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UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS 
PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO 
Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA 
 
 
 
 
 
 
 
 
CIÊNCIAS SOCIAIS 
 
 
E 
 
 
HISTÓRIA 
 
 
 
 
 
 
Dr. Deilson do Carmo Trindade 
e-mail: deilson@ifam.edu.br 
 
 
 
 
 
 
 
AUTAZES – AMAZONAS 
08/01 a 16/01 de 2024 
 
 
 
 
 
 
 
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PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO 
Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica PARFOR/UEA 
 
 
 
 
SUMÁRIO 
BLOCO 01 PRECURSORES E NASCIMENTO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS. 
O DESENVOLVIMENTO DAS TEORIAS SISTÊMICAS.............................................05 
TEMA 01: O CONHECIMENTO CIENTÍFICO E AS PRINCIPAIS CORRENTES 
DO PENDAMENTO SOCIAL E POLÍTICO QUE INFLUENCIARAM O 
NASCIMENTO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS............................................................05 
Noções Elementares de Filosofia da Ciência ou Epistemologia.....................05 
Significado da Ciência...........................................................................................05 
Diversidade da Ciência..........................................................................................07 
Diferenças Fundamentais entre as Ciências Naturais e as Ciências 
Sociais............................................................................................................ .......08 
Ciências Naturais...................................................................................................08 
Ciências Sociais.....................................................................................................10 
As Ciências Sociais e a História............................................................................12 
Principais Correntes Sociais e Políticas da Antiguidade que Influenciaram o 
Nascimento das Ciências Naturais.....................................................................13 
A Descoberta do Homem pelos Sofistas................................................................14 
Platão.....................................................................................................................15 
Aristóteles........................................................................................................ .......16 
Idade Média............................................................................................................18 
Thomas More.........................................................................................................19 
Maquiavel...............................................................................................................20 
Thomas Hobbes............................................................................................... ......22 
O Iluminismo...........................................................................................................23 
Rousseau...............................................................................................................24 
TEMA 02: O NASCIMENTO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS. AS TEORIAS 
SISTÊMICAS................................................................................................... ......27 
Surgimento das Ciências Sociais.......................................................................27 
O Contexto Político e Econômico............................................................................27 
O Naturalismo na Sociologia. O Positivismo...........................................................30 
A Estática e a Dinâmica Social...............................................................................32 
 
 
 
 
 
 
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O Positivismo e a História.......................................................................................34 
Realismo Sociológico de Émile Durkheim.........................................................35 
O Fato Social................................................................................................... .......35 
Solidariedade Mecânica e Orgânica.......................................................................38 
Durkheim e a História.............................................................................................40 
Fundamentos do Funcionalismo................................................................................42 
Teoria Sistêmica de Talcott Parsons (1902-1979).....................................................43 
Teorias Sociológicas Estruturalistas...........................................................................44 
BLOCO 2 0 MARXISMO E AS TEORIAS DA AÇÃO SOCIAL 
TEMA 3: MARX E A TRADIÇÃO MARXISTA.....................................................42 
Marxismo Clássico de Karl Marx.........................................................................42 
O Materialismo Histórico.........................................................................................49 
A Estrutura Social............................................................................................... ....51 
Variedades do Marxismo no séc. XX........................................................................53 
Lukács e Gramsci...................................................................................................53 
A Escola de Frankfurt..............................................................................................54 
Althusser........................................................................................................... .....55 
Marxismo e História................................................................................................56 
TEMA 4: AS TEORIAS DA AÇÃO SOCIAL.........................................................58 
As Teorias Clássicas da Ação Social...................................................................58 
Simmel e George Herbert Mead.............................................................................58 
Max Weber.............................................................................................................61 
A Compreensão em Weber....................................................................................63 
A Ação Social..................................................................................................... ....64 
A Teoria Social e a História....................................................................................65 
Modernas Teorias da Ação Social. Interacionismo Simbólico e as Ciências 
Sociais Fenomenológicas...................................................................................66 
Interacinismo Simbólico..........................................................................................66 
As Sociologias Fenomenológicas..........................................................................67 
A História e as Modernas Teorias da Ação Social.................................................70 
Glossário...............................................................................................................72 
Referências Bibliográficas..................................................................................76 
 
 
 
 
 
 
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Apresentação da Disciplina 
 
Caro(a) acadêmico(a), 
 
 
O presente texto tem por objetivo geral apresentar, resumidamente, as 
principais correntes do pensamento sociológico que contribuíram para a história. É, 
portanto, um trabalho eminentemente teórico que exige uma certa reflexão por parte 
do acadêmico. 
O texto está dividido em dois grandes blocos, cada um deles divididos em 
dois temas. O primeiro bloco lida com os conceitos básicos da filosofia das 
ciências,ou “seres sobrenaturais” (deuses, diabos ou outras 
entidades espirituais) que regulam os fenômenos. Comte inclui nessa fase, o 
fetichismo (adoração ou culto de objetos materiais considerados como a 
encarnação de um espírito), o politeísmo (crença na existência de vários deuses) 
e o monoteísmo (crença em um só deus, como nas religiões católica, muçulmana ou 
hebraica). O segundo estágio – teológico – caracteriza-se por ser transitório entre o 
primeiro e o último estágio, o positivo. Nessa fase, os “seres sobrenaturais” são 
substituídos por “forças abstratas”. Por exemplo, afirmar a força misteriosa da 
“natureza” de alguma coisa com objetivo de explicar as causas originais e os 
propósitos dos fenômenos do mundo ou afirmar que um evento aconteceu por que 
foi a “vontade da pessoa”. No estágio final e mais importante (e desejável para 
qualquer indivíduo ou sociedade) - o positivo – as pessoas abandonam a busca 
infrutífera das causas originais ou “essências”, isso é, as ideias não- científicas, para 
buscar as leis naturais e invariáveis que governam todos os fenômenos. 
Fiéis aos princípios do positivismo comtiano, muitos dos diversos cientistas 
sociais buscaram os fundamentos científicos da sociedade. Inúmeras foram as 
tentativas de reduzir a sociologia – de forma implícita ou não - ao “imperialismo 
metodológico” das ciências naturais. Para alguns sociólogos do século XIX, a 
sociologia deveria ser o capítulo final de um estudo da física, da biologia, da 
geografia física ou mesmo da psicologia. Exemplos significativos são as “teorias 
racistas” em que um fenômeno natural – cor da pele – é tomado como um fenômeno 
social ou cultural. 
Entre os grandes sociólogos positivistas cabe destacar o inglês Herbert 
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Spencer (1820 - 1903). A principal preocupação de Spencer foi enunciar um 
conjunto de ideias que constituem a sua teoria geral da evolução. Empregando os 
métodos da história comparada e influenciado pelas teorias do organicismo 
biológico (segundo as quais a vida resulta da composição e coordenação das 
funções particulares dos órgãos que compõem o ser vivo), Spencer acreditava que 
todos os fenômenos – naturais ou sociais – que passam por um processo evolutivo 
partem de uma estrutura homogênea para alcançar uma heterogênea. Assim, as 
sociedades simples ou “primitivas” (que se caracterizam por serem relativamente 
homogêneas, não-civilizadas, com pouca divisão de trabalho - ver glossário - e 
cujas organizações políticas são constituídas pelos sentimentos da comunidade) 
podem evoluir para as que possuem organizações mais compostas (complexas, 
civilizadas e industrializadas, com mais alto grau de heterogeneidade). 
 
O Positivismo e a História 
Importantes contribuições do Positivismo para os estudos históricos foram a 
ênfase dada nas fontes dos arquivos, a profissionalização do historiador e a 
preocupação de sistematizar compêndios sobre o método histórico. Os historiadores 
que foram influenciados pelo modelo positivista concentraram-se, fundamentalmente, 
na história dos eventos políticos. Além do mais, a orientação positivista tende a 
desprezar os acontecimentos particulares e as biografias. Comte, por exemplo, 
criticava o estudo dos “insignificantes detalhes produzidos pela curiosidade irracional 
de compiladores cegos de anedotas inúteis”, propondo uma “história sem nomes”. 
A historiografia proposta pelo modelo positivista enfatiza o que Comte chamou de “leis 
de sucessão” (a razão por que os acontecimentos históricos estão relacionados 
entre si e essas correlações são expressas sob forma de leis). Para o positivismo, 
os fatos históricos são necessariamente produtos de causas antecedentes. A 
“historiografia positivista” tem uma preocupação em apresentar acontecimentos 
do passado como uma contínua evolução, como um aperfeiçoamento e 
melhoramento de processos sociais (ideia de progresso). 
 
 
 
 
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Realismo Sociológico de Émile Durkheim 
Dentro da linhagem positivista, o filósofo e sociólogo francês Émile 
Durkheim é um clássico para as ciências sociais. Suas obras são até hoje lidas e 
servem como referência importante para muitos teóricos das ciências sociais. Foi 
professor da Sorbonne e o primeiro professor da cadeira de sociologia nessa 
instituição. Através da revista por ele 
coordenada, L’Année Sociologique, fundada 
em 1898, influenciou muitas áreas do 
conhecimento social, como a antropologia, a 
história e a linguística. Em 1893 publicou sua tese 
de doutoramento, A Divisão Social do Trabalho; 
em 1895, seu principal trabalho metodológico, 
As Regras do Método Sociológico. Logo em 
seguida, em 1897, aplicou a sua metodologia no 
seu livro O Suicídio, uma das pesquisas mais 
importante na história da sociologia. A sua obra mais famosa é As Formas 
Elementares da Vida Religiosa (1912). 
Durkheim é considerado como o fundador da “Escola Objetiva Francesa”, 
a qual congregava um conjunto de cientistas sociais que participavam da revista Année 
Sociologique, por ele fundada. O seu pensamento é usualmente classificado como 
“realismo sociológico”, devido a sua concepção de tratar os fenômenos humanos 
como dotados de uma realidade específica. Durkheim também é um dos principais 
representantes da “sociologia sistêmica”, na qual há uma grande ênfase na análise dos 
desempenhos de sujeitos individuais ou coletivos que interagem mediante 
comportamentos específicos (econômicos, políticos, religiosos, etc.) previstos por 
normas reguladoras. A ideia de sistema social é norteadora nesse tipo de análise 
sociológica (veremos mais detalhes no conteúdo seguinte). 
 
O Fato Social 
O desenvolvimento e uso do conceito de “fato social” constituem o núcleo da 
sociologia de Durkheim. Para ele, a sociologia é o estudo dos fatos sociais, os quais 
devem ser tratados como coisas, embora sejam “coisas sui generis” (peculiar, um tipo 
particular de ser). Como coisas, os fatos sociais devem ser estudados empiricamente 
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e não filosoficamente. Esse conceito foi criado para sustentar a autonomia científica 
da sociologia (ver glossário), dotando-a de um objeto claro e particular. Para 
Durkheim, qualquer fato social deve ser explicado apenas por outros fatos sociais e 
não por referência a fenômenos naturais, religiosos, psicológicos ou sobrenaturais. 
Um exemplo é o seu estudo sobre o suicídio. Embora não deixe de ser um ato 
voluntário (e, portanto, de ordem psicológica), o suicídio é analisado por Durkheim 
como um fenômeno social que está ligado ao estado de coesão da sociedade. Ou 
seja, a taxa de suicídio de uma sociedade depende do grau de solidariedade 
existente entre os indivíduos. Assim, quanto menos forte for a coesão social, mais 
elevada deverá ser a taxa de suicídio. 
Os fatos sociais referem-se às estruturas sociais, assim como as normas e os 
valores culturais de uma sociedade. Em outras palavras, são as maneiras coletivas de 
atuar, de fazer, de pensar e de sentir que são impostas coercitivamente aos 
indivíduos. Além do mais, são gerais em toda uma sociedade. Nesse sentido, eles se 
caracterizam por: a) serem dados externos às mentes dos indivíduos (não podem ser, 
portanto, concebidos mediante uma atividade puramente mental); b) serem coercitivos 
para os atores sociais. Por serem externos e coercitivos, os fatos sociais se diferem dos 
“fatos psicológicos” (que são internos e herdados). 
Partindo do conceito de fato social, Durkheim definiu asociedade como uma 
síntese (e não uma soma) de consciências individuais. Para refletir sobre a 
diferença entre “soma” e “síntese” – um conceito retirado da química – pense na 
composição da água. A água é formada por dois gases (oxigênio e hidrogênio) que, 
unidos por uma determinada forma, gera uma realidade nova, um líquido. Assim, a 
síntese das consciências individuais (realidades psicológicas) formaria uma nova “coisa”, a 
sociedade. 
 
Questão de Reflexão 
Até que ponto a concepção da sociedade como “síntese de consciências 
individuais” deve ser mantida? Qual o risco que essa concepção traz para se 
pensar no papel e importância do indivíduo? Como explicar, por exemplo, a existência 
do “conflito”, do “bandido” ou do “revolucionário”? Para discutir essas questões, leve 
em devida consideração os seguintes aspectos: 
a) na imagem da síntese química (como a da água), os gases desaparecem para a 
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formação desse líquido; 
b) porém, para se manter a individualidade, é necessário que exista previamente 
uma realidade comum da qual o indivíduo se “aparta”. 
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Para Durkheim, os fatos sociais podem ser materiais e imateriais. Os 
materiais são entidades reais, como a arquitetura ou a divisão social do trabalho (que 
indica as tarefas ou responsabilidades que são especializadas entre os indivíduos). 
Esse último conceito é muito importante na sociologia durkheimiana devido as 
enormes implicações para a estrutura da sociedade. 
 
Conceito Relevante 
ESTRUTURA SOCIAL – É um dos conceitos centrais nas ciências sociais, embora 
tenha muitas significações. De uma maneira geral, esse conceito refere-se à rede de 
relações de interdependência relativamente estáveis que existem entre um 
determinado conjunto social, como nos grupos sociais, nas instituições, nas classes, 
etc. Trata-se de um conceito que está ligado à ideia de sistema. Sistema é um 
conjunto de elementos relacionados entre si e organizados de tal modo que cada 
elemento é função de algum outro. Assim, a mudança em um desses elementos 
implica na alteração de outros e, consequentemente, do sistema como um todo. A 
estrutura é a forma ou padrão pela qual os elementos estão organizados em um 
sistema. 
 
 
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Solidariedade mecânica e Orgânica 
Durkheim concebeu dois grandes tipos de sociedade: as primitivas 
(caracterizadas pela solidariedade mecânica) e as complexas (dotadas de 
solidariedade orgânica). As sociedades primitivas se caracterizam por apresentar 
uma estrutura social indiferenciada, com pouca divisão do trabalho. Nelas, os 
indivíduos tendem a fazer as mesmas coisas e, consequentemente, há poucas 
diferenças entre eles. Nas sociedades regidas pela solidariedade orgânica, onde a 
divisão do trabalho é complexa, o que mantém unidos os indivíduos é justamente a 
diferença entre eles, devido ao fato de terem diferentes tarefas e responsabilidades. 
Ou seja, na proporção que a sociedade evolui (torna-se moderna), as pessoas 
desenvolvem um maior número de tarefas relativamente pequenas e, 
consequentemente, passam a depender mais um dos outros para garantir a sua 
sobrevivência. 
 
Conceitos Relevantes 
SOLIDARIEDADE – Refere-se a laços recíprocos de pessoas. Mais especificamente, 
diz respeito aos vínculos e relações de responsabilidade que as pessoas 
estabelecem para a manutenção de um grupo social ou de uma sociedade. Ou 
seja, a capacidade dos membros de uma coletividade de agir, junto com outros, como 
um sujeito unitário. O interesse de Durkheim em abordar a questão da solidariedade 
era para descobrir o que mantém unida uma sociedade. 
SOLIDARIEDADE MECÂNICA – Base das sociedades primitivas que se 
caracterizam por apresentar pouca divisão do trabalho. São sociedades fundadas 
na semelhança de tarefas desenvolvidas entre os indivíduos. Nessas sociedades, os 
indivíduos parecem que estão presos uns aos outros como uma peça numa 
engrenagem mecânica e tendem a desenvolver pensamentos e sentimentos 
semelhantes. A união entre as pessoas se deve a que todos estão implicados na 
realização de atividades parecidas e responsabilidades semelhantes. 
SOLIDARIEDADE ORGÂNICA – Base das sociedades complexas, cuja organização 
social está fundada por uma divisão do trabalho complexa e minuciosa. Nessas 
sociedades, a sobrevivência do indivíduo depende das tarefas desenvolvidas por 
numerosos outros, assim como os órgãos que compõem um determinado 
organismo vivo. A união das pessoas se deve à maior interdependência entre elas. 
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Questão de Reflexão 
1 - A sociologia tem tradicionalmente tentado estabelecer uma tipologia para 
classificar as sociedades. Durkheim, por exemplo, concebeu um critério distintivo 
baseado na maior ou menor divisão do trabalho na sociedade. O sociólogo alemão 
Ferdinand Tönnies (1855-1936), por sua vez, distinguiu “comunidade” de 
“sociedade”. “Comunidade” é uma forma de convivência mais antiga e mais rural. 
Caracteriza-se pelo predomínio do grupal, da “vontade comum”, dos interesses 
coletivos e da tradição. Na “sociedade”, por sua vez, há o predomínio da vontade 
individual (os membros são fortemente individualistas), as ações de cada indivíduo 
são orientadas pela opinião pública, por “modas e novidades”. A solidariedade gira 
em torno do intercâmbio de mercadorias e serviços e há o predomínio da 
propriedade privada. Com base nas classificações propostas por Durkheim e 
Tönnies, tente identificar e caracterizar alguns grupos sociais “rurais” ou 
“tradicionais” sobre os quais você tenha razoável informação e compare com a 
nossa sociedade moderna e urbanizada em que vive. 
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2 - Analise a extensão da divisão social do trabalho que foi necessária para que 
você tenha um jantar em um restaurante. 
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Os fatos sociais imateriais são as normas, valores e representações 
coletivas ou, em termos mais gerais, a cultura (ver glossário). Durkheim analisou 
os problemas da moralidade comum da sociedade de diferentes maneiras e 
mediante diversos conceitos. Um desses conceitos foi o de “consciência coletiva”. 
Diferente das consciências particulares dos indivíduos, a consciência coletiva é o 
conjunto de crenças e sentimentos comuns a todos os membros de uma mesma 
sociedade. Contudo, cabe observar a consciência coletiva é menos importante nas 
sociedades com solidariedade orgânica do que nas de solidariedade mecânica. 
Um outro importante conceito é o de “representação coletiva”. As representações 
coletivas referem-se às formas, normas e valores pelos quais os indivíduos 
coletivamente apreendem uma dada realidade. 
Nos últimos anos, Durkheim se interessou pela religião, desenvolvendo um 
extenso estudo sobre a religião primitiva. Para ele, as raízes da religião se 
encontram na estrutura social da sociedade. É a sociedade que define certas 
coisas como sagradas e outras como profanas. 
Durkheim sempre se preocupou com as reformas sociais, mas se opôs a 
revolução social. Era um reformador e acreditava que os problemas da sociedade 
moderna eram de ordem “patológica”, de índole moral e, portanto, deviam ser 
remediadas. Para aliviar as tensões provocadas pelas “patologias sociais”, 
Durkheim propôs várias reformas, como o desenvolvimento de associações 
profissionais e mudanças na moralidade coletiva. 
 
