, não havia um sistema financeiro estruturado no Brasil, portanto as operações comerciais nesse período se limitavam, basicamente, às ações do Banco do Brasil e do BNDES, por meio de recursos provenientes dos chamados empréstimos compulsórios. Outro aspecto era a falta de uma reforma tributária mais ampla, já que industrialização precisava ser incentivada ao mesmo tempo em que o setor agrícola não poderia assumir mais impostos. Certamente, o caminho encontrado pelo governo para a manutenção desse modelo foi o financiamento proveniente das poupanças compulsórias e dos recursos oriundos das mais variadas fontes institucionais. O modelo de subdesenvolvimento capitalista Se observamos o panorama econômico e político do Brasil em meados dos anos 1960, é possível notar que o chamado modelo democrático burguês gozava de grande prestígio e influência entre militantes do pensamento marxista brasileiro, simbolizado pela esquerda. Entretanto, é possível visualizar que esse modelo já sofria críticas relevantes de outra parte da esquerda, principalmente no que se trata das relações produtivas consideradas semifeudais ou às perspectivas de transformação. Diante dessa perspectiva, começou a emergir uma nova linha de pensamento da economia política denominada de modelo de subdesenvolvimento capitalista. Essa nova ótica ideológica veio dos trabalhos desenvolvidos por importantes intelectuais como André Gunder Frank, que defendia, dentre outros aspectos, a ideia de que o subdesenvolvimento dos países periféricos era fruto de um processo social gerado pelo próprio sistema capitalista, refutando a teoria de que esse fato era oriundo do feudalismo ou do modo produtivo pré-capitalista. Outro importante pensador da época foi Caio Prado Júnior, que dedicou a sua linha de estudos aos assuntos agrários brasileiros (por sinal um assunto bastante discutível ao longo dos anos 1960), em que ele defendia a tese de que o capitalismo mercantil, voltado para a produção de produtos primários, era o provedor da agricultura praticada no Brasil. Daí se explica o fato de o Brasil apresentar, segundo ele, um aspecto semicolonialista a serviço do imperialismo econômico de outros países. Um terceiro intelectual estudioso do modelo de subdesenvolvimento capitalista foi Rui Mauro Marini, que procurou explicar como ocorria a produção de excedente nos países periféricos, levando em consideração o subdesenvolvimento e a expropriação das atividades executadas nesses países. Segundo Mantega (1987, p. 212), Marini indicava, dentre outras características, que o excedente periférico era proveniente do sistema de exploração da força de trabalho barata, que gerava produtos menos custosos ao sistema imperialista e proporcionava uma margem de lucro aos proprietários locais. Como podemos observar, embora se trate do mesmo modelo, há uma série de pontos discordantes entre os formuladores do pensamento subdesenvolvimentista do Capitalismo e, por muitas vezes, passíveis de subscrição nas análises realizadas. Outro aspecto importante é o fato de que esse modelo apresenta semelhança teórica com outros estudos abordados para explicar o comportamento da sociedade, como o chamado capitalismo atrasado, teorizado por Trotski. É o que visualizamos ao analisar mais profundamente cada um desses autores. GUNDER FRANK E O PENSAMENTO DESENVOLVIMENTISTA DENTRO DO SUBDESENVOLVIMENTO André Gunder Frank foi um economista alemão que introduziu ideias importantes no cenário da economia política brasileira. Ao longo dos anos 1960, ele se dedicou, dentre outras atividades, a desmistificar a ideia de que o Brasil estava pautado em um modelo econômico feudal, assim como os militantes da esquerdabrasileira, representadas pelo Partido Comunista do Brasil, defendiam. Gunder Frank indicava que a economia brasileira estava moldada para atender às demandas do sistema capitalista mundial. Diante desse cenário, é possível afirmar que as origens do subdesenvolvimento das economias latino-americanas eram provenientes do modelo capitalista adotado, que determinava a sua estruturação e mantinha as relações exploratórias existentes desde o período colonial. Segundo Mantega (1987, p. 215), é importante