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1 DIREITO INTERNACIONAL CURSO INTENSIVO – 2ª FASE – CACD 2024 AULA 03 TEMA: OS SERES HUMANOS, OS POVOS E A HUMANIDADE COMO SUJEITOS DO DIREITO INTERNACIONAL. DATA PROGRAMADA PARA DISPONIBILIZAÇÃO DOS VÍDEOS COM AS ATIVIDADES: 04/10/2024. Organização estrutural da resposta: 06 parágrafos: 01 parágrafo introdutório e 01 parágrafo conclusivo, cada um com 05 linhas; 04 parágrafos de desenvolvimento, cada um com 12 linhas. (i) parágrafo 01: introdução (05 linhas); (ii) parágrafo 02: influência jusnaturalista (12 linhas); (iii) parágrafo 03: transformações estruturais do Direito Internacional em virtude do reconhecimento da personalidade internacional do indivíduo (12 linhas); (iv) parágrafo 04: atuação do indivíduo junto aos sistemas de proteção dos direitos humanos (12 linhas); (v) parágrafo 05: reconhecimento da personalidade internacional da humanidade (12 linhas); (vi) parágrafo 06: conclusão (05 linhas). O Direito Internacional contemporâneo exige análises que remetem ao passado para a compreensão da importância do processo de humanização e de universalização das normas internacionais no âmbito da proteção de bens jurídicos que interessam à sociedade internacional como um todo. Considerada um novo “ethos” por Antônio Augusto Cançado Trindade, a humanização do Direito Internacional tem raízes em concepções do direito natural que, já nos séculos XVI e XVII, contavam com autores que buscavam definir parâmetros jurídicos de limitação do poder estatal e de proteção da pessoa humana. O reconhecimento da personalidade internacional do indivíduo deve ser considerada um avanço civilizatório e o resultado de um lento processo histórico de reconhecimento de valores universais partilhados pela comunidade internacional como um todo. A universalização do Direito das Gentes traz como ponto central a diversificação de sujeitos internacionais e a ampliação do repertório temático das normas criadas, assegurando-se o respeito aos valores da gama de Estados que compõem a sociedade internacional – bem como a atenção às necessidades de outros sujeitos internacionais, reconhecidos no período do pós- 2 DIREITO INTERNACIONAL Segunda Guerra Mundial. Com efeito, a universalização das normas internacionais constitui fator determinante para a consolidação do “jus cogens” e do reconhecimento de normas internacionais “erga omnes”. A existência de sistemas internacionais de proteção dos direitos humanos é uma realidade vivenciada apenas após o período que sucedeu 1945, em grande medida porque o surgimento de organizações internacionais permitiu a criação de órgãos internacionais e estruturais habilitadas a monitorar e, em casos específicos, condenar os Estados soberanos que violam as normas internacionais de proteção do indíviduo. Ocorre, entretanto, que a questão referente ao reconhecimento de direitos em prol da pessoa humana – e até da humanidade – não é um tema que surgiu somente após o século XX no âmbito do Direito Internacional. Desde o século XVI e XVII, é possível encontrar na obra de autores atrelados ao jusnaturalismo – os quais são denominados por Cançado Trindade de “fundadores” do Direito das Gentes – referências à existência de normas que protegem o indivíduo e limitam a atuação dos Estados soberanos. Dentre esses autores, pode-se citar a obra de Francisco Suárez, cuja essência foi indicar que a unidade e a universalidade do gênero humano exigia a aplicação de medidas de proteção da pessoa humana frente ao arbítrio dos poderes estatais. Em complemento, Francisco de Vitória, considerado o percursor do Estado de Direito, defendia que os interesses da comunidade internacional deveria prevalecer em relação aos interesses dos Estados soberanos, considerados cada qual em sua individualidade. Por fim, cabe citar a contribuição de Hugo Grotius, autor que entendia que a soberania estatal deveria ser exercida em consonância com limites tanto na esfera interna, quanto no âmbito das relações internacionais. Após o reconhecimento da personalidade internacional da pessoa humana, o Direito Internacional foi submetido a duas transformações de paradigmas principais. A primeira delas diz respeito ao surgimento de uma série de normas voltadas a promover a proteção do indivíduo – normas que a doutrina denomina de Direito Internacional de Proteção da Pessoa Humana, no qual se constata a convergência de três eixos protetivos: Direito Internacional dos Direitos Humanos, Direito Internacional Humanitário e Direito Internacional dos Refugiados. A multiplicação de normas internacionais focadas em proteger o indivíduo determinou ainda o reconhecimento de normas internacionais dotadas de maior hierarquia, ou seja, a identificação de normas de “jus cogens” (vale lembrar que muitas normas imperativas têm a característica de protegerem a pessoa humana, a exemplo da proibição de “apartheid”, da proibição de genocídio, da proibição de escravidão). Paralelamente, houve também a definição de normas internacionais que criam obrigações “erga omnes” (CIJ, caso Barcelona Traction, 1970), sendo que, na atualidade, os tratados internacionais de proteção dos direitos humanos são exemplos dessas normas “erga omnes”, na medida em que criam obrigações internacionais que podem ser pleiteadas por todos os sujeitos que formam a sociedade internacional. A inegável condição de sujeito internacional do indivíduo foi determinante para a emergência e consolidação do Direito Penal Internacional, que tem nos Tribunais “ad hoc” da ex-Iugoslávia e de Ruanda, ambos criados na década de 1990 por meio de resoluções do Conselho de Segurança da ONU, e no Tribunal Penal Internacional (TPI), instituído pelo Estatuto de 3 DIREITO INTERNACIONAL Roma de 1998, seus principais expoentes, uma vez que correspondem a Tribunais internacionais com competência para julgar indivíduos que tenham cometido graves crimes que violam normas internacionais que representam a consciência jurídica da comunidade internacional. A legitimidade de participação de indivíduos junto a órgãos internacionais de proteção dos direitos humanos tem no chamado direito de petição seu modelo mais difundido de concretização. Desse modo, desde que se observe as regras específicas inerentes aos sistemas de proteção dos direitos humanos, reconhece-se que a pessoa humana – bem como organizações não-governamentais, as quais, na maior parte das vezes, representam grupos de indivíduos – atuem para provocar os órgãos responsáveis por garantir a proteção dos direitos humanos. No sistema global, criado no âmbito da Organização das Nações Unidas (ONU), a despeito de não existir uma corte internacional especializada na proteção dos direitos humanos, os indivíduos podem peticionar aos comitês responsáveis por monitorar os Estados em matéria de cumprimento do “corpus juris” inerentes aos tratados criados no âmbito dessa organização internacional. Os comitês especializados não contam com competência