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PROCESSOS DE TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL NA EDUCAÇÃO OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM > Definir intersetorialidade e gestão democrática no contexto da política educacional. > Reconhecer as políticas públicas e a tecitura de redes socioassistenciais no enfrentamento das expressões da questão social. > Analisar os desafios para o trabalho social da política de educação na con- juntura atual. Introdução O processo de instauração da educação como um direito social, demarcado de forma legal pela Constituição Federal de 1988, iniciou uma mudança de percepção coletiva com relação ao âmbito educacional na sociedade. Contudo, é interessante analisar que esse momento não ocorreu de forma orgânica, mas sim como fruto de lutas e conquistas da população e movimentos sociais que discutiam esse tema. Entretanto, o reconhecimento da educação enquanto direito de todos faz-se necessário no cotidiano dos profissionais que atuam na área educacional, para que se possa articular o rompimento da lógica conservadora com relação a privilégios e acesso à educação. A intersetorialidade e a gestão democrática na política de educação Carolina Melati Gandolfi Além disso, é possível articular a reflexão sobre a estrutura educa- cional e as suas mudanças na gestão ao longo dos anos, a partir de experiência (dados empíricos) e de estudos sobre a efetividade dos formatos educacionais. O formato da política pública de educação também passou a propiciar espaços de articulação com as demais políticas públicas existentes, estabelecendo uma rede de intervenções, entendendo a multiplicidade de expressões da questão social que se apresenta na sociedade capitalista atualmente. Diante dessa perspectiva de mobilização de rede de políticas, é interessante observar que o assistente social, enquanto profissional que se insere na educação, apresenta conhecimento teórico sobre a temática e compromisso com relação a garantia da cidadania da população. Então, torna-se um aliado para reafirmar o eixo central da educação, o compromisso com a construção da cidadania, e para executar a sua intervenção profissional junto aos diversos níveis de ensino, bem como garantir o acesso e a permanência no âmbito educacional para os indivíduos que sofrem de alguma vulnerabilidade em seu cotidiano. Desta forma, neste capítulo, você poderá compreender a percepção sobre intersetorialidade e sobre gestão educacional democrática, e as particularidades desses conceitos. Ainda, será apresentado à formatação das redes de políticas públicas e sua potência para o enfrentamento das expressões da questão social e, também, identificará os desafios postos à intervenção na área educacional ao assistente social (e demais profissionais que compõem as equipes) diante do contexto societário que está posto. Gestão democrática e intersetorialidade: eixos centrais à materialização da educação O trabalho realizado dentro das políticas públicas por meio dos diversos profissionais que as compõem passou por algumas fases ao longo do tempo, representando as alterações societárias e governamentais que foram ocor- rendo com o passar dos anos, sobretudo no que tange à gestão da política, considerando que esse aspecto está relacionado com a direção política que cada governo toma para si e suas ações ao ocupar o Estado. Aqui cabe ressaltar que, no Brasil, a percepção sobre seguridade e proteção social à população teria se ampliado a partir do fim da década de 1980, por meio do fim do re- gime ditatorial no país. No que diz respeito às normativas sobre a temática, a principal na época foi a Constituição Federal de 1988, que representou uma evolução na construção que já vinha sendo elaborada pelas constituições pregressas com relação a direitos sociais e cidadania. Mota (2006) argumenta A intersetorialidade e a gestão democrática na política de educação2 que, desse período em diante, a população foi adquirindo novos direitos, e que estes ampliaram de forma parcial o acesso a “[...] serviços públicos não mercantis, [e as pessoas] usufruíram o alargamento da oferta de benefícios, como os da assistência social e da saúde, dentre outros” (MOTA, 2006, p. 3, acréscimo nosso). É importante demarcar neste ponto o que, de fato, é uma política pública, apesar de não existir um consenso pleno sobre esse conceito. Muitos autores discutem a temática e apresentam percepções diversas, mas, de maneira simplificada, podemos utilizar o entendimento de Medeiros e Kist (2017): políticas públicas são aquelas que requerem uma participação ativa do Estado, tanto na execução ou no planejamento de ações que tenham como objetivo a garantia da satisfação das necessidades sociais/direitos sociais da população. Isto é, “[...] devido ao seu caráter público, a política pública expressa demandas e decisões privadas e estatais que se transformam em decisões e ações públicas” (MEDEIROS; KIST, 2017, p. 8–9, grifo nosso). Historicamente