ressaltar que o conceito de subdesenvolvimento e desenvolvimento defendido por Gunder Frank era extraído do ideário de Paul Baran, um importante pensador bielorrusso que estudou com profundidade como a inserção imperialista nos países capitalistas atrasados interferiu no seu processo de desenvolvimento. De maneira sintetizada, podemos verificar, portanto, que a teoria do desenvolvimento dentro do subdesenvolvimento, como pregava Gunder Frank, pode ser definida levando em consideração um conjunto de teses. As principais teorias sobre esses assuntos podem ser definidas de maneira relacional. Principais teses do desenvolvimento dentro do subdesenvolvimento: Segundo Mantega (1987, p. 218), o modelo subdesenvolvimentista presente nos países periféricos é fruto do sistema capitalista mundial e não de um possível estágio pré-capitalista, por qual outros países mais avançados já passaram. A divisão internacional do trabalho insere a ideia de que os países periféricos atuam para auxiliar no desenvolvimento dos grandes centros econômicos, evidenciando que o desenvolvimento e o subdesenvolvimento na verdade são ações combinadas entre os países. Vale frisar que a produção excedente, oriunda dos países periféricos que apresentam um perfil primário exportador, tem a sua transferência aos principais centros por meio do comércio. Nesse contexto, o sistema capitalista mundial acaba estabelecendo um nível de expropriação do excedente com base na hierarquia, uma vez que os países com maior nível de desenvolvimento exercem uma relação de sobreposição aos de menor expressão econômica. Uma outra tese explica e justifica que diante de um sistema capitalista mundial baseado no imperialismo, o subdesenvolvimento de determinados países é imodificável, pois eles não apresentam condições de atingir o desenvolvimento, já que os seus excedentes acumulados eram direcionados para o crescimento das metrópoles. Vale evidenciar que esse excedente é proveniente, principalmente, das forças de trabalho de baixa renda e produtividade. Por fim, podemos observar que a tese das transformações sociais ocorridas nos países periféricos estava pautada, normalmente, no processo de industrialização temporário, para suprir algum período de instabilidade dos grandes centros. Isso indica que o modelo agroexportador seria predominante nos países, como Brasil, México e Argentina, que apresentavam um perfil de subdesenvolvimento. PRADO JÚNIOR E O MODELO CAPITALISTA COLONIAL Caio Prado Júnior foi outro importante intelectual com grande contribuição à formulação do modelo de subdesenvolvimento capitalista, graças às suas análises profundas em relação à agricultura desenvolvida no Brasil do período colonial ao momento atual, o que acabou fundamentando as teorias postuladas posteriormente por Gunder Frank e Marini, apesar das divergências em relação às mudanças político-econômicas professadas por esses autores. Muito próximo do pensamento da esquerda brasileira entre os anos de 1950 e 1960, Caio Prado expôs as suas ideias em contraponto ao modelo democrático burguês amplamente defendido pelo Partido Comunista do Brasil. Prado Junior discordava veementemente de que as soluções para as assimetrias na economia brasileira seriam solucionadas por meio do socialismo, e que o Brasil não havia atingido a etapa capitalista de desenvolvimento por conta da estrutura agrária presente desde o período colonial. Segundo Mantega (1987, p. 240), Caio Prado Júnior defendia as suas teses baseadas em um estado extremamente detalhado, em que ele traça o perfil predominante da agricultura brasileira, observando as relações produtivas estabelecidas nos mais variados setores e acaba concluindo que o Brasil, até aquele momento, estava inserido em um modelo mais próximo ao colonial. Importante frisar que na visão de Prado Júnior há uma similaridade prática entre o trabalho escravo com aquele considerado remunerado, executado pelos trabalhadores livres, já que a estruturação fundiária presente até aquele momento era crucial para determinar as relações de trabalho. Assim, é possível observar e resumir as principais ideias defendidas por Caio Prado Júnior. Segundo Mantega (1987, p. 245), as ideias