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CAPITULO 3: AS REFORMAS RELIGIOSAS As profundas mudanças nos valores e nas mentalidades que ocorriam na Europa entre os séculos XIV e XVI também atingiram a religião. Observe a situação que se desenhava: de um lado, estava uma sociedade mais dinâmica, mais urbanizada e mais instruída; de outro, uma religião poderosa que tinha a tradição de orientar a vida cotidiana, a partir de uma visão teocêntrica. Como a religião poderia escapar aos questionamentos que alcançavam todas as esferas da vida humana e reformulavam a visão de mundo? É improvável que a pessoa renascentista mantivesse a mesma relação com a Igreja que a pessoa medieval, não é mesmo? 1. O modo de pensar entre as pessoas do Renascimento foi chamado de Humanismo. Quais são as principais características desse movimento intelectual? 2. Em que medida essas características do Humanismo rompiam com a forma de pensamento cristão medieval? A crise do poder da Igreja Católica No último capítulo, você estudou o movimento renascentista, que inaugurou novas formas de pensamento e de ação no mundo europeu. É importante ter em vista que, ao contrário do que se pode pensar, os renascentistas não romperam com a fé cristã. Prova disso é que os temas religiosos são predominantes nas artes do Renascimento, dividindo espaço com temas cotidianos e os que exaltavam a cultura clássica do mundo greco-romano. O que os humanistas do Renascimento pretendiam era reinterpretar as mensagens do Evangelho de acordo com alguns princípios inspirados pela Antiguidade. Eles consideravam que era possível conciliar a valorização do ser humano e de seu potencial criativo com a fé em Deus. Assim, buscavam formas de transformar também a experiência religiosa, apontando para uma renovação na relação do indivíduo com a religião e, consequentemente, também no papel dos líderes religiosos. Publicada em 1511, a obra Elogio da loucura, do teólogo holandês Erasmo de Roterdã, é considerada a mais expressiva do chamado Humanismo cristão. Mantendo-se fiel aos dogmas da religião, ela tece críticas à imoralidade e à ganância demonstradas por parte do clero católico no período. Acusa o clero de venda de indulgências, desrespeito ao celibato clerical, exploração comercial de imagens e relíquias e de distanciamento em relação aos fiéis. Ao mesmo tempo, defende uma conduta cristã centrada na leitura do Evangelho e nos exemplos de amor ao próximo, simplicidade e recolhimento dados por Cristo. Tomando a obra de Erasmo como um documento histórico, pode-se compreender a situação em que se encontrava a Igreja Católica no período: distanciada de princípios espirituais, displicente em suas funções para com os cristãos e voltada a valores materiais de luxo e riqueza. As disputas de poder entre os clérigos e os abusos econômicos e judiciais do papa apresentavam-se como alguns dos sintomas de uma grave e duradoura crise interna. Em torno disso, o próprio papa Eugênio IV (1383-1447) teria escrito: Todos sabem […] que já não há regra, devoção nem disciplina religiosas e que há em todo clero demasiada desordem em grande detrimento de toda a cristandade. DELUMEAU, Jean. A civilização do Renascimento. Tradução de Manuel Ruas. Lisboa: Editorial Estampa, 1994. p. 124 v. 1. Essa declaração foi feita em 1434, em uma das várias reuniões convocadas com a intenção de reformar a Igreja. Apesar de tentativas anteriores para solucionar o problema, como o Concílio de Constança (1414-1418) e o Concílio da Basileia (1431-1438), a situação de crise arrastou-se sem solução até o século XVI, quando foi publicada a obra de Erasmo, considerada uma contundente denúncia aos desmandos do clero. O declínio do poder eclesiástico Junto às questões internas da Igreja, fatores externos diversos contribuíram para aprofundar a crise do poder na instituição católica. Como você deve se lembrar, a burguesia ganhava cada vez mais im- portância no meio social europeu. Enquanto isso, as guerras e a Peste Negra alastravam um rastro de morte e medo pela Europa, abalando a convicção dos fiéis em relação à salvação pela fé. Enriquecidos pelo crescimento do comércio, os burgueses se tor- naram os protagonistas de uma sociedade mercantil caracterizada pela livre iniciativa, pela busca por lucro e pela crença no progresso. O avanço de seus negócios, no entanto, sofria entraves de ordem religiosa: o lucro e a usura eram condenados pela Igreja. Por essa ra- zão, grande parte das atividades bancárias na Europa eram exercidas principalmente por judeus. O comércio, porém, era apenas uma dimensão desse contexto de ascensão dos valores burgueses. A valorização das potencialidades humanas ganhava espaço na mentalidade europeia, que passava a in- terpretar a condição existencial a partir dos pressupostos humanistas. A ânsia por liberdade e autonomia nos diversos campos de atividade humana impulsionou um questionamento das rígidas bases sociais e ideológicas sustentadas pela Igreja. Os humanistas buscaram no Direito Romano as bases para tornar legítimos os novos interesses burgueses em contraposição às normas religiosas vigentes durante a Idade Média.