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105VOL. 23, N.o 2 — JULHO/DEZEMBRO 2005
Saúde dos adolescentes
Assunção Dores Laranjeira de Almeida é assistente 2.o triénio da
Escola Superior de Saúde da Universidade de Aveiro.
Carlos Fernandes da Silva é professor catedrático da Universidade
de Aveiro.
Gabriel Saraiva da Cunha é professor agregado da Faculdade de
Medicina da Universidade de Coimbra, director do Serviço de
Doenças Infecciosas dos Hospitais da Universidade de Coimbra.
Submetido à apreciação: 9 de Fevereiro de 2005.
Aceite para publicação: 8 de Março de 2005.
Os adolescentes e o VIH/SIDA: estudo sobre
os conhecimentos, atitudes e comportamentos
de saúde relativos ao VIH/SIDA
ASSUNÇÃO DORES LARANJEIRA DE ALMEIDA
CARLOS FERNANDES DA SILVA
GABRIEL SARAIVA DA CUNHA
O principal objectivo desta investigação foi identificar e
comparar os conhecimentos, atitudes e comportamentos
preventivos sobre VIH/SIDA nos adolescentes. Em termos
de identificação de conhecimentos, atitudes e comporta-
mentos, detectou-se que a grande maioria dos adolescentes
reconhece a SIDA como uma doença normal, sendo um
tanto possível que venha a afectar muita gente em Portugal
e evidenciando uma forte vulnerabilidade individual à
SIDA. Das formas de transmissão da SIDA, o item referido
mais vezes foi através do contacto sexual com pessoa infec-
tada, seguido da via sexual. Quanto aos riscos de contágio,
81% dos adolescentes consideram que uma pessoa corre
muito perigo ao ter relações sexuais com pessoa infectada,
mesmo sem sintomas. Referem ter adoptado comportamen-
tos preventivos face à SIDA 53% dos inquiridos e 42% não
os adoptaram. A maioria dos adolescentes considera o pre-
servativo um tanto seguro e devem ter a preocupação de o
usarem em todas as circunstâncias. A divulgação do pas-
sado sexual é aceite pela maioria dos adolescentes; apenas
3% referem que não devem falar. A pesquisa de anticorpos
da SIDA é admitida pela maioria dos adolescentes.
Constatou-se haver relação entre o meio de inserção dos
adolescentes e o conhecimento da SIDA enquanto ameaça
grave, o conhecimento sobre os riscos de contágio da SIDA
e as atitudes face à SIDA.
Palavras-chave: adolescentes; VIH/SIDA; conhecimentos;
atitudes; comportamentos de risco.
1. Introdução
A SIDA/AIDS (síndroma da imunodeficiência adqui-
rida) é uma doença grave, quase sempre fatal e rela-
tivamente recente para a qual não existe cura ou
vacina. A descrição original de SIDA ocorreu em
1981 nos Estados Unidos da América em jovens
homossexuais do sexo masculino, 26 deles com sar-
coma de Kaposi e 5 com candidíase oral e pneumo-
nia por Pneumocyistis carinii. O agente etiológico da
SIDA é o VIH/VIH (vírus da imunodeficiência
humana), que pertence à família dos retrovírus.
Actualmente, sabe-se que a SIDA se propaga através
de dois retrovírus ligeiramente diferentes, o VIH 1 e
o VIH 2 (Daudel e Montagnier, 1995).
Existe um amplo espectro da doença provocada pelo
VIH, variando desde pessoas infectadas assintomáti-
cas até à doença clinicamente avançada que tem sido
chamada de SIDA. A infecção assintomática pode
persistir por anos, desconhecendo-se em profundi-
106 REVISTA PORTUGUESA DE SAÚDE PÚBLICA
Saúde dos adolescentes
dade as razões por que é que esse período é mais
ou menos longo, variando muito de indivíduo para
indivíduo. Este facto traduz-se num problema preo-
cupante, dado que as pessoas infectadas e sem sinto-
mas de SIDA são portadoras do vírus, ou seropositi-
vas, e podem infectar outras, desde que se observem
as condições que permitam a transmissão do VIH 1
e do VIH 2.
