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UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA CIÊNCIAS SOCIAIS E HISTÓRIA Dr. Deilson do Carmo Trindade e-mail: deilson@ifam.edu.br AUTAZES – AMAZONAS 08/01 a 16/01 de 2024 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA SUMÁRIO BLOCO 01 PRECURSORES E NASCIMENTO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS. O DESENVOLVIMENTO DAS TEORIAS SISTÊMICAS.............................................05 TEMA 01: O CONHECIMENTO CIENTÍFICO E AS PRINCIPAIS CORRENTES DO PENDAMENTO SOCIAL E POLÍTICO QUE INFLUENCIARAM O NASCIMENTO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS............................................................05 Noções Elementares de Filosofia da Ciência ou Epistemologia.....................05 Significado da Ciência...........................................................................................05 Diversidade da Ciência..........................................................................................07 Diferenças Fundamentais entre as Ciências Naturais e as Ciências Sociais............................................................................................................ .......08 Ciências Naturais...................................................................................................08 Ciências Sociais.....................................................................................................10 As Ciências Sociais e a História............................................................................12 Principais Correntes Sociais e Políticas da Antiguidade que Influenciaram o Nascimento das Ciências Naturais.....................................................................13 A Descoberta do Homem pelos Sofistas................................................................14 Platão.....................................................................................................................15 Aristóteles........................................................................................................ .......16 Idade Média............................................................................................................18 Thomas More.........................................................................................................19 Maquiavel...............................................................................................................20 Thomas Hobbes............................................................................................... ......22 O Iluminismo...........................................................................................................23 Rousseau...............................................................................................................24 TEMA 02: O NASCIMENTO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS. AS TEORIAS SISTÊMICAS................................................................................................... ......27 Surgimento das Ciências Sociais.......................................................................27 O Contexto Político e Econômico............................................................................27 O Naturalismo na Sociologia. O Positivismo...........................................................30 A Estática e a Dinâmica Social...............................................................................32 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA O Positivismo e a História.......................................................................................34 Realismo Sociológico de Émile Durkheim.........................................................35 O Fato Social................................................................................................... .......35 Solidariedade Mecânica e Orgânica.......................................................................38 Durkheim e a História.............................................................................................40 Fundamentos do Funcionalismo................................................................................42 Teoria Sistêmica de Talcott Parsons (1902-1979).....................................................43 Teorias Sociológicas Estruturalistas...........................................................................44 BLOCO 2 0 MARXISMO E AS TEORIAS DA AÇÃO SOCIAL TEMA 3: MARX E A TRADIÇÃO MARXISTA.....................................................42 Marxismo Clássico de Karl Marx.........................................................................42 O Materialismo Histórico.........................................................................................49 A Estrutura Social............................................................................................... ....51 Variedades do Marxismo no séc. XX........................................................................53 Lukács e Gramsci...................................................................................................53 A Escola de Frankfurt..............................................................................................54 Althusser........................................................................................................... .....55 Marxismo e História................................................................................................56 TEMA 4: AS TEORIAS DA AÇÃO SOCIAL.........................................................58 As Teorias Clássicas da Ação Social...................................................................58 Simmel e George Herbert Mead.............................................................................58 Max Weber.............................................................................................................61 A Compreensão em Weber....................................................................................63 A Ação Social..................................................................................................... ....64 A Teoria Social e a História....................................................................................65 Modernas Teorias da Ação Social. Interacionismo Simbólico e as Ciências Sociais Fenomenológicas...................................................................................66 Interacinismo Simbólico..........................................................................................66 As Sociologias Fenomenológicas..........................................................................67 A História e as Modernas Teorias da Ação Social.................................................70 Glossário...............................................................................................................72 Referências Bibliográficas..................................................................................76 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA Apresentação da Disciplina Caro(a) acadêmico(a), O presente texto tem por objetivo geral apresentar, resumidamente, as principais correntes do pensamento sociológico que contribuíram para a história. É, portanto, um trabalho eminentemente teórico que exige uma certa reflexão por parte do acadêmico. O texto está dividido em dois grandes blocos, cada um deles divididos em dois temas. O primeiro bloco lida com os conceitos básicos da filosofia das ciências,ou “seres sobrenaturais” (deuses, diabos ou outras entidades espirituais) que regulam os fenômenos. Comte inclui nessa fase, o fetichismo (adoração ou culto de objetos materiais considerados como a encarnação de um espírito), o politeísmo (crença na existência de vários deuses) e o monoteísmo (crença em um só deus, como nas religiões católica, muçulmana ou hebraica). O segundo estágio – teológico – caracteriza-se por ser transitório entre o primeiro e o último estágio, o positivo. Nessa fase, os “seres sobrenaturais” são substituídos por “forças abstratas”. Por exemplo, afirmar a força misteriosa da “natureza” de alguma coisa com objetivo de explicar as causas originais e os propósitos dos fenômenos do mundo ou afirmar que um evento aconteceu por que foi a “vontade da pessoa”. No estágio final e mais importante (e desejável para qualquer indivíduo ou sociedade) - o positivo – as pessoas abandonam a busca infrutífera das causas originais ou “essências”, isso é, as ideias não- científicas, para buscar as leis naturais e invariáveis que governam todos os fenômenos. Fiéis aos princípios do positivismo comtiano, muitos dos diversos cientistas sociais buscaram os fundamentos científicos da sociedade. Inúmeras foram as tentativas de reduzir a sociologia – de forma implícita ou não - ao “imperialismo metodológico” das ciências naturais. Para alguns sociólogos do século XIX, a sociologia deveria ser o capítulo final de um estudo da física, da biologia, da geografia física ou mesmo da psicologia. Exemplos significativos são as “teorias racistas” em que um fenômeno natural – cor da pele – é tomado como um fenômeno social ou cultural. Entre os grandes sociólogos positivistas cabe destacar o inglês Herbert 33 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA Spencer (1820 - 1903). A principal preocupação de Spencer foi enunciar um conjunto de ideias que constituem a sua teoria geral da evolução. Empregando os métodos da história comparada e influenciado pelas teorias do organicismo biológico (segundo as quais a vida resulta da composição e coordenação das funções particulares dos órgãos que compõem o ser vivo), Spencer acreditava que todos os fenômenos – naturais ou sociais – que passam por um processo evolutivo partem de uma estrutura homogênea para alcançar uma heterogênea. Assim, as sociedades simples ou “primitivas” (que se caracterizam por serem relativamente homogêneas, não-civilizadas, com pouca divisão de trabalho - ver glossário - e cujas organizações políticas são constituídas pelos sentimentos da comunidade) podem evoluir para as que possuem organizações mais compostas (complexas, civilizadas e industrializadas, com mais alto grau de heterogeneidade). O Positivismo e a História Importantes contribuições do Positivismo para os estudos históricos foram a ênfase dada nas fontes dos arquivos, a profissionalização do historiador e a preocupação de sistematizar compêndios sobre o método histórico. Os historiadores que foram influenciados pelo modelo positivista concentraram-se, fundamentalmente, na história dos eventos políticos. Além do mais, a orientação positivista tende a desprezar os acontecimentos particulares e as biografias. Comte, por exemplo, criticava o estudo dos “insignificantes detalhes produzidos pela curiosidade irracional de compiladores cegos de anedotas inúteis”, propondo uma “história sem nomes”. A historiografia proposta pelo modelo positivista enfatiza o que Comte chamou de “leis de sucessão” (a razão por que os acontecimentos históricos estão relacionados entre si e essas correlações são expressas sob forma de leis). Para o positivismo, os fatos históricos são necessariamente produtos de causas antecedentes. A “historiografia positivista” tem uma preocupação em apresentar acontecimentos do passado como uma contínua evolução, como um aperfeiçoamento e melhoramento de processos sociais (ideia de progresso). 34 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA Realismo Sociológico de Émile Durkheim Dentro da linhagem positivista, o filósofo e sociólogo francês Émile Durkheim é um clássico para as ciências sociais. Suas obras são até hoje lidas e servem como referência importante para muitos teóricos das ciências sociais. Foi professor da Sorbonne e o primeiro professor da cadeira de sociologia nessa instituição. Através da revista por ele coordenada, L’Année Sociologique, fundada em 1898, influenciou muitas áreas do conhecimento social, como a antropologia, a história e a linguística. Em 1893 publicou sua tese de doutoramento, A Divisão Social do Trabalho; em 1895, seu principal trabalho metodológico, As Regras do Método Sociológico. Logo em seguida, em 1897, aplicou a sua metodologia no seu livro O Suicídio, uma das pesquisas mais importante na história da sociologia. A sua obra mais famosa é As Formas Elementares da Vida Religiosa (1912). Durkheim é considerado como o fundador da “Escola Objetiva Francesa”, a qual congregava um conjunto de cientistas sociais que participavam da revista Année Sociologique, por ele fundada. O seu pensamento é usualmente classificado como “realismo sociológico”, devido a sua concepção de tratar os fenômenos humanos como dotados de uma realidade específica. Durkheim também é um dos principais representantes da “sociologia sistêmica”, na qual há uma grande ênfase na análise dos desempenhos de sujeitos individuais ou coletivos que interagem mediante comportamentos específicos (econômicos, políticos, religiosos, etc.) previstos por normas reguladoras. A ideia de sistema social é norteadora nesse tipo de análise sociológica (veremos mais detalhes no conteúdo seguinte). O Fato Social O desenvolvimento e uso do conceito de “fato social” constituem o núcleo da sociologia de Durkheim. Para ele, a sociologia é o estudo dos fatos sociais, os quais devem ser tratados como coisas, embora sejam “coisas sui generis” (peculiar, um tipo particular de ser). Como coisas, os fatos sociais devem ser estudados empiricamente 35 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA e não filosoficamente. Esse conceito foi criado para sustentar a autonomia científica da sociologia (ver glossário), dotando-a de um objeto claro e particular. Para Durkheim, qualquer fato social deve ser explicado apenas por outros fatos sociais e não por referência a fenômenos naturais, religiosos, psicológicos ou sobrenaturais. Um exemplo é o seu estudo sobre o suicídio. Embora não deixe de ser um ato voluntário (e, portanto, de ordem psicológica), o suicídio é analisado por Durkheim como um fenômeno social que está ligado ao estado de coesão da sociedade. Ou seja, a taxa de suicídio de uma sociedade depende do grau de solidariedade existente entre os indivíduos. Assim, quanto menos forte for a coesão social, mais elevada deverá ser a taxa de suicídio. Os fatos sociais referem-se às estruturas sociais, assim como as normas e os valores culturais de uma sociedade. Em outras palavras, são as maneiras coletivas de atuar, de fazer, de pensar e de sentir que são impostas coercitivamente aos indivíduos. Além do mais, são gerais em toda uma sociedade. Nesse sentido, eles se caracterizam por: a) serem dados externos às mentes dos indivíduos (não podem ser, portanto, concebidos mediante uma atividade puramente mental); b) serem coercitivos para os atores sociais. Por serem externos e coercitivos, os fatos sociais se diferem dos “fatos psicológicos” (que são internos e herdados). Partindo do conceito de fato social, Durkheim definiu asociedade como uma síntese (e não uma soma) de consciências individuais. Para refletir sobre a diferença entre “soma” e “síntese” – um conceito retirado da química – pense na composição da água. A água é formada por dois gases (oxigênio e hidrogênio) que, unidos por uma determinada forma, gera uma realidade nova, um líquido. Assim, a síntese das consciências individuais (realidades psicológicas) formaria uma nova “coisa”, a sociedade. Questão de Reflexão Até que ponto a concepção da sociedade como “síntese de consciências individuais” deve ser mantida? Qual o risco que essa concepção traz para se pensar no papel e importância do indivíduo? Como explicar, por exemplo, a existência do “conflito”, do “bandido” ou do “revolucionário”? Para discutir essas questões, leve em devida consideração os seguintes aspectos: a) na imagem da síntese química (como a da água), os gases desaparecem para a 36 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA formação desse líquido; b) porém, para se manter a individualidade, é necessário que exista previamente uma realidade comum da qual o indivíduo se “aparta”. _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ Para Durkheim, os fatos sociais podem ser materiais e imateriais. Os materiais são entidades reais, como a arquitetura ou a divisão social do trabalho (que indica as tarefas ou responsabilidades que são especializadas entre os indivíduos). Esse último conceito é muito importante na sociologia durkheimiana devido as enormes implicações para a estrutura da sociedade. Conceito Relevante ESTRUTURA SOCIAL – É um dos conceitos centrais nas ciências sociais, embora tenha muitas significações. De uma maneira geral, esse conceito refere-se à rede de relações de interdependência relativamente estáveis que existem entre um determinado conjunto social, como nos grupos sociais, nas instituições, nas classes, etc. Trata-se de um conceito que está ligado à ideia de sistema. Sistema é um conjunto de elementos relacionados entre si e organizados de tal modo que cada elemento é função de algum outro. Assim, a mudança em um desses elementos implica na alteração de outros e, consequentemente, do sistema como um todo. A estrutura é a forma ou padrão pela qual os elementos estão organizados em um sistema. 