Prévia do material em texto
A crítica ao Modernismo no Brasil Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Descrever o contexto histórico da arquitetura moderna no Brasil. Reconhecer as críticas à arquitetura moderna no mundo e no Brasil, a partir da década de 1960. Explicar como a crítica à arquitetura moderna influenciou a busca de uma nova linguagem arquitetônica. Introdução A partir da visita de Le Corbusier ao país, considerada por muitos como a inauguração do movimento moderno, os arquitetos brasileiros passaram a desenvolver a sua própria linguagem. Esse período é considerado um momento de grande projeção internacional da arquitetura brasileira, com mestres como Oscar Niemeyer, Lúcio Costa, Affonso Reidy e João Batista Vilanova Artigas. À medida que esses arquitetos passaram a re- ceber reconhecimento por suas obras e o movimento se consolidou, também começaram a surgir críticas e questionamentos, principalmente no cenário internacional, a partir do trabalho de arquitetos como Robert Venturi, Philip Johnson e Aldo Rossi. Estes passaram a criticar, informar e modificar os rumos da arquitetura nacional e internacional. Neste capítulo, você vai aprender sobre a evolução do movimento moderno no Brasil, bem como as suas influências, críticas e desdobra- mentos. Além disso, vai estudar as principais vertentes críticas a esse movimento e de que forma elas levaram à busca por um novo modo de fazer arquitetura. Breve história do movimento moderno no Brasil A década de 1930 representa um período de grande transformação no país. A partir da Semana de Arte Moderna de 1922 e do Estado Novo de Getúlio Vargas, o Brasil começou a buscar uma identidade própria, livre dos ideais europeus que há muitos anos vinham sendo importados e infl uenciavam a produção cultural local. Coincidiu também com esse período a disse- minação de inovações técnicas como o uso do aço e do concreto armado, que possibilitaram uma nova forma de pensar e de produzir arquitetura (BRUAND, 1981). Durante esse período, surgiram na Europa diversos arquitetos que, valendo- -se dessas inovações, deram início ao chamado movimento moderno. Entre os profissionais da primeira geração moderna, figuram importantes nomes, como Mies van der Rohe, Walter Gropius, Frank Lloyd Wright e Le Corbusier — este último foi provavelmente a maior influência do movimento no Brasil. O sistema Beaux-Arts, ainda vigente no Brasil nas primeiras décadas do século XX, já apresentava sinais de esgotamento, e os arquitetos locais buscavam a superação desse modelo considerado antiquado. Nesse contexto, ocorreu a primeira visita de Le Corbusier ao país, em 1929, para participar de conferências em São Paulo e no Rio de Janeiro, onde disseminou as suas ideias entre estudantes e profissionais. Na sua segunda visita, em 1936, colaborou com a equipe de arquitetos que projetou uma das primeiras e mais importantes obras modernas no país: a sede do Ministério da Educação e Saúde, no Rio de Janeiro (Figura 1). Essa equipe contava ainda com nomes como Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, entre outros. A clara influência do mestre suíço nessa obra está evidenciada no projeto por meio da linguagem desenvolvida por ele com os seus cinco pontos da arquitetura moderna: pilotis, terraço-jardim, planta livre, janela em fita e fachada livre. Entretanto, é importante destacar que, ao mesmo tempo em que o projeto faz referência à arquitetura de Le Corbusier, ele também já apresenta características e sensibilidades próprias do movimento moderno no Brasil, como a sua preocupação com a implantação e o respeito ao entorno (MONTANER, 2011). A tendência para a intensidade do prisma puro e autônomo, para a regularida- de, ortogonalidade e frontalidade na arquitetura maquinista de Le Corbusier é corrigida no Ministério [...] pela dispersão e o contraste de volumes, pelo caráter poroso, expansivo e transparente dos edifícios, pela posição lateral de entradas que induzem ao movimento. [...] Tudo isso em busca de uma maior expressividade e caráter (MONTANER, 2011, p. 26). A crítica ao Modernismo no Brasil2 Figura 1. Ministério da Educação e Saúde (1936), no Rio de Janeiro. Fonte: CAU/BR (2018, documento on-line). A Escola Carioca A partir das visitas de Le Corbusier, a arquitetura moderna nacional começou a seguir o seu próprio rumo. Assim, passou a assumir os seus próprios riscos e, de certa forma, uma posição crítica, adaptando as ideias modernas ao con- texto brasileiro. Por exemplo, é possível perceber que, ao projetar o conjunto da Pampulha, em Belo Horizonte, encomendado pelo então prefeito Juscelino Kubitschek, Niemeyer começou a acentuar a vocação escultórica e criativa da sua obra. Isso fi ca visível no projeto da Igreja São Francisco de Assis, a partir do uso plástico do concreto nas suas curvas assimétricas, assim como na preocupação do arquiteto em considerar a paisagem no projeto para a Casa de Baile. Ao mesmo tempo, em ambas as obras ele também lança mão das formas simples e puras defendidas por Le Corbusier (MONTANER, 2011). Em 1943, foi realizada uma exposição no Museu de Arte Moderna de Nova York, intitulada Brazil Builds, na qual foram expostas obras da produção arquitetônica moderna brasileira. No ano seguinte, em relação a essa exposição, Andrade (2003, p. 175) escreveu: “[...] a primeira escola, o que se pode chamar legitimamente de ‘escola’ de arquitetura moderna 3A crítica ao Modernismo no Brasil