Vinte anos depois de ter sido descoberta, a SIDA
tornou-se a doença mais devastadora da história,
tendo infectado mais de 60 milhões de pessoas em
todo o mundo, em que um terço (20 milhões) já fale-
ceu, informação referida pela Comissão Nacional de
Luta contra a SIDA (Portugal. CNLS, 2002).
A complexidade das questões que envolvem a SIDA
implica uma acção direccionada na vertente da pre-
venção a fim de evitar a propagação da doença.
O combate à SIDA passa pela adopção e manutenção
de comportamentos seguros. A mudança de compor-
tamentos constitui um processo complexo, que se
desenvolve em várias etapas e difere de indivíduo
para indivíduo, de acordo com as suas características
psicológicas, sociais e culturais.
Está estimado que um quarto dos adolescentes irá ter
doenças sexualmente transmissíveis antes de chegar à
universidade (Lucas, 1990).
Desta forma, é fundamental defender uma interven-
ção o mais precocemente possível. Uma vez que a
adolescência é o período de transição entre a infância
e a idade adulta, considerando-se neste período uma
plasticidade e vulnerabilidade da personalidade indi-
vidual capaz de mudança e estando mais susceptível
para absorver conhecimentos e conceitos salutares
que a levarão a uma maturidade física, psicológica e
sexual mais salutar no conceito lato da saúde.
Urge implementar estratégias e programas preventi-
vos em idades o mais precoces possíveis, atendendo
aos factores de risco envolvidos, pois é um problema
de saúde pública e do próprio indivíduo.
Contudo, o sucesso final destas medidas depende
também da vontade de os indivíduos assumirem e/ou
manterem comportamentos de saúde adequados.
Neste contexto, o presente estudo incidiu sobre os
conhecimentos, atitudes e comportamentos de saúde
relativos ao VIH/SIDA dos adolescentes.
No âmbito desta investigação foi formulado o
seguinte objectivo: identificar e comparar conheci-
mentos, atitudes e comportamentos preventivos sobre
a SIDA nos adolescentes que frequentam a escola
inserida em meio não urbano com os adolescentes
que frequentam a escola inserida em meio urbano.
2. Metodologia
A investigação desenvolveu-se durante um período
de três meses, com a avaliação dos conhecimentos,
atitudes e comportamentos de 826 adolescentes com
idades compreendidas entre os 15 e os 18 anos que
frequentam o 10.o, 11.o e 12.o anos do ensino secun-
dário das Escolas Secundárias de Oliveira Frades e
de Vouzela, que se encontram inseridas em meio não
urbano, e a Escola Secundária Emídio Navarro, de
Viseu, que se encontra inserida em meio urbano.
A razão por que foram seleccionadas duas escolas
secundárias inseridas em meio não urbano prendeu-
-se com a necessidade de obter um número de parti-
cipantes com algum significado (371 adolescentes).
Foi definida a hipótese: «Há diferenças estatistica-
mente significativas entre os conhecimentos, atitudes
e comportamentos sobre VIH/SIDA dos adolescentes
que frequentam a escola inserida em meio não
urbano e os daqueles que frequentam a escola inse-
rida em meio urbano.»
No nosso estudo propusemo-nos investigar como
variável dependente os conhecimentos, atitudes e
comportamentos dos adolescentes face ao VIH/
SIDA.
