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381
#22
Contextos islâmicos 
e cerâmicas da Praça 
da Figueira (Lisboa): 
abordagem a três contextos 
das etapas finais da 
dominação islâmica de al-
-Ushbuna
Rodrigo Banha da Silva | CML/DMC/DPC/CAL, CHAM-FCSH/NOVA | rbds@fcsh.unl.pt 
Inês Pires | FCSH/NOVA | isantos.pires@hotmail.com 
André Bargão | Bolseiro de Doutoramento FCT SFRH/BD/133757/2017. CHAM-FCSH/
NOVA | andrebargao@gmail.com 
Sara da Cruz Ferreira | Bolseira de Doutoramento FCT SFRH/BD/137142/2018. 
CHAM-FCSH/NOVA | sara.isabel91@hotmail.com 
Duarte Mira | FCSH/NOVA | dmcardoso@gmail.com 
382
Resumo: A I.A.U. desenvolvida na Praça da Figueira entre 1999 e 2001 revelou um conjunto relevante de dados 
urbanísticos acerca do grande desenvolvimento que o arrabalde ocidental da cidade muçulmana de Al-Ushbuna atingiu 
num período compreendido entre o fim das primeiras Taifas e o período almorávida, quando cessa a dominação islâmica 
de Lisboa. A sequência ocupacional do local revelou um curto espaço de tempo de vida da urbanística ali patenteada, 
permitindo situar preliminarmente os horizontes contextuais em três grandes etapas distintas: os elementos pré-
urbanísticos; as unidades associadas à instalação e ocupação dos distintos espaços; por fim, os horizontes relacionados 
com o abandono e primeiras colmatações dos espaços antes ocupados.
Palavras-chave: Arqueologia Urbana; Arqueologia Medieval Islâmica; Séculos XI-XII; Urbanismo; Cultura 
Material. 
Abstract: The archaeological works carried out in Praça da Figueira between 1999 and 2001 revealed significant 
data for the study of urban development of the west suburb of the Islamic city of Al-Ushbuna (Lisbon). Short lived, the 
occupation occurred in a specific moment between the end of first Taifas Kingdoms (late 11th century) until the end of 
the Almoravid dynasty, in 1147, date of the Christian conquest of Lisbon. Despite the short period of time of urban 
occupation, the archaeological record revealed three distinct phases: the pre-urban moment, the installation of houses 
and quarters and, finally, the abandonment levels.
Keywords: Urban Archaeology: Medieval Islamic Archaeology; 11th-12th centuries; Islamic urbanism; Material 
culture.
Contextos islâmicos e cerâmicas da Praça da Figueira (Lisboa): abordagem a três contextos das etapas finais da dominação islâmica de al-Ushbuna
Terra, pedras e cacos do Garb al-Andalus
383
1. Introdução
A escavação de 1999-2001 da Praça da Figueira enquadrou-se num projecto municipal de reabilitação 
do espaço, tendo incidido sobre a construção de um parqueamento automóvel subterrâneo comissionado a 
um grupo privado. Considerou-se, à época, que o Museu da Cidade (hoje Museu de Lisboa), e o seu extinto 
Serviço de Arqueologia, seriam especialmente vocacionados para coordenar os trabalhos arqueológicos 
associados ao projecto, dado a instituição deter um maior capital de conhecimento acumulado sobre o ponto 
arqueológico da cidade, considerando as escavações por si conduzidas em 1960 e o acompanhamento de 
1961-2. Tendo tido lugar num período de especial vitalidade da Arqueologia Portuguesa, com o recém-criado 
IPA-Instituto Português de Arqueologia, quando muito do futuro da praxis da disciplina se discutia ainda, o 
conhecimento em 1999 da existência dos vários horizontes já antes atestados no subsolo da praça (Hospital 
Real de Todos-Os-Santos, via e necrópole romana, ocupações da Idade do Bronze) não invalidou o projecto 
do parqueamento, sob condição da sua integral escavação e registo, aplicando o “primado da conservação 
pelo registo” antes da sua consagração na lei actual de 2001. 
O conhecimento prévio das antigas ocupações do espaço da Praça da Figueira encerrava, todavia, 
uma lacuna equivalente a toda a Idade Média, situada no desfasamento entre as escavações de Agosto a 
Setembro de 1960 e de Fevereiro de 1962, que deixaram em branco os cerca de 3 m de potência estratigráfica 
situados entre os níveis de Época Moderna e os romanos de abandono. Deste modo se explica que o 
surgimento de uma densa urbanística medieval muçulmana num dos quadrantes da área intervencionada 
em 1999-2001 se tenha constituído como novidade, para mais por estar além do que então se perspectivava 
para o desenvolvimento do arrabalde ocidental de al-Ushbuna (Torres, 1994).
O presente trabalho conjuga a investigação, entretanto conduzida, relativa a contextos e cerâmicas 
associados, respectivamente, a uma estrada do período de dominação islâmica, a uma zona de circulação 
na urbanística arrabaldina e a uma unidade doméstica com cronologias aparentemente similares.
2. Uma visão geral das ocupações do espaço da Praça da Figueira no período de dominação 
islâmica de Lisboa
A percepção que desde cedo se gerou sobre os contextos medievais muçulmanos da Praça da 
Figueira foi a de que equivaleriam a um lapso de tempo situado entre momentos avançados do século XI 
e o século XII (Silva, Gomes e Gomes, 2011; Silva, 2012). Significa isto, grosso modo, que equivaleriam, 
sobretudo, ao domínio almorávida de al-Ushbuna, mas implicando também a representação contextual dos 
momentos ulteriores à conquista cristã de 1147, se bem que não atingindo o século XIII na zona de carácter 
doméstico e artesanal.