37 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA Solidariedade mecânica e Orgânica Durkheim concebeu dois grandes tipos de sociedade: as primitivas (caracterizadas pela solidariedade mecânica) e as complexas (dotadas de solidariedade orgânica). As sociedades primitivas se caracterizam por apresentar uma estrutura social indiferenciada, com pouca divisão do trabalho. Nelas, os indivíduos tendem a fazer as mesmas coisas e, consequentemente, há poucas diferenças entre eles. Nas sociedades regidas pela solidariedade orgânica, onde a divisão do trabalho é complexa, o que mantém unidos os indivíduos é justamente a diferença entre eles, devido ao fato de terem diferentes tarefas e responsabilidades. Ou seja, na proporção que a sociedade evolui (torna-se moderna), as pessoas desenvolvem um maior número de tarefas relativamente pequenas e, consequentemente, passam a depender mais um dos outros para garantir a sua sobrevivência. Conceitos Relevantes SOLIDARIEDADE – Refere-se a laços recíprocos de pessoas. Mais especificamente, diz respeito aos vínculos e relações de responsabilidade que as pessoas estabelecem para a manutenção de um grupo social ou de uma sociedade. Ou seja, a capacidade dos membros de uma coletividade de agir, junto com outros, como um sujeito unitário. O interesse de Durkheim em abordar a questão da solidariedade era para descobrir o que mantém unida uma sociedade. SOLIDARIEDADE MECÂNICA – Base das sociedades primitivas que se caracterizam por apresentar pouca divisão do trabalho. São sociedades fundadas na semelhança de tarefas desenvolvidas entre os indivíduos. Nessas sociedades, os indivíduos parecem que estão presos uns aos outros como uma peça numa engrenagem mecânica e tendem a desenvolver pensamentos e sentimentos semelhantes. A união entre as pessoas se deve a que todos estão implicados na realização de atividades parecidas e responsabilidades semelhantes. SOLIDARIEDADE ORGÂNICA – Base das sociedades complexas, cuja organização social está fundada por uma divisão do trabalho complexa e minuciosa. Nessas sociedades, a sobrevivência do indivíduo depende das tarefas desenvolvidas por numerosos outros, assim como os órgãos que compõem um determinado organismo vivo. A união das pessoas se deve à maior interdependência entre elas. 38 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA Questão de Reflexão 1 - A sociologia tem tradicionalmente tentado estabelecer uma tipologia para classificar as sociedades. Durkheim, por exemplo, concebeu um critério distintivo baseado na maior ou menor divisão do trabalho na sociedade. O sociólogo alemão Ferdinand Tönnies (1855-1936), por sua vez, distinguiu “comunidade” de “sociedade”. “Comunidade” é uma forma de convivência mais antiga e mais rural. Caracteriza-se pelo predomínio do grupal, da “vontade comum”, dos interesses coletivos e da tradição. Na “sociedade”, por sua vez, há o predomínio da vontade individual (os membros são fortemente individualistas), as ações de cada indivíduo são orientadas pela opinião pública, por “modas e novidades”. A solidariedade gira em torno do intercâmbio de mercadorias e serviços e há o predomínio da propriedade privada. Com base nas classificações propostas por Durkheim e Tönnies, tente identificar e caracterizar alguns grupos sociais “rurais” ou “tradicionais” sobre os quais você tenha razoável informação e compare com a nossa sociedade moderna e urbanizada em que vive. __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ 2 - Analise a extensão da divisão social do trabalho que foi necessária para que você tenha um jantar em um restaurante. _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ 39 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professoresda Educação Básica PARFOR/UEA Os fatos sociais imateriais são as normas, valores e representações coletivas ou, em termos mais gerais, a cultura (ver glossário). Durkheim analisou os problemas da moralidade comum da sociedade de diferentes maneiras e mediante diversos conceitos. Um desses conceitos foi o de “consciência coletiva”. Diferente das consciências particulares dos indivíduos, a consciência coletiva é o conjunto de crenças e sentimentos comuns a todos os membros de uma mesma sociedade. Contudo, cabe observar a consciência coletiva é menos importante nas sociedades com solidariedade orgânica do que nas de solidariedade mecânica. Um outro importante conceito é o de “representação coletiva”. As representações coletivas referem-se às formas, normas e valores pelos quais os indivíduos coletivamente apreendem uma dada realidade. Nos últimos anos, Durkheim se interessou pela religião, desenvolvendo um extenso estudo sobre a religião primitiva. Para ele, as raízes da religião se encontram na estrutura social da sociedade. É a sociedade que define certas coisas como sagradas e outras como profanas. Durkheim sempre se preocupou com as reformas sociais, mas se opôs a revolução social. Era um reformador e acreditava que os problemas da sociedade moderna eram de ordem “patológica”, de índole moral e, portanto, deviam ser remediadas. Para aliviar as tensões provocadas pelas “patologias sociais”, Durkheim propôs várias reformas, como o desenvolvimento de associações profissionais e mudanças na moralidade coletiva. Durkheim e a História A sociologia durkheimiana, por sua vez, exerceu uma influência considerável na história contemporânea. O conceito de “representações coletivas” tem sido amplamente utilizado pelos estudiosos da chamada “história das mentalidades coletivas”, representada por muitos dos historiadores ligados à “escola dos Annales”. A “escola dos Annales” é o nome que usualmente se tem dado à nova história” produzida por um pequeno grupo associado à revista Annales, criada na França em 1929. O núcleo central do grupo é formado por Lucien Febvre, Marc Bloch, Fernand Braudel e Georges Duby. 40 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA As Sociologias Sistêmicas e a Tradição Durkheimiana. Funcionalismo e Estruturalismo O século XX foi o período em que as ciências sociais adquiriram a sua plena maturidade intelectual. Isso não significa dizer que não há mais espaço para o crescimento dessas ciências. Muito pelo contrário. As ciências sociais têm continuamente ampliado o seu terreno, constituindo novos tipos e integrações teóricas e metodológicas. Os cientistas sociais têm procurado novos objetos de estudo, tornando suas reflexões mais complexas, sem desprezar os grandes paradigmas dos “clássicos”, principalmente aqueles formulados por Marx, Durkheim e Weber. No complexo panorama moderno das ciências sociais, é possível identificar, a grosso modo, as seguintes “escolas”: o funcionalismo, as teorias marxistas, as teorias estruturalistas e neoestruturalistas, o interacionismo simbólico e as ciências sociais de base fenomenológica. Contudo, é importante chamar a atenção que essas “escolas” não esgotam as diversas tendências das ciências sociais. As “escolas” mencionadas são apenas as mais importantes e paradigmáticas do século XX. A partir da década de 1960, novas orientações têm surgido, algumas delas se caracterizam pelos “desdobramentos” apresentados por esses modelos (como as chamadas teorias “neofuncionalistas”, “pós- estruturalistas”, “neomarxistas”, etc.) outras desenvolvem reflexões teórico-metodológicas que não cabem em rótulos simplificadores. Além do mais, há uma forte tendência atual pela “multidisciplinaridade” ou a “interdisciplinaridade” entre as ciências sociais. Essa tendência levanta questões importantes e complexas a nível teórico e metodológico. Como já observado, um dos principais ramos de análise nas ciências sociais foi traçado por Durkheim, representante da “sociologia sistêmica”. Como o nome indica, trata- se de uma modalidade de análise que está voltada basicamente para o estudo do “sistema social”, isso é, para entendimento das tramas das relações relativamente estáveis, independentes da identidade dos indivíduos. Nessa concepção, a sociedade é usualmente concebida como uma totalidade, composta por um conjunto de normas, princípios e valores, que são estabelecidas independentes da consciência do indivíduo. O funcionalismo, o estruturalismo e o marxismo são exemplos de análises sistêmicas da sociedade. As duas primeiras serão objeto de estudo do presente capítulo. 41 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA Fundamentos do Funcionalismo Entre as décadas de 1930 e 1960, o funcionalismo foi a teoria dominante nas ciências sociais. Nos fins do século XX, perdeu muito da sua importância, mas não desapareceu. Atualmente, está sendo revivido por uma geração de novos sociólogos, como os americanos Paul Colomy e Jeffrey Alexander, conhecidos como “neofuncionalistas”. A teoria funcionalista é usualmente designada como “teoria do consenso”, pois enfatiza a existência de normas e valores comuns como fundamentais para a manutenção (ordem) de uma sociedade. A “teoria do consenso” se contrapõe as “teorias do conflito”, exemplificada pelo marxismo e por Simmel, entre outros. Estas pressupõem que a ordem social está baseada na manipulação e controle dos grupos dominantes e que as mudanças sociais se produzem à medida que os grupos subordinados vencem os grupos dominantes. Auguste Comte, Herbert Spencer e Emile Durkheim foram os sociólogos que mais influenciaram o funcionalismo. Todos eles partem do pressuposto de que a sociedade apresenta analogias com o “organismo biológico”, isso é, tem uma estrutura “orgânica” ou “sistêmica”. Isso significa dizer que a sociedade é concebida como um conjunto composto de elementos que interagem entre si para a manutenção e equilíbrio de um todo (a sociedade). Os componentes do sistema – ou “organismo social” – contribuem positivamente para o funcionamento da sociedade. O funcionalismo adota uma perspectiva de equilíbrio entre os componentes do sistema social. A principal preocupação dessa “escola” é com a “ordem normativa social”. Os funcionalistas não ignoram ou negam as mudanças sociais (não são necessariamente “conservadores políticos”). Analisam as mudanças como resultante dos desequilíbrios dos elementos que compõem o conjunto do sistema social. Assim, quando o conjunto do sistema experimenta uma mudança é porque ocorre uma mudança em um ou mais dos elementos componentes do sistema. Conceito Relevante FUNÇÃO SOCIAL - Uma palavra chave para a teoria funcionalista. Para essa “escola”, função se refere ao fato de que: a) cada unidade constitutiva de um conjunto tem um papel importante e indispensáveis para a sustentação de um todo integrado 42 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA (sociedade); b) as unidades são interdependentes entre si (estão ligadas por uma rede de relações). Uma das principais preocupações dos funcionalistas é analisar o que um sistema social requer para sobreviver. Em outras palavras, o que eles procuram explicar são os pré-requisitos funcionais de um fenômeno social. Alguns desses pré-requisitos são: características demográficas da sociedade; os agentes de controle social que podem recorrer à força para enfrentar os conflitos; os métodos pelos quais a sociedade extrai do seu contorno o que é necessário a sua sobrevivência (alimentos,energia, matérias primas, etc.); métodos que regulem a relação entre os sexos; a disposição adequada de papéis sociais e mecanismos que asseguram às pessoas esses papéis; um sistema de comunicação adequada, etc. Teoria Sistêmica de Talcott Parsons (1902-1979) O cientista social americano Talcott Parsons foi o grande teórico do funcionalismo. A sua teoria é conhecida como “funcionalismo estrutural”. Para Parsons, o sistema social consiste em uma pluralidade de atores individuais que interagem entre si em uma dada situação que tem, ao menos, um aspecto físico ou de meio-ambiente, onde são motivados por uma tendência a “obter gratificações” e cujas relações com sua situação está mediada e definida por um sistema cultural estruturado. Assim, o sistema social está subdividido em quatro grandes elementos ou subsistemas de ação interligados entre si. O primeiro é o “orgânico” (as relações que os atores sociais têm com o seu meio-ambiente; as fontes de energia que os atores extraem para a sustentação do seu organismo biológico). O segundo, o subsistema da personalidade (caracterizado pela orientação e motivação das ações desenvolvidas pelos atores individuais). O terceiro, o subsistema social, o qual é composto pelos status e papéis desempenhados pelos indivíduos. Status se refere à posição estrutural que o ator ocupa no seio da sociedade, e papel o que faz o ator nessa posição. O último subsistema é o cultural. E ele a principal 43 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA força que liga os outros três elementos do mundo social. São as normas, valores, padrões de comportamento, os acervos de conhecimento e ideias que existem em uma sociedade. Uma das principais críticas à teoria parsoniana (e das sociologias sistêmicas, como um todo) é a de que ela está alicerçada no princípio da anterioridade da sociedade em relação ao indivíduo. Ou seja, ao buscar a sobrevivência e a estabilidade dos sistemas sociais, Parsons: a) limitou a atuação dos indivíduos, reduzindo suas capacidades de crítica de agente transformador do mundo social; b) deu pouca ênfase ao conflito social (para Parsons, conflito é um desvio, um distúrbio passível de controle, dada a preeminência da cooperação e do consenso que garantem a ordem social); c) enfatizou demasiadamente os aspectos abstratos e genéricos da sociedade (análise macroteórica) em detrimento das microinterações da vida cotidiana. Parsons tende a pressupor que os indivíduos meramente respondem a forças superiores a eles, ignorando que as sociedades e grupos humanos são compostos por indivíduos que desenvolvem o seu “eu”, que interpretam a ação dos outros e que não agem necessariamente em conjunto com um mesmo objetivo. Os neofuncionalistas retomam criticamente aspectos da teoria parsoniana e incorporam elementos de perspectivas sociológicas que enfatizam as temáticas do conflito social. Teorias Sociológicas Estruturalistas Dentre as teorias sociológicas estruturais, a mais importante delas é o estruturalismo. Existem marcadas diferenças entre os autores que compõem essa “escola”, mas todos eles manifestam uma preocupação em analisar as estruturas sociais. Em termos gerais, o estruturalismo procura as leis universais e invariantes da humanidade que operam em todos os níveis da vida humana. A raiz sociológica dessa teoria encontra-se nos últimos trabalhos de Durkheim e nos estudos linguísticos de Ferdinand de Saussure (1857-1913). A distinção que Saussure estabeleceu entre langue (língua) e parole (fala) é particularmente importante para as teorias estruturalistas. Langue constitui o sistema formal gramatical de uma língua ou estruturas fundamentais de uma língua. Exemplo: as leis gramaticais da língua portuguesa compõem o que Saussure chama de langue. Parole (fala), por outro lado, é o modo pelo qual as pessoas usam a língua para se expressar. Quando cada um de nós falamos com outros, estamos 44 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA utilizando determinadas estruturas gramaticais sem que tenhamos consciência disso. Para Saussure, o estudo científico deve se concentrar na análise da langue, desde que a parole é uma questão de ordem individual, subjetiva. Para as ciências sociais, a obra mais importante no estruturalismo foi realizada pelo antropólogo francês Claude Lévi-Strauss (nascido em 1908). Ele iniciou sua carreira ensinando na Universidade de São Paulo. Lévi-Strauss analisou várias sociedades tribais e sistemas de parentesco de um modo parecido com que Saussure fez com os dados linguísticos. A conclusão de Lévi-Strauss é a de que as verdadeiras estruturas fundamentais da sociedade são as estruturas da mente humana. Em todo o mundo, os produtos humanos têm uma fonte básica idêntica: o sistema mental. Mas esse sistema não é produto de um processo consciente. Mais recentemente, os estudos estruturalistas adquiriram novas dimensões com os trabalhos dos “pós-estruturalistas” (ou “neoestruturalistas”). O filósofo e cientista social francês Michel Foucault (1926-1984) é a figura mais representativa dessa corrente. A sua produção é imensa e tem despertado cada vez mais interesse pelos historiadores. Seus principais livros: História da Loucura, As Palavras e as Coisas, Arqueologia do Saber e História da Sexualidade. Em seus trabalhos iniciais ele procurou realizar uma “arqueologia do saber”. O objetivo da “arqueologia do saber” é analisar um conjunto de regras que determinam o conhecimento e as ideias de uma determinada época. Mais tarde, Foucault passou a se interessar pelas questões do poder e do vínculo entre saber e poder. Para essa nova orientação ele utilizou a expressão “genealogia do poder”. A preocupação agora era a de identificar e caracterizar as formas de poder existentes na sociedade. O conceito de poder para Foucault não se limita apenas à ideia de “poder político” do Estado, mas também ao que é chamada de “micropoder”. Em outras palavras, o poder não é característico de uma determinada classe ou de uma elite dominante. Poder não se origina nem na política, nem na economia. O poder permeia todos os aspectos da vida social. Em todas as relações sociais há sempre um componente do poder, como, por exemplo, nas relações entre o médico e o paciente ou nas relações sexuais. A obra 45 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA de Foucault tem sido altamente louvada pelos historiadores, embora também atacada por outros. A sua contribuição para a nova história cultural é bastante significativa. A cultura é estuda por ele não através das classes ou do progresso, mas mediante as tecnologias do poder. Atividade Complementar 1 – Elabore um texto ao qual discute como o incremento da divisão do trabalho tornou complexa a sociedade contemporânea 2 – Assista ao filme Tempos Modernos de Charles Chaplin e faça um comentário sociológico sobre esse filme. 3 – Verifique os tipos de sanções em um dos grupos sociais que você pertence (por exemplo: família, escola, trabalho) Resumo Esquemático do Bloco I 1.Noções elementares de epistemologia (teoria da ciência). A ciência é dotada de maior rigor e eficácia do que as outras modalidades de conhecimento (filosofia, moral, religião, senso comum) 2. Diferentes tipos de ciências. 2.1 Ciências Naturais - lidam com fatos que: a) são “externos” à consciência humana e estão localizados no tempo e espaço; b) são neutros aos valores; c) são objetos de explicação. 2.2 Ciências Sociais: lidam com fatos que: a) se dão no tempo e no espaço; não sãoneutros aos valores; c) são objetos de compreensão. 3. Os precursores das Ciências Sociais – os filósofos sociais. 3.1. Sofistas – o início do pensamento sobre o ser humano 3.2. Platão (A República) e Aristóteles (A Política) 3.3. Idade Média – Ibn Kaldun 3.4. Renascimento: Thomas More (Utopia), Maquiavel (O Príncipe), Thomas Hobbes (Leviatã) 3.5. Iluminismo – precursores imediatos das ciências sociais. Rousseau (O Contrato Social). 4.O nascimento da sociologia no século XIX. Contexto político, econômico e 46 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA cultural 4.1. O positivismo de Auguste Comte. O Estudo da Estática e da Dinâmica Social 4.2. O realismo sociológico de Durkheim. O fato social e a solidariedade. 