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Teoria das Organizações Internacionais
O papel das organizações internacionais em distintos cenários nacionais e internacionais e as diferentes
perspectivas teóricas e epistemológicas para o comportamento dessas organizações.
Prof. Fernando Luz Brancoli
1. Itens iniciais
Propósito
Compreender o comportamento dos atores transnacionais, principalmente das organizações internacionais, é
central para o estudante de Relações Internacionais e de áreas correlatas a fim de se promover o
entendimento de uma consideração sofisticada da arquitetura global.
Objetivos
Reconhecer as organizações internacionais e os principais atores envolvidos nessas atividades.
Identificar os elementos das organizações internacionais e suas consequências nos cenários 
doméstico e internacional.
Definir o papel dos Estados e das instituições internacionais nas negociações diplomáticas.
Distinguir narrativas sobre as organizações internacionais e o papel delas em temas sensíveis.
Introdução
Neste conteúdo, debateremos a resolução dos problemas internacionais com a criação e a sofisticação das
organizações internacionais (OIs). Não se trata, contudo, de indicar uma linha contínua de desenvolvimento
entre antigas coligações, e sim a lógica existente na exploração de temas, estratégias e elementos que
permeiam as reflexões sobre as OIs a partir de uma melhor compreensão das conexões históricas.
A literatura tradicional em Relações Internacionais é centralizada na análise dos Estados. Mesmo assim, as OIs
atraem cada vez mais atenção, principalmente pela capacidade de lidar com desafios transnacionais cada vez
mais complexos.
Neste conteúdo, faremos uma reflexão crítica sobre o estudo das OIs no campo das Relações Internacionais.
Os elementos que debateremos nas próximas páginas tentarão responder às seguintes questões: as OIs
importam? Quais são seus efeitos nas Relações Internacionais? Onde elas se encaixam na literatura de
estudos transnacionais? Como devemos estudá-las?
Teorizar sobre as OIs é entender um conjunto vital de novas dinâmicas das quais passaremos a tratar.
• 
• 
• 
• 
Negociações dos termos da Paz de Vestfália. Pintura de
Fritz Grotemeyer (1902).
1. Os atores nas organizações internacionais
Origens das organizações internacionais
Formação dos Estados contemporâneos
Assista agora a um vídeo em que são apresentadas informações sobre a origem das organizações
internacionais.
Conteúdo interativo
Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.
Contextualização
Ratificação do Paz de Vestfália, na cidade de Münster, atual alemanha, em 1648.
Pintura de Gerard ter Borch.
Os estudiosos das Relações Internacionais datam o sistema estatal contemporâneo como um processo
iniciado em 1648, quando o Tratado de Westfália encerrou a Guerra dos Trinta Anos. Embora a maioria dos
artigos do tratado cite a alocação dos despojos de guerra, outras disposições revelaram-se pioneiras. 
Os artigos 64, 65 e 67 do referido tratado, por
exemplo, estabeleceram vários princípios-
chave de um novo sistema de Estado: a
soberania territorial; o direito do Estado de
escolher sua religião; e a proibição da
interferência de autoridades supranacionais,
como a Igreja Católica ou o Sacro Império
Romano. O tratado marcou o fim do governo
das autoridades religiosas na Europa e o
surgimento de Estados seculares.
Com a autoridade secular, veio o princípio da
integridade territorial dos Estados juridicamente
iguais e participantes soberanos do sistema
internacional. A soberania era o conceito
central nesse sistema, como afirmou o filósofo francês Jean Bodin (1530-1596).
Segundo Bodin, ela é entendida como “a marca distintiva de que o soberano não pode, de forma alguma, estar
sujeito aos comandos de outro, pois é ele quem faz a lei para o sujeito, revoga a lei já feita e altera a lei
obsoleta” (1992, p. 25). O filósofo também reforça que que a soberania pode ser limitada pela lei divina ou
pela lei natural, assim como pelo tipo de regime ou até mesmo por promessas ao povo.
A natureza do sistema estatal contemporâneo e da soberania do Estado é uma questão controversa
entre os teóricos das Relações Internacionais (RI). Ainda assim, as fraquezas desse sistema
tornaram-se cada vez mais aparentes durante o século XIX com o crescimento do comércio
internacional, a migração, a democratização, a inovação tecnológica e outros desenvolvimentos que
aumentaram a interdependência e destacaram as limitações impostas pela soberania dos Estados. 
Essas mudanças deram origem ao processo de organização internacional, processo histórico que, para Claude
(1964, p. 405), “representa uma tendência secular para o desenvolvimento sistemático de uma busca
empreendedora por meios políticos de tornar o mundo seguro para a habitação humana”.
As manifestações concretas desse processo, que continua até hoje, foram a criação de organismos
internacionais e, em particular, de organismos intergovernamentais. Esse processo de organização
internacional foi impulsionado e moldado não apenas pelas fraquezas do sistema estatal, mas também por
grandes guerras, mudanças tecnológicas, desenvolvimento econômico e crescente interdependência.
Saiba mais
De maneira mais recente, também vêm se destacando temas como a globalização, o processo de
descolonização da América Latina, da Ásia e da África, além do surgimento de uma série de desafios de
governança no fim do século XX e no início do XXI. 
Inovações iniciais em governança e as organizações
internacionais
A Batalha de Waterloo, por Clément-Auguste Andrieux (1852).
No século XIX, o processo de organização internacional foi estimulado por uma série de tendências
importantes. A derrota de Napoleão em 1815 pôs fim às convulsões que se seguiram à Revolução Francesa e
ao esforço para criar um império na Europa. O surgimento de cinco grandes potências europeias — Áustria-
Hungria, Grã-Bretanha, França, Prússia e Rússia — deu início a uma era de relativa paz que durou quase um
século. 
Pintura de um complexo de fábricas no final do século
XIX, por Robert Friedrich Stieler (1881).
As fronteiras europeias definidas pelo Congresso de
Viena de 1814.
A industrialização iniciada na Inglaterra se espalhou por
todas as partes do continente, resultando na expansão do
comércio e das trocas de bens entre os países europeus,
assim como entre esses Estados e suas colônias. Inovações
tecnológicas, como o telégrafo, deram origem a problemas
práticos nas relações interestaduais, como, por exemplo, a
necessidade de estabelecer padrões comuns.
As interações de Estado para Estado tornaram-se mais
frequentes e intensas, enquanto a disseminação de ideias
democráticas capacitava as pessoas a organizar grupos não
governamentais para atender às suas necessidades, como
os direitos dos trabalhadores, e aos interesses comerciais
privados.
Em um livro pioneiro sobre organização internacional, Inis Claude (1919) descreve três grandes inovações de
governança que surgiram no século XIX: o Concerto da Europa, os sindicatos públicos internacionais e as
Conferências de Haia, de que trataremos aqui.
O Concerto da Europa, de 1815, foi um concerto
das principais potências europeias que
tomaram decisões em todo o sistema por meio
de negociação e consenso. A primeira inovação
foi que os membros concordaram em coordenar
o comportamento com base em certos direitos
e responsabilidades e expectativas de
reciprocidade difusa. Mesmo operando como
Estados e sociedades separadas, eles atuavam
dentro de uma estrutura de regras e consultas.
 
O sistema de concertos envolvia a prática de
reuniões multilaterais periódicas entre as
grandes potências europeias com o objetivo de
resolver problemas e coordenar ações.
Comentário
Embora essas reuniões não fossem institucionalizadas e não incluíssem nenhum mecanismo explícito
para a implementação de ações coletivas, elas solidificaram práticas importantes que, mais tarde, as
organizações internacionais seguiram. Isso incluía consulta multilateral, diplomacia coletiva e status
especial para "grandes potências".um acordo, normalmente uma convenção internacional assinada por
Estados-partes. No entanto, as secretarias tendem a assumir funções adicionais além de seus
mandatos iniciais, normalmente por iniciativa própria da secretaria, em um esforço para expandir sua
influência. 
A capacidade desses funcionários, nesse sentido, seria justamente a de mobilizar informações e construir
conhecimentos técnicos. O secretariado pode exercer poder em relação a seus diretores — isto é, os Estados-
membros —, classificando e organizando informações, fixando significados e oferecendo conhecimento
técnico especializado e treinamento que não estão imediatamente disponíveis para representantes estatais. 
Reunião do conselho de segurança da ONU em 2018.
Comentário
As secretarias podem orientar ou manipular a tomada de decisão dos Estados por meio da gestão e da
categorização da informação, que constitui a base para a tomada de decisão e para o discurso dos
Estados-membros. 
A “manutenção da paz”
Assista agora a um vídeo que explica como a expansão da missão dos secretariados internacionais surgiu
como resposta à necessidade de administrar e resolver um número crescente de problemas globais.
Conteúdo interativo
Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.
Uma expansão de missão semelhante pode ser
percebida na política da ONU, desde a década
de 1950, em tarefas limitadas de manutenção
da paz. Tradicionalmente, essas ações estavam
destinadas a mitigar conflitos interestatais,
como o monitoramento de cessar-fogo e o
patrulhamento de fronteiras.
Desde a década de 1980, no entanto, o
secretariado da ONU racionalizou que, para
cumprir a tarefa de manutenção da paz, era
necessário que ela interviesse nos assuntos
internos dos países. Nesse sentido, uma vez
que a principal ameaça à paz e à segurança
internacionais não eram mais as guerras entre Estados, e sim os conflitos internos, verificou-se que a
instituição deveria atuar de maneira mais assertiva. 
Vem que eu te explico!
Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar.
Organizações internacionais: constituição, personalidade e
funcionários
Conteúdo interativo
Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.
Funcionários, redes e comunidades de especialistas
Conteúdo interativo
Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.
Verificando o aprendizado
Questão 1
Sobre a personalidade jurídica das organizações internacionais, avalie estas assertivas:
 
I. É configurada para atender a circunstâncias históricas particulares, seguindo objetivos de atores específicos
e sempre levando em consideração elementos de legitimidade. Sendo assim, é parte importante desse
processo que se baseia nas formatações jurídica e normativa definidas pelos Estados durante o processo de
criação da OI.
II. É inerente aos diálogos e às negociações políticas, já que uma OI pode ter reconhecimento no direito
doméstico e não possuir reconhecimento internacional.
III. Normalmente, as organizações têm sistemas "internos" de regras, enquanto suas relações com o mundo
exterior tendem a ser regidas pelo direito internacional.
IV. É automático, pois, no momento de criação de uma OI, é obrigatório que os Estados também apresentem
dispositivos jurídicos para garantir seu reconhecimento externo.
 