para condenar os Estados transgressores, porém emitem recomendações que são essenciais para a adequação voluntária desses Estados ao conteúdo das normas protetivas da pessoa humana. No que tange aos sistemas regionais de proteção dos direitos humanos, constata-se que o indíviduo também possui capacidades internacionais. De modo sintetizado, é possível definir a legitimidade do indivíduo ou grupos de indivíduos para apresentar denúncias ou queixas endereçadas à Comissão Interamericana de Direitos Humanos no sistema criado pela Organização dos Estados Americanos (OEA), conforme prescreve o art. 44 do Pacto de San José da Costa Rica de 1969. O indivíduo não tem acesso direto à Corte Interamericana de Direitos Humanos, mas, após a admissão de um caso por esse Tribunal internacional, a vítima poderá apresentar manifestações no processo instaurado (art. 25 do Regulamento da Corte Interamericana de Direitos Humanos). Em complemento, cabe indicar que, no sistema europeu deproteção dos direitos humanos, o indivíduo tem direito de peticionar diretamente à Corte Europeia de Direitos Humanos, haja vista que a atual configuração desse sistema criado pelo Conselho da Europa não mais conta, desde o advento do Protocolo nº 11 de 1994, com uma Comissão de Direitos Humanos. Por último, o sistema africano de proteção dos direitos humanos, erigido no contexto da União Africana, admite o direito de petição do indivíduo à Comissão Africana de Direitos Humanos e dos Povos, também existe a possibilidade de o indíviduo peticionar diretamente à Corte Africana de Direitos Humanos e dos Povos, desde que o Estado a ser denunciado tenha aceitado a legitimidade de indivíduos provocar o referido Tribunal. O desenvolvimento do Direito das Gentes – sempre indicando o retorno ou renascimento do jusnaturalismo – permite afirmar, no atual quadro, que, além do indivíduos, a humanidade também deve ser reconhecida como titular de personalidade jurídica internacional. Conforme aponta Alberto do Amaral Júnior e Antônio Augusto Cançado Trindade, a humanidade, enquanto sujeito do Direito das Gentes, corresponde ao conjunto que compreende todos os integrantes do gênero 4 DIREITO INTERNACIONAL humano, entendido, no aspecto temporal, como a geração presente e as futuras gerações). A personalidade internacional da humanidade pode ser identificada no universo de normas internacionais voltadas à proteção do patrimônio histórico- cultural da humanidade criadas no âmbito da UNESCO, bem como nas normas internacionais de proteção do meio ambiente (que tem na Conferência de Estocolmo de 1972 seu marco inicial), perpassando ainda por temas como a proteção do espaço e a disciplina jurídica do Direito do Mar (Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar de 1982). Não obstante a profícua adoção de normas internacionais que tutelam os interesses jurídicos da humanidade, existe um ponto que requer atenção e desafia o desenvolvimento de novos mecanismos internacionais: trata-se da problemática referente à representação jurídica da humanidade junto aos órgãos internacionais atualmente em funcionamento e com atribuições para assegurar a aplicação das normas internacionais criadas. Diante de todo o quadro exposto, é evidente que o cenário prospectivo do Direito Internacional indica a necessidade de aprimoramento dos instrumentos e órgãos habilitados a tutelar os interesses jurídicos atualmente albergados pelas normas internacionais, sobretudo aquelas que inovam ao proteger bens jurídicos que interessam à comunidade internacional como um todo. Pode-se antever que novos arranjos institucionais deverão ser criados para assegurar a proteção do indivíduo – que conta, progressivamente, com mais direitos no plano internacional – e de outros sujeitos, como a humanidade. A título de exemplo, pode-se apontar a experiência consagrada na Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar de 1982, cujo teor criou a Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos, que é uma organização internacional responsável por administrar os recursos minerais da Área, os quais foram definidos pelo art. 136 do referido tratado como patrimônio comum da humanidade. A conclusão do Tratado de Utilização Sustentável da Biodiversidade Marinha para Além da Jurisdição Nacional (BBNJ), em 2023, é um indicativo concreto da necessidade de criação de novos instrumentos de proteção dos interesses jurídicos da humanidade, haja vista que esse tratado reconheceu que o recursos genéticos marinhos também são patrimônio comum da humanidade, mas deixou de definir qual será o órgão ou mecanismo institucional que irá zelar pelo uso racional e equilibrado desses recursos, sem que haja violação dos interesses da humanidade considerada em sua totalidade. I – DOUTRINA: “Ao considerar a posição dos indivíduos no Direito Internacional, não há que se perder de vista o pensamento dos chamados fundadores do direito das gentes. Há que recordar a considerável importância para o desenvolvimento do tema, sobretudo dos escritos dos teólogos espanhóis [Francisco Suárez e Francisco de Vitoria] assim como a obra grociana [Hugo Grotius]. (...) 5 DIREITO INTERNACIONAL É amplamente reconhecida a contribuição dos teólogos espanhóis Francisco Suárez e Francisco de Vitoria à formação do Direito Internacional. Na visão de Suárez, o direito das gentes revela a unidade e a universalidade do gênero humano; os Estados têm necessidade de um sistema jurídico que regule suas relações, como membros da sociedade universal. Foi, no entanto, o grande mestre de Salamanca, Francisco de Vitoria, quem deu uma contribuição pioneira e decisiva para a noção de prevalência de Estado de Direito: foi ele quem sustentou, com rara lucidez, que o ordenamento jurídico obriga a todos – tanto governados como governantes – e, nesta linha de pensamento, a comunidade internacional (totus orbis) prima sobre o arbítrio do Estado individual. (...) A concepção do jus gentium de Hugo Grotius – cuja obra, sobretudo, o De Jure Belli ac Pacis (1625), é situada nas origens do Direito Internacional, como veio a ser conhecida a disciplina, – esteve sempre atenta ao papel da sociedade civil. Para Grotius, o Estado não é um fim em si mesmo, mas um meio para assegurar o ordenamento social consoante a inteligência humana, de modo a aperfeiçoar a sociedade comum que abarca toda a humanidade. Os sujeitos têm direitos vis-à-vis o Estado soberano, que não pode exigir obediência de seus cidadãos de forma absoluta (imperativo do bem comum); assim, na visão de Grotius, a razão do Estado tem limites, e a concepção absoluta desta última torna-se aplicável nas relações tanto internacionais quanto internas do Estado”1. “ Os chamados fundadores do direito internacional (notadamente os escritos dos teólogos espanhóis e a obra grociana), concebiam o ordenamento jurídico internacional como um sistema verdadeiramente universal. Hoje, depois da influência nefasta do positivismo jurídico superveniente, que personificou o Estado dotando-o de vontade própria, reduzindo os direitos dos seres humanos aos que o Estado a estes concedia, – vislumbro um renascimento da concepção universalista do direito internacional, consoante os ensinamentos dos fundadores da disciplina. O ser humano passa a ocupar, em nossos dias, a posição central que lhe corresponde, como sujeito do direito internacional tanto interno quanto internacional, em meio ao processo de humanização do Direito Internacional, o qual passa a se ocupar mais diretamente da identificação e realização de valores e metas comuns superiores. A titularidade jurídica internacional do ser humano é hoje uma realidade inegável, cabendo agora consolidar sua plena capacidade jurídica processual no plano internacional. Temos todos o dever inescapável de dar nossa contribuição neste sentido, ainda mais por corresponder o reconhecimento da centralidade dos direitos humanos ao novo ethos de nosso tempo”2. 