As ocupações correspondem a três realidades bem distintas: a ocidente, um troço de uma estrada, 
cuja tradição do itinerário remonta à época imperial romana, mas onde o traçado em nada se relaciona com 
a que deteve naquele período, sendo a estrutura medieval aquela na qual se filia directamente toda a tradição 
do desenho urbano lisboeta que perduraria ao longo da Idade Média e Época Moderna, até 1775; duas 
estruturas hidráulicas e um muro, situados na proximidade imediata da estrada, compunham o lado mais 
visível das utilizações agrícolas do espaço, prévias à instalação da urbanística arrabaldina (e que pelo menos 
num dos casos lhe sobreviveria), documentadas de igual modo por algumas estruturas negativas muito 
384
dispersas (algumas seguramente fossas detríticas, outras eventualmente “cavas” destinadas ao plantio); 
por fim, a instalação, na quase a totalidade do quadrante SE/E escavado em 1999-2001, de um complexo 
de edificado urbano equivalente à fase de maior expansão do arrabalde ocidental da cidade de al-Ushbuna.
Parece não haver uma relação umbilical entre a presença da estrada, a ocidente, e a origem e o 
desenvolvimento da urbanística a oriente. A instalação das unidades domésticas e dos arruamentos sugere 
relacionar-se com maior probabilidade com a existência de um outro eixo viário localizado mais para este da 
área escavada, que terá actuado como o polo de estruturação e organização do espaço. A estrada equivalerá, 
com alta probabilidade, ao caminho bem documentado nas fontes manuscritas portuguesas dos séculos 
XIII-XVI que passava pelo Poço do Borratém (etimologicamente bir-ut-tin, poço da figueira) em direcção 
à Mouraria medieva, eixo cristalizado na antiga e importante Porta da Mouraria da muralha fernandina de 
Lisboa (1373-1375), mais tarde conhecida por Arco do Marquês de Alegrete (Silva, 2017, p. 406). 
Fig. 1 – Localização da escavação da Praça da Figueira 1999-2001 no núcleo histórico antigo de Lisboa e sua relação com a medina e com os eixos de 
comunicação terrestres da cidade.
Contextos islâmicos e cerâmicas da Praça da Figueira (Lisboa): abordagem a três contextos das etapas finais da dominação islâmica de al-Ushbuna
Terra, pedras e cacos do Garb al-Andalus
385
3. Três contextos medievais muçulmanos da Praça da Figueira e suas cerâmicas
O princípio metodológico prevalente da intervenção foi o da “open area”, de há muito preconizado 
por Philip Barker e Edmund Harris (1993), mas viu-se sujeito a adaptação de uma malha quadriculada com 
5 m de lado, aspecto mais conforme ao enunciado wheeleriano. Esta opção foi, no essencial, motivada pela 
pouca experiência efectiva da quase totalidade dos escavadores em relação ao princípio de escavação 
que deveria primar.Por esta razão, alguns dos sectores receberam designações em função de eixos de 
ordenadas (alfabéticas) e abcissas (numerais decrescentes) equivalentes às quadrículas. Noutro sentido, as 
indicações de proveniência das recolhas acumulam informações com natureza vária (sectoor/quadrícula; 
ambiente ou zona, unidade estratigráfica e data de recolha) e, em algumas zonas, aproveitou-se a existência 
ocasional de bancadas físicas para efecetuar o controlo estratigráfico vertical.
Fig. 2 – Estruturas islâmicas da Praça da Figueira com indicação dos três contextos seleccionados.
O tratamento dos dados que aqui se apresentam foi organizado por fases em função de cada sector, 
de modo a facilitar a sua leitura específica e a associar nela os “pacotes” cerâmicos concretos. Com uma 
preocupação primeira sobre a definição cronológica, a leitura visou esclarecer de forma sustentada a datação 
dos diferentes pontos, a que correspondem de igual modo abordagens todavia distintas: no que respeita à 
estrutura viária procedeu-se somente ao tratamento dos materiais considerados datantes, ao passo que no 
que se refere à unidade doméstica e à zona de circulação urbana se efectuou o processamento sistemático 
da totalidade dos conjuntos cerâmicos (excluindo-se desta apresentação a olaria de construção) seguindo 
os protocolos quantitativos preconizados por Orton, Tyers e Vince (1993; Arcelin e Tuffreau-Livre, 1998).
De um ponto de vista tipo-morfológico, seguiram-se os “protocolos” disponibilizados pelo grupo CIGA. 
386
3.1. A estrada islâmica
O eixo viário foi identificado no extremo ocidental da área escavada, já exterior ao espaço destinado 
ao parqueamento automóvel (sector B-D/7-9). Tratou-se de uma zona proposta à instalação de novo 
posto técnico subterrâneo da Carris (empresa de transportes públicos), tendo o trabalho sido fortemente 
condicionado pelos requisitos de segurança, validados por um perito externo à obra (incluindo aqui dono de 
obra, empreiteiro, organismo da tutela patrimonial e direcção da escavação), cujo parecer (aceite pela tutela) 
implicou o sacrifício localizado na maioria das zonas perimetrais deste espaço.