Marque a alternativa correta.
A
Somente I e II estão corretas.
B
Somente I e III estão corretas.
C
Somente I e IV estão corretas.
D
Somente II e IV estão corretas.
E
Somente I, II e III estão corretas.
A alternativa E está correta.
Para muitas instituições internacionais, a personalidade jurídica internacional é uma questão de fato, tendo
sido expressamente prevista no instrumento constitutivo subjacente a essa entidade. Como resultado,
poucos comentaristas sobre o direito institucional internacional despendem tempo ou energia para
compreender ou explicar as sutilezas desse princípio nos últimos anos.
Questão 2
De modo geral, a literatura especializada aceita um conjunto de requisitos para a criação de organizações
internacionais. São eles:
A
A participação de atores estatais e não estatais, a implementação de um tratado e o estabelecimento de uma
sede fixa.
B
A criação de normas internas, o estabelecimento de Estados líderes, os financiamentos bem definidos e a
implementação de um secretariado ativo.
C
A criação de ferramentas de autoproteção, a capacidade de promover tratados transnacionais e uma sede
fixa.
D
O estabelecimento entre Estados, o uso de tratados e a criação de pelo menos um órgão constitutivo e
supostamente com uma vontade distinta dos Estados-membros da organização.
E
A promoção de valores típicos dos Estados fundadores, a presença de um corpo de funcionários profissional,
uma sede própria e normas internas.
A alternativa D está correta.
Embora a personalidade jurídica, do ponto de vista do direito interno, seja considerada muito relevante para
as OIs (isso permitiria que elas alugassem edifícios, contratassem funcionários, participassem de processos
judiciais etc.), a personalidade segundo o direito internacional pode não ser tão relevante.
5. Conclusão
Considerações finais
Vimos neste conteúdo que as organizações internacionais servem a muitos propósitos. No nível mais
fundamental, elas são centros de discussão: locais onde os representantes dos Estados se reúnem para
discutir e administrar, de maneira ideal, suas relações mútuas. Como tal, as OIs desempenham não só um
papel de definição da agenda, mas também um papel normativo - e de várias maneiras.
As organizações internacionais vêm chamando mais a atenção, principalmente pela sua capacidade de lidar
com desafios internacionais cada vez mais complexos e transnacionais. Ao longo dos módulos, nos
dedicamos a realizar uma reflexão crítica sobre o estudo das OIs no campo das Relações Internacionais.
Estariam as OIs e outras forças da globalização substituindo Estados soberanos como atores centrais na
governança global? As reflexões apresentadas aqui reforçam que não, apesar de elas estarem mudando
fundamentalmente a maneira como as próprias relações internacionais funcionam.
No entanto, o papel das OIs não deve ser exagerado. Elas, afinal, têm seus limites. Esperar que tenham um
desempenho além desses limites certamente levará ao desapontamento os defensores dessa tese. Nesse
sentido, cabe a nós, analistas, lembrar que tais organizações podem afetar as relações internacionais,
facilitando a cooperação e legitimando regras.
Podcast
Ouça agora a um podcast no qual são revistos os principais conceitos deste conteúdo.
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Documentários e filmes
 
Sérgio (2020), dirigido por Greg Barker. O filme retrata a vida do diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello,
funcionário da ONU, que morreu aos 55 anos, em Bagdá, vítima de um ataque terrorista.
 
The corporation (2003), dirigido por Mark Achbar e Jennifer Abboutt. Documentário que analisa os poderes
das grandes corporações no mundo atual.
 
No man’s land (2001), dirigido por Danis Tanovic e Rene Bitorajac. Drama sobre a guerra da Bósnia.
 
Livros
 
SEITENFUS, R. A. S. (2018). Manual das organizações internacionais. Porto Alegre: Livraria do Advogado,
2018.
 
HERZ, M.; HOFFMAN, A.; TABAK, J. Organizações internacionais: história e práticas. Rio de Janeiro: Elsevier
Brasil, 2015.
 
Trindade, A. A. C. Direito das organizações internacionais. Belo Horizonte: Del Rey, 2003.
Referências
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journal of international law. n. 94. v. 1. 2000.
 
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operation. In: United Nations University’s International Conference on Synergies and Co-ordinationbetween
Multilateral Environmental Agreements. Tokyo, 1999.
 
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BODIN, J.; JEAN, B. Bodin: on sovereignty. Nova York: Cambridge, 1992.
 
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scholar. 1971. Consultado na internet em: 17 nov. 2021.
 
CLAUDE JR, I. L. Power and international relations. Nova York: Aufl, 1964.
 
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THAKUR, R. . International organization and global governance. Leeds: Routledge, 2018. p. 283-298.
 
GRIGORESCU, A. Transparency of intergovernmental organizations: the roles of member states, international
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HENSEL, P. R.; MITCHELL, S. M.; SOWERS II, T. E. Conflict management of riparian disputes. Political
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JOLLY, R.; EMMERIJ, L.; WEISS, T. G. UN ideas that changed the world. Indiana University Press, 2009.
 
KEOHANE, R. O. International institutions and state power: essays in international relations theory. Leeds:
Routledge, 2020.
 
MILNER, H. V. Why multilateralism? Foreign aid and domestic principal-agent problems. Delegation and agency
in international organizations. n. 107. 2006. p. 107-139.
 
STRANGE, S. The retreat of the state: The diffusion of power in the world economy. International studies
quarterly. n. 42. 1998. p. 135-135.
 
WEISS, T. G.; WILKINSON, R. (Eds.). International organization and global governance. Leeds: Routledge, 2013.
	Teoria das Organizações Internacionais
	1. Itens iniciais
	Propósito
	Objetivos
	Introdução
	1. Os atores nas organizações internacionais
	Origens das organizações internacionais
	Formação dos Estados contemporâneos
	Conteúdo interativo
	Contextualização
	Saiba mais
	Inovações iniciais em governança e as organizações internacionais
	Comentário
	Atenção
	Concerto europeu: o caso do Cabo Spartel Light
	Conteúdo interativo
	Experiência da Liga das Nações e construção das organizações internacionais modernas
	Comentário
	Comentário
	Vem que eu te explico!
	As origens das organizações internacionais
	Conteúdo interativo
	A experiência da Liga das Nações e construção das organizações internacionais modernas
	Conteúdo interativo
	Verificando o aprendizado
	2. Organizações internacionais: cenários e perspectivas
	Interdependência, cooperação e multilateralismo
	Interesses comuns
	Coordenar suas ações
	Espaços facilitadores das relações dos Estados
	As organizações internacionais como valor estratégico
	Conteúdo interativo
	Organizações internacionais e os processos de cooperação e integração
	Resumindo
	Interdependência e multilateralismo como poder das organizações onternacionais
	Direitos humanos: a atuação das organizações internacionais
	Conteúdo interativo
	Exemplo
	Exemplo
	Vem que eu te explico!
	Interdependência, cooperação e multilateralismo
	Conteúdo interativo
	Interdependência e multilateralismo como poder das organizações internacionais
	Conteúdo interativo
	Verificando o aprendizado
	3. Negociações internacionais: Estados e instituições
	Governança global e organizações internacionais
	Comentário
	Organizações internacionais e a solução de questões globais
	Organizações internacionais: oportunidades e restrições
	Conteúdo interativo
	Política e eficácia da governança global
	Reflexão
	Atenção
	Exemplo
	Exemplo
	Vem que eu te explico!
	Governança global e organizações internacionais
	Conteúdo interativo
	Política e eficácia da governança global
	Conteúdo interativo
	Verificando o aprendizado
	4. Temas sensíveis e narrativas sobre as organizações internacionais
	Organizações internacionais: constituição, personalidade e funcionários
	Eficácia e eficiência
	Articulação
	Comentário
	Personalidade jurídica das instituições internacionais
	Exemplo
	Comentário
	Funcionários, redes e comunidades de especialistas
	Exemplo
	Exemplo
	Comentário
	A “manutenção da paz”
	Conteúdo interativo
	Vem que eu te explico!
	Organizações internacionais: constituição, personalidade e funcionários
	Conteúdo interativo
	Funcionários, redes e comunidades de especialistas
	Conteúdo interativo
	Verificando o aprendizado
	5. Conclusão
	Considerações finais
	Podcast
	Conteúdo interativo
	Explore +
	ReferênciasReunindo-se mais de 30 vezes no século anterior à Primeira Guerra Mundial, as grandes potências
constituíram um clube de iguais, ditando as condições de entrada para outros possíveis participantes. Na
última das reuniões do concerto, que ocorreu em Berlim em 1878, eles dividiram as partes antes não
colonizadas da África, ampliando o alcance do imperialismo europeu.
A criação dos sindicatos públicos internacionais foi a segunda inovação organizacional do século XIX.
Monumento à criação da ITU (International
Telecommunication Union) erigido por iniciativa da UIT
após a Conferência de Lisboa.
Essas agências foram inicialmente
estabelecidas entre os Estados europeus para
lidar com os problemas decorrentes da
Revolução Industrial, da expansão do comércio,
das comunicações e das inovações
tecnológicas.
 
