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TRABALHO DOCENTE NA EDUCAÇÃO INFANTIL AULA 4 – A ÉTICA NA EDUCAÇÃO INFANTIL Prezado (a) aluno (a), Nesta aula, exploraremos a importância da ética na educação infantil e sua relação intrínseca com a práxis pedagógica. A ética na educação não se limita apenas ao ensino de valores morais, mas abrange também a forma como os educadores desenvolvem suas práticas pedagógicas, levando em consideração o bem-estar e o desenvolvimento integral das crianças. A ética na educação infantil permeia todos os aspectos do ambiente escolar, desde a forma como os educadores se relacionam com os alunos até a escolha dos conteúdos e metodologias utilizadas em sala de aula. Nesse sentido, podemos dizer que as salas de aula se tornam verdadeiros espaços morais, onde os princípios éticos são vivenciados e cultivados, confiantes para a formação de cidadãos conscientes, responsáveis e comprometidos com o bem comum. Através de uma abordagem ética na educação infantil, os educadores buscam promover a autonomia, a empatia, a solidariedade e a justiça, estimulando o desenvolvimento integral das crianças e formando cidadãos conscientes de seu papel na sociedade. Assim, a ética na educação infantil vai além de transmitir conhecimentos acadêmicos, ela se fundamenta na construção de relações éticas, no respeito à diversidade e na formação de valores que orientam as ações e escolhas dos indivíduos ao longo da vida. Bons estudos! 4 O SIGNIFICADO DOS CONCEITOS: ÉTICA E MORAL Atualmente, a ética tem ganhado destaque tanto na filosofia quanto nos currículos escolares, diferentemente do passado em que predominavam as chamadas "teorias críticas da sociedade". Conforme observado por Tugendhat (2000), essa mudança reflete um maior interesse dos jovens intelectuais pela ética, que tem sido objeto de diversas discussões nos meios acadêmicos e nas escolas. Essa valorização da ética se deve, em parte, à sua ênfase na reflexão sobre valores individuais e interpessoais, algo que está em consonância com a preocupação contemporânea com o eu. Outro motivo para o interesse crescente pela ética é a falta de orientação ética resultante do declínio da base religiosa, que durante muito tempo fundamentou os valores da sociedade. Atualmente, enfrentamos um sentimento de desorientação diante de problemas relacionados à sociedade globalizada, como o aborto, a pobreza, as questões das gerações futuras e a tecnologia genética, que são temas de relevância mundial. A discussão sobre ética continua a apresentar um paradoxo, pois enquanto alguns pesquisadores defendem sua validade universal, outros argumentam que ela é historicamente e socialmente relativa. Segundo Tugendhat (2000), “a observância de normas morais é algo que podemos exigir de todos (pelo menos aparentemente), e, para fazê-lo, devemos também esperar que isso possa ser compreensível para todos” (p. 13). Essa afirmação ressalta a necessidade de tornar compreensível a ética para que possamos exigir sua observância de todos. A dificuldade em conceituar tanto a ética quanto a moral gera opiniões divergentes nas instituições educacionais. Portanto, diante dos fundamentos teóricos apresentados, é necessário não apenas apresentar algumas definições dos termos ética e moral, mas também estabelecer a diferença entre eles de acordo com alguns autores. Segundo Tugendhat (2000), a distinção entre ética e moral não é necessária, pois "a pergunta sobre em que consiste em si a diferença entre ética e moral seria absurda. Ela soa como se a gente quisesse perguntar sobre a diferença entre veados e cervos" (p. 35). No entanto, o autor acaba por fazer uma distinção entre ética e moral, conceituando a moral como o juízo moral pelo qual se constrói o sentimento moral, e a ética como a reflexão filosófica sobre a moral. Frequentemente, moral e ética são usadas como sinônimos, representando a ideia de um conjunto de princípios ou padrões de conduta. De fato, suas origens - "mores" em latim e "ethos" em grego - remetem à ideia de costume. É por meio dos costumes que as pessoas criam valores, elaborando princípios e regras que regulam seu comportamento. Esses princípios e regras, em conjunto, indicam direitos, obrigações e deveres que orientam a conduta dos indivíduos. Esse é o campo da moral e da ética: ações e reflexões sobre as condutas humanas (TUGENDHAT, 2000; PCNs, 1998). Tanto a ética quanto a moral têm sua origem na mesma realidade humana - os costumes. O verbete “moral” da Enciclopédia de D'Alembert e Diderot (século XVIII) afirma que “moral (ciência dos costumes) é a ciência que nos prescreve uma conduta sábia e os meios de a ela conformar os nossos atos”, portanto, a moral é a ciência própria dos seres humanos. De acordo com Ferreira (1975), a ética é o estudo dos juízos de apreciação que se