Ainda assim, foi possível escavar e registar um tabuleiro preservado ao longo de uma extensão 
máxima de 13,5 m, composto por pedra de média dimensão unida com “terra batida”, contendo inertes 
pétreos e cerâmicos (de construção) de pequena dimensão formando um empedrado ou calçada, ligeiramente 
arqueado na zona central. Com 3,60 a 3,80 m de largura maior, os seus limites foram compostos por elementos 
pétreos de maior calibre do que os que compunham o piso de circulação, colocados em fiadas laterais de 
forma ligeiramente sobrelevada em relação ao exterior.
Muros em pedra seca foram erigidos de ambos os lados externos ao tabuleiro, delimitando 
arquitectonicamente a estrutura: o primeiro, a ocidente, deixava uma zona livre entre a fiada de limite do 
piso e o seu exterior de cerca de 1,80 m de largura, tendo a construção sido sucessivamente reparada e 
alteada em época ulterior ao período de dominação islâmica, quando o tabuleiro viário era já em terra batida 
nomeado na documentação coeva como Corredoura; o oposto, a oriente, cuja primeira fase se mostrava mais 
destruída e afectada por remodelações/reedificações posteriores que provocaram flutuações de localização 
e orientação, definia uma zona não edificada menor, de 1,40 m de largura; ambas as zonas constituíam, 
decerto, áreas públicas, servindo cumulativamente para a drenagem do tabuleiro do piso de circulação: no 
lado ocidental a estratigrafia mostrava uma vala sucessivamente colmatada e reavivada, equivalente a uma 
estrutura de escoamento e condução de águas pluviais, sendo admissível a existência de outra similar do 
lado contrário, não objecto de escavação. Estas observações significam que o conjunto das estruturas que 
compunham a estrada ocupava, no total, uma faixa de aproximadamente 8 m de largura.
No que se refere à dinâmica do contexto viário, interessa aqui sobretudo o segmento atribuível à 
época medieval de dominação islâmica da cidade, nela se incluindo os elementos imediatamente sequentes, 
quando Lisboa integra o reino de Portugal.
Como seria expectável, o conjunto mais volumoso de documentação reporta-se aos momentos 
preparatórios da instalação da estrutura, representados por três depósitos abrangidos pela totalidade da 
área em estudo, mas também pelas edificações murárias, pelo rudus e piso do tabuleiro de circulação. Nos 
depósitos de mais recuada cronologia recolheu-se, de entre a cerâmica seleccionada para estudo (Mota, 
2002), um conjunto de taças vidradas interna e externamente, onde se fazem representar taças de carena 
alta e bordo de lábio de secção triangular extrovertido e pendente, taças de bordo apontado provavelmente 
com o mesmo corpo mas de carena suave, e outras de tendência hemisférica dotadas de bordo afilado em 
bisel arredondado no lábio. Os pés são em anel, curtos e baixos. Em dois fundos, de provável filiação local/
regional, identificaram-se decorações a manganês sobre o vidrado melado. 
As cordas secas totais destes níveis preparatórios para a instalação da estrutura viária equivalem a 
taças de bordo extrovertido e perfil arredondado, de corpo de tendência hemisférica ou de carena suave, 
menos alta. As decorações são, como é usual, internas, em tons de amarelo-alaranjado, de esbranquiçado 
e verde, com as reservas bem delimitadas. 
Contextos islâmicos e cerâmicas da Praça da Figueira (Lisboa): abordagem a três contextos das etapas finais da dominação islâmica de al-Ushbuna
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Fig. 3 – Estrada Islâmica revelada na Praça da Figueira e perfil N das quadrículas B-D 8.
A ocidente do piso, uma vala de drenagem foi aberta entre o limite da via e o muro lateral que 
demarcava o espaço viário, documentando-se duas acções sucessivas de definição/reconfiguração da 
estrutura negativa, depois preenchida por depósitos sucessivos. Nestes dois momentos, o mais antigo 
revelou um candil não vidrado, de corpo de tendência cónica e onde o bico está em falta, mas que, por 
paralelos com outros exemplares inéditos do sítio, julgamos ser curto e não facetado.
388
Sobre as realidades que compunham a via, constatou-se uma sequência deposicional longa, onde 
estão presentes várias acções de repavimentação do piso de circulação em terra batida e respectivas 
preparações, ocorridas durante a I dinastia portuguesa e onde, como se assinalou antes, se observa uma 
muito ligeira flutuação das demarcações do espaço. 
Nos cinco primeiros depósitos que se sobrepõem ao antigo pavimento em terra batida e pedra do 
período medieval muçulmano, as cerâmicas mantêm o perfil do período antecedente, pontuando elementos 
mais antigos, decerto remobilizados, caso de dois fundos de pé em anel curtos e pouco desenvolvidos, 
um dos quais evidenciando decoração a traço de manganês sobre vidrado melado. Entre elas, encontra-se 
também um conjunto de fragmentos em corda seca total, com mais que provável diversidade de origem e 
cronologias. Em dois dos casos, porém, os paralelos disponíveis de Mértola remetem os recipientes para 
elaborações feitas no sul peninsular durante o período almóada (Gómez-Martínez, 2004), o que vem confirmar 
a datação pós-conquista cristã de Lisboa. 
Fig. 4 – Cerâmica vidrada e candis recolhidos nos contextos associados à estrada islâmica da Praça da Figueira.