Durkheim e a História 
A sociologia durkheimiana, por sua vez, exerceu uma influência considerável na 
história contemporânea. O conceito de “representações coletivas” tem sido 
amplamente utilizado pelos estudiosos da chamada “história das mentalidades 
coletivas”, representada por muitos dos historiadores ligados à “escola dos 
Annales”. A “escola dos Annales” é o nome que usualmente se tem dado à nova 
história” produzida por um pequeno grupo associado à revista Annales, criada na 
França em 1929. O núcleo central do grupo é formado por Lucien Febvre, Marc Bloch, 
Fernand Braudel e Georges Duby. 
 
 
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As Sociologias Sistêmicas e a Tradição Durkheimiana. Funcionalismo e 
Estruturalismo 
O século XX foi o período em que as ciências sociais adquiriram a sua 
plena maturidade intelectual. Isso não significa dizer que não há mais espaço para o 
crescimento dessas ciências. Muito pelo contrário. As ciências sociais têm 
continuamente ampliado o seu terreno, constituindo novos tipos e integrações 
teóricas e metodológicas. Os cientistas sociais têm procurado novos objetos de 
estudo, tornando suas reflexões mais complexas, sem desprezar os grandes 
paradigmas dos “clássicos”, principalmente aqueles formulados por Marx, Durkheim 
e Weber. 
No complexo panorama moderno das ciências sociais, é possível identificar, a 
grosso modo, as seguintes “escolas”: o funcionalismo, as teorias marxistas, as teorias 
estruturalistas e neoestruturalistas, o interacionismo simbólico e as ciências 
sociais de base fenomenológica. Contudo, é importante chamar a atenção que essas 
“escolas” não esgotam as diversas tendências das ciências sociais. As “escolas” 
mencionadas são apenas as mais importantes e paradigmáticas do século XX. A 
partir da década de 1960, novas orientações têm surgido, algumas delas se 
caracterizam pelos “desdobramentos” apresentados por esses modelos (como as 
chamadas teorias “neofuncionalistas”, “pós- estruturalistas”, “neomarxistas”, etc.) 
outras desenvolvem reflexões teórico-metodológicas que não cabem em rótulos 
simplificadores. Além do mais, há uma forte tendência atual pela 
“multidisciplinaridade” ou a “interdisciplinaridade” entre as ciências sociais. Essa 
tendência levanta questões importantes e complexas a nível teórico e metodológico. 
Como já observado, um dos principais ramos de análise nas ciências 
sociais foi traçado por Durkheim, representante da “sociologia sistêmica”. Como o 
nome indica, trata- se de uma modalidade de análise que está voltada basicamente 
para o estudo do “sistema social”, isso é, para entendimento das tramas das 
relações relativamente estáveis, independentes da identidade dos indivíduos. 
Nessa concepção, a sociedade é usualmente concebida como uma totalidade, 
composta por um conjunto de normas, princípios e valores, que são estabelecidas 
independentes da consciência do indivíduo. O funcionalismo, o estruturalismo e o 
marxismo são exemplos de análises sistêmicas da sociedade. As duas primeiras 
serão objeto de estudo do presente capítulo. 
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Fundamentos do Funcionalismo 
Entre as décadas de 1930 e 1960, o funcionalismo foi a teoria dominante nas 
ciências sociais. Nos fins do século XX, perdeu muito da sua importância, mas não 
desapareceu. Atualmente, está sendo revivido por uma geração de novos sociólogos, 
como os americanos Paul Colomy e Jeffrey Alexander, conhecidos como 
“neofuncionalistas”. 
A teoria funcionalista é usualmente designada como “teoria do consenso”, 
pois enfatiza a existência de normas e valores comuns como fundamentais para a 
manutenção (ordem) de uma sociedade. A “teoria do consenso” se contrapõe as 
“teorias do conflito”, exemplificada pelo marxismo e por Simmel, entre outros. Estas 
pressupõem que a ordem social está baseada na manipulação e controle dos grupos 
dominantes e que as mudanças sociais se produzem à medida que os grupos 
subordinados vencem os grupos dominantes. Auguste Comte, Herbert Spencer e 
Emile Durkheim foram os sociólogos que mais influenciaram o funcionalismo. 
Todos eles partem do pressuposto de que a sociedade apresenta 
analogias com o “organismo biológico”, isso é, tem uma estrutura “orgânica” ou 
“sistêmica”. Isso significa dizer que a sociedade é concebida como um conjunto 
composto de elementos que interagem entre si para a manutenção e equilíbrio 
de um todo (a sociedade). Os componentes do sistema – ou “organismo social” – 
contribuem positivamente para o funcionamento da sociedade. 
O funcionalismo adota uma perspectiva de equilíbrio entre os componentes 
do sistema social. A principal preocupação dessa “escola” é com a “ordem 
normativa social”. Os funcionalistas não ignoram ou negam as mudanças sociais 
(não são necessariamente “conservadores políticos”). Analisam as mudanças 
como resultante dos desequilíbrios dos elementos que compõem o conjunto do 
sistema social. Assim, quando o conjunto do sistema experimenta uma mudança é 
porque ocorre uma mudança em um ou mais dos elementos componentes do 
sistema. 
 
Conceito Relevante 
FUNÇÃO SOCIAL - Uma palavra chave para a teoria funcionalista. Para essa “escola”, 
função se refere ao fato de que: a) cada unidade constitutiva de um conjunto tem um 
papel importante e indispensáveis para a sustentação de um todo integrado 
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(sociedade); b) as unidades são interdependentes entre si (estão ligadas por uma 
rede de relações). 
Uma das principais preocupações dos funcionalistas é analisar o que um 
sistema social requer para sobreviver. Em outras palavras, o que eles procuram 
explicar são os pré-requisitos funcionais de um fenômeno social. Alguns desses 
pré-requisitos são: características demográficas da sociedade; os agentes de 
controle social que podem recorrer à força para enfrentar os conflitos; os métodos 
pelos quais a sociedade extrai do seu contorno o que é necessário a sua 
sobrevivência (alimentos,energia, matérias primas, etc.); métodos que regulem a 
relação entre os sexos; a disposição adequada de papéis sociais e mecanismos 
que asseguram às pessoas esses papéis; um sistema de comunicação adequada, 
etc. 
 
Teoria Sistêmica de Talcott Parsons (1902-1979) 
O cientista social americano Talcott Parsons foi o grande teórico do funcionalismo. 
A sua teoria é conhecida como “funcionalismo estrutural”. Para Parsons, o sistema social 
consiste em uma pluralidade de atores individuais que interagem entre si em uma dada 
situação que tem, ao menos, um aspecto físico ou 
de meio-ambiente, onde são motivados por uma 
tendência a “obter gratificações” e cujas relações 
com sua situação está mediada e definida por um 
sistema cultural estruturado. Assim, o sistema social 
está subdividido em quatro grandes elementos 
ou subsistemas de ação interligados entre si. O 
primeiro é o “orgânico” (as relações que os atores 
sociais têm com o seu meio-ambiente; as fontes 
de energia que os atores extraem para a 
sustentação do seu organismo biológico). 
O segundo, o subsistema da personalidade (caracterizado pela orientação e 
motivação das ações desenvolvidas pelos atores individuais). O terceiro, o subsistema 
social, o qual é composto pelos status e papéis desempenhados pelos indivíduos. 
Status se refere à posição estrutural que o ator ocupa no seio da sociedade, e papel 
o que faz o ator nessa posição. O último subsistema é o cultural. E ele a principal 
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força que liga os outros três elementos do mundo social. São as normas, valores, 
padrões de comportamento, os acervos de conhecimento e ideias que existem em 
uma sociedade. 
Uma das principais críticas à teoria parsoniana (e das sociologias sistêmicas, 
como um todo) é a de que ela está alicerçada no princípio da anterioridade da sociedade 
em relação ao indivíduo. Ou seja, ao buscar a sobrevivência e a estabilidade dos 
sistemas sociais, Parsons: a) limitou a atuação dos indivíduos, reduzindo suas 
capacidades de crítica de agente transformador do mundo social; b) deu pouca 
ênfase ao conflito social (para Parsons, conflito é um desvio, um distúrbio passível de 
controle, dada a preeminência da cooperação e do consenso que garantem a ordem 
social); c) enfatizou demasiadamente os aspectos abstratos e genéricos da 
sociedade (análise macroteórica) em detrimento das microinterações da vida 
cotidiana. Parsons tende a pressupor que os indivíduos meramente respondem a 
forças superiores a eles, ignorando que as sociedades e grupos humanos são 
compostos por indivíduos que desenvolvem o seu “eu”, que interpretam a ação dos 
outros e que não agem necessariamente em conjunto com um mesmo objetivo. Os 
neofuncionalistas retomam criticamente aspectos da teoria parsoniana e incorporam 
elementos de perspectivas sociológicas que enfatizam as temáticas do conflito social. 
 
Teorias Sociológicas Estruturalistas 
Dentre as teorias sociológicas estruturais, a mais importante delas é o 
estruturalismo. Existem marcadas diferenças entre os autores que compõem essa 
“escola”, mas todos eles manifestam uma preocupação em analisar as estruturas 
sociais. Em termos gerais, o estruturalismo procura as leis universais e invariantes da 
humanidade que operam em todos os níveis da vida humana. A raiz sociológica dessa 
teoria encontra-se nos últimos trabalhos de Durkheim e nos estudos linguísticos de 
Ferdinand de Saussure (1857-1913). 
A distinção que Saussure estabeleceu entre langue (língua) e parole (fala) 
é particularmente importante para as teorias estruturalistas. Langue constitui o 
sistema formal gramatical de uma língua ou estruturas fundamentais de uma 
língua. Exemplo: as leis gramaticais da língua portuguesa compõem o que Saussure 
chama de langue. Parole (fala), por outro lado, é o modo pelo qual as pessoas usam 
a língua para se expressar. Quando cada um de nós falamos com outros, estamos 
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utilizando determinadas estruturas gramaticais sem que tenhamos consciência disso. 
Para Saussure, o estudo científico deve se concentrar na análise da langue, desde 
que a parole é uma questão de ordem individual, subjetiva. 
Para as ciências sociais, a obra mais importante no estruturalismo foi 
realizada pelo antropólogo francês Claude Lévi-Strauss (nascido em 1908). Ele 
iniciou sua carreira ensinando na Universidade de São Paulo. Lévi-Strauss analisou 
várias sociedades tribais e sistemas de parentesco de um modo parecido com que 
Saussure fez com os dados linguísticos. A conclusão de Lévi-Strauss é a de que as 
verdadeiras estruturas fundamentais da sociedade são as estruturas da mente 
humana. Em todo o mundo, os produtos humanos têm uma fonte básica idêntica: o 
sistema mental. Mas esse sistema não é produto de um processo consciente. 
Mais recentemente, os estudos estruturalistas 
adquiriram novas dimensões com os trabalhos dos 
“pós-estruturalistas” (ou “neoestruturalistas”). O filósofo e 
cientista social francês Michel Foucault (1926-1984) é a 
figura mais representativa dessa corrente. A sua 
produção é imensa e tem despertado cada vez mais 
interesse pelos historiadores. Seus principais livros: 
História da Loucura, As Palavras e as Coisas, 
Arqueologia do Saber e História da Sexualidade. Em seus trabalhos iniciais ele 
procurou realizar uma “arqueologia do saber”. O objetivo da “arqueologia do saber” 
é analisar um conjunto de regras que determinam o conhecimento e as ideias de 
uma determinada época. 
Mais tarde, Foucault passou a se interessar pelas questões do poder e do 
vínculo entre saber e poder. Para essa nova orientação ele utilizou a expressão 
“genealogia do poder”. A preocupação agora era a de identificar e caracterizar as 
formas de poder existentes na sociedade. O conceito de poder para Foucault não se 
limita apenas à ideia de “poder político” do Estado, mas também ao que é chamada 
de “micropoder”. Em outras palavras, o poder não é característico de uma 
determinada classe ou de uma elite dominante. Poder não se origina nem na 
política, nem na economia. O poder permeia todos os aspectos da vida social. Em 
todas as relações sociais há sempre um componente do poder, como, por 
exemplo, nas relações entre o médico e o paciente ou nas relações sexuais. A obra 
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de Foucault tem sido altamente louvada pelos historiadores, embora também 
atacada por outros. A sua contribuição para a nova história cultural é bastante 
significativa. A cultura é estuda por ele não através das classes ou do progresso, mas 
mediante as tecnologias do poder. 
 
Atividade Complementar 
1 – Elabore um texto ao qual discute como o incremento da divisão do trabalho 
tornou complexa a sociedade contemporânea 
2 – Assista ao filme Tempos Modernos de Charles Chaplin e faça um 
comentário sociológico sobre esse filme. 
3 – Verifique os tipos de sanções em um dos grupos sociais que você pertence 
(por exemplo: família, escola, trabalho) 
 
Resumo Esquemático do Bloco I 
1.Noções elementares de epistemologia (teoria da ciência). A ciência é dotada de 
maior rigor e eficácia do que as outras modalidades de conhecimento (filosofia, 
moral, religião, senso comum) 
2. Diferentes tipos de ciências. 
2.1 Ciências Naturais - lidam com fatos que: a) são “externos” à consciência 
humana e estão localizados no tempo e espaço; b) são neutros aos valores; c) 
são objetos de explicação. 
2.2 Ciências Sociais: lidam com fatos que: a) se dão no tempo e no espaço; não 
sãoneutros aos valores; c) são objetos de compreensão. 
3. Os precursores das Ciências Sociais – os filósofos sociais. 
3.1. Sofistas – o início do pensamento sobre o ser humano 
3.2. Platão (A República) e Aristóteles (A Política) 
3.3. Idade Média – Ibn Kaldun 
3.4. Renascimento: Thomas More (Utopia), Maquiavel (O Príncipe), Thomas 
Hobbes (Leviatã) 
3.5. Iluminismo – precursores imediatos das ciências sociais. Rousseau (O 
Contrato Social). 
4.O nascimento da sociologia no século XIX. Contexto político, econômico e 
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cultural 
4.1. O positivismo de Auguste Comte. O Estudo da Estática e da Dinâmica Social 
4.2. O realismo sociológico de Durkheim. O fato social e a solidariedade. 
5. Fundamentos das sociologias sistêmicas no século XX. Funcionalismo e 
estruturalismo. 
 
BLOCO 2 
O MARXISMO E AS TEORIAS DA AÇÃO SOCIAL 
TEMA 3: MARX E A TRADIÇÃO MARXISTA 
 
Marxismo Clássico de Karl Marx 
A relação entre a teoria de Karl Marx (1818-1883) com a sociologia foi até 
recentemente problemática. Marx criticou a sociologia que, para ele, se resumia 
no pensamento de Comte. Durante muito tempo, a teoria marxista não era ensinada 
na maioria das universidades americanas e da Europa Ocidental. O marxismo era 
usualmente visto como uma ideologia (ver glossário) e não como um conhecimento 
científico. Mas a partir da década de 1960, e, principalmente, após a “guerra fria”, 
essa situação mudou. O marxismo e neomarxismo (marxismo contemporâneo) 
passaram a ocupar lugar de destaque nos principais centros acadêmicos do mundo, 
exercendo uma profunda influência nas ciências sociais. Atualmente, devido ao 
fracasso das “sociedades comunistas”, a teoria marxista tem sido objeto de críticas, 
algumas delas injustas e outras pertinentes. 
 
Momento de Reflexão 
Procure em um livro de história contemporânea ou pela Internet o que foi a “Guerra 
Fria” e o colapso das sociedades comunistas, e discuta a significação, alcance e 
consequências desses dois fenômenos do mundo atual. 
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Karl Marx se doutorou em filosofia 
(1841) pela Universidade de Berlim e 
estudou profundamente o sistema 
hegeliano (Wilhel Friedrich Hegel: 1770-
1831) e os escritos dos socialistas utópicos 
franceses, principalmente Proudhon 
(1809- 1865). Saindo da Alemanha, foi viver 
na França, onde conheceu Friedrich Engels 
(1820- 1895), seu amigo, benfeitor e 
colaborador pelo resto da sua vida. 
Expulso de Paris, Marx mudou- se para Londres (1849), onde permaneceu até a sua 
morte e onde escreveu as obras teóricas mais importantes. Seus principais 
trabalhos são: Manuscritos Econômico-Filosóficos (1844), Manifesto do Partido 
Comunista (em parceria com Engels, 1848), O 18 de Brumário de Luís Bonaparte 
(1852) e O Capital (cujo primeiro volume foi publicado em 1867). 
Antes de resumirmos os fundamentos do marxismo, é necessário chamar 
atenção para dois aspectos importantes. O primeiro é que Marx não foi exatamente um 
sociólogo, embora muito do seu pensamento se enquadre nos limites da sociologia. A 
teoria marxista extrapola esses limites. Marx foi um pensador complexo – foi 
também filósofo, cientista político, revolucionário, panfletista, economista, etc. – e sua 
obra teve uma influência marcante em diversas disciplinas. Um outro aspecto é o de que não 
existe uma teoria marxista, mas várias interpretações e desdobramentos da obra de 
Marx. Nesse sentido, o termo “marxismo” ora se refere ao pensamento de Marx ora 
a um grupo variado de doutrinas filosóficas, sociais, econômicas e políticas fundadas 
numa interpretação do pensamento de Marx. 
Uma questão amplamente debatida é a de saber se houve ou não “dois Marx”. 
Os que defendem a tese de “dois Marx” dividem seu pensamento em dois períodos: 
o primeiro de orientação mais filosófica, seguindo a tradição hegeliana (o chamado “jovem 
Marx”, onde expõe seu pensamento principalmente pelos “Manuscritos Econômico-
Filosóficos”, de 1844); o segundo, o Marx de “O Capital”, quando se afasta da filosofia e 
dedica-se a edificar uma ciência da economia política. 
 