também pode-se reafirmar que as decisões e ações públicas tomadas, indicadas pelas autoras, se alteram com o passar do tempo, pois também dependem da agenda política governamental e são intrinsecamente relacionadas com noção de sociedade preconizada pelo governo (VÁZQUEZ; DELAPLACE, 2011). Ao entender o que se considera política pública no contexto brasileiro, é interessante analisar que os direitos sociais delimitados na legislação não podem ser analisados de maneira individual, tampouco as suas respectivas políticas. Se considerarmos a multiplicidade de expressões da questão social que permeiam as relações capital e trabalho da sociedade atualmente, é facilmente perceptível que a proteção não se faz por meio de uma política em específico. Ou seja, não basta um sujeito estar plenamente protegido no âmbito da saúde, de forma isolada, se não tem acesso à moradia, à educação de qualidade, etc. Dito isso, tampouco uma política pública individualmente se realiza por meio de uma ação isolada ou intervenções fragmentadas. Schmidt (2018) argumenta que a política pública se materializa mediante um conjunto de atividades e ações, que se articulam entre si, abrangendo por diversas vezes mais do que um tema específico (como, por exemplo, ações educacionais articuladas com a saúde ou programas que articulam a política de saúde, educação e assistência social, como o Bolsa Família). Tendo em vista essa articulação, pensa-se sobre as formas de gestão que foram sendo adotadas pelo Estado, sendo elencado como um dos princípios centrais à gestão das políticas públicas a partir da Constituição de 1988 a descentralização político-administrativa. Conforme Durighetto e Debórtoli A intersetorialidade e a gestão democrática na política de educação 3 (2008), a estratégia adotada da descentralização se refere a dois pontos: o processo administrativo, no sentido de se transferir a responsabilidade de funções, decisões e ações de nível federal para os governos estaduais e municipais; e a descentralização da área social, que se refere à transferência das funções estatais, que “[...] podem ser simultaneamente realizadas, geri- das e executadas pelo Estado, por organizações públicas não estatais e por organizações privadas, que celebrem com o Estado, ‘contratos de gestão’, ‘parcerias’” (AMORIM, 2018, p. 61). Podemos, então, afirmar que essa descentralização foi sendo demarcada pela transferência de responsabilidades acerca das políticas públicas dire- tamente aos estados e municípios, sendo este segundo o principal gestor a assumir essa tarefa, pois considera-se que a autonomia do governo municipal deve ser desenvolvida (AMORIM, 2018). Amorim (2018, p. 62) reforça que “[...] a gestão das políticas sociais passou a ser atribuição das três esferas, mas a execução, de fato, das políticas sociais ficaria a cargo dos municípios”. Alguns autores abordam a questão da descentralização dentro da área educacional, por exemplo, como um mecanismo para desconcentrar o poder, visando in- centivar um processo democráticomais amplo, maior eficiência e qualidade no trabalho educativo e, também, no incentivo de recursos e participação da comunidade (SILVA; SILVA; SANTOS, 2016). Entretanto: [...] os objetivos pretendidos pelo Estado é que a comunidade local e a escolar assumam a responsabilização por criar estratégias, para conseguir efetivar a educação com recursos (financeiros, humanos e materiais) mínimos. A democra- cia pretendida não corresponde à igualdade de oportunidade para todos, mas, a participação dos diferentes segmentos no cumprimento de atividades educativas; a eficiência corresponde, principalmente, à racionalização dos recursos, em que se deve fazer mais com menos. Mais recursos referem-se à participação da sociedade civil (empresários) na contribuição da oferta de uma educação pública, assim como à da própria comunidade escolar com estratégias para conseguir recursos finan- ceiros e voluntários para a escola (SILVA; SILVA; SANTOS, 2016, p. 536, grifo nosso). O eixo da descentralização foi bastante usado para a consolidação da administração pública gerencialista, como Amorim (2018) e Silva, Silva e Santos (2016) indicam, se considerarmos que esta forma se estabeleceu a partir do fim do regime ditatorial e foi pensada para todos os âmbitos da sociedade, “[...] viabilizando estratégias que levassem o Estado a ser o idealizador de políticas públicas e os setores sociais, público e privado, se responsabilizassem por sua efetivação” (SILVA; SILVA; SANTOS, 2016, p. 537). Desta forma, argumenta Amorim (2018), coube aos municípios a tarefa mais árdua, que é a necessidade de garantir a implementação da política pública e que: A intersetorialidade e a gestão democrática na política de educação4 Se, por um lado, os municípios (a maioria deles) viram no processo de descentra- lização a “entrada” de volumes financeiros repassados pelo Governo Federal [...] (sabe-se que grande parte dos municípios brasileiros não possui recursos pró- prios e que, por