Quadro I
Dimensões relativamente aos conhecimentos dos adolescentes sobre o VIH
Itens Perguntas
I SIDA: uma doença normal 1 1
II Percepção da SIDA como ameaça grave 1 2
III Percepção da vulnerabilidade individual à SIDA 1 3
IV Transmissão da SIDA 1 4
V Riscos de contágio da SIDA 1 5
Dimensões relativamente aos conhecimentos
dos adolescentes sobre o VIH/SIDA
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Saúde dos adolescentes
Para se avaliarem os conhecimentos dos adolescentes
sobre VIH/SIDA consideraram-se as dimensões apre-
sentadas no Quadro I.
Os formatos da resposta são variados para as diferen-
tes dimensões.
Para se avaliarem as atitudes e comportamentos dos
adolescentes face ao VIH/SIDA consideraram-se as
dimensões apresentadas no Quadro II.
Para a colheita de dados efectuou-se a aplicação de
um questionário de preenchimento individual e anó-
nimo baseado no health belief model, já utilizado por
João Santos Lucas em estudo sobre a população por-
tuguesa.
De acordo com Lucas (1987), este modelo afigura-se
adequado para verificar os conhecimentos, atitudes e
comportamentos dos adolescentes face ao VIH/SIDA
e de que forma a adopção de comportamentos pre-
ventivos está relacionada com esses comportamentos.
Foi previsto o tempo de, sensivelmente, dez minutos
para o seu preenchimento.
3. Apresentaçãoe discussão de resultados
O estudo assenta na amostra de 826 adolescentes, dos
quais 55% frequentam a escola inserida em meio
urbano e 45% frequentam a escola inserida em meio
não urbano. A idade média dos adolescentes era de
16,5 anos, sendo 58% do sexo feminino. O número
de inquiridos por ano de escolaridade variou entre
39% para o 11.o ano, 39% para o 10.o ano e 22% para
o 12.o ano.
SIDA: uma doença normal
A SIDA é considerada pela maioria dos adolescentes
(94%) como podendo afectar qualquer pessoa,
havendo apenas (5%) que a estereotiparam como
uma doença de homossexuais, de prostitutas e de
gente que se droga. Já Lucas (1987), em estudo sobre
a população portuguesa, obteve resultado seme-
lhante. A SIDA parece ser dominantemente represen-
tada como uma doença que qualquer um de nós
poderá vir a ter, e não apenas que alguns outros têm
ou poderão vir a ter. O aumento anual de novos casos
ajudou a concluir que a concepção errada de grupos
de risco ligados à SIDA deveria dar lugar à concep-
ção de comportamentos de risco.
Percepção da SIDA como ameaça grave
A maioria dos adolescentes pensa ser muito ou um
tanto possível que muita gente em Portugal possa vir
a estar infectada pela SIDA. Destes, 34% acham
mesmo que é muito possível que tal venha a aconte-
cer. Pelo contrário, apenas 6% consideram ser pouco
possível. Cerca de 1% tem dificuldade em prever o
que possa vir a passar-se nesta matéria. No estudo de
Lucas (1987) verifica-se uma similaridade com os
resultados obtidos. O facto de não existir uma vacina
nem tratamento curativo eficaz faz da doença o pro-
blema de saúde que mais apavora as pessoas. Quase
duas décadas se passaram após o aparecimento da
SIDA e a verdade é que a epidemia não está contro-
lada em nenhuma parte do mundo, estando mesmo
fora de controlo em muitas regiões. Segundo Lucas
(1993, p. 13), «a epidemia da SIDA ter-se-á iniciado
em meados da década de 70, mas só foi identificada
nos inícios dos anos 80, aparecendo num momento
em que a medicina parecia triunfante...». Hoje sabe-se
que a doença mata e o futuro não é muito promissor.