referem à conduta humana suscetível de qualificação do ponto de vista do bem e do mal, seja em relação a determinada sociedade, seja de forma absoluta. Ele propõe uma comparação com a moral, definindo-a como o conjunto de regras de conduta consideradas válidas, seja de forma absoluta para qualquer tempo ou lugar, seja para um grupo ou pessoa específica. Guimarães (1996) faz uma distinção entre moral e ética. Segundo ele, a moral está relacionada ao dever-ser, enquanto a ética está ligada ao querer-viver. A moral determina os caminhos a serem seguidos por um indivíduo ou por uma sociedade, explicando sua existência por meio de um conjunto de leis. Por outro lado, a ética organiza as pequenas atitudes cotidianas dos grupos menores, apontando para a relativização dos diferentes valores que integram um grupo. Chauí (1994, p. 340), retomando o sentido grego de ethos como “caráter, índole natural, temperamento”, afirma que a ação ética se fundamenta na integridade do ser humano diante de seus semelhantes. Nessa perspectiva, o sujeito moral é, por definição, aquele capaz de distinguir entre o bem e o mal, sendo capaz, portanto, de se desviar do caminho prescrito, de decidir, escolher e deliberar - reconhecendo a fronteira entre o justo e o injusto. De acordo com Silva (2002, p. 92), “a ética abrange o domínio de investigação sobre as noções de felicidade e infelicidade, bem e mal, justo e injusto, e os valores aos quais os seres humanos se submetem por tradição ou adesão”. A conduta moral, por sua vez, é determinada por três elementos: respeitar os direitos alheios, buscar uma vida boa e merecer ser objeto de admiração moral (dignidade). Segundo Cela-Conde (1999), os seres humanos possuem uma predisposição especial, um sentimento moral, que está ausente em outras espécies animais. Portanto, é importante identificar o motivo pelo qual agimos de forma moral. O critério da ação moral e dos códigos éticos é uma construção cultural que é historicamente delimitada em cada sociedade e em cada período de tempo. Os valores éticos universais correspondem a estratégias adquiridas para a sobrevivência dos indivíduos de nossa espécie, na qual a linguagem fornece o meio coletivo para expressar o que é “bom para todos”. Para Heinemann (1993), ética é a doutrina da eleição moralmente verdadeira. Dela esperamos um exame aprofundado e resposta à questão: Que devo escolher? A qual inclui outras questões que, subordinadas, abrem-se aos fenômenos éticos gerando variados tipos de ética: - Ética de bens (ética de consequências práticas de uma ação) – Que devo escolher entre os bens desta terra? Há um valor supremo? Há uma hierarquia de valores? – Ética do ser (ética da perfeição, ou da auto realização, ou da felicidade/ eudemonia) – Que forma de vida devo escolher? Que espécie de homem devo ser? – Ética do dever-se (doutrina dos deveres) – Que devo querer? Que devo fazer? (p. 435). A partir dessa reflexão, podemosdeduzir que a ética está intrinsecamente ligada à moralidade, que envolve responsabilidade (o exercício do livre arbítrio) e liberdade, associadas à consciência e à vontade. Cada ser humano se posiciona diante de um conjunto de valores que não foram criados por ele individualmente, mas no contexto das relações com outros seres humanos. Esse posicionamento ético- moral preserva, constitui e transforma o “lócus” cultural dos agentes sociais, pois, ao questionar a si mesmo e a seus valores, o ser humano enxerga seu contexto cultural, e por meio da criação cultural, instala-se não apenas o que é, mas também o que deve ser. Todas as esferas da vida social têm uma dimensão moral. A convivência em sociedade requer a posse de critérios e valores, e ainda mais, o estabelecimento de relações e hierarquias entre esses valores. As respostas aos conflitos passam pela decisão pessoal, influenciada pelas representações sociais e pela inserção cultural e política do indivíduo. Diante de conflitos e questões complexas, percebe-se os limites das respostas oferecidas pela moral e a necessidade de problematizar essas respostas, verificar a consistência de seus fundamentos. É aí que entra a ética. A ética é a reflexão crítica sobre a moralidade. Ela serve para verificar a coerência entre práticas e princípios, e questionar, reformular ou fundamentar os valores e normas que compõem uma moral, sem ser normativa em si mesma. Entre a moral e a ética, há um constante movimento que vai da ação para a reflexão sobre seu sentido e seus fundamentos, e da reflexão retorna à ação, revigorada e transformada (LIMA, 2003). Ao longo da história, as sociedades têm construído e modificado seus sistemas morais, focalizando diferentes questões em cada momento. Na Grécia antiga, por exemplo, seguir os preceitos morais significava ter um comportamento virtuoso com o objetivo de alcançar a