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381 #22 Contextos islâmicos e cerâmicas da Praça da Figueira (Lisboa): abordagem a três contextos das etapas finais da dominação islâmica de al- -Ushbuna Rodrigo Banha da Silva | CML/DMC/DPC/CAL, CHAM-FCSH/NOVA | rbds@fcsh.unl.pt Inês Pires | FCSH/NOVA | isantos.pires@hotmail.com André Bargão | Bolseiro de Doutoramento FCT SFRH/BD/133757/2017. CHAM-FCSH/ NOVA | andrebargao@gmail.com Sara da Cruz Ferreira | Bolseira de Doutoramento FCT SFRH/BD/137142/2018. CHAM-FCSH/NOVA | sara.isabel91@hotmail.com Duarte Mira | FCSH/NOVA | dmcardoso@gmail.com 382 Resumo: A I.A.U. desenvolvida na Praça da Figueira entre 1999 e 2001 revelou um conjunto relevante de dados urbanísticos acerca do grande desenvolvimento que o arrabalde ocidental da cidade muçulmana de Al-Ushbuna atingiu num período compreendido entre o fim das primeiras Taifas e o período almorávida, quando cessa a dominação islâmica de Lisboa. A sequência ocupacional do local revelou um curto espaço de tempo de vida da urbanística ali patenteada, permitindo situar preliminarmente os horizontes contextuais em três grandes etapas distintas: os elementos pré- urbanísticos; as unidades associadas à instalação e ocupação dos distintos espaços; por fim, os horizontes relacionados com o abandono e primeiras colmatações dos espaços antes ocupados. Palavras-chave: Arqueologia Urbana; Arqueologia Medieval Islâmica; Séculos XI-XII; Urbanismo; Cultura Material. Abstract: The archaeological works carried out in Praça da Figueira between 1999 and 2001 revealed significant data for the study of urban development of the west suburb of the Islamic city of Al-Ushbuna (Lisbon). Short lived, the occupation occurred in a specific moment between the end of first Taifas Kingdoms (late 11th century) until the end of the Almoravid dynasty, in 1147, date of the Christian conquest of Lisbon. Despite the short period of time of urban occupation, the archaeological record revealed three distinct phases: the pre-urban moment, the installation of houses and quarters and, finally, the abandonment levels. Keywords: Urban Archaeology: Medieval Islamic Archaeology; 11th-12th centuries; Islamic urbanism; Material culture. Contextos islâmicos e cerâmicas da Praça da Figueira (Lisboa): abordagem a três contextos das etapas finais da dominação islâmica de al-Ushbuna Terra, pedras e cacos do Garb al-Andalus 383 1. Introdução A escavação de 1999-2001 da Praça da Figueira enquadrou-se num projecto municipal de reabilitação do espaço, tendo incidido sobre a construção de um parqueamento automóvel subterrâneo comissionado a um grupo privado. Considerou-se, à época, que o Museu da Cidade (hoje Museu de Lisboa), e o seu extinto Serviço de Arqueologia, seriam especialmente vocacionados para coordenar os trabalhos arqueológicos associados ao projecto, dado a instituição deter um maior capital de conhecimento acumulado sobre o ponto arqueológico da cidade, considerando as escavações por si conduzidas em 1960 e o acompanhamento de 1961-2. Tendo tido lugar num período de especial vitalidade da Arqueologia Portuguesa, com o recém-criado IPA-Instituto Português de Arqueologia, quando muito do futuro da praxis da disciplina se discutia ainda, o conhecimento em 1999 da existência dos vários horizontes já antes atestados no subsolo da praça (Hospital Real de Todos-Os-Santos, via e necrópole romana, ocupações da Idade do Bronze) não invalidou o projecto do parqueamento, sob condição da sua integral escavação e registo, aplicando o “primado da conservação pelo registo” antes da sua consagração na lei actual de 2001. O conhecimento prévio das antigas ocupações do espaço da Praça da Figueira encerrava, todavia, uma lacuna equivalente a toda a Idade Média, situada no desfasamento entre as escavações de Agosto a Setembro de 1960 e de Fevereiro de 1962, que deixaram em branco os cerca de 3 m de potência estratigráfica situados entre os níveis de Época Moderna e os romanos de abandono. Deste modo se explica que o surgimento de uma densa urbanística medieval muçulmana num dos quadrantes da área intervencionada em 1999-2001 se tenha constituído como novidade, para mais por estar além do que então se perspectivava para o desenvolvimento do arrabalde ocidental de al-Ushbuna (Torres, 1994). O presente trabalho conjuga a investigação, entretanto conduzida, relativa a contextos e cerâmicas associados, respectivamente, a uma estrada do período de dominação islâmica, a uma zona de circulação na urbanística arrabaldina e a uma unidade doméstica com cronologias aparentemente similares. 