Percepção da vulnerabilidade individual à SIDA
Aliada a uma imagem não estigmatizadora mas
potencialmente pandémica da doença, detecta-se na
maioria dos adolescentes uma forte percepção da
vulnerabilidade individual à SIDA. Destes, 37% refe-
rem estar mesmo muito preocupados e 33% um tanto
preocupados. Detectando-se a percepção de não vul-
nerabilidade à SIDA em 25% que referiram estar
pouco preocupados e 5% nada preocupados. Apesar
de a maioria se considerar vulnerável à doença,
Quadro II
Dimensões relativamente atitudes e comportamentos
Dimensões relativamente atitudes
e comportamentos
I Comportamento sexual 2 6, 7
II Comportamentos preventivos 2 8, 9
III Atitudes preventivas 4 10,11,12,13
Itens Perguntas
108 REVISTA PORTUGUESA DE SAÚDE PÚBLICA
Saúde dos adolescentes
existe um quarto dos indivíduos que se considera
livre de perigo. Deve ter-se em conta que este senti-
mento de vulnerabilidade à doença constitui um dado
para o conhecimento acerca do VIH/SIDA dos ado-
lescentes, assim como constitui uma condição para
adoptar comportamentos preventivos. Por contraste,
no estudo de Lucas (1987) detectou-se na maioria da
população portuguesa a percepção de não vulnerabi-
lidade à SIDA. Pouco mais do que uma terça parte
dos inquiridos manifestou-se preocupada com a pos-
sibilidade de por qualquer azar da vida poder vir a ter
SIDA.
Transmissão da SIDA
A maioria referiu como forma de transmissão da
SIDA a via sexual, 81% com pessoa infectada, 73%
através das relações sexuais. Com valor percentual
próximo situaram-se aqueles que referiram através de
seringas usadas por outros, e nos hospitais 66%, atra-
vés de transfusão de sangue 64%, e ainda através de
lâminas/elementos cortantes 62%. O vírus da SIDA
só se transmite através do contacto com o sangue
infectado, está presente nas secreções sexuais e no
leite materno de mães previamente portadoras do
vírus. Tendo em conta que se pode ser infectado atra-
vés de contacto com sangue contaminado, devem ter-
-se em conta alguns comportamentos de risco, como
a troca de seringas entre os usuários de drogas injec-
táveis, o contacto com objectos perfurantes ou cor-
tantes, tal como navalhas de barba, lâminas, se estes
entrarem em contacto com o sangue.
Riscos de contágio da SIDA
A grande maioria (81%) reconheceu como muito
perigosas as relações sexuais com pessoas infectadas,
mesmo sem evidenciarem sintomas, e apenas 1%
considera que tal situação não representa nenhum
perigo. Com um número também bastante significa-
tivo (78%), é reconhecida como sendo muito peri-
gosa a utilização de seringas já utilizadas por outros
e apenas 1% considera que tal situação não repre-
senta nenhum perigo. Partilhar escovas de dentes,
beijar uma pessoa infectada, utilizar sanitários públi-
cos e piscinas públicas, restaurantes, pastelarias e
cafés são também julgados arriscados por parte de
um número significativo de inquiridos. No entanto, a
maioria dos adolescentes não crê correr qualquer
risco de contágio nos transportes públicos, ao beijar
uma pessoa amiga na face, ao cumprimentar as pes-
soas em contactos sociais e de trabalho. Alguns ado-
lescentes pensam que se devem evitar contactos com
pessoas portadoras do vírus VIH e com pessoas com
a doença em evolução. É uma ideia errada, visto que
estas pessoas necessitam de apoio, atenção, carinho e
ajuda. Solidariedade e companheirismo também são
tratamento. Face a uma pessoa seropositiva, há que
apelar para a humanização e para a solidariedade.
Assim, é muito importante que não se recusem os
contactos sociais, pois estes são muito importantes
para o equilíbrio psicológico do indivíduo.
Comportamento sexual
Houve uma ligeira subida na percentagem de indiví-
duos com vida sexual com um só parceiro, que subiu
de 13% para 14% entre o período de três anos e o
período de seis meses. A multiplicidade de parceiros
sexuais nos últimos três anos é de 12% e nos últimos
seis meses é de 5%. A SIDA afecta homens e mulhe-
res de todas as classes sociais, étnicas ou culturais,
surgindo com maior frequência em adolescentes e
adultos jovens (mais de dois terços em indivíduos
com menos de 25 anos), o que pode ser devido ao
facto de os adolescentes se tornarem sexualmente
activos mais cedo (Laugier, 1999).