felicidade. Essa felicidade era buscada no convívio dos cidadãos, porém os escravos eram excluídos desse grupo. Já na cultura judaico- cristã, as virtudes passaram a ser a obediência e o amor ao próximo, mas ainda assim a tortura e a extorsão de confissões eram utilizadas como forma de castigo e expiação. Na era moderna, a ideia de forças espirituais foi abalada pelo pensamento de que o mundo é regido por leis naturais, mas as mulheres continuaram sendo tratadas como inferiores aos homens. Portanto, em todos os períodos históricos, existiram preceitos morais e éticos, porém eles nunca garantiram a tolerância e a compreensão entre todos os membros da sociedade. Infelizmente, na atualidade, preconceitos e violência ainda dominam (LIMA, 2003). Nesse contexto, a educação surge como um caminho promissor para promover as transformações necessárias na formação ética e moral das pessoas. Educação e ética são dois aspectos interligados de uma mesma construção. A ética é uma questão em aberto, assim como os grandes temas que tocam profundamente a condição humana. No ser humano, existe a capacidade de cumprir leis estabelecidas para si mesmo e para os outros por meio de interações. Cumprir essas leis implica em seguir a força da vontade autônoma e controlar as paixões até onde for possível. Significa também examinar continuamente essas leis, sujeitas, em certa medida, a revisões periódicas. Percebemos que, apesar de terem a mesma origem etimológica, as palavras moral e ética possuem significados diferentes. Consideramos, portanto, a moral como um conjunto de princípios, crenças e regras que orientam o comportamento dos indivíduos em diferentes sociedades, enquanto a ética é entendida como a reflexão crítica sobre a moral (LIMA, 2003). 4.1 Práxis Pedagógica e a relação entre Educação e Ética A prática educativa (práxis) na instituição escolar se baseia principalmente no conhecimento científico. É importante compreender que esse conhecimento é produzido, reproduzido, transformado e reconfigurado a partir de necessidades concretas das pessoas e dos problemas que enfrentam em sua prática social. Na Educação Infantil, no entanto, o conhecimento científico coexiste com outros saberes e práticas essenciais para o desenvolvimento saudável e integral da criança (LEITE; PIASSA; JOVANOVICH, 2015). A organização do trabalho pedagógico do professor de Educação Infantil visa atender às especificidades apresentadas pela criança em seu processo de formação, potencializando as experiências vivenciadas com intencionalidade, embasadas em conhecimento teórico e metodológico, e articuladas com a dimensão ética necessária para o acolhimento e cuidado. A relação entre o processo educativo e a ética na construção da democracia é fundamental para despertarmos sensibilidade em relação aos problemas que afetam a humanidade. Conforme mencionado por Severino: desenvolver ao máximo sua racionalidade filosófica, em sua tríplice dimensão: epistêmica, ética e estética, buscando delinear os telos da educação com sensibilidade profunda à condição humana. Sentir a razão de ser da existência e a pulsação da vida. Desenvolver ao máximo sua compreensão política, levando os educandos à apreensão do significado de sua inserção social e fornecendo referências para sua atuação no seio da sociedade. (SEVERINO, 2010, p. 156). A partir dessa perspectiva, a educação desempenha sua função ao ser entendida como uma mediação para estabelecer uma cidadania crítica como objetivo final. Tanto a Instituição de Educação Infantil quanto a Escola, em todos os níveis, devem ser espaços de crescimento. São ambientes nos quais a educação assume uma abordagem democrática e humanizada, evitando ser arbitrária. Conforme apresentado por Carvalho, os educadores constroem relações sólidas sem impor normas, possibilitando que, juntamente com os alunos, sejam construídas alternativas. Inicialmente como reflexões e, em seguida, como propostas e posturas renovadas. A Instituição de Educação Infantil, por meio de práticas reflexivas e intencionais, promove a valorização do conhecimento como uma produção dos seres humanos históricos e em interação, bem como a consciência das diversas dimensões que compõem o processo educativo e sua contribuição para a emancipação. Portanto, é essencial que haja alguém que questione, incomode e interaja, provocando mudanças tanto internas quanto externas (LEITE; PIASSA; JOVANOVICH, 2015). Como mediador, o professor assume um papel semelhante ao polo negativo na dinâmica dialética, pois é sua responsabilidade desestruturar ideias preconcebidas e conceitos estabelecidos como certezas e verdades. Em outras palavras, o professor busca promover uma relação de troca e movimento da criança com o meio e com os conhecimentos que ela já traz em suas experiências. Esse processo ocorre por meio da linguagem, do toque e do olhar, bem como das relações humanas afetivas que se estabelecem entre o professor e o aprendiz (LEITE; PIASSA; JOVANOVICH, 2015). 