isso, construiu relação de dependência dos recursos repassados pelo Governo Federal), por outro lado, experimentaram a sobrecarga de serem os executores de uma política social complexa, com escassa capacidade técnica para tal (AMORIM, 2018, p. 63). Contudo, o processo de descentralização também pode contribuir de forma ampliada para a construção de uma gestão democrático-participativa nas políticas públicas como um todo, se pensarmos que esse formato de gestão se caracteriza por meio de ações locais e intersetorialidade de políticas e programas, visando a articulação entre os entes governamentais. Amorim (2018) aponta que essa maneira de realizar a gestão adota como prioridade as demandas da classe trabalhadora, invertendo a lógica previamente adotada de privilegiar as classes dominantes, e visando a acessibilidade da população a serviços que são essenciais para a garantia de direitos, “[...] bem como amplia o processo de democratização com a adoção de instrumentos e mecanismos de participação social” (AMORIM, 2018, p. 67). A municipalização da execução das políticas públicas, além de fomentar a lógica descentralizada do Estado e por vezes apresentar alguns entraves, se mostra potente no sentido da garantia de direitos, pois abre espaço para que os municípios tenham mais gerência da definição de prioridades de atendimento de cada política de acordo com sua realidade, por exemplo, sempre tendo em vista o que é abordado na Constituição federal e nas principais legislações relacionadas aos direitos sociais. Então: [...] a gestão pública municipal deve comprometer-se com os propósitos maiores de desenvolvimento social local. As secretarias municipais e outras agências governamentais devem se submeter a um plano estratégico que exige abandonar a perspectiva isolacionista e setorial da gestão tradicional (AMORIM, 2018, p. 72, grifo nosso). Ante o apresentado, analisa-se que a partir da municipalização da im- plementação das políticas públicas, começou a instauração de redes de políticas públicas, por meio da compreensão dos diversos fatores que podem contribuir e/ou impactar na qualidade de vida e no bem-estar da população (CARMO; GUIZARDI, 2017). Essas redes podem se constituir tanto como inter- setoriais, por meio da articulação entre diferentes políticas, quanto como uma rede socioassistencial, a partir de organizações governamentais e não governamentais que prestam serviços nos diferentes âmbitos (AMORIM, A intersetorialidade e a gestão democrática na política de educação 5 2018). Com relação ao conceito acerca da intersetorialidade, podemos partir da reflexão de Carmo e Guizardi (2017) de que não há necessariamente um consenso teórico sobre o termo, apresentando variados sentidos a depender do espaço em que se discute a temática, mas sua essência seria a de “[...] uma nova lógica de gestão para a superação da forma fragmentada com que são executadas as políticas sociais no país” (CARMO; GUIZARDI, 2017, p. 1274) e, da mesma forma, um jeito planejado e integrado de gestão, visando garantir “[...] maior eficiência, eficácia e efetividade e menor gasto de recursos na administração pública” (CARMO; GUIZARDI, 2017, p. 1274). A percepção sobre a relevância da intersetorialidade se dá, também, por causa do reconhecimento de que as políticas públicas setoriais, apesar de não precisarem de espaços de atuação completamente próprios, têm uma “[...] incompletude inata que favoreceria a atuação intersetorial, não apenas para intercâmbio de saberes, como também para alcance [...] do objetivo de garantia de direitos sociais às populações [...]” (CARMO; GUIZARDI, 2017, p. 1274). Insere-se aqui o pensamento de que a intersetorialidade, por si só, não ocorre de forma espontânea nas instituições públicas, pois provoca resistências quando indica a necessidade de mudanças no modo de trabalho a ser implementado. Conforme Carmo e Guizardi (2017), a alternativa para que se desconstruíssem as resistências dos trabalhadores e gestores de políticas públicas acerca da intersetorialidade seria o estabelecimento de um objetivo final de política pública comum, que todos partilhassem. As autoras também argumentam que “[...] a ação direcionada pela perspectiva intersetorial em nada se assemelha às ações em que trabalhos setoriais são executados de forma justaposta” (CARMO; GUIZARDI, 2017, p. 1277), pressupondo que ocorra interlocuções entre os agentes das políticas públicas envolvidas no respectivo planejamento e/ou implementação, visando o alinhamento ao objetivo traçado. Diante disso, se analisa que a intersetorialidade, como uma consequência da articulação previamente mencionada: [...] é apreendida como um novo processo na dinâmica governamental para o al- cance de resultados integrados, sem perder de vista a dimensão do planejamento e da avaliação em políticas públicas permeados pela participação da sociedade civil. E, nesse sentido, constitui ferramenta institucional de qualificação das ofertas estatais frente às manifestações cada vez mais