Adopção de comportamentos preventivos
Afirmam ter adoptado comportamentos preventivos
face à SIDA 53% dos adolescentes, contra 42% que
não o fizeram. Apenas 35% dos inquiridos deram a
conhecer terem mudado hábitos e comportamentos
sexuais por causa da SIDA.
Nos casos das práticas sexuais existem várias medi-
das de prevenção: abstinência, relacionamento mono-
gâmico mútuo e prática sexual com uso de preserva-
tivo. No contexto de um envolvimento sexual estão
em acção factores que poderão dificultar a actuação
do comportamento preventivo, nomeadamente os
associados à urgência percepcionada da relação
sexual e o envolvimento afectivo com o parceiro, que
pode proporcionar uma ilusão de protecção. São
reforçadas as questões do prazer em detrimento de
outras vertentes da sexualidade, como a prevenção.
São veiculadas mensagens relativas à importância da
afirmação pela actividade sexual, podendo ou não ser
pontuadas por avisos mais ou menos ambíguos rela-
tivos ao VIH/SIDA.
Mudança de hábitos sexuais
A maioria dos adolescentes (59%) não alterou os
seus hábitos sexuais pelo facto de existir a doença da
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Saúde dos adolescentes
SIDA. Dos inquiridos, 35% deram a conhecer expli-
citamente terem mudado hábitos sexuais por causa
da SIDA. De acordo com Lucas (1987), nem todos
os padrões de comportamento sexual comportam
risco de contrair a doença, sendo, pois, decisivo
conhecer se os comportamentos que a ela conduzem
se modificaram.
Atitude face ao grau de segurança do preservativo
O uso do preservativo constitui de momento um dos
meios mais eficazes na prevenção da transmissão por
via sexual. A imagem de eficácia favorece a sua uti-
lização,como refere Lucas (1987). Apenas 28% dos
inquiridos o consideram muito seguro para o efeito
pretendido; no entanto, 65% julgam-no pelo menos
um tanto seguro. É de salientar que 6% dos inquiri-
dos consideram-no pouco seguro.
Atitude face ao uso do preservativo
nas relações ocasionais
Quem tem relações sexuais ocasionais com parceiros
diferentes deverá preocupar-se em usar preservativo
em todas as circunstâncias, é a opinião da maioria
dos inquiridos (95%). Este indicador de atitude pre-
ventiva face à SIDA permite conhecer o grau de
risco admitido. Apenas 4% referem preocupar-se
quando suspeitam de infecção. Em estudo sobre a
população portuguesa, Lucas (1987) obteve resulta-
dos em que a maioria dos inquiridos achava que nas
relações sexuais ocasionais o preservativo deveria ser
sempre usado. De facto, e entendendo as relações
ocasionais como comportamentos de risco, este pode
ser diminuído se os adolescentes que mudam fre-
quentemente de parceiros ou que têm relações
sexuais com parceiros cujo comportamento sexual
desconheçam utilizarem o preservativo.
Atitude sobre divulgação do passado sexual
junto de uma nova relação
Os adolescentes que iniciaram ou mantêm uma acti-
vidade sexual encontram-se hoje perante o dilema de
poderem ser portadores do vírus da SIDA e de pode-
rem contaminar os seus pares ocasionais ou definiti-
vos. Qual a atitude face à divulgação do passado
sexual junto de pessoa com quem estabeleceram uma
relação afectiva ou sexual? A maioria sugere que os
casais devem falar da sua vida afectiva passada. Mas
15% dos inquiridos acham que depende, 7% depende
do tipo de relação, 5% depende do tipo de pessoa,
5% depende se houver dúvidas. Apenas 3% acham
que não deve haver confissões. Também Lucas
(1987), em estudo sobre a população portuguesa,
obteve resultados semelhantes: a maioria sugeria que
os casais deveriam falar da sua vida afectiva passada.