1 TRINDADE, Antônio Augusto Cançado, A Humanização do Direito Internacional, 2ª ed., Belo Horizonte, Del Rey, pp. 189-190. 2 TRINDADE, Antônio Augusto Cançado, A Humanização do Direito Internacional, 2ª ed., Belo Horizonte, Del Rey, pp. 16-17. 6 DIREITO INTERNACIONAL “Na visão de Francisco Suárez, os preceitos do jus gentium encontram-se imbuídos de equidade e justiça; o jus gentium se afigurava em completa harmonia com o direito natural, de onde emanam suas normas, revelando, um e outro, o mesmo caráter verdadeiramente universal”3. “O renascimento contínuo do direito natural reforça a universalidade dos direitos humanos, - em contraposição às normas positivas, que carecem de universalidade, por variarem de um meio social a outro. Daí se depreende a importância da personalidade jurídica do titular de direitos, inclusive como limite à manifestações arbitrárias do poder estatal. O eternoretorno do jusnaturalismo tem sido reconhecido pelos próprios jusinternacionalistas, contribuindo em muito à afirmação e consolidação do primado, na ordem dos valores, das obrigações estatais em matéria de direitos humanos, vis-à- vis a comunidade internacional como um todo. Esta última, testemunhando a moralização do próprio Direito, assume a vindicação dos interesses comuns superiores. Os experimentos internacionais que há décadas vêm outorgando capacidade internacional aos indivíduos refletem, com efeito, o reconhecimento dos valores comuns superiores consubstanciados no imperativo de proteção do ser humano em quaisquer circunstâncias”4. “O próprio Direito Internacional, ao reconhecer direitos inerentes a todo ser humano, desautoriza o arcaico dogma positivista que pretendia autoritariamente reduzir tais direitos aos concedidos pelo Estado. O reconhecimento do indivíduo como sujeito tanto do direito interno como do direito internacional, dotado de plena capacidade processual, representa uma verdadeira revolução jurídica, à qual temos o dever de contribuir. Esta revolução vem enfim dar um conteúdo ético às normas tanto do direito público interno como do direito internacional”5. “Como já assinalado, à doutrina jurídica do século XX não passou desapercebido que os indivíduos, ademais de titulares de direitos no plano internacional, também têm deveres que lhe são atribuídos diretamente pelo próprio Direito Internacional. E, – o que é mais significativo, – a violação grave desses deveres, configurada nos crimes contra a humanidade, acarreta a responsabilidade penal individual internacional, independentemente do que dispõe a respeito o direito interno. Os desenvolvimentos contemporâneos no direito penal internacional têm, efetivamente, incidência direta na cristalização tanto do princípio da jurisdição universal como do princípio da 3 TRINDADE, Antônio Augusto Cançado, A Humanização do Direito Internacional, 2ª ed., Belo Horizonte, Del Rey, p. 10. 4 TRINDADE, Antônio Augusto Cançado, A Humanização do Direito Internacional, 2ª ed., Belo Horizonte, Del Rey, pp. 198-199. 5 TRINDADE, Antônio Augusto Cançado, A Humanização do Direito Internacional, 2ª ed., Belo Horizonte, Del Rey, p. 200. 7 DIREITO INTERNACIONAL responsabilidade penal internacional individual, componente da personalidade jurídica do indivíduo (este último como sujeito tanto ativo como passivo do Direito Internacional, titular de direitos assim como portador de deveres emanados diretamente do Direito das Gentes). Recorde-se as decisões do Conselho de Segurança das Nações Unidas de estabelecer os Tribunais Penais ad hoc para a ex-Iugoslávia (1993) e para Ruanda (1994), somadas à iniciativa das Nações Unidas de criação do Tribunal Penal Internacional permanente, para julgar os responsáveis por violações graves dos direitos humanos e do Direito Internacional Humanitário, deram um novo ímpeto à luta da comunidade internacional contra a impunidade, – como violação per se dos direitos humanos, – além de reafirmarem o princípio da responsabilidade penal internacional do indivíduo por tais violações, e buscarem assim prevenir crimes futuros”6. “Há, em conclusão, que dar seguimento à evolução auspiciosa da consagração das normas de jus cogens e obrigações erga omnes, buscando assegurar sua plena aplicação prática, em benefício de todos os seres humanos, dotados de personalidade e capacidade jurídica, como verdadeiros sujeitos do Direito Internacional. Estas novas concepções se impõem em nossos dias, e da sua fiel observância dependerá em grande parte a evolução futura do próprio Direito Internacional”7. “Os tratados de direitos humanos são diferentes dos tratados que normatizam vantagens mútuas aos Estados contratantes. O objetivo dos tratados de direitos humanos é a proteção dos direitos de seres humanos diante o Estado de origem ou diante de outro Estado contratante, sem levar em consideração a nacionalidade do indivíduo vítima. Assim, um Estado frente a um tratado multilateral de direitos humanos, assume várias obrigações com os indivíduos sob sua jurisdição, independentemente da nacionalidade, e não para com outro Estado contratante, criando o chamado regime objetivo de direitos humanos. A obrigação objetiva internacional consiste no encargo que não depende de uma contraprestação específica de outro Estado-parte, constituindo-se, por assim dizer, em obrigação para com a sociedade internacional, em vez de ser uma obrigação com as partes do tratado. (...) Novamente, saliente-se que os tratados de direitos humanos não são tratados que regulam interesses materiais dos Estados, regidos pelo princípio da reciprocidade (quid 6 TRINDADE, Antônio Augusto Cançado, A Humanização do Direito Internacional, 2ª ed., Belo Horizonte, Del Rey, pp. 206-207. 7 TRINDADE, Antônio Augusto Cançado, A Humanização do Direito Internacional, 2ª ed., Belo Horizonte, Del Rey, p. 231. 