Esses problemas funcionais envolviam
questões, como, por exemplo, padrões de
saúde para viajantes, regras de transporte
marítimo no rio Reno, aumento do volume de
correspondência e uso transfronteiriço do
recém-inventado telégrafo. Muitos desses
problemas mostraram-se passíveis de
resolução mediante uma cooperação
intergovernamental.
A União Internacional do Telégrafo (UIT) foi
formada em 1865; a União Postal Universal (UPU), em 1874. Elas facilitaram a comunicação, o transporte e,
portanto, o comércio. Com níveis crescentes de interdependência, os Estados europeus acharam necessário
cooperar voluntariamente para cumprir tarefas não políticas. Como a ITU e a UPU estavam entre as primeiras
OIs a serem estabelecidas, elas determinaram vários precedentes. 
Tanto a ITU quanto a UPU foram baseadas em convenções internacionais que convocavam
conferências periódicas das partes envolvidas, por exemplo. Os delegados, entretanto, vinham das
administrações telegráficas e postais dos governos; assim, a diplomacia multilateral não era mais
domínio exclusivo dos diplomatas tradicionais.
Com os sindicatos internacionais públicos subsequentes, as duas organizações estabeleceram
escritórios ou secretarias internacionais compostas por funcionários permanentes contratados em
vários países.
Os sindicatos públicos desenvolveram as técnicas para convenções multilaterais — tratados de legislação ou
regulamentação — por meio de revisões periódicas dos regulamentos telegráficos e postais. Assim, os
sindicatos e organizações internacionais públicas dedicadas a tarefas não políticas definidas deram origem ao
funcionalismo e às OIs especializadas, ajudando os Estados a lidar com problemas práticos em suas relações
internacionais.
Primeira Conferência Internacional de Paz, em Haia (1899).
A terceira inovação de governança no século XIX foi o conceito de conferências amplas nas quais todos os
Estados foram convidados a participar da solução de problemas, o chamado Sistema de Haia. Em 1899 e 1907,
o czar Nicolau II da Rússia convocou duas conferências em Haia (Holanda), envolvendo Estados europeus e
não europeus, para pensar proativamente sobre quais técnicas os Estados deveriam ter disponíveis para
Segunda Conferência Internacional de Paz, em Haia
(1907).
Tropas americanas durante a Primeira Guerra Mundial.
prevenir a guerra e em que condições a arbitragem, a negociação e o recurso legal seriam apropriados
(ALDRICH; CHINKIN, 2000). 
Atenção
As Conferências de Haia resultaram na Convenção para a Solução Pacífica de Controvérsias
Internacionais, nas comissões internacionais de inquérito ad hoc e no Tribunal Permanente de
Arbitragem. 
A institucionalização do Tribunal Permanente de Arbitragem em 1899 foi a materialização da prática
generalizada de inserir cláusulas dos tratados que exigiam a arbitragem. Composto por juristas selecionados
por cada país, esse tribunal continua existindo e tem sido utilizado para lidar com fronteiras, investimentos e
outras disputas envolvendo Estados, corporações e demais atores não estatais. 
As Conferências de Haia também produziram várias
inovações importantes de procedimento. Foi a primeira vez
que os participantes incluíram Estados pequenos e não
europeus - e todos com voz igual. O que havia sido, em
grande parte, um sistema de Estados europeu até o fim do
século XIX tornou-se um verdadeiramente internacional no
início do século XX.
Pela primeira vez, os participantes utilizaram técnicas,
como, por exemplo, eleição de presidentes, comitês
organizadores e votação nominal, elementos que se
tornaram características permanentes das organizações do
século XX. As Conferências de Haia também promoveram as
novas ideias de interesses comuns da humanidade e a codificação do direito internacional.
Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial em 1914, uma terceira Conferência de Haia nunca foi convocada.
No entanto, as duas primeiras, assim como várias outras conferências realizadas durante o século XIX,
representaram os primeiros esforços coletivos para abordar problemas de guerra, questões decorrentes de
novas tecnologias e maior comércio em uma base regular e universal. As inovações do século XIX, portanto,
serviram como fundamentos vitais para o desenvolvimento das OIs do século XX e para a noção mais ampla
de governança global no XXI.
Como as organizações internacionais do século
XXI, os organismos internacionais ativos na
década de 1860 se destacaram por uma ampla
variedade de atividades, a maioria delas
confundindo as fronteiras entre atividades
governamentais e iniciativas apoiadas por uma
sociedade civil internacional cada vez mais
ativa.
 
A existência de um órgão executivo
internacional nem sempre demonstra sua
relevância política; portanto, a própria presença
de um quadro institucional não explica
suficientemente sua respectiva importância.
Um número expressivo de organismos
internacionais com objetivos e formatos distintos também dominou o campo mais politicamente sensível da
época: a expansão colonial em andamento. Nesse contexto, eles se dedicavam à seguinte questão decisória:
se o poder territorial, um elemento-chave da construção da nação, poderia ser compartilhado
internacionalmente. Esse objetivo de territórios administrados internacionalmente resultou em arranjos
extraterritoriais de todos os tipos.
Embora fossem instrumentos de coerção com os Estados não ocidentais, esses acordos possibilitaram que os
países pertencentes ao clube exclusivo do chamado Concerto Europeu participassem de projetos
imperialistas e dividissem o poder político de uma forma até então desconhecida.
Concerto europeu: o caso do Cabo Spartel Light
Assista agora a um vídeo em que se comenta o caso da Comissão Internacional do Cabo Spartel Light, uma
organização internacional que, de 1864 a 1956, supervisionava e controlava o acesso ao Mar Mediterrâneo
através do Estreito de Gibraltar.
Conteúdo interativo
Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.
Nesse período, as OIs também podem ser observadas como espaços para concessão de privilégios a países
ocidentais em questões jurisdicionais, econômicas e tributárias. No século XIX, por exemplo, o sultão otomano
assinou, em 1861, tratados internacionais que estabeleceram um comitê internacional para a reorganização do
Líbano.
A governança internacional na forma de tratados multinacionais, comissões e comitês internacionais
seguiu em números consideráveis até o fim desse século. Esses acordos internacionais garantiam o
acesso aos rios (Reno, Danúbio e Congo), aos territórios (Congo, em 1885) e aos portos. Comitês
internacionais controlaram pelo menos temporariamente as dívidas nacionais do Egito (1880), da
Grécia (1897), da Macedônia (1906) e do Império Otomano (1878), além de estabelecer zonas
extraterritoriais (acordo internacional em Xangai no ano de 1843).
Apesar desses desenvolvimentos, os arranjos institucionais do século XIX mostraram-se inadequados para
prevenir a guerra entre as principais potências europeias. Altos níveis de interdependência e cooperação em
várias áreas de interesse foram insuficientes para evitar a eclosão da Primeira Guerra Mundial, apontando
vividamente para as fraquezas e as deficiências dos arranjos do séculoXIX e do próprio sistema estatal. 
Experiência da Liga das Nações e construção das
organizações internacionais modernas
A primeira reunião da Assembleia da Liga das Nações ocorreu em 15 de novembro
de 1920, em Genebra, na Suíça.
Resultado das Conferências de Paz em Paris em 1919, a Liga das Nações moldou a comunidade de OIs de uma
nova maneira. Agora, pela primeira vez, uma organização governamental internacional tentava influenciar
substancialmente as relações internacionais em seu sentido mais amplo. A nova Liga se tornou um centro de
atração para outras organizações, as quais, por conta disso, abriram suas sedes em Genebra, na Suíça.
A Liga das Nações, em primeiro lugar, refletiu o ambiente em que foi concebida: o imediato pós-Primeira
Guerra. Dois princípios básicos podem ser reforçados para se compreender essas movimentações: os
Estados-membros concordaram tanto em respeitar e preservar o território, a integridade e a independência
política das outras nações quanto em empregar distintos métodos de solução de controvérsias.
Comentário
No geral, a Liga ficou muito aquém das expectativas, em grande parte porque se baseava no princípio da
cooperação voluntária e pelo fato de a soberania de seus Estados-membros permanecer intacta. Sua
estreita associação com a paz injusta da Primeira Guerra Mundial e com o Tratado de Versalhes
prejudicou a organização desde o início. 
Embora a ausência dos Estados Unidos na filiação à Liga tenha se mostrado uma fraqueza crítica, foi a
relutância de outras potências importantes, principalmente a Grã-Bretanha e a França, que se mostrou
essencial para o fim da organização. As duas potências foram lenientes nas respostas à agressão aberta do
Japão, da Itália e da Alemanha, por exemplo. Também se pode argumentar que a própria ideia de segurança
coletiva era impraticável e excessivamente idealista em um mundo de Estados soberanos.
O próprio pacto continha uma série de lacunas. Assim, entre 1935 e 1939, muitos membros se retiraram.
Dessa forma, a Liga foi inoperante durante os seis anos da Segunda Guerra Mundial, de 1939 a 1945. Seus
membros foram convocados uma última vez, em abril de 1946, para encerrar a organização e transferir seus
ativos para as novas Nações Unidas.
Apesar de suas deficiências, a Liga das Nações representou um importante passo à frente no
processo de organização internacional e na governança global. A Liga realizou um considerável
trabalho técnico, especialmente seu setor de saúde, além de desenvolver cooperação econômica e
financeira. Ela deu voz para grupos marginalizados e Estados que não estavam na esfera ocidental,
além de fomentar novas formas de cooperação. No entanto, a organização falhou em garantir a paz.
Desse modo, no início da Segunda Guerra Mundial, muitas pessoas reconheceram a necessidade de começar
a planejar uma nova organização, embora o escopo fosse muito maior que o da Liga. Esse planejamento
começou logo depois que os Estados Unidos entraram na guerra em 1941 e se baseou nas lições da Liga ao
estabelecer as bases para a instituição sucessora: as Nações Unidas (GRIGORESCU, 2007). 
Comentário
Com o tempo, tornou-se evidente que uma das principais tendências do século XX foi o desenvolvimento
de numerosas Organizações internacionais (pequenas e grandes, de propósito geral e especializadas)
para servir a objetivos díspares e gerenciar necessidades diferentes. 
Os conselhos em algumas OIs não operam com base no princípio de “um Estado, um voto”, mas têm
disposições para votação ponderada ou qualificada, como é o caso do poder de veto dos membros
permanentes do conselho de segurança.
Nem todas as entidades de membros plenos (denominadas “assembleia”, “assembleia geral” ou “conferência”)
são iguais. Embora muitas sejam compostas por representantes de todos os Estados-membros, algumas
Documento original da primeira Convenção de Geneva,
em 1864.
funcionam como uma entidade no nível de encontros e cúpulas. Entre as organizações regionais, apenas a
Organização dos Estados Americanos tem uma assembleia geral modelada nas assembleias da Liga e da
ONU.
Considerando as conexões estreitas entre o sistema das OIs
contemporâneas e o modelo de OIs criadas no fim do
século XIX, a relevância do desenvolvimento histórico
dessas organizações mais recentes torna-se evidente em
sua influência na criação de um sistema internacional além
da diplomacia tradicional de 1860 em diante.
Uma rede contínua de organizações multiplicou o número
de atores na política internacional, enquanto a ausência de
uma diferenciação entre atividades governamentais e não
governamentais nessa época fez com que a relevância
política da tomada de decisão semioficial tenha aumentado.
Vem que eu te explico!
Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar.
As origens das organizações internacionais
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A experiência da Liga das Nações e construção das organizações
internacionais modernas
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Verificando o aprendizado
Questão 1
No século XIX, o processo de organização internacional foi estimulado por uma série de tendências
importantes. Sobre o processo de organização internacional, avalie estas assertivas:
 