Contextos islâmicos e cerâmicas da Praça da Figueira (Lisboa): abordagem a três contextos das etapas finais da dominação islâmica de al-Ushbuna
Terra, pedras e cacos do Garb al-Andalus
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3.2. A “Via F”
A “Via F” fica localizada entre as casas “11” e “12”, conectando as ruas “B” e “C”, que lhe eram 
perpendiculares, e “E”, que a prolonga para sul (Fig. 2). Esta zona de circulação destacava-se das restantes 
identificadas na Praça da Figueira pelos seus 3 m de largura e pela sua pavimentação em pedras de pequena 
dimensão, quese supõe originalmente cobrindo a totalidade do espaço, ou quase (Silva, Gomes e Gomes, 
2011, p. 22; Mira, 2018, p. 25). Esta calçada/empedrado terá sido construída como piso de rua (espaço 
público) ou de adarve (espaço semiprivado), questão que os vestígios arqueológicos evidenciados pela 
escavação não permitiram esclarecer de forma categórica (Pires, 2020, p. 33). 
Fig. 5 – Planta da “Via F”.
390
As cerâmicas associadas à calçada da “Via F” e a colapsos de estruturas adjacentes provêm de 
oito unidades estratigráficas distintas. Estas correspondem a cinco fases: uma primeira fase, o estágio de 
preparação do terreno para construção (terraplanagens), constituído por duas U.E.s; uma segunda fase, 
equivalente à etapa de construção, em que se situa o empedrado e o sedimento destinado ao seu assentamento; 
a terceira fase, representando o período de uso, evidenciado pelos escassos materiais presentes no interface 
sobre a calçada; por seu turno, a quarta fase está ilustrada por colapsos das estruturas, primeiras etapas 
no registo arqueológico do abandono, a que estão associadas duas U.E.s; para finalizar, a quinta fase, 
correspondente a uma segunda etapa do abandono e à colmatação, parcialmente sobreposta à anterior, 
evidenciada pela sobreposição de depósitos de acumulação e revolvimentos, constituída essencialmente 
por três U.E.s (Pires, 2020, pp. 33-34). 
Como se infere da periodização proposta, os momentos menos bem representados no registo 
arqueológico equivalem ao período do uso da estrutura de circulação.
No conjunto cerâmico do complexo contextual foram contabilizados 390 NMI (Número Mínimo de 
Indivíduos) morfologicamente identificáveis.
A loiça de cozinha é a que se encontra mais bem representada, perfazendo metade do conjunto 
estudado (50%), seguindo-se a loiça de mesa (40%), de armazenamento (6%), de uso doméstico diversificado 
(tampas= 2%), objectos de iluminação (1%) e ligados ao uso artesanal (olaria= 1%). O acervo cerâmico 
é composto, maioritariamente, por cerâmica não vidrada (81%), por comparação aos vidrados (19%). 
Relativamente aos fabricos verifica-se uma clara predominância das produções locais/regionais (94%) face 
às produções exógenas (6%) (Pires, 2020, p. 38).
A análise das pastas (meramente macroscópica) aponta para a existência de produções locais/
regionais de cerâmicas com pintura a branco, vermelho, decoração polícroma a verde e negro e corda seca 
parcial (Pires, 2020, p. 98).
A pintura a preto foi identificada apenas em fabricos de proveniência exógena, encontrando-se, 
portanto, conforme aos estudos arqueométricos (químicos e mineralógicos) de há muito realizados sobre 
materiais recolhidos em Lisboa, que apontam para a importação deste tipo de peças (Dias, Prudêncio e 
Gouveia, 2003). Foram também identificadas elaborações minoritárias em corda seca total, verde e manganês 
e em pastas calcárias com pintura a vermelho, cuja origem será, do mesmo modo, exógena (Pires, 2020, p. 
98).
Somente foi verificada a presença de fabricos importados na loiça de mesa. Estes surgem nas 
categorias funcionais de jarrinha e de jarro/bilha, no caso da loiça com superfícies não vidradas, e em tigelas 
e num fragmento de parede, possivelmente pertencente a uma jarrinha, para a cerâmica com superfícies 
vidradas. O serviço de mesa apresenta não só pastas exógenas, bem decantadas e cozidas, como um maior 
número de elementos decorativos, por contraposição às restantes categorias funcionais, o que sugere a 
utilização de loiças de melhor qualidade à mesa pelas populações próximas e do próprio local, em detrimento 
das elaborações destinadas à confecção e armazenamento alimentar (Pires, 2020, p. 99).
Os elementos exumados nos depósitos associados às terraplanagens indicam-nos que a construção 
da “Via F” e respectivo piso empedrado ter-se-á realizado após Lisboa ter integrado o domínio almorávida, 
em finais do século XI/inícios do século XII. Destaca-se, de entre este conjunto cerâmico, uma base de 
tigela estampilhada, técnica que surge sob o domínio das dinastias africanas, ainda no período almorávida, 
tornando-se assaz mais frequente sob domínio almóada (Catarino, 1997, p. 827; Cavaco et al., 2013, p. 375; 
Gómez-Martínez, 2018, p.158), elemento que “empurra” a cronologia para segmento almorávida pleno. 