2. Uma visão geral das ocupações do espaço da Praça da Figueira no período de dominação islâmica de Lisboa A percepção que desde cedo se gerou sobre os contextos medievais muçulmanos da Praça da Figueira foi a de que equivaleriam a um lapso de tempo situado entre momentos avançados do século XI e o século XII (Silva, Gomes e Gomes, 2011; Silva, 2012). Significa isto, grosso modo, que equivaleriam, sobretudo, ao domínio almorávida de al-Ushbuna, mas implicando também a representação contextual dos momentos ulteriores à conquista cristã de 1147, se bem que não atingindo o século XIII na zona de carácter doméstico e artesanal. As ocupações correspondem a três realidades bem distintas: a ocidente, um troço de uma estrada, cuja tradição do itinerário remonta à época imperial romana, mas onde o traçado em nada se relaciona com a que deteve naquele período, sendo a estrutura medieval aquela na qual se filia directamente toda a tradição do desenho urbano lisboeta que perduraria ao longo da Idade Média e Época Moderna, até 1775; duas estruturas hidráulicas e um muro, situados na proximidade imediata da estrada, compunham o lado mais visível das utilizações agrícolas do espaço, prévias à instalação da urbanística arrabaldina (e que pelo menos num dos casos lhe sobreviveria), documentadas de igual modo por algumas estruturas negativas muito 384 dispersas (algumas seguramente fossas detríticas, outras eventualmente “cavas” destinadas ao plantio); por fim, a instalação, na quase a totalidade do quadrante SE/E escavado em 1999-2001, de um complexo de edificado urbano equivalente à fase de maior expansão do arrabalde ocidental da cidade de al-Ushbuna. Parece não haver uma relação umbilical entre a presença da estrada, a ocidente, e a origem e o desenvolvimento da urbanística a oriente. A instalação das unidades domésticas e dos arruamentos sugere relacionar-se com maior probabilidade com a existência de um outro eixo viário localizado mais para este da área escavada, que terá actuado como o polo de estruturação e organização do espaço. A estrada equivalerá, com alta probabilidade, ao caminho bem documentado nas fontes manuscritas portuguesas dos séculos XIII-XVI que passava pelo Poço do Borratém (etimologicamente bir-ut-tin, poço da figueira) em direcção à Mouraria medieva, eixo cristalizado na antiga e importante Porta da Mouraria da muralha fernandina de Lisboa (1373-1375), mais tarde conhecida por Arco do Marquês de Alegrete (Silva, 2017, p. 406). Fig. 1 – Localização da escavação da Praça da Figueira 1999-2001 no núcleo histórico antigo de Lisboa e sua relação com a medina e com os eixos de comunicação terrestres da cidade. Contextos islâmicos e cerâmicas da Praça da Figueira (Lisboa): abordagem a três contextos das etapas finais da dominação islâmica de al-Ushbuna Terra, pedras e cacos do Garb al-Andalus 385 3. Três contextos medievais muçulmanos da Praça da Figueira e suas cerâmicas O princípio metodológico prevalente da intervenção foi o da “open area”, de há muito preconizado por Philip Barker e Edmund Harris (1993), mas viu-se sujeito a adaptação de uma malha quadriculada com 5 m de lado, aspecto mais conforme ao enunciado wheeleriano. Esta opção foi, no essencial, motivada pela pouca experiência efectiva da quase totalidade dos escavadores em relação ao princípio de escavação que deveria primar.Por esta razão, alguns dos sectores receberam designações em função de eixos de ordenadas (alfabéticas) e abcissas (numerais decrescentes) equivalentes às quadrículas. Noutro sentido, as indicações de proveniência das recolhas acumulam informações com natureza vária (sectoor/quadrícula; ambiente ou zona, unidade estratigráfica e data de recolha) e, em algumas zonas, aproveitou-se a existência ocasional de bancadas físicas para efecetuar o controlo estratigráfico vertical. Fig. 2 – Estruturas islâmicas da Praça da Figueira com indicação dos três contextos seleccionados. O tratamento dos dados que aqui se apresentam foi organizado por fases em função de cada sector, de modo a facilitar a sua leitura específica e a associar nela os “pacotes” cerâmicos concretos. Com uma preocupação primeira sobre a definição cronológica, a leitura visou esclarecer de forma sustentada a datação dos diferentes pontos, a que correspondem de igual modo abordagens todavia distintas: no que respeita à estrutura viária procedeu-se somente ao tratamento dos materiais considerados datantes, ao passo que no que se refere à unidade doméstica e à zona de circulação urbana se efectuou o processamento sistemático da totalidade dos conjuntos cerâmicos (excluindo-se desta apresentação a olaria de construção) seguindo os protocolos quantitativos preconizados por Orton, Tyers e Vince (1993; Arcelin e Tuffreau-Livre, 1998). De um ponto de vista tipo-morfológico, seguiram-se os “protocolos” disponibilizados pelo grupo CIGA. 386 3.1. A estrada islâmica O eixo viário foi identificado no extremo ocidental da área escavada, já exterior ao espaço destinado ao parqueamento automóvel (sector B-D/7-9). Tratou-se de uma zona proposta à instalação de novo posto técnico subterrâneo da Carris (empresa de transportes públicos), tendo o trabalho sido fortemente condicionado pelos requisitos de segurança, validados por um perito externo à obra (incluindo aqui dono de obra, empreiteiro, organismo da tutela patrimonial e direcção da escavação), cujo parecer (aceite pela tutela) implicou o sacrifício localizado na maioria das zonas perimetrais deste espaço. Ainda assim, foi possível escavar e registar um tabuleiro preservado ao longo de uma extensão máxima de 13,5 m, composto por pedra de média dimensão unida com “terra batida”, contendo inertes pétreos e cerâmicos (de construção) de pequena dimensão formando um empedrado ou