5. Fundamentos das sociologias sistêmicas no século XX. Funcionalismo e estruturalismo. BLOCO 2 O MARXISMO E AS TEORIAS DA AÇÃO SOCIAL TEMA 3: MARX E A TRADIÇÃO MARXISTA Marxismo Clássico de Karl Marx A relação entre a teoria de Karl Marx (1818-1883) com a sociologia foi até recentemente problemática. Marx criticou a sociologia que, para ele, se resumia no pensamento de Comte. Durante muito tempo, a teoria marxista não era ensinada na maioria das universidades americanas e da Europa Ocidental. O marxismo era usualmente visto como uma ideologia (ver glossário) e não como um conhecimento científico. Mas a partir da década de 1960, e, principalmente, após a “guerra fria”, essa situação mudou. O marxismo e neomarxismo (marxismo contemporâneo) passaram a ocupar lugar de destaque nos principais centros acadêmicos do mundo, exercendo uma profunda influência nas ciências sociais. Atualmente, devido ao fracasso das “sociedades comunistas”, a teoria marxista tem sido objeto de críticas, algumas delas injustas e outras pertinentes. Momento de Reflexão Procure em um livro de história contemporânea ou pela Internet o que foi a “Guerra Fria” e o colapso das sociedades comunistas, e discuta a significação, alcance e consequências desses dois fenômenos do mundo atual. _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ 47 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA Karl Marx se doutorou em filosofia (1841) pela Universidade de Berlim e estudou profundamente o sistema hegeliano (Wilhel Friedrich Hegel: 1770- 1831) e os escritos dos socialistas utópicos franceses, principalmente Proudhon (1809- 1865). Saindo da Alemanha, foi viver na França, onde conheceu Friedrich Engels (1820- 1895), seu amigo, benfeitor e colaborador pelo resto da sua vida. Expulso de Paris, Marx mudou- se para Londres (1849), onde permaneceu até a sua morte e onde escreveu as obras teóricas mais importantes. Seus principais trabalhos são: Manuscritos Econômico-Filosóficos (1844), Manifesto do Partido Comunista (em parceria com Engels, 1848), O 18 de Brumário de Luís Bonaparte (1852) e O Capital (cujo primeiro volume foi publicado em 1867). Antes de resumirmos os fundamentos do marxismo, é necessário chamar atenção para dois aspectos importantes. O primeiro é que Marx não foi exatamente um sociólogo, embora muito do seu pensamento se enquadre nos limites da sociologia. A teoria marxista extrapola esses limites. Marx foi um pensador complexo – foi também filósofo, cientista político, revolucionário, panfletista, economista, etc. – e sua obra teve uma influência marcante em diversas disciplinas. Um outro aspecto é o de que não existe uma teoria marxista, mas várias interpretações e desdobramentos da obra de Marx. Nesse sentido, o termo “marxismo” ora se refere ao pensamento de Marx ora a um grupo variado de doutrinas filosóficas, sociais, econômicas e políticas fundadas numa interpretação do pensamento de Marx. Uma questão amplamente debatida é a de saber se houve ou não “dois Marx”. Os que defendem a tese de “dois Marx” dividem seu pensamento em dois períodos: o primeiro de orientação mais filosófica, seguindo a tradição hegeliana (o chamado “jovem Marx”, onde expõe seu pensamento principalmente pelos “Manuscritos Econômico- Filosóficos”, de 1844); o segundo, o Marx de “O Capital”, quando se afasta da filosofia e dedica-se a edificar uma ciência da economia política. 48 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA O Materialismo Histórico Marx é usualmente considerado como um discípulo de Hegel ou um “hegeliano de esquerda”, devido ao fato de ter invertido algumas das principais teses hegelianas. Hegel foi um filósofo puramente “especulativo” e “idealista” e Marx teve uma forte inclinação pelo estudo da realidade concreta da sociedade. Mas Marx também foi influenciado pelos socialistas utópicos e pelos economistas ingleses (principalmente Adam Smith e Ricardo). O marxismo desenvolveu uma concepção “materialista” da sociedade. O fundamento dessa concepção está resumido no “Prefácio” do seu livro Crítica da Economia Política (1859): “No curso da produção social empreendida pelos homens, estes se relacionam entre si de maneiras definidas e independentes de sua vontade. Essas relações de produção correspondem a um estado definido do desenvolvimento de seus poderes materiais de produção. A soma de tais relações de produção constitui a estrutura econômica da sociedade, o verdadeiro fundamento sobre o qual se edificam as superestruturas legais e políticas e ao qual correspondem formas bem definidas de consciência social. O modo de produção na vida material determina o caráter geral dos processos sociais, políticos e espirituais da vida. Não é a consciência dos homens a que determina a realidade; pelo contrário, a realidade social é a que determina sua consciência”. Conceito Relevante MATERIALISMO – Concepção filosófica em que a matéria é fundamentada de toda a realidade e causa de toda transformação. Há diversas formas de materialismo. Para o marxismo, o materialismo é um método para entender os mecanismos da formação das sociedades e as suas mudanças. Essas mudanças são de natureza dialética no sentido de que nas sociedades se produzem conflitos (como as lutas de classe) que se resolvem por meio de transformações fundamentais da estrutura. Um princípio básico do materialismo marxista é o de que a existencial social determina a consciência humana. Ou seja, todo pensamento é função de uma “práxis” (uma atividade prática ou conjunto de ações desenvolvidas pelo homem). 49 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA Por essa razão, o marxismo é também apresentado como uma “filosofia da práxis”. MATERIALISMO DIALÉTICO – Esse termo foi cunhado pelo marxista Plekhanov e abreviado como Diamat. Refere-se à concepção de que os fenômenos matérias são processos de mudanças que devem ser entendidos de acordo com os princípios da dialética. Foi Engels que desenvolveu os fundamentos do materialismo dialético, principalmente no seu livro publicado postumamente, A Dialética da Natureza (1925). Para Lênin (1870-1924), a realidade material é a realidade do mundo real “externo” a consciência, a qual “copia” esse mundo mediante as percepções. O materialismo dialético é, segundo Lênin, o verdadeiro conhecimento científico que se deve adotar para a luta a favor do comunismo. MATERIALISMO HISTÓRICO – É característico do pensamentode Marx e também uma característica básica de todas as variantes do marxismo. O materialismo histórico é o método ou doutrina que tem por objetivo explicar (identificar as “leis”) as transformações da sociedade ou da história. A ideia fundamental é a de que as transformações do mundo material são resultado do trabalho. Assim, a história das sociedades é entendida com base no que os homens fazem concretamente para assegurar as suas condições de vida. Nesse sentido, o Estado, as leis, os produtos culturais, etc., estão subordinados aos modos de produção. A análise marxista tem um caráter fortemente histórico. O objetivo último de Marx era especificar as “leis” da história humana a fim de melhor conhecer as transformações sociais. Observava a história como sendo impulsionada por forças intrassociais imanentes. Ele compartilhava o otimismo dos adeptos do progresso e do evolucionismo que pregavam o aperfeiçoamento constante da sociedade. Para ele, a história passa por uma sequência de estágios discerníveis. Assim, os marxistas não se interessam apenas pelas relações sociais do mundo contemporâneo, mas também pela relação entre essas realidades contemporâneas e os fenômenos passados e futuros. Isso significa dizer que os sociólogos marxistas se interessam pelo estudo das raízes históricas do mundo contemporâneo (por exemplo, como fez Marx ao estudar as origens do capitalismo em seu livro Formações Econômicas Pré-Capitalistas e Engels em As 50 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA Origens da Família, da Propriedade Privada e do Estado, 1884) e muitos deles estão preocupados com a direção futura que tomará a sociedade. Daí a preocupação com a política e com a promoção de atividades práticas que acreditam ser necessárias para as transformações do mundo. Conflitos e contradições são dois termos essenciais na concepção marxista da história e da sociedade. As concepções positivistas não trataram de problemas ligados aos conflitos inter-humanos. Por exemplo, Comte temia tanto o conflito social que idealizou uma sociedade de castas organizadas de modo autoritário. Durkheim refere-se ao conflito na sua obra, mas o tratou como uma forma de “enfermidade humana”. Para o marxismo, o conflito e sua resolução é um fato central da sociedade. De acordo com Marx, o principal conflito e contradição da sociedade capitalista está na relação entre burguesia e proletariado, as duas classes básicas do modo de produção capitalista. Nas palavras dele, a burguesia produz o proletariado e ao produzir e expandir esta classe, os capitalistas produzem seus próprios coveiros, pois o aumento da quantidade de trabalhadores explorados e o grau dessa exploração aguçam uma confrontação entre as duas classes, na qual o proletariado, conforme Marx, sairá vencedor. Conceitos Relevantes BURGUESIA - Designa a classe dos que, dentro de uma sociedade capitalista, detêm o controle efetivo dos meios de produção e de distribuição, tirando daí um rendimento sob a forma de lucro. PROLETARIADO – Refere-se ao conjunto dos trabalhadores que, sendo desprovido do controle dos meios de produção, são obrigados a vender a sua força de trabalho mediante um salário para garantir os seus meios de subsistência. Esse termo é usualmente usado como sinônimo de operário. A Estrutura social O estudo da estrutura social, em particular da estrutura da sociedade capitalista, foi uma preocupação básica de Marx. Para ele, a estrutura social é um conjunto de relações sociais numerosas e continuas, externas aos indivíduos e coercitivas (nesse aspecto, observe alguns elementos similares com a teoria durkheimiana). As estruturas emergem da base material da sociedade, isso é, dos 51 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA instrumentos técnicos da produção (meios de produção) e das relações sociais (relações de produção) que criam os direitos da propriedade privada sobre os recursos econômicos. A combinação desses dois elementos (meios de produção e relações de produção) constitui o “modo de produção” de uma determinada sociedade. De acordo com Marx, a história humana é uma história da evolução de diferentes modos de produção: “comunismo primitivo”, “escravismo”, “feudalismo”, “capitalismo” e, posteriormente, “comunismo”. Os meios e relações de produção constituem a “infraestrutura” de um modo de produção, a qual condiciona os aspectos “superestruturais” da sociedade, ou seja, o seu nível cultural, como as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas e filosóficas. É importante salientar, contudo, que Marx não foi exatamente um determinista (embora em algumas das suas obras parece ter advogado essa concepção). O seu compromisso com a dialética o fez estudar as interrelações entre a infra e superestrutura. Mas, por outro lado, Marx dedicou-se muito pouco à análise dos aspectos culturais da sociedade. Um outro conceito relevante para o marxismo é o de classe social. As classes são decorrentes da divisão social do trabalho e da distribuição desigual dos bens econômicos de uma sociedade. Marx distingui pares antagônicos de classes que são específicas para cada modo de produção: escravos x senhores no “escravismo”, servos e senhores feudais no “feudalismo”, capitalistas e proletários no “capitalista”. A sua preocupação fundamental foi com a dinâmica das classes no capitalismo.” A ideia básica de Marx sobre a divisão do trabalho no sistema capitalismo deriva da sua distinção entre os proprietários dos meios de produção e os que são obrigados a vender a sua força de trabalho aos proprietários para poderem sobreviver. Para Marx, tanto o capitalista como o proletário têm uma percepção incorreta do modo como funciona o sistema e o papel que eles desempenham. É o que o marxismo chama de “falsa consciência”. Nesse sentido, os homens são “alienados”. Alienação é a distorção causada pela estrutura da sociedade capitalista na natureza humana. Isso não significa dizer que os homens estão invariavelmente presos à 52 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA alienação. Marx era um humanista e acreditava no potencial humano para escapar a esse processo. Esse potencial não depende apenas de uma vontade ou capacidade crítica, mas de ações concretas dos homens (práxis). Assim, na transição de uma sociedade capitalista para uma socialista é necessário que o proletariado atue concretamente para levar a cabo essa transformação. É nesse processo que o proletariado desenvolve uma consciência exata de como funciona o capitalismo e de como ele afeta as consciências dos indivíduos. O marxismo designa esse processo de consciência de classe. Variedades do Marxismo no Século XX No século XX, vários teóricos contribuíram para o desenvolvimento do marxismo clássico (representado por Marx e Engels), tais como Georg Lukács (1885-1971), Antonio Gramsci (1891- 1937), Louis Althusser (1918-1990) e os autores da chamada “Escola de Frankfurt” ou “Escola Crítica”, como Theodor Adorno (1903-1969), Max Horkheimer (1895-1973), Herbert Marcuse (1898-1979), Walter Benjamin (1892-1940) e Jurgen Habermas (nascido em 1929). Em termos bastante gerais, o movimento marxista do século XX não outorga uma importância superlativa ao sistema econômico (determinismo econômico), o qual parte do pressuposto de que este sistema determina todos os demais setores da sociedade. Lukács e Gramsci A crítica ao determinismo econômico foi iniciada pelo húngaro Lukács. Seu principal livro é História e Consciência de Classe. ParaLukács, o processo histórico é um processo da totalidade da sociedade, que inclui o sujeito e suas produções (não apenas econômica). A consciência da realidade é uma consciência de classe, isso é, um sistema de crenças compartilhadas pelos que ocupam a mesma posição de classe na sociedade. Consciência de classe não é a soma ou média das consciências 53 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA individuais, mas uma propriedade de um grupo de pessoas que ocupam posições similares no sistema de produção. Assim como Lukács, o italiano Gramsci operou dentro da teoria marxista clássica, preocupando-se mais com as ideias coletivas do que propriamente com as estruturas socioeconômicas. Gramsci rechaça a ideia da inevitabilidade e do mecanismo do processo histórico (leis históricas) ao afirmar que as massas devem atuar para levar a cabo a revolução social. Mas, para isso, é necessário que as massas tenham consciência da sua situação e da natureza do sistema em que vivem. Elas necessitam da ajuda das elites sociais (intelectuais) que estão comprometidas com a ideologia revolucionária. Um conceito central da teoria gramsciana é o de hegemonia, ou seja, a liderança cultural exercida pela classe dirigente. O conceito de hegemonia não serve apenas para compreender a dominação capitalista, mas também para orientar o processo revolucionário. A revolução não visa apenas um controle da economia e do aparato do Estado. É importante também que a revolução institua uma liderança cultural sobre o resto da sociedade. A Escola de Frankfurt A Escola de Frankfurt (também conhecida como Teoria Crítica) refere-se a um grupo de neomarxistas alemães que desenvolveram várias análises críticas sobre diversos aspectos da vida social e intelectual. O nome “Teoria Crítica” deve-se ao fato de que os teóricos da Escola de Frankfurt exerceram uma cerrada crítica: a) ao determinismo econômico nas concepções marxistas; b) ao positivismo e cientificismo; c) à sociologia; d) à sociedade moderna; e) à “indústria cultural”. Para esses autores, a sociologia é “cientificista”, isso, considera que o método científico é um fim em si mesmo. Criticam a tendência dos sociólogos em reduzir todo o humano a “variáveis sociais” e, portanto, ignoram a interação entre os indivíduos e a sociedade. Além do mais, acusam a sociologia de aceitar o status quo (o estado em que se achava anteriormente certa questão), deixando de fazer com isso uma crítica séria à sociedade. O objeto de boa parte dos trabalhos da Escola de Frankfurt é a análise crítica da sociedade moderna. O “pensamento tecnocrático” é um dos objetos principais de crítica. Conforme esses autores, o “pensamento tecnocrático” se caracteriza simplesmente por encontrar os meios mais efetivos para alcançar qualquer fim 54 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA importante para os que estão no poder. Logo, o fundamento último da tecnocracia é servir as forças da dominação e não a emancipação das pessoas. Uma outra característica também apontada é a de que no mundo moderno há muita irracionalidade. Como observa Marcuse, um dos principais teóricos da Escola, a sociedade moderna é irracional em seu conjunto. É irracional o fato de que a racionalidade industrial destrua o meio ambiente; que a paz se mantenha mediante à ameaça constante de guerra e que, apesar da existência de meios suficientes, continuam existindo pessoas pobres, reprimidas e exploradas. Uma crítica substantiva dos membros dessa Escola está dirigida à “indústria cultural” – a “cultura de massa” - que, através de estruturas racionalizadas e burocráticas (por exemplo, as cadeias de televisão), controlam a cultura moderna. Althusser (1918-1990) Dentro de uma outra orientação, Louis Althusser é o principal representante do “marxismo estrutural”. Esse termo sugere a fusão de duas escolas do pensamento social: marxismo e estruturalismo (ver abaixo). Uma característica fundamental dessa concepção é a preocupação na análise das estruturas que estão subjacentes e ocultas na vida social. Os teóricos dessa “escola” partem do princípio de que a economia é um elemento determinante em última instância, mas negam a ideia que as estruturas políticas e ideológicas sejam meros reflexos da economia. A política e a ideologia são dotadas de uma “autonomia relativa”. Ou seja, elas podem seguir processos de desenvolvimento bastante independentes, assim como podem, em certos momentos, se converterem em forças dominantes da sociedade. Para Althusser, o núcleo da teoria de Marx reside no estudo que faz sobre a estrutura da sociedade e nas leis que governam o funcionamento dessas estruturas. Nessa perspectiva, Althusser volta-se para o Marx de O Capital, considerando que as 55 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA suas obras iniciais (como no Manuscritos Econômico- Filosóficos de 1844) eram puramente filosóficas e não científicas. Conforme Althusser, a análise marxista deve ser científica e não “humanista”. A preocupação com os atores socais é reduzida a um segundo plano. Os indivíduos constituem meros ocupantes das posições dessas estruturas. As principais críticas ao trabalho de Althusser são: a) defender cegamente o cientificismo; b) ser elitista, já que só os cientistas e militantes do Partido Comunista são capazes de entender a verdade sobre o mundo; prestar pouca atenção; c) ignora o ator social e a consciência. Marxismo e História Marx teve uma visão de história estreitamente vinculada com o evolucionismo. O seu objetivo último foi o de especificar as “leis” da história humana a fim de moldá- la com uma orientação progressista. Nesse sentido, a história para Marx manifesta um desenvolvimento direcional, progressivo e ascendente na história. Mas o desenvolvimento histórico não é linear, direto e consistente, pois se dá por meio de rupturas, reversões e recuos. Mas o marxismo também se afasta das concepções clássicas do evolucionismo. Na perspectiva marxista, a história não é mais um fluxo ao qual estão sujeitos os homens e as coisas, mas produto da própria atividade humana. De uma maneira geral, Marx tem uma teoria multidimensional da história, na qual apresenta três níveis