I. A derrota de Napoleão em 1815 pôs fim às convulsões que se seguiram à Revolução Francesa.
II. A industrialização iniciada na Inglaterra, que se espalhou por todas as partes do continente europeu,
resultou na expansão do comércio e das trocas de bens.
III. As inovações tecnológicas, como o telégrafo, deram origem a problemas práticos nas relações
interestaduais, como, por exemplo, a necessidade de estabelecer padrões comuns.
IV. A disseminação de ideias democráticas e as mudanças institucionais capacitavam as pessoas a organizar
grupos não governamentais para atender às necessidades. como os direitos dos trabalhadores. e aos
interesses comerciais privados.
V. O aumento das tropas regulares e as chamadas Revoluções Militares criaram a necessidade de se
estabelecer normas para o uso da força.
 
Marque a alternativa correta.
A
Somente I e II estão corretas.
B
Somente I, II e III estão corretas.
C
Somente II e III estão corretas.
D
Somente II, III e V estão corretas.
E
Somente I, II, III e IV estão corretas.
A alternativa E está correta.
As mudanças militares estabelecidas no século XIX foram importantes e geraram transformações
relevantes para o sistema internacional. Porém, naquele momento, não se criou nenhuma ferramenta
normativa ou instituições internacionais relevantes para lidar com esse desafio.
Questão 2
Sobre a Liga das Nações, podemos afirmar que o estudo aprofundado sobre essa instituição se torna
relevante na medida em que:
A
A Liga foi o primeiro momento no qual Estados empregaram o direito internacional para lidar com desafios
transnacionais.
B
A organização estabeleceu os princípios para controlar o uso da força internacionalmente — o que seria
replicado posteriormente nas Nações Unidas.
C
Apesar de sua falha em evitar um grande conflito global, a Liga criou procedimentos burocráticos e estruturas
que seriam replicados posteriormente.
D
A Liga promoveu o respeito entre o Sul e o Norte globais, reforçando a necessidade do fim das práticas
coloniais e imperialistas.
E
A Liga estabeleceu a necessidade de ações militares para o respeito de direitos humanos, o que
posteriormente seria reconfigurado nas chamadas operações de paz.
A alternativa C está correta.
Parte importante dos secretariados, dos procedimentos burocráticos e mesmo das instalações da Liga das
Nações foi repassada pela Organização das Nações Unidas após a Segunda Guerra Mundial. Nesse
sentido, o histórico e a compreensão da organização fazem com que possamos ter uma ideia mais
sofisticada das organizações contemporâneas.
2. Organizações internacionais: cenários e perspectivas
Interdependência, cooperação e multilateralismo
Edifício da Organização Mundialde Saúde, em Genebra, na Suíça.
Esta seção pretende debater a forma com a qual organismos internacionais (OIs) podem promover práticas de
cooperação e integração entre os Estados-membros — principalmente ao se levar em conta que tais
instituições não possuem, a princípio, poder para obrigar que certas regras sejam seguidas. Dentro dessa
lógica, alguns conceitos podem ser aplicados para entendermos essas movimentações. 
O conceito de interdependência tem sido central para aqueles que desejam explicar e compreender
a dinâmica das organizações internacionais e o papel dessas instituições nos processos de
governança global. À medida que o mundo se tornou mais globalizado, indivíduos, grupos e
instituições políticas ficavam cada vez mais interligados.
Descrever e explicar a natureza e as implicações dessa relação dinâmica são algo crucial para a compreensão
da política mundial, das OIs e da governança global.
1
Interesses comuns 
Os Estados criam OIs para buscar uma variedade de interesses comuns e servir a uma míriade de
funções que as nações não poderiam realizar individualmente. Essa comunicação regular facilita aos
Estados o compartilhamento de informações e a busca por interesses comuns, o que resulta
idealmente em maior cooperação por meio de ações específicas que contribuam para o alcance de
objetivos comuns.
 
Elas ajudam a implementar e monitorar os resultados dessas ações, auxiliando na coordenação das
respostas globais e supervisionando e fiscalizando a conformidade dos atores com essas regras.
2
Coordenar suas ações
No cenário de interdependência, as OIs também fornecem aos Estados a capacidade de coordenar
suas ações reunindo recursos financeiros, tecnológicos e analíticos para cumprir objetivos comuns.
Por exemplo, o Banco Mundial obtém recursos financeiros dos Estados-membros que, em seguida,
levantam seu próprio dinheiro nos mercados de capital internacionais para que possam emprestar
bilhões de dólares por ano aos países pobres.
3Espaços facilitadores das relações dos Estados
Os Estados pedem às OIs que elaborem leis, construam redes científicas, reconstruam Estados
devastados pela guerra e ajudem a criar novas democracias. Nesse sentido, os Estados estão
delegando autoridade e poder às OIs para cumprir seus interesses.
 
Esse conjunto de princípios e práticas das Organizações Internacionais, como visto até aqui, pode
ser resumido como espaços facilitadores das relações dos Estados, ao mesmo tempo em que
constitui uma burocracia especializada que facilita esse processo.
As organizações internacionais como valor estratégico
Assista agora a um vídeo em que se comenta o valor estratégico das organizações internacionais.
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Organizações internacionais e os processos de cooperação
e integração
Salão da Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York.
Se as OIs promovem integração, a definição do conceito de interdependência é essencial. Esse princípio
envolve a criação de vínculos entre os atores do sistema internacional, mas significa mais do que simples
interconexão.
Nesse trabalho, tais elementos envolvem um relacionamento no qual duas ou mais partes estão
ligadas em um sistema de ação de tal forma que as mudanças em uma parte impactam de maneira
significativa a realização das necessidades, dos valores e dos resultados desejados das outras. 
Como Milner apontou, a interdependência, assim como a anarquia, é uma característica-chave estrutural do
sistema internacional. Ela argumenta que a anarquia e a interdependência não se opõem uma à outra, como é
frequentemente afirmado. Ao contrário, ambas constituem características diferentes do sistema internacional. 
O filósofo alemão Karl Marx.
Hans Morgenthau foi uma das maiores personalidades
do século XX para o estudos das Relações
Internacionais.
A priori não se pode determinar a extensão da interdependência [de dois atores] a partir do grau de
hierarquia/anarquia presente em sua relação e vice-versa. Os dois conceitos são logicamente
independentes.
(MILNER, 2006, p. 15)
O pensamento de interdependência tem uma longa história nos estudos contemporâneos de Relações
Internacionais. Escrevendo na primeira metade do século XIX, por exemplo, Karl Marx se esforçou para criar
uma teoria científica da natureza e da evolução da organização social humana e da ordem mundial. 
A base teórica de Marx logo seria construída
por Lenin e por outros que viam o modo de
produção, a mudança tecnológica, as relações
econômicas exploradoras e a dinâmica das
relações sociais interdependentes entre as
coletividades — definidas ao longo de linhas de
classe, e não de linhas 0territoriais nacionais —
como constituintes dos elementos
determinantes da mudança e da transformação
nas Relações Internacionais.
Por sua vez, enquanto a interdependência
reflete uma acomodação mais próxima, o
estabelecimento de alianças menos complexas
pode ser entendido como cooperação, que surge quando os atores ajustam seu comportamento em relação
às preferências reais ou previstas de outros. A cooperação, assim, pode ser entendida como um processo em
que os Estados cumprem os acordos internacionais dos quais são parte, se abstendo de tomar ações
unilaterais para resolver um problema coletivo.
Nesse sentido, pesquisadores da chamada Escola
Institucionalista das Relações Internacionais argumentam
que as instituições promovem a cooperação entre os
Estados-membros, aumentando a informação, diminuindo a
incerteza e, com acréscimos da responsabilidade legal,
gerando um aumento da reputação.
Essas pesquisas também enfatizam o papel ativo que as OIs
desempenham no processo de gestão de guerras e
violências armadas, servindo como mediadores ou juízes
para ajudar os países membros a resolver conflitos
internacionais.
As OIs podem facilitar a cooperação entre os Estados-
membros passivamente, pontuam Mitchell e Hensel (2006), algo há muito reconhecido na literatura de direito
internacional. Por exemplo, se dois países reconhecem a jurisdição da Corte Internacional de Justiça (CIJ), a
capacidade de os dois lados levarem disputas à CIJ pode aumentar as chances de um acordo entre ambos
fora do tribunal.
Edifício do Tribunal de Justiça Europeu, em
Luxemburgo.
Um processo semelhante foi observado na Organização
Mundial do Comércio e no Tribunal de Justiça Europeu: os
fortes mecanismos de disputa legal nessas instituições
impedem os países de fazer reivindicações frívolas
(BURLEY; MATTLI, 1993).
Resumindo
Teorias institucionalistas e racionalistas de OIs tratam as preferências do Estado como fixas e exógenas.
Como os Estados são racionais e egoístas, eles teriam incentivos para abandonar os acordos
cooperativos ou se aproveitar do fornecimento de bens públicos internacionais sem pagar por seus
custos - o chamado bandwagon. 
As instituições internacionais, dentro dessa realidade, ajudam a mitigar essas tendências de várias maneiras:
 
Em primeiro lugar, as instituições internacionais estabelecem padrões de responsabilidade legal ou
responsabilização. As instituições servem para reforçar acordos e contratos e ajudam a organizar
relacionamentos de maneiras mutuamente benéficas, com os custos de renegociação de
compromissos aumentando e os de operação dentro dessas estruturas sendo reduzidos (KEOHANE,
2020, p. 89).
 