 
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O Materialismo Histórico 
Marx é usualmente considerado como um discípulo de Hegel ou um 
“hegeliano de esquerda”, devido ao fato de ter invertido algumas das principais teses 
hegelianas. Hegel foi um filósofo puramente “especulativo” e “idealista” e Marx teve 
uma forte inclinação pelo estudo da realidade concreta da sociedade. Mas Marx 
também foi influenciado pelos socialistas utópicos e pelos economistas ingleses 
(principalmente Adam Smith e Ricardo). 
O marxismo desenvolveu uma concepção 
“materialista” da sociedade. O fundamento dessa 
concepção está resumido no “Prefácio” do seu livro 
Crítica da Economia Política (1859): “No curso da 
produção social empreendida pelos homens, estes se 
relacionam entre si de maneiras definidas e 
independentes de sua vontade. Essas relações de 
produção correspondem a um estado definido do desenvolvimento de seus poderes 
materiais de produção. A soma de tais relações de produção constitui a estrutura 
econômica da sociedade, o verdadeiro fundamento sobre o qual se edificam 
as superestruturas legais e políticas e ao qual correspondem formas bem 
definidas de consciência social. O modo de produção na vida material 
determina o caráter geral dos processos sociais, políticos e espirituais da 
vida. Não é a consciência dos homens a que determina a realidade; pelo 
contrário, a realidade social é a que determina sua consciência”. 
 
Conceito Relevante 
MATERIALISMO – Concepção filosófica em que a matéria é fundamentada de toda a 
realidade e causa de toda transformação. Há diversas formas de materialismo. 
Para o marxismo, o materialismo é um método para entender os mecanismos da 
formação das sociedades e as suas mudanças. Essas mudanças são de natureza 
dialética no sentido de que nas sociedades se produzem conflitos (como as lutas de 
classe) que se resolvem por meio de transformações fundamentais da estrutura. 
Um princípio básico do materialismo marxista é o de que a existencial social 
determina a consciência humana. Ou seja, todo pensamento é função de uma 
“práxis” (uma atividade prática ou conjunto de ações desenvolvidas pelo homem). 
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Por essa razão, o marxismo é também apresentado como uma “filosofia da práxis”. 
MATERIALISMO DIALÉTICO – Esse termo foi cunhado pelo marxista Plekhanov e 
abreviado como Diamat. Refere-se à concepção de que os fenômenos matérias 
são processos de mudanças que devem ser entendidos de acordo com os princípios 
da dialética. Foi Engels que desenvolveu os fundamentos do materialismo dialético, 
principalmente no seu livro publicado postumamente, A Dialética da Natureza (1925). 
Para Lênin (1870-1924), a realidade material é a realidade do mundo real “externo” 
a consciência, a qual “copia” esse mundo mediante as percepções. O materialismo 
dialético é, segundo Lênin, o verdadeiro conhecimento científico que se deve 
adotar para a luta a favor do comunismo. 
MATERIALISMO HISTÓRICO – É característico do pensamentode Marx e também 
uma característica básica de todas as variantes do marxismo. O materialismo 
histórico é o método ou doutrina que tem por objetivo explicar (identificar as “leis”) as 
transformações da sociedade ou da história. A ideia fundamental é a de que as 
transformações do mundo material são resultado do trabalho. Assim, a história 
das sociedades é entendida com base no que os homens fazem concretamente 
para assegurar as suas condições de vida. Nesse sentido, o Estado, as leis, os 
produtos culturais, etc., estão subordinados aos modos de produção. 
A análise marxista tem um caráter 
fortemente histórico. O objetivo último de Marx 
era especificar as “leis” da história humana a fim 
de melhor conhecer as transformações sociais. 
Observava a história como sendo impulsionada 
por forças intrassociais imanentes. Ele 
compartilhava o otimismo dos adeptos do 
progresso e do evolucionismo que pregavam o aperfeiçoamento constante da 
sociedade. Para ele, a história passa por uma sequência de estágios discerníveis. 
Assim, os marxistas não se interessam apenas pelas relações sociais do mundo 
contemporâneo, mas também pela relação entre essas realidades 
contemporâneas e os fenômenos passados e futuros. Isso significa dizer que os 
sociólogos marxistas se interessam pelo estudo das raízes históricas do mundo 
contemporâneo (por exemplo, como fez Marx ao estudar as origens do 
capitalismo em seu livro Formações Econômicas Pré-Capitalistas e Engels em As 
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Origens da Família, da Propriedade Privada e do Estado, 1884) e muitos deles estão 
preocupados com a direção futura que tomará a sociedade. Daí a preocupação 
com a política e com a promoção de atividades práticas que acreditam ser 
necessárias para as transformações do mundo. 
Conflitos e contradições são dois termos essenciais na concepção 
marxista da história e da sociedade. As concepções positivistas não trataram de 
problemas ligados aos conflitos inter-humanos. Por exemplo, Comte temia tanto o 
conflito social que idealizou uma sociedade de castas organizadas de modo 
autoritário. Durkheim refere-se ao conflito na sua obra, mas o tratou como uma forma 
de “enfermidade humana”. Para o marxismo, o conflito e sua resolução é um fato 
central da sociedade. De acordo com Marx, o principal conflito e contradição da 
sociedade capitalista está na relação entre burguesia e proletariado, as duas classes 
básicas do modo de produção capitalista. Nas palavras dele, a burguesia produz o 
proletariado e ao produzir e expandir esta classe, os capitalistas produzem seus 
próprios coveiros, pois o aumento da quantidade de trabalhadores explorados e o 
grau dessa exploração aguçam uma confrontação entre as duas classes, na qual o 
proletariado, conforme Marx, sairá vencedor. 
 
Conceitos Relevantes 
BURGUESIA - Designa a classe dos que, dentro de uma sociedade capitalista, detêm o 
controle efetivo dos meios de produção e de distribuição, tirando daí um rendimento 
sob a forma de lucro. 
PROLETARIADO – Refere-se ao conjunto dos trabalhadores que, sendo desprovido 
do controle dos meios de produção, são obrigados a vender a sua força de trabalho 
mediante um salário para garantir os seus meios de subsistência. Esse termo é 
usualmente usado como sinônimo de operário. 
 
A Estrutura social 
O estudo da estrutura social, em particular da estrutura da sociedade 
capitalista, foi uma preocupação básica de Marx. Para ele, a estrutura social é um 
conjunto de relações sociais numerosas e continuas, externas aos indivíduos e 
coercitivas (nesse aspecto, observe alguns elementos similares com a teoria 
durkheimiana). As estruturas emergem da base material da sociedade, isso é, dos 
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instrumentos técnicos da produção (meios de produção) e das relações sociais 
(relações de produção) que criam os direitos da propriedade privada sobre os 
recursos econômicos. A combinação desses dois elementos (meios de produção e 
relações de produção) constitui o “modo de produção” de uma determinada 
sociedade. De acordo com Marx, a história humana é uma história da evolução de 
diferentes modos de produção: “comunismo primitivo”, “escravismo”, “feudalismo”, 
“capitalismo” e, posteriormente, “comunismo”. 
Os meios e relações de produção constituem a 
“infraestrutura” de um modo de produção, a qual 
condiciona os aspectos “superestruturais” da 
sociedade, ou seja, o seu nível cultural, como as 
formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas e 
filosóficas. É importante salientar, contudo, que Marx 
não foi exatamente um determinista (embora em 
algumas das suas obras parece ter advogado essa concepção). O seu 
compromisso com a dialética o fez estudar as interrelações entre a infra e 
superestrutura. Mas, por outro lado, Marx dedicou-se muito pouco à análise dos 
aspectos culturais da sociedade. 
Um outro conceito relevante para o marxismo é o de classe social. As classes são 
decorrentes da divisão social do trabalho e da distribuição desigual dos bens 
econômicos de uma sociedade. Marx distingui pares antagônicos de classes que são 
específicas para cada modo de produção: escravos x senhores no “escravismo”, 
servos e senhores feudais no “feudalismo”, capitalistas e proletários no 
“capitalista”. A sua preocupação fundamental foi com a dinâmica das classes no 
capitalismo.” A ideia básica de Marx sobre a divisão do trabalho no sistema 
capitalismo deriva da sua distinção entre os proprietários dos meios de produção e 
os que são obrigados a vender a sua força de trabalho aos proprietários para poderem 
sobreviver. 
Para Marx, tanto o capitalista como o proletário têm uma percepção incorreta do 
modo como funciona o sistema e o papel que eles desempenham. É o que o 
marxismo chama de “falsa consciência”. Nesse sentido, os homens são “alienados”. 
Alienação é a distorção causada pela estrutura da sociedade capitalista na natureza 
humana. Isso não significa dizer que os homens estão invariavelmente presos à 
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alienação. Marx era um humanista e acreditava no potencial humano para escapar a 
esse processo. Esse potencial não depende apenas de uma vontade ou capacidade 
crítica, mas de ações concretas dos homens (práxis). Assim, na transição de uma 
sociedade capitalista para uma socialista é necessário que o proletariado atue 
concretamente para levar a cabo essa transformação. É nesse processo que o 
proletariado desenvolve uma consciência exata de como funciona o capitalismo e de 
como ele afeta as consciências dos indivíduos. O marxismo designa esse processo de 
consciência de classe. 
 
Variedades do Marxismo no Século XX 
No século XX, vários teóricos contribuíram para o desenvolvimento do marxismo 
clássico (representado por Marx e Engels), tais como Georg Lukács (1885-1971), Antonio 
Gramsci (1891- 1937), Louis Althusser (1918-1990) e os autores da chamada “Escola de 
Frankfurt” ou “Escola Crítica”, como Theodor Adorno (1903-1969), Max Horkheimer 
(1895-1973), Herbert Marcuse (1898-1979), Walter Benjamin (1892-1940) e Jurgen 
Habermas (nascido em 1929). 
Em termos bastante gerais, o movimento marxista do século XX não 
outorga uma importância superlativa ao sistema econômico (determinismo 
econômico), o qual parte do pressuposto de que este sistema determina todos os 
demais setores da sociedade. 
 
Lukács e Gramsci 
A crítica ao determinismo econômico foi iniciada pelo húngaro Lukács. Seu 
principal livro é História e Consciência de 
Classe. ParaLukács, o processo histórico 
é um processo da totalidade da 
sociedade, que inclui o sujeito e suas 
produções (não apenas econômica). 
A consciência da realidade é uma 
consciência de classe, isso é, um 
sistema de crenças compartilhadas 
pelos que ocupam a mesma posição de 
classe na sociedade. Consciência de classe não é a soma ou média das consciências 
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individuais, mas uma propriedade de um grupo de pessoas que ocupam posições 
similares no sistema de produção. Assim como Lukács, o italiano Gramsci operou 
dentro da teoria marxista clássica, preocupando-se mais com as ideias coletivas do 
que propriamente com as estruturas socioeconômicas. Gramsci rechaça a ideia da 
inevitabilidade e do mecanismo do processo histórico (leis históricas) ao afirmar que as 
massas devem atuar para levar a cabo a revolução social. Mas, para isso, é 
necessário que as massas tenham consciência da sua situação e da natureza do 
sistema em que vivem. Elas necessitam da ajuda das elites sociais (intelectuais) que 
estão comprometidas com a ideologia revolucionária. Um conceito central da teoria 
gramsciana é o de hegemonia, ou seja, a liderança cultural exercida pela classe 
dirigente. O conceito de hegemonia não serve apenas para compreender a 
dominação capitalista, mas também para orientar o processo revolucionário. A 
revolução não visa apenas um controle da economia e do aparato do Estado. É 
importante também que a revolução institua uma liderança cultural sobre o resto da 
sociedade. 
 
A Escola de Frankfurt 
A Escola de Frankfurt (também conhecida como Teoria Crítica) refere-se a um 
grupo de neomarxistas alemães que desenvolveram várias análises críticas sobre 
diversos aspectos da vida social e intelectual. O nome “Teoria Crítica” deve-se ao 
fato de que os teóricos da Escola de Frankfurt exerceram uma cerrada crítica: a) ao 
determinismo econômico nas concepções marxistas; b) ao positivismo e cientificismo; 
c) à sociologia; d) à sociedade moderna; e) à “indústria cultural”. Para esses 
autores, a sociologia é “cientificista”, isso, considera que o método científico é um fim 
em si mesmo. Criticam a tendência dos sociólogos em reduzir todo o humano a 
“variáveis sociais” e, portanto, ignoram a interação entre os indivíduos e a 
sociedade. Além do mais, acusam a sociologia de aceitar o status quo (o estado 
em que se achava anteriormente certa questão), deixando de fazer com isso uma 
crítica séria à sociedade. 
O objeto de boa parte dos trabalhos da Escola de Frankfurt é a análise crítica 
da sociedade moderna. O “pensamento tecnocrático” é um dos objetos principais 
de crítica. Conforme esses autores, o “pensamento tecnocrático” se caracteriza 
simplesmente por encontrar os meios mais efetivos para alcançar qualquer fim 
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importante para os que estão no poder. Logo, o fundamento último da tecnocracia é 
servir as forças da dominação e não a emancipação das pessoas. Uma outra 
característica também apontada é a de que no mundo moderno há muita 
irracionalidade. Como observa Marcuse, um dos principais 
teóricos da Escola, a sociedade moderna é irracional em 
seu conjunto. É irracional o fato de que a racionalidade 
industrial destrua o meio ambiente; que a paz se 
mantenha mediante à ameaça constante de guerra e que, 
apesar da existência de meios suficientes, continuam 
existindo pessoas pobres, reprimidas e exploradas. Uma 
crítica substantiva dos membros dessa Escola está dirigida à “indústria cultural” – 
a “cultura de massa” - que, através de estruturas racionalizadas e burocráticas (por 
exemplo, as cadeias de televisão), controlam a cultura moderna. 
 
Althusser (1918-1990) 
Dentro de uma outra orientação, Louis 
Althusser é o principal representante do 
“marxismo estrutural”. Esse termo sugere a 
fusão de duas escolas do pensamento social: 
marxismo e estruturalismo (ver abaixo). Uma 
característica fundamental dessa concepção é a 
preocupação na análise das estruturas que 
estão subjacentes e ocultas na vida social. Os 
teóricos dessa “escola” partem do princípio de 
que a economia é um elemento determinante em 
última instância, mas negam a ideia que as estruturas políticas e ideológicas sejam 
meros reflexos da economia. A política e a ideologia são dotadas de uma “autonomia 
relativa”. Ou seja, elas podem seguir processos de desenvolvimento bastante 
independentes, assim como podem, em certos momentos, se converterem em 
forças dominantes da sociedade. 
Para Althusser, o núcleo da teoria de Marx reside no estudo que faz sobre a 
estrutura da sociedade e nas leis que governam o funcionamento dessas estruturas. 
Nessa perspectiva, Althusser volta-se para o Marx de O Capital, considerando que as 
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suas obras iniciais (como no Manuscritos Econômico- Filosóficos de 1844) eram 
puramente filosóficas e não científicas. Conforme Althusser, a análise marxista deve ser 
científica e não “humanista”. A preocupação com os atores socais é reduzida a um 
segundo plano. Os indivíduos constituem meros ocupantes das posições dessas 
estruturas. As principais críticas ao trabalho de Althusser são: a) defender 
cegamente o cientificismo; b) ser elitista, já que só os cientistas e militantes do 
Partido Comunista são capazes de entender a verdade sobre o mundo; prestar pouca 
atenção; c) ignora o ator social e a consciência. 
 
Marxismo e História 
Marx teve uma visão de história estreitamente vinculada com o evolucionismo. 
O seu objetivo último foi o de especificar as “leis” da história humana a fim de moldá-
la com uma orientação progressista. Nesse sentido, a história para Marx manifesta um 
desenvolvimento direcional, progressivo e ascendente na história. Mas o 
desenvolvimento histórico não é linear, direto e consistente, pois se dá por meio de 
rupturas, reversões e recuos. Mas o marxismo também se afasta das concepções 
clássicas do evolucionismo. Na perspectiva marxista, a história não é mais um fluxo 
ao qual estão sujeitos os homens e as coisas, mas produto da própria atividade 
humana. 
De uma maneira geral, Marx tem uma teoria multidimensional da história, 
na qual apresenta três níveis distintos de discurso: histórico-universal (a teoria das 
formações socioeconômicas), socioestrutural (a teoria da luta de classe) e ativístico-
individual (a teoria do indivíduo humano). Um exemplo significativo dessas três 
teorias interrelacionadas pode ser visto no seu livro O Dezoito Brumário de Luís 
Bonaparte. No primeiro nível, a preocupação é com as transformações fundamentais do 
processo histórico, como, por exemplo, a transição que uma dada sociedade faz de 
um modo de produção para um outro. O segundo diz respeito aos conflitos e 
contradições existentes entre as classes sociais. O terceiro refere- se às intenções, 
motivações, interesses e impulsos criativos das pessoas. 
Os estudos históricos desenvolvidos pela corrente marxista se 
preocuparam inicialmente com a análise das grandes estruturas sociais e suas 
transformações. Estavam voltados principalmente para as análises de classe, os relatos 
de líderes políticos e instituições político-econômicas. Contudo, a partir da década de 
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1950, os historiadores marxistas começaram a abandonar essas modalidades de 
relatos, passando a investigar aspectos culturais dasociedade, a composição 
social e a vida cotidiana de operários, mulheres, grupos étnicos e congêneres. 
Exemplo dessa nova tendência é o trabalho do historiador inglês E.P. Thompson, 
autor do livro A Formação da Classe Trabalhadora Inglesa. 
 