Pesquisa de anticorpos da SIDA
Face à pesquisa de anticorpos da SIDA por parte dos
futuros cônjuges antes do casamento, a maioria dos
inquiridos reagiu favoravelmente a esta possibilidade
de pesquisa de anticorpos da SIDA que a recusa. Dos
inquiridos, 31% são mais cautelosos, fazendo depen-
der a sua aprovação da existência de condições espe-
cíficas que a aconselhem. Os resultados obtidos estão
também de acordo com o estudo efectuado por Lucas
(1987) no que se refere ao que pensa a população
portuguesa face a uma última medida preventiva.
Teste das hipóteses
Para testar as hipóteses se existe relação entre o meio
(urbano e não urbano) de inserção dos adolescentes e
as diferentes dimensões que são apresentadas de
seguida foram aplicados testes do quiquadrado ao
nível de significância de 5% e 1 grau de liberdade.
Conhecimentos
Dimensão I — SIDA: uma doença normal
Dos adolescentes inquiridos do meio urbano, 95%
têm conhecimento da SIDA como podendo afectar
qualquer pessoa, enquanto no meio não urbano esse
valor é de 93%. O resultado obtido implica a rejeição
da hipótese.
Dimensão II — percepção da SIDA
como ameaça grave
Verificou-se que 70% dos adolescentes do meio
urbano não têm conhecimento da SIDA enquanto
ameaça grave, enquanto no meio não urbano esse
valor é ligeiramente inferior (62%). Parece haver
relação entre o conhecimento da SIDA como ameaça
grave e o meio de inserção dos adolescentes. As dife-
renças de opiniões encontradas entre os adolescentes
que se encontram inseridos em meio urbano e não
urbano parece-nos deverem-se ao facto de ao nível
escolar não existir a preocupação de esclarecer esta
temática aos adolescentes do meio urbano, assim
110 REVISTA PORTUGUESA DE SAÚDE PÚBLICA
Saúde dos adolescentes
como a nível familiar, da saúde e comunidade. Per-
mitindo, desta forma, um desconhecimento pouco
saudável, que pode ter consequências catastróficas no
futuro destes jovens, se pensarmos que é uma situa-
ção que nos rodeia.
Dimensão III — percepção
da vulnerabilidade individual à SIDA
Os adolescentes do meio urbano e meio não urbano
apresentam valores próximos de conhecimento, res-
pectivamente 64% e 62%. Como refere Lucas
(1987), este sentimento de vulnerabilidade à doença
constitui uma condição para adoptar comportamentos
preventivos e a sua ausência pode constituir em si um
factor favorável à difusão da mesma. O conheci-
mento da percepção individual à SIDA é indepen-
dente do meio de inserção dos adolescentes.
Dimensão IV — conhecimento
das formas de transmissão da SIDA
Apesar da subjectividade no critério adoptado para a
avaliação dos conhecimentos, pode afirmar-se que,
na generalidade, o conhecimento dos adolescentes
sobre as formas de transmissão da SIDA não é ele-
vado. Uma percentagem importante de adolescentes
não tem conhecimento sobre a forma de transmissão
da SIDA (82% do meio urbano e 86% do meio não
urbano). Este conhecimento sobre as formas de trans-
missão da SIDA é independente do meio de inserção
dos adolescentes. De realçar que nenhum dos adoles-
centes apresenta conhecimentos profundos sobre as
formas de transmissão da SIDA.