Outros elementos do mesmo horizonte remetem para datações similares: um candil vidrado com 
bico muito bem facetado, característica que remete o objecto para os momentos avançados do século XI e 
Contextos islâmicos e cerâmicas da Praça da Figueira (Lisboa): abordagem a três contextos das etapas finais da dominação islâmica de al-Ushbuna
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391
centúria seguinte (Serrano, 2011, p. 73); fragmentos de panela ou caçoila com vidrado no interior, prática que 
é iniciada entre os finais do século XI e os inícios do século XII (Gonçalves et al., 2013, p. 1027); por último, 
a presença de um fragmento de fogareiro, forma encontrada na cidade de Lisboa apenas em contextos 
almorávidas, não sendo conhecido em contextos califais e primeiras Taifas (Gómez-Martínez et al., 2012, p. 
28). De igual modo, a presença de algumas tigelas/caçoilas em cerâmica não vidrada apresentando o bordo 
com lábio em aba oblíqua, morfologia frequentemente encontrada em contextos almorávidas, bem como as 
tigelas de carena acentuada, em cerâmica vidrada e não vidrada, e as tigelas vidradas de bordo com lábio 
triangular, vêm no seu todo apontar para a mesma cronologia (Pires, 2020, pp. 85-86). As tigelas de carena 
alta parecem surgir a partir do período das primeiras Taifas ou já no século XII (Pérez Asensio e Jiménez 
Castillo, 2018, p. 182), sendo concordantes com o remanescente do perfil cerâmico.
Uma vez que a opção metodológica aqui aplicada às diferentes designações de tigela e caçoila 
dependeu unicamente da presença de marcas de fogo (não pós-deposicionais), é importante referir que 
houve casos em que, embora o bordo e corpo da peça não apresentasse quaisquer marcas, o mesmo não 
foi verificado na sua base (Pires, 2020, pp. 58-67).
Na pavimentação da calçada apenas foi identificado um fragmento de barra de forno reaproveitado 
para a sua construção (Pires, 2020, p. 88). Duas outras barras de forno, e alguns outros poucos materiais 
cerâmicos incaracterísticos recolhidos no interface superior do empedrado, não nos permitem avançar 
qualquer cronologia dissonante da atribuída à fase anterior (Pires, 2020, p. 89).
Nos colapsos das estruturas adjacentes à “Via F”, como no último depósito de colmatação, foram 
sobretudo identificados elementos com cronologia de novo inserível entre a segunda metade do século 
XI e primeira metade do século XII. Destaca-se desta fase mais tardia, como elemento mais antigo, uma 
taça elaborada com técnica de verde e manganês, onde é manifesta a peculiaridade do uso da técnica 
decorativa (traço muito fino a manganês, o óxido de cobre-?- ultrapassando os limites negro-acastanhados). 
Visualmente a pasta indica poder tratar-se de produção local/regional, e o vidrado externo verde manchado 
de laranja encontra-se também muito frequentemente entre elaborações lisboetas. O pouco desenvolvimento 
do pé, bastante baixo, aponta para momentos mais recuados do que o período almorávida, possivelmente 
ainda de Taifas.
Foram também identificadas formas com características frequentemente encontradas em contextos 
de cronologia ulterior, almóada, casos de uma asa de jarro ou jarrinha com pináculo (Fig. 6) e de uma base de 
jarro ou jarrinha com pé anelar desenvolvido. Acrescente-se-lhe, também, uma tampa de pegadeira central 
com bordo em barbela, a que normalmente se atribui cronologia medieval portuguesa. 
A grande quantidade de elementos vasculares de cronologia almorávida, verificada na última fase 
de abandono do bairro, onde as ocorrências mais tardias são escassas, mas significantes, poderá estar 
relacionada com os revolvimentos verificados nos níveis superioresdas terraplanagens mais antigas por 
acções ulteriores e com a remobilização dos materiais provocada por estes, embalando-os em depósitos 
formados em datas posteriores à conquista cristã. Contudo, já foi suficientemente demonstrado que algumas 
das morfologias e técnicas decorativas produzidas sob o domínio islâmico continuariam a ser utilizadas e 
produzidas no período pós-1147 (Bugalhão e Folgado, 2001, p. 125; Gomes et al., 2005, p. 226; Salomé e 
Calado, 2012, p. 23), tal como se verifica noutras localidades, destacando-se aqui Santarém pelo critério 
de proximidade geográfica (Liberato, 2012, p. 117; Liberato e Santos, 2013, p. 950), como, em iguais 
circunstâncias, Palmela (Fernandes, 2005, p. 320).
392
Fig. 6 – Selecção de cerâmicas recolhidas nos contextos associados à “Via F”.
Contextos islâmicos e cerâmicas da Praça da Figueira (Lisboa): abordagem a três contextos das etapas finais da dominação islâmica de al-Ushbuna
Terra, pedras e cacos do Garb al-Andalus
393
3.3. A “casa 15”
Na zona mais a sul escavada em 2000 foi exumado o remanescente de várias unidades domésticas 
pertencentes a um mesmo quarteirão, longo, com mais de 35 m, localizado entre as ruas “C”, “D” e “E”. 
Eram nelas distintos os estados de conservação, como era variável a área de cada uma delas. De entre elas 
destacavam-se como mais completas e de planta total reconhecível as casas “14” e “15”, tendo a última 
sido seleccionada como tema de dissertação de mestrado de um dos autores (Mira, 2018). Como acontece 
com a generalidade dos quarteirões islâmicos identificados na Praça da Figueira, os muros de limite de 
cada um parece terem sido construídos de forma coerente num primeiro momento, só posteriormente se 
tendo recorrido à subdivisão para distinção entre habitações, mediante muros partilhados, para, num último 
momento, se ter procedido à compartimentação interna de cada uma das unidades.