Atividade Complementar 
1 – Elabore um texto o qual apresente aspectos econômicos das relações 
domésticas, desportivas e religiosas. 
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2 – Analise a afirmativa de Herbert Marcuse de que a sociedade moderna e 
capitalista é falaz, porque apresenta a face da abundância, da liberdade e da 
tolerância, ocultando sua verdadeira realidade, que é o domínio social e o 
conformismo. 
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TEMA 4: AS TEORIAS DA AÇÃO SOCIAL 
 
As Teorias Clássicas da Ação Social 
As teorias da ação social desenvolvidas inicialmente pelos alemães Max 
Weber e Geog Simmel e pelo norte-americano Geoge Herbert Mead constituem uma 
segunda grande vertente de análise das ciências sociais. São conhecidas também 
pela designação de “sociologia compreensiva”. A preocupação fundamental é 
com o estudo das ações e interações sociais. Ação social é a sequência 
intencional de atos com significado que os sujeitos, chamados usualmente de 
“atores” ou “agentes”, realizam escolhendo entre várias alternativas possíveis a fim 
de alcançar um objetivo (ou transformar um estado de coisa existente). Embora 
não neguem a existência dos sistemas sociais, a sociologia compreensiva procura, 
nas suas analises, enfatizar os processos interativos desenvolvidos pelos atores 
sociais, ou seja, as razões, as causas, os motivos, as necessidades e o sentido da 
ação humana. 
 
Conceitos Relevantes 
INTERAÇÃO SOCIAL – É um termo genérico para designar as relações breves ou 
duradouras entre dois ou mais indivíduos no curso das quais cada um modifica 
reiteradamente seu comportamento ou ação social em vista do comportamento ou da 
ação do outro. Um protótipo da interação social é o jogo. 
A influência da sociologia compreensiva foi crescendo ao longo do século 
XX, tornando-se referência fundamental para o pensamento social dos nossos dias. 
Dentre os cientistas sociais que deram origem a esse ramo da sociologia, Weber é 
o que mais tem influenciado o pensamento social contemporâneo. Representa 
uma fusão notável da investigação histórica aliada com a teoria sociológica. 
 
Simmel e George Herbert Mead 
Vamos nos deter rapidamente em Simmel e George Herbert Mead. O primeiro 
foi principalmente um filósofo, mas devido ao de seu pensamento ser bastante 
variado e original, a sua contribuição para as ciências sociais foi significativa. Entre suas 
obras principais destacamos: A Filosofia do Dinheiro (1900) e Sociologia (1908). 
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Para Simmel, o que é determinante 
para a cultura é o tipo humano (ou social) 
que se situa em relação ao mundo. A 
sociedade nos apresenta uma ampla 
gama de tipos e formas de interação. 
Tipos são modelos de atuação das 
pessoas, como o “pobre”, o “miserável”, o 
“aventureiro”, o “nobre”, o “estudante”, etc. 
São formados pelas associações (interação) entre as pessoas. Nesse sentido, a 
tarefa principal da sociologia é estudar as diversas “formas de socialização” ou 
interações sociais (interpessoais) desenvolvidas pelos indivíduos em seus contextos 
sociais. Devido a preocupação por identificar e caracterizar as formas de interação, 
a teoria social estabelecida por Simmel é conhecida como “sociologia formal”. 
 
Questão de Reflexão 
Reflita sobre a diferença entre Durkheim e Simmel em relação ao conceito 
de sociedade. Observe que para Durkheim a sociedade é uma entidade real, 
material. Por outro lado, para Simmel, a sociedade é um conjunto de interações 
(isso é, um nome para um conjunto de indivíduos que estão conectados por meio da 
“interação”). 
Simmel distingue a cultura objetiva, as manifestações produzidas pelas 
pessoas (como a tecnologia, os meios de transporte, a linguagem, os códigos 
morais, a arte, a filosofia, os dogmas religiosos, etc.) e a cultura individual ou 
subjetiva (isso é, a capacidade do indivíduo para produzir, absorver e controlar os 
elementos da cultura objetiva). Nesse sentido, a cultura individual modela e é 
modelada pela cultura objetiva. 
A cultura objetiva cresce e se expande de diversas formas. Cresce de 
tamanho e se diversifica na proporção que aumenta a modernização. Um exemplo: 
a metrópole contemporânea é o “cenário genuíno” do crescimento da “cultura 
objetiva” e, consequentemente, o local onde encontramos uma maior 
variedade de formas de associação e tipos sociais. Observe, por exemplo, a 
diversidade de tipos sociais que encontramos nas cidades modernas, como os 
“flanelinhas”, “vendedor de picolé”, o “empresário”, o “estudante”, o “internauta”, etc. 
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Pense em outros exemplos. 
O crescimento da “cultura objetiva” se dá algumas vezes de forma 
conflituosa em relação à “cultura individual”, “subjetiva”. Pense, por exemplo, nas 
“dificuldades” que cada um de nós temos para lidar com alguns “tipos sociais”. Outro 
exemplo, se somos “estudantes”, somos obrigados a nos relacionar de alguma 
forma com outros “tipos sociais” (como o “professor”, o “coordenador de curso”, 
etc.) e nem sempre essas relações são tão prazerosas como gostaríamos que 
fossem. Assim, o conflito social é um integrante essencial da sociedade. 
 
Conceitos Relevantes 
MODERNIDADE – É um conceito de “contraste”, isso é, algo que sugere o presente 
em contraste com algum passado histórico. Por exemplo, para Santo Agostinho, a 
modernidade do seu século (V d.C.) se caracterizava pela rejeição ao paganismo 
e inauguração de uma nova era, o Cristianismo. Para nós, a modernidade é o 
mundo que atualmente vivemos e se contrasta com o século XIX. Há, portanto, 
nesse conceito, uma ideia de negação e afirmação. 
MODERNISMO – É um termo da história cultural que é utilizado para identificar os 
princípios do século XX, período em houve uma grande variedade e inovações 
estéticas e literárias em relação à tradição realista dos meados do século XIX. Por 
exemplo, o movimento modernista no Brasil está associado às manifestações 
artísticas e literárias ocorridas com a Semana de Arte de 1922. 
MODERNIZAÇÃO – É usualmente entendidocomo as mudanças do processo 
econômico, político e sociocultural que ocorrem nos países menos desenvolvidos. 
Esse termo implica uma referência com dois modelos de sociedade: a tradicional 
(ou também chamadas “rurais” ou “subdesenvolvidas”) e a moderna (“industrial”, 
“urbana” ou “desenvolvida”). Modernização é, portanto, o processo de mudanças 
sociais que ocorrem em grande escala seguindo um modelo de sociedade moderna 
(ou sociedades ocidentais), envolvendo transformações nas principais estruturas 
econômicas, políticas, familiares, administrativas, religiosas, etc. 
Geoge Herbert Mead foi um filósofo e psicólogo social. A sua principal obra no 
campo das ciências sociais é Espírito, Pessoa e Sociedade (publicada 
postumamente em 1934). Ele é considerado um dos principais representantes do 
pragmatismo norte-americano. 
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PRAGMATISMO - é uma concepção filosófica segunda a qual o ser humano é antes 
de mais nada um ser prático, um ser de vontade e de ação. O conhecimento 
humano, o saber, é fruto das ações (práticas) do homem. Nesse aspecto, o intelecto é 
dado ao homem não apenas para investigar e conhecer as “realidades verdadeiras e 
profundas”, mas também para possamos nos orientar na realidade em que vivemos. 
Há muitos filósofos nos Estados Unidos e na Europa (a 
exemplo do filósofo alemão Friedrich Nietzsche,1844 - 1900) 
que compartilham certos aspectos do pragmatismo. Esse 
termo foi criado pelo filósofo americano William James (1842-
1910). 
Para Geoge Herbert Mead, o social precede a 
consciência individual, ou seja, a consciência humana (que 
Mead chama de “espírito”) surge com a sociedade. Para que 
o indivíduo possa exercer uma ação e tenha consciente dela, 
é necessário que em primeiro lugar esse indivíduo habite em 
uma sociedade qualquer. É nesse sentido que o mundo social 
precede as pessoas, as consciências individuais. A unidade mais básica do social 
é o “ato” (ação realizada). Um ato social implica duas ou mais pessoas. O 
fundamento da realidade social é, portanto, a interação entre pessoas. Observe aqui 
uma diferença importante dessa teoria (como as demais da “ação social”) em 
relação as chamadas “teorias contratualistas” (representadas por Hobbes e 
Rousseau – ver tema I, Conteúdo IV). Para os teóricos contratualistas, as pessoas ou 
indivíduos precedem à sociedade (esta é criada por um “contrato” entre os 
indivíduos). Por outro lado, para Simmel, Mead e Weber o ser humano é sempre 
social, desde a sua origem. Assim, pessoas e a sociedade são entidades que 
acontecem paralelamente. Uma não existe sem a outra. 
 
Max Weber 
Weber é sem dúvida um dos mais importantes pensadores da história das 
ciências sociais devido a sua capacidade criativa e inovadora de lidar com as 
questões humanas. Ensinou na Universidade de Heidelberg economia, história e 
sociologia. Embora não fosse uma pessoa religiosa, ocupou-se grande parte da 
sua vida em estudar a religião. As suas principais obras: A Ética Protestante e o 
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“Espírito” do Capitalismo (1904 e 1905) e Economia e Sociedade (1921). Grande 
parte da obra weberiana trata da relação entre história e sociologia. Em Economia 
e Sociedade, Weber argumenta que a sociologia deve formular conceitos 
específicos. Esses conceitos se caracterizam por generalizar processos sociais 
que são empiricamente observados. Retornando o exemplo 
já dado, o “cesarismo” (palavra proveniente de Júlio César) 
é uma designação genérica para um determinado conduta 
governamental (despótica, absolutista). Isto distingue a 
sociologia da análise histórica, a qual está orientada para 
explicar as ações individuais, as estruturas e 
personalidades possuidoras de uma significação cultural própria. Analisar a figura 
de Júlio César é uma tarefa da história. 
A explicação do fato singular (histórico), assim como a explicação do 
pensamento de um autor ou de um texto, necessita de uma interpretação 
compreensiva – uma hermenêutica. 
 
Conceitos Relevantes 
HERMENÊUTICA – É a técnica de interpretação de um texto, de um pensamento, de 
uma norma. Inicialmente, a hermenêutica significava a arte ou ciência de interpretar as 
Sagradas Escrituras (como a Bíblia). A partir do século XIX passou a ser utilizada 
para interpretar personalidades, obras literárias ou épocas históricas. O filósofo alemão 
Wilhelm Dilthey (1833- 1911) foi o grande teórico do método hermenêutico e exerceu 
uma grande influência para o pensamento de Weber. Conforme Dilthey (e Weber), a 
hermenêutica é o método geral de interpretação 
pelo qual o pesquisador dá sentido aos dados da 
realidade. Como um método, ela pode ser 
ensinada, mas exige, sobretudo, uma perspicácia 
especial do interprete. O método hermenêutico 
busca a compreensão de uma realidade (um 
texto, uma época histórica, etc.) em sua 
relação com seu contexto, ou a compreensão de um autor em relação com sua obra. 
Atualmente, a hermenêutica tem uma significação filosófica mais ampla e complexa, 
graça aos trabalhos de filósofos como Martin Heidegger (1889-1976) e Hans Georg 
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Gadamer (1900-2002). Para esses autores, a hermenêutica é mais do que um método. É o 
modo essencial que todos nós temos de compreender as nossas vidas. Mas não 
vamos agora tratar dessa nova significação de hermenêutica. 
 
A Compreensão em Weber 
A explicação dos fenômenos humanos necessita, primeiramente, de uma 
compreensão. Compreender não se refere simplesmente à “intuição” ou “empatia” do 
investigador, mas uma busca sistemática e rigorosa – um procedimento racional – 
sobre os significados ou sentidos de uma realidade humana. Como um método 
rigoroso, a compreensão deve: a) identificar o sentido de uma ação humana; b) 
reconhecer o contexto dessa ação. O conceito de compreensão é essencial nas 
ciências sociais fundamentadas pelo pensamento weberiano, como veremos no 
conteúdo próximo. 
Tendo em vista que a sociologia deve criar instrumentos conceituais 
específicos que possam ser usados pelos historiadores, é importante entender qual a 
característica fundamental desses “instrumentos”. Para Weber é o “tipo ideal”. 
 
Conceito Relevante 
TIPO IDEAL – É uma construção analítica (conceitual) que o pesquisador elabora 
para acentuar alguns traços específicos de um conjunto de fenômenos concretos 
individuais. Isso é, o tipo ideal é um conceito fundamentado em observações 
empíricas pelo qual o cientista social apreende os elementos essenciais do mundo 
social. A formulação de um “tipo ideal” consiste em: a) comparar realidades 
empíricas semelhantes; b) estabelecer suas divergências e similitudes. Vejamos 
um exemplo. A história tem apresentado vários exemplos de autoridade. O sociólogo, 
analisando e comparando as diversidades de formas de autoridades, pode 
estabelecer alguns “tipos ideias”, como: a) “autoridade tradicional” (aquela que 
está baseada na crença da existência de normas “santificadas” ou poderes 
antigos); b) “autoridade carismática” (aquela baseada no poder de personalidades 
que possuem qualidades extraordinárias, como líderes políticos, grandes estrelas do 
cinema ou músicos de rock, etc.); c) “burocracia racional” (aquela estabelecida por 
ações racionais). 
 
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A Ação Social 
Conforme Weber, a sociologia é o estudo das ações sociais. Açãose 
diferencia da conduta puramente reativa (ou comportamentos automáticos que 
implicam processos não pensados, como piscar os olhos quando uma forte luz incide 
sobre nossas vistas). A ação social 
supõe processos reflexivos entre a 
origem do estímulo e a resposta. A 
ação ocorre quando os indivíduos 
atribuem significado subjetivo às suas 
ações. Utilizando-se do conceito de 
tipo ideal, Weber identificou quatro 
tipos básicos de ação: 
a) ações orientadas para fins racionais (aquelas que são utilizadas como “meios” para 
atingir propósitos racionais, como, por exemplo, se preparar para um exame); 
b) ações racionais orientadas para valores específicos (ações determinadas pela 
crença em valores éticos, estéticos, religiosos, etc., como, por exemplo, ir ao cinema 
para se divertir); 
c) ações afetivas (determinada pelo estado emocional do indivíduo, como, por 
exemplo, amar alguém); 
d) a ação tradicional (determinada pelos modos de comportamento habituais dos 
indivíduos e por seus costumes). Esses tipos de ações não são excludentes. Qualquer 
ação dada implica normalmente algumas combinações desses quatro tipos. 
Partindo da análise das ações, Weber observa que toda sociedade está 
estratificada sobre a base da classe, do status e do poder. A classe é constituída por 
grupos humanos que se caracterizam por: 
a) apresentam um componente causal específico representado exclusivamente por 
interesses lucrativos e posse de bens; 
b) esses interesses são determinados pelo mercado (de bens ou de trabalhos). 
O status está relacionado com os estilos de vida e com a classe. Refere aos 
componentes das atividades humanas que são determinadas pela estima social, pela 
ideia de honra. O poder refere-se à ordem, não apenas à ordem política (que diz 
respeito ao Estado), mas a todas as formas de interação social. Há sempre 
elementos de poder no convívio social. 
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Conforme já observado, uma das principais obras de Weber foi A Ética 
Protestante e o “Espírito” do Capitalismo. Vamos resumir brevemente esse estudo para 
melhor exemplificar o tipo de análise sociológica proposta por Weber. Trata-se de um 
trabalho que relaciona a religião protestante (principalmente o calvinismo) com a 
emergência da racionalidade capitalista. Não é um estudo sobre a ascensão do 
capitalismo, mas dá origem da forma de pensar que é peculiar no mundo capitalista. 
Conforme Weber, tanto o capitalismo como o protestantismo surgem em um 
mesmo período histórico. O espírito capitalista está fundamentado por um sistema de 
valores voltado para o êxito econômico. Por outro lado, o calvinismo parte do princípio da 
“predestinação”, isso é, a salvação é destinada apenas para um pequeno número de 
pessoas. Embora ninguém saiba do seu destino (se será ou não salvo), o calvinismo 
acredita na existência de sinais que indicam se uma pessoa se salvará. As pessoas são 
obrigadas a trabalhar com afinco, porque sendo diligentes podem descobrir a 
salvação. Uma “medida” das suas diligências é o êxito econômico. Além do mais, o 
calvinismo requer um autocontrole e um estilo de vida sistematizado, sobretudo para as 
atividades de negócio. Por exemplo, a existência de vida que não esteja pautada na 
dissipação e na perda de tempo. Daí a preocupação com a “poupança” e 
investimentos. Em síntese, a insistência dos calvinistas na atividade mundana intensa 
terminou por resultar na valoração dos princípios capitalistas. 
 
A Teoria Social e a História 
O reconhecimento do papel das crenças, valores, motivações, aspirações e 
atitudes nos processos de mudança social, tal como proposto pelos teóricos da 
“ação social”, foi altamente importante para os estudos históricos contemporâneos. 
Para os teóricos de orientação positivista e mesmo marxista, os processos 
históricos eram vistos como autônomos, independente das ações humanas, 
operando em um nível acima das mentes humanas. Com os teóricos da “ação 
social”, o foco de atenção da análise se voltou para os agentes e suas ações. Assim, 
todas as entidades sociais complexas que aparecem ao longo da história 
(economias, sistemas políticos, organizações sociais) não são mais que produtos 
acumulados de ações sociais. Nesse sentido, compreender os processos 
históricos significa rastrear suas raízes nas ações humanas, desvendar seu 
significado. 
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Modernas Teorias da Ação Social. Interacionismo Simbólico e as Ciências 
Sociais Fenomenológicas 
Entre as principais correntes atuais da sociologia compreensiva, o 
Interacionismo Simbólico e, principalmente, a Fenomenologia ocupam lugar de 
destaque, embora ainda sejam movimentos um tanto desconhecidos no Brasil. 
 