Dimensão V — riscos de contágio da SIDA
Podemos afirmar que o conhecimento profundo dos
adolescentes sobre os riscos de contágio da SIDA é
baixo. Uma percentagem de certo modo elevada de
adolescentes apresenta um conhecimento modesto ou
mesmo não apresentam conhecimentos acerca dos
riscos de contágio da SIDA. Todavia, parece haver
relação entre o nível de conhecimentos e o meio de
inserção, havendo 16% dos adolescentes que têm
conhecimentos profundos sobre os riscos de contágio
da SIDA que pertencem ao meio não urbano e apenas
3% que pertencem ao meio urbano. A percentagem
dos adolescentes que não têm conhecimentos é maior
(38%) no meio urbano do que no meio não urbano
(35%). As diferenças de opinião entre os adolescen-
tes que se encontram inseridos em meio urbano e
meio não urbano parecem dever-se a deficiente infor-
mação no meio urbano acerca da SIDA, que, pelos
complexos problemas médicos, psicológicos, sociais
e económicos que arrasta consigo, despoleta a neces-
sidade de uma prestação de cuidados extremamente
alargada e de que se envolvam várias instituições e
até entidades.
Comportamentos e atitudes
Dimensão I — comportamento sexual
Dos adolescentes do meio não urbano, 81% altera-
ram os seus hábitos e comportamentos sexuais por
causa da SIDA, sendo este valor de 78% para os
adolescentes do meio urbano. De salientar que 22%
dos adolescentes do meio urbano não alteraram os
seus hábitos e comportamentos sexuais por causa da
SIDA, sendo este valor de 19% para os adolescentes
do meio não urbano. Admitimos que se deva, prova-
velmente, ao facto de haver adolescentes que ainda
não tiveram qualquer experiência sexual. A alteração
dos comportamentos sexuais é independente do meio
de inserção dos adolescentes.
Dimensão II — comportamentos adoptados
face ao VIH/SIDA
Registe-se que a grande maioria dos adolescentes
está disposta a correr riscos. Cerca de 71% dos ado-
lescentes do meio urbano e 74% do meio não urbano
manifestaram ter adoptado comportamentos de risco.
De acordo com Almeida (1997), as razões que se
podem apontar e que provavelmente explicam este
resultado são: dificuldades monetárias para a aquisi-
ção do preservativo; inibição própria destas idades;
meio sócio-cultural rígido e bastante restrito. Ainda
na opinião deste autor, e relembrando o modelo de
crença, a adopção de comportamentos preventivos
depende da facilidade na execução das acções
recomendadas. De salientar que 29% dos adolescen-
tes do meio urbano têm um comportamento preven-
tivo, sendo este valor de 26% para os adolescentes do
meio não urbano. A adopção de comportamentos
preventivos face ao VIH/SIDA é independente do
meio de inserção dos adolescentes.
Dimensão III — atitudes face à SIDA
A grande maioria dos adolescentes manifestou ter
tomado atitudes de risco face ao VIH/SIDA. 91% dos
adolescentes do meio urbano adoptam comportamen-
111VOL. 23, N.o 2 — JULHO/DEZEMBRO 2005
Saúde dos adolescentes
tos de risco e, concomitantemente, são aqueles que
menores atitudes preventivasmanifestaram (9%).
83% dos adolescentes do meio não urbano têm atitu-
des de risco e 17% têm atitudes preventivas. Parece-
-nos haver relação entre as atitudes dos adolescentes
face ao VIH/SIDA e o meio de inserção. De acordo
com Gomes (1993), relativamente à atitude, a ques-
tão fulcral é que ela é complexa, isto é, simultanea-
mente estável e susceptível de mudar, tem algo de
subjectivo e de objectivo, tem origem interna e
externa. A atitude não existe no abstracto, está ligada
a crenças e valores, com os quais interage, determi-
nando-se mutuamente. As diferenças de opiniões
entre os adolescentes do meio urbano e do meio não
urbano revelam uma atitude mais adequada dos ado-
lescentes inseridos no meio não urbano. Estes resul-
tados vêm confirmar algumas diferenças que se veri-
ficaram entre os meios não urbano e urbano. Um dos
factores que poderão estar na justificação desta dife-
rença poderá ser o facto de que no meio não urbano
as normas sociais são muitas vezes diferentes das
existentes em meio urbano e de que as crenças
podem com maior facilidade ter uma influência posi-
tiva ao nível dos comportamentos e atitudes. Vê-se,
assim, reforçada a ideia de que não é possível conce-
ber o indivíduo fora do contexto no qual se insere,
que se constitui enquanto uma matriz inter-relacional
determinante para o seu ser e para o seu estar.