Com um formato trapezoidal, a habitação “15” apresenta área total de 40,8 m2, com aproximadamente 
6 m de largura por 6,80 m de profundidade. Esta escala fá-la integrar o grupo das edificações de menor 
dimensão no contexto do local, embora o seu valor não diste da área média estimada para o conjunto das 
estruturas, que ronda os 48 m2 (Silva, Gomes e Gomes, 2011, p. 21).
A planta da unidade doméstica “15” segue os preceitos islâmicos. O único acesso era feito a partir 
de um vão orientado ao meio-dia e que se abria na fachada sul, mostrando cerca de 0,90 m de largura, que 
conectava a edificação com a “Via D”. 
Franqueada esta porta, acedia-se a uma área não coberta de 3,40 x 3,20 m correspondente ao pátio. 
Este último elemento desde cedo colocava alguns problemas, dada a ausência de záguan: numa primeira 
proposta foi aventada graficamente a presença deste importante elemento integrante do modelo de casa 
urbana muçulmana medieval (Silva, Gomes e Gomes, 2011, p. 22): afigurando-se estranha a existência de 
um záguan e de um pátio ocupando, no conjunto formado por ambos, uma área inferior a 10,8 m2, a consulta 
mais aturada da documentação arqueológica, e a presença nela assinalada dos restos do pavimento de 
terra batida do pátio, demonstraram desde cedo que no desenho da casa “15” o záguan estava ausente 
e se acedia directamente da porta da rua para o pátio (Silva, 2012). Este dado pode assumir um especial 
significado, dado que este desrespeito pelos preceitos praticados na casa urbana islâmica pode indiciar uma 
origem rural dos utilizadores da “casa 15”.
Lateralmente ao pátio, e ladeando-o, dispunham-se dois pequenos compartimentos rectangulares, 
delimitados por muros mais estreitos (0,30 m de espessura), provavelmente de taipa erigida sobre soco de 
pedra seca.
Aquele à esquerda da entrada definia área útil de 1,10 x 3,10 m. No seu ângulo mais meridional, junto 
à “rua D”, encontrava-se uma depressão parcialmente forrada a fragmentos de telha no bordo, junto ao piso 
em terra batida; uma cavidade transversal ao muro de limite da unidade doméstica ligava esta estrutura com 
o exterior, com a descarga da latrina num possível pequeno beco. Não foi, todavia, possível intervencionar 
arqueologicamente o mais que provável poço negro existente no exterior da habitação, solução documentada 
noutros pontos da urbanística islâmica da Praça da Figueira (Mira, 2018, p. 25).
394
Fig. 7 – Planta da “Casa 15”.
No lado oposto à latrina estava instalada a cozinha, acondicionada num espaço ligeiramente 
trapezoidal de 1,25 x 3,50 m. Na parte mais distante da porta deste compartimento, de encosto à face interna 
do muro de fachada, foi construído um forno de que restou a base, parcialmente forrada a fragmento de 
telha, e o anel lítico que o limitava. No interior foram detectadas cinzas e carvões, e o solo argiloso mostrava-
-se sujeito à acção do calor (Mira, 2018).
A totalidade do lado oposto ao da entrada equivalia ao salão, o compartimento maior da casa, com 
4,20 m de largura e 2,08 m de profundidade. Embora neste caso não tenha sido possível verificá-lo, pois o 
salão foi ampla e profundamente afectado por intervenções da obra do parque de estacionamento, em dois 
Contextos islâmicos e cerâmicas da Praça da Figueira (Lisboa): abordagem a três contextos das etapas finais da dominação islâmica de al-Ushbuna
Terra, pedras e cacos do Garb al-Andalus
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outros salões de casas de idênticas dimensões da Praça da Figueira, aliás próximas à casa “15”, os pisos de 
terra batida mostraram uma pequena zona rubefacta relativamente centralizada, num caso circular e noutro 
rectangular, que deverão corresponder ao local de assentamento de contentores de calor. Presume-se, por 
consequência, que num ou nos dois espaços laterais do salão se situasse a(s) área(s) de alcova. Como 
exigia o preceito islâmico, a entrada do salão a partir do pátio, de 0,90 m de largura, estava desfasada do 
alinhamento da entrada da unidade doméstica a partir da rua, deste modo impedindo a visão do seu interior 
a partir dali.
