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capítulo 16 Segundo Reinado O novo imperador, D. Pedro II, tornou-se símbolo de um Estado que, na visão dos grupos dirigentes, tinha como tarefas principais preservar a unidade do país e garantir a ordem política e social. Como esse longo reinado deu conta dessas tarefas? • D. Pedro II manteve essa pintura enrolada em panos e guardada por muito tempo, mostrando seu desagrado com a imagem. Quais razões, visíveis na imagem, teriam levado o imperador a desprezar a obra por ele mesmo enco- mendada? Formule hipóteses. Sagração de D. Pedro II. Óleo sobre tela de Manuel de Araújo Porto-Alegre, obra produzida aproximadamente em 1840. Pertence ao acervo do Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro (RJ). M a n u el d e a ra ú jo P o rt o -a le g re . S ag ra çã o d e d. P ed ro II . c .1 84 0. 205CAPÍTULO 16 Segundo Reinado 205a217_U3_C16_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 205 5/17/16 11:32 AM Pedro de Alcântara tornou-se imperador do Brasil com apenas 14 anos de idade. A imagem do novo im- perador, coroado como D. Pedro II, foi difundida como símbolo de um Estado centralizado. Na visão predomi- nante das elites da época, o Estado deveria preservar a unidade política do país e garantir a estabilidade social. De acordo com alguns historiadores, a coroação de D. Pedro II representava a manutenção dos privilégios dos grupos que até então haviam dominado o cenário político e econômico brasileiro. Esses grupos acredita- vam que o imperador reuniria forças para liquidar as re- beliões provinciais, submetendo revoltosos e desconten- tes à ordem pública do império. Desse modo, D. Pedro II exerceria o poder apoiado, principalmente, por repre- sentantes da elite comercial e agrícola. liberais e conservadores O grupo político dos liberais moderados dividiu- -se, por volta de 1837, em duas alas — regressistas e progressistas —, que formaram, a partir de 1840, dois partidos políticos. De um lado, estava o Partido Con- servador, constituído pelos regressistas e apelidado de saquarema. De outro, havia o Partido Liberal, for- mado pelos progressistas e chamado de luzia. Esses dois partidos do- minaram o cenário político do Segundo Reinado. De acordo com o historiador José Murilo de Carvalho, o Partido Conservador era política interna O jogo político entre liberais e conservadores 1 Cf. CARVALHO, José Murilo de. A construção da ordem: a elite política imperial/Teatro de sombras: a política imperial. Rio de Janeiro: UFRJ/Relume-Dumará, 1996. p. 374. partido Representava Defendia Conservador Apelido: • saquarema • proprietários rurais das lavouras de exportação • burocratas do serviço público • grandes comerciantes • governo imperial forte e centralizado Liberal Apelido: • luzia • profissionais liberais urbanos • proprietários rurais que produziam para o mercado interno ou de áreas de colonização mais recente • governo imperial não tão centralizado, com a concessão de certa autonomia às províncias Saquarema: termo originário da cidade de Saquarema, no norte da província do Rio de Ja- neiro, conhecido centro de políticos conservado- res na época. luzia: apelido provavel- mente ligado à cidade de Santa Luzia, em Mi- nas Gerais, foco de ativi- dades dos liberais duran- te a Revolução Liberal, ocorrida em 1842. uma aliança em que predominavam representantes de proprietários rurais (grandes lavouras de exportação), bu- rocratas do serviço público (entre os quais se destacavam os bacharéis de Direito) e ricos comerciantes. Já o Partido Liberal reunia, principalmente, profissionais liberais urba- nos e proprietários rurais que produziam para o mercado interno ou de áreas de colonização mais recente.1 Diferenças e semelhanças Embora esses partidos não tivessem profundas divergências ideológicas, entre os conservadores pre- dominava a defesa de um governo imperial forte e centralizado, enquanto entre os liberais havia uma tendência mais favorável à descentralização, conce- dendo-se certa autonomia às províncias. No entanto, quando estavam no governo, liberais e conservadores não apresentavam atitudes muito diferentes. Por isso, em meados do século XIX, era comum nas conversas políticas dizer-se que “não havia nada mais parecido com um saquarema (conservador) do que um luzia (liberal) no poder”. Não era difícil, por exemplo, a passagem de políticos de um partido para outro, movidos por interesses imediatos de poder. A política desse período (e não só dele) não se fazia, em grande medida, em função de programas e objetivos ideológicos definidos. A maior preocupação dos políticos era chegar ao poder. De acordo com o historiador Boris Fausto, [isso] significava obter prestígio e benefícios para si próprio e sua gente. [...] Conservadores e liberais utilizavam-se dos mesmos recursos para lograr vitórias eleitorais, concedendo fa- vores aos amigos e empregando a violência com relação aos indecisos e aos adversários. FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp, 1995. p. 181. 206 UNIDADE 3 Liberdade e independência 205a217_U3_C16_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 206 5/17/16 11:32 AM Governo de D. pedro II Ao assumir o trono, em 23 de julho de 1840, D. Pedro II escolheu, para seu primeiro ministério, um gabinete formado por políticos do Partido Liberal que haviam lutado pela antecipação de sua maiori- dade, conhecido como Ministério dos Irmãos. A volta dos liberais ao poder aguçou a rivalidade com os conservadores, instalando-se uma disputa en- tre os dois partidos, que se revezavam no poder. Eleições do cacete A primeira eleição da Câmara dos Deputados du- rante o Segundo Reinado, em 13 de outubro de 1840, foi a primeira demonstração desse “estilo de fazer po- lítica”. No dia da eleição, em certas regiões do país, capangas contratados pelos liberais invadiram alguns locais de votação, distribuindo “cacetadas” e amea- çando adversários políticos. Houve também fraude na apuração dos votos, substituindo-se urnas autênticas por outras com votos falsos. Vitoriosos na eleição, os liberais acabaram acu- sados por seus opositores de vencerem na base da fraude e da violência, e o episódio ficou conhecido como eleições do cacete. Apesar de tal denominação, é fato que violência e fraude não ocorreram apenas nas eleições de 1840. Revolta liberal A debilidade do primeiro ministério liberal, so- mada à pressão dos conservadores, levou D. Pedro II a substituí-lo, em 1841, por um novo gabinete, de maioria saquarema. Os políticos do Partido Conservador obtiveram, assim, mais força para exigir que o imperador anulas- se o resultado das eleições de 1840. Em 1842, antes que assumissem os deputados da nova legislatura, de maioria liberal, D. Pedro II resolveu atender aos pe- didos dos conservadores e convocou novas eleições. Em reação a essa decisão, os políticos do Partido Li- beral de São Paulo e Minas Gerais, liderados por Diogo Antônio Feijó (em São Paulo) e Teófilo Ottoni (em Minas Gerais), promoveram a Revolta Liberal de 1842, contra o centralismo do governo nas mãos de seus rivais saquare- mas. Os líderes revoltosos esperavam a adesão de outras províncias, o que não ocorreu. Investigando • Reflita sobre as semelhanças e as diferenças entre os partidos políticos da atualidade e os do Segundo Reinado. As tropas do império, comandadas outra vez por Luís Alves de Lima e Silva, dominaram o levante e prenderam seus líderes. Estes foram anistiados em 1844, ano em que os liberais voltaram ao poder, go- vernando até 1848. Instituição do parlamentarismo Em 1847, com a criação do cargo de presidente do Conselho de Ministros, teve início o parlamenta- rismo no Segundo Reinado. Como primeiro-ministro, esse presidente era encarregado de organizar e che- fiar o gabinete de governo. A nomeação do presidente do Conselho de Mi- nistros era feita pelo imperador, após a realizaçãode uma eleição entre os líderes políticos do partido ven- cedor. Esse líder montava o gabinete ministerial, que, em seguida, era apresentado à Câmara dos Deputa- dos para obter um voto de confiança (aprovação pela maioria dos parlamentares). Se aprovado pela Câma- ra, o gabinete começava a governar o país; caso não fosse aprovado, cabia ao imperador demiti-lo ou dis- solver a Câmara, convocando novas eleições. Como o poder Moderador não havia sido extinto, o imperador podia impor o gabinete de sua prefe- rência. Essa prerrogativa contrariava os princípios do parlamentarismo, sistema em que o poder Legislativo é que detém a maior influência na formação dos go- vernos e o monarca reina, mas não governa. Por isso, historiadores