distintos de discurso: histórico-universal (a teoria das formações socioeconômicas), socioestrutural (a teoria da luta de classe) e ativístico- individual (a teoria do indivíduo humano). Um exemplo significativo dessas três teorias interrelacionadas pode ser visto no seu livro O Dezoito Brumário de Luís Bonaparte. No primeiro nível, a preocupação é com as transformações fundamentais do processo histórico, como, por exemplo, a transição que uma dada sociedade faz de um modo de produção para um outro. O segundo diz respeito aos conflitos e contradições existentes entre as classes sociais. O terceiro refere- se às intenções, motivações, interesses e impulsos criativos das pessoas. Os estudos históricos desenvolvidos pela corrente marxista se preocuparam inicialmente com a análise das grandes estruturas sociais e suas transformações. Estavam voltados principalmente para as análises de classe, os relatos de líderes políticos e instituições político-econômicas. Contudo, a partir da década de 56 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA 1950, os historiadores marxistas começaram a abandonar essas modalidades de relatos, passando a investigar aspectos culturais dasociedade, a composição social e a vida cotidiana de operários, mulheres, grupos étnicos e congêneres. Exemplo dessa nova tendência é o trabalho do historiador inglês E.P. Thompson, autor do livro A Formação da Classe Trabalhadora Inglesa. Atividade Complementar 1 – Elabore um texto o qual apresente aspectos econômicos das relações domésticas, desportivas e religiosas. __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ 2 – Analise a afirmativa de Herbert Marcuse de que a sociedade moderna e capitalista é falaz, porque apresenta a face da abundância, da liberdade e da tolerância, ocultando sua verdadeira realidade, que é o domínio social e o conformismo. _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ 57 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA TEMA 4: AS TEORIAS DA AÇÃO SOCIAL As Teorias Clássicas da Ação Social As teorias da ação social desenvolvidas inicialmente pelos alemães Max Weber e Geog Simmel e pelo norte-americano Geoge Herbert Mead constituem uma segunda grande vertente de análise das ciências sociais. São conhecidas também pela designação de “sociologia compreensiva”. A preocupação fundamental é com o estudo das ações e interações sociais. Ação social é a sequência intencional de atos com significado que os sujeitos, chamados usualmente de “atores” ou “agentes”, realizam escolhendo entre várias alternativas possíveis a fim de alcançar um objetivo (ou transformar um estado de coisa existente). Embora não neguem a existência dos sistemas sociais, a sociologia compreensiva procura, nas suas analises, enfatizar os processos interativos desenvolvidos pelos atores sociais, ou seja, as razões, as causas, os motivos, as necessidades e o sentido da ação humana. Conceitos Relevantes INTERAÇÃO SOCIAL – É um termo genérico para designar as relações breves ou duradouras entre dois ou mais indivíduos no curso das quais cada um modifica reiteradamente seu comportamento ou ação social em vista do comportamento ou da ação do outro. Um protótipo da interação social é o jogo. A influência da sociologia compreensiva foi crescendo ao longo do século XX, tornando-se referência fundamental para o pensamento social dos nossos dias. Dentre os cientistas sociais que deram origem a esse ramo da sociologia, Weber é o que mais tem influenciado o pensamento social contemporâneo. Representa uma fusão notável da investigação histórica aliada com a teoria sociológica. Simmel e George Herbert Mead Vamos nos deter rapidamente em Simmel e George Herbert Mead. O primeiro foi principalmente um filósofo, mas devido ao de seu pensamento ser bastante variado e original, a sua contribuição para as ciências sociais foi significativa. Entre suas obras principais destacamos: A Filosofia do Dinheiro (1900) e Sociologia (1908). 58 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA Para Simmel, o que é determinante para a cultura é o tipo humano (ou social) que se situa em relação ao mundo. A sociedade nos apresenta uma ampla gama de tipos e formas de interação. Tipos são modelos de atuação das pessoas, como o “pobre”, o “miserável”, o “aventureiro”, o “nobre”, o “estudante”, etc. São formados pelas associações (interação) entre as pessoas. Nesse sentido, a tarefa principal da sociologia é estudar as diversas “formas de socialização” ou interações sociais (interpessoais) desenvolvidas pelos indivíduos em seus contextos sociais. Devido a preocupação por identificar e caracterizar as formas de interação, a teoria social estabelecida por Simmel é conhecida como “sociologia formal”. Questão de Reflexão Reflita sobre a diferença entre Durkheim e Simmel em relação ao conceito de sociedade. Observe que para Durkheim a sociedade é uma entidade real, material. Por outro lado, para Simmel, a sociedade é um conjunto de interações (isso é, um nome para um conjunto de indivíduos que estão conectados por meio da “interação”). Simmel distingue a cultura objetiva, as manifestações produzidas pelas pessoas (como a tecnologia, os meios de transporte, a linguagem, os códigos morais, a arte, a filosofia, os dogmas religiosos, etc.) e a cultura individual ou subjetiva (isso é, a capacidade do indivíduo para produzir, absorver e controlar os elementos da cultura objetiva). Nesse sentido, a cultura individual modela e é modelada pela cultura objetiva. A cultura objetiva cresce e se expande de diversas formas. Cresce de tamanho e se diversifica na proporção que aumenta a modernização. Um exemplo: a metrópole contemporânea é o “cenário genuíno” do crescimento da “cultura objetiva” e, consequentemente, o local onde encontramos uma maior variedade de formas de associação e tipos sociais. Observe, por exemplo, a diversidade de tipos sociais que encontramos nas cidades modernas, como os “flanelinhas”, “vendedor de picolé”, o “empresário”, o “estudante”, o “internauta”, etc. 59 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA Pense em outros exemplos. O crescimento da “cultura objetiva” se dá algumas vezes de forma conflituosa em relação à “cultura individual”, “subjetiva”. Pense, por exemplo, nas “dificuldades” que cada um de nós temos para lidar com alguns “tipos sociais”. Outro exemplo, se somos “estudantes”, somos obrigados a nos relacionar de alguma forma com outros “tipos sociais” (como o “professor”, o “coordenador de curso”, etc.) e nem sempre essas relações são tão prazerosas como gostaríamos que fossem. Assim, o conflito social é um integrante essencial da sociedade. Conceitos Relevantes MODERNIDADE – É um conceito de “contraste”, isso é, algo que sugere o presente em contraste com algum passado histórico. Por exemplo, para Santo Agostinho, a modernidade do seu século (V d.C.) se caracterizava pela rejeição ao paganismo e inauguração de uma nova era, o Cristianismo. Para nós, a modernidade é o mundo que atualmente vivemos e se contrasta com o século XIX. Há, portanto, nesse conceito, uma ideia de negação e afirmação. MODERNISMO – É um termo da história cultural que é utilizado para identificar os princípios do século XX, período em houve uma grande variedade e inovações estéticas e literárias em relação à tradição realista dos meados do século XIX. Por exemplo, o movimento modernista no Brasil está associado às manifestações artísticas e literárias ocorridas com a Semana de Arte de 1922. MODERNIZAÇÃO – É usualmente entendidocomo as mudanças do processo econômico, político e sociocultural que ocorrem nos países menos desenvolvidos. Esse termo implica uma referência com dois modelos de sociedade: a tradicional (ou também chamadas “rurais” ou “subdesenvolvidas”) e a moderna (“industrial”, “urbana” ou “desenvolvida”). Modernização é, portanto, o processo de mudanças sociais que ocorrem em grande escala seguindo um modelo de sociedade moderna (ou sociedades ocidentais), envolvendo transformações nas principais estruturas econômicas, políticas, familiares, administrativas, religiosas, etc. Geoge Herbert Mead foi um filósofo e psicólogo social. A sua principal obra no campo das ciências sociais é Espírito, Pessoa e Sociedade (publicada postumamente em 1934). Ele é considerado um dos principais representantes do pragmatismo norte-americano. 60 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA PRAGMATISMO - é uma concepção filosófica segunda a qual o ser humano é antes de mais nada um ser prático, um ser de vontade e de ação. O conhecimento humano, o saber, é fruto das ações (práticas) do homem. Nesse aspecto, o intelecto é dado ao homem não apenas para investigar e conhecer as “realidades verdadeiras e profundas”, mas também para possamos nos orientar na realidade em que vivemos. Há muitos filósofos nos Estados Unidos e na Europa (a exemplo do filósofo alemão Friedrich Nietzsche,1844 - 1900) que compartilham certos aspectos do pragmatismo. Esse termo foi criado pelo filósofo americano William James (1842- 1910). Para Geoge Herbert Mead, o social precede a consciência individual, ou seja, a consciência humana (que Mead chama de “espírito”) surge com a sociedade. Para que o indivíduo possa exercer uma ação e tenha consciente dela, é necessário que em primeiro lugar esse indivíduo habite em uma sociedade qualquer. É nesse sentido que o mundo social precede as pessoas, as consciências individuais. A unidade mais básica do social é o “ato” (ação realizada). Um ato social implica duas ou mais pessoas. O fundamento da realidade social é, portanto, a interação entre pessoas. Observe aqui uma diferença importante dessa teoria (como as demais da “ação social”) em relação as chamadas “teorias contratualistas” (representadas por Hobbes e Rousseau – ver tema I, Conteúdo IV). Para os teóricos contratualistas, as pessoas ou indivíduos precedem à sociedade (esta é criada por um “contrato” entre os indivíduos). Por outro lado, para Simmel, Mead e Weber o ser humano é sempre social, desde a sua origem. Assim, pessoas e a sociedade são entidades que acontecem paralelamente. Uma não existe sem a outra. Max Weber Weber é sem dúvida um dos mais importantes pensadores da história das ciências sociais devido a sua capacidade criativa e inovadora de lidar com as questões humanas. Ensinou na Universidade de Heidelberg economia, história e sociologia. Embora não fosse uma pessoa religiosa, ocupou-se grande parte da sua vida em estudar a religião. As suas principais obras: A Ética Protestante e o 61 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA “Espírito” do Capitalismo (1904 e 1905) e Economia e Sociedade (1921). Grande parte da obra weberiana trata da relação entre história e sociologia. Em Economia e Sociedade, Weber argumenta que a sociologia deve formular conceitos específicos. Esses conceitos se caracterizam por generalizar processos sociais que são empiricamente observados. Retornando o exemplo já dado, o “cesarismo” (palavra proveniente de Júlio César) é uma designação genérica para um determinado conduta governamental (despótica, absolutista). Isto distingue a sociologia da análise histórica, a qual está orientada para explicar as ações individuais, as estruturas e personalidades possuidoras de uma significação cultural própria. Analisar a figura de Júlio César é uma tarefa da história. A explicação do fato singular (histórico), assim como a explicação do pensamento de um autor ou de um texto, necessita de uma interpretação compreensiva – uma hermenêutica. Conceitos Relevantes HERMENÊUTICA – É a técnica de interpretação de um texto, de um pensamento, de uma norma. Inicialmente, a hermenêutica significava a arte ou ciência de interpretar as Sagradas Escrituras (como a Bíblia). A partir do século XIX passou a ser utilizada para interpretar personalidades, obras literárias ou épocas históricas. O filósofo alemão Wilhelm Dilthey (1833- 1911) foi o grande teórico do método hermenêutico e exerceu uma grande influência para o pensamento de Weber. Conforme Dilthey (e Weber), a hermenêutica é o método geral de interpretação pelo qual o pesquisador dá sentido aos dados da realidade. Como um método, ela pode ser ensinada, mas exige, sobretudo, uma perspicácia especial do interprete. O método hermenêutico busca a compreensão de uma realidade (um texto, uma época histórica, etc.) em sua relação com seu contexto, ou a compreensão de um autor em relação com sua obra. Atualmente, a hermenêutica tem uma significação filosófica mais ampla e complexa, graça aos trabalhos de filósofos como Martin Heidegger (1889-1976) e Hans Georg 62 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA Gadamer (1900-2002). Para esses autores, a hermenêutica é mais do que um método. É o modo essencial que todos nós temos de compreender as nossas vidas. Mas não vamos agora tratar dessa nova significação de hermenêutica. A Compreensão em Weber A explicação dos fenômenos humanos necessita, primeiramente, de uma compreensão. Compreender não se refere simplesmente à “intuição” ou “empatia” do investigador, mas uma busca sistemática e rigorosa – um procedimento racional – sobre os significados ou sentidos de uma realidade humana. Como um método rigoroso, a compreensão deve: a) identificar o sentido de uma ação humana; b) reconhecer o contexto dessa ação. O conceito de compreensão é essencial nas ciências sociais fundamentadas pelo pensamento weberiano, como veremos no conteúdo próximo. Tendo em vista que a sociologia deve criar instrumentos conceituais específicos que possam ser usados pelos historiadores, é importante entender qual a característica fundamental desses “instrumentos”. Para Weber é o “tipo ideal”. Conceito Relevante TIPO IDEAL – É uma construção analítica (conceitual) que o pesquisador elabora para acentuar alguns traços específicos de um conjunto de fenômenos concretos individuais. Isso é, o tipo ideal é um conceito fundamentado em observações empíricas pelo qual o cientista social apreende os elementos essenciais do mundo social. A formulação de um “tipo ideal” consiste em: a) comparar realidades empíricas semelhantes; b) estabelecer suas divergências e similitudes. Vejamos um exemplo. A história tem apresentado vários exemplos de autoridade. O sociólogo, analisando e comparando as diversidades de formas de autoridades, pode estabelecer alguns “tipos ideias”, como: a) “autoridade tradicional” (aquela que está baseada na crença da existência de normas “santificadas” ou poderes antigos); b) “autoridade carismática” (aquela baseada no poder de personalidades que possuem qualidades extraordinárias, como líderes políticos, grandes estrelas do cinema ou músicos de rock, etc.); c) “burocracia racional” (aquela estabelecida por ações racionais). 63 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA A Ação Social Conforme Weber, a sociologia é o estudo das ações sociais. Açãose diferencia da conduta puramente reativa (ou comportamentos automáticos que implicam processos não pensados, como piscar os olhos quando uma forte luz incide sobre nossas vistas). A ação social supõe processos reflexivos entre a origem do estímulo e a resposta. A ação ocorre quando os indivíduos atribuem significado subjetivo às suas ações. Utilizando-se do conceito de tipo ideal, Weber identificou quatro tipos básicos de ação: a) ações orientadas para fins racionais (aquelas que são utilizadas como “meios” para atingir propósitos racionais, como, por exemplo, se preparar para um exame); b) ações racionais orientadas para valores específicos (ações determinadas pela crença em valores éticos, estéticos, religiosos, etc., como, por exemplo, ir ao cinema para se divertir); c) ações afetivas (determinada pelo estado emocional do indivíduo, como, por exemplo, amar alguém); d) a ação tradicional (determinada pelos modos de comportamento habituais dos indivíduos e por seus costumes). Esses tipos de ações não são excludentes. Qualquer ação dada implica normalmente algumas combinações desses quatro tipos. Partindo da análise das ações, Weber observa que toda sociedade está estratificada sobre a base da classe, do status e do poder. A classe é constituída por grupos humanos que se caracterizam por: a) apresentam um componente causal específico representado exclusivamente por interesses lucrativos e posse de bens; b) esses interesses são determinados pelo mercado (de bens ou de trabalhos). O status está relacionado com os estilos de vida e com a classe. Refere aos componentes das atividades humanas que são determinadas pela estima social, pela ideia de honra. O poder refere-se à ordem, não apenas à ordem política (que diz respeito ao Estado), mas a todas as formas de interação social. Há sempre elementos de poder no convívio social. 64 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA Conforme já observado, uma das principais obras de Weber foi A Ética Protestante e o “Espírito” do Capitalismo. Vamos resumir brevemente esse estudo para melhor exemplificar o tipo de análise sociológica proposta por Weber. Trata-se de um trabalho que relaciona a religião protestante (principalmente o calvinismo) com a emergência da racionalidade capitalista. Não é um estudo sobre a ascensão do capitalismo, mas dá origem da forma de pensar que é peculiar no mundo capitalista. Conforme Weber, tanto o capitalismo como o protestantismo surgem em um mesmo período histórico. O espírito capitalista está fundamentado por um sistema de valores voltado para o êxito econômico. Por outro lado, o calvinismo parte do princípio da “predestinação”, isso é, a salvação é destinada apenas para um pequeno número de pessoas. Embora ninguém saiba do seu destino (se será ou não salvo), o calvinismo acredita na existência de sinais que indicam se uma pessoa se salvará. As pessoas são obrigadas a trabalhar com afinco, porque sendo diligentes podem descobrir a salvação. Uma “medida” das suas diligências é o êxito econômico. Além do mais, o calvinismo requer um autocontrole e um estilo de vida sistematizado, sobretudo para as atividades de negócio. Por exemplo, a existência de vida que não esteja pautada na dissipação e na perda de tempo. Daí a preocupação com a “poupança” e investimentos. Em síntese, a insistência dos calvinistas na atividade mundana intensa terminou por resultar na valoração dos princípios capitalistas. A Teoria Social e a História O reconhecimento do papel das crenças, valores, motivações, aspirações e atitudes nos processos de mudança social, tal como proposto pelos teóricos da “ação social”, foi altamente importante para os estudos históricos contemporâneos. Para os teóricos de orientação positivista e mesmo marxista, os processos históricos eram vistos como autônomos, independente das ações humanas, operando em um nível acima das mentes humanas. Com os teóricos da “ação social”, o foco de atenção da análise se voltou para os agentes e suas ações. Assim, todas as entidades sociais complexas que aparecem ao longo da história (economias, sistemas políticos, organizações sociais) não são mais que produtos acumulados de ações sociais. Nesse sentido, compreender os processos históricos significa rastrear suas raízes nas ações humanas, desvendar seu significado. 