complexas da questão social, já que acrescenta, como dimensão analítica, arranjos interdisciplinares para induzir (ALMEIDA; SANTOS, 2014) e promover apreensões das demandas sociais apoiando- -se no princípio da integralidade e na diretriz da participação popular (CARMO; GUIZARDI, 2017, p. 1281, grifo nosso). A intersetorialidade e a gestão democrática na política de educação6 Assim, realiza-se um recorte com relação à gestão democrático-partici- pativa dentro da área educacional, considerando-a como um eixo articulador ao trabalho intersetorial com outras políticas. De acordo com Oliveira e Menezes (2018), houve inúmeras reformas educacionais ao longo do tempo, em diferentes países, que resultaram na concepção atual com relação à busca da participação da comunidade e, também, em formas de gestão participativa no âmbito escolar, ampliando o poder de decisão e incentivando práticas democráticas. Silva, Silva e Santos (2016) concordam com o abordado pelasautoras e acrescentam à discussão que as percepções sobre a gestão escolar emergiram a partir de tensões e desafios que se colocaram no contexto social com o passar do tempo. Como demarcação dessas mudanças, podemos utilizar a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), pois essa normativa possibilitou que ocorressem transformações estruturais dentro do cenário organizacional da educação no Brasil, trazendo à tona os princípios da gestão democrática (SILVA; SILVA; SANTOS, 2016). Todavia, esses princípios, segundo Silva, Silva e Santos (2016), acabaram subsidiando ações pontuais democráticas dentro da lógica gerencial previamente adotada, na qual não se preconizam a democracia e a participação de forma ampliada, sendo fundamentadas na concepção política neoliberal e no Estado mínimo (no sentido de que transfere responsabilidades a outras organizações que não o Estado em si). Muitos autores discutem sobre a participação da comunidade e da população como um todo no espaço da gestão democrática/parti- cipativa e de que maneira essa questão pode ocorrer. Pontua-se aqui, a título de informação, alguns espaços coletivos nos quais as pessoas e profissionais podem se inserir: conselhos deliberativos em nível municipal, estadual e federal relativos à política de educação, conselhos escolares junto às instituições de educação a que estão vinculados, grêmios estudantis, associações de pais e mestres, entre outros. Esse aspecto não será abordado de forma específica ao longo do texto, mas cabe a informação para agregar no reconhecimento da participação pretendida no âmbito educacional por parte das normativas. Propõe-se, para ampliação da discussão indicada, a leitura do artigo de- nominado “Conselhos municipais de educação: autonomia e democratização do ensino”, elaborado pela autora Lucia Helena G. Teixeira, no qual ela discute a implementação da ferramenta dos conselhos a nível municipal para a de- mocratização do ensino, por meio de uma pesquisa em alguns municípios em Minas Gerais. Destaca-se aqui, também, que as mudanças estabelecidas pela LDB re- definiram o espaço dos profissionais da educação como um todo no âmbito escolar, ampliando suas atribuições para participarem de forma ativa nas A intersetorialidade e a gestão democrática na política de educação 7 ações de gestão escolar, “[...] auxiliando na construção de propostas pedagó- gicas, nas reuniões e decisões financeiras” (SCHÜTZ; FUCHS, 2018, p. 25–26). Ainda, dentro da normativa, há dois artigos que, de forma bastante específica, indicam as normas da gestão democrática e participativa do ensino público e na educação básica, orientando um horizonte a ser seguido pelas instituições. No artigo 14, se reafirma que deve ocorrer a participação dos profissionais da educação no processo de elaboração do projeto pedagógico da escola e, também, que deve ser garantida a “[...] participação das comunidades escolar e local em conselhos escolares ou equivalentes” (BRASIL, 1996, do- cumento on-line). Além disso, em seu artigo 15, a LDB indica que os sistemas educacionais “[...] assegurarão às unidades escolares públicas de educação básica que os integram progressivos graus de autonomia pedagógica e ad- ministrativa e de gestão financeira, observadas as normas gerais de direito financeiro público” (BRASIL, 1996, documento on-line). Aqui fica bastante clara a relação da descentralização da gestão e a municipalização das políticas públicas com a gestão democrática e participativa na educação, pois articula as necessidades locais/regionais no âmbito educacional e devolve autonomia administrativa e pedagógica para a reorganização dos sistemas de acordo com essas mesmas necessidades. Traz-se aqui também um ponto indicado por Silva, Silva e Santos (2016) sobre a gestão democrática no recorte brasileiro; esta se apresenta como um desafio tendo em vista que a história do país é demarcada por “[...] ações de coronelismo, mandonismo, clientelismo e desfavorece atitudes de descen- tralização do poder, participação nas decisões e