8 DIREITO INTERNACIONAL pro quo). Pelo contrário, os Estados obrigam-se a respeitar os direitos humanos sem que haja qualquer contraprestação a eles devida”8. “A obrigação erga omnes é a obrigação que protege valores de toda comunidade internacional, fazendo nascer o direito dos Estados de exigir o seu cumprimento. Assim, o conceito de obrigação internacional erga omnes nasce da valoração da obrigação (contém valores essenciais), gerando como consequência o direto por parte de todos os Estados da comunidade internacional de exigir seu respeito”9. “As obrigações erga omnes expandiram-se no século XX, na esfera dos direitos humanos e do direito internacional humanitário, fruto das garantias coletivas destinadas à tutela dos interesses dos indivíduos e não dos Estados”10. “As petições de particulares contra o Estado: as demandas individuais [no sistema global de proteção dos direitos humanos]. Os tratados onusianos de direitos humanos possuem previsão, fundada em protocolo ou em declaração facultativa, de procedimento de petições individuais de vítimas de violação dos direitos protegidos aos respectivos Comitês de cada um dos tratados. (...) A base normativa para tal competência varia: há tratados que exigem dos Estados- partes uma declaração facultativa; outros são omissos e tal competência está prevista em Protocolo Facultativo, que exige ratificação específica. (...) O trâmite da petição de particular pode ser resumido da seguinte forma. Em primeiro lugar, o Estado-parte deve ter aceito expressamente a competência do Comitê respectivo em receber as petições de particulares. Em segundo lugar, o procedimento é confidencial e obrigatório, sendo ainda informado pelos princípios da ampla defesa e do contraditório. Sobre a questão de mérito, o Comitê delibera e determina a existência ou não de violação de direito protegido pela Convenção. Em caso positivo, deve ainda fixar as medidas de reparação que o Estado infrator deverá adotar”11. “A Convenção Americana de Direitos Humanos consagrou um procedimento bifásico de promoção dos direitos protegidos: há uma etapa, indispensável, perante a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (Comissão IDH) e uma eventual segunda etapa perante a Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte IDH). (...) 8 RAMOS, André de Carvalho, Processo Internacional de Direitos Humanos, 3ª ed., São Paulo, Saraiva, 2013, pp. 42-45. 9 RAMOS, André de Carvalho, Teoria Geral dos Direitos Humanos na Ordem Internacional, São Paulo, Saraiva, 2012, p. 71. 10 AMARAL JUNIOR, Alberto, Curso de Direito Internacional, 5ª ed., São Paulo, Atlas, 2015, pp. 122-123. 11 RAMOS, André de Carvalho, Processo Internacional dos Direitos Humanos, 3ª ed., São Paulo, Saraiva, 2013, p. 90. 9 DIREITO INTERNACIONAL Em relação à Convenção Americana de DireitosHumanos, a Comissão pode receber petições individuais e interestatais contendo alegações de violações de direitos humanos. O procedimento individual é considerado de adesão obrigatória e o interestatal é facultativo. A Convenção Americana de Direitos Humanos dispõe que qualquer pessoa – não só a vítima – pode peticionar à Comissão, alegando violação de direitos humanos de terceiros. Já a Corte Interamericana só pode ser acionada (jus standi) pelo Estados contratantes e pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos, que exerce a função similar à do Ministério Público brasileiro. A vítima (ou seus representantes) possui somente o direito de petição à Comissão Interamericana de Direitos Humanos. A Comissão analisa tanto a admissibilidade da demanda (há requisitos de admissibilidade, entre eles, o esgotamento prévio dos recursos internos) quanto seu mérito. Caso a Comissão arquive o caso (demanda inadmissível, ou quanto ao mérito, infundada) não há recurso disponível à vítima. Outra hipótese de ser o caso apreciado pela Corte ocorre se algum Estado, no exercício de uma verdadeira actio popularis, ingressar com a ação contra o Estado violador. Mesmo nesse caso, o procedimento perante a Comissão é obrigatório”12. “Sob os escombros da Segunda Guerra Mundial, a Europa logo sentiu a necessidade de proteger os direitos humanos. O art. 3 do Estatuto do Conselho da Europa estabeleceu que os membros aceitam os princípios do Estado de direito e o gozo por todas as pessoas no interior de uma jurisdição dos direitos humanos e liberdades fundamentais. Os líderes europeus celebraram, em 1950, a Convenção Europeia dos Direitos Humanos, que entrou em vigor em 1953, dando início à construção de um vigoroso sistema regional, baseado na tutela da dignidade humana, extraordinariamente aperfeiçoado nas décadas subsequentes. O sistema apoiou-se, a princípio, em dois órgãos: a Comissão e a Corte Europeia dos Direitos Humanos. A Comissão examinava a pertinência das reclamações apresentadas pelos particulares e se visse nelas algum fundamento as levaria à apreciação da Corte, dado que o indivíduo não tinha acesso direto a ela. O Protocolo 11 de 1994, em vigor desde 1º de novembro de 1998, introduziu mudanças substanciais no arcabouço institucional inicialmente concebido. Com o intuito de suprimir etapas que postergavam a solução do litígio, decidiu-se eliminar a Comissão e permitir ao indivíduo acesso direto à Corte Europeia de Direitos Humanos”13. “O Protocolo Institutivo da Corte Africana de Direitos Humanos e dos Povos foi adotado apenas em 1998 e entrou em vigor em 1º de janeiro de 2004, após a ratificação por parte de quinze Estados, mas a escolha dos juízes que a integram teve lugar em fevereiro de 2006, coroando o processo que conduziu à adoção da Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos, chamada Carta de Banjul. Nos anos que precederam a 12 RAMOS, André de Carvalho, Curso de Direitos Humanos, 2 ed., São Paulo, Saraiva, 2015, pp. 320-321. 13 AMARAL JUNIOR, Alberto, Curso de Direito Internacional, 5ª ed., São Paulo, Atlas, 2015, p. 530. 10 DIREITO INTERNACIONAL criação da Corte Africana, a proteção dos direitos contemplados na Carta de 1981 era feita exclusivamente pela Comissão de Direitos Humanos e dos Povos, imaginada à semelhança da Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas, cujas decisões não tinham força obrigatória. As funções da Comissão Africana se resumiam ao exame dos relatórios elaborados pelos Estados, às comunicações sobre a violação dos Direitos Humanos e à interpretação da Carta Africana de Direitos Humanos e dos Povos a pedido de um Estado parte da OUA ou de alguma organizacã̧o por ela reconhecida. Na década de 90, o fortalecimento da democracia em diversos países africanos e os resultados pouco expressivos alcançados pela Comissão fertilizaram o terreno para a criação da Corte em 1998, quando os maiores obstáculos à sua atuação ja ́haviam sido removidos. As reclamações apresentadas à Corte podem basear-se na Convenção Africana e em qualquer tratado internacional sobre direitos humanos ratificado pelo Estado em questão, o que lhe permite aplicar, entre outros, o Pacto sobre Direitos Civis e Políticos, a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra a Mulher, as convenções sobre direito