A segunda maneira pela qual as instituições facilitam a cooperação envolve a redução dos custos de
transação e, assim, torna mais fácil para os Estados negociar acordos. A centralização e a
independência das OIs aumentam sua eficiência e reduzem os custos de negociação para os membros.
 
As instituições, dentro dessa lógica, servem como fóruns regulares para reuniões e negociações, e
vinculam vários grupos de questões, facilitando o arranjo de grandes negociações. Por exemplo,
debates realizados dentro da Organização Mundial do Comércio (OMC) normalmente aglutinam mais
de um tema na mesma rodada de negociações.
As OIs possuem um corpo técnico e um secretariado que não atuam apenas como mediadores,e sim como
provedores de informações imparciais disponibilizadas para todos os membros. Ao reduzir as assimetrias de
informação por meio de um processo de atualização do nível geral de dados disponíveis, os regimes
internacionais reduzem a incerteza. As informações privadas criam incentivos para que os Estados
representem seus verdadeiros interesses no processo de negociação.
Outra forma de as instituições melhorarem as perspectivas de cooperação envolve a preocupação dos
Estados com sua reputação. O argumento geral é que, quando eles atuam no contexto de regimes
internacionais, é mais provável que cumpram os acordos de cooperação sem levar em consideração sua
reputação em futuras negociações. Keohane (2020, p. 94), por exemplo, afirma que a “reputação de um
governo, portanto, torna-se um ativo importante para persuadir outros a firmar acordos com ele”.
• 
• 
• 
Interdependência e multilateralismo como poder das
organizações onternacionais
Conferência ministerial da Organização Mundial do Comércio de 1998 no Palácio das
Nações, em Genebra.
Até agora, a discussão dos efeitos relativos das Organizações internacionais sobre o poder do Estado tem
sido feita com base no pressuposto de que o papel principal delas é servir de mediadora entre os Estados. O
próximo passo é perguntar o seguinte: as próprias OIs têm poder? Não há dúvida de que elas, como um todo,
são assimetricamente dependentes de Estados.
Elas são criadas pelos países, dependem deles para seu financiamento e podem ser fechadas e encerradas
pelas nações. Mas isso não significa necessariamente que as OIs sejam inteiramente dependentes. Nesse
sentido, até que ponto as OIs, como atores nas relações internacionais, têm um poder distinto do poder dos
Estados que as apoiam?
As organizações internacionais não têm o poder tradicional, isto é, o militar. Algumas OIs, entretanto,
têm alguns poderes policiais e jurídicos, podendo, por exemplo, empregar meios independentes para
monitorar se os Estados estão ou não cumprindo as regras internacionais, embora seja mais
frequente que elas confiem nos países para obter essas informações. 
É mais usual que as OIs tenham o poder de julgar: exemplos incluem a Corte Internacional de Justiça (CIJ) e o
Mecanismo de Solução de Controvérsias (DSM) da OMC. Nesse caso, tais órgãos judiciais adjudicam acordos
e criam interpretações oficiais do direito internacional, tendo, de fato, o poder de afetar as normas
internacionais de comportamento de maneiras que os Estados não podem controlar com precisão.
Existem duas fontes principais de poder independente para as OIs: autoridade moral e informação. Autoridade
moral é o poder de uma organização de falar legitimamente a respeito de sua área temática a fim de fazer com
que as pessoas e os Estados prestem atenção nela, mesmo nos casos em que ela não dispõe de recursos
materiais.
Essa autoridade fortalece a capacidade de gerar constrangimento das OIs. A maioria dos Estados aceita os
princípios do multilateralismo, e as OIs representam conjuntos de regras e procedimentos com os quais os
países-membros já concordaram explicitamente.
Direitos humanos: a atuação das organizações internacionais
Assista agora a um vídeo que explica como as negociações multilaterais são uma parte fundamental da
atuação das OIs, constituindo os processos de negociação diplomática por meio dos quais a comunidade
internacional confere legitimidade política ou passa a aceitar princípios generalizados.
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Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.
Compreender a natureza da diplomacia multilateral, portanto, é essencial para entender como essas
instituições funcionam e os possíveis resultados da sua atuação. Em sua essência, o multilateralismo se refere
à coordenação das relações entre três ou mais Estados de acordo com certos princípios.
Assim, os relacionamentos são definidos por regras e elementos acordados, com os participantes das
instituições esperando que os resultados gerem benefícios aproximadamente recíprocos ao longo do tempo.
Em contraste, espera-se que o bilateralismo forneça reciprocidade específica e trocas aproximadamente
equilibradas (mas não necessariamente iguais) por cada parte em todos os momentos.
A outra maneira pela qual as OIs podem usar a autoridade moral como fonte de poder é por meio do
empreendedorismo político, que é o uso de estruturas de governança por indivíduos ou organizações para
promover posições políticas específicas ou para colocar questões na agenda política.
Exemplo
Quando o secretário-geral da ONU faz um pronunciamento importante, é natural que seja amplamente
divulgado na mídia em todo o mundo. Existem poucas pessoas que podem reivindicar esse tipo de
exposição automática na mídia. 
Ao lado da autoridade moral, a outra fonte primária de poder independente das OIs na política internacional
são o controle e a capacidade de criar informações. Uma maneira pela qual ambos exercem esse controle é
por meio do que alguns estudiosos chamam de “comunidades epistêmicas”. Pode-se dizer que existe uma
comunidade epistêmica quando todos os especialistas técnicos em uma questão concordam sobre
determinado assunto. 
Exemplo
OIs podem representar comunidades epistêmicas quando todos os cientistas que lidam com a questão
da poluição no Mar Mediterrâneo concordam com um plano de ação específico. Com isso, pode ser
muito difícil para os Estados da Bacia do Mediterrâneo discordar desse plano. 
O prédio da Organização Meteorológica Mundial em
Genebra, onde também está sediado o Secretariado do
IPCC.
Da mesma forma, o Painel Intergovernamental
sobre as Mudanças Climáticas (IPCC) é uma
tentativa consciente da Organização
Meteorológica Mundial (OMM) e do Programa
das Nações Unidas para o Meio Ambiente
(PNUMA) de criar uma comunidade epistêmica
sobre o tema das mudanças climáticas. Isso
está começando a funcionar: cada vez menos
governos tentam argumentar que a mudança
climática global não está acontecendo, em
parte porque a comunidade epistêmica do IPCC
está tornando esses argumentos cada vez
menos críveis.
 
Além das comunidades epistêmicas, as OIs
podem criar padrões que afetam as maneiras
como governos e os países fazem negócios.
Um exemplo concreto disso pode ser encontrado na Organização da Aviação Civil Internacional (ICAO).
Como todos os voos comerciais internacionais atuais usam os padrões da ICAO, qualquer tentativa de alterar
os padrões da aviação civil internacional deve passar pela instituição. Caso contrário, a mudança seria inútil ou
exigiria a criação de uma organização e a atração de uma massa crítica de países para longe da ICAO, o que
seria um grande desafio político. Isso dá à OI uma posição central em todas as discussões sobre os padrões
internacionais da aviação civil. 
A interdependência gera relações internacionais mais cooperativas, ou as OIs são simplesmente um
novo fórum para políticas de poder tradicionais?
A resposta, é claro, está em algum lugar entre essas duas afirmações categóricas. Mas saber quais são as
inter-relações entre as OIs e o poder nas relações internacionais é uma questão para a qual a resposta
provavelmente varia a depender das diferentes áreas temáticas e OIs.
Nesse sentido, não há uma maneira clara de medir a potência. Às vezes, pode-se notar questões de poder
olhando para as negociações ou para os resultados; em outra, deve-se olhar para as estruturas institucionais.
Vem que eu te explico!
Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar.
Interdependência, cooperação e multilateralismo
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Interdependência e multilateralismo como poder das organizações
internacionais
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Verificando o aprendizado
Questão 1
As organizações internacionais são apontadas como detentoras de distintas funções que variam de acordo
com a teoria e o pesquisador analisados. Nesse sentido, avalie estas assertivas:
 
I. AsOIs fornecem um fórum no qual os Estados podem se reunir regularmente para cumprir quaisquer metas
que tenham estabelecido. Além disso, reforçam a circulação de informações, o que resulta idealmente em
maior cooperação por meio de ações específicas que contribuam para o alcance de objetivos comuns.
II. As OIs reúnem especialistas e tomadores de decisão para criar e disseminar temas e desafios
transnacionais. Por exemplo, elas podem servir como instrumento de proteção militar, já que podem
desenvolver ferramentas de segurança coletiva entre seus membros.
III. As OIs são instrumentos contra a desigualdade, pois podem criar barreiras comerciais vinculantes contra
Estados mais fortes no intuito de proteger países mais fracos.
 