65 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA Modernas Teorias da Ação Social. Interacionismo Simbólico e as Ciências Sociais Fenomenológicas Entre as principais correntes atuais da sociologia compreensiva, o Interacionismo Simbólico e, principalmente, a Fenomenologia ocupam lugar de destaque, embora ainda sejam movimentos um tanto desconhecidos no Brasil. Interacionismo Simbólico O Interacionismo Simbólico tem sua origem nos trabalhos dos pragmatistas, principalmente George Herbert Mead. O mais conhecido representante dessa “Escola” é Erving Goffman (1922-1982), autor de A Representação do Eu na Vida Cotidiana e Estigma, entre outros. Os fundamentos do Interacionismo Simbólico podem ser resumidos da seguinte forma: 1) Diferente dos animais inferiores, os seres humanos estão dotados da capacidade de pensamento e essa capacidade está modelada pela interação social. Assim, a mente é formada através de processos de interação nos quais os indivíduos estão envolvidos desde a infância; 2) Na interação social, as pessoas aprendem os significados e os símbolos que lhes permitem exercer sua capacidade de pensar e atuar socialmente; 3) As pessoas modificam ou alteram os significados e símbolos que usam nas suas interações devido a capacidade que possuem de examinar os possíveis cursos de ação e valorizar as vantagens (ou desvantagens) da situação em que se encontram; 4) A ação social é sempre mediada e orientada pelo significado que os sujeitos atribuem à situação em que se encontram. Em síntese, a principal preocupação dos interacionistas simbólicos é com as interações (ou inter-relações) humanas e as relações entre pensamento e ação dos indivíduos. Goffman parte do pressuposto de que quando os indivíduos interagem entre si desejam apresentar uma determinada concepção do seu self (eu) que seja aceitável 66 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA pelos outros. Ou seja, procuram apresentar uma imagem idealizada de si mesmas, muitas vezes ocultando certas coisas enquanto estão atuando. Por exemplo, os professores dedicam algumas horas preparando suas aulas, mas provavelmente quando estão dando aula (interagindo com os alunos) passam uma impressão que conhecia o assunto desde há muito tempo. Outro exemplo: quando conversamos com alguém, muitas vezes calamos sobre determinados assuntos, enfatizamos outros, demonstramos saber (ou não) algo, ocultamos determinadas intenções, revelando certas intenções, etc. Nesse sentido, os indivíduos sempre estão “representando” o seu self. Isso não significa dizer que nas nossas relações do dia a dia estejamos sempre plenamente conscientes das nossas “representações”. Os indivíduos também são conscientes de que os outros podem perturbar sua representação. Para evitar ou controlar as impressões que os outros possam ter sobre nós, empregamos determinadas “técnicas” de relacionamento (ou “arte de manejar impressões”) que são aprendidas socialmente. Exemplo: usualmente sabemos como “despachar” alguém, que no momento está nos “importunando”, de forma “educada”, sem com isso provocar um atrito, um conflito com essa pessoa. Ou seja, sabemos como empregar determinadasnecessários para a compreensão da análise sociológica, com os precursores das ciências sociais e com o surgimento das sociologias sistêmicas. O segundo bloco continua discutindo brevemente esse ramo da sociologia (no caso, o marxismo) e, em seguida, volta-se para uma outra modalidade de se pensar a realidade social: a sociologia compreensiva ou da teoria da ação social. Procuramos ser o mais objetivo e didático possível. No interior de cada um dos blocos e temas apresentamos alguns conceitos relevantes e atividades reflexivas. Pela leitura cuidadosa do texto é possível responder as questões propostas. Mas é importante chamar atenção que o presente texto é apenas uma introdução ao assunto, sendo necessário que o leitor complemente e solidifique seu conhecimento com outras fontes bibliográficas. Bom estudo! UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA BLOCO 1 PRECURSORES E NASCIMENTO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS. O DESENVOLVIMENTO DAS TEORIAS SISTÊMICAS TEMA 1: O CONHECIMENTO CIENTÍFICO E AS PRINCIPAIS CORRENTES DO PENSAMENTO SOCIAL E POLÍTICO QUE INFLUENCIARAM O NASCIMENTO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS Noções Elementares de Filosofia da Ciência ou Epistemologia Epistemologia (ver glossário) é um ramo da filosofia que tem por objetivo principal estudar os pressupostos ou fundamentos do conhecimento científico em geral e de cada ciência em particular. A “filosofia da ciência” (o mesmo que epistemologia) é uma disciplina extremamente ampla, sobre cujos principais temas nem sempre há acordo entre os seus teóricos. A falta de consenso não deve ser motivo de grande preocupação ou tampouco de desistência por parte daqueles que se iniciam nos meandros do conhecimento científico. Basta observar que, apesar dos inúmeros problemas colocados pelos estudiosos da epistemologia, a ciência ocupa um lugar de especial relevância no mundo contemporâneo. Além do mais, não podemos esquecer que as ciências estão continuamente em formação. Certos setores ou limites de uma determinada ciência dão lugar, com o passar do tempo, a ciências novas. Significado da Ciência Os teóricos da ciência (epistemólogos) estudam diversas questões, tais como os diferentes tipos e evolução das teorias científicas, a lógica da linguagem científica e seus aspetos metodológicos, etc. Sem dúvida, o primeiro grande tema da epistemologia é definir que tipo de saber é o científico. Várias respostas têm sido dadas a essa questão e, de uma maneira geral, nenhuma delas é plenamente satisfatória. Definir o que é ciência e compara-la com outras formas de saber e expressão do homem (como o saber vulgar, a filosofia, a arte, a moral, a religião, etc.) é, portanto, uma tarefa difícil. 05 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA Momento de Reflexão Elabore um pequeno texto dando os significados de: filosofia, estética, moral, ética e religião. Para redigir o texto, procure esses termos em um dicionário (de filosofia, principalmente). _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ Usualmente, a ciência é vista como um saber culto ou desinteressado, que é um saber teórico e metódico suscetível de aplicação prática ou técnica. Todas essas respostas nos dão algumas informações sobre o tipo especial do saber científico, mas nenhuma delas é suficiente. Vejamos apenas um exemplo. Ciência é comumente definida como conhecimento metodológico acerca da realidade. Mas será que outras modalidades de conhecimento não têm também seus próprios procedimentos metodológicos? Não haveria também uma metodologia (ver glossário) no conhecimento do senso comum de um cozinheiro que prepara uma determinada refeição? Não vamos, portanto, definir o que seja ciência. Limitamo-nos apenas em apresentar duas características que lhes são essenciais: a) o rigor das suas afirmações; b) a maior eficácia na denominação da realidade que ela propõe estudar. Trata-se de uma delimitação bastante ampla da ciência e não de uma definição propriamente dita. Note que essas duas características são necessárias, mas não exclusivas, ao conhecimento científico. Por outro lado, é também importante chamar atenção que o rigor e eficácia da ciência não lhes dão superioridade em relação às outras formas de conhecimento. Não vamos aqui analisar essa questão, mas simplesmente observar que cada uma das modalidades de saber tem sobre a ciência sua superioridade em outros aspectos. O “mito” de que a ciência é a forma suprema do saber humano é proveniente do positivismo (teoria filosófica desenvolvida por Auguste Comte na primeira metade do século XIX – ver Conteúdo I, Tema II), cuja influência foi 06 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA marcante no Brasil. Agora é hora de trabalhar a) Procure em um bom dicionário a diferença entre “rigor” e “eficácia”. Quando um determinado conhecimento é rigoroso e quando é eficaz? b) Em seguida, procure o significado de ciência e compare com outras modalidades de saber (o conhecimento vulgar ou do senso comum, o filosófico, o artístico e o religioso). c) Até que ponto as características encontradas no conhecimento científico se diferem desses outros? Há uma clara e nítida linha de separação entre essas formas de saber? Diversidade da Ciência Uma outra temática fundamental da epistemologia diz respeito à diversidade das ciências e suas características específicas. Há vários critérios de classificá-las e foram muitos os cientistas e filósofos que se ocuparam dessa tarefa. Para alguns epistemólogos, todas as ciências possuem características comuns. A ideia de uma “unidade da ciência” ou o ideal de uma unificação das ciências é uma preocupação antiga e complexa. Nem todos os defensores da unidade da ciência têm uma noção idêntica acerca desse significado. Atualmente, essa discussão caracteriza-se pela busca de integração e síntese entre as diversas ciências. Tal discussão tem levantado a questão da “multidisciplinaridade” ou “interdisciplinaridade” do conhecimento humano. Esse tema tem sido motivo de amplas discussões e, nos dias atuais, muitas universidades nacionais ou estrangeiras têm procurado incentivar a criação de programas multidisciplinares, principalmente na pós-graduação. Um argumento chave dos adeptos da multidisciplinaridade é o de que a realidade deve ser abordada apelando-se às diversas disciplinas a fim de se obter uma visão mais globalizada (e não departamentalizada) do objeto de estudo. Assim, para multiplicar os ângulos de visão de uma dada realidade, um pesquisador pode se inspirar nas perspectivas de disciplinas vizinhas, utilizando-se dos seus conceitos e análises, tomando emprestada certas técnicas de abordagem. A interdisciplinaridade, por sua vez, pressupõe a existência de um conjunto de 07 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA princípios teórico-metodológicos que são comuns a duas ou mais disciplinas ou ramos do conhecimento. As diferenças entre multidisciplinaridade e interdisciplinaridade são mais teóricas. Na prática, ambas usualmente são tomadas como sinônimos. Diferenças Fundamentais entre as Ciências Naturais e as Ciências Sociais“técnicas” sociais nos nossos relacionamentos. As Sociologias Fenomenológicas As sociologias fenomenológicas guardam algumas semelhanças com o interacionismo simbólico. As principais correntes de sociologia fenomenológica são: a etnometodologia e a sociologia existencial. Todas elas receberam grande influência de Weber. O principal teórico responsável pelo desenvolvimento das sociologias fenomenológicas foi o austríaco Alfred Schutz (1899-1959) que, antes da Segunda Guerra, mudou-se para os Estados Unidos. Schutz é um teórico inovador e sua contribuição para as ciências sociais contemporâneas é notável. Aliou o pensamento sociológico de Weber com a fenomenologia (corrente filosófica cujos representantes 67 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA são Husserl, Heidegger, Merleau-Ponty e Sartre). Os principais seguidores do pensamento de Schutz foram Peter Berger e Thomas Luckmann, autores de um dos livros de sociologia mais lidos atualmente, A Construção Social da Realidade (há tradução desse livro para o português). A obra de Schutz (e seus seguidores) está voltada para compreender o “mundo da vida cotidiana” ou “mundo do senso comum”, isto é, o mundo no qual vivemos diariamente. Conceito Relevante VIDA COTIDIANA – É o conjunto de atividades e conhecimentos do senso comum, das relações sociais, das representações, das crenças, dos afetos, dos objetos com os quais os indivíduos reproduzem no dia a dia as suas condições de existência e, com elas, a das instituições da sociedade em que vivem. É na nossa vida cotidiana que se refletem e se articulam as estruturas, os conflitos, as tensões, as mudanças da ordem social existente e da qual partem todas as ações destinadas a modificá-la. Só recentemente é que as ciências sociais passaram a se preocupar com a vida cotidiana das pessoas. Todos nós temos o nosso próprio mundo, mas existem numerosos elementos comuns a todos. Assim, outras pessoas pertencem ao nosso mundo da vida e nós pertencemos aos mundos da vida de muitos outros. Os indivíduos atuam no mundo sem duvidar da sua realidade, sem ter a todo o momento consciência de estar atuando. Aprendemos desde cedo como atuar com os outros em situações rotineiras ou habituais. No nosso mundo social, nos relacionamos muitas vezes com as outras pessoas – agimos - sem que estejamos a todo momento questionando sobre a veracidade do nosso mundo ou da nossa relação com o outro. Só encontramos dificuldades quando nos deparamos com situações que são novas (ou relativamente novas), nas quais não sabemos exatamente como agir. Por exemplo, todos nós sabemos como nos comportamos diariamente ao jantar (temos os nossos hábitos), mas quando somos convidados para um jantar altamente formal (e se não temos costume de frequentar esse tipo de reunião), sentimos e passamos algumas “dificuldades”. 68 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA Fonte: http://mafalda.dreamers.com Conforme Schutz, a verdadeira realidade social reside justamente no mundo de relações que compartilhamos com os demais. A realidade social é esse mundo que todos nós vivemos dia a dia, que todos nós (bem ou mal) sabemos como lidar. Diferentes dos estruturalistas e marxistas, as sociologias fenomenológicas negam a existência de “estruturas ocultas” (normas, valores, princípios) que determinam as nossas relações cotidianas. Isso não significa dizer que a sociologia fenomenológica negue a existência de normas e valores sociais. Elas existem. Mas elas são geradas – “construídas” – pelas ações e interações entre as pessoas. Sociedade, portanto, é um eterno processo de relações sociais. A Etnometodologia é um ramo da sociologia fenomenológica. Está voltada para estudar os métodos que as pessoas utilizam cotidianamente para viver no mundo social. Assim, os etnometodólogos estudam os procedimentos mais comuns que os sujeitos podem identificar para dar coerência e compreensão aos próprios comportamentos e aos dos outros. A etnometodologia está preocupada principalmente com os micros eventos que tornam possível a interação social e que são assumidos pelos sujeitos como dados óbvios. São os micros eventos, as pequenas tarefas, que constituem a vida cotidiana. O principal teórico da etnometodologia foi Harold Garfinkel. O objetivo da etnometodologia não é exatamente explicar o sentido que os sujeitos atribuem à própria ação, conforme a concepção weberiana de ação social, mas os mecanismos que levam qualquer indivíduo a tomar certos eventos como fatos ou dados, sobre os quais se constroem os significados. A sociologia existencial, por sua vez, preocupa-se com os modos pelos quais as pessoas pensam e atuam, principalmente os sentimentos e emoções que os indivíduos experimentam quando atuam socialmente. Ela está voltada principalmente para o estudo do papel das emoções na vida humana, para a 69 http://mafalda.dreamers.com/ UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA natureza e responsabilidades da liberdade humana e para os aspectos considerados usualmente como irracionais da vida. A influência da filosofia existencialista, principalmente de Sartre, é significativa nesse ramo da sociologia compreensiva. Os principais representantes da filosofia existencial são John Johnson, Jack Douglas e Joseph Kotarba. Momento de Reflexão Com base na leitura do tema 4, estabeleça algumas distinções entre a sociologia sistêmica (positivismo, marxismo, funcionalismo e estruturalismo) e a sociologia compreensiva (Weber, interacionismo simbólico e sociologia fenomenológica). Essas duas vertentes da análise sociológica são necessariamente opostas entre si? Justifique a sua resposta. _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ A História e as Modernas Teorias da Ação Social Uma das grandes contribuições das teorias modernas da ação social para a história foi a de desenvolver a preocupação com o estudo de eventos singulares da vida cotidiana. Com isso, os historiadores passaram a pesquisar cada vez mais temas até então não considerados pela sua ciência, como hábitos alimentares, provérbios, convivência entre vizinhos, os espaços privados, gestos, etc. 70 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA Resumo Esquemático do Bloco II 1.0 A teoria marxista clássica de Marx. O materialismo histórico e o modo de produção capitalista. 