4.2 O que queremos dizer com “Salas de Aulas Morais” As salas de aula moral são espaços que promovem o desenvolvimento infantil por meio do ambiente socioemocional e das conexões interpessoais que ocorrem no ambiente escolar. Nesse contexto, é de grande importância a relação com os professores, colegas, estudos e regras. A relação professor-aluno e as interações entre as crianças são aspectos centrais nas salas de aula moral. Essa relação pode ocorrer de maneira autoritária ou cooperativa, sendo que o exercício de poder do professor como instrutor e orientador demonstra um ambiente de aprendizagem com influência mais efetiva e resultados mais promissores na formação das crianças. No entanto, é importante evitar um distanciamento excessivo causado por um estilo de ensino rígido e regras que limitam a autonomia das crianças (ASSUNÇÃO, 2016) As relações entre os colegas também são influenciadas pelo ambiente escolar. Em algumas abordagens,como o campo de treinamento, as interações entre as crianças são desencorajadas pela professora. Por outro lado, em um ambiente socioemocional mais aberto, as relações entre colegas podem ser amistosas ou tensas. No entanto, é fundamental que o ambiente socioemocional busque promover o desenvolvimento infantil (ASSUNÇÃO, 2016). Em resumo, as salas de aula moral são espaços onde a relação professor- aluno e as interações entre colegas desempenham um papel importante. É essencial que essas relações sejam construídas de forma cooperativa, respeitando a autonomia das crianças, e que o ambiente socioemocional seja propício ao desenvolvimento infantil, incentivando interações saudáveis entre os alunos. O ambiente sócio moral é considerado como parte integrante do currículo implícito, no qual o docente não apenas tem a percepção e responsabilidade direta pelo desenvolvimento intelectual dos alunos, mas também influencia claramente a dimensão sócio moral do cotidiano escolar por meio da comunicação. Nesse contexto, querendo ou não, a professora transmite valores aos seus alunos. No entanto, a ideia de exercer autoridade sem filtros é inaceitável, pois vai contra a noção de liberdade em uma sociedade livre. O ambiente sócio moral precisa evoluir de forma sistemática, assim como a comunidade, por meio de uma educação construtivista que respeite os direitos dos indivíduos de expressarem suas opiniões e emoções de forma plena e eficaz (ASSUNÇÃO, 2016). 4.3 A ética, os PCNs e o RCNEI A discussão sobre ética ganhou nova visibilidade no contexto escolar a partir da abordagem dos temas transversais propostos pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs). Esses temas visam promover uma sociedade mais justa e equilibrada. Os PCNs foram publicados em 1997 pelo Ministério da Educação e do Desporto (MEC), por meio da Secretaria de Educação Fundamental (SEF), e consistem em uma coleção de dez volumes que fornecem orientações curriculares para o desenvolvimento do ensino fundamental no país. Além disso, o MEC publicou o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (RCNEI), que faz parte dos documentos dos PCNs, com o objetivo de contribuir também para o ensino infantil, incluindo creches, instituições equivalentes e pré-escola. Essas propostas, elaboradas por especialistas em educação, têm como objetivo principal auxiliar os educadores e outros profissionais envolvidos na tarefa educativa a desenvolver uma intervenção pedagógica mais alinhada com os ideais de democracia e o efetivo exercício da cidadania (LIMA, 2003). Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) explicam o exercício da cidadania como a busca pela conquista da igualdade dos direitos sociais em diversas áreas, como relações de trabalho, previdência social, saúde, educação e moradia. Essa visão considera o cidadão não apenas como portador de direitos e deveres, mas também como um agente ativo na criação de direitos em um mundo pluralista. De acordo com os PCNs, a cidadania envolve a participação efetiva na produção e desfrute de valores e bens dentro de um determinado contexto: Ser cidadão é participar de uma sociedade, tendo direito a ter direitos, bem como construir novos direitos e rever os já existentes (...) O bem comum é bem coletivo, bem público. O público é ‘o pertencente ou destinado à coletividade, o que é de uso de todos, aberto a quaisquer pessoas’. É, então, ‘o campo da democracia’, como espaço de realização de direitos civis – liberdade de ir e vir, de pensamento e fé, de propriedade; de direitos sociais – de bem-estar econômico, de segurança; e de direitos políticos – de participação no exercício do poder – de todos os homens e mulheres. Ao entender o poder