Marque a alternativa correta.
A
Somente a I está correta.
B
Somente a II está correta.
C
Somente a III está correta.
D
Somente as afirmativas I e II estão corretas.
E
Somente as afirmativas I e III estão corretas.
A alternativa D está correta.
Apesar de algumas Organizações Internacionais possuírem dispositivos para tentar gerar algum grau de
redução de desigualdade no comércio, como é o caso da OMC, elas não são criadas exclusivamente com
esse intuito. Além disso, a maior parte não possui ferramentas vinculantes para essa movimentação.
Questão 2
As negociações multilaterais são uma parte fundamental da atuação das OIs. Podemos descrever esse
processo como:
A
A coordenação diplomática entre três ou mais Estados de acordo com certos princípios previamente
estabelecidos.
B
Um tipo de negociação que envolve necessariamente discrepâncias de poder entre os Estados mobilizados.
C
Um processo de produção da paz após um conflito armado de grandes proporções.
D
O resultado da interação entre atores não estatais, empresas e nações com o objetivo de lidar com os
Objetivos do Milênio, a chamada Agenda 2030.
E
A manifestação diplomática de países democráticos em um processo de coligação já previsto por autores
liberais como Kant.
A alternativa A está correta.
Em sua essência, o multilateralismo se refere à coordenação das relações entre três ou mais Estados de
acordo com certos princípios. Assim, os relacionamentos são definidos por regras e elementos acordados,
com os participantes das instituições esperando que os resultados gerem benefícios aproximadamente
recíprocos ao longo do tempo.
3. Negociações internacionais: Estados e instituições
Governança global e organizações internacionais
Como já apontamos , os principais desafios transnacionais contemporâneos ultrapassam fronteiras nacionais
e demandam a atuação de instituições que consigam articular diversas ferramentas políticas.
Nesse sentido, as evidências crescentes das mudanças climáticas e a pandemia da covid-19, aliadas à
contínua ameaça do terrorismo global e ao ressurgimento do nacionalismo, trouxeram para todo o mundo a
dimensão dos problemas complexos que o sistema internacional enfrenta atualmente.
Nenhum desses problemas pode ser resolvido por Estados
soberanos agindo isoladamente, já que eles requerem
algum tipo de cooperação entre os países e um número
crescente de instituições internacionais, principalmente com
o estabelecimento de novos mecanismos internacionais de
monitoramento ou a negociação de novas regras. 
Em 2005, dois estudiosos de Relações Internacionais
observaram: “A ideia de governança global quase atingiu o
status de celebridade. Em pouco mais de uma década, o
conceito passou das fileiras do desconhecido para um dos
temas centrais de orientação na prática e no estudo das Relações Internacionais” (BARNETT; DUVALL, 2004,
p. 1). 
Comentário
Em alguns momentos, o termo “governança global” tem sido usado apenas como um sinônimo para
organizações internacionais. Mais frequentemente, no entanto, ele é usado para capturar a
complexidade e o dinamismo dos muitos esforços coletivos dos Estados e uma variedade crescente de
atores não estatais para identificar, compreender e abordar várias questões e problemas no mundo
turbulento dos dias atuais. 
Desse modo, a governança global não é um governo global nem uma ordem mundial única. Não existe uma
estrutura hierárquica de autoridade de cima para baixo, mas tanto o poder quanto a autoridade nessa
governança estão presentes de várias maneiras e em vários graus.
Revendo a evolução do conceito, Thomas Weiss e Rorden Wilkinson (2015, p. 211) concluem: “Entendemos a
governança global como a soma das ideias, valores, normas, procedimentos e instituições informais e formais
que ajudam todos os atores — estados, OIs, sociedade civil e transnacionais — a identificar, compreender e
resolver os problemas transfronteiriços”.
O conceito de governança global tem raízes antigas, mas as concepções contemporâneas são, em
grande parte, um produto de desenvolvimentos desde o fim da Guerra Fria. Apesar de os Estados
manterem sua soberania e ainda exercerem poder coercitivo, essa governança cada vez mais se
apoia em outras bases de autoridade.
Assim, Emmanuel Adler e Steven Bernstein (2004, p. 302) observam que “a dissociação da força coercitiva e
do governo legítimo é a característica mais marcante da governança global contemporânea”. O estudo desse
fenômeno, portanto, requer explorar não apenas as formas que ele pode assumir, mas também inclui a política
e os processos pelos quais ele se desenvolveu, assim como os atores que desempenham vários papéis e as
relações entre eles.
Parte do valor do conceito de "governança global", então, é a maneira que nos permite olhar para as OIs e sua
atuação a longo prazo para estabelecer esforços coletivos a fim de lidar com problemas compartilhados.
Organizações internacionais e a solução de questões
globais
Complexo de edifícios das Nações Unidas, em Nova York.
As OIs fornecem o núcleo central do mecanismo multilateral formal que constitui a “arquitetura da governança
global”, frisam Cooper e Thakur (2018, p. 265). Ao longo do século passado, um número expressivo de OIs foi
criado para realizar as mais variadas tarefas, desempenhando funções diversas, incluindo a coleta de
informações e o monitoramento de tendências, a prestação de serviços e ajuda, o fornecimento de fóruns
para negociação intergovernamental e a resolução de disputas. 
Essas instituições ajudaram os Estados a formar hábitos estáveis de cooperação por meio de
reuniões regulares, coleta e análise de informações e solução de controvérsias, bem como
atividades operacionais. 
Outra função das OIs - e particularmente da ONU - tem sido o desenvolvimento de ideias e conceitos-chave
sobre segurança e desenvolvimento econômico e social. A ONU gerou ideias, forneceu um fórum para debate,
deu legitimidade a elas, promoveu sua adoção em políticas e gerou recursos para implementar e monitorar o
progresso, explicam Jolly, Emmerij e Weiss (2009, p. 34-35).
No entanto, a maneira como as OIs atendem às suas várias funções, em um contexto de governança global,
varia dependendo da estrutura da organização, já que as instituições diferem quanto ao número de membros,
ao escopo de atuação e às suas regras. De maneira geral, as OIs permitem a centralização das atividades
coletivas por meio de uma estrutura organizacional concreta e estável e um aparato administrativo de apoio.
Secretário-geral da ONU, em 2020, Antonio Guterres.
Isso aumenta a eficiência das atividades coletivas e reforça a capacidade da organização de afetar os
entendimentos e os interesses dos Estados. Com isso, os Estados se unem para participar de um fórum de
negociação estável, permitindo reações rápidas em tempos de crise.
Organizações internacionais: oportunidades e restrições
Assista agora a um vídeo que reflete sobre a atuação das OIs, apontando os diferentes tipos de influência que
elas podem exercer sobre os Estados.
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Outra função das OIs - e particularmente da ONU - tem sido o desenvolvimento de ideias e conceitos-chave
sobre segurança e desenvolvimento econômico e social. A ONU gerou ideias, forneceuum fórum para debate,
deu legitimidade a elas, promoveu sua adoção em políticas e gerou recursos para implementar e monitorar o
progresso, apontam Jolly, Emmerij e Weiss (2009, p. 34-35).
No entanto, a maneira como as OIs atendem às suas várias funções, em um contexto de governança global,
varia dependendo da estrutura da organização, já que as instituições diferem quanto ao número de membros,
ao escopo de atuação e às suas regras. De maneira geral, as OIs permitem a centralização das atividades
coletivas por meio de uma estrutura organizacional concreta e estável e um aparato administrativo de apoio.
Isso aumenta a eficiência das atividades coletivas e reforça a capacidade da organização de afetar os
entendimentos e os interesses dos Estados. Assim, os Estados se unem para participar de um fórum de
negociação estável, permitindo reações rápidas em tempos de crise.
Como outras burocracias, as secretarias das
OIs frequentemente fazem muito mais do que
seus Estados-membros pretendiam. Como a
maior parte dos burocratas dessas instituições
é formada por funcionários públicos
internacionais, eles tendem a levar suas
responsabilidades a sério, promovendo o que
consideram uma “boa política” e protegendo-a
de interesses conflitantes.
As burocracias de OIs também tendem a
desenvolver as próprias culturas
organizacionais. Isso pode influenciar a forma
como elas definem as questões e quais tipos de
soluções políticas recomendam. Por exemplo, o secretariado da ONU criou a manutenção da paz no auge da
Guerra Fria e, mais tarde, planejou operações de consolidação da paz pós-conflito que incluíam uma ampla
variedade de tarefas, desde assistência eleitoral até polícia e reforma judiciária.
Política e eficácia da governança global
A política de governança global reflete a respeito de lutas por riqueza, poder e conhecimento no mundo, bem
como sobre as estruturas, os processos e as instituições globais que moldam os destinos e o bem-estar dos
atores internacionais.
Reunião do Conselho de Segurança da ONU, em 2017.
Assim, embora as relações de poder entre os Estados ainda
importem, o mesmo ocorre com os recursos e as ações de
uma série de atores não estatais. Com isso, entre as
questões centrais nas políticas de governança global,
incluem-se as seguintes: quem são os agentes políticos que
conseguem participar da tomada de decisões e quais
interesses se manifestam em certas instituições.
O poder é tão importante quanto a autoridade e a
legitimidade dos arranjos de governança global, os
quais, por sua vez, dependem cada vez mais da
responsabilidade e da transparência das instituições
multilaterais. 
Após o fim da Guerra Fria e a dissolução da União Soviética, os EUA emergiram como a única superpotência;
sua economia impulsionou a globalização, enquanto a democracia parecia estar se espalhando por toda parte.
No entanto, especialmente desde a invasão do Iraque em 2003, o poder e a influência dos EUA no mundo
diminuíram substancialmente.
Hoje, há muitos indicadores de que os Estados Unidos não estão mais no centro da política global da mesma
forma que antes e que há mais Estados com mais relações entre si em uma gama mais ampla de questões. Por
isso, pode ser surpreendente que muitas das definições de governança global "mascaram a presença de
poder".
Os arranjos de governança global existem porque os Estados e outros atores do sistema internacional os
criam e os imbuem de poder, autoridade e legitimidade, bem como os consideram valiosos para desempenhar
certas tarefas e servir a certas necessidades e interesses.
Reflexão
Ainda assim, as OIs não são apenas estruturas passivas e agentes de Estados. Como argumentam
Michael Barnett e Raymond Duvall (2004), essas instituições têm poder “tanto por causa de sua forma
(como burocracias racionais-legais) quanto por causa de seus objetivos (liberais)”, bem como a
autoridade que deriva de objetivos amplamente vistos como desejáveis e legítimos. 
É importante se ter em mente, contudo, que as questões de governança global desafiam uma categorização
fácil. O tráfico de mulheres e crianças, assim como os problemas mais antigos de pirataria e escravidão,
podem ter motivações econômicas, mas violam as normas fundamentais dos direitos humanos.
Campo de refugiados de Atma, na Síria, em 2018.
A questão dos refugiados é da área de direitos humanos, mas o problema está intimamente ligado à dinâmica
de Estados falidos, conflitos étnicos, guerras civis, aumento da pobreza e fraqueza do governo. As mudanças
climáticas e a perda da biodiversidade da floresta tropical são questões fundamentalmente ambientais, mas
qualquer ação ou inação tem ramificações econômicas e políticas críticas.
As questões de desenvolvimento humano não são apenas econômicas, mas também têm
ramificações sociais e políticas. Não existem categorias claras, embora as OIs tradicionais sejam
frequentemente organizadas como se existissem.
Atenção
Não existe um modelo único de governança global para atender a todas as questões e problemas de
política, assim como não há uma estrutura única de governança global. O que existe, na verdade, é uma
infinidade de abordagens que não se encaixam de maneira elegante. 
Como Stewart Patrick (2014, p. 59) prevê, “o futuro não verá a renovação ou a construção de uma nova
arquitetura internacional, mas sim a disseminação contínua de uma expansão multilateral adaptável, que
proporciona cooperação internacional em meio a uma confusão de arranjos informais e abordagens graduais”. 
Dentro dessa lógica, a interação entre as OIs e as possíveis
soluções abarcadas pela governança global também serão
múltiplas e difusas. Podemos reforçar três delas: a
construção de novas ideias, a promoção de agendas
específicas e o monitoramento de objetivos e estratégias.
A produção de novas ideias pode ser exemplificada
pela atuação das Nações Unidas. A ONU tem sido
tradicionalmente descrita como o centro da
governança global e da promoção de novas
perspectivas para lidar com desafios transnacionais. 