2.0 Variedades do marxismo no século XX. 2.1 Lukács, Gramsci, a Escola de Frankfurt e Althusser 3.0 A sociologia compreensiva e as teorias da ação social 3.1 Conceito de ação e interação social 3.2 Simmel e Mead (pragmatismo) 3.3 Max Weber. Compreensão, tipo ideal e ação social Modernas teorias da ação social.O interacionismo simbólico (Goffman) e a sociologia fenomenológica (Schutz). O significado de vida cotidiana. Atividade Complementar 1 Com base no conceito weberiano de tipo ideal, estabeleça os traços que lhe parecem essenciais com relação ao “aristocrata”, à “prostituição feminina”, à “patricinha”. __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ 2 Elabore um texto apresentando os pressupostos que estavam subjacentes em um acontecimento qualquer que você viveu ontem (por exemplo, uma conversa com um amigo, o jantar, uma conversa ao telefone, etc.). _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ 71 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA Glossário AUTONOMIA CIENTÍFICA – Equivale à condição de independência da ciência em relação às outras formas de saber (como a filosofia, a religião, a moral) ou a independência de uma ciência em relação às demais. Costuma-se estabelecer que a condição de autonomia científica existe quando a ciência em questão possui objeto próprio e procedimentos metodológicos específicos. CAPITAL – É a denominação genérica para o conjunto de bens produzidos em determinado momento, principalmente máquinas e equipamentos (meios de produção), que participam da produção de outros bens. Capital também tem o significado de recursos monetários investidos ou disponíveis para investimento CAPITALISMO – Sistema econômico baseado: a) na propriedade privada dos meios de produção; b) na organização produtiva que visa a obtenção do lucro; c) no emprego de trabalho assalariado (ou seja, o indivíduo que só obtém seus meios de subsistência vendendo a própria força de trabalho aos proprietários dos meios de produção). Nesse tipo de sistema, o domínio do capital exerce um papel preponderante. COMPREENSÃO – É a forma de conhecimento peculiar das chamadas ciências humanas, sociais ou culturais (embora essas ciências não dispensem a explicação). Compreensão é uma forma de apreensão que se refere às expressões ou manifestações dos seres humanos, como os gestos, hábitos, linguagem, objetos da cultura. Observe o prefixo latino “com” do termo significando “companhia”, “contiguidade”. O que fundamentalmente se busca no método compreensivo é o significado (o sentido) que o sujeito atribui à própria ação quando se encontra em relação com outros. Wilhelm Dilthey, filósofo alemão do final do século XIX, foi um dos primeiros a discutir o significado de compreensão como um método característico das ciências humanas. Para esse autor, compreender é “conhecer sentidos”, isso porque somente o humano faz sentido para o homem. A compreensão pressupõe, portanto, uma “hermenêutica”, isto é, uma “interpretação”. CULTURA – Há um grande número de definições sobre cultura. Há duas dimensões nesse conceito: a objetiva e a subjetiva. A objetiva refere-se ao patrimônio intelectual e material constituído: a) por valores, normas, linguagens, símbolos, modelos de comportamento de um grupo social; b) pelos meios materiais 72 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA para a produção e reprodução social do homem. A dimensão subjetiva diz respeito ao processo de humanização do homem, a aquisição e o desenvolvimento gradual das faculdades mais elevadas, através da educação, da filosofia, das artes. As ciências sociais lidam mais com a primeira dimensão da cultura (a objetiva) DEMOCRACIA – Essa palavra significa etimologicamente “governo do povo”. Trata-se de uma forma de governo na qual as decisões básicas da política pública são determinadas pela totalidade do povo. Uma definição famosa desse termo foi dada por Abraham Lincoln: “governo do povo, pelo povo e para o povo”. Democracia também designa a doutrina que elabora os valores e os argumentos para legitimar no plano ético e prático tal forma de governo. Embora o conceito seja relativamente claro, na prática torna-se um tanto obscuro devido a diversidade de formas governamentais que são chamadas democráticas. Há um outro aspecto no significado desse termo: a ideia de igualdade. A concepção de que é as decisões políticas básicas são determinadas pela totalidade do povo envolve a noção de que cada indivíduo tem direito de expressar a sua opinião (a ideia de “um homem, um voto”). Uma discussão moderna da ideia de igualdade diz respeito ao significado deste termo: trata-se de igualdade “política” (democracia social) ou “econômica” (democracia econômica”)? Atualmente a forma de democracia mais dominante é a “liberal”. O termo “liberal” aplicado ao sistema de governo implica uma preocupação em proteger a liberdade individual, limitando o poder governamental. DIVISÃO DO TRABALHO – Esse conceito refere-se à diferenciação de atividades no processo produtivo de uma sociedade ou em seus grandes setores (como a agricultura, a indústria, a educação dos filhos, etc.). Quanto mais complexa é a sociedade (como nas “sociedades modernas”), maior é a divisão do trabalho, devido ao fato de que nela existem ramos cada vez mais especializados que são confiados a indivíduos que se ocupam somente de certos aspectos da vida social, em combinação (direta ou indireta) com outras especialidades. EPISTEMOLOGIA – É proveniente de duas palavras gregas: episteme (ciência) e logos (teoria). Parte da filosofia que se ocupa com a teoria do conhecimento científico, isso é, a natureza dos fundamentos do saber científico, de sua validade, limites e condições de produção. Os filósofos anglo-saxônicos tendem a usar a expressão “gnosiologia” como sinônimo de “epistemologia”. Na nossa língua, o termo gnosiologia é usualmente empregado com mais frequência para designar a “teoria do 73 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA conhecimento em geral” e epistemologia para se referir à “teoria do conhecimento científico”. ESTADO – Esse conceito refere-se a três elementos básicos. O primeiro diz respeito a um conjunto de instituições relacionadas com a coerção social (instrumentos de dominação e defesa para manter a estabilidade social). Segundo: essas instituições são geograficamente definidas por um território. Terceiro: o Estado monopoliza a constituição das normas jurídicas dentro do seu território. Nesse aspecto, Estado significa o conjunto dos poderes políticos e administrativos regulados em uma dada nação soberana ou em um território determinado. EXPLICAÇÃO – Esse termo designa o processo exploratório mediante o qual se torna inteligível ou claro o que está ambíguo, envolto ou latente. É pela busca das causas (do “porquê”) de um fenômeno que se torna possível esse processo de assimilação da realidade. Observe o prefixo latino “ex” desse termo, o qual implica um “distanciamento”, um “movimento para fora”, uma “separação”. Toda explicação parte de uma hipótese geral ou uma proposição que tem um caráter de uma lei natural e, em seguida, é deduzida umasérie de proposições que são válidas somente para o caso considerado. Nesse sentido, há uma possibilidade de prognosticar a aparição de fenômenos. A explicação se distingue na “compreensão”, embora essa diferença não seja algo simples. IDEOLOGIA – Há vários significados para esse termo e, consequentemente, é difícil dar uma definição que convenha a todos. De uma maneira geral, ideologia refere-se ao conjunto de valores, crenças, opiniões e atitudes que representam interesses de grupos sociais. Essa palavra foi criada por Destutt de Tracy em 1796 para designar uma disciplina filosófica cujo objetivo era analisar as ideias. Posteriormente esse termo adquiriu um sentido pejorativo, significando “falsa consciência” ou ocultação da realidade social. Usualmente, a palavra ideologia é empregada para designar uma “teoria falsa” (como oposição ao alcançar determinados fins propostos de antemão. Em princípio, método se contrapõe à sorte ou acaso. Uma característica fundamental do método é a de que ele não é um empreendimento individual (mesmo que esteja limitado a certos fins), mas um conjunto de regras que pode ser usado e aplicado por qualquer pessoa. METODOLOGIA – Estudo dos princípios e dos métodos de pesquisa. Uma preocupação básica da metodologia é a de explicitar as principais chaves da 74 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA objetividade e da validade dos saberes construídos. POLÍTICA – Enquanto um ramo das ciências sociais (também conhecido como “politologia”), refere-se ao estudo de questões levantadas pela organização dos seres humanos em sociedade, em particular as questões suscitadas pelo mando de uns homens sobre outros para realizar certos fins comuns. A Ciência Política (às vezes também chamada de sociologia da política) lida com um conjunto de temas, tais como a estrutura e formas de governo, a legitimidade do governo, as fontes do poder, os direitos e deveres dos indivíduos ou do Estado, a natureza e formas da justiça, etc. UTOPIA – Termo utilizado para descrever uma comunidade ideal que está livre de conflitos, na qual incorpora um conjunto de valores que propiciam a satisfação das necessidades humanas. A importância da utopia é a de que ela serve para apresentar e tentar solucionar as tensões de uma sociedade. Uma análise sistemática (e clássica) da utopia foi desenvolvida pelo sociólogo alemão Karl Mannheim em seu livro Ideologia e Utopia (1929). Para esse autor, o pensamento utópico aparece em momentos de insegurança social e quebra da autoridade estabelecida. Reflete os limites de possibilidades estabelecidas por uma sociedade existente. No século XX, uma forma característica de utopia está presente nas concepções socialista e liberalista da sociedade. Uma outra modalidade da utopia contemporânea é a chamada “ecotopia”: a ideia de uma sociedade onde o homem e a natureza vivem em harmonia. 75 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA Referências Bibliográficas BOBBIO, N. Dicionário de Política. Brasília: Ed. UnB, 1995 BONTE, P., IZARD, M. (Dir.) Dicionário Crítico de Sociologia. São Paulo: Ática, 1993. BURGUIÈRE, A. (Org.) Dicionário das Ciências Históricas. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1993. CHATELET, F. (Ed.). Dicionário de Obras Políticas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1993. CORCUFF, P. As novas sociologias. Construções da Realidade Social. São Paulo: EDUSC, 2001. DURKHEIM, E. As Regras do Método Sociológico. São Paulo: Abril Cultural, 1978 (Coleção Os Pensadores) GALLINO, L. (Dir.). Dicionário de Sociologia. São Paulo: Paulus, 2005. GIDDENS, A. Política, Sociologia e Teoria Social: encontros com o pensamento social clássico e contemporâneo. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1998. GIDDENS, A. Em Defesa da Sociologia. São Paulo: Editora UNESP, 2001 MACHADO NETO, A.L., MACHADO NETO, Z. Sociologia Básica. São Paulo: Saraiva, 1978. OUTHWAITE, W. Entendendo a Vida Social. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1985. THINES, G., LEMPEREUR, A. (DIR.) Dicionário Geral de Ciências Humanas. Lisboa: Ed. 70, 1984. WEBER, M. A Ética protestante e o “Espírito” do Capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. 76A epistemologia usualmente identifica três grupos distintos de ciência: a) as ciências lógico-matemáticas; b) as da natureza (como a física, a química, a biologia e a astronomia); c) as humanas, que são, às vezes, também denominadas culturais ou humanísticas (como a sociologia, a história e a antropologia). Vamos nos deter brevemente nesses dois últimos grupos. Ciências Naturais As ciências naturais têm por objeto geral o estudo da natureza ou dos fenômenos do mundo natural. O exemplo mais eminente dessas ciências é a física. Os cientistas que trabalham com os fenômenos naturais partem de um conjunto de pressupostos: a) são acontecimentos reais que se caracterizam por serem “exteriores” ou “independentes” ao espírito, à ideia, à consciência, à vontade, à conduta ou cultura humana; b) são neutros aos valores humanos (por exemplo, para a astronomia o “pôr do sol” não é em si mesmo bonito nem feio); c) ocorrem de forma ordenada no tempo e no espaço; d) se manifestam mediante leis (deterministas ou estatísticas); d) podem ser objeto de experimentação, isso é, podem ser conhecidos mediante a provocação de uma determinada situação, como ocorre em um laboratório de química (é claro que não para todos os fenômenos naturais, como na astronomia); e) são apenas “explicados” (ver significado de explicação no glossário) por métodos (ver glossário) específicos. 08 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA Vejamos um exemplo: Suponhamos que um pedaço de rocha retirada de um penhasco seja objeto de investigação para um geólogo. O que provavelmente faria esse cientista natural? Em primeiro lugar, descreveria detalhadamente esse objeto de acordo com o seu conhecimento e com os recursos tecnológicos disponíveis. Através de experimentos laboratoriais, verificaria, por exemplo, que a rocha é dotada de uma certa dureza, cujas partículas constitutivas (átomos, íons ou moléculas) são compostas de determinados elementos químicos (como sílica, óxidos de chumbo e de potássio) arrumados regularmente. Poderia perguntar em seguida sobre o porquê dessa rocha estar encravada naquele penhasco. Para isso estabeleceria uma longa cadeia causal com o objetivo de entender o processo geológico ocorrido. Explicaria, portanto, o seu objeto. A sua missão estaria cumprida. Enquanto geólogo, não teria sentido perguntar ao “para que” daquela rocha, isso é, a sua finalidade. Que descoberta científica chegaria esse geólogo se partisse do princípio de que aquela é rocha é bonita? Agora é hora de trabalhar 1 – Um determinado noticiário, o locutor nos diz que a previsão do tempo para o cair da tarde será de chuva. Analise quais são as implicações que estão subjacentes a essa afirmação. Discuta na sua análise as características que foram apresentadas sobre o conhecimento das ciências naturais. _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ 2 – Coloco uma pedra para proteger do vento as folhas de papel almaço que estão sobre a minha mesa. Nesse fato, o que seria fenômeno da natureza e fenômeno humano? __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ 09 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ 3 – Agora discuta se é possível compreender uma situação humana que seja bastante estranha a nossa experiência pessoal. Dê exemplos. Analise, de acordo com os pressupostos apresentados sobre as ciências humanas, o que significa compreender a seguinte fato: a antropofagia de algumas tribos indígenas fundamentava-se na crença de que comendo a carne de alguém se adquiria o seu valor e a sua força. _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ Ciências Sociais As ciências humanas, sociais ou culturais são mais recentes. Surgiram no século XIX. Elas têm como objeto de estudo o ser humano e suas atividades sociais e culturais. Podemos resumir as características principais desse objeto nos seguintes itens: a) os fenômenos humanos se dão no tempo e espaço (são condicionados pelo ambiente social); b) são motivados e têm um sentido finalístico; c) são positivo ou negativamente valiosos; c) são compreendidos (e não apenas explicados, como os fatos da natureza). Nesse caso, a explicação sempre segue a compreensão (ver glossário). Devido as características próprias do objeto sociocultural, podemos entender as dificuldades que as ciências sociais enfrentam ao lidar com a objetividade científica. Observe que enquanto o cientista da natureza está destacado de seu objeto, o cientista social é, antes de mais nada, um ser social e como tal é parte do objeto que estuda. Nesse sentido, o cientista social tem sempre uma perspectiva de ver o seu objeto de estudo, um “olhar de viés”, devido ao fato dele ser um sujeito que inevitavelmente sofre as influências do meio em que vive. 10 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA Momento de reflexão Reflita sobre os riscos do comprometimento sociocultural que estão presentes nas investigações dos pesquisadores dos fenômenos humanos. O que seria um conhecimento rigoroso e eficaz nas ciências sociais? _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ É importante salientar que os cientistas sociais estão sempre procurando desenvolver métodos e modalidades de pesquisa que sejam mais adequados para os seus estudos. As diversas modalidades de entrevistas, de questionários, de história de vida, de análise de documentos e de observação são alguns exemplos de técnicas de pesquisa desenvolvidas pelos cientistas sociais. De uma maneira geral, há dois grandes procedimentos metodológicos nas pesquisas socioculturais: a quantitativa e a qualitativa. A primeira caracteriza-se por mensurar de modo preciso o real. Preocupa-se, portanto, em estabelecer medidas (principalmente estatísticas) que possam “quantificar” as observações. As chamadas “pesquisas de opinião”, como as pesquisas eleitorais, utilizam-se de procedimentos quantitativos. As pesquisas qualitativas estão voltadas para apreender e explicitar o sentido da atividade social, isso é, as significações internas dos comportamentos, tais como motivações, representações e valores, que são dificilmente quantificáveis. Agora é hora de trabalharUsualmente se fala que existe oposições entre os métodos quantitativos e qualitativos. Os defensores da quantificação consideram que seus “opositores” desenvolvem um saber “mole”, de pouca validade, sobre a realidade humana. Por sua vez, os defensores do qualitativo criticam seus “adversários” argumentando que estes truncam o real, afastando numerosos aspectos essenciais à compreensão 11 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA dos acontecimentos e situações humanas. Até que ponto esses procedimentos são válidos? Existe superioridade de um método em relação ao outro? Para refletir sobre essas questões pense em dois aspectos importantes: a) A escolha do procedimento mais apto depende do problema específico a ser estudado; b) Para construir suas quantificações, o pesquisador precisa, em primeiro lugar, se afastar de inúmeras convenções estatísticas a fim de obter “conceitos” que possam ser mensuráveis. As Ciências Sociais e a História A história é uma modalidade de saber que já existia entre os antigos gregos. Heródoto e Tucídides foram os primeiros “historiadores” do mundo ocidental. Foram eles que iniciaram a “historiografia”, isso é, relato de fatos passados. Mas a história se constitui como uma ciência propriamente dita a partir do século XIX. Foi nesse século que os historiadores passaram a se preocupar com as questões epistemológicas e os métodos da historiografia, tais como a crítica das fontes, as formas de apresentação e organização do material histórico, a compreensão e explicação dos fatos históricos, etc. São inúmeras as relações entre a história e a sociologia. Basta observar que ambas lidam com a vida social. Para alguns estudiosos, a história fundamenta a compreensão e explicação de todo o comportamento humano. Mas há também diferenças significativas entre essas duas ciências. Vamos identificar brevemente apenas uma delas. A história trata de acontecimentos individuais, particulares, únicos. É uma ciência idiográfica. A sociologia, por outro lado, é uma ciência nomotética, pois lida com generalizações, um conjunto de proposições que expressam “leis”. Vejamos um exemplo. Caio Júlio César é um personagem concreto da história (romana). As suas ações são temas da história. O “cesarismo” (governo despótico), por sua vez, é uma 12 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA generalização que se pode aplicar, de forma mais ou menos adaptada, a determinados acontecimentos relacionados com os sistemas de governo em que o governante se investe de poderes absolutos. O “cesarismo” é tema da sociologia. Um outro exemplo: um pensador nomotético generaliza as revoluções sociais, enquanto um analista idiográfico se fixará principalmente nos fatos específicos que conduziram uma determinada revolução. Conceitos relevantes CIÊNCIAS IDIOGRÁFICAS – Segundo Wilhelm Windelband (1848-1915), famoso filósofo e historiador alemão, as ciências idiográficas são aquelas que descrevem e analisam fatos singulares. É peculiar do tratamento histórico. CIÊNCIAS NOMOTÉTICAS – Segundo esse mesmo autor, referem-se às ciências que tratam de acontecimentos genéricos. Ou seja, são ciências que, na posse de fatos singulares, vão buscar o que há neles de comum, para que assim possam proceder à generalização. As ciências da natureza e a sociologia são exemplos de ciências nomotéticas, embora existam diferenças significativas entre elas. É importante salientar, contudo, que nem todos os cientistas sociais partilham de uma visão idiográfica para