calçada, ligeiramente arqueado na zona central. Com 3,60 a 3,80 m de largura maior, os seus limites foram compostos por elementos pétreos de maior calibre do que os que compunham o piso de circulação, colocados em fiadas laterais de forma ligeiramente sobrelevada em relação ao exterior. Muros em pedra seca foram erigidos de ambos os lados externos ao tabuleiro, delimitando arquitectonicamente a estrutura: o primeiro, a ocidente, deixava uma zona livre entre a fiada de limite do piso e o seu exterior de cerca de 1,80 m de largura, tendo a construção sido sucessivamente reparada e alteada em época ulterior ao período de dominação islâmica, quando o tabuleiro viário era já em terra batida nomeado na documentação coeva como Corredoura; o oposto, a oriente, cuja primeira fase se mostrava mais destruída e afectada por remodelações/reedificações posteriores que provocaram flutuações de localização e orientação, definia uma zona não edificada menor, de 1,40 m de largura; ambas as zonas constituíam, decerto, áreas públicas, servindo cumulativamente para a drenagem do tabuleiro do piso de circulação: no lado ocidental a estratigrafia mostrava uma vala sucessivamente colmatada e reavivada, equivalente a uma estrutura de escoamento e condução de águas pluviais, sendo admissível a existência de outra similar do lado contrário, não objecto de escavação. Estas observações significam que o conjunto das estruturas que compunham a estrada ocupava, no total, uma faixa de aproximadamente 8 m de largura. No que se refere à dinâmica do contexto viário, interessa aqui sobretudo o segmento atribuível à época medieval de dominação islâmica da cidade, nela se incluindo os elementos imediatamente sequentes, quando Lisboa integra o reino de Portugal. Como seria expectável, o conjunto mais volumoso de documentação reporta-se aos momentos preparatórios da instalação da estrutura, representados por três depósitos abrangidos pela totalidade da área em estudo, mas também pelas edificações murárias, pelo rudus e piso do tabuleiro de circulação. Nos depósitos de mais recuada cronologia recolheu-se, de entre a cerâmica seleccionada para estudo (Mota, 2002), um conjunto de taças vidradas interna e externamente, onde se fazem representar taças de carena alta e bordo de lábio de secção triangular extrovertido e pendente, taças de bordo apontado provavelmente com o mesmo corpo mas de carena suave, e outras de tendência hemisférica dotadas de bordo afilado em bisel arredondado no lábio. Os pés são em anel, curtos e baixos. Em dois fundos, de provável filiação local/ regional, identificaram-se decorações a manganês sobre o vidrado melado. As cordas secas totais destes níveis preparatórios para a instalação da estrutura viária equivalem a taças de bordo extrovertido e perfil arredondado, de corpo de tendência hemisférica ou de carena suave, menos alta. As decorações são, como é usual, internas, em tons de amarelo-alaranjado, de esbranquiçado e verde, com as reservas bem delimitadas. Contextos islâmicos e cerâmicas da Praça da Figueira (Lisboa): abordagem a três contextos das etapas finais da dominação islâmica de al-Ushbuna Terra, pedras e cacos do Garb al-Andalus 387 Fig. 3 – Estrada Islâmica revelada na Praça da Figueira e perfil N das quadrículas B-D 8. A ocidente do piso, uma vala de drenagem foi aberta entre o limite da via e o muro lateral que demarcava o espaço viário, documentando-se duas acções sucessivas de definição/reconfiguração da estrutura negativa, depois preenchida por depósitos sucessivos. Nestes dois momentos, o mais antigo revelou um candil não vidrado, de corpo de tendência cónica e onde o bico está em falta, mas que, por paralelos com outros exemplares inéditos do sítio, julgamos ser curto e não facetado. 388 Sobre as realidades que compunham a via, constatou-se uma sequência deposicional longa, onde estão presentes várias acções de repavimentação do piso de circulação em terra batida e respectivas preparações, ocorridas durante a I dinastia portuguesa e onde, como se assinalou antes, se observa uma muito ligeira flutuação das demarcações do espaço. Nos cinco primeiros depósitos que se sobrepõem ao antigo pavimento em terra batida e pedra do período medieval muçulmano, as cerâmicas mantêm o perfil do período antecedente, pontuando elementos mais antigos, decerto remobilizados, caso de dois fundos de pé em anel curtos e pouco desenvolvidos, um dos quais evidenciando decoração a traço de manganês sobre vidrado melado. Entre elas, encontra-se também um conjunto de fragmentos em corda seca total, com mais que provável diversidade de origem e cronologias. Em dois dos casos, porém, os paralelos disponíveis de Mértola remetem os recipientes para elaborações feitas no sul peninsular durante o período almóada (Gómez-Martínez, 2004), o que vem confirmar a datação pós-conquista cristã de Lisboa. Fig. 4 – Cerâmica vidrada e candis recolhidos nos contextos associados à estrada islâmica da Praça da Figueira. Contextos islâmicos e cerâmicas da Praça da Figueira (Lisboa): abordagem a três contextos das etapas finais da dominação islâmica de al-Ushbuna Terra, pedras e cacos do Garb al-Andalus 389 3.2. A “Via F” A “Via F” fica localizada entre as casas “11” e “12”, conectando as ruas “B” e “C”, que lhe eram perpendiculares, e “E”, que a prolonga para sul (Fig. 2). Esta zona de circulação destacava-se das restantes identificadas na Praça da Figueira pelos seus 3 m de largura e pela sua pavimentação em pedras de pequena dimensão, quese supõe originalmente cobrindo a totalidade do espaço, ou quase (Silva, Gomes e Gomes, 2011, p. 22; Mira, 2018, p. 25). Esta calçada/empedrado terá sido construída como piso de rua (espaço público) ou de adarve (espaço semiprivado), questão que os vestígios arqueológicos evidenciados pela escavação não permitiram esclarecer de forma categórica (Pires, 2020, p. 33). Fig. 5 – Planta da “Via F”. 