de Caio Prado Júnior defendiam que não havia uma relação entre as práticas feudais e a execução das atividades rurais realizadas no Brasil, implantadas pelo sistema capitalista mundial. Nesse contexto, é possível verificar que a unidade de produção essencial pertencente a uma estrutura econômica no Brasil é a propriedade rural, que está pautada na produção capitalista e na execução do trabalho coletivo. Importante ressaltar que os tipos de trabalho executados são formas capitalistas caracterizadas pela venda da força de trabalho remunerada. Dessa forma, as classes essenciais da economia brasileira estão centradas na figura do proprietário rural e da força de trabalho, seja ela livre ou escrava. Contudo, vale ressaltar que a identidade econômica, seja do escravo ou do chamado trabalhador livre, visa, dentre outros aspectos, o melhoramento da sua remuneração, que é uma finalidade política semelhante. RUI MARINI E O SUBIMPERIALISMO Diferente de Gunder Frank e Caio Prado Júnior, o pensador Rui Mauro Marini inseriu, ao contexto, ideias que completavam o conceito do modelo de subdesenvolvimento capitalista, por meio de um nível maior de abrangência dos mecanismos produtivos e experimentação da mais valia presente nos países considerados subdesenvolvidos (MANTEGA, 1987, p. 262). Na concepção de Marini, a base para a manutenção do sistema imperialista praticado no mundo era proveniente do trabalho explorado nos países periféricos e do subimperialismo praticado no Brasil. O contexto imperialista mundial, ao qual Brasil e a América Latina estão diretamente ligados, pode ser observado sob dois pontos de vista: uma visão que abrange desde o começo da colonização, até meados do século XX, fase em que a economia era basicamente dada por agroexportadores; e uma segunda visão que se inicia após a crise capitalista dos anos 1920, e que inseriu uma nova funcionalidade para a América Latina na nova divisão internacional do trabalho. Diante desses aspectos, um ponto que deve ser considerado é o fato de que Marini conseguia desenhar, de maneira sintetizada, como a economia brasileira se encontrava estruturada a partir da década de 1950. Primeiramente, ele considerava o fato de que as atividades agrícolas continuavam estabelecendo relação com o comércio internacional de produtos primários e a desigualdade de cambio. Com base nessa ideia, a chamada burguesia agromercantil vai praticar o subimperialismo ao explorar, de maneira intensa, os seus trabalhadores locais para compensar a transferência dos lucros para o imperialismo. Outro fator é a burguesia industrial urbana que, submissa ao imperialismo, adota uma política local de elevação dos níveis de preços em paralelo à redução dos salários. Marini evidencia, ao longo das suas teses, que as mudanças observadas recentemente na América Latina e nos países capitalistas centrais podem ser descritas, de maneira sintetizada: Mantega (1987, p. 266) evidencia que a extensa concentração de excedentes e capitais presentes nos países capitalistas centrais foi capaz de impulsioná-los no processo de exportação de manufaturas para a América Latina. A industrialização mais robusta na América Latina indicou o seu novo papel na divisão do trabalho no mundo capitalista: o de fornecedor de mais valia e mercado consumidor de bens de capital. Vale frisar que as ausênciasda reforma agrária na industrialização latino-americana, capazes de aumentar o nível de produtividade, impulsionaram o uso de técnicas estrangeiras poupadoras de mão de obra. Nesse cenário, o imperialismo atua expropriando uma parte da lucratividade da burguesia mercantil, obrigando a extração dessas perdas de modo a explorar os seus trabalhadores rurais, assim como a burguesia industrial em relação aos trabalhadores urbanos. Como é possível notar, existe uma integração no desenvolvimento capitalista com base na intensa exploração trabalhista. Atualidades sobre a economia política brasileira Para entendermos qual economia política é aplicada no Brasil, é preciso observar a sua história econômica recente e, principalmente, as contradições marcantes. Um bom exemplo que pode ser mencionado está relacionado aos ciclos inflacionários presentes