Interacionismo Simbólico 
O Interacionismo Simbólico tem sua origem 
nos trabalhos dos pragmatistas, principalmente 
George Herbert Mead. O mais conhecido 
representante dessa “Escola” é Erving Goffman 
(1922-1982), autor de A Representação do Eu 
na Vida Cotidiana e Estigma, entre outros. Os 
fundamentos do Interacionismo Simbólico 
podem ser resumidos da seguinte forma: 
1) Diferente dos animais inferiores, os seres 
humanos estão dotados da capacidade de 
pensamento e essa capacidade está modelada pela interação social. Assim, a 
mente é formada através de processos de interação nos quais os indivíduos estão 
envolvidos desde a infância; 
2) Na interação social, as pessoas aprendem os significados e os símbolos que lhes 
permitem exercer sua capacidade de pensar e atuar socialmente; 
3) As pessoas modificam ou alteram os significados e símbolos que usam nas suas 
interações devido a capacidade que possuem de examinar os possíveis cursos de 
ação e valorizar as vantagens (ou desvantagens) da situação em que se encontram; 
4) A ação social é sempre mediada e orientada pelo significado que os sujeitos atribuem à 
situação em que se encontram. 
Em síntese, a principal preocupação dos interacionistas simbólicos é com as 
interações (ou inter-relações) humanas e as relações entre pensamento e ação dos 
indivíduos. 
Goffman parte do pressuposto de que quando os indivíduos interagem entre si 
desejam apresentar uma determinada concepção do seu self (eu) que seja aceitável 
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pelos outros. Ou seja, procuram apresentar uma imagem idealizada de si mesmas, muitas 
vezes ocultando certas coisas enquanto estão atuando. Por exemplo, os professores 
dedicam algumas horas preparando suas aulas, mas provavelmente quando estão dando 
aula (interagindo com os alunos) passam uma impressão que conhecia o assunto 
desde há muito tempo. Outro exemplo: quando conversamos com alguém, muitas 
vezes calamos sobre determinados assuntos, enfatizamos outros, demonstramos saber 
(ou não) algo, ocultamos determinadas intenções, revelando certas intenções, etc. Nesse 
sentido, os indivíduos sempre estão “representando” o seu self. Isso não significa dizer 
que nas nossas relações do dia a dia estejamos sempre plenamente conscientes das 
nossas “representações”. 
Os indivíduos também são conscientes de que os outros podem perturbar 
sua representação. Para evitar ou controlar as impressões que os outros possam ter 
sobre nós, empregamos determinadas “técnicas” de relacionamento (ou “arte de 
manejar impressões”) que são aprendidas socialmente. Exemplo: usualmente 
sabemos como “despachar” alguém, que no momento está nos “importunando”, de 
forma “educada”, sem com isso provocar um atrito, um conflito com essa pessoa. Ou 
seja, sabemos como empregar determinadasnecessários para a compreensão da análise sociológica, com os 
precursores das ciências sociais e com o surgimento das sociologias sistêmicas. O 
segundo bloco continua discutindo brevemente esse ramo da sociologia (no caso, o 
marxismo) e, em seguida, volta-se para uma outra modalidade de se pensar a 
realidade social: a sociologia compreensiva ou da teoria da ação social. 
Procuramos ser o mais objetivo e didático possível. No interior de cada um 
dos blocos e temas apresentamos alguns conceitos relevantes e atividades 
reflexivas. Pela leitura cuidadosa do texto é possível responder as questões 
propostas. Mas é importante chamar atenção que o presente texto é apenas uma 
introdução ao assunto, sendo necessário que o leitor complemente e solidifique 
seu conhecimento com outras fontes bibliográficas. 
 
Bom estudo! 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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BLOCO 1 
 
PRECURSORES E NASCIMENTO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS. O 
DESENVOLVIMENTO DAS TEORIAS SISTÊMICAS 
 
TEMA 1: O CONHECIMENTO CIENTÍFICO E AS PRINCIPAIS CORRENTES DO 
PENSAMENTO SOCIAL E POLÍTICO QUE INFLUENCIARAM O NASCIMENTO 
DAS CIÊNCIAS SOCIAIS 
 
Noções Elementares de Filosofia da Ciência ou Epistemologia 
Epistemologia (ver glossário) é um ramo da filosofia que tem por objetivo 
principal estudar os pressupostos ou fundamentos do conhecimento científico em 
geral e de cada ciência em particular. A “filosofia da ciência” (o mesmo que 
epistemologia) é uma disciplina extremamente ampla, sobre cujos principais temas 
nem sempre há acordo entre os seus teóricos. A falta de consenso não deve ser 
motivo de grande preocupação ou tampouco de desistência por parte daqueles que 
se iniciam nos meandros do conhecimento científico. Basta observar que, apesar 
dos inúmeros problemas colocados pelos estudiosos da epistemologia, a ciência 
ocupa um lugar de especial relevância no mundo contemporâneo. Além do mais, não 
podemos esquecer que as ciências estão continuamente em formação. Certos 
setores ou limites de uma determinada ciência dão lugar, com o passar do tempo, a 
ciências novas. 
 
Significado da Ciência 
Os teóricos da ciência (epistemólogos) estudam diversas questões, tais 
como os diferentes tipos e evolução das teorias científicas, a lógica da linguagem 
científica e seus aspetos metodológicos, etc. Sem dúvida, o primeiro grande tema da 
epistemologia é definir que tipo de saber é o científico. Várias respostas têm sido 
dadas a essa questão e, de uma maneira geral, nenhuma delas é plenamente 
satisfatória. Definir o que é ciência e compara-la com outras formas de saber e 
expressão do homem (como o saber vulgar, a filosofia, a arte, a moral, a religião, 
etc.) é, portanto, uma tarefa difícil. 
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Momento de Reflexão 
Elabore um pequeno texto dando os significados de: filosofia, estética, moral, 
ética e religião. Para redigir o texto, procure esses termos em um dicionário (de 
filosofia, principalmente). 
_________________________________________________________________
_________________________________________________________________
_________________________________________________________________
_________________________________________________________________
_________________________________________________________________ 
 
Usualmente, a ciência é vista como um saber culto ou desinteressado, que é 
um saber teórico e metódico suscetível de aplicação prática ou técnica. Todas essas 
respostas nos dão algumas informações sobre o tipo especial do saber científico, 
mas nenhuma delas é suficiente. Vejamos apenas um exemplo. Ciência é 
comumente definida como conhecimento metodológico acerca da realidade. Mas 
será que outras modalidades de conhecimento não têm também seus próprios 
procedimentos metodológicos? Não haveria também uma metodologia (ver 
glossário) no conhecimento do senso comum de um cozinheiro que prepara uma 
determinada refeição? 
Não vamos, portanto, definir o que seja ciência. Limitamo-nos apenas em 
apresentar duas características que lhes são essenciais: a) o rigor das suas 
afirmações; b) a maior eficácia na denominação da realidade que ela propõe estudar. 
Trata-se de uma delimitação bastante ampla da ciência e não de uma definição 
propriamente dita. Note que essas duas características são necessárias, mas não 
exclusivas, ao conhecimento científico. 
Por outro lado, é também importante chamar atenção que o rigor e eficácia da 
ciência não lhes dão superioridade em relação às outras formas de conhecimento. 
Não vamos aqui analisar essa questão, mas simplesmente observar que cada uma 
das modalidades de saber tem sobre a ciência sua superioridade em outros 
aspectos. O “mito” de que a ciência é a forma suprema do saber humano é 
proveniente do positivismo (teoria filosófica desenvolvida por Auguste Comte na 
primeira metade do século XIX – ver Conteúdo I, Tema II), cuja influência foi 
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marcante no Brasil. 
 
Agora é hora de trabalhar 
a) Procure em um bom dicionário a diferença entre “rigor” e “eficácia”. Quando um 
determinado conhecimento é rigoroso e quando é eficaz? 
b) Em seguida, procure o significado de ciência e compare com outras modalidades de 
saber (o conhecimento vulgar ou do senso comum, o filosófico, o artístico e o 
religioso). 
c) Até que ponto as características encontradas no conhecimento científico se 
diferem desses outros? Há uma clara e nítida linha de separação entre essas 
formas de saber? 
 
Diversidade da Ciência 
Uma outra temática fundamental da epistemologia diz respeito à 
diversidade das ciências e suas características específicas. Há vários critérios de 
classificá-las e foram muitos os cientistas e filósofos que se ocuparam dessa tarefa. 
Para alguns epistemólogos, todas as ciências possuem características comuns. A 
ideia de uma “unidade da ciência” ou o ideal de uma unificação das ciências é uma 
preocupação antiga e complexa. 
Nem todos os defensores da unidade da ciência têm uma noção idêntica 
acerca desse significado. Atualmente, essa discussão caracteriza-se pela busca de 
integração e síntese entre as diversas ciências. Tal discussão tem levantado a 
questão da “multidisciplinaridade” ou “interdisciplinaridade” do conhecimento 
humano. Esse tema tem sido motivo de amplas discussões e, nos dias atuais, 
muitas universidades nacionais ou estrangeiras têm procurado incentivar a 
criação de programas multidisciplinares, principalmente na pós-graduação. 
Um argumento chave dos adeptos da multidisciplinaridade é o de que a 
realidade deve ser abordada apelando-se às diversas disciplinas a fim de se obter 
uma visão mais globalizada (e não departamentalizada) do objeto de estudo. 
Assim, para multiplicar os ângulos de visão de uma dada realidade, um pesquisador 
pode se inspirar nas perspectivas de disciplinas vizinhas, utilizando-se dos seus 
conceitos e análises, tomando emprestada certas técnicas de abordagem. A 
interdisciplinaridade, por sua vez, pressupõe a existência de um conjunto de 
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princípios teórico-metodológicos que são comuns a duas ou mais disciplinas ou 
ramos do conhecimento. 
As diferenças entre multidisciplinaridade e interdisciplinaridade são mais 
teóricas. Na prática, ambas usualmente são tomadas como sinônimos. 
 
Diferenças Fundamentais entre as Ciências Naturais e as Ciências Sociais“técnicas” sociais nos nossos 
relacionamentos. 
 
As Sociologias Fenomenológicas 
As sociologias fenomenológicas 
guardam algumas semelhanças com o 
interacionismo simbólico. As principais 
correntes de sociologia fenomenológica são: a 
etnometodologia e a sociologia existencial. 
Todas elas receberam grande influência de 
Weber. O principal teórico responsável pelo 
desenvolvimento das sociologias 
fenomenológicas foi o austríaco Alfred Schutz 
(1899-1959) que, antes da Segunda Guerra, 
mudou-se para os Estados Unidos. Schutz é um teórico inovador e sua contribuição 
para as ciências sociais contemporâneas é notável. Aliou o pensamento 
sociológico de Weber com a fenomenologia (corrente filosófica cujos representantes 
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são Husserl, Heidegger, Merleau-Ponty e Sartre). Os principais seguidores do 
pensamento de Schutz foram Peter Berger e Thomas Luckmann, autores de um 
dos livros de sociologia mais lidos atualmente, A Construção Social da Realidade 
(há tradução desse livro para o português). A obra de Schutz (e seus seguidores) está 
voltada para compreender o “mundo da vida cotidiana” ou “mundo do senso comum”, 
isto é, o mundo no qual vivemos diariamente. 
 
Conceito Relevante 
VIDA COTIDIANA – É o conjunto de atividades e conhecimentos do senso comum, 
das relações sociais, das representações, das crenças, dos afetos, dos objetos 
com os quais os indivíduos reproduzem no dia a dia as suas condições de 
existência e, com elas, a das instituições da sociedade em que vivem. É na nossa 
vida cotidiana que se refletem e se articulam as estruturas, os conflitos, as tensões, as 
mudanças da ordem social existente e da qual partem todas as ações destinadas a 
modificá-la. Só recentemente é que as ciências sociais passaram a se preocupar 
com a vida cotidiana das pessoas. 
Todos nós temos o nosso próprio mundo, mas existem numerosos elementos 
comuns a todos. Assim, outras pessoas pertencem ao nosso mundo da vida e nós 
pertencemos aos mundos da vida de muitos outros. Os indivíduos atuam no mundo 
sem duvidar da sua realidade, sem ter a todo o momento consciência de estar 
atuando. Aprendemos desde cedo como atuar com os outros em situações 
rotineiras ou habituais. No nosso mundo social, nos relacionamos muitas vezes com 
as outras pessoas – agimos - sem que estejamos a todo momento questionando 
sobre a veracidade do nosso mundo ou da nossa relação com o outro. Só 
encontramos dificuldades quando nos deparamos com situações que são novas (ou 
relativamente novas), nas quais não sabemos exatamente como agir. Por exemplo, 
todos nós sabemos como nos comportamos diariamente ao jantar (temos os 
nossos hábitos), mas quando somos convidados para um jantar altamente formal (e 
se não temos costume de frequentar esse tipo de reunião), sentimos e passamos 
algumas “dificuldades”. 
 
 
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Fonte: http://mafalda.dreamers.com 
 
Conforme Schutz, a verdadeira realidade social reside justamente no mundo 
de relações que compartilhamos com os demais. A realidade social é esse mundo 
que todos nós vivemos dia a dia, que todos nós (bem ou mal) sabemos como lidar. 
Diferentes dos estruturalistas e marxistas, as sociologias fenomenológicas negam a 
existência de “estruturas ocultas” (normas, valores, princípios) que determinam as 
nossas relações cotidianas. Isso não significa dizer que a sociologia fenomenológica 
negue a existência de normas e valores sociais. Elas existem. Mas elas são geradas – 
“construídas” – pelas ações e interações entre as pessoas. Sociedade, portanto, é um 
eterno processo de relações sociais. A Etnometodologia é um ramo da sociologia 
fenomenológica. Está voltada para estudar os métodos que as pessoas utilizam 
cotidianamente para viver no mundo social. Assim, os etnometodólogos estudam os 
procedimentos mais comuns que os sujeitos podem identificar para dar coerência e 
compreensão aos próprios comportamentos e aos dos outros. A etnometodologia 
está preocupada principalmente com os micros eventos que tornam possível a 
interação social e que são assumidos pelos sujeitos como dados óbvios. São os 
micros eventos, as pequenas tarefas, que constituem a vida cotidiana. O principal 
teórico da etnometodologia foi Harold Garfinkel. 
O objetivo da etnometodologia não é exatamente explicar o sentido que os 
sujeitos atribuem à própria ação, conforme a concepção weberiana de ação social, 
mas os mecanismos que levam qualquer indivíduo a tomar certos eventos como 
fatos ou dados, sobre os quais se constroem os significados. 
A sociologia existencial, por sua vez, preocupa-se com os modos pelos 
quais as pessoas pensam e atuam, principalmente os sentimentos e emoções 
que os indivíduos experimentam quando atuam socialmente. Ela está voltada 
principalmente para o estudo do papel das emoções na vida humana, para a 
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http://mafalda.dreamers.com/
 
 
 
 
 
 
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natureza e responsabilidades da liberdade humana e para os aspectos considerados 
usualmente como irracionais da vida. A influência da filosofia existencialista, 
principalmente de Sartre, é significativa nesse ramo da sociologia compreensiva. Os 
principais representantes da filosofia existencial são John Johnson, Jack Douglas e 
Joseph Kotarba. 
 
Momento de Reflexão 
Com base na leitura do tema 4, estabeleça algumas distinções entre a sociologia 
sistêmica (positivismo, marxismo, funcionalismo e estruturalismo) e a sociologia 
compreensiva (Weber, interacionismo simbólico e sociologia fenomenológica). Essas 
duas vertentes da análise sociológica são necessariamente opostas entre si? 
Justifique a sua resposta. 
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A História e as Modernas Teorias da Ação Social 
Uma das grandes contribuições das teorias modernas da ação social para a 
história foi a de desenvolver a preocupação com o estudo de eventos singulares da 
vida cotidiana. Com isso, os historiadores passaram a pesquisar cada vez mais 
temas até então não considerados pela sua ciência, como hábitos alimentares, 
provérbios, convivência entre vizinhos, os espaços privados, gestos, etc. 
 
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Resumo Esquemático do Bloco II 
1.0 A teoria marxista clássica de Marx. O materialismo histórico e o modo de 
produção capitalista. 
2.0 Variedades do marxismo no século XX. 
2.1 Lukács, Gramsci, a Escola de Frankfurt e Althusser 
3.0 A sociologia compreensiva e as teorias da ação social 
3.1 Conceito de ação e interação social 
3.2 Simmel e Mead (pragmatismo) 
3.3 Max Weber. Compreensão, tipo ideal e ação social 
Modernas teorias da ação social.O interacionismo simbólico (Goffman) e a 
sociologia fenomenológica (Schutz). O significado de vida cotidiana. 
 