390 As cerâmicas associadas à calçada da “Via F” e a colapsos de estruturas adjacentes provêm de oito unidades estratigráficas distintas. Estas correspondem a cinco fases: uma primeira fase, o estágio de preparação do terreno para construção (terraplanagens), constituído por duas U.E.s; uma segunda fase, equivalente à etapa de construção, em que se situa o empedrado e o sedimento destinado ao seu assentamento; a terceira fase, representando o período de uso, evidenciado pelos escassos materiais presentes no interface sobre a calçada; por seu turno, a quarta fase está ilustrada por colapsos das estruturas, primeiras etapas no registo arqueológico do abandono, a que estão associadas duas U.E.s; para finalizar, a quinta fase, correspondente a uma segunda etapa do abandono e à colmatação, parcialmente sobreposta à anterior, evidenciada pela sobreposição de depósitos de acumulação e revolvimentos, constituída essencialmente por três U.E.s (Pires, 2020, pp. 33-34). Como se infere da periodização proposta, os momentos menos bem representados no registo arqueológico equivalem ao período do uso da estrutura de circulação. No conjunto cerâmico do complexo contextual foram contabilizados 390 NMI (Número Mínimo de Indivíduos) morfologicamente identificáveis. A loiça de cozinha é a que se encontra mais bem representada, perfazendo metade do conjunto estudado (50%), seguindo-se a loiça de mesa (40%), de armazenamento (6%), de uso doméstico diversificado (tampas= 2%), objectos de iluminação (1%) e ligados ao uso artesanal (olaria= 1%). O acervo cerâmico é composto, maioritariamente, por cerâmica não vidrada (81%), por comparação aos vidrados (19%). Relativamente aos fabricos verifica-se uma clara predominância das produções locais/regionais (94%) face às produções exógenas (6%) (Pires, 2020, p. 38). A análise das pastas (meramente macroscópica) aponta para a existência de produções locais/ regionais de cerâmicas com pintura a branco, vermelho, decoração polícroma a verde e negro e corda seca parcial (Pires, 2020, p. 98). A pintura a preto foi identificada apenas em fabricos de proveniência exógena, encontrando-se, portanto, conforme aos estudos arqueométricos (químicos e mineralógicos) de há muito realizados sobre materiais recolhidos em Lisboa, que apontam para a importação deste tipo de peças (Dias, Prudêncio e Gouveia, 2003). Foram também identificadas elaborações minoritárias em corda seca total, verde e manganês e em pastas calcárias com pintura a vermelho, cuja origem será, do mesmo modo, exógena (Pires, 2020, p. 98). Somente foi verificada a presença de fabricos importados na loiça de mesa. Estes surgem nas categorias funcionais de jarrinha e de jarro/bilha, no caso da loiça com superfícies não vidradas, e em tigelas e num fragmento de parede, possivelmente pertencente a uma jarrinha, para a cerâmica com superfícies vidradas. O serviço de mesa apresenta não só pastas exógenas, bem decantadas e cozidas, como um maior número de elementos decorativos, por contraposição às restantes categorias funcionais, o que sugere a utilização de loiças de melhor qualidade à mesa pelas populações próximas e do próprio local, em detrimento das elaborações destinadas à confecção e armazenamento alimentar (Pires, 2020, p. 99). Os elementos exumados nos depósitos associados às terraplanagens indicam-nos que a construção da “Via F” e respectivo piso empedrado ter-se-á realizado após Lisboa ter integrado o domínio almorávida, em finais do século XI/inícios do século XII. Destaca-se, de entre este conjunto cerâmico, uma base de tigela estampilhada, técnica que surge sob o domínio das dinastias africanas, ainda no período almorávida, tornando-se assaz mais frequente sob domínio almóada (Catarino, 1997, p. 827; Cavaco et al., 2013, p. 375; Gómez-Martínez, 2018, p.158), elemento que “empurra” a cronologia para segmento almorávida pleno. Outros elementos do mesmo horizonte remetem para datações similares: um candil vidrado com bico muito bem facetado, característica que remete o objecto para os momentos avançados do século XI e Contextos islâmicos e cerâmicas da Praça da Figueira (Lisboa): abordagem a três contextos das etapas finais da dominação islâmica de al-Ushbuna Terra, pedras e cacos do Garb al-Andalus 391 centúria seguinte (Serrano, 2011, p. 73); fragmentos de panela ou caçoila com vidrado no interior, prática que é iniciada entre os finais do século XI e os inícios do século XII (Gonçalves et al., 2013, p. 1027); por