4. Conclusão
Considerando os resultados obtidos e tendo em conta
todo o contexto e limitações desta investigação, é
possível extrair as seguintes conclusões: O meio de
inserção dos adolescentes não está relacionado com o
conhecimento da SIDA como podendo afectar qual-
quer pessoa; Existe relação entre o meio de inserção
dos adolescentes e o conhecimento da SIDA
enquanto doença grave; Não existe relação entre o
meio de inserção dos adolescentes e o conhecimento
da prevenção da vulnerabilidade individual à SIDA;
Os conhecimentos dos adolescentes sobre as formas
de transmissão da SIDA não são elevados, não
havendo mesmo, nenhum adolescente que apresente
conhecimentos profundos, e estes conhecimentos
sobre as formas de transmissão da SIDA são inde-
pendentes do meio de inserção dos adolescentes;
A generalidade dos adolescentes apresenta conheci-
mentos modestos sobre os riscos de contágio da
SIDA ou mesmo não apresenta, de salientar que a
grande maioria dos adolescentes que apresentam
conhecimentos mais aprofundados sobre riscos de
contágio da SIDA pertencem ao meio não urbano;
A grande maioria dos adolescentes afirma que altera-
ram os seus comportamentos sexuais face ao VIH/
SIDA, no entanto esta alteração é independente do
meio em que se encontram inseridos; Mais de metade
dos adolescentes adoptaram um comportamento de
risco, não existindo relação entre o meio de inserção
dos adolescentes e os comportamentos preventivos
adoptados face ao VIH/SIDA; A grande maioria dos
adolescentes têm atitudes de risco, existindo relação
entre o meio de inserção dos adolescentes e as atitu-
des preventivas em relação à SIDA.
Face aos resultados observados e da análise efec-
tuada, é urgente uma maior contribuição de todos na
prevenção da SIDA, proporcionando uma informa-
ção adequada e persistente, que permita aos adoles-
centes optar por estilos de vida mais saudáveis.
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Abstract
ADOLESCENTS AND HIV/AIDS: A STUDY ON KNOWL-
EDGE, ATTITUDES AND BEHAVIOURS TOWARDS HIV/
AIDS
The main purpose of this research was to identify and compare
preventive knowledge, attitudes and behaviours towards VIH/
AIDS in adolescents.
The most significant results allowed us to conclude that the
large majority of adolescents recognize VIH/AIDS as a normal
disease. However it is possible that many people in Portugal
will be infected, showing a strong individual vulnerability to
VIH/AIDS.
As far as the transmission mean is concerned, the more fre-
quently mentioned item is the sexual contact with a person
already infected. 81% from the adolescents think a person is in
a big danger having sexual relations with an infected person,
although there is no symptoms. 53% of the interviewees men-
tioned to have taken preventive measures. 42% of them,
though, have done nothing.
The majority of the adolescents consider the condom the safest
way and show the intention to use it in all circumstances.
As far as their past sexual life, only 3% of the adolescents do
not want to speak about it. The majority are open to do clinical
tests for AIDS antibodies.
A relation between the adolescents’ social environment and
their knowledge and attitudes towards AIDS as a serious threat
and transmissiblerisks, has been identified.
Keywords: adolescents; HIV/AIDS; knowledge; attitude; risk
behaviour.
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