Nesse sentido, a instituição funcionaria como uma caixa de ressonância de Estados-membros, do
secretariado da ONU e de órgãos importantes, bem como de ONGs, especialistas e consultores. 
Exemplo
Entre as ideias alavancadas pela ONU está a manutenção da paz. Trata-se da perspectiva de que
militares, policiais e civis dos Estados-membros podem ser enviados, em nome da comunidade
internacional, para lidar com situações de conflito por todo o globo. Essa ideia representa uma inovação
institucional que não estava explícita na Carta da ONU. 
A ONU também tem sido fundamental para expandir o próprio conceito de segurança, partindo de uma lógica
do Estado para a segurança humana. Nessa perspectiva, os indivíduos também precisam ser protegidos da
violência, da privação econômica, da pobreza, de doenças infecciosas e de violações dos direitos humanos
por parte dos Estados.
Embaixadores do Irã, da Palestina, do Kuwait e da
Arábia Saudita em coletiva após reunião do conselho de
segurança da ONU.
Na área de desenvolvimento econômico, a ONU se beneficiou da criatividade de economistas que, em algum
momento, foram empregados da instituição ou serviram como consultores e contribuíram com ideias-chave.
Exemplo
O conceito de sustentabilidade foi criado por um relatório encomendado pela Assembleia Geral e
reforçou como o desenvolvimento econômico não pode ocorrer sem a garantia de que os recursos
ambientais não serão explorados até a exaustão. Como resultado, a ONU e outras instituições
começaram a pesar as necessidades de desenvolvimento com os imperativos ambientais. 
Assim como a segurança foi redefinida como segurança humana, o desenvolvimento também foi reconhecido
como desenvolvimento humano. Essa ideia representa uma mudança radical no pensamento internacional,
partindo da teoria econômica tradicional que mede o desenvolvimento em termos de crescimento do PIB de
um Estado ao longo do tempo. 
A segunda estratégia que as OIs promovem dentro de um contexto de governança global, ou seja, a
soluçãode problemas transnacionais, é a promoção de agendas específicas. Poucos duvidam do
valor da ONU como um fórum sofisticado, principalmente com o papel da assembleia geral,
permitindo que os Estados-membros se levantem e ajam em novas questões. 
Certamente, algumas análises reforçam que, como um fórum, a ONU tem sofrido determinadas distorções,
como se pode notar em relação às discussões associando o sionismo ao racismo nas resoluções da
assembleia geral. No entanto, em outras perspectivas, esse fórum proporcionou o espaço, em 2012, para o
reconhecimento da Palestina e sua admissão como Estado observador não membro. 
Quando o conselho de segurança foi impedido,
por vetos de Rússia e China, de encaminhar o
governo sírio ao Tribunal Penal Internacional em
2014 por seus crimes contra seus cidadãos, a
assembleia geral serviu como um fórum para
mobilizar o sentimento global. Esse é o valor de
se ter um lugar no qual as questões podem ser
levantadas e as resoluções, apresentadas,
assim como o consenso construído é capaz de
definir a agenda para a comunidade
internacional.
O terceiro elemento diz respeito ao
monitoramento de objetivos e estratégias.
Praticamente todos os atores de
governança global definem e promovem metas. Entre as OIs, a ONU é frequentemente criticada
como um fórum para declarações que não fazem diferença ou são pouco verossímeis, como, por
exemplo, eliminar a pobreza extrema no mundo. 
No entanto, uma das conclusões importantes que pesquisas sobre o tema reforçam é que o estabelecimento
de metas provoca mudanças importantes no sistema internacional. Cerca de 50 objetivos econômicos e
sociais, começando na década de 1960, foram criados. Tais objetivos têm sido acompanhados por meio de
monitoramento sistemático e de relatórios anuais, um processo que é inclusive aceito pelos Estados.
A longa lista de tratados de direitos humanos negociados sob os auspícios da ONU estabeleceu a base
normativa para os direitos humanos globais, com a organização determinando um mecanismo internacional
para sua promoção por meio de um escritório específico. Em suma, as metas forneceram um foco “para
mobilizar interesses, e para gerar pressões para a ação” (JOLLY; EMMERIJ; WEISS, 2009, p. 44).
Vem que eu te explico!
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Governança global e organizações internacionais
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Política e eficácia da governança global
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Verificando o aprendizado
Questão 1
A interação entre as Organizações Internacionais e as possíveis soluções abarcadas pela governança global
são múltiplas e difusas. Podemos reforçar três delas:
A
A construção de novas ideias, a promoção de agendas específicas e o monitoramento de objetivos e de
estratégias.
B
A paz global, a construção de novas ideias e o lobby por processos que gerem maior igualdade entre os
Estados.
C
A promoção de agendas específicas, as reformas institucionais em países do Sul global e a promoção de
temas ambientais.
D
A criação de comunidades de especialistas, a promoção de agenda ambiental e a promoção de grupos de
segurança internacional.
E
A promoção de agendas, a construção de forças militares transnacionais e o monitoramento de conflitos
armados.
A alternativa A está correta.
Não existe um modelo único de governança global para atender a todas as questões e problemas da
política, assim como não há uma estrutura única de governança global, mas uma infinidade de abordagens.
A política de governança global reflete a respeito de lutas por riqueza, poder e conhecimento no mundo,
bem como sobre as estruturas, os processos e as instituições globais que moldam os destinos e o bem-
estar de atores em todo o mundo.
Questão 2
A política de governança global envolve manifestações de poder e cálculos hegemônicos, principalmente
levando em consideração as capacidades de potências. Sobre essa afirmação, pode-se complementar:
A
As OIs conseguem se manter afastadas dos cálculos políticos das potências e sofrem pouca ou nenhuma
pressão para articular sua agenda.
B
O poder e as preferências de países poderosos, como os EUA, moldaram os elementos da governança global,
incluindo a ONU e o sistema econômico internacional liberal.
C
As OIs são braços dos Estados poderosos, atuando de acordo com sua agenda e nublando, de certa forma,
suas preferências em um cenário multilateral.
D
AS OIs acabam por se transformar em palco para discussão de países relevantes, tendo pouca capacidade de
influenciar debates mais sofisticados.
E
A tendência é que as OIs sejam influenciadas por países em desenvolvimento, fazendo com que se tornem
organizações menos democráticas e influentes.
A alternativa B está correta.
Após o fim da Guerra Fria e a dissolução da União Soviética, os Estados Unidos emergiram como a única
superpotência; sua economia impulsionou a globalização e a democracia parecia estar se espalhando por
toda parte. No entanto, especialmente desde a invasão do Iraque em 2003, o poder e a influência dos EUA
no mundo diminuíram substancialmente.
4. Temas sensíveis e narrativas sobre as organizações internacionais
Organizações internacionais: constituição, personalidade e
funcionários
Salão da Corte Internacional de Justiça, principal órgão judiciário da Organização
das Nações Unidas.
Neste módulo vamos mapear, de forma crítica, a maneira com a qual as OIs se constituem, apontando sua
dimensão jurídica e as estratégias de seus funcionários para influenciar o sistema internacional. A lógica de
criação das instituições geralmente está dividida entre dois imperativos contraditórios. 
Eficácia e eficiência
O desejo de tornar a organização o mais eficaz
e eficiente possível.
Articulação
A compreensão de que resultados não podem
ser alcançados sem a articulação de diversos
atores importantes.
Assim, em qualquer organização, existe uma disputa constante entre o imperativo da eficácia e o da
legitimidade. Sempre que uma entidade é considerada muito formal, são formulados meios para contornar os
procedimentos formais. Segundo a mesma lógica, sempre que ela for considerada muito informal, haverá uma
chamada para fortalecer o controle sobre a tomada de decisão.
Um elemento que torna a situação mais complexa é justamente a escolha de um ponto preciso sobre
esses elementos, já que a política de constituição de uma instituição naturalmente envolve
negociações políticas. Com isso, é natural que as decisões relativas ao desenho institucional tendem
a ser influenciadas por numerosas preocupações geopolíticas, jurídicas ou econômicas. 
Certamente, nenhum formulador teria planejado inicialmente dar a cinco Estados o direito de vetar quaisquer
decisões no Conselho de Segurança das Nações Unidas, com a filiação permanente provavelmente podendo
ser justificada em uma base racional, como, por exemplo, o reforço de que esses países teriam
responsabilidades especiais para a manutenção da paz e da segurança internacionais.
No entanto, a constituição do P5 serve a um propósito eminentemente político. O P5 foi considerado o preço a
se pagar para ter alguns desses Estados a bordo e, portanto, dar à Organização das Nações Unidas a chance
de relevância que a Liga das Nações nunca teve.
Memorial ao Genocídio em Kigali, na Ruanda.
A cultura organizacional ajuda a explicar
resultados intrigantes que, de outra forma,
seriam difíceis de entender, como falhas de
desempenho persistentes. Por que, por
exemplo, a Organização das Nações Unidas
(ONU) falhou em promulgar um mandato
robusto de manutenção da paz e força que
poderia ter evitado o genocídio em Ruanda?
Comentário
Em suma, as OIs não são estabelecidas nem funcionam em um vácuo político. Em vez disso, elas são
configuradas para atender às circunstâncias históricas particulares, seguindo objetivos de atores
específicos e sempre levando em consideração elementos de legitimidade. Como debateremos na
próximasubseção, parte importante desse processo se baseia na formatação jurídica e normativa. 
Por que o Fundo Monetário Internacional (FMI) promoveu a liberalização da conta de capital ao longo da
década de 1990, apesar das evidências crescentes de que essa abertura produziu crises prejudiciais no
mercado financeiro?
Vários estudos demonstram os efeitos da cultura das OIs na capacidade de resposta e nas pressões por
mudança. Embora existam vários desafios para estudar a cultura e a constituição das OIs, a reflexão sobre
esses temas abre uma série de possibilidades analíticas.
A cultura das instituições é importante e deve ser incluída ao lado de outros fatores-chave que influenciam a
estrutura, os propósitos, o comportamento e a dinâmica de mudança de importantes OIs na política mundial.
No entanto, como campo de pesquisa, o estudo das culturas é novo e relativamente subdesenvolvido.
Personalidade jurídica das instituições internacionais
Quando determinado indivíduo decide abrir uma empresa, por exemplo, no Brasil, ele precisa seguir uma série
de procedimentos burocráticos para que a companhia passe a "existir'' formalmente. No nosso país, a
materialização desse ponto se dá com a constituição do chamado Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica
(CNPJ), que faz com que uma empresa possa, por exemplo, abrir conta em bancos ou alugar salas comerciais.
A empresa, nesse sentido, também passa a ser responsabilizada por eventuais erros, podendo ser processada
judicialmente.
A constituição jurídica das OIs é um tema semelhante ao descrito anteriormente, embora ele envolva
uma série de elementos mais complexos, já que elas atuam em uma série de países ao mesmo
tempo. Se a forma como as OIs são constituídas é relevante, o status jurídico das instituições
também é bastante significativo para sua compreensão. 
O uso histórico da personalidade jurídica internacional por OIs normalmente significa não mais do que uma
ficção jurídica que permite às instituições participar do sistema jurídico internacional. 
Conferência da IAEA (International Atomic Fusion
Agency), em Genebra, na Suíça.
Exemplo
Nenhum direito e responsabilidade é conferido pela personalidade jurídica internacional per se além da
mera participação. Para muitas instituições internacionais, essa personalidade é uma questão de fato,
tendo sido expressamente prevista no instrumento constitutivo subjacente a essa entidade. 
Como resultado, poucos comentaristas sobre o direito institucional internacional despendem tempo ou
energia para compreender ou explicar as sutilezas desse princípio nos últimos anos. O direito das
Organizações Internacionais não é regido por um único instrumento jurídico universal, tampouco por um
conjunto claro e universalmente aceito de normas. Normalmente, as organizações têm sistemas "internos" de
regras, enquanto suas relações com o mundo exterior tendem a ser regidas pelo direito internacional.
A questão de quando e se uma OI passa a
existir é respondida com base no direito
internacional, porém é de opinião geral que tais
critérios não são precisos. A literatura
especializada aceita um conjunto de quatro
requisitos: as OIs, assim é sugerido, são
normalmente (1) estabelecidas entre Estados
(2) com base em um tratado (3) e com pelo
menos um órgão, que, por sua vez, (4)
supostamente tem uma vontade distinta dos
Estados-membros da organização.
 