caracterizar a história. Muitos teóricos – como os positivistas e grande parte dos marxistas – partiam do princípio de que há um processo “natural” na história humana, isso é, os eventos históricos apresentam padrões e tendências específicas. Somente pela abordagem científica é que se torna possível a descoberta desses padrões. Nesse sentido, a história ser objeto de conhecimento nomotético. Atualmente, tais concepções têm sido amplamente criticadas. Principais Correntes Sociais e Políticas da Antiguidade que Influenciaram o Nascimento das Ciências Naturais As ciências sociais surgiram a partir do século XIX. Foi nesse século que elas passaram a ter autonomia científica (ver glossário), com objeto próprio e metodologia peculiar. Mas essa autonomia não surgiu repentinamente. Os primeiros sociólogos não construíram cientificamente a sua ciência do nada. O 13 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA amadurecimento do espírito científico para lidar com os temas sociais contou com a contribuição de vários pensadores ou filósofos sociais. São os precursores das ciências sociais. Os “precursores” das ciências sociais foram “filósofos sociais” e não “cientistas sociais”. Embora existam estreitas ligações entre a filosofia e as ciências sociais, há algumas diferenças fundamentais. Uma delas é que a ciência trata apenas do que é, como e por que é, e não propor formas ideais de organização e governo que a sociedade deveria ter (preocupação dos filósofos sociais). Além do mais, a filosofia se ocupa usualmente com questões de essências ou natureza de uma realidade, enquanto a ciência limita-se a descrever e interpretar a realidade. Podemos identificar os precursores das ciências sociais desde a antiguidade, como no caso dos sofistas Platão e Aristóteles. Na Idade Média encontramos a figura do bérbere Ibn Kaldun. No Renascimento, autores como Machiavelli, Campanella, Hobbes, Thomas More e muitos outros contribuíram para a formação do pensamento científico dos fenômenos humanos. Os precursores mais imediatos das ciências socais foram os filósofos iluministas. Na presente sessão (conteúdo III), estudaremos apenas os precursores das ciências sociais na antiguidade e no período medieval. A Descoberta do Homem pelos Sofistas O sofisma (palavra que deriva da raiz “sofia”, sabedoria ou “especialista do saber”) foi um movimento filosófico que ocorreu nos séculos V e IV a.C. Seus principais representantes foram Protágoras de Abdera, Górgias e Hípias. Os sofistas operaram uma verdadeira revolução filosófica na Grécia antiga. Os primeiros pensadores gregos (Tales de Mileto, Anaximandro de Mileto, Parmênides, Heráclito, etc.) desenvolveram uma filosofia que tinha por principal objetivo explicar os fundamentos últimos de todas as coisas (“físicas”) que existem. Os sofistas deslocaram esse eixo filosófico para o entendimento da vida humana como membro de uma sociedade. Daí a preocupação pelos aspectos culturais, como a ética, a política, a arte, a língua e a educação. Além do mais, os sofistas visavam objetivos práticos. Havia um compromisso pedagógico entre eles. Eram professores ambulantes que iam de cidade em cidade, ensinando os jovens mediante uma retribuição em dinheiro Protágoras de Abdera (século V a.C.) foi o mais famoso de todos eles. 14 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA Tornou-se conhecido pelo seu célebre axioma de que “o homem é a medida de todas as coisas, daquelas que são por aquilo que são e daquelas que não são por aquilo que não são”. Medida aqui tem o significado de “norma de juízo”; e “todas as coisas” refere-se aos fatos e experiências em geral. Protágoras pretendia negar a existência de um critério absoluto que discrimine o verdadeiro e o falso. O único critério é somente o homem. Com isso, afirmava o princípio do relativismo, destruindo a possibilidade de sealcançar uma “verdade” absoluta. Um outro axioma famoso: “Para quem está com frio, é frio; para quem não está, não é”. Embora tenham manifestado uma notável liberdade de espírito em relação à tradição e às normas vigentes, os sofistas terminaram proclamando através dos seus “discursos demolidores” e céticos a inconsistência das coisas, abandonando o ponto de vista da razão (pensamento) e da verdade. Os filósofos posteriores (Sócrates, Platão e Aristóteles) os criticaram duramente pelo excesso de relativismo. Platão (428/427 – 347 a.C.) Platão nasceu em Atenas, de uma família aristocrática. Seu verdadeiro nome era Aristocles (Platão, seu apelido, significa “o de ombros largos”). Teve uma grande influência de Sócrates e após a morte do seu mestre fundou uma escola em Atenas, que deu o nome de Academia, por estar situada nos jardins dedicados ao herói ateniense Academos. Eram três as principais funções dessa escola: prestar o culto às musas, desenvolver atividades filosóficas e pedagógicas. A Academia platônica teve longa vida. Só foi fechada em 529 d.C., por decreto do imperador Justiniano. Grande parte dos escritos de Platão chegou até os nossos dias. Por essa razão é possível conhecer em maior profundidade a sua filosofia. Os seus trabalhos em política (A República e As Leis) têm uma marcada influência na constituição do pensamento político. (ver no glossário o significado de política). Uma das questões fundamentais pensadas por Platão diz respeito à natureza da “justiça”. Essa questão recebe solução adequada através da análise de 15 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA como nasce (e se corrompe) um Estado perfeito. (ver no glossário o significado de Estado). Para Platão, um Estado nasce porque o indivíduo não é “autárquico”, isso é, não se basta a si mesmo e, portanto, tem necessidade dos serviços de outros. Em primeiro lugar, são imprescindíveis os serviços daqueles que provêm às necessidades materiais dos homens; em segundo, são necessários os serviços daqueles que são responsáveis pela guarda e defesa do Estado; em terceiro lugar, são necessários os serviços dos que governam. Daí a existência de três classes: a) dos lavradores, artesãos e comerciantes; b) dos guardas ou vigilantes ou guerreiros; c) dos governantes ou filósofos. Há uma estreita correlação entre estas classes e as faculdades da alma humana (ou “virtudes”). Para a classe produtora, essa virtude é a temperança (ordem, domínio e disciplina dos prazeres e desejos); a dos guardas é a fortaleza e a dos governantes, a sabedoria e a justiça. A justiça é o equilíbrio ou boas relações que se estabelecem entre os indivíduos e com o Estado, e entre as diferentes classes entre si com a comunidade social. Assim, a justiça é que rege e determina a vida do corpo político (o Estado). Para que a justiça possa ser perfeita, é necessário um Estado perfeito e, para isso, uma educação perfeita. Há três diferentes constituições históricas do Estado: a) a de um só homem que governa (monarquia); b) a que é governado por vários homens ricos (aristocracia); a que é governada pelo povo (democracia - ver significado de democracia no glossário). Quando essas formas de constituição políticas se corrompem e os governantes buscam os seus próprios interesses, surgem: a) a tirania; b) a oligarquia; c) a demagogia. Conforme Platão, quando o Estado é bem governado, a primeira forma de governo (monarquia) é a melhor. Aristóteles (384/383 – 322 a. C.) Aristóteles é considerado por muitos estudiosos como o maior filósofo da história humana. Nasceu em Estagira. Seu pai era médico. Foi preceptor de Alexandre Magno. Fundou em Atenas uma escola que deu o nome de “Liceu”, um centro de pesquisa das mais diversas disciplinas e que, diferente da Academia platônica, teve vida curta. O próprio Aristóteles teve uma preocupação com o conhecimento enciclopédico, escrevendo sobre diferentes temas (física, biologia, psicologia, ciências naturais, ética, filosofia, lógica, retórica, política, etc.). Discípulo 16 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA de Platão, Aristóteles desenvolveu um pensamento filosófico profundamente original, o qual exerce influência até os nossos dias. Aqui iremos apenas resumir a sua contribuição ao pensamento político. Nesse setor, o seu livro fundamental é A Política. Para Aristóteles, a política tem por objetivo estudar a conduta dos homens como parte de uma sociedade (não como indivíduos) e os fins que eles querem atingir. Ou seja, a preocupação da “ciência política” é com o homem enquanto um ser que vive em sociedade, como um “cidadão”. Conforme Aristóteles, cidadão não se refere apenas aquele que vive em uma pólis (Cidade-Estado), mas aquele que participa da administração das coisas públicas, isso é, faz parte das assembleias que legislam e governam as Cidades-Estados e administram a justiça. Consequentemente, qualquer indivíduo que não seja livre (como os escravos) ou que não tenha “tempo livre” necessário para participar da administração das coisas públicas (como os operários) não são cidadãos. O Estado pode ter diferentes formas ou constituições. A constituição é a estrutura que dá ordem ao Estado, estabelecendo a autoridade soberana e funcionamento dos cargos. O poder do soberano pode ser exercido por um só homem (monarquia), por poucos homens (oligarquia) ou pela maior parte dos homens (democracia). Mas essas três formas podem se degenerar se os governantes se deixam arrastar pelo seu interesse pessoal. Aristóteles insiste especialmente nas vantagens do “regime misto” ou “república”, mistura ou combinação das formas puras, por considerar que é o regime de maior estabilidade e segurança. Conceito relevante REPÚBLICA – Sistema de governo em que um ou vários indivíduos eleitos pelo povo exercem o poder supremo de um Estado por tempo determinado. O Estado ideal é aquele que incrementa os valores morais, a justiça e o bom senso entre os homens. Para isso, é necessário que o Estado não seja muito populoso, mas grande 17 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA o bastante para satisfazer as necessidades sem produzir o supérfluo. Idade Média A Idade Média deixou importantes contribuições para o estudo dos fenômenos humanos através de pensadores como Santo Agostinho (354 – 430) e São Tomás de Aquino (1125-1274). Entre os pensadores sociais da Idade Média, cabe destacar o árabe Ibn Kaldun (1332-1406). Ele antecipou, em certos aspectos, a moderna teoria científica (e também geográfica). Para esse filósofo, as formas de vida social são determinadas pelo ambiente geográfico, o qual institui duas formas diferentes e antagônicas de civilização: aquela que é resultante da planície fértil, “habitat” dos sedentários (que constroem cidades, são dados ao luxo e aos prazeres e não possuem uma sólida coesão social) e a resultante do deserto, ambiente da vida nômade, onde os indivíduos são resistentes ao desconforto, são dotados de espíritos belicosos e desenvolvem maior coesão social. O que Ibn Kaldun chamava a atenção era para o fato de que os nossos estilos de vida e pensamento são determinados, em última instância, pelo contexto em que vivemos. Época Moderna e os Precursores Imediatos das ciências Sociais: o Renascimento No final da Idade Média – o Renascimento – as reflexões sobre as questões sociais e políticas foram mais significativas para o desenvolvimento posterior das ciências sociais. 18 UNIVERSIDADE DO ESTADODO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA Conceito Relevante RENASCIMENTO – Caracteriza-se Por ser uma época marcada por grandes transformações e crises (séculos XV e XVI). Trata-se de um período em que se tornou problemática a situação religiosa vivida pelo homem na Idade Média; as nações começavam a constituir-se e assegurar o poder soberano do Estado, sendo objeto de preocupação por todos aqueles interessados pelas questões sociais e políticas. O mundo é ampliado pelos descobrimentos, o crescimento tecnológico é bastante significativo (imprensa, armas de fogo, etc.) e o humanismo se prolifera rapidamente. Era extremada a devoção pelos autores gregos e latinos. O pensamento humanístico no Renascimento é formado por vários pensadores que tiveram intensa preocupação com as questões da política e do Estado, cabendo destacar: Tommaso Campanella (1569-1639), autor de uma utopia de tendência socialista (A Cidade do Sol) inspirada na República de Platão; o holandês Erasmo de Rotterdam (1465-1536), autor dos livros Elogio da Loucura e Manual do Príncipe Cristão; Thomas More (1478-1535) que escreveu A Utopia, um ideal do Estado também de tipo socialista; Thomas Hobbes (1588- 1679), autor de Leviatã e o florentino Nicolau Maquiavel (1469-1527). Thomas More (1478-1535) O inglês Thomas More foi um humanista estudioso do Direito e dedicou-se à teologia e às literaturas grega e latina. No seu livro A Utopia retratou a vida em uma imaginária ilha chamada Utopia (que significa “lugar nenhum” - ver glossário), cujos habitantes acham uma estupidez em não procurar o prazer por todos os meios possíveis. Mas o verdadeiro prazer não está simplesmente na volúpia ou na sensualidade, mas na virtude (a compreensão dos bens e da justiça). Mediante uma descrição de uma sociedade imaginária, Thomas More critica a estrutura social, política e econômica vigente na Inglaterra. Assim, o grande valor do seu livro (A Utopia) está precisamente na crítica subjacente aos regimes políticos da época. Thomas More procura abolir a ideia de 19 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA propriedade individual e absoluta. Por exemplo, os utopianos trocam de casa a cada dez anos; no centro de cada quarteirão das cidades encontra-se um mercado de coisas necessárias à subsistência onde cada pai de família vai buscar gratuitamente tudo o que necessita para os membros da sua família. A organização política é regulada por um regime democrático, com um sistema de eleição que não permite o abuso da autoridade. O Estado não impõe nenhum credo à sociedade e assegura a tolerância religiosa. Maquiavel (1469-1527) Um grande precursor das ciências sociais foi Maquiavel. Ele revolucionou a história das teorias políticas com o seu livro O Príncipe, uma espécie de manual político. Esse livro tem sido objeto de várias controvérsias e tradicionalmente tem sido identificado como um manual de técnicas de despotismo e seu autor, um talentoso oportunista político. Até então, a teoria do Estado e da sociedade estava limitada a especulação filosófica. Platão, Aristóteles, Santo Agostinho e muitos outros teóricos estudaram esses assuntos vinculando-os à moral e buscando formas ideais de organização política e social. Mesmo os contemporâneos de Maquiavel (como Erasmo de Rotterdan ou Thomas More) não fugiram a essa regra. Maquiavel teve uma nítida preocupação tipicamente renascentista de fundar uma “ciência” da sociedade através da defesa do método de investigação empírica. Ou seja, a sua proposta era a de estudar a política pela verdade efetiva dos fatos humanos, sem perder-se em vãs especulações na busca do tipo ideal do Estado. O seu centro de interesse foi o fenômeno do poder formalizado na instituição do Estado. Utilizou-se amplamente da psicologia e da filosofia da história. Mas Maquiavel não foi exatamente um cientista político, conforme a designação moderna do termo. Conforme Maquiavel, a história é constituída por ciclos que se renovam através de revolução em torno de si mesmos. Acreditava, portanto, que quem observar cuidadosamente os fatos do passado pode prever o futuro. O acontecer histórico se complementa com uma compreensão da psicologia humana. Ao estudar os antigos 20 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA governantes e as grandes potências do passado, Maquiavel concluiu que os homens têm os mesmos desejos e paixões. São egoístas e ambiciosos, só recuando da prática do mal quando coagidos pela força da lei. Somente o saber político (que para ele era a arte de bem governar) pode superar as determinações históricas e psicológicas que ameaçam qualquer sociedade. Em síntese, Maquiavel propõe que as personalidades decididas e empreendedoras dos governantes podem interferir na história. É necessário, portanto, que o governante seja dotado de virtù (virtude cívica), isso é, tenha a iniciativa e capacidade de saber o momento exato para desenvolver ações políticas dentro das circunstâncias que lhe são apresentadas. Um bom governante deve estar sempre atento às situações para que possa ficar à frente dos acontecimentos. O seu êxito depende da medida em que souber combinar seu modo de agir com as particularidades do momento. O homem de virtù é, portanto, o inventor do possível em uma situação concreta dada. Nesse sentido, não existe uma ordem ideal para a organização do Estado. A estabilidade política depende de boas leis e instituições e para atingir e manter esse objetivo, o governante deve estar acima de qualquer constrangimento moral. Os fins justificam os meios. Mas também é importante chamar atenção que a energia criadora de uma sociedade não é produto apenas das ações de um político de virtù. O povo deve também participar do governo, isso é, é necessário que haja um nível maior de solidariedade entre os homens e o Estado. Para isso, é fundamental que os homens sejam livres, que se identifiquem com os negócios de seu Estado, pois, com isso, haverá maior reforço à coesão interna. Em uma nação não corrompida, os cidadãos sobrepõem os interesses gerais da sociedade aos particulares. Conceito Relevante MAQUIAVELISMO – Concepção ideológica de uma prática política na qual se afirma que o governante deva ser despojado de toda moralidade aparente para criar e deter as técnicas de dominação sobre uma sociedade. 21 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA Momento de Reflexão Discuta o porquê da obra de Maquiavel ter-se tornado extremamente vulnerável e intolerante. Para isso, procure em um livro de história geral quais foram os principais fatores para o surgimento das modernas nações europeias (França, Inglaterra, Espanha e Portugal). Observe que nesse momento histórico houve uma dessacralização do político e a independência do poder temporal frente a Igreja e a religião. Reflita sobre quem beneficiava a obra de Maquiavel. Em que sentido podemos afirmar que O Príncipe foi uma nítida expressão das mudanças ocorridas no Renascimento? O verdadeiro objetivo de Maquiavel foi ensinar as técnicas de dominação para os governantes ou ensinar o povo quais são os mecanismos do poder político? ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ________________________________________________________________________________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ Thomas Hobbes (1588-1679) Thomas Hobbes foi um outro teórico de fundamental importância para a teoria social. É autor do livro O Leviatã (monstro bíblico). Diferente da maioria dos filósofos políticos (que acreditavam haver no homem uma disposição natural para viver em sociedade), Hobbes partia do princípio que os indivíduos entram em sociedade só quando a preservação da vida está ameaçada. Hobbes é o autor da famosa frase: “o homem é o lobo do homem”. Guiado pela razão, o instinto de conservação do homem procura a paz quando se tem a esperança de obtê-la, pois a vida de cada indivíduo estaria ameaçada se cada qual fizesse tudo o que está em seu poder para 22 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA alcançar a felicidade pessoal. Nesse sentido, os homens são levados a estabelecer contratos entre si. É a teoria contratualista da sociedade. Em outras palavras, o contrato social é a forma pela qual os homens transferem seus direitos a um árbitro imparcial e desinteressado - o Estado - com objetivo de assegurar e conservar as suas vidas. O pacto social é, portanto, artificial e precário. Assim, não é suficiente para assegurar a paz, pois sempre existem pessoas que, a fim de conquistar o poder só para elas podem destruir o pacto social. Para evitar ou minimizar esse perigo, é necessário que cada homem submeta sua própria vontade a vontade de um único homem ou a uma assembleia determinada. Questão de Reflexão 1 – A teoria contratualista de Hobbes (o contrato social é estabelecido entre os membros da sociedade que concordam em renunciar a seu direito a tudo para entregá-lo a um soberano encarregado de promover a paz) é uma forma de ditadura ou de democracia? Justifique? _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ O Iluminismo Os grandes precursores que de modo mais direto influenciaram o aparecimento das ciências sociais foram os filósofos “iluministas” do século XVIII. Em certos aspectos, foram eles os “primeiros cientistas sociais”. Os franceses Charles Montesquieu (1689-1755) e Jean Jacques Rousseau (1712- 1778), por exemplo, produziram ambiciosos e abstratos sistemas de ideias para entender o 23 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA mundo humano, assim como propuseram a aplicação de “métodos científicos”, principalmente retirados da física newtoniana, para as questões sociais. Pensavam que do mesmo modo que o mundo físico é regido por “leis naturais”, o mundo social era também governado pelas suas próprias leis. Mas a preocupação fundamental dos “iluministas” não era apenas de explicar o funcionamento do mundo social, mas criar um mundo mais racional e “melhor”. Para eles, crentes na importância da razão, os valores e instituições tradicionais eram vistos como irracionais e, portanto, opostas à natureza humana, inibindo o crescimento humano. Mas os “iluministas” não deixaram de ser “filósofos sociais”: ocuparam-se em propor formas ideais de organização e governo que uma sociedade deveria ter. Com isso, não se limitaram a uma característica básica da ciência sociológica: tratar apenas do que é uma sociedade, como ela é e por que ela é estruturada de determinada forma. Conceito Relevante ILUMINISMO – Também conhecido como “filosofia das luzes”, designa as tendências intelectuais, políticas e sociais de um período histórico (sobretudo o século XVIII), no qual se caracterizou pelo otimismo no poder da razão e na capacidade humana de reorganizar a sociedade com base em princípios racionais. A razão é vista como uma faculdade que se desenvolve com a experiência e não, como no século XVII, uma capacidade inata do ser humano. Os iluministas viram no conhecimento da natureza e em seu domínio efetivo a tarefa fundamental do homem. Para eles, a história deve ser vista criticamente, pois o passado é usualmente tido como um conjunto de erros que são explicáveis pelo poder insuficiente da razão. Rousseau (1712-1778) Jean-Jacques Rousseau nasceu em Genebra e um dos seus principais livros chama-se O Contrato Social. A raiz da filosofia rousseauniana está na antítese fundamental entre a natureza do homem e os acréscimos da civilização. A natureza humana é essencialmente boa e a civilização é responsável pela degeneração das exigências morais mais profundas da natureza humana. Em outras palavras, a vida do homem primitivo é dotada de livre arbítrio (liberdade de escolha) e sentido de perfeição. É autossuficiente porque constrói sua existência na 24 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA natureza, satisfazendo suas necessidades básicas sem maiores dificuldades. Esse é o fundamento da chamada teoria do bom selvagem. Porém, com o surgimento da propriedade privada, o homem primitivo saiu da “idade de ouro” e ingressou no mundo civilizado. A uniformidade artificial de comportamentos, imposta pela sociedade aos indivíduos, leva-os a ignorar os deveres humanos e as suas necessidades naturais. É importante chamar atenção que Rousseau não está defendendo um primitivismo ou retorno à animalidade. A civilização apresenta algumas vantagens em relação a natureza, como a capacidade de desenvolvimento mais rápido, a ampliação dos horizontes intelectuais e enobrecimento dos sentimentos. O propósito de Rousseau é combater os abusos da civilização. A noção de liberdade é central na sua obra. Liberdade é a qualidade essencial da própria natureza humana, pois todos os homens nascem livres. Mas liberdade não significa “fazer o que quer”. Rousseau não pregava um individualismo. Liberdade deve ser entendida como direito e dever e necessita ser assegurada pela sociedade. A sociedade é resultado de um contrato social, ou seja, uma livre associação de seres humanos que deliberadamente resolvem formar um certo tipo de sociedade, à qual passam a prestar obediência. A concepção rousseauniana é essencialmente democrática. Para ele, toda autoridade e toda soberania devem estar vinculadas com o povo. Momento de Reflexão Estabeleça as diferenças fundamentais entre a teoria de Rousseau e a de Hobbes. _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ 25 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA Iluminismo e História A contribuição dos iluministas para os estudos históricos foi significativa. Até então, a narrativa dos acontecimentospolíticos e militares, apresentada como grandes feitos de grandes homens (chefes, militares e reis) era a forma dominante da historiografia. Foi durante o Iluminismo que ocorreu pela primeira vez uma contestação a esse tipo de narrativa. Os iluministas iniciaram a preocupação com o que eles denominavam “história da sociedade”, uma história que não se limitava a guerras e à política, mas às leis, ao comércio, à moral e aos “costumes” dos povos. Atividade Complementar 1 – Em que aspectos o conhecimento científico da sociedade se difere da filosofia social? __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ 2 – Estabeleça a diferença entre explicar e compreender um acontecimento humano. Exemplifique. _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ 26 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ TEMA 2: O NASCIMENTO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS. AS TEORIAS SISTÊMICAS O Surgimento das Ciências Sociais O Contexto Político e Econômico O conhecimento do mundo sociocultural sempre foi motivo de preocupação humana, mas as ciências sociais, dotadas de plena autonomia científica e com objeto próprio, é um acontecimento recente: data do século XIX. Por que só nesse século é que se deu o aparecimento dessas ciências, principalmente o da sociologia? Para responder essa questão, devemos observar, em primeiro lugar, que os séculos XVIII e XIX foram marcados por grandes transformações sociais e culturais que reconfiguraram profundamente todos os campos intelectuais. Uma larga série de revoluções políticas desencadeadas pela Revolução Francesa de 1789, que se prolongaram no século XIX, constituiu o fator imediato para o aparecimento da sociologia. Foram imensas as consequências dessas revoluções para muitas sociedades provocadas, entre outros aspectos, pela crítica ao governo absolutista e afirmação dos princípios do liberalismo. Na época, os estudiosos dos fenômenos sociais ficaram particularmente preocupados pela ameaça das “desordens” sociais e políticas provocadas por essas revoluções. 27 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA Conceito Relevante LIBERALISMO – O conjunto de concepções que visam assegurar a liberdade dos seres humanos dentro da sociedade. Nas ciências sociais, o liberalismo tem uma conotação político-econômica. Refere-se à concepção que enfatiza a iniciativa individual e a concorrência entre agentes econômicos, sem a interferência governamental, como princípio de organização econômica de uma sociedade. Paralelo a elas, ocorreu também a revolução industrial. Esta última não apenas desenvolveu a tecnologia industrial como também transformou o modo de vida de muitas sociedades. Por exemplo, o mundo ocidental passou de um sistema fundamentalmente agrícola para o industrial; houve grandes êxitos rurais; surgiu a figura do “proletário”; muitas cidades tiveram enormes taxas de crescimento populacional; as transações econômicas passaram cada vez mais a se desenvolver por complexos cálculos racionais; criaram-se imensas burocracias econômicas para proporcionar os múltiplos serviços requeridos pelas organizações fabris. Em suma, a Revolução Industrial instaurou plenamente o sistema econômico capitalista (ver glossário). As consequências das revoluções políticas e industrial foram (e continuam sendo) imensas, proporcionando, inclusive, o desencadeamento de grandes revoltas na sociedade ocidental. Muitas dessas revoltas foram instigadas pelos ideais socialistas. Essas transformações tampouco passaram desapercebidas pelos estudiosos das questões sociais. Havia tanto uma preocupação de se entender as transformações que estavam ocorrendo no mundo quanto o desejo de se encontrar novas bases de ordem para as sociedades perturbadas pelos processos revolucionários. O século XIX foi também para o Brasil uma época de grandes transformações políticas, econômicas e culturais. Nesse século, adquirimos a nossa independência política (deixamos de ser colônia para ser um Estado Nacional); fomos inicialmente regidos por uma Monarquia e terminamos o século sendo uma República; houve a abolição da escravidão; tivemos em muitas cidades, notadamente na capital (Rio de Janeiro), altos índices de crescimento populacional; começou a surgir um pequeno processo de industrialização, etc. 28 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA Questão de Reflexão Os sociólogos desde cedo se ocuparam com a análise das transformações sociais (os estudos sobre as “dinâmicas sociais”), identificando várias formas e tipos de mudanças, tais como “progresso”, “evolução”, “reforma”, “revolução” e “desenvolvimento”. Elabore um texto apresentando as principais diferenças entre esses conceitos. __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ __________________________________________________________________ O século XIX foi também um século que teve grande interesse pela ciência. Os cientistas naturais (como os biólogos, físicos e químicos) eram figuram prestigiosas no mundo universitário e na sociedade em geral e as suas ciências eram tomados como exemplos do verdadeiro modelo científico que devia ser imitado por todos aqueles desejosos de construir um saber rigoroso e eficaz. Assim, muitos estudiosos preocupados em compreender e explicar “cientificamente” as transformações sociais e culturais que ocorriam na sociedade utilizaram-se de procedimentos metodológicos retirados das ciências naturais. Grande parte dos iniciadores da sociologia desejam moldar o seu conhecimento científico pela biologia ou pela física. Por exemplo, Auguste Comte (1798-1857), criador do termo “sociologia”(palavra híbrida proveniente do grego “socius” e do latim “logos”) é considerado por muitos historiadores como o “pai da sociologia”; inicialmente rotulou essa disciplina, em 1822, como “física social”. Só mudou posteriormente de nome porque o belga Quételet havia publicado anteriormente um livro com esse título para se referir ao que atualmente chamamos de “estudos demográficos-estatísticos”. 29 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA O Naturalismo na Sociologia. O Positivismo É possível afirmar que a sociologia teve vários “pais”. Tradicionalmente, Auguste Comte (1798-1857) é apontado como o iniciador da “ciência sociológica”. Comte foi professor de matemática da Escola Politécnica (Paris) e em 1842 publicou, em seis volumes, o seu principal livro, Curso de Filosofia Positiva. Sua doutrina seguiu posteriormente um curso sensivelmente distinto após ter conhecido Clotilde de Vaux. Os fundamentos dessa nova fase do seu pensamento encontram-se no livro Sistema de Política Positiva, publicado, em quatro volumes, no ano de 1851. Além de se preocupar com questões práticas e morais, Comte instituiu nessa obra a “religião positivista da humanidade” que, governada por sociólogos-sacerdotes, deveria oferecer finalmente uma unidade e harmonia de pensamento, sentimentos e ações entre os homens. Muitos seguidores de Comte romperam com ele devido a essa proposta. Como já observado, Comte foi o primeiro a utilizar o termo sociologia. Exerceu uma profunda influência nos teóricos dessa ciência, principalmente em Herbert Spencer e Emile Durkheim (ver mais adiante). Desenvolveu uma teoria ou doutrina conhecida como “positivismo” ou “filosofia positiva”. Conceitos Relevantes POSITIVISMO - doutrina que se caracteriza por: a) admitir que todo conhecimento para ser “positivo” deve se ater exclusivamente aos “dados” ou “fatos” da realidade; b) construir um pensamento cientificista sobre a realidade em oposição à “filosofia tradicional”, como a metafísica (ramo da filosofia que se ocupa em determinar as regras fundamentais do pensamento e em determinar os primeiros princípios e causas primeiras do real); c) buscar as leis invariáveis do mundo natural e do social. Essas leis devem ser obtidas pela investigação empírica e por métodos científicos extraídos das ciências naturais (“unidade das ciências”). Daí o positivismo ser considerado como uma 30 30 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA interpretação “naturalista” dos fenômenos sociais; d) promulgar a neutralidade no conhecimento da realidade. O pensamento científico deve ser neutro aos valores humanos; e) buscar os fundamentos da ordem e do progresso para os fatos humanos. Convém notar que o termo positivista foi empregado por vários filósofos. Além do mais, não podemos considerar o positivismo como um movimento completamente unitário. Mas é importante não confundir uma filosofia que tem traços do positivismo com o positivismo propriamente dito. POLÍTICA POSITIVA – Termo adotado por Comte para designar a ciência sociológica aplicada ao estudo das questões políticas. Os principais propósitos do positivismo de Comte foram; a) estabelecer as ciências, principalmente as sociais, sobre novas bases (para isso procurou fundamentar e classificar as ciências de acordo com os pressupostos do positivismo); b) determinar as estruturas essenciais da sociedade mediante métodos científicos; c) mostrar que a filosofia positivista é a que deveria imperar no futuro (daí a sua preocupação em proceder uma reforma “científica” da sociedade). A concepção de ciência desenvolvida por Comte pode ser resumida da seguinte forma: o conhecimento positivo é um estado ou fase de saber que gradualmente assumiu uma maturidade na mente humana. Há uma hierarquia entre as ciências, formando uma espécie de pirâmide em cuja base encontra-se a matemática e em cujo vértice está a sociologia. Entre essas duas ciências encontram-se, em ordem ascendente, a astronomia, a física, a química e a biologia. Essa hierarquia deve-se a uma escala de especificidade e uma complicação gradual entre os saberes. Pela simplicidade e generalidade de seu objeto, a matemática foi a ciência que em primeiro se desenvolveu o conhecimento positivo. A astronomia já tem maior grau de complicação e é menos genérica do que a matemática. Assim acontece com as demais, até chegarmos a sociologia: a ciência cujo objeto é o mais concreto e apresenta maior grau de complexidade. Ela representa o estado ou fase final do pensamento positivo. 31 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA A Estática e a Dinâmica Social O estudo científico da sociedade (a sociologia) deve se ater a dois aspectos da sociedade: o estudo da “estática social” e da “dinâmica social”. A primeira tem como objetivo investigar as leis que governam as ações e reações das diferentes partes do sistema social (como a família, a economia, a política, etc.). Essas leis devem ser deduzidas das leis da natureza humana. Inspirando-se na biologia, Comte desenvolveu uma teoria sobre as partes (“estruturas”) que compõem uma sociedade, o modo pela qual elas funcionam e suas relações com o conjunto do sistema social (a sociedade como um todo). As partes que compõem a sociedade se relacionam entre si de forma harmônica, garantia da “ordem social”. O estudo da “Dinâmica Social” tem por objetivo investigar as leis dos acontecimentos ou sucessões dos fenômenos sociais. Comte designou “dinâmica social” como o estudo do progresso natural da sociedade humana. Parte do pressuposto de que a sociedade se encontra sempre em processo de mudanças, mas essas mudanças são produzidas de acordo com as leis sociais. Há um processo evolutivo na história através do qual a sociedade progride de modo constante até o seu último destino. As mudanças sociais, portanto, são regidas pelo progresso. Conceito Relevante PROGRESSO – A ideia de progresso, em sua formulação original, está ancorada no modelo de transformação direcional, isso é, na ideia de tempo que flui de modo linear e de um movimento direcional em que cada estágio posterior de um processo está relativamente mais próximo de certo estado-final concebido do que qualquer estágio anterior. Logo, a concepção de progresso é sempre relativa aos valores considerados. Não se trata, portanto, de um conceito objetivo, descritivo, mas de uma categoria de valor. Os valores podem variar enormemente entre pessoas, grupos, classes, nações, etc. O que constitui progresso para alguém pode não o ser para outros. 32 UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA Tendo em vista que o objetivo da sociologia é explicitar leis invariáveis que regem a organização e a transformação da sociedade, a teoria positivista concebe os indivíduos como sujeitos que pouco podem fazer para influir na marcha geral do progresso. As pessoas podem apenas intervir para modificar o ritmo dos acontecimentos, mas não alteram a sua “natureza” ou sua “origem”. Para Comte, a lei da evolução da humanidade se dá mediante três grandes estágios: o teológico, o metafísico e o positivo. É a chamada “lei dos três estágios”, fundamentada na premissa de que a mente humana, a história e todas as modalidades de conhecimento atravessam três estágios básicos. O primeiro é o ponto de partida para os outros estágios. É o momento em que a mente humana supõe que existem “forças”