último, a presença de um fragmento de fogareiro, forma encontrada na cidade de Lisboa apenas em contextos almorávidas, não sendo conhecido em contextos califais e primeiras Taifas (Gómez-Martínez et al., 2012, p. 28). De igual modo, a presença de algumas tigelas/caçoilas em cerâmica não vidrada apresentando o bordo com lábio em aba oblíqua, morfologia frequentemente encontrada em contextos almorávidas, bem como as tigelas de carena acentuada, em cerâmica vidrada e não vidrada, e as tigelas vidradas de bordo com lábio triangular, vêm no seu todo apontar para a mesma cronologia (Pires, 2020, pp. 85-86). As tigelas de carena alta parecem surgir a partir do período das primeiras Taifas ou já no século XII (Pérez Asensio e Jiménez Castillo, 2018, p. 182), sendo concordantes com o remanescente do perfil cerâmico. Uma vez que a opção metodológica aqui aplicada às diferentes designações de tigela e caçoila dependeu unicamente da presença de marcas de fogo (não pós-deposicionais), é importante referir que houve casos em que, embora o bordo e corpo da peça não apresentasse quaisquer marcas, o mesmo não foi verificado na sua base (Pires, 2020, pp. 58-67). Na pavimentação da calçada apenas foi identificado um fragmento de barra de forno reaproveitado para a sua construção (Pires, 2020, p. 88). Duas outras barras de forno, e alguns outros poucos materiais cerâmicos incaracterísticos recolhidos no interface superior do empedrado, não nos permitem avançar qualquer cronologia dissonante da atribuída à fase anterior (Pires, 2020, p. 89). Nos colapsos das estruturas adjacentes à “Via F”, como no último depósito de colmatação, foram sobretudo identificados elementos com cronologia de novo inserível entre a segunda metade do século XI e primeira metade do século XII. Destaca-se desta fase mais tardia, como elemento mais antigo, uma taça elaborada com técnica de verde e manganês, onde é manifesta a peculiaridade do uso da técnica decorativa (traço muito fino a manganês, o óxido de cobre-?- ultrapassando os limites negro-acastanhados). Visualmente a pasta indica poder tratar-se de produção local/regional, e o vidrado externo verde manchado de laranja encontra-se também muito frequentemente entre elaborações lisboetas. O pouco desenvolvimento do pé, bastante baixo, aponta para momentos mais recuados do que o período almorávida, possivelmente ainda de Taifas. Foram também identificadas formas com características frequentemente encontradas em contextos de cronologia ulterior, almóada, casos de uma asa de jarro ou jarrinha com pináculo (Fig. 6) e de uma base de jarro ou jarrinha com pé anelar desenvolvido. Acrescente-se-lhe, também, uma tampa de pegadeira central com bordo em barbela, a que normalmente se atribui cronologia medieval portuguesa. A grande quantidade de elementos vasculares de cronologia almorávida, verificada na última fase de abandono do bairro, onde as ocorrências mais tardias são escassas, mas significantes, poderá estar relacionada com os revolvimentos verificados nos níveis superioresdas terraplanagens mais antigas por acções ulteriores e com a remobilização dos materiais provocada por estes, embalando-os em depósitos formados em datas posteriores à conquista cristã. Contudo, já foi suficientemente demonstrado que algumas das morfologias e técnicas decorativas produzidas sob o domínio islâmico continuariam a ser utilizadas e produzidas no período pós-1147 (Bugalhão e Folgado, 2001, p. 125; Gomes et al., 2005, p. 226; Salomé e Calado, 2012, p. 23), tal como se verifica noutras localidades, destacando-se aqui Santarém pelo critério de proximidade geográfica (Liberato, 2012, p. 117; Liberato e Santos, 2013, p. 950), como, em iguais circunstâncias, Palmela (Fernandes, 2005, p. 320). 392 Fig. 6 – Selecção de cerâmicas recolhidas nos contextos associados à “Via F”. Contextos islâmicos e cerâmicas da Praça da Figueira (Lisboa): abordagem a três contextos das etapas finais da dominação islâmica de al-Ushbuna Terra, pedras e cacos do Garb al-Andalus 393 3.3. A “casa 15” Na zona mais a sul escavada em 2000 foi exumado o remanescente de várias unidades domésticas pertencentes a um mesmo quarteirão, longo, com mais de 35 m, localizado entre as ruas “C”, “D” e “E”. Eram nelas distintos os estados de conservação, como era variável a área de cada uma delas. De entre elas destacavam-se como mais completas e de planta total reconhecível as casas “14” e “15”, tendo a última sido seleccionada como tema de dissertação de mestrado de um dos autores (Mira, 2018). Como acontece com a generalidade dos quarteirões islâmicos identificados na Praça da Figueira, os muros de limite de cada um parece terem sido construídos de forma coerente num primeiro momento, só posteriormente se tendo recorrido à subdivisão para distinção entre habitações, mediante muros partilhados, para, num último momento, se ter procedido à compartimentação interna de cada uma das unidades. Com um formato trapezoidal, a habitação “15” apresenta área total de 40,8 m2, com aproximadamente 6 m de largura por 6,80 m de profundidade. Esta escala fá-la integrar o grupo das edificações de menor dimensão no contexto do local, embora o seu valor não