Embora a personalidade jurídica, do ponto de
vista do direito interno, seja considerada muito
relevante para as OIs, a personalidade, segundo
o direito internacional, pode não ser tão
relevante.
Há algum suporte empírico para essa proposição: a maioria dos documentos constituintes conterá uma
concessão de personalidade de acordo com a legislação nacional dos Estados-membros da organização ou
uma cláusula sobre as capacidades jurídicas específicas da organização de acordo com a legislação interna.
Em contraste, as cláusulas que concedem explicitamente personalidade jurídica internacional têm sido
tradicionalmente poucas e espaçadas, o que pode sugerir que a personalidade não foi considerada tão
relevante. Ela, segundo o direito internacional, é um conceito problemático e, no que diz respeito às OIs,
muitas vezes considerada de relevância limitada.
A lei atual é mais bem apresentada da seguinte forma: há uma forte presunção de que, uma vez que uma
organização é criada, ela será uma pessoa jurídica para fins de direito internacional, mas essa presunção pode
ser refutada, por exemplo, quando os Estados-membros explicitamente retêm a personalidade. Isso também
pode ser refutado quando não se espera que as organizações tenham negócios externos nem tenham a
intenção de celebrar sequer um acordo de sede no próprio nome.
Comentário
Como conclusão parcial, uma maneira de indicar a confusão entre as formas pelas quais as OIs podem
ser entendidas é uma materialização da própria lógica difusa do emprego dessas instituições e do
caleidoscópio de atores envolvidos no processo. Uma maneira de entendermos melhor esse processo é
justamente focando a capacidade dos funcionários dessas organizações de se manifestar e organizar
sua atuação. 
Funcionários, redes e comunidades de especialistas
Conferência de Mudanças Climáticas da Organização das Nações Unidas, em 2015.
Em um mundo cujos problemas parecem cada vez mais complexos, o conhecimento e a experiência são
essenciais para os esforços de governança. Por isso, especialistas de agências governamentais, institutos de
pesquisa, indústrias privadas e universidades em todo o mundo têm sido cada vez mais atraídos pelos
esforços internacionais para lidar com várias questões.
Exemplo
Nos primeiros anos da ONU, estatísticos e economistas desenvolveram o Sistema de Contas Nacionais,
que fornece a base para padronizar como os países calculam o PIB e outras estatísticas básicas que
servem como um meio de medir o desempenho econômico (JOLLY, EMMERIJ; WEISS, 2009, p. 42). 
Frequentemente, os especialistas podem fazer parte de redes transnacionais e participar de conferências e
negociações internacionais, expondo o estado do conhecimento científico, apresentando questões para
debate e propondo possíveis soluções. 
A ativista Greta Thunberg participa de conferência da
UE.
Desde 1988, centenas de cientistas de todo o mundo
participaram do Painel Intergovernamental sobre Mudanças
Climáticas (IPCC), cujos relatórios forneceram contribuições
importantes para as negociações sobre mudanças
climáticas globais e buscaram aumentar a conscientização
sobre as rápidas mudanças climáticas que estão ocorrendo
e seus prováveis efeitos no futuro.
Exemplo
A materialização dessa burocracia de especialistas se dá, de forma mais visível, nos chamados
secretariados. Esse conjunto de especialistas é tradicionalmente concebido como servidores que
facilitariam as OIs para que elas sirvam os Estados participantes da melhor forma. 
Andresen e Skjaerseth, entre outros autores, definem um secretariado como "uma organização internacional
estabelecida pelas partes relevantes para ajudá-los a cumprir os objetivos do tratado". Os secretariados
internacionais são projetados para apoiar os Estados na criação e na implementação de uma ampla gama de
funções e regimes internacionais.
No entanto, estudos recentes da teoria da burocracia e da pesquisa de Relações Internacionais sugerem que a
metáfora dos “servidores” frequentemente aplicada em relação às secretarias é parcialmente equivocada e
enganosa, pois elas também exerceriam uma considerável influência burocrática por meio de seus dirigentes.
A ideia de um serviço civil independente foi mais bem adotada e desenvolvida pela ONU, especialmente
durante o mandato do segundo secretário-geral de sua história, Dag Hammarskjöld (1953-1961). Os
funcionários da instituição deveriam se movimentar por meio de princípios de integridade e de independência
política em relação aos interesses nacionais dos Estados-membros.
As funções específicas desempenhadas por um secretariado são derivadas de suas regras
constitutivas consagradas em

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