como possibilidade de atuação, de interferência e determinação de rumos na sociedade, verifica-se que, para haver uma sociedade realmente democrática, o exercício do poder deve se dar numa perspectiva de pluralidade (PCNs, 1998, p. 54 - 55). A concepção educacional presente nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) e no Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (RCNEI) visa à formação de indivíduos autônomos, críticos, participativos e capazes de atuar de maneira competente, digna e responsável na realidade. Essa abordagem do processo de ensino e aprendizagem é fundamentada na perspectiva construtivista, que se baseia principalmente na psicologia genética de Piaget e no modelo sócio-histórico de Vygotsky. A perspectiva construtivista considera que a aprendizagem vai além da simples incorporação de conhecimentos produzidos. Ela enfatiza a construção e reinvenção do conhecimento pelo próprio sujeito, ou seja, a compreensão por meio do pensamento da ação efetivamente realizada (LIMA, 2003). A construção é a única forma de os homens se apoderarem dos diversos conhecimentos. Portanto não se trata de opção pedagógica, mas sim de um mecanismo psicológico. (...) o construtivista pensa que seja qual for o método de ensino empregado, está havendo construção do conhecimento. (...) Em resumo, ser construtivista não é optar por um homem ‘diferente’, que constrói seu conhecimento (enquanto os outros não o construiriam): é reconhecer que o homem, seja qual for e em que situação for, constrói de fato seu conhecimento (LA TAILLE, 1996, p. 151-2). Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) e o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (RCNEI) propõem que os educadores abordem transversalmente temas como ética, saúde, meio ambiente, orientação sexual, pluralidade cultural, trabalho e consumo no ensino infantil, fundamental e médio. Esses temas foram propostos com o objetivo de desenvolver o exercício da cidadania diante da crise de valores atual, que foi discutida anteriormente. Dentro dessa proposta, os Parâmetros Curriculares Nacionais fazem uma distinção entre moral e ética, definindo moral como “um conjunto de princípios, crenças e regras que orientam o comportamento dos indivíduos em diferentes sociedades”, e ética como “a reflexão crítica sobre a moral. Ela serve para verificar a coerência entre práticas e princípios” (1998, p.49). Dessa forma, a ética é estabelecida como um tema transversal para desenvolver a reflexão em sala de aula. Os PCNs propõem que não seja criada uma nova área ou disciplina ligada ao tema da Ética, mas sim que ela seja incorporada às áreas já existentes, como Português, Matemática, Geografia, História, etc., e ao trabalho educativo na escola infantil. Segundo os PCNs, a educação moral, que está ligada ao tema da ética, não ocorre em um horário especial dedicado à discussão de dilemas, mas sim ao longo de todo o processo de ensino-aprendizagem, permeando as ações do grupo envolvido no mesmo: [O ensino da ética] não pressupõe espaço de aula reservado aos temas morais; trata-se de democratizar as relações entre os membros da escola, cada um podendo participar da elaboração das regras, das discussões e das tomadas de decisão a respeito de problemas concretamente ocorridos na instituição (PCNs, 1998b, p. 66). Ao longo da história, a educação desempenha um papel fundamental na socialização das sociedades, tanto de forma formal quanto informal. Ela atua na conservação e na transformação da cultura, do conhecimento e dos valores, possuindo, assim, uma dimensão moral. A ética na escola tem como objetivo promover uma educação moral, visando o desenvolvimento da capacidade de autonomia das crianças e jovens com os quais se trabalha. É importante reconhecer que a moral já está presente na prática educativa desenvolvida nas escolas, seja nos princípios, nas regras, nas ordens ou nas proibições (LIMA, 2003). REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ASSUNÇÃO, M. C. A moral na educação infantil: cenas pedagógicas. 2016. Monografia (Especialização em Docência na Educação Infantil). Universidade Federal da Bahia, Salvador,2016. BRASIL. Ministério da Educação. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil. Resolução n º 5, de dezembro de 2009. Brasília: MEC, 2009. BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais: Temas transversais e Ética. Brasília: Ministério da Educação e do Desporto/ Secretaria de Educação Fundamental, 1998. CARVALHO, A. B. A relação professor e aluno: paixão, ética e amizade na sala de aula. Curitiba: Appris, 2016. CELA-CONDE, C.J. Ética, diversidade e universalismo: a herança de Darwin. In: CHANGEUX, J. (Org.). Uma ética para quantos? São Paulo: Edusc, 1999. CHAUÍ, M. Convite à filosofia. 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