diste da área média estimada para o conjunto das estruturas, que ronda os 48 m2 (Silva, Gomes e Gomes, 2011, p. 21). A planta da unidade doméstica “15” segue os preceitos islâmicos. O único acesso era feito a partir de um vão orientado ao meio-dia e que se abria na fachada sul, mostrando cerca de 0,90 m de largura, que conectava a edificação com a “Via D”. Franqueada esta porta, acedia-se a uma área não coberta de 3,40 x 3,20 m correspondente ao pátio. Este último elemento desde cedo colocava alguns problemas, dada a ausência de záguan: numa primeira proposta foi aventada graficamente a presença deste importante elemento integrante do modelo de casa urbana muçulmana medieval (Silva, Gomes e Gomes, 2011, p. 22): afigurando-se estranha a existência de um záguan e de um pátio ocupando, no conjunto formado por ambos, uma área inferior a 10,8 m2, a consulta mais aturada da documentação arqueológica, e a presença nela assinalada dos restos do pavimento de terra batida do pátio, demonstraram desde cedo que no desenho da casa “15” o záguan estava ausente e se acedia directamente da porta da rua para o pátio (Silva, 2012). Este dado pode assumir um especial significado, dado que este desrespeito pelos preceitos praticados na casa urbana islâmica pode indiciar uma origem rural dos utilizadores da “casa 15”. Lateralmente ao pátio, e ladeando-o, dispunham-se dois pequenos compartimentos rectangulares, delimitados por muros mais estreitos (0,30 m de espessura), provavelmente de taipa erigida sobre soco de pedra seca. Aquele à esquerda da entrada definia área útil de 1,10 x 3,10 m. No seu ângulo mais meridional, junto à “rua D”, encontrava-se uma depressão parcialmente forrada a fragmentos de telha no bordo, junto ao piso em terra batida; uma cavidade transversal ao muro de limite da unidade doméstica ligava esta estrutura com o exterior, com a descarga da latrina num possível pequeno beco. Não foi, todavia, possível intervencionar arqueologicamente o mais que provável poço negro existente no exterior da habitação, solução documentada noutros pontos da urbanística islâmica da Praça da Figueira (Mira, 2018, p. 25). 394 Fig. 7 – Planta da “Casa 15”. No lado oposto à latrina estava instalada a cozinha, acondicionada num espaço ligeiramente trapezoidal de 1,25 x 3,50 m. Na parte mais distante da porta deste compartimento, de encosto à face interna do muro de fachada, foi construído um forno de que restou a base, parcialmente forrada a fragmento de telha, e o anel lítico que o limitava. No interior foram detectadas cinzas e carvões, e o solo argiloso mostrava- -se sujeito à acção do calor (Mira, 2018). A totalidade do lado oposto ao da entrada equivalia ao salão, o compartimento maior da casa, com 4,20 m de largura e 2,08 m de profundidade. Embora neste caso não tenha sido possível verificá-lo, pois o salão foi ampla e profundamente afectado por intervenções da obra do parque de estacionamento, em dois Contextos islâmicos e cerâmicas da Praça da Figueira (Lisboa): abordagem a três contextos das etapas finais da dominação islâmica de al-Ushbuna Terra, pedras e cacos do Garb al-Andalus 395 outros salões de casas de idênticas dimensões da Praça da Figueira, aliás próximas à casa “15”, os pisos de terra batida mostraram uma pequena zona rubefacta relativamente centralizada, num caso circular e noutro rectangular, que deverão corresponder ao local de assentamento de contentores de calor. Presume-se, por consequência, que num ou nos dois espaços laterais do salão se situasse a(s) área(s) de alcova. Como exigia o preceito islâmico, a entrada do salão a partir do pátio, de 0,90 m de largura, estava desfasada do alinhamento da entrada da unidade doméstica a partir da rua, deste modo impedindo a visão do seu interior a partir dali. A sequência detectada na unidade foi periodizada em quatro fases: um primeiro momento equivalente aos trabalhos de preparação do terreno para a construção, onde se integram três unidades estratigráficas principais de configuração de tendência horizontal abrangendo a totalidade da área e sobrepassando-a, tendo sido notada uma maior complexidade estratigráfica na zona oriental da casa, sob o muro de limite lateral, pois aqui era nítida a existência da colmatação de uma vala aberta para a fundação do muro, que integrava cinco distintos depósitos, muito pouco espessos (onde infelizmente os elementos cerâmicos eram escassos e incaracterísticos); a segunda fase equivale ao segmento compreendendo o uso e as acções construtivas associadas a este, incluindo a pavimentação, estruturação de forno na cozinha, da fossa da latrina e pavimentações (terra batida e aplicação de fragmentos de telha relativamente planos), à qual se podem associar três outras unidades deposicionais; uma terceira fase associa-se ao interface de abandono da unidade doméstica, convindo destacar a identificação em processo de escavação de um candil depositado in situ na soleira da porta que ligava pátio e salão, de uma taça de bordo introvertido e fragmentos de parede de talha próximos ao forno da cozinha e de uma taça vidrada de produção local/regional no topo do enchimento da fossa da latrina (ver quadro abaixo), estando