consideram que a experiência parlamen- tarista no Brasil foi um “parlamentarismo às avessas”. predomínio conservador Durante o Segundo Reinado (1840-1889) houve 36 gabinetes ministeriais no governo: 21 liberais e 15 con- servadores. Mas os conservadores permaneceram dez anos a mais no poder, pois realizavam uma política mais alinhada à autoridade centralizadora do imperador. Houve um período em que liberais e conservadores governaram em coalizão, por meio de acordos para a ocupação de cargos. Foi o chamado período da con- ciliação (1853-1861). No entanto, as grandes teses de origem liberal (extinção do poder Moderador, fim do Conselho de Estado, fim da vitaliciedade no Senado, autonomia para as províncias) não foram “conciliadas”. As linhas gerais permaneceram sob o viés conservador. 207CAPÍTULO 16 Segundo Reinado 205a217_U3_C16_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 207 5/17/16 11:32 AM A Revolta Praieira foi a última grande rebelião provincial. Ocorreu em Pernambuco, em 1848. Veja- mos uma interpretação a respeito desse movimento. antecedentes gerais Em meados do século XIX, a produção de açúcar era uma das mais importantes atividades econômicas pernambucanas. No entanto, quase todos os enge- nhos de açúcar da região pertenciam a algumas pou- cas famílias, como a Cavalcanti, dona de mais de um terço dos engenhos da província. Daí, a origem da seguinte trova popular: Quem viver em Pernambuco Deve estar desenganado praieira A revolta liberal pernambucana Formação do partido da praia • Em sua opinião, ainda existem em nosso país oligarquias locais que comandam a política e os meios de co- municação de determinada região? Isso ocorre em sua cidade ou estado? Investigando Que há de ser Cavalcanti Ou há de ser cavalgado. Devido a seu poder econômico, essas poucas fa- mílias dominavam a política pernambucana. O comércio, por sua vez, era a segunda fonte de riqueza de Pernambuco e estava concentrado princi- palmente nas mãos de portugueses. Assim, o poder político-econômico de Pernam- buco era controlado pela oligarquia rural e pelos comerciantes portugueses. Considerável parte da população urbana (profissionais liberais, pequenos mercadores, artesãos, padres, militares etc.) vivia em dificuldades econômicas e insatisfeita com a domi- nação política local. Em 1842, dissidentes do Partido Libe- ral pernambucano formaram o Partido da Praia. Seus líderes eram ricos proprietários rurais, que, por não pertencerem à aristocra- cia fundiária tradicional, não participavam dos acordos políticos entre liberais e conser- vadores para ocupar os principais cargos da província. Insatisfeitos com essa exclusão do jogo do poder, acabariam unindo-se, mais tarde, a liberais exaltados, que defendiam propostas mais radicais, como o combate à desigualdade social na província. As ideias dos membros do Partido da Praia, chamados de praieiros, eram expres- sas por meio do jornal Diário Novo, cuja sede ficava na rua da Praia, na cidade do Recife (daí o nome do partido). W. BäSSler. recIfe vISta da fortaleza do BruM. 1847. Recife vista da fortaleza do Brum. Litografia de W. Bässler, feita em 1847, pouco antes da Revolta Praieira. 208 UNIDADE 3 Liberdade e independência 205a217_U3_C16_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 208 5/17/16 11:32 AM Em 1844, com a nomeação de um gabinete li- beral no Rio de Janeiro, Antônio Pinto Chichorro da Gama foi designado presidente de Pernambuco. Aliado dos praieiros, ele não era um homem com- prometido com a oligarquia proprietária de enge- nhos nem com os comerciantes portugueses. Assim, durante seu mandato (1845-1848), os liberais praiei- ros conseguiram chegar ao poder. Eclosão do conflito Em 1848, porém, um novo gabinete conservador assumiu o governo do império e demitiu Chichorro da Gama. Não aceitando a indicação feita pelos conser- vadores para a presidência da província, os praieiros iniciaram o movimento que ficou conhecido como Re- volta (ou Revolução) Praieira. Liderados por Pedro Ivo (comandante militar) e Borges da Fonseca (jornalista), os praieiros divulgaram seus planos em um documento intitulado Manifesto ao Mundo, cujas principais propostas eram: • voto livre e universal para o povo brasileiro (fim do voto censitário); • plena liberdade de imprensa; • garantia de trabalho para