nos anos de 1980 até meados dos anos 1990, quando o Brasil foi um grande laboratório de teses e testes econômicos, com impactos marcantes no comportamento da sociedade. Diante desse conceito, qual o cenário econômico que o Brasil apresenta atualmente? Ao verificar o panorama da economia brasileira, levando em consideração a última década (2010 - 2020), vamos observar as possibilidades de construir uma perspectiva de crescimento e, posteriormente, de desenvolvimento econômico, por meio da conjuntura econômica do Brasil atualmente. O Brasil se notabilizou pela recessão econômica extensiva entre 2014 e 2016, o que representou o biênio com o pior índice de crescimento em 120 anos. Posteriormente, entre 2017 e 2019 observou-se uma recuperação gradual em um ritmo mais lento. Logicamente alguns fatos, no aspecto nacional e internacional, colaboraram para esse período de baixo crescimento (greve dos caminhoneiros ou a guerra comercial entre EUA e China), entretanto não podemos deixar de ressaltar que a economia brasileira, de maneira geral, apresentou um comportamento recessivo nesse período. As tendências para o ano de 2020 indicavam um cenário de retomada do crescimento econômico, contudo a crise sanitária em 2020 (COVID-19) trouxe impactos importantes para a economia mundial e, por isso, a expectativa do mercado é de que atividade econômica brasileira possa trazer um índice em torno de -6,4% até o fim do ano (BALASSIANO, 2020). É preciso levar em consideração que a década atual começou dentro de uma perspectiva de estabilidade, em que foi possível registrar uma taxa de crescimento médio em torno de 3% ao ano entre 2011 e 2013. No entanto, o ponto crucial de mudança ocorreu a partir de 2014, quando a economia brasileira entrou em um processo de enfraquecimento persistente. A quem podemos atribuir esse baixo desempenho? Ocorre que há um consenso entre economistas e analistas de que o crescimento econômico brasileiro foi pífio graças à soma de três fatores: · Forte recessão; · bullet Recuperação gradual e lenta; · bullet Coronavírus. Para se ter uma ideia, entre 2014 e 2020, o crescimento econômico apresentou uma queda média em torno de 1,3 % ao ano. Há um ambiente de grande preocupação com os rumos da economia brasileira para os próximos anos, levando em consideração que a década atual está apresentando um perfil mais recessivo dos últimos 120 anos, pior até do que crise de 1980, que foi considerada a década perdida. O cenário anterior ao COVID-19 era de crescimento baixo e agora é de taxa negativa ainda sem precedentes. Ao analisar a crise do biênio 2014-2016, é possível discutir as suas origens. Para muitos economistas, a nova matriz econômica adotada internamente (os fatores domésticos) acabou sendo determinante para a crise econômica brasileira e a sua lenta recuperação estrutural e conjuntural. Em 2020, a crise sanitária (COVID-19) provocou efeitos em escala mundial, gerando um cenário de incertezas, o que agrava o ambiente econômico no Brasil. Ao compararmos o desempenho da economia brasileira nessa década com o conjunto de países emergentes e centros desenvolvidos, vamos notar que o mundo, de uma maneira geral, cresceu a patamares próximos de 3% ao ano, com uma forte participação de países periféricos. Enquanto isso, o Brasil seguiu uma tendência de estagnação e uma leve variação negativa durante esse mesmo período, impactando também no comportamento da América Latina, responsável por exercer forte influência nos resultados. Outro aspecto importante pode ser observado quando, além da análise das taxas médias reais de crescimento, vemos também a incidência do PIB per capita de países como o Brasil durante essa década. Para se ter uma noção da importância desse indicador, basta verificar alguns institutos e organizações de pesquisa importantes, como o IBGE, o FMI e a Focus/BCB, que conseguiram analisar o desempenho de algumas economias emergentes e da América Latina. Foi possível notar que, em média, o PIB dos países selecionados pertencentes à América Latina e os países emergentes inseridos na BRICS obtiveram um crescimento de 2,4 e 3,4 pontos percentuais, respectivamente, bem acima do PIB brasileiro. Em relação