os restantes elementos muito fragmentados; por fim, os níveis de abandono-colmatação do espaço da quarta fase, que mostraram a presença frequente de fragmentos de telha indiciando o tipo e espacialidade das coberturas (exclusivamente em telha, estando outras soluções ausentes do local), todavia deve enfatizar-se aqui que estes níveis que cobrem o espaço da habitação “15” são o produto não só dos colapsos das taipas e das olarias de cobertura mas também de acções intensivas de remeximento sobre estes, dado que, para além das lacunas de pedra patentes em zonas localizadas dosmuros, não se detectaram parcelas de colapso de telhado com os diversos elementos fragmentários em articulação (Mira, 2018). Como aconteceu na zona ocupada pela urbanística do bairro tratada no apartado anterior (“Via F”), os perfis cerâmicos das diferentes fases reconhecidas em associação à “Casa 15” não evidenciaram diferenças significativas entre as diferentes fases. O conjunto cerâmico global da “Casa 15” mostra uma incidência de apenas 21,4% de cerâmica vidrada, maioritariamente taças de elaboração local/regional como as documentadas nas olarias do NARC e Mandarim Chinês (Bugalhão, Gomes e Sousa, 2003; Bugalhão, Sousa e Gomes, 2004), registando 1,9 % de cerâmica de pastas calcárias ostentando pintura a preto e 0,4 % a vermelho, com igual percentagem de elaborações dotadas de digitações (Mira, 2018, p. 52). Outros elementos prévios ao uso da unidade doméstica em apreço, merecem também referência circunstanciada. Fora do âmbito do estudo executado por um dos autores (Mira, 2018), havia sido já publicada da Praça da Figueira uma elaboração lisboeta de jarra com decoração de figos místicos em corda seca parcial, peça a que falta o colo, bordo e as duas asas, e que se expõe no Museu de Lisboa (Fernandes et al., 2015, p. 652, fig. 3, n.º 5). Datável do período dos primeiros reinos de taifa, acrescenta-se nesta ocasião, que a sua recolha se produziu, conjuntamente com escassa outra cerâmica com pintura a branco (3 fragmentos, um dos quais um ombro de jarrita), no interior do remanescente de uma pequena fossa ovalada localizada sob os níveis de preparação para a construção da “Casa 15” na zona do salão, pelo que a sua cronologia 396 do século XI vem corroborar as leituras cronológicas aqui entretanto produzidas a propósito da unidade doméstica. Um outro aspecto a referir aqui é também a peculiaridade da identificação de um pequeno trempe nos contextos de preparação para a construção da unidade. Algum interesse antropológico merecem, de igual modo, os materiais associados ao interface de abandono da habitação (vide Quadro 1, abaixo). Os elementos são, porém, de valor desigual para as inferências, pois apresentam-se em distintos estados de conservação, sendo raros os objectos que ostentam partes desenvolvidas dos seus perfis (candil vidrado e taça vidrada carenada) ou vários fragmentos de um mesmo indivíduo (talha, infelizmente estando somente presentes fragmentos da parede), devendo portanto valorizar-se sobretudo aqueles que se acabou de cotejar. Quadro 1 Composição do conjunto artefactual cerâmico do interface [2076] de abandono da “casa 15” (seg. Mira, 2018, pp. 81-82, revisto). Morfologia Categoria Produção NMI NMI % Panela Loiça de cozinha Local/Regional 4 28,5 Caçoila Loiça de cozinha Local/Regional 1 5,5 Fogareiro Loiça de cozinha Local/Regional 1 5,5 Pote Loiça de cozinha Local/Regional 1 5,5 Tampa Loiça de cozinha Local/Regional 1 5,5 Cântaro Contentor de líquidos Local/Regional 1 5,5 Jarra Contentor de líquidos Local/Regional 1 5,5 Jarrita Loiça de mesa Local/Regional 1 5,5 Taça vidrada Loiça de mesa Local/Regional 1 5,5 Taça/Tigela Loiça de mesa Local/Regional 4 28,5 Talha Armazenamento Local/Regional 1 5,5 Candil vidrado Iluminação Local/Regional 1 5,5 Totais 18 100 De qualquer das formas, é interessante notar a relativa paucidade do conjunto mais plausível de ser associado às vivências da unidade habitacional, que julgamos de alguma forma reflectir o nível socio- económico dos seus habitantes. Noutro sentido, ressalta do conjunto cerâmico global associado à “Casa 15” a ausência generalizada de algumas produções. Esta lacuna merece ser particularizada por razões distintas: por um lado, e considerando tratar-se de um conjunto composto por 4040 fragmentos (Mira, 2018, p. 29), a não detecção no estudo efectuado sobre a cerâmica de elaborações em corda seca total ou parcial (Mira, 2018, pp. 51-52); por outro, os indicadores cronológicos que constituem o não se ter registado a presença de qualquer elemento em “verde e manganês/negro” ou, por oposição, de taças vidradas estampilhadas. Estas observações compaginam, no seu todo, um panorama que aponta para um período relativamente limitado decorrido entre a edificação e o abandono, que genericamente se pode remeter para a primeira metade do século XII. Se a taça vidrada encontrada no interface de abandono permitiria admitir datações remontando ao período das primeiras Taifas ou almorávida inicial, pela relativa delicadeza das suas paredes ou pelo pouco desenvolvimento do seu pé em anel, paralelos de Mértola permitem situá-la no período almorávida final (Gómez Martinez, 