Atividade Complementar 
1 Com base no conceito weberiano de tipo ideal, estabeleça os traços que lhe 
parecem essenciais com relação ao “aristocrata”, à “prostituição feminina”, à 
“patricinha”. 
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2 Elabore um texto apresentando os pressupostos que estavam subjacentes em 
um acontecimento qualquer que você viveu ontem (por exemplo, uma conversa com 
um amigo, o jantar, uma conversa ao telefone, etc.). 
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Glossário 
AUTONOMIA CIENTÍFICA – Equivale à condição de independência da ciência 
em relação às outras formas de saber (como a filosofia, a religião, a moral) ou a 
independência de uma ciência em relação às demais. Costuma-se estabelecer 
que a condição de autonomia científica existe quando a ciência em questão 
possui objeto próprio e procedimentos metodológicos específicos. 
CAPITAL – É a denominação genérica para o conjunto de bens produzidos em 
determinado momento, principalmente máquinas e equipamentos (meios de 
produção), que participam da produção de outros bens. Capital também tem o 
significado de recursos monetários investidos ou disponíveis para investimento 
CAPITALISMO – Sistema econômico baseado: a) na propriedade privada dos 
meios de produção; b) na organização produtiva que visa a obtenção do lucro; c) no 
emprego de trabalho assalariado (ou seja, o indivíduo que só obtém seus meios 
de subsistência vendendo a própria força de trabalho aos proprietários dos meios de 
produção). Nesse tipo de sistema, o domínio do capital exerce um papel 
preponderante. 
COMPREENSÃO – É a forma de conhecimento peculiar das chamadas ciências 
humanas, sociais ou culturais (embora essas ciências não dispensem a 
explicação). Compreensão é uma forma de apreensão que se refere às expressões 
ou manifestações dos seres humanos, como os gestos, hábitos, linguagem, 
objetos da cultura. Observe o prefixo latino “com” do termo significando 
“companhia”, “contiguidade”. O que fundamentalmente se busca no método 
compreensivo é o significado (o sentido) que o sujeito atribui à própria ação 
quando se encontra em relação com outros. Wilhelm Dilthey, filósofo alemão do 
final do século XIX, foi um dos primeiros a discutir o significado de compreensão 
como um método característico das ciências humanas. Para esse autor, 
compreender é “conhecer sentidos”, isso porque somente o humano faz sentido 
para o homem. A compreensão pressupõe, portanto, uma “hermenêutica”, isto é, 
uma “interpretação”. 
CULTURA – Há um grande número de definições sobre cultura. Há duas 
dimensões nesse conceito: a objetiva e a subjetiva. A objetiva refere-se ao 
patrimônio intelectual e material constituído: a) por valores, normas, linguagens, 
símbolos, modelos de comportamento de um grupo social; b) pelos meios materiais 
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para a produção e reprodução social do homem. A dimensão subjetiva diz respeito ao 
processo de humanização do homem, a aquisição e o desenvolvimento gradual das 
faculdades mais elevadas, através da educação, da filosofia, das artes. As ciências 
sociais lidam mais com a primeira dimensão da cultura (a objetiva) 
DEMOCRACIA – Essa palavra significa etimologicamente “governo do povo”. 
Trata-se de uma forma de governo na qual as decisões básicas da política pública 
são determinadas pela totalidade do povo. Uma definição famosa desse termo foi 
dada por Abraham Lincoln: “governo do povo, pelo povo e para o povo”. Democracia 
também designa a doutrina que elabora os valores e os argumentos para legitimar no 
plano ético e prático tal forma de governo. Embora o conceito seja relativamente claro, 
na prática torna-se um tanto obscuro devido a diversidade de formas governamentais 
que são chamadas democráticas. Há um outro aspecto no significado desse termo: a 
ideia de igualdade. A concepção de que é as decisões políticas básicas são 
determinadas pela totalidade do povo envolve a noção de que cada indivíduo tem 
direito de expressar a sua opinião (a ideia de “um homem, um voto”). Uma 
discussão moderna da ideia de igualdade diz respeito ao significado deste termo: 
trata-se de igualdade “política” (democracia social) ou “econômica” (democracia 
econômica”)? Atualmente a forma de democracia mais dominante é a “liberal”. O 
termo “liberal” aplicado ao sistema de governo implica uma preocupação em proteger 
a liberdade individual, limitando o poder governamental. 
DIVISÃO DO TRABALHO – Esse conceito refere-se à diferenciação de 
atividades no processo produtivo de uma sociedade ou em seus grandes setores 
(como a agricultura, a indústria, a educação dos filhos, etc.). Quanto mais complexa 
é a sociedade (como nas “sociedades modernas”), maior é a divisão do trabalho, 
devido ao fato de que nela existem ramos cada vez mais especializados que são 
confiados a indivíduos que se ocupam somente de certos aspectos da vida social, 
em combinação (direta ou indireta) com outras especialidades. 
EPISTEMOLOGIA – É proveniente de duas palavras gregas: episteme (ciência) e 
logos (teoria). Parte da filosofia que se ocupa com a teoria do conhecimento 
científico, isso é, a natureza dos fundamentos do saber científico, de sua validade, 
limites e condições de produção. Os filósofos anglo-saxônicos tendem a usar a 
expressão “gnosiologia” como sinônimo de “epistemologia”. Na nossa língua, o termo 
gnosiologia é usualmente empregado com mais frequência para designar a “teoria do 
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conhecimento em geral” e epistemologia para se referir à “teoria do conhecimento 
científico”. 
ESTADO – Esse conceito refere-se a três elementos básicos. O primeiro diz 
respeito a um conjunto de instituições relacionadas com a coerção social 
(instrumentos de dominação e defesa para manter a estabilidade social). Segundo: 
essas instituições são geograficamente definidas por um território. Terceiro: o 
Estado monopoliza a constituição das normas jurídicas dentro do seu território. 
Nesse aspecto, Estado significa o conjunto dos poderes políticos e administrativos 
regulados em uma dada nação soberana ou em um território determinado. 
EXPLICAÇÃO – Esse termo designa o processo exploratório mediante o qual se 
torna inteligível ou claro o que está ambíguo, envolto ou latente. É pela busca das 
causas (do “porquê”) de um fenômeno que se torna possível esse processo de 
assimilação da realidade. Observe o prefixo latino “ex” desse termo, o qual implica 
um “distanciamento”, um “movimento para fora”, uma “separação”. Toda explicação 
parte de uma hipótese geral ou uma proposição que tem um caráter de uma lei 
natural e, em seguida, é deduzida umasérie de proposições que são válidas 
somente para o caso considerado. Nesse sentido, há uma possibilidade de 
prognosticar a aparição de fenômenos. A explicação se distingue na “compreensão”, 
embora essa diferença não seja algo simples. 
IDEOLOGIA – Há vários significados para esse termo e, consequentemente, é 
difícil dar uma definição que convenha a todos. De uma maneira geral, ideologia 
refere-se ao conjunto de valores, crenças, opiniões e atitudes que representam 
interesses de grupos sociais. Essa palavra foi criada por Destutt de Tracy em 1796 
para designar uma disciplina filosófica cujo objetivo era analisar as ideias. 
Posteriormente esse termo adquiriu um sentido pejorativo, significando “falsa 
consciência” ou ocultação da realidade social. Usualmente, a palavra ideologia é 
empregada para designar uma “teoria falsa” (como oposição ao alcançar 
determinados fins propostos de antemão. Em princípio, método se contrapõe à sorte 
ou acaso. Uma característica fundamental do método é a de que ele não é um 
empreendimento individual (mesmo que esteja limitado a certos fins), mas um 
conjunto de regras que pode ser usado e aplicado por qualquer pessoa. 
METODOLOGIA – Estudo dos princípios e dos métodos de pesquisa. Uma 
preocupação básica da metodologia é a de explicitar as principais chaves da 
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objetividade e da validade dos saberes construídos. 
POLÍTICA – Enquanto um ramo das ciências sociais (também conhecido como 
“politologia”), refere-se ao estudo de questões levantadas pela organização dos 
seres humanos em sociedade, em particular as questões suscitadas pelo mando de 
uns homens sobre outros para realizar certos fins comuns. A Ciência Política (às vezes 
também chamada de sociologia da política) lida com um conjunto de temas, tais como 
a estrutura e formas de governo, a legitimidade do governo, as fontes do poder, os 
direitos e deveres dos indivíduos ou do Estado, a natureza e formas da justiça, etc. 
UTOPIA – Termo utilizado para descrever uma comunidade ideal que está livre de 
conflitos, na qual incorpora um conjunto de valores que propiciam a satisfação 
das necessidades humanas. A importância da utopia é a de que ela serve para 
apresentar e tentar solucionar as tensões de uma sociedade. Uma análise 
sistemática (e clássica) da utopia foi desenvolvida pelo sociólogo alemão Karl 
Mannheim em seu livro Ideologia e Utopia (1929). Para esse autor, o pensamento 
utópico aparece em momentos de insegurança social e quebra da autoridade 
estabelecida. Reflete os limites de possibilidades estabelecidas por uma 
sociedade existente. No século XX, uma forma característica de utopia está 
presente nas concepções socialista e liberalista da sociedade. Uma outra 
modalidade da utopia contemporânea é a chamada “ecotopia”: a ideia de uma 
sociedade onde o homem e a natureza vivem em harmonia. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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Referências Bibliográficas 
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BONTE, P., IZARD, M. (Dir.) Dicionário Crítico de Sociologia. São Paulo: Ática, 
1993. 
BURGUIÈRE, A. (Org.) Dicionário das Ciências Históricas. Rio de Janeiro: Imago 
Ed., 1993. 
CHATELET, F. (Ed.). Dicionário de Obras Políticas. Rio de Janeiro: Civilização 
Brasileira, 1993. 
CORCUFF, P. As novas sociologias. Construções da Realidade Social. São 
Paulo: EDUSC, 2001. 
DURKHEIM, E. As Regras do Método Sociológico. São Paulo: Abril Cultural, 1978 
(Coleção Os Pensadores) 
GALLINO, L. (Dir.). Dicionário de Sociologia. São Paulo: Paulus, 2005. 
GIDDENS, A. Política, Sociologia e Teoria Social: encontros com o pensamento 
social clássico e contemporâneo. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1998. 
GIDDENS, A. Em Defesa da Sociologia. São Paulo: Editora UNESP, 2001 
MACHADO NETO, A.L., MACHADO NETO, Z. Sociologia Básica. São Paulo: 
Saraiva, 1978. 
OUTHWAITE, W. Entendendo a Vida Social. Brasília: Editora Universidade de 
Brasília, 1985. 
THINES, G., LEMPEREUR, A. (DIR.) Dicionário Geral de Ciências Humanas. 
Lisboa: Ed. 70, 1984. 
WEBER, M. A Ética protestante e o “Espírito” do Capitalismo. São Paulo: 
Companhia das Letras, 2004. 
76A epistemologia usualmente identifica três grupos distintos de ciência: a) as 
ciências lógico-matemáticas; b) as da natureza (como a física, a química, a biologia e 
a astronomia); c) as humanas, que são, às vezes, também denominadas culturais ou 
humanísticas (como a sociologia, a história e a antropologia). Vamos nos deter 
brevemente nesses dois últimos grupos. 
 
 
Ciências Naturais 
As ciências naturais têm por objeto geral o estudo da natureza ou dos 
fenômenos do mundo natural. O exemplo mais eminente dessas ciências é a 
física. Os cientistas que trabalham com os fenômenos naturais partem de um 
conjunto de pressupostos: a) são acontecimentos reais que se caracterizam por 
serem “exteriores” ou “independentes” ao espírito, à ideia, à consciência, à vontade, 
à conduta ou cultura humana; b) são neutros aos valores humanos (por exemplo, para 
a astronomia o “pôr do sol” não é em si mesmo bonito nem feio); c) ocorrem de forma 
ordenada no tempo e no espaço; d) se manifestam mediante leis (deterministas ou 
estatísticas); d) podem ser objeto de experimentação, isso é, podem ser conhecidos 
mediante a provocação de uma determinada situação, como ocorre em um 
laboratório de química (é claro que não para todos os fenômenos naturais, como 
na astronomia); e) são apenas “explicados” (ver significado de explicação no 
glossário) por métodos (ver glossário) específicos. 
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Vejamos um exemplo: Suponhamos que um pedaço de rocha retirada de um 
penhasco seja objeto de investigação para um geólogo. O que provavelmente 
faria esse cientista natural? Em primeiro lugar, descreveria detalhadamente esse 
objeto de acordo com o seu conhecimento e com os recursos tecnológicos 
disponíveis. Através de experimentos laboratoriais, verificaria, por exemplo, que a 
rocha é dotada de uma certa dureza, cujas partículas constitutivas (átomos, íons 
ou moléculas) são compostas de determinados elementos químicos (como sílica, 
óxidos de chumbo e de potássio) arrumados regularmente. Poderia perguntar em 
seguida sobre o porquê dessa rocha estar encravada naquele penhasco. Para isso 
estabeleceria uma longa cadeia causal com o objetivo de entender o processo 
geológico ocorrido. Explicaria, portanto, o seu objeto. A sua missão estaria cumprida. 
Enquanto geólogo, não teria sentido perguntar ao “para que” daquela rocha, isso é, a 
sua finalidade. Que descoberta científica chegaria esse geólogo se partisse do 
princípio de que aquela é rocha é bonita? 
 
Agora é hora de trabalhar 
1 – Um determinado noticiário, o locutor nos diz que a previsão do tempo para o cair 
da tarde será de chuva. Analise quais são as implicações que estão subjacentes a 
essa afirmação. Discuta na sua análise as características que foram apresentadas 
sobre o conhecimento das ciências naturais. 
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2 – Coloco uma pedra para proteger do vento as folhas de papel almaço que estão 
sobre a minha mesa. Nesse fato, o que seria fenômeno da natureza e fenômeno 
humano? 
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3 – Agora discuta se é possível compreender uma situação humana que seja 
bastante estranha a nossa experiência pessoal. Dê exemplos. Analise, de acordo com 
os pressupostos apresentados sobre as ciências humanas, o que significa 
compreender a seguinte fato: a antropofagia de algumas tribos indígenas 
fundamentava-se na crença de que comendo a carne de alguém se adquiria o seu 
valor e a sua força. 
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Ciências Sociais 
As ciências humanas, sociais ou culturais são mais recentes. Surgiram no 
século XIX. Elas têm como objeto de estudo o ser humano e suas atividades 
sociais e culturais. Podemos resumir as características principais desse objeto nos 
seguintes itens: a) os fenômenos humanos se dão no tempo e espaço (são 
condicionados pelo ambiente social); b) são motivados e têm um sentido finalístico; 
c) são positivo ou negativamente valiosos; c) são compreendidos (e não apenas 
explicados, como os fatos da natureza). Nesse caso, a explicação sempre segue a 
compreensão (ver glossário). 
Devido as características próprias do objeto sociocultural, podemos 
entender as dificuldades que as ciências sociais enfrentam ao lidar com a objetividade 
científica. Observe que enquanto o cientista da natureza está destacado de seu 
objeto, o cientista social é, antes de mais nada, um ser social e como tal é parte do 
objeto que estuda. Nesse sentido, o cientista social tem sempre uma perspectiva de 
ver o seu objeto de estudo, um “olhar de viés”, devido ao fato dele ser um sujeito que 
inevitavelmente sofre as influências do meio em que vive. 
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Momento de reflexão 
Reflita sobre os riscos do comprometimento sociocultural que estão 
presentes nas investigações dos pesquisadores dos fenômenos humanos. O que 
seria um conhecimento rigoroso e eficaz nas ciências sociais? 
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É importante salientar que os cientistas sociais estão sempre procurando 
desenvolver métodos e modalidades de pesquisa que sejam mais adequados para os 
seus estudos. As diversas modalidades de entrevistas, de questionários, de história 
de vida, de análise de documentos e de observação são alguns exemplos de técnicas 
de pesquisa desenvolvidas pelos cientistas sociais. 
De uma maneira geral, há dois grandes procedimentos metodológicos nas 
pesquisas socioculturais: a quantitativa e a qualitativa. A primeira caracteriza-se por 
mensurar de modo preciso o real. Preocupa-se, portanto, em estabelecer medidas 
(principalmente estatísticas) que possam “quantificar” as observações. As chamadas 
“pesquisas de opinião”, como as pesquisas eleitorais, utilizam-se de procedimentos 
quantitativos. As pesquisas qualitativas estão voltadas para apreender e explicitar o 
sentido da atividade social, isso é, as significações internas dos comportamentos, 
tais como motivações, representações e valores, que são dificilmente 
quantificáveis. 
 
Agora é hora de trabalharUsualmente se fala que existe oposições entre os métodos quantitativos e 
qualitativos. Os defensores da quantificação consideram que seus “opositores” 
desenvolvem um saber “mole”, de pouca validade, sobre a realidade humana. Por 
sua vez, os defensores do qualitativo criticam seus “adversários” argumentando 
que estes truncam o real, afastando numerosos aspectos essenciais à compreensão 
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dos acontecimentos e situações humanas. Até que ponto esses procedimentos são 
válidos? Existe superioridade de um método em relação ao outro? Para refletir sobre 
essas questões pense em dois aspectos importantes: 
a) A escolha do procedimento mais apto depende do problema específico a ser 
estudado; 
b) Para construir suas quantificações, o pesquisador precisa, em primeiro lugar, se 
afastar de inúmeras convenções estatísticas a fim de obter “conceitos” que possam 
ser mensuráveis. 
 
As Ciências Sociais e a História 
A história é uma modalidade de saber que já existia entre os antigos gregos. 
Heródoto e Tucídides foram os primeiros “historiadores” do mundo ocidental. Foram 
eles que iniciaram a “historiografia”, isso é, relato de fatos passados. Mas a história 
se constitui como uma ciência propriamente dita a partir do século XIX. Foi nesse 
século que os historiadores passaram a se preocupar com as questões 
epistemológicas e os métodos da historiografia, tais como a crítica das fontes, as 
formas de apresentação e organização do material histórico, a compreensão e 
explicação dos fatos históricos, etc. 
São inúmeras as relações entre a história e a sociologia. Basta observar que 
ambas lidam com a vida social. Para alguns estudiosos, a história fundamenta 
a compreensão e explicação de todo o 
comportamento humano. Mas há também diferenças 
significativas entre essas duas ciências. Vamos 
identificar brevemente apenas uma delas. A história 
trata de acontecimentos individuais, particulares, 
únicos. É uma ciência idiográfica. A sociologia, por 
outro lado, é uma ciência nomotética, pois lida com 
generalizações, um conjunto de proposições que 
expressam “leis”. Vejamos um exemplo. Caio Júlio 
César é um personagem concreto da história 
(romana). As suas ações são temas da história. O 
“cesarismo” (governo despótico), por sua vez, é uma 
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generalização que se pode aplicar, de forma mais ou menos adaptada, a 
determinados acontecimentos relacionados com os sistemas de governo em que o 
governante se investe de poderes absolutos. 
O “cesarismo” é tema da sociologia. Um outro exemplo: um pensador 
nomotético generaliza as revoluções sociais, enquanto um analista idiográfico se 
fixará principalmente nos fatos específicos que conduziram uma determinada 
revolução. 
 
Conceitos relevantes 
CIÊNCIAS IDIOGRÁFICAS – Segundo Wilhelm Windelband (1848-1915), 
famoso filósofo e historiador alemão, as ciências idiográficas são aquelas que 
descrevem e analisam fatos singulares. É peculiar do tratamento histórico. 
CIÊNCIAS NOMOTÉTICAS – Segundo esse mesmo autor, referem-se às 
ciências que tratam de acontecimentos genéricos. Ou seja, são ciências que, na 
posse de fatos singulares, vão buscar o que há neles de comum, para que assim 
possam proceder à generalização. As ciências da natureza e a sociologia são 
exemplos de ciências nomotéticas, embora existam diferenças significativas entre 
elas. 
É importante salientar, contudo, que nem todos os cientistas sociais 
partilham de uma visão idiográfica para caracterizar a história. Muitos teóricos – 
como os positivistas e grande parte dos marxistas – partiam do princípio de que há um 
processo “natural” na história humana, isso é, os eventos históricos apresentam 
padrões e tendências específicas. Somente pela abordagem científica é que se 
torna possível a descoberta desses padrões. Nesse sentido, a história ser objeto de 
conhecimento nomotético. Atualmente, tais concepções têm sido amplamente 
criticadas. 
 