A sequência detectada na unidade foi periodizada em quatro fases: um primeiro momento equivalente 
aos trabalhos de preparação do terreno para a construção, onde se integram três unidades estratigráficas 
principais de configuração de tendência horizontal abrangendo a totalidade da área e sobrepassando-a, 
tendo sido notada uma maior complexidade estratigráfica na zona oriental da casa, sob o muro de limite 
lateral, pois aqui era nítida a existência da colmatação de uma vala aberta para a fundação do muro, que 
integrava cinco distintos depósitos, muito pouco espessos (onde infelizmente os elementos cerâmicos eram 
escassos e incaracterísticos); a segunda fase equivale ao segmento compreendendo o uso e as acções 
construtivas associadas a este, incluindo a pavimentação, estruturação de forno na cozinha, da fossa da 
latrina e pavimentações (terra batida e aplicação de fragmentos de telha relativamente planos), à qual se 
podem associar três outras unidades deposicionais; uma terceira fase associa-se ao interface de abandono 
da unidade doméstica, convindo destacar a identificação em processo de escavação de um candil depositado 
in situ na soleira da porta que ligava pátio e salão, de uma taça de bordo introvertido e fragmentos de 
parede de talha próximos ao forno da cozinha e de uma taça vidrada de produção local/regional no topo do 
enchimento da fossa da latrina (ver quadro abaixo), estando os restantes elementos muito fragmentados; 
por fim, os níveis de abandono-colmatação do espaço da quarta fase, que mostraram a presença frequente 
de fragmentos de telha indiciando o tipo e espacialidade das coberturas (exclusivamente em telha, estando 
outras soluções ausentes do local), todavia deve enfatizar-se aqui que estes níveis que cobrem o espaço 
da habitação “15” são o produto não só dos colapsos das taipas e das olarias de cobertura mas também 
de acções intensivas de remeximento sobre estes, dado que, para além das lacunas de pedra patentes em 
zonas localizadas dosmuros, não se detectaram parcelas de colapso de telhado com os diversos elementos 
fragmentários em articulação (Mira, 2018).
Como aconteceu na zona ocupada pela urbanística do bairro tratada no apartado anterior (“Via F”), os 
perfis cerâmicos das diferentes fases reconhecidas em associação à “Casa 15” não evidenciaram diferenças 
significativas entre as diferentes fases. 
O conjunto cerâmico global da “Casa 15” mostra uma incidência de apenas 21,4% de cerâmica 
vidrada, maioritariamente taças de elaboração local/regional como as documentadas nas olarias do NARC 
e Mandarim Chinês (Bugalhão, Gomes e Sousa, 2003; Bugalhão, Sousa e Gomes, 2004), registando 1,9 % 
de cerâmica de pastas calcárias ostentando pintura a preto e 0,4 % a vermelho, com igual percentagem de 
elaborações dotadas de digitações (Mira, 2018, p. 52). 
Outros elementos prévios ao uso da unidade doméstica em apreço, merecem também referência 
circunstanciada. Fora do âmbito do estudo executado por um dos autores (Mira, 2018), havia sido já publicada 
da Praça da Figueira uma elaboração lisboeta de jarra com decoração de figos místicos em corda seca 
parcial, peça a que falta o colo, bordo e as duas asas, e que se expõe no Museu de Lisboa (Fernandes et al., 
2015, p. 652, fig. 3, n.º 5). Datável do período dos primeiros reinos de taifa, acrescenta-se nesta ocasião, que 
a sua recolha se produziu, conjuntamente com escassa outra cerâmica com pintura a branco (3 fragmentos, 
um dos quais um ombro de jarrita), no interior do remanescente de uma pequena fossa ovalada localizada 
sob os níveis de preparação para a construção da “Casa 15” na zona do salão, pelo que a sua cronologia 
396
do século XI vem corroborar as leituras cronológicas aqui entretanto produzidas a propósito da unidade 
doméstica. Um outro aspecto a referir aqui é também a peculiaridade da identificação de um pequeno 
trempe nos contextos de preparação para a construção da unidade.
Algum interesse antropológico merecem, de igual modo, os materiais associados ao interface 
de abandono da habitação (vide Quadro 1, abaixo). Os elementos são, porém, de valor desigual para as 
inferências, pois apresentam-se em distintos estados de conservação, sendo raros os objectos que ostentam 
partes desenvolvidas dos seus perfis (candil vidrado e taça vidrada carenada) ou vários fragmentos de um 
mesmo indivíduo (talha, infelizmente estando somente presentes fragmentos da parede), devendo portanto 
valorizar-se sobretudo aqueles que se acabou de cotejar.
Quadro 1
Composição do conjunto artefactual cerâmico do interface [2076] de abandono da “casa 15” (seg. Mira, 2018, pp. 81-82, revisto).
Morfologia Categoria Produção NMI NMI %
Panela Loiça de cozinha Local/Regional 4 28,5
Caçoila Loiça de cozinha Local/Regional 1 5,5
Fogareiro Loiça de cozinha Local/Regional 1 5,5
Pote Loiça de cozinha Local/Regional 1 5,5
Tampa Loiça de cozinha Local/Regional 1 5,5
Cântaro Contentor de líquidos Local/Regional 1 5,5
Jarra Contentor de líquidos Local/Regional 1 5,5
Jarrita Loiça de mesa Local/Regional 1 5,5
Taça vidrada Loiça de mesa Local/Regional 1 5,5
Taça/Tigela Loiça de mesa Local/Regional 4 28,5
Talha Armazenamento Local/Regional 1 5,5
Candil vidrado Iluminação Local/Regional 1 5,5
Totais 18 100
De qualquer das formas, é interessante notar a relativa paucidade do conjunto mais plausível de 
ser associado às vivências da unidade habitacional, que julgamos de alguma forma reflectir o nível socio-
económico dos seus habitantes.
Noutro sentido, ressalta do conjunto cerâmico global associado à “Casa 15” a ausência generalizada 
de algumas produções. Esta lacuna merece ser particularizada por razões distintas: por um lado, e 
considerando tratar-se de um conjunto composto por 4040 fragmentos (Mira, 2018, p. 29), a não detecção no 
estudo efectuado sobre a cerâmica de elaborações em corda seca total ou parcial (Mira, 2018, pp. 51-52); por 
outro, os indicadores cronológicos que constituem o não se ter registado a presença de qualquer elemento 
em “verde e manganês/negro” ou, por oposição, de taças vidradas estampilhadas. Estas observações 
compaginam, no seu todo, um panorama que aponta para um período relativamente limitado decorrido entre 
a edificação e o abandono, que genericamente se pode remeter para a primeira metade do século XII.