o cidadão brasileiro; • extinção do poder Moderador; • exercício do comércio a varejo só para brasileiros (os portugueses seriam proibidos de exercer essa atividade); • garantia dos direitos individuais do cidadão; • estabelecimento da federação. Como podemos ver, o programa político dos praieiros era liberal, mas não tocava na questão da escravidão. Repressão e alcances A luta armada entre os revoltosos praieiros e as tropas imperiais não chegou a durar um ano. Os praieiros não tinham muitos recursos militares, con- tando com apenas 2 mil homens. Por isso, não resisti- ram à repressão imperial. Os principais líderes da Revolta Praieira (Borges da Fonseca, José Inácio Abreu e Lima, Jerônimo Vilela e muitos outros) foram condenados à prisão perpétua em Fernando de Noronha, mas acabaram sendo anis- tiados em 1851. Pedro Ivo foi preso e enviado para o Rio de Janeiro, de onde conseguiu fugir para a Euro- pa, mas morreu na viagem. Com a derrota dos praieiros, chegava ao fim esse conjunto de revoltas que acompanharam e sucede- ram o movimento de independência do Brasil. Su- focadas as tendências separatistas, as elites sociais e políticas, em conjunto com o governo do império, consolidaram a construção de um Estado centraliza- do. Preservaram, assim, a unidade territorial do país. A maioria da população brasileira, no entanto, conti- nuou afastada da participação no poder político. Modernização O impacto das transformações econômicas Historiadores consideram que a segunda metade do século XIX foi marcada por certa modernização do país. Nesse período, a produção do café superou a de todos os demais produtos agrícolas, como açúcar, ta- baco, algodão e cacau. O café tornou-se, então, o principal produto da economia brasileira. Os cafezais expandiram-se pelo sudeste brasileiro, e o centro econômico do país deslocou-se das antigas áreas agrícolas do nordeste para essa região. Nas fazendas de café da província de São Paulo, o trabalho escravo foi sendo substituído lentamente pelo trabalho assalariado, com predomínio de imi- grantes europeus (italianos, alemães etc.). Parte do dinheiro obtido com a exportação do café foi aplicada na industrialização do país. Surgi- ram, inicialmente, indústrias de produtos alimentícios, de vestuário, madeireiras, entre outras. Também foi neste período que, nas cidades mais importantes, como Rio de Janeiro, Salvador, Recife, Belém e São Paulo, foram surgindo novos serviços pú- blicos: iluminação das ruas, bondes, ferrovias, bancos, teatros etc. 209CAPÍTULO 16 Segundo Reinado 205a217_U3_C16_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 209 5/17/16 11:32 AM café: a nova riqueza O café foi introduzido no Brasil provavelmente em 1727, mas, a princípio, era um produto sem muito valor comercial, utilizado como bebida destinadaape- nas ao consumo local. Entretanto, a partir do início do século XIX, o hábito de beber café alcançou grande popularidade na Europa e nos Estados Unidos, fazen- do crescer o consumo internacional do produto. Como o clima e o tipo de solo de muitas áreas do sudeste brasileiro favoreciam o desenvolvimento da lavoura cafeeira, houve deslocamento parcial da mão de obra escrava para a cafeicultura, a fim de atender à demanda externa. Assim, com um cenário internacional favorável e a disponibilidade interna de recursos para expandir a pro- dução, o Brasil tornou-se em pouco tempo o principal produtor mundial de café, condição que, no império, se manteve de 1830 até o final do século XIX. Os lucros gerados pela exportação do café possibili- taram a recuperação econômica do Brasil, que tinha suas finanças abaladas desde o período da independência, de- vido à queda das exportações agrícolas e à dívida externa, entre outros fatores. A tabela a seguir mostra os principais produtos agríco- las brasileiros exportados, entre os anos de 1831 e 1900. Além do café, o açúcar, o algodão, o tabaco e o cacau ocu- pavam posições significativas nas exportações do período. principais produtos agrícolas brasileiros para exportação (em porcentagem sobre o valor global) (1831-1900) período café açúcar algodão tabaco cacau outros 1831-1840 43,8 24,0 10,8 1,9 0,6 18,9 1841-1850 41,4 26,7 7,5 1,8 1,0 21,6 1851-1860 48,8 21,2 6,2 2,6 1,0 20,2 1861-1870 45,5 12,3 18,3 3,0 0,9 20 1871-1880 56,6 11,8 9,5 3,4 1,2 17,5 1881-1890 61,5 9,9 4,2 2,7 1,6 20,1 1891-1900 64,5 6,0 2,7 2,2 1,5 23,1 Fonte: Anuário Estatístico do Brasil, 1939. Investigando 1. Quais são os principais produtos exportados atualmente pelo Brasil? Pesquise. 