internacional humanitário, as convenções trabalhistas nascidas sob a égide da OIT e os tratados ambientais que se relacionam com a proteção dos direitos humanos. A legitimidade do indivíduo para suscitar uma reclamação no plano judiciário somente existe quando o Estado declarou aceitar a jurisdição da Corte em tais situações”14. “Organizações não governamentais apresentam um desafio teórico para as concepções tradicionais do direito internacional e das relações internacionais. Por serem considerados atores do direito internacional, não são vistas como entidades dependentes, mas sim com possibilidade de influenciar todo o sistema internacional. Esse papel é muitas vezes mais importante no contexto de direitos humanos, tanto em densidade e importância das atividades das ONGs. A influência das organizações não governamentais, na judicialização e proteção dos direitos humanos, é essencial para o melhor desenvolvimento e aplicação desses direitos. A especialização no trabalho social realizado leva a uma litigância estratégica que vai além da reparação individual, mas na aplicação do tratado de forma ampla, modificando políticas públicas, leis internas, jurisprudências, criando precedentes internacionais”15. “A humanidade como tal tem emergido como sujeito do Direito Internacional, coexistindo com outros sujeitos sem substituí-los. O princípio da humanidade permeia todo o corpus juris do Direito internacional. Isto tem sido reconhecido na jurisprudência dos Tribunais Internacionais ad hoc para a ex-Iugoslávia e para Ruanda, destacando o 14 AMARAL JUNIOR, Alberto, Curso de Direito Internacional, 5ª ed., São Paulo, Atlas, 2015, pp. 536-537. 15 MACHADO, Natália Paes Leme, O Papel das Organizações Não Governamentais e o Sistema Interamericano de Direitos Humanos: a Influência dos Atores Internacionais, o Sistema Interamericano de Direitos Humanos e o Uso do Litígio Estratégico, Dissertação de Mestrado, Brasília, UNICEUB, 2014, p. 107. 11 DIREITO INTERNACIONAL sentimento de humanidade, evidenciado quando a própria humanidade se vê vitimada por crimes internacionais”16. “(...) O direito internacional admitiu, em certos domińios, na segunda metade do século XX, a primazia dos interesses gerais da humanidade em relação aos interesses particulares dos Estados. Dita construção marca, por exemplo, o direito internacional dos direitos humanos, o direito internacional penal, o direito internacional do meio ambiente, o direito do mar e a regulação do espaço estratosférico. A noção de jus cogens, consagrada na Convenção de Viena sobre Direito dos Tratados, é expressão viva da supremacia dos interesses universais. A CIJ referiu-se à consciência da humanidade, em 1951, no Parecer Consultivo sobre as Reservas à Convenção contra o Genocídio. O Tribunal Penal para a Antiga Iugoslávia declarou, no caso Tadic, que um crime contra a humanidade lesa não apenas as vítimas, mas a humanidade como um todo. Esse entendimento, repetido no caso Erdemovic, ajudou a moldar os crimes contra a humanidade tipificados no art. 7 no Estatuto de Roma. (...) Apesar de embrionário, o processo em curso, envolto ainda em incertezas e ambiguidades, aponta para desdobramentos ainda não completamente antevistos pelo direito internacional contemporâneo”17. “Os crimes contra a humanidade encontram hoje sua expressão no Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional (artigo 7º)”18. “Encontramos em vários tratados atualmente em vigor em que regem diversasáreas do direito internacional marcas importantes de um direito comum da humanidade. Assim, a noção de patrimônio cultural da humanidade encontra sua expressão na Convenção Relativa à Proteção Cultural e Natural Mundial, adotada em 1972 pela UNESCO. Do lado do direito ambiental internacional, desde a referência feita à noção de bem da humanidade na Declaração da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente, realizada em Estocolmo em 1972 (princípio 18), vários tratados fizeram o mesmo, observando as obrigações contraídas pelos Estados-partes em nome dos interesses superiores da humanidade. Foi assim que esta assumiu o seu lugar no direito internacional e é, cada vez mais, reconhecida como sujeito de direito em diferentes áreas (como o Direito Internacional dos Direitos Humanos, o Direito Penal Internacional, o Direito Ambiental Internacional e a regulação internacional dos espaços, entre outros). Há também a questão da sua capacidade, questão que ainda não foi objeto de análise suficiente”19. 16 TRINDADE, Antônio Augusto Cançado, A Humanização do Direito Internacional, 2ª ed., Belo Horizonte, Del Rey, p. 309. 17 AMARAL JUNIOR, Alberto, Curso de Direito Internacional, 5ª ed., São Paulo, Atlas, 2015, p. 183. 18 19 TRINDADE, Antônio Augusto Cançado, A Humanização do Direito Internacional, 2ª ed., Belo Horizonte, Del Rey, p. 305. 12 DIREITO INTERNACIONAL “Um sujeito de direito é geralmente considerado titular de direitos e obrigações, bem como é dotado de capacidade de agir. Se hoje está claro que a humanidade é considerada sujeitos de direito internacional e adquiriu o status de sujeito de direito internacional, sua capacidade de agir permanece in status nascendi, o que levanta a questão da sua representação em tribunais. O mecanismo de representação jurídica mais sofisticado, apesar das suas deficiências e dos reveses quem tem experimentado, é previsto na Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (1982), pelo grau de institucionalização que importou a constituição da Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos. Encontramo-nos à beira de um processo de desenvolvimento conceitual que ainda pode exigir tempo e esforços consideráveis”20. “Quando se passa à expansão da personalidade jurídica internacional, tem-se em mente a humanidade, abarcando todos os integrantes do gênero humano como um todo, compreendendo, em uma dimensão temporal, as gerações presentes assim como futuras. A humanidade vem já marcando presença na doutrina jurídica internacional mais lúcida, – presença esta que vem sendo acentuada pelo âmbito dos direitos humanos, com incidência nos esforços rumo à realização do ideal de justiça universal (tendo em vista o princípio da jurisdição universal). O desafio atual reside na concepção completa da construção conceitual da representação legal da humanidade, conducente à consolidação de sua capacidade jurídica internacional, no âmbito do novo jus gentium de nossos tempos”21. “Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos A Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos é uma organização intergovernamental, por intermédio da qual os Estados-partes organizam e controlam os recursos da Área, considerada patrimônio comum da humanidade. De acordo com o art. 176 da CNUDM a Autoridade tem personalidade jurídica internacional e capacidade necessária ao exercício das suas funções e à consecução dos seus objetivos. Além disso, o art. 156.2 da CNUDM dispõe que todos os Estados-parte da convenção são ipso facto membros da Autoridade. A Autoridade tem sede em Kingston, capital da Jamaica, e passou a funcionar plenamente em junho de 1996. (...) O fato de a Área e seus recursos serem considerados patrimônio comum da humanidade (art. 136 da CNUDM) impede que os Estados possam agir de maneira isolada nesta parte dos mares e oceanos. Assim, a essência de patrimônio comum da humanidade implica a administração conjunta da Área, a qual apenas pode ser 20 TRINDADE, Antônio Augusto Cançado, A Humanização do Direito Internacional, 2ª ed., Belo Horizonte, Del Rey, p. 307. 