autonomia para direcionar as políticas por caminhos que favoreçam a todos” (SILVA; SILVA; SANTOS, 2016, p. 539). Lima (2018) proporciona também a reflexão que: [...] a gestão democrática da escola é sobretudo um processo contínuo e nunca concluído de aprofundamento e de vivência da democracia nas escolas, a ques- tão crucial a ser pesquisada e respondida, a cada momento e em cada contexto escolar concreto, é a de saber quão democrática é, e está sendo, a legalmente instituída e discursivamente onipresente gestão democrática da escola (LIMA, 2018, p. 24, grifo nosso). Perante essa reflexão, podemos concluir que a percepção sobre gestão democrática e participativa tem várias frentes, e que essa modalidade gestora diz respeito, para além de uma organização burocrática do espaço escolar, a um modo de reafirmar o que consta na Constituição Federal e nas demais normativas relacionadas à educação, no que se refere à construção da cida- dania. E, para essa construção, também se faz importante o reconhecimento A intersetorialidade e a gestão democrática na política de educação8 da escola como uma instituição que é parte da sociedade e, portanto, precisa considerar a realidade em que se insere, conhecer a sua história e seu público, compreendendo o seu papel societário e a sua responsabilidade e relativa autonomia na concretização do direito à educação da população (SILVA; SILVA; SANTOS, 2016; LIMA, 2018; OLIVEIRA; MENEZES, 2018). A gestão democrática é a chave principal para se efetuar mudanças no estilo de gestão e, com isso, tornar-se o modelo para a comunidade escolar, uma vez que estimula as pessoas a participarem de uma gestão participativa, onde cada [...] indivíduo deve ter responsabilidade e compromisso com o sucesso da escola, com qualidade e eficácia [...] (SCHÜTZ; FUCHS, 2018, p. 28). O entendimento acerca da importância da gestão democrática na educação também perpassa a compreensão da intersetorialidade: a importância do compartilhamento das responsabilidades com relação à garantia dos direi- tos sociais e da construção da cidadania, por meio da participação social e, também, sobre a reafirmação do posicionamento democrático das políticas de maneira geral. Dentro da especificidade educacional, entende-se que a gestão democrática e participativa ocupa um papel central, pois possibilita que haja um engajamento entre os profissionais e usuários para a conquista de um objetivo comum, bem como proporciona uma aproximação maior entre a instituição e a comunidade (SCHÜTZ; FUCHS, 2018). Por fim, analisa-se que a gestão democrática escolar apresenta possibili- dade de que se construa uma escola pública e de qualidade, que possa atender as necessidades da população brasileira, podendo inclusive demonstrar vivência e aprendizado da democracia. Além disso, se percebe a potência que é o estabelecimento da intersetorialidade entre as políticas públicas, para que se possa construir uma rede de proteção mais ampliada à população e, também, contribuir com a qualificação do espaço educacional, tendo como horizonte a construção da cidadania. Redes de políticas públicas: potência para o alcance da proteção social Para se pensar acerca da formatação da uma rede de políticas públicas e a sua operacionalização, enquanto mecanismo de garantia de direitos, é inte- ressante observar a partir de que ponto na realidade brasileira se passou a reconhecer essa necessidade. Na Constituição Federal de 1988, foi instituído o conceito de seguridade social, que inclui as políticas de saúde, previdência e assistência social, entendendo a importância dessas políticas para que se A intersetorialidade e a gestão democrática na política de educação 9 estabelecesse a proteção social da população e indicando que seu funciona- mento deve ocorrer articulado, no formato de rede (BRASIL, 1988; AMORIM, 2018). A autora também traz que a rede pode ser compreendida como umaforma de organização das políticas públicas, “[...] uma noção que não rompe com a lógica dos direitos sociais, ao contrário, prevê formas de assegurá-los, atendendo às demandas do cidadão no conjunto das políticas públicas” (AMORIM, 2018, p. 70). A partir do estabelecimento da seguridade social, o conceito de rede passou a se ampliar com o passar do tempo, abarcando novas políticas que se originaram a partir dos direitos sociais apresentados na Constituição. Por meio desse entendimento inicial sobre a rede de políticas públicas, se argumenta que esta passa a se formar por meio da intersetorialidade, ou seja, do estabelecimento de objetivos comuns a mais de uma política. Carmo e Guizardi (2017) refletem que a intersetorialidade vem ganhando mais espaço dentro da rede de garantia de direitos, fazendo parte de diversas etapas das políticas públicas, como elaboração, implementação e até o processo avaliativo. No entanto, para que possam ocorrer ações articuladas entre as diversas políticas, Viega (2018) e Junqueira (2003; AMORIM, 2018) trazem que são necessários serviços estabelecidos no