Principais Correntes Sociais e Políticas da Antiguidade que Influenciaram o 
Nascimento das Ciências Naturais 
As ciências sociais surgiram a partir do século XIX. Foi nesse século que 
elas passaram a ter autonomia científica (ver glossário), com objeto próprio e 
metodologia peculiar. Mas essa autonomia não surgiu repentinamente. Os 
primeiros sociólogos não construíram cientificamente a sua ciência do nada. O 
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amadurecimento do espírito científico para lidar com os temas sociais contou com a 
contribuição de vários pensadores ou filósofos sociais. São os precursores das 
ciências sociais. 
Os “precursores” das ciências sociais foram “filósofos sociais” e não 
“cientistas sociais”. Embora existam estreitas ligações entre a filosofia e as ciências 
sociais, há algumas diferenças fundamentais. Uma delas é que a ciência trata apenas 
do que é, como e por que é, e não propor formas ideais de organização e governo 
que a sociedade deveria ter (preocupação dos filósofos sociais). Além do mais, a 
filosofia se ocupa usualmente com questões de essências ou natureza de uma 
realidade, enquanto a ciência limita-se a descrever e interpretar a realidade. 
Podemos identificar os precursores das ciências sociais desde a antiguidade, 
como no caso dos sofistas Platão e Aristóteles. Na Idade Média encontramos a figura 
do bérbere Ibn Kaldun. No Renascimento, autores como Machiavelli, Campanella, 
Hobbes, Thomas More e muitos outros contribuíram para a formação do pensamento 
científico dos fenômenos humanos. Os precursores mais imediatos das ciências 
socais foram os filósofos iluministas. Na presente sessão (conteúdo III), estudaremos 
apenas os precursores das ciências sociais na antiguidade e no período medieval. 
 
A Descoberta do Homem pelos Sofistas 
O sofisma (palavra que deriva da raiz “sofia”, sabedoria ou “especialista do 
saber”) foi um movimento filosófico que ocorreu nos séculos V e IV a.C. Seus principais 
representantes foram Protágoras de Abdera, Górgias e Hípias. Os sofistas 
operaram uma verdadeira revolução filosófica na Grécia antiga. Os primeiros 
pensadores gregos (Tales de Mileto, Anaximandro de Mileto, Parmênides, Heráclito, 
etc.) desenvolveram uma filosofia que tinha por principal objetivo explicar os 
fundamentos últimos de todas as coisas (“físicas”) que existem. Os sofistas 
deslocaram esse eixo filosófico para o entendimento da vida humana como 
membro de uma sociedade. Daí a preocupação pelos aspectos culturais, como a ética, 
a política, a arte, a língua e a educação. Além do mais, os sofistas visavam 
objetivos práticos. Havia um compromisso pedagógico entre eles. Eram 
professores ambulantes que iam de cidade em cidade, ensinando os jovens 
mediante uma retribuição em dinheiro 
Protágoras de Abdera (século V a.C.) foi o mais famoso de todos eles. 
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Tornou-se conhecido pelo seu célebre axioma de que “o homem é a medida de 
todas as coisas, daquelas que são por aquilo que são e daquelas que não são por 
aquilo que não são”. Medida aqui tem o significado de “norma de juízo”; e “todas as 
coisas” refere-se aos fatos e experiências em geral. Protágoras pretendia negar a 
existência de um critério absoluto que discrimine o verdadeiro e o falso. O único 
critério é somente o homem. Com isso, afirmava o princípio do relativismo, 
destruindo a possibilidade de sealcançar uma “verdade” absoluta. Um outro 
axioma famoso: “Para quem está com frio, é frio; para quem não está, não é”. 
Embora tenham manifestado uma notável liberdade de espírito em relação à 
tradição e às normas vigentes, os sofistas terminaram proclamando através dos 
seus “discursos demolidores” e céticos a inconsistência das coisas, 
abandonando o ponto de vista da razão (pensamento) e da verdade. Os filósofos 
posteriores (Sócrates, Platão e Aristóteles) os criticaram duramente pelo excesso de 
relativismo. 
 
Platão (428/427 – 347 a.C.) 
Platão nasceu em Atenas, de uma família 
aristocrática. Seu verdadeiro nome era Aristocles 
(Platão, seu apelido, significa “o de ombros largos”). 
Teve uma grande influência de Sócrates e após a 
morte do seu mestre fundou uma escola em Atenas, 
que deu o nome de Academia, por estar situada nos 
jardins dedicados ao herói ateniense Academos. 
Eram três as principais funções dessa escola: prestar 
o culto às musas, desenvolver atividades filosóficas e pedagógicas. A Academia 
platônica teve longa vida. Só foi fechada em 529 d.C., por decreto do imperador 
Justiniano. 
Grande parte dos escritos de Platão chegou até os nossos dias. Por essa 
razão é possível conhecer em maior profundidade a sua filosofia. Os seus trabalhos 
em política (A República e As Leis) têm uma marcada influência na constituição do 
pensamento político. (ver no glossário o significado de política). 
Uma das questões fundamentais pensadas por Platão diz respeito à 
natureza da “justiça”. Essa questão recebe solução adequada através da análise de 
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como nasce (e se corrompe) um Estado perfeito. (ver no glossário o significado de 
Estado). Para Platão, um Estado nasce porque o indivíduo não é “autárquico”, isso 
é, não se basta a si mesmo e, portanto, tem necessidade dos serviços de outros. Em 
primeiro lugar, são imprescindíveis os serviços daqueles que provêm às 
necessidades materiais dos homens; em segundo, são necessários os serviços 
daqueles que são responsáveis pela guarda e defesa do Estado; em terceiro lugar, são 
necessários os serviços dos que governam. Daí a existência de três classes: a) dos 
lavradores, artesãos e comerciantes; b) dos guardas ou vigilantes ou guerreiros; c) 
dos governantes ou filósofos. 
Há uma estreita correlação entre estas classes e as faculdades da alma 
humana (ou “virtudes”). Para a classe produtora, essa virtude é a temperança (ordem, 
domínio e disciplina dos prazeres e desejos); a dos guardas é a fortaleza e a dos 
governantes, a sabedoria e a justiça. A justiça é o equilíbrio ou boas relações que se 
estabelecem entre os indivíduos e com o Estado, e entre as diferentes classes 
entre si com a comunidade social. Assim, a justiça é que rege e determina a vida do 
corpo político (o Estado). Para que a justiça possa ser perfeita, é necessário um 
Estado perfeito e, para isso, uma educação perfeita. 
Há três diferentes constituições históricas do Estado: a) a de um só homem 
que governa (monarquia); b) a que é governado por vários homens ricos 
(aristocracia); a que é governada pelo povo (democracia - ver significado de 
democracia no glossário). Quando essas formas de constituição políticas se 
corrompem e os governantes buscam os seus próprios interesses, surgem: a) a 
tirania; b) a oligarquia; c) a demagogia. Conforme Platão, quando o Estado é bem 
governado, a primeira forma de governo (monarquia) é a melhor. 
 
Aristóteles (384/383 – 322 a. C.) 
Aristóteles é considerado por muitos estudiosos como o maior filósofo da 
história humana. Nasceu em Estagira. Seu pai era médico. Foi preceptor de 
Alexandre Magno. Fundou em Atenas uma escola que deu o nome de “Liceu”, um 
centro de pesquisa das mais diversas disciplinas e que, diferente da Academia 
platônica, teve vida curta. O próprio Aristóteles teve uma preocupação com o 
conhecimento enciclopédico, escrevendo sobre diferentes temas (física, biologia, 
psicologia, ciências naturais, ética, filosofia, lógica, retórica, política, etc.). Discípulo 
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de Platão, Aristóteles desenvolveu um pensamento filosófico profundamente original, 
o qual exerce influência até os nossos dias. Aqui iremos apenas resumir a sua 
contribuição ao pensamento político. Nesse setor, o seu livro fundamental é A 
Política. 
Para Aristóteles, a política tem por objetivo estudar a conduta dos homens 
como parte de uma sociedade (não como 
indivíduos) e os fins que eles querem atingir. Ou 
seja, a preocupação da “ciência política” é com o 
homem enquanto um ser que vive em 
sociedade, como um “cidadão”. Conforme 
Aristóteles, cidadão não se refere apenas 
aquele que vive em uma pólis (Cidade-Estado), 
mas aquele que participa da administração 
das coisas públicas, isso é, faz parte das 
assembleias que legislam e governam as 
Cidades-Estados e administram a justiça. Consequentemente, qualquer indivíduo que 
não seja livre (como os escravos) ou que não tenha “tempo livre” necessário para 
participar da administração das coisas públicas (como os operários) não são 
cidadãos. 
O Estado pode ter diferentes formas ou constituições. A constituição é a 
estrutura que dá ordem ao Estado, estabelecendo a autoridade soberana e 
funcionamento dos cargos. O poder do soberano pode ser exercido por um só homem 
(monarquia), por poucos homens (oligarquia) ou pela maior parte dos homens 
(democracia). Mas essas três formas podem se degenerar se os governantes se 
deixam arrastar pelo seu interesse pessoal. Aristóteles insiste especialmente nas 
vantagens do “regime misto” ou “república”, mistura ou combinação das formas puras, 
por considerar que é o regime de maior estabilidade e segurança. 
 
Conceito relevante 
REPÚBLICA – Sistema de governo em que um ou vários indivíduos eleitos pelo 
povo exercem o poder supremo de um Estado por tempo determinado. O Estado 
ideal é aquele que incrementa os valores morais, a justiça e o bom senso entre os 
homens. Para isso, é necessário que o Estado não seja muito populoso, mas grande 
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o bastante para satisfazer as necessidades sem produzir o supérfluo. 
 
Idade Média 
A Idade Média deixou importantes contribuições para o estudo dos 
fenômenos humanos através de pensadores como Santo Agostinho (354 – 430) e São 
Tomás de Aquino (1125-1274). Entre os pensadores sociais da Idade Média, cabe 
destacar o árabe Ibn Kaldun (1332-1406). Ele antecipou, em certos aspectos, a 
moderna teoria científica (e também geográfica). Para esse filósofo, as formas de 
vida social são determinadas pelo ambiente geográfico, o qual institui duas formas 
diferentes e antagônicas de civilização: aquela que é resultante da planície fértil, 
“habitat” dos sedentários (que constroem cidades, são dados ao luxo e aos prazeres 
e não possuem uma sólida coesão social) e a resultante do deserto, ambiente da vida 
nômade, onde os indivíduos são resistentes ao desconforto, são dotados de espíritos 
belicosos e desenvolvem maior coesão social. 
 
 
O que Ibn Kaldun chamava a atenção era para o fato de que os nossos 
estilos de vida e pensamento são determinados, em última instância, pelo contexto 
em que vivemos. 
 
Época Moderna e os Precursores Imediatos das ciências Sociais: o 
Renascimento 
No final da Idade Média – o Renascimento – as reflexões sobre as questões 
sociais e políticas foram mais significativas para o desenvolvimento posterior das 
ciências sociais. 
 
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Conceito Relevante 
RENASCIMENTO – Caracteriza-se Por ser uma época marcada por grandes 
transformações e crises (séculos XV e XVI). Trata-se de um período em que se 
tornou problemática a situação religiosa vivida pelo homem na Idade Média; as nações 
começavam a constituir-se e assegurar o poder soberano do Estado, sendo objeto de 
preocupação por todos aqueles interessados pelas questões sociais e políticas. O 
mundo é ampliado pelos descobrimentos, o crescimento tecnológico é bastante 
significativo (imprensa, armas de fogo, etc.) e o humanismo se prolifera rapidamente. 
Era extremada a devoção pelos autores gregos e latinos. 
O pensamento humanístico no Renascimento é formado por vários 
pensadores que tiveram intensa preocupação com as questões da política e do 
Estado, cabendo destacar: Tommaso Campanella (1569-1639), autor de uma utopia de 
tendência socialista (A Cidade do Sol) inspirada na República de Platão; o holandês 
Erasmo de Rotterdam (1465-1536), autor dos livros Elogio da Loucura e Manual do 
Príncipe Cristão; Thomas More (1478-1535) que escreveu A Utopia, um ideal do 
Estado também de tipo socialista; Thomas Hobbes (1588- 1679), autor de Leviatã e o 
florentino Nicolau Maquiavel (1469-1527). 
 
Thomas More (1478-1535) 
O inglês Thomas More foi um humanista estudioso do Direito e dedicou-se à 
teologia e às literaturas grega e latina. No seu livro A Utopia retratou a vida em uma 
imaginária ilha chamada Utopia (que significa 
“lugar nenhum” - ver glossário), cujos habitantes 
acham uma estupidez em não procurar o prazer 
por todos os meios possíveis. Mas o verdadeiro 
prazer não está simplesmente na volúpia ou na 
sensualidade, mas na virtude (a compreensão 
dos bens e da justiça). 
Mediante uma descrição de uma 
sociedade imaginária, Thomas More critica a 
estrutura social, política e econômica vigente na 
Inglaterra. Assim, o grande valor do seu livro (A Utopia) está precisamente na crítica 
subjacente aos regimes políticos da época. Thomas More procura abolir a ideia de 
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propriedade individual e absoluta. 
Por exemplo, os utopianos trocam de casa a cada dez anos; no centro de cada 
quarteirão das cidades encontra-se um mercado de coisas necessárias à subsistência 
onde cada pai de família vai buscar gratuitamente tudo o que necessita para os membros 
da sua família. A organização política é regulada por um regime democrático, com um 
sistema de eleição que não permite o abuso da autoridade. O Estado não impõe 
nenhum credo à sociedade e assegura a tolerância religiosa. 
 
Maquiavel (1469-1527) 
Um grande precursor das ciências sociais foi Maquiavel. Ele revolucionou a 
história das teorias políticas com o seu livro O Príncipe, uma espécie de manual político. Esse 
livro tem sido objeto de várias controvérsias e tradicionalmente tem sido identificado 
como um manual de técnicas de despotismo e 
seu autor, um talentoso oportunista político. Até 
então, a teoria do Estado e da sociedade estava 
limitada a especulação filosófica. Platão, 
Aristóteles, Santo Agostinho e muitos outros 
teóricos estudaram esses assuntos vinculando-os à 
moral e buscando formas ideais de organização 
política e social. Mesmo os contemporâneos de 
Maquiavel (como Erasmo de Rotterdan ou Thomas 
More) não fugiram a essa regra. 
Maquiavel teve uma nítida preocupação tipicamente renascentista de fundar uma 
“ciência” da sociedade através da defesa do método de investigação empírica. Ou 
seja, a sua proposta era a de estudar a política pela verdade efetiva dos fatos humanos, 
sem perder-se em vãs especulações na busca do tipo ideal do Estado. O seu centro de 
interesse foi o fenômeno do poder formalizado na instituição do Estado. Utilizou-se 
amplamente da psicologia e da filosofia da história. Mas Maquiavel não foi 
exatamente um cientista político, conforme a designação moderna do termo. 
Conforme Maquiavel, a história é constituída por ciclos que se renovam através 
de revolução em torno de si mesmos. Acreditava, portanto, que quem observar 
cuidadosamente os fatos do passado pode prever o futuro. O acontecer histórico se 
complementa com uma compreensão da psicologia humana. Ao estudar os antigos 
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governantes e as grandes potências do passado, Maquiavel concluiu que os homens 
têm os mesmos desejos e paixões. São egoístas e ambiciosos, só recuando da prática 
do mal quando coagidos pela força da lei. Somente o saber político (que para ele era 
a arte de bem governar) pode superar as determinações históricas e psicológicas 
que ameaçam qualquer sociedade. Em síntese, Maquiavel propõe que as 
personalidades decididas e empreendedoras dos governantes podem interferir na 
história. 
É necessário, portanto, que o governante seja dotado de virtù (virtude cívica), 
isso é, tenha a iniciativa e capacidade de saber o momento exato para desenvolver 
ações políticas dentro das circunstâncias que lhe são apresentadas. Um bom 
governante deve estar sempre atento às situações para que possa ficar à frente dos 
acontecimentos. O seu êxito depende da medida em que souber combinar seu modo 
de agir com as particularidades do momento. O homem de virtù é, portanto, o inventor do 
possível em uma situação concreta dada. Nesse sentido, não existe uma ordem ideal para 
a organização do Estado. 
A estabilidade política depende de boas leis e 
instituições e para atingir e manter esse objetivo, o 
governante deve estar acima de qualquer 
constrangimento moral. Os fins justificam os meios. Mas 
também é importante chamar atenção que a energia 
criadora de uma sociedade não é produto apenas das 
ações de um político de virtù. O povo deve também 
participar do governo, isso é, é necessário que haja um nível maior de solidariedade 
entre os homens e o Estado. Para isso, é fundamental que os homens sejam livres, 
que se identifiquem com os negócios de seu Estado, pois, com isso, haverá maior 
reforço à coesão interna. Em uma nação não corrompida, os cidadãos sobrepõem os 
interesses gerais da sociedade aos particulares. 
 
Conceito Relevante 
MAQUIAVELISMO – Concepção ideológica de uma prática política na qual se afirma 
que o governante deva ser despojado de toda moralidade aparente para criar e 
deter as técnicas de dominação sobre uma sociedade. 
 