2. O que mudou em relação aos produtos exportados pelo país no século XIX? Colhedores de cafŽ. Óleo sobre tela de Clóvis Graciano, produzido no século XX. Graciano foi pintor, desenhista, gravador, figurinista e ilustrador. Em suas obras destacavam-se os temas sociais. c ló v IS g ra c Ia n o . c o lh ed o re S d e c a fé . S éc u lo X X . PI n a c o te c a d o e St a d o d e Sã o P a u lo , S ã o P a u lo (S P) . 210 UNIDADE 3 Liberdade e independência 205a217_U3_C16_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 210 5/17/16 11:32 AM Investigando 1. Você conhece pessoas que imigraram para o Brasil ou seus descendentes? De onde eles vieram? O que motivou sua decisão de vir para o país? 2. Debata a seguinte frase com seus colegas: “o Brasil é um país de imigrantes”. Novo centro político-econômico Considerando a riqueza que o produto gerava, o escritor paulista Monteiro Lobato (1882-1948) com- parou os pés de café a uma árvore que “dá ouro em bagos vermelhos”. E como dinheiro e poder estão ge- ralmente associados, os cafeicultores tornaram-se o grupo mais rico e influente da sociedade brasileira na época, de tal forma que o centro do poder político e econômico do país transferiu-se do nordeste para o sudeste do território brasileiro. Inicialmente, o café era cultivado na Baixada Flu- minense e no vale do Paraíba (que abrangia áreas das províncias de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Pau- lo). A partir de 1870, as fazendas de café expandiram- -se para o oeste da província de São Paulo, onde se encontrava um tipo de solo extremamente favorável ao seu desenvolvimento: a terra roxa. Considerando essa “marcha para o oeste”, é possível dizer que a lavoura cafeeira está diretamente vinculada à história de várias cidades paulistas, como Campinas, Ribeirão Preto, Araraquara e São José do Rio Preto. primeiros imigrantes Com a proibição do tráfico negreiro, em 1850, e a necessidade de conseguir mão de obra para a la- voura, os cafeicultores viram-se obrigados a recorrer ao trabalho de imigrantes europeus, como italianos, espanhóis, alemães e outros. O senador paulista Nicolau de Campos Vergueiro foi o primeiro fazendeiro a trazer imigrantes europeus para trabalhar na cafeicultura. Entre os anos de 1847 e 1857, levou para sua fazenda de Ibicaba, no interior de São Paulo, os primeiros grupos de alemães, suíços e belgas. Os imigrantes eram contratados pelo sistema de parceria: davam ao proprietário da fazenda uma par- te da colheita e ficavam com o restante. No entanto, acabaram enganados pelos fazendeiros, que os trata- vam e exploravam como se fossem escravos. Por isso, muitos deles iniciaram revoltas, que ti- veram como consequência o fracasso do sistema de parceria e o desestímulo à vinda de novos imigrantes. O fluxo migratório europeu só voltaria a crescer no Brasil no final do século XIX. Interpretar fonte Condições de vida dos primeiros imigrantes O relato (posteriormente transformado em livro) feito pelo imigrante suíço Thomas Davatz, que veio para São Paulo nesse período, expõe a situação vivida por esses primeiros imigrantes, como podemos ver neste trecho: Os colonos abaixo assinados vêm, por meio desta, afirmar que sua situação está bem longe de ser tão excelente e vantajosa quanto o prometiam as notícias divulgadas aqui na Europa, que vivem sujeitos a arbitrariedades de toda ordem e que sua situação é antes de lamentar do que de causar inveja. Por isso decidiram firmemente fazer valer seus direitos [...]. Solici- tando um inquérito que lance luz sobre toda a situação [...]