território de moradia da população, bem como profissionais disponíveis e favoráveis ao trabalho interdisciplinar, para que possam “[...] exercer sua prática profissional na perspectiva da transformação da realidade dos usuários e dos serviços, já que sem isso o trabalho intersetorial não se materializa” (VIEGA, 2018, p. 3). Cabe destacar que, de forma tradicional, as políticas públicas são setoriza- das e desarticuladas entre si, pois muitas se estabeleceram em gestões com características mais centralizadoras e hierarquizadas, tornando a intervenção profissional um trabalho realizado apenas em um recorte da realidade social dos sujeitos (VIEGA, 2018). O autor também traz que esse modo de trabalho “[...] gera uma fragmentação na atenção às necessidades sociais dos usuá- rios dos serviços, o que compromete de maneira significativa o acesso aos direitos da população” (VIEGA, 2018, p. 4). Tendo em vista a fragmentação mencionada, cabe retomar de que maneira os direitos sociais são garantidos: por meio da construção de uma rede fortalecida e que se configura como um combinado de ações “[...] de iniciativa pública e da sociedade que ofertam e operam serviços, benefícios, programas e projetos, de modo articulado para a provisão de proteção social básica e especial e por níveis de complexidade” (MEDEIROS; KIST, 2017, p. 10). Contribuindo com a discussão acerca de redes, Amorim (2018) reflete que é necessário ler a organização das políticas públicas neste formato de maneira A intersetorialidade e a gestão democrática na política de educação10 crítica, levando em consideração aquilo que não está posto de forma direta, mas sim nas entrelinhas. Amorim (2018) aponta que “[...] a leitura de rede de políticas sociais é aquela que passa pela compreensão da ‘questão social’ e a indispensável mediação das políticas sociais para o acesso e a garantia de direitos sociais como respostas às suas expressões” (AMORIM, 2018, p. 74). Como previamente apontado, as políticas públicas se organizam em formato de redes com o objetivo de garantir o acesso aos direitos sociais da população como um todo. Entretanto, Amorim (2018) faz uma análise mais ampliada acerca da constituição de redes no cotidiano da sociedade, indicando que previamente à existência das redes de políticas públicas (secun- dárias), existem as redes primárias. Essas redes se constituem na vida social das pessoas e são tecidas por meio do “[...] apoio mútuo, da solidariedade e das relações de afetividade e são formadas por redes espontâneas compostas, por exemplo, pela família, vizinhança, moradores de uma rua ou de uma pequena comunidade” (AMORIM, 2018, p. 74). É interessante observar que essas redes primárias também impactam nas condições e no modo de vida da pessoa e, consequentemente, podem influenciar no acesso ou na negação de direitos, a depender da forma com que se conectam. Considerando as políticas públicas de forma geral, incluindo a educação nesse rol, e que essas políticas são meios para que se implemente e garanta os direitos sociais da população, cabe analisar as características das redes que essas políticas passam a conformar. Alguns autores trabalham o tema, mas é possível sintetizar os sentidos a partir de alguns eixos, trazendo o que Amorim (2018) aborda em suas produções, nas quais caracterizam as redes de políticas públicas em três linhas: 1. redes interinstitucionais ou de políticas sociais, que se caracterizam como a articulação de políticas, programas, projetos e serviços go- vernamentais e não governamentais, de diferentes instituições, que atuam em uma área específica da política pública — podendo ser usada como exemplo a articulação da política de educação infantil que pode envolver instituições públicas, privadas e sem fins-lucrativos; 2. inter-redes ou redes interpolíticas sociais, que se dão por meio da articulação de diferentes áreas dentro de uma mesma política pública — por exemplo, a organização entre diversas profissões (professores, assistentes sociais, gestores) dentro da política de educação; 3. intrarredes ou redes de atenção por grupos sociais, que ocorrem por meio da articulação entre várias políticas públicas que atendem grupos A intersetorialidade e a gestão democrática na política de educação 11 específicos, como crianças e adolescentes ou idosos — por exemplo, a organização entre a política de educação e de assistência social, em um determinado território, para identificar como se dá o acesso à escola. A gestão em rede apresenta-se na contemporaneidade como uma forma de gestão democrática e participativa semelhante à ideia mais geral de gestão social. A no- vidade nesse tipo de gestão nos serviços públicos é que visa agregar e coordenar os diferentes sujeitos da proteção social que são mobilizados: mercado, ONGs, organizações não governamentais e outros como Judiciário, Ministério Público, conselhos de direitos, tutelares, dentre outros (AMORIM, 2018, p. 76). Ante os exemplos utilizados na apresentação das características das redes