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Momento de Reflexão 
Discuta o porquê da obra de Maquiavel ter-se tornado extremamente 
vulnerável e intolerante. Para isso, procure em um livro de história geral quais foram 
os principais fatores para o surgimento das modernas nações europeias (França, 
Inglaterra, Espanha e Portugal). Observe que nesse momento histórico houve uma 
dessacralização do político e a independência do poder temporal frente a Igreja e a religião. 
Reflita sobre quem beneficiava a obra de Maquiavel. Em que sentido podemos afirmar 
que O Príncipe foi uma nítida expressão das mudanças ocorridas no Renascimento? 
O verdadeiro objetivo de Maquiavel foi ensinar as técnicas de dominação para os 
governantes ou ensinar o povo quais são os mecanismos do poder político? 
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Thomas Hobbes (1588-1679) 
Thomas Hobbes foi um outro teórico de fundamental importância para a 
teoria social. É autor do livro O Leviatã (monstro bíblico). Diferente da maioria dos 
filósofos políticos (que acreditavam haver no homem uma disposição natural para viver 
em sociedade), Hobbes partia do princípio que os 
indivíduos entram em sociedade só quando a 
preservação da vida está ameaçada. 
Hobbes é o autor da famosa frase: “o 
homem é o lobo do homem”. Guiado pela razão, o 
instinto de conservação do homem procura a paz 
quando se tem a esperança de obtê-la, pois a vida 
de cada indivíduo estaria ameaçada se cada qual 
fizesse tudo o que está em seu poder para 
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alcançar a felicidade pessoal. 
Nesse sentido, os homens são levados a estabelecer contratos entre si. É 
a teoria contratualista da sociedade. Em outras palavras, o contrato social é a 
forma pela qual os homens transferem seus direitos a um árbitro imparcial e 
desinteressado - o Estado - com objetivo de assegurar e conservar as suas vidas. 
O pacto social é, portanto, artificial e precário. Assim, não é suficiente para 
assegurar a paz, pois sempre existem pessoas que, a fim de conquistar o poder só 
para elas podem destruir o pacto social. Para evitar ou minimizar esse perigo, é 
necessário que cada homem submeta sua própria vontade a vontade de um único 
homem ou a uma assembleia determinada. 
 
Questão de Reflexão 
1 – A teoria contratualista de Hobbes (o contrato social é estabelecido entre os 
membros da sociedade que concordam em renunciar a seu direito a tudo para 
entregá-lo a um soberano encarregado de promover a paz) é uma forma de 
ditadura ou de democracia? Justifique? 
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O Iluminismo 
Os grandes precursores que de modo mais direto influenciaram o 
aparecimento das ciências sociais foram os filósofos “iluministas” do século XVIII. 
Em certos aspectos, foram eles os “primeiros cientistas sociais”. Os franceses 
Charles Montesquieu (1689-1755) e Jean Jacques Rousseau (1712- 1778), por 
exemplo, produziram ambiciosos e abstratos sistemas de ideias para entender o 
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mundo humano, assim como propuseram a aplicação de “métodos científicos”, 
principalmente retirados da física newtoniana, para as questões sociais. 
Pensavam que do mesmo modo que o mundo físico é regido por “leis naturais”, o 
mundo social era também governado pelas suas próprias leis. Mas a preocupação 
fundamental dos “iluministas” não era apenas de explicar o funcionamento do mundo 
social, mas criar um mundo mais racional e “melhor”. Para eles, crentes na 
importância da razão, os valores e instituições tradicionais eram vistos como 
irracionais e, portanto, opostas à natureza humana, inibindo o crescimento humano. 
Mas os “iluministas” não deixaram de ser “filósofos sociais”: ocuparam-se em propor 
formas ideais de organização e governo que uma sociedade deveria ter. Com isso, 
não se limitaram a uma característica básica da ciência sociológica: tratar apenas 
do que é uma sociedade, como ela é e por que ela é estruturada de determinada 
forma. 
 
Conceito Relevante 
ILUMINISMO – Também conhecido como “filosofia das luzes”, designa as tendências 
intelectuais, políticas e sociais de um período histórico (sobretudo o século XVIII), no 
qual se caracterizou pelo otimismo no poder da razão e na capacidade humana de 
reorganizar a sociedade com base em princípios racionais. A razão é vista como 
uma faculdade que se desenvolve com a experiência e não, como no século XVII, 
uma capacidade inata do ser humano. Os iluministas viram no conhecimento da 
natureza e em seu domínio efetivo a tarefa fundamental do homem. Para eles, a 
história deve ser vista criticamente, pois o passado é usualmente tido como um conjunto 
de erros que são explicáveis pelo poder insuficiente da razão. 
 
Rousseau (1712-1778) 
Jean-Jacques Rousseau nasceu em Genebra e um dos seus principais livros 
chama-se O Contrato Social. A raiz da filosofia rousseauniana está na antítese 
fundamental entre a natureza do homem e os acréscimos da civilização. A 
natureza humana é essencialmente boa e a civilização é responsável pela 
degeneração das exigências morais mais profundas da natureza humana. Em 
outras palavras, a vida do homem primitivo é dotada de livre arbítrio (liberdade de 
escolha) e sentido de perfeição. É autossuficiente porque constrói sua existência na 
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natureza, satisfazendo suas necessidades 
básicas sem maiores dificuldades. Esse é o 
fundamento da chamada teoria do bom 
selvagem. Porém, com o surgimento da 
propriedade privada, o homem primitivo saiu da 
“idade de ouro” e ingressou no mundo 
civilizado. A uniformidade artificial de 
comportamentos, imposta pela sociedade aos 
indivíduos, leva-os a ignorar os deveres 
humanos e as suas necessidades naturais. 
É importante chamar atenção que Rousseau não está defendendo um 
primitivismo ou retorno à animalidade. A civilização apresenta algumas vantagens em 
relação a natureza, como a capacidade de desenvolvimento mais rápido, a ampliação 
dos horizontes intelectuais e enobrecimento dos sentimentos. O propósito de 
Rousseau é combater os abusos da civilização. 
A noção de liberdade é central na sua obra. Liberdade é a qualidade 
essencial da própria natureza humana, pois todos os homens nascem livres. Mas 
liberdade não significa “fazer o que quer”. Rousseau não pregava um individualismo. 
Liberdade deve ser entendida como direito e dever e necessita ser assegurada pela 
sociedade. A sociedade é resultado de um contrato social, ou seja, uma livre 
associação de seres humanos que deliberadamente resolvem formar um certo tipo de 
sociedade, à qual passam a prestar obediência. A concepção rousseauniana é 
essencialmente democrática. Para ele, toda autoridade e toda soberania devem estar 
vinculadas com o povo. 
 
Momento de Reflexão 
Estabeleça as diferenças fundamentais entre a teoria de Rousseau e a de 
Hobbes. 
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Iluminismo e História 
A contribuição dos iluministas para os estudos históricos foi significativa. Até 
então, a narrativa dos acontecimentospolíticos e militares, apresentada como 
grandes feitos de grandes homens (chefes, militares e reis) era a forma dominante da 
historiografia. Foi durante o Iluminismo que ocorreu pela primeira vez uma 
contestação a esse tipo de narrativa. Os iluministas iniciaram a preocupação com o 
que eles denominavam “história da sociedade”, uma história que não se limitava a 
guerras e à política, mas às leis, ao comércio, à moral e aos “costumes” dos povos. 
 
Atividade Complementar 
1 – Em que aspectos o conhecimento científico da sociedade se difere da filosofia 
social? 
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2 – Estabeleça a diferença entre explicar e compreender um acontecimento humano. 
Exemplifique. 
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TEMA 2: O NASCIMENTO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS. AS TEORIAS SISTÊMICAS 
 
O Surgimento das Ciências Sociais 
 
O Contexto Político e Econômico 
O conhecimento do mundo sociocultural sempre foi motivo de preocupação 
humana, mas as ciências sociais, dotadas de plena autonomia científica e com objeto 
próprio, é um acontecimento recente: data do século XIX. Por que só nesse século 
é que se deu o aparecimento dessas ciências, principalmente o da sociologia? 
Para responder essa questão, 
devemos observar, em primeiro lugar, que 
os séculos XVIII e XIX foram marcados por 
grandes transformações sociais e 
culturais que reconfiguraram 
profundamente todos os campos 
intelectuais. Uma larga série de revoluções 
políticas desencadeadas pela Revolução 
Francesa de 1789, que se prolongaram no 
século XIX, constituiu o fator imediato 
para o aparecimento da sociologia. Foram imensas as consequências dessas 
revoluções para muitas sociedades provocadas, entre outros aspectos, pela crítica 
ao governo absolutista e afirmação dos princípios do liberalismo. Na época, os 
estudiosos dos fenômenos sociais ficaram particularmente preocupados pela 
ameaça das “desordens” sociais e políticas provocadas por essas revoluções. 
 
 
 
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Conceito Relevante 
LIBERALISMO – O conjunto de concepções que visam assegurar a liberdade dos seres 
humanos dentro da sociedade. Nas ciências sociais, o liberalismo tem uma conotação 
político-econômica. Refere-se à concepção que enfatiza a iniciativa individual e a 
concorrência entre agentes econômicos, sem a interferência governamental, como 
princípio de organização econômica de uma sociedade. 
Paralelo a elas, ocorreu também a revolução industrial. Esta última não apenas 
desenvolveu a tecnologia industrial como também transformou o modo de vida de 
muitas sociedades. Por exemplo, o mundo ocidental passou de um sistema 
fundamentalmente agrícola para o industrial; houve grandes êxitos rurais; surgiu a figura do 
“proletário”; muitas cidades tiveram enormes taxas de crescimento populacional; 
as transações econômicas passaram cada vez mais a se desenvolver por 
complexos cálculos racionais; criaram-se imensas burocracias econômicas para 
proporcionar os múltiplos serviços requeridos pelas organizações fabris. Em suma, 
a Revolução Industrial instaurou plenamente o sistema econômico capitalista (ver 
glossário). 
As consequências das revoluções políticas e industrial foram (e continuam sendo) 
imensas, proporcionando, inclusive, o desencadeamento de grandes revoltas na 
sociedade ocidental. Muitas dessas revoltas foram instigadas pelos ideais 
socialistas. Essas transformações tampouco passaram desapercebidas pelos 
estudiosos das questões sociais. Havia tanto uma preocupação de se entender as 
transformações que estavam ocorrendo no mundo quanto o desejo de se encontrar 
novas bases de ordem para as sociedades perturbadas pelos processos revolucionários. 
O século XIX foi também para o Brasil uma época de grandes transformações 
políticas, econômicas e culturais. Nesse século, adquirimos a nossa 
independência política (deixamos de ser colônia para ser um Estado Nacional); fomos 
inicialmente regidos por uma Monarquia e terminamos o século sendo uma 
República; houve a abolição da escravidão; tivemos em muitas cidades, notadamente na 
capital (Rio de Janeiro), altos índices de crescimento populacional; começou a surgir um 
pequeno processo de industrialização, etc. 
 
 
 
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Questão de Reflexão 
Os sociólogos desde cedo se ocuparam com a análise das transformações 
sociais (os estudos sobre as “dinâmicas sociais”), identificando várias formas e tipos 
de mudanças, tais como “progresso”, “evolução”, “reforma”, “revolução” e 
“desenvolvimento”. Elabore um texto apresentando as principais diferenças entre 
esses conceitos. 
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O século XIX foi também um século que teve grande interesse pela ciência. 
Os cientistas naturais (como os biólogos, físicos e químicos) eram figuram prestigiosas 
no mundo universitário e na sociedade em geral e as suas ciências eram tomados 
como exemplos do verdadeiro modelo científico que devia ser imitado por todos 
aqueles desejosos de construir um saber rigoroso e eficaz. Assim, muitos 
estudiosos preocupados em compreender e explicar “cientificamente” as 
transformações sociais e culturais que ocorriam na sociedade utilizaram-se de 
procedimentos metodológicos retirados das ciências naturais. Grande parte dos 
iniciadores da sociologia desejam moldar o seu conhecimento científico pela 
biologia ou pela física. Por exemplo, Auguste Comte (1798-1857), criador do termo 
“sociologia”(palavra híbrida proveniente do grego “socius” e do latim “logos”) é 
considerado por muitos historiadores como o “pai da sociologia”; inicialmente 
rotulou essa disciplina, em 1822, como “física social”. Só mudou posteriormente 
de nome porque o belga Quételet havia publicado anteriormente um livro com 
esse título para se referir ao que atualmente chamamos de “estudos 
demográficos-estatísticos”. 
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O Naturalismo na Sociologia. O Positivismo 
É possível afirmar que a sociologia teve 
vários “pais”. Tradicionalmente, Auguste Comte 
(1798-1857) é apontado como o iniciador da 
“ciência sociológica”. Comte foi professor de 
matemática da Escola Politécnica (Paris) e em 
1842 publicou, em seis volumes, o seu 
principal livro, Curso de Filosofia Positiva. Sua 
doutrina seguiu posteriormente um curso 
sensivelmente distinto após ter conhecido 
Clotilde de Vaux. Os fundamentos dessa nova 
fase do seu pensamento encontram-se no livro 
Sistema de Política Positiva, publicado, em quatro volumes, no ano de 1851. Além de 
se preocupar com questões práticas e morais, Comte instituiu nessa obra a “religião 
positivista da humanidade” que, governada por sociólogos-sacerdotes, deveria oferecer 
finalmente uma unidade e harmonia de pensamento, sentimentos e ações entre os 
homens. Muitos seguidores de Comte romperam com ele devido a essa proposta. 
Como já observado, Comte foi o primeiro a utilizar o termo sociologia. 
Exerceu uma profunda influência nos teóricos dessa ciência, principalmente em 
Herbert Spencer e Emile Durkheim (ver mais adiante). Desenvolveu uma teoria ou 
doutrina conhecida como “positivismo” ou “filosofia positiva”. 
 
Conceitos Relevantes 
POSITIVISMO - doutrina que se caracteriza por: 
a) admitir que todo conhecimento para ser “positivo” deve se ater exclusivamente aos 
“dados” ou “fatos” da realidade; 
b) construir um pensamento cientificista sobre a realidade em oposição à “filosofia 
tradicional”, como a metafísica (ramo da filosofia que se ocupa em determinar 
as regras fundamentais do pensamento e em determinar os primeiros princípios e 
causas primeiras do real); 
c) buscar as leis invariáveis do mundo natural e do social. Essas leis devem ser obtidas 
pela investigação empírica e por métodos científicos extraídos das ciências naturais 
(“unidade das ciências”). Daí o positivismo ser considerado como uma 
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interpretação “naturalista” dos fenômenos sociais; 
d) promulgar a neutralidade no conhecimento da realidade. O pensamento científico 
deve ser neutro aos valores humanos; 
e) buscar os fundamentos da ordem e do progresso para os fatos humanos. 
Convém notar que o termo positivista foi empregado por vários filósofos. Além do 
mais, não podemos considerar o positivismo como um movimento completamente 
unitário. Mas é importante não confundir uma filosofia que tem traços do 
positivismo com o positivismo propriamente dito. 
POLÍTICA POSITIVA – Termo adotado por Comte para designar a ciência sociológica 
aplicada ao estudo das questões políticas. Os principais propósitos do positivismo de 
Comte foram; 
a) estabelecer as ciências, principalmente as sociais, sobre novas bases (para isso 
procurou fundamentar e classificar as ciências de acordo com os pressupostos do 
positivismo); 
b) determinar as estruturas essenciais da sociedade mediante métodos científicos; c) 
mostrar que a filosofia positivista é a que deveria imperar no futuro (daí a sua 
preocupação em proceder uma reforma “científica” da sociedade). 
A concepção de ciência desenvolvida por Comte pode ser resumida da seguinte 
forma: o conhecimento positivo é um estado ou fase de saber que gradualmente 
assumiu uma maturidade na mente humana. Há uma hierarquia entre as ciências, 
formando uma espécie de pirâmide em cuja base encontra-se a matemática e em cujo 
vértice está a sociologia. Entre essas duas ciências encontram-se, em ordem 
ascendente, a astronomia, a física, a química e a biologia. Essa hierarquia deve-se a uma 
escala de especificidade e uma complicação gradual entre os saberes. Pela 
simplicidade e generalidade de seu objeto, a matemática foi a ciência que em primeiro 
se desenvolveu o conhecimento positivo. A astronomia já tem maior grau de 
complicação e é menos genérica do que a matemática. Assim acontece com as 
demais, até chegarmos a sociologia: a ciência cujo objeto é o mais concreto e 
apresenta maior grau de complexidade. Ela representa o estado ou fase final do 
pensamento positivo. 
 
 
 
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A Estática e a Dinâmica Social 
O estudo científico da sociedade (a sociologia) deve se ater a dois 
aspectos da sociedade: o estudo da “estática social” e da “dinâmica social”. A primeira 
tem como objetivo investigar as leis que governam as ações e reações das diferentes 
partes do sistema social (como a família, a 
economia, a política, etc.). Essas leis devem 
ser deduzidas das leis da natureza humana. 
Inspirando-se na biologia, Comte desenvolveu 
uma teoria sobre as partes (“estruturas”) que 
compõem uma sociedade, o modo pela qual 
elas funcionam e suas relações com o conjunto 
do sistema social (a sociedade como um 
todo). As partes que compõem a sociedade se relacionam entre si de forma 
harmônica, garantia da “ordem social”. 
O estudo da “Dinâmica Social” tem por objetivo investigar as leis dos 
acontecimentos ou sucessões dos fenômenos sociais. Comte designou “dinâmica 
social” como o estudo do progresso natural da sociedade humana. Parte do 
pressuposto de que a sociedade se encontra sempre em processo de mudanças, 
mas essas mudanças são produzidas de acordo com as leis sociais. Há um 
processo evolutivo na história através do qual a sociedade progride de modo 
constante até o seu último destino. As mudanças sociais, portanto, são regidas pelo 
progresso. 
 
Conceito Relevante 
PROGRESSO – A ideia de progresso, em sua formulação original, está ancorada no 
modelo de transformação direcional, isso é, na ideia de tempo que flui de modo 
linear e de um movimento direcional em que cada estágio posterior de um processo 
está relativamente mais próximo de certo estado-final concebido do que qualquer 
estágio anterior. Logo, a concepção de progresso é sempre relativa aos valores 
considerados. Não se trata, portanto, de um conceito objetivo, descritivo, mas de 
uma categoria de valor. Os valores podem variar enormemente entre pessoas, 
grupos, classes, nações, etc. O que constitui progresso para alguém pode não o ser 
para outros. 
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Tendo em vista que o objetivo da sociologia é explicitar leis invariáveis que 
regem a organização e a transformação da sociedade, a teoria positivista concebe 
os indivíduos como sujeitos que pouco podem fazer para influir na marcha geral do 
progresso. As pessoas podem apenas intervir para modificar o ritmo dos 
acontecimentos, mas não alteram a sua “natureza” ou sua “origem”. 
Para Comte, a lei da evolução da humanidade se dá mediante três grandes 
estágios: o teológico, o metafísico e o positivo. É a chamada “lei dos três estágios”, 
fundamentada na premissa de que a mente humana, a história e todas as 
modalidades de conhecimento atravessam três estágios básicos. O primeiro é o 
ponto de partida para os outros estágios. É o momento em que a mente humana 
supõe que existem “forças”

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