Se a taça vidrada encontrada no interface de abandono permitiria admitir datações remontando ao 
período das primeiras Taifas ou almorávida inicial, pela relativa delicadeza das suas paredes ou pelo pouco 
desenvolvimento do seu pé em anel, paralelos de Mértola permitem situá-la no período almorávida final 
(Gómez Martinez, 2004; Gonçalves et al., 2013, p. 1035). Por seu turno, a presença do candil vidrado de bico 
facetado de tendência prismática a que vimos fazendo referência tem de ser posta em paralelo com o achado 
de bases pertencentes à mesma morfologia e produção afim encontradas nos níveis de preparação para a 
construção da unidade, sendo portanto elementos sugestivos de datações compreendidas entre os finais 
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do século XI e o século XII dadas as características morfológicas destes objectos (Serrano, 2011, p. 73). Em 
suma, parece plausível que os contextos arqueológicos associados à existência da unidade doméstica “15” 
se circunscrevam somente ao período almorávida pleno e final.
Fig. 8 – Selecção de cerâmicas recolhidas nos contextos associados à “Casa 15”.
398
4. Considerações finais
O conjunto de entidades presentes no registo arqueológico da Praça da Figueira foi, desde os 
primeiros momentos de publicação de síntese, apontado para cronologias de finais do século XI a meados 
do século XII (Silva, Gomes e Gomes, 2011; Silva, 2012). As razões para o surgimento, no actual espaço da 
Praça da Figueira, da urbanística arrabaldina ter-se-ão prendido com a forte pressão demográfica sentida 
na cidade na etapa final da dominação islâmica. Este aumento populacional deverá traduzir o afluxo a 
al-Ushbuna de populações diferenciadas, quer deslocadas do aro rural, quer de outras geografias mais 
setentrionais, procurando a segurança das suas muralhas (Silva, Gomes e Gomes, 2011). Já no que se refere 
ao desenho urbano, que se apresenta dotado de alguma regularidade, duas hipóteses explicativas foram 
entretanto avançadas: tratar-se de uma promoção planificada conduzida por um poder urbano decisor que 
seria, necessariamente, forte (Silva, Gomes e Gomes, 2011, p. 23); ao invés, equivaler a uma adaptação 
do desenho do parcelário agrário pré-existente, em espinha, explicação que dispensaria uma acção tão 
interventiva e directamente envolvida por parte das autoridades almorávidas da cidade (Silva, 2012, p. 144), 
podendo ter sido promovida por particulares, hipótese explicativa que parece ajustar-se melhor aos outros 
dados arqueológicos existentes na zona escavada não urbanizada, a despeito da sua escassez.
Os estudos que vêm sendo executados sobre os contextos têm corroborado, genericamente, as 
propostas antecedentes, muito embora sejam notórios casos pontuais de outras unidades domésticas da 
urbanística muçulmana onde se verifica a continuidade da ocupação após a conquista cristã, o que acontece 
igualmente com uma das duas estruturas hidráulicas ligadas à exploração agrária de parcelas do espaço 
(poço D 4/5, em curso de estudo).
Interessava de sobremaneira, com a maior profundidade da abordagem aos contextos da estrada 
islâmica (Mota, 2002), da “Casa 15” (Mira, 2018) e “Via F” (Pires, 2020), aferir e refinar as atribuições 
cronológicas a partir dos perfis dos conjuntos cerâmicos associados aos momentos de instalação das 
estruturas. O resultado mostrou diferenças perceptíveis nas composições, discretas mas significantes: em 
primeiro lugar, a estrada parece corresponder ao elemento estruturalde mais antiga cronologia, que se não 
pode recuar mais do que finais do século XI, enquadrando-se, portanto, no segmento temporal em que a 
cidade está já sob domínio almorávida; no que se refere à urbanística instalada no quadrante oriental da 
área escavada, afigura-se que os elementos materiais fornecem base consistente para situar a instalação 
da “Casa 15” e “Via F” dentro do período da mesma dinastia norte-africana, todavia décadas mais tarde, 
durante o período almorávida pleno.
De um ponto de vista socio-económico, as composições dos “pacotes” cerâmicos demonstram 
não estarmos perante os estratos mais favorecidos da população, como seria de esperar numa zona tão 
periférica dentro do próprio arrabalde ocidental de Lisboa, representando o conjunto gerado na Praça da 
Figueira o seu episódio de maior expansão. Noutro sentido, a peculiaridade arquitectónica da “Casa 15”, 
onde está ausente o zaguán, pode evocar uma origem não urbana dos seus ocupantes, observação que 
pode ser estendida a mais quatro outras habitações próximas, pelo menos: nos mobiliários domésticos 
não há nada que nos sugira a conexão dos indivíduos com as actividades artesanais oleiras, com os raros 
elementos deste cariz a surgirem nas estratigrafias prévias ou reutilizadas na construção e instalação das 
estruturas da urbanística muçulmana.
Contextos islâmicos e cerâmicas da Praça da Figueira (Lisboa): abordagem a três contextos das etapas finais da dominação islâmica de al-Ushbuna
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