identificadas pelos autores, e também nos exemplos de entes que podem compor essas redes para garantir o acesso aos direitos sociais, podemos reiterar que as redes intersetoriais/de políticas públicas são aquelas que buscam articular as organizações governamentais, não governamentais e informais, “[...] comunidades, profissionais, serviços, programas sociais, setor privado, bem como as redes setoriais, priorizando o atendimento integral às necessidades [da população] [...]” (VIEGA, 2018, p. 4, acréscimo nosso). Tomando como exemplo a política de educação, se percebe a importância do trabalho em rede e conjunto por parte das políticas públicas, se considerarmos que a realidade tem muitas facetas e precisa ser compreendida em sua totalidade, para que o cuidado ocorra de forma ampliada e alcance seu objetivo. Se con- siderarmos a realidade de uma criança vinculada a uma escola, por exemplo, entende-se que, quando ela é exposta a expressões da questão social em seu cotidiano fora do ambiente escolar, essa vivência provavelmente afetará a forma com que ela acessa (ou não) seu direito à educação. E, diante disso, faz-se necessária uma articulação interdisciplinar entre todas as políticas públicas, além da educacional, para que se possa alcançar a proteção social à criança e, assim, se aproximar de seu cotidiano para identificar alternativas à intervenção profissional e a retomada da garantia do direito daquele sujeito (VIEGA, 2018; AMORIM, 2018). Conclui-se, então, que o estabelecimento de redes de políticas públicas, independentemente da característica adotada, contribui para a garantia de direitos da população e, também, para a identificação de eixos para a intervenção coletiva a ser realizada. Também se faz necessária pois a inter- setorialidade ocorre para que uma política, individualmente, nãoseja um fim em si mesma, mas que possa tecer redes visando a proteção social ampliada para as pessoas. Entretanto, a organização em redes, especialmente no âmbito educacional, apresenta alguns caminhos que necessitam ser percorridos, para A intersetorialidade e a gestão democrática na política de educação12 que se possa afirmar que a política de educação visa a garantia do direito à educação, para além do que está estabelecido nas legislações. Desafios e possibilidades do trabalho social na política de educação na contemporaneidade Tendo em vista o que foi apresentado, observa-se que a organização das políticas sociais como um todo no formato de redes intersetoriais ainda necessita de aprimoramento, se considerarmos que a intersetorialidade não ocorre de forma orgânica e que as políticas comumente são pensadas a partir de uma lógica individualista. Ainda, dentro do recorte da política de educação, podemos afirmar que a sua articulação às demais políticas que compõem a rede não ocorre de forma plena, possivelmente em razão da lógica gerencia- lista adotada em sua organização. A gestão democrática e participativa da educação, como previamente abordado, se apresenta enquanto um caminho para que essas relações de rede se estabeleçam, mas ainda é necessária a superação do modelo neoliberal educacional para que isso possa acontecer. O processo de descentralização/municipalização das políticas públicas se apresentou de forma dúbia: é potente, no sentido da aproximação com a realidade social das pessoas e dos territórios onde as políticas atuam; mas também depende da disposição e organização do Estado em nível municipal para que os direitos possam ser garantidos, e muitas vezes o governo atuante neste âmbito pode não compreender as necessidades básicas da população de maneira ampliada. Silva, Silva e Santos (2016) e Amorim (2018) argumentam que a gestão democrática participativa ainda não é uma realidade em diversos espaços educacionais, apesar do horizonte apresentado pela LDB, estando permeados pelas contradições postas na sociedade. Isto é, o principal desafio dentro da política de educação é o de buscar garantir “[...] a participação, transparência e democracia, além de ter uma especial responsabilidade no edificar de um mundo mais inclusivo, solidário, humano e ético [...]” (SCHÜTZ; FUCHS, 2018, p. 32). Lima (2018) apresenta que os conceitos de autonomia, descentralização e participação devem ser compreendidos enquanto uma ruptura à lógica neoliberal que vem ganhando espaço nas últimas décadas, além de representar um alinhamento da política de educação ao que suas legislações afirmam. Ao pensarmos sobre a política de educação (tanto em sua gestão quanto na articulação com outras políticas), devemos ressaltar a inserção do assis- A intersetorialidade e a gestão democrática na política de educação 13 tente social nos espaços educacionais, pois o profissional pode desenvolver sua intervenção nesses locais e, sobretudo, executá-la visando a garantia do direito do acesso e permanência na escola, por exemplo, de crianças e adolescentes. Contudo, Conselho Federal de Serviço Social (CFESS) traz que não se deve reduzir o trabalho do