ao PIB per capita, as diferenças entre os países da América Latina e BRICS, respectivamente, foram de 2,4 e 3,4 pontos percentuais. Diante dessa análise, quais as consequências podem ser observadas com base nos resultados para o Brasil? A atividade econômica sofreu forte retração no Brasil, onde a elevação do desemprego trouxe uma situação mais vulnerável ao mercado, até mesmo antes da pandemia ganhar relevância. O cenário trouxe uma série de incertezas e colaborou negativamente para que seja esperada mais uma década perdida. Sendo assim, o processo de retomada da economia precisa, sem dúvidas, de um retorno das agendas de reformas no pós crise e um direcionamento mais abrangente de quais os novos rumos que a economia brasileira irá traçar. Textos, artigos, livros para leituras e estudos dirigidos O momento atual da economia nos traz uma série de incertezas e dificulta a previsão das conjecturas a serem adotadas para o seu crescimento. É recomendável a leitura de um texto recentemente publicado pela revista IstoÉ Dinheiro, intitulado "Mercado financeiro prevê queda da economia em 5,31% este ano", em que se evidencia o panorama de retração econômica que assolou o território brasileiro em 2020, e nos traz uma noção de como a economia política praticada no Brasil se encontra. Outra constatação do cenário econômico em que o Brasil está pode ser observada no texto "PIB volta ao nível de 2009", publicado pela revista Veja, por meio do jornalista Carlos Kawall, em que fica evidenciado que o Brasil não havia superado totalmente a crise dos anos anteriores e, com a pandemia da COVID–19, o panorama indica uma retração econômica de mais de uma década com perspectivas de depressão para os anos posteriores. Seguindo essa mesma corrente de pensamento, é recomendável a leitura de artigos científicos que evidenciam de maneira abrangente como a economia política brasileira foi formulada, principalmente após a introdução das ideias de Celso Furtado. Sendo assim, é importante a leitura do artigo "Celso Furtado, Caio Prado Júnior e a história do pensamento econômico na década de 1950", escrito por Roberto Pereira Silva e Janaína Fernanda Battahin. Ele trata das incursões realizadas por esses autores a partir da década de 1950, verificando a importância das teorias econômicas no desenvolvimento nacional. Além desse, outro artigo bastante relevante sobre a economia política foi escrito por Anita Kon e intitulado "Sobre a economia política do desenvolvimento e a contribuição dos serviços". Ele foi produzido na PUC (Pontifícia Universidade Católica) e publicado pela Revista de Economia Política. Esse material trata das teses e conceitos recentes da economia política do desenvolvimento, que abordam novos conceitos referentes ao papel das atividades de serviços dentro de um processo de desenvolvimento econômico. Para ampliar as informações sobre essa área do conhecimento, é possível mencionar algumas obras literárias essenciais ao entendimento da economia política brasileiracomo o livro de história econômica História da riqueza no Brasil: cinco séculos de pessoas, costumes e governos, escrito por Jorge Caldeira. Ele faz uma retrospectiva da formação do Brasil desde o início da sua colonização até os dias atuais, considerando os aspectos econômicos e, fundamentalmente, as suas especificidades históricas. Outra obra importante para o entendimento do funcionamento da economia brasileira foi escrita por Antônio Corrêa de Lacerda e intitulada Economia brasileira. Essa obra traz uma perspectiva histórica para explicar a formação histórica do brasil e os motivos do seu desenvolvimento. Ela aborda aspectos da economia colonial e a expansão cafeeira, além do processo de substituição de importações e os planos de desenvolvimento inseridos a partir da segunda metade dos anos 1950. Por fim, trago a sugestão da formulação de um estudo dirigido por meio de algumas questões pertinentes que nortearão o entendimento e a compreensão dos modelos de economia política aplicados no Brasil, pó crise de 1929. Sugiro que leiam a reportagem PIB despenca 9,7% no 2º trimestre em choque histórico na economia. image3.png image4.png image5.png image1.png image2.png