21 TRINDADE, Antônio Augusto Cançado, A Humanização do Direito Internacional, 2ª ed., Belo Horizonte, Del Rey, p. 309. 13 DIREITO INTERNACIONAL realizada por um órgão internacional – no caso concreto, a Autoridade. Portanto, a internacionalização da Área e de seus recursos enseja a institucionalização do direito aplicável a ambos. (...) A Autoridade não pode ser vista somente com um fórum no qual os Estados se encontram para coordenarem suas posições e encontrarem um consenso sobre a extensão de seus direitos sobre o leito marinho e seus recursos; é mais do que isso, é um agente executivo do interesse da comunidade internacional no tocante à distribuição dos recursos do planeta. Trata-se de um experimento totalmente novo no campo das instituições internacionais, baseado em uma nova visão de cooperação entre os Estados e o funcionamento das organizações internacionais”22. “Em 4 de março de 2023, chegou-se enfim a um acordo sobre novo Tratado Internacional dedicado à Utilização Sustentável e Conservação da Biodiversidade Marinha para Além da Jurisdição Nacional (BBNJ), ao abrigo da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM), após anos de negociações convocadas pela Assembleia Geral das Nações Unidas (Resolução 72/249), tendo em conta as recomendações do Comitê Preparatório estabelecido pela Resolução 69/292. O Acordo sobre BBNJ torna-se assim o terceiro instrumento convencional de implementação da CNUDM, junto com os acordos de 1994 sobre a Parte XI e 1995 sobre estoques de peixes transzonais e altamente migratórios. Existem lacunas no direito internacional para a proteção do meio marinho, em especial quando não há um Estado incumbido do encargo, como acontece nos espaços marítimos territoriais e de jurisdição nacional. Quando se adotou a CNUDM, em 1982, muitos aspectos da proteção ambiental não foram regulamentados de modo específico, seja por falta de acordo, seja por desconsideração momentânea. Não havia, por exemplo, preocupações acerca dos recursos genéticos marinhos, o que se impôs posteriormente, quando da aplicação dos direitos de propriedade intelectual previstos no âmbito da Organização Mundial do Comércio. (...) Chama a atenção o fato de que o Acordo sobre BBNJ prevê sua aplicação na Área, em conformidade com o princípio do patrimônio comum da humanidade, sem chamar a AIFM [Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos] para fazer a gestão do patrimônio genético, restringindo-a aos recursos minerais. Logo, é possível haver patrimônio comum da humanidade sem estar sob a AIFM, obrigando os Estados da bandeira a partilhar os benefícios das atividades relacionadas aos recursos genéticos marinhos, o que se diferencia substancialmente do regime da pesca”23. 22 SILVA, Alexandre Pereira, O Brasil e o Direito Internacional do Mar Contemporâneo: Novas Oportunidades e Desafios, São Paulo, Almedina, 2015, pp. 186-187. 23 ZANELLA, Tiago V.; TOLEDO, André de Paiva, Estados chegam ao Acordo sobre BBNJ, texto disponível no sítio eletrônico: http://ila-brasil.org.br/blog/estados-chegam-ao-acordo-sobre- bbnj/#:~:text=Em%204%20de%20mar%C3%A7o%20de,anos%20de%20negocia%C3%A7%C3%B5es%20c onvocadas%20pela , acesso em 04/10/2024. http://ila-brasil.org.br/blog/estados-chegam-ao-acordo-sobre-bbnj/#:~:text=Em%204%20de%20mar%C3%A7o%20de,anos%20de%20negocia%C3%A7%C3%B5es%20convocadas%20pela http://ila-brasil.org.br/blog/estados-chegam-ao-acordo-sobre-bbnj/#:~:text=Em%204%20de%20mar%C3%A7o%20de,anos%20de%20negocia%C3%A7%C3%B5es%20convocadas%20pela http://ila-brasil.org.br/blog/estados-chegam-ao-acordo-sobre-bbnj/#:~:text=Em%204%20de%20mar%C3%A7o%20de,anos%20de%20negocia%C3%A7%C3%B5es%20convocadas%20pela 14 DIREITOINTERNACIONAL II – LEGISLAÇÃO: Pacto de San José da Costa Rica de 1969: Artigo 44 Qualquer pessoa ou grupo de pessoas, ou entidade não governamental legalmente reconhecida em um ou mais Estados-Membros da Organização, pode apresentar à Comissão petições que contenham denúncias ou queixas de violação desta Convenção por um Estado-Parte. Regulamento da Corte Interamericana de Direitos Humanos de 2009: Artigo 25. Participação das supostas vítimas ou seus representantes 1. Depois de notificado o escrito de submissão do caso, conforme o artigo 39 deste Regulamento, as supostas vítimas ou seus representantes poderão apresentar de forma autônoma o seu escrito de petições, argumentos e provas e continuarão atuando dessa forma durante todo o processo. Convenção Europeia de Direitos do Homem de 1950 (as modificações introduzidas pelo Protocolo n° 11): Artigo 34. Petições individuais O Tribunal pode receber petições de qualquer pessoa singular, organização não governamental ou grupo de particulares que se considere vítima de violação por qualquer Alta Parte Contratante dos direitos reconhecidos na Convenção ou nos seus protocolos. As Altas Partes Contratantes comprometem - se a não criar qualquer entrave ao exercício efetivo desse direito. ARTIGO 35. Condições de admissibilidade 1. O Tribunal só pode ser solicitado a conhecer de um assunto depois de esgotadas todas as vias de recurso internas, em conformidade com os princípios de direito internacional geralmente reconhecidos e num prazo de quatro meses a contar da data da decisão interna definitiva. (...) 3. O Tribunal declarará a inadmissibilidade de qualquer petição individual formulada nos termos do artigo 34 sempre que considerar que: a) A petição é incompatível com o disposto na Convenção ou nos seus Protocolos, é manifestamente mal fundada ou tem carácter abusivo; ou 15 DIREITO INTERNACIONAL b) O autor da petição não sofreu qualquer prejuízo significativo, salvo se o respeito pelos direitos do homem garantidos na Convenção e nos respectivos Protocolos exigir uma apreciação da petição quanto ao fundo. Estatuto do Tribunal Africano de Justiça e dos Direitos Humanos de 1998: Artigo 30. Outras Entidades Autorizadas a Intervir no Tribunal As entidades que se seguem podem interpor no Tribunal qualquer caso de violação de um direito que lhes é garantido pela Carta Africana, a Carta de Direitos e Bem-estar da Criança, o Protocolo à Carta Africana dos Direitos do Homem e dos Povos relativo aos Direitos da Mulher, ou por outros instrumentos jurídicos relevantes aos Direitos Humanos aos quais são Partes os Estados interessados: a) os Estados-partes do presente Protocolo; b) a