Serviço Social a esse ponto, considerando que o profissional apresenta potencial e alcance mais ampliado para construir o enfrentamento e a reafirmação de outras demandas, como a atuação dire- cionada para a gestão democrática e de qualidade da educação (CONSELHO FEDERAL DE SERVIÇO SOCIAL, 2011). Essa ação está alinhada com as lutas sociais de “[...] reconhecimento e ampliação da educação pública como um direito social, evidenciando sua sintonia com os princípios ético-políticos que norteiam a atuação profissional” (CONSELHO FEDERAL DE SERVIÇO SOCIAL, 2011, p. 38). O compromisso do profissional na luta para garantir a gestão democrática também demarca que o trabalho do assistente social no campo da educação não está restrito a apenas abordagens individuais ou junto aos estudantes, mas: Envolve também ações junto às famílias, aos professores e professoras, aos demais trabalhadores e trabalhadoras da educação, aos gestores e gestoras dos estabe- lecimentos públicos e privados, aos/às profissionais e às redes que compõem as demais políticas sociais, às instâncias de controle social e aos movimentos sociais, ou seja, ações não só de caráter individual, mas também coletivo, administrativo- -organizacional, de investigação, de articulação, de formação e capacitação profissional (CONSELHO FEDERAL DE SERVIÇO SOCIAL, 2011, p. 38). Então, além de se apresentar como potencialidade, a articulação com outras políticas e o estabelecimento de redes também pode ser um desafio ao profissional de serviço social na educação, se considerarmos que a lógica neoliberal que impera em muitas políticas pode gerar empecilhos a esses momentos de construção coletiva. Viega (2018) indica que, perante as de- mandas complexas com as quais o assistente social tem se confrontando na contemporaneidade, faz-se extremamente necessário que a sua intervenção esteja pautada na garantia de direitos e na compreensão da totalidade da re- alidade, evitando gerar atitudes profissionais que possam reforçar a negativa de direitos. O CFESS reforça essa questão, indicando que um grande desafio à atuação do assistente social na política de educação é a necessidade de compreender as expressões de desigualdades vivenciadas pela população e que permeiam seu cotidiano e que, ao mesmo tempo, são reforçadas pela própria política de educação em seus diferentes espaços (CONSELHO FEDERAL DE SERVIÇO SOCIAL, 2011). Também importante é “[...] o desafio de reconhe- A intersetorialidade e a gestão democrática na política de educação14 cimento dos diferentes sujeitos coletivos e dos processos de luta no campo educacional e para, consequentemente, tecer articulações profissionais com os mesmos” (CONSELHO FEDERAL DE SERVIÇO SOCIAL, 2011, p. 43). Então, enquanto uma possibilidade de enfrentamento aos desafios postos ao assistente social (e à toda equipe que compõe os espaços educacionais), podemos refletir sobre a alternativa de potencializar os efeitos da articulação da rede de políticas públicas. Para que essa estruturação coletiva ocorra, todos os profissionais envolvidos devem ter como horizonte o estabelecimento de um fluxo para que se possa garantir os momentos de troca, discussão e complementariedade dos serviços envolvidos (VIEGA, 2018). Ou seja, é necessário que sejam estabelecidos mecanismos de “[...] operacionalização desta perspectiva de trabalho e para tanto, os encontros, seminário, fóruns, grupos de estudos, reuniões são propostas que precisam fazer parte do cotidiano dos serviços e devem ser compreendidas como constituintes do trabalho” (VIEGA, 2018, p. 5). Cabe pontuar que o assistente social, em razão de seu embasamento teórico e prático baseado na compreensão ampliada acerca da intersetorialidade e da proteção social, é o profissional ideal para encabeçar esses momentos de organização e construção coletiva. Desta forma, conclui-se que a política de educação, apesar de ter como norte as diversas legislações que reafirmam a lógica democrática por trás, ainda tem um percurso a ser percorrido para que efetivamente sua organização seja democrática e participativa. Ainda, entende-se que a intersetorialidade e a construção de redes de políticas públicas são pontos essenciais para que a educação alcance seu objetivo com relação à formação para cidadania, cabendo ao poder estatal fornecer subsídios a essa forma de intervenção, buscando romper com ciclos de reprodução de desigualdades. Referências AMORIM, T. A. A gestão e o trabalho em rede na política de assistência social: uma análise da rede socioassistencial governamental dos municípios de médio porte do Piauí. 2018. Dissertação (Mestrado em Políticas Públicas) – Faculdade de Serviço Social, Universidade Federal do Piauí, 2018. BRASIL. Constituição da República Federativado Brasil de 1988. Diário Oficial da União, Brasília, 5 out. 1988. 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No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. A intersetorialidade e a gestão democrática na política de educação 17