2004; Gonçalves et al., 2013, p. 1035). Por seu turno, a presença do candil vidrado de bico facetado de tendência prismática a que vimos fazendo referência tem de ser posta em paralelo com o achado de bases pertencentes à mesma morfologia e produção afim encontradas nos níveis de preparação para a construção da unidade, sendo portanto elementos sugestivos de datações compreendidas entre os finais Contextos islâmicos e cerâmicas da Praça da Figueira (Lisboa): abordagem a três contextos das etapas finais da dominação islâmica de al-Ushbuna Terra, pedras e cacos do Garb al-Andalus 397 do século XI e o século XII dadas as características morfológicas destes objectos (Serrano, 2011, p. 73). Em suma, parece plausível que os contextos arqueológicos associados à existência da unidade doméstica “15” se circunscrevam somente ao período almorávida pleno e final. Fig. 8 – Selecção de cerâmicas recolhidas nos contextos associados à “Casa 15”. 398 4. Considerações finais O conjunto de entidades presentes no registo arqueológico da Praça da Figueira foi, desde os primeiros momentos de publicação de síntese, apontado para cronologias de finais do século XI a meados do século XII (Silva, Gomes e Gomes, 2011; Silva, 2012). As razões para o surgimento, no actual espaço da Praça da Figueira, da urbanística arrabaldina ter-se-ão prendido com a forte pressão demográfica sentida na cidade na etapa final da dominação islâmica. Este aumento populacional deverá traduzir o afluxo a al-Ushbuna de populações diferenciadas, quer deslocadas do aro rural, quer de outras geografias mais setentrionais, procurando a segurança das suas muralhas (Silva, Gomes e Gomes, 2011). Já no que se refere ao desenho urbano, que se apresenta dotado de alguma regularidade, duas hipóteses explicativas foram entretanto avançadas: tratar-se de uma promoção planificada conduzida por um poder urbano decisor que seria, necessariamente, forte (Silva, Gomes e Gomes, 2011, p. 23); ao invés, equivaler a uma adaptação do desenho do parcelário agrário pré-existente, em espinha, explicação que dispensaria uma acção tão interventiva e directamente envolvida por parte das autoridades almorávidas da cidade (Silva, 2012, p. 144), podendo ter sido promovida por particulares, hipótese explicativa que parece ajustar-se melhor aos outros dados arqueológicos existentes na zona escavada não urbanizada, a despeito da sua escassez. Os estudos que vêm sendo executados sobre os contextos têm corroborado, genericamente, as propostas antecedentes, muito embora sejam notórios casos pontuais de outras unidades domésticas da urbanística muçulmana onde se verifica a continuidade da ocupação após a conquista cristã, o que acontece igualmente com uma das duas estruturas hidráulicas ligadas à exploração agrária de parcelas do espaço (poço D 4/5, em curso de estudo). Interessava de sobremaneira, com a maior profundidade da abordagem aos contextos da estrada islâmica (Mota, 2002), da “Casa 15” (Mira, 2018) e “Via F” (Pires, 2020), aferir e refinar as atribuições cronológicas a partir dos perfis dos conjuntos cerâmicos associados aos momentos de instalação das estruturas. O resultado mostrou diferenças perceptíveis nas composições, discretas mas significantes: em primeiro lugar, a estrada parece corresponder ao elemento estruturalde mais antiga cronologia, que se não pode recuar mais do que finais do século XI, enquadrando-se, portanto, no segmento temporal em que a cidade está já sob domínio almorávida; no que se refere à urbanística instalada no quadrante oriental da área escavada, afigura-se que os elementos materiais fornecem base consistente para situar a instalação da “Casa 15” e “Via F” dentro do período da mesma dinastia norte-africana, todavia décadas mais tarde, durante o período almorávida pleno. De um ponto de vista socio-económico, as composições dos “pacotes” cerâmicos demonstram não estarmos perante os estratos mais favorecidos da população, como seria de esperar numa zona tão periférica dentro do próprio arrabalde ocidental de Lisboa, representando o conjunto gerado na Praça da Figueira o seu episódio de maior expansão. Noutro sentido, a peculiaridade arquitectónica da “Casa 15”, onde está ausente o zaguán, pode evocar uma origem não urbana dos seus ocupantes, observação que pode ser estendida a mais quatro outras habitações próximas, pelo menos: nos mobiliários domésticos não há nada que nos sugira a conexão dos indivíduos com as actividades artesanais oleiras, com os raros elementos deste cariz a surgirem nas estratigrafias prévias ou reutilizadas na construção e instalação das estruturas da urbanística muçulmana. Contextos islâmicos e cerâmicas da Praça da Figueira (Lisboa): abordagem a três contextos das etapas finais da dominação islâmica de al-Ushbuna Terra, pedras e cacos do Garb al-Andalus 399 Bibliografia citada ARCELIN, Patrick; TUFFREAU-LIBRE, Marie, eds. (1998) – La quantification des céramiques. Conditions et protocole. Actes de la table ronde du Centre Archéologique Européen du Mont Beuvray (Glux-en-Glenne, 7-9 avril 1998). Glux-en-Glenne: Centre Archéologique Européen du Mont Beuvray. 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