Comissão Africana de Direitos do Homem e dos Povos; c) O Comitê Africano de Peritos sobre os Direitos e o Bem-Estar da Criança; d) Organizações intergovernamentais africanas acreditadas junto da União ou seus órgãos; e) Instituições Nacionais Africanas dos Direitos Humanos; f) Pessoas físicas ou Organizações não-governamentais relevantes acreditadas na União Africana ou junto dos seus órgãos são sujeitos as disposições do art. 8 do Protocolo. (...) Estatuto de Roma de 1998: Artigo 7º. Crimes contra a Humanidade 1. Para os efeitos do presente Estatuto, entende-se por "crime contra a humanidade", qualquer um dos atos seguintes, quando cometido no quadro de um ataque, generalizado ou sistemático, contra qualquer população civil, havendo conhecimento desse ataque: a) Homicídio; b) Extermínio; c) Escravidão; d) Deportação ou transferência forçada de uma população; e) Prisão ou outra forma de privação da liberdade física grave, em violação das normas fundamentais de direito internacional; f) Tortura; 16 DIREITO INTERNACIONAL g) Agressão sexual, escravatura sexual, prostituição forçada, gravidez forçada, esterilização forçada ou qualquer outra forma de violência no campo sexual de gravidade comparável; h) Perseguição de um grupo ou coletividade que possa ser identificado, por motivos políticos, raciais, nacionais, étnicos, culturais, religiosos ou de gênero, tal como definido no parágrafo 3o, ou em função de outros critérios universalmente reconhecidos como inaceitáveis no direito internacional, relacionados com qualquer ato referido neste parágrafo ou com qualquer crime da competência do Tribunal; i) Desaparecimento forçado de pessoas; j) Crime de apartheid; k) Outros atos desumanos de caráter semelhante, que causem intencionalmente grande sofrimento, ou afetem gravemente a integridade física ou a saúde física ou mental. Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar de 1982: Art. 133. Termos utilizados Para efeitos da presente Parte: a) "recursos" significa todos os recursos minerais sólidos, líquidos ou gasosos in situ, na Área, no leito do mar ou no seu subsolo, incluindo os nódulos polimetálicos; b) os recursos, uma vez extraídos da Área, são denominados "minerais". Artigo 136. Patrimônio comum da humanidade A Área e seus recursos são patrimônio comum da humanidade. Artigo 157. Natureza e princípios fundamentais da Autoridade 1. A Autoridade é a organização por intermédio da qual os Estados Partes, de conformidade com a presente Parte, organizam e controlam as atividades na Área, particularmente com vista à gestão dos recursos da Área. 2. A Autoridade tem os poderes e as funções que lhe são expressamente conferidos pela presente Convenção. A Autoridade terá os poderes subsidiários, compatíveis, com a presente Convenção que sejam implícitos e necessários ao exercício desses poderes e funções no que se refere à atividades na Área. 3. A Autoridade baseia-se no princípio da igualdade soberana de todos os seus membros. 4. Todos os membros da Autoridade devem cumprir de boa-fé as obrigações contraídas de conformidade com a presente Parte, a fim de se assegurarem a cada um os direitos e benefícios decorrentes da sua qualidade de membro. 17 DIREITO INTERNACIONAL III – JURISPRUDÊNCIA: Corte Internacional de Justiça (CIJ): Caso Barcelona Traction (1970): “O conceito de obrigações erga omnes aflorou na jurisprudência da Corte Internacional de Justiça no caso Barcelona Traction (1970) (....). O leading case foi o caso Barcelona Traction (Bélgica versus Espanha), no qual a Corte Internacional de Justiça distinguiu obrigações interestatais comuns, geradas pelas relações diplomáticas bilaterais e multilaterais ordinárias entre os Estados, e as obrigações de um Estado vis-à-vis à sociedade internacional como um todo. Destarte, a Corte Internacional de Justiça considerou que apenas as obrigações que protegessem valores essenciais para toda comunidade internacional poderiam ser consideradas obrigações erga omnes. Consequentemente, a Corte reconheceu, então, que todos os Estados da comunidade internacional têm interesse jurídico de exigir o cumprimento de tais obrigações”24. Parecer Consultivo sobre as Reservas à Convenção contra o Genocídio (1951): “A CIJ referiu-se à consciência da humanidade, em 1951, no Parecer Consultivo sobre as Reservas à Convenção contra o Genocídio”25. Tribunal Penal ad hoc para ex-Iugoslávia (TPIY): Caso Tadic (1997): “Quando tal crime é cometido contra seres humanos, a própria humanidade é a vítima, como reconheceu expressamente o Tribunal Penal ad hoc para ex-Iugoslávia (TPIY) no caso Tadic, quando decidiu que o crime contra a humanidade foi cometido não apenas contra as próprias vítimas, mas sim contra a humanidade como um todo” 24 RAMOS, André de Carvalho, Teoria Geral dos Direitos Humanos na Ordem Internacional, São Paulo, Saraiva, 2012, pp. 72-73. 25 AMARAL JUNIOR, Alberto, Curso de Direito Internacional, 5ª ed., São Paulo, Atlas, 2015, p. 183. 18 DIREITO INTERNACIONAL IV – PROPOSTA DE QUESTÃO DISCURSIVA: Leia o textoque segue: “No novo jus gentium do século XXI o ser humano emerge como sujeito de direitos emanados diretamente do Direito Internacional, dotado de capacidade processual para vindicá-los. Permitir-me-ia caracterizar esta evolução mais ampla como a da reconstrução do jus gentium, consoante a recta ratio, como um novo e verdadeiro direito universal da humanidade. Mediante sua humanização e universalização, o direito internacional contemporâneo passa-se a ocupar mais diretamente da identificação e realização de valores e metas comuns superiores, que dizem respeito à humanidade como um todo. Para este processo histórico têm contribuído decisivamente o advento tanto do Direito Internacional dos Direitos Humanos como o Direito das Organizações Internacionais” (TRINDADE, Antônio Augusto Cançado, A Humanização do Direito Internacional, 2ª ed., Belo Horizonte, Del Rey, 2015, pp. 17-18). Adotando-se o excerto apresentado como ilustrativo das transformações ocorridas no âmbito do Direito das Gentes em decorrência da humanização das normas internacionais, elabore texto dissertativo analisando, de modo obrigatório, os pontos indicados abaixo: a) a importância do jusnaturalismo na consagração dos direitos humanos na ordem jurídica internacional; b) as mudanças de paradigmas nas relações jurídicas internacionais ocasionadas pelo reconhecimento da personalidade internacional do indivíduo; c) a legitimidade de atuação do indivíduo perante os sistemas internacionais de proteção dos direitos humanos; d) a possibilidade de reconhecimento da humanidade como sujeito de Direito Internacional. (Valor: 30 pontos; Limite: 60 linhas). 19 DIREITO INTERNACIONAL V – GRADE DE CORREÇÃO: Quesito 01: Indicar a contribuição de autores do século XVI e XVII atrelados ao jusnaturalismo e que são apontados pela doutrina como os “fundadores” do Direito Internacional para o desenvolvimento do Direito das Gentes. Indicar que a doutrina atual (Antônio Augusto Cançado Trindade) propõe o renascimento contínuo do direito natural – também chamado de eterno retorno do jusnaturalismo – para compreender o processo de humanização das normas internacionais experimentado de modo potencial após 1945 e que, além de permitir o reconhecimento da personalidade internacional do indivíduo, resultou no estabelecimento de uma série de limitações à vontade dos Estados soberanos. Quesito 02: Apontar, em linhas gerais, as concepções teóricas de, pelo menos, 03 dos autores considerados “fundadores” do Direito Internacional. Neste quesito, pode-se citar o entendimento de Francisco Suárez de que o Direito Internacional era caracterizado por um conjunto de normas que indicavam a unidade e a universalidade do gênero humano. Também caberia apontar que Francisco de Vitoria, considerado precursor da noção de Estado de Direito, defendia que os interesses da comunidade internacional deveriam prevalecer em relação aos interesses individuais dos Estados soberanos. Por fim, a contribuição de Hugo Grotius mostra-se pertinente notadamente no que se refere à proposta de delimitar limites para a atuação do Estado soberano, seja no âmbito das relações internas, seja no campo das relações internacionais. Quesito 03: Registrar que o reconhecimento da personalidade internacional do indivíduo implicou reconhecer em prol da pessoa humana direitos assegurados no âmbito do corpus juris do Direito Internacional, ao mesmo tempo que permitiu desenvolver mecanismos inerentes ao Direito Penal Internacional voltados à promoção da responsabilidade internacional penal do indivíduo, o que fortaleceu o princípio da jurisdição universal, especialmente diante da prática de crimes que violam a consciência jurídica da comunidade internacional como um todo. Quesito 04: Explicar que a criação de normas internacionais que compõem o domínio do Direito Internacional de Proteção da Pessoa Humana (Direito Internacional dos Direitos Humanos, Direito Internacional Humanitário e Direito dos Refugiados) foi determinante para o reconhecimento de normas internacionais “erga omnes” (CIJ, caso Barcelona Traction, 1970) e para a definição do conteúdo de uma série de normas jurídicas imperativas, a exemplo da proibição de apartheid, proibição de genocídio, proibição de tráfico de pessoas, dentre outras. Quesito 05: Consignar a importância do direito das organizações internacionais para o reconhecimento de capacidades internacionais ao indivíduo. Especificar que os principais órgãos internacionais que admitem petições de indivíduos compõem a estrutura orgânica de organizações internacionais, como é o caso dos órgãos que integram o sistema global e os sistemas regionais de proteção dos direitos humanos. 20 DIREITO INTERNACIONAL Quesito 06: Explicar o funcionamento de petições individuais no sistema estruturado pela ONU para proteção de direitos humanos (comitês especializados) e definir os contornos jurídicos do direito de petições individuais no âmbito do sistema interamericano de direitos humanos criado pela OEA. Indicar a importância do art. 44 do Pacto de San José da Costa Rica de 1969 para a compreensão, no sistema regional do continente americano, das capacidades internacionais do indivíduo no acionamento da Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Tecer comentários acerca da participação da vítima nos processos que tramitam na Corte Interamericana de Direitos Humanos (art. 25 do Regulamento da Corte). Quesito 07: Apresentar considerações a respeito da participação de indivíduos (sistema de petições) junto à Corte Europeia de Direitos Humanos, referindo-se à importância do Protocolo 11 de 1994, responsável por introduzir mudanças substanciais no arcabouço institucional inicialmente concebido pelo Conselho da Europa (eliminação da Comissão Europeia de Direitos Humanos e reconhecimento ao indivíduo de acesso direto à Corte Europeia de Direitos Humanos). Explicar de que modo o sistema africano de proteção dos direitos humanos admite a participação dos indivíduos (direito de petição à Comissão Africana de Direitos Humanos e dos Povos e acesso direto ao Tribunal Africano de Direitos Humanos e dos Povos, neste caso apenas se Estado declarou aceitar a legitimidade dos indivíduos para provocar a jurisdição da Corte). Quesito 08: Analisar a possibilidade de reconhecer a personalidade jurídica internacional da humanidade, definindo os aspectos jurídicos que permitem delimitar a humanidade como sujeito de direito (conjunto que compreende todos os integrantes do gênero humano, entendido, no aspecto temporal, como a geração presente e as gerações futuras). Registrar a existência de autores que partilham do entendimento de que a humanidade goza de personalidade jurídica internacional no atual estágio de desenvolvimento das relações internacionais (Antônio Augusto Cançado Trindade e Alberto do Amaral Júnior). Quesito 09: Apontar exemplos de normas internacionais que tratam da proteção da humanidade. Para ilustrar a personalidade jurídica internacional da humanidade, pode- se citar as convenções da UNESCO que protegem o patrimônio cultural da humanidade; a Declaração da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente de 1972, realizada em Estocolmo e se referiu à noção de “bem da humanidade” para estabelecer parâmetros jurídicos de proteção do meio ambiente; o Direito Penal Internacional, especificamente o Estatuto de Roma de 1998, cujo art. 7º tipifica os crimes contra a humanidade; a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar de 1982, que considerada os recursos minerais da Área patrimônio comum da humanidade (art. 136); e o Tratado Internacional dedicado à Utilização Sustentável e Conservação da Biodiversidade Marinha para Além da Jurisdição Nacional (BBNJ), concluído em 2023, responsável por definir que os recursos genéticos marinhos constituem patrimônio comum da humanidade. Também podem ser feitas referências ao caso Tadic,julgado em 1997 pelo Tribunal Penal “ad hoc” da ex-Iugoslávia e que estabeleceu que crimes 21 DIREITO INTERNACIONAL praticados contra seres humanos devem ser considerados crimes contra a humanidade como um todo. Quesito 10: Explicitar a problemática da definição da capacidade de representação jurídica da humanidade junto aos mecanismos internacionais existentes na atualidade. Deve-se empreender argumentação que evidencie a compreensão de que esse tema requer desenvolvimento jurídico e a criação de novos mecanismos que permitam assegurar a defesa dos interesses jurídicos da humanidade. Por último, cabe fazer referência à Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos, organização internacional criada pela Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar e que tem a incumbência de administrar os recursos minerais da Área, os quais, por serem considerados patrimônio comum da humanidade, não podem ser explorados isoladamente por apenas alguns Estados soberanos.