. Esperam [...] que de parte dos senhores Vergueiro e Cia. sejam cumpridas todas as obrigações expressas nos contratos e também não sejam cometidos contra nenhum colono atos de violência, como sejam expul- são da fazenda, prisão etc. DAVATZ, Thomas. Memórias de um colono no Brasil (1858). São Paulo: Livraria Martins/Edusp, 1972. p. 206. • Com base no texto de Thomas Davatz, explique quais eram as condições de vida dos primeiros imigrantes europeus que vieram ao Brasil durante o século XIX. 211CAPÍTULO 16 Segundo Reinado 205a217_U3_C16_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 211 5/17/16 11:32 AM Fim do tráfico negreiro internacional Desde a independência, o império brasileiro era pressionado pelo governo in- glês para que pusesse fim ao tráfico negreiro. Em 1831, uma lei do império esta- belecia que os escravos importados a partir dessa data fossem considerados livres. Entretanto, essa lei de 1831 não foi cumprida, mesmo com toda a pressão dos sucessivos governos ingleses. Assim, os traficantes mantiveram o comércio de escravos com o governo brasileiro durante praticamente mais duas décadas. A partir de 1845, a pressão inglesa transformou-se em ameaça militar, com a promulgação do Bill Aberdeen, ato que declarava o direito inglês de aprisionar navios negreiros, mesmo se estivessem em águas territoriais brasileiras, e de julgar seus comandantes por seus crimes. Tal medida gerou uma crise nas relações entre Brasil e Inglaterra. Depois de tanta pressão, a Inglaterra finalmente conseguiu que o governo de D. Pedro II promulgasse, em 4 de setembro de 1850, a Lei Eusébio de Queirós, que proibia a entrada, no Brasil, de africanos traficados e autorizava a expulsão dos traficantes. A partir de então, o comércio de escravos importados foi duramente reprimido pelas autoridades brasileiras. Entre as consequências da nova lei, além da própria extinção do tráfico exter- no de escravos, podemos destacar: • crescimento do tráfico negreiro interno – escravos de regiões como o nor- deste do país (produtoras de cana-de-açúcar) passaram a ser vendidos para regiões do centro-sul em expansão econômica, como as áreas cafeeiras de São Paulo. A tabela ao lado mostra como a importação de escravos não foi imediatamente contida; • liberação de capitais para outras ativida- des – grandes somas de dinheiro, até então aplicadas na importa- ção de escravos, pas- saram a ser destinadas a outros setores da economia. Desembarque de escravos no Brasil (1836-1855) anos total de escravos importados 1836-1840 240 600 1841-1845120 000 1846-1850 257 500 1851-1855 6 100 Fonte: KLEIN, Herbert. In: Estatísticas históricas do Brasil. Rio de Janeiro: IBGE, 1987. f u n d a ç ã o d a B IB lI o te c a n a c Io n a l, r Io d e ja n eI ro (r j) . Negras Depois do Trabalho, fotografia colorizada feita pelo francês Victor Frond, durante visita ao Brasil. Foi tirada em 1861, após a promulgação da Lei Eusébio de Queirós. 212 UNIDADE 3 Liberdade e independência 205a217_U3_C16_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 212 5/17/16 11:32 AM lei de terras (1850) No mesmo ano em que, pela Lei Eusébio de Quei- rós, foi extinto o comércio de escravos africanos para o Brasil, também foi aprovada a Lei de Terras. Essa lei estabelecia que, apesar da imensidão do território, o meio normal de adquirir a propriedade da terra era a compra e não mais a posse (ocupação) da área. A nova norma instalava-se precisamente nessa fase de transição do trabalho escravo para o trabalho livre, quando as populações que iam conquistando a liberdade mais necessitavam de terras para se instalar e trabalhar, a fim de conseguir seu sustento. Sobre a nova lei, comentou o antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997): Se alguém pretendia ser proprietário, tinha de comprar suas terras do Estado ou do parti- cular que as tivesse por título hábil. É certo que a lei estabelecia uma exceção: a chamada usu- capião. Se alguém pudesse provar, diante de autoridade competente, que ocupou continua- mente, por 10 ou 20 anos, um pedaço de terra, talvez conseguisse que o cartório o registrasse como sua propriedade. Mas [...] quase ninguém do povo adquiria propriedade por essa via. Em consequência, as boas terras do país permane- ceram concentradas nas mãos dos antigos pro- prietários, que puderam fazer de seus filhos e netos outros tantos fazendeiros latifundiários. RIBEIRO, Darcy. Sobre o óbvio. In: Revista Civilização Brasileira, n. 1, jul. 1978. p.15-16. Em outras palavras, a Lei de Terras contribuiu para preservar o domínio patrimonial dos velhos fazendei- ros, os únicos que, de modo geral, tinham recursos financeiros e poder para satisfazer à nova legislação, podendo, portanto, manter e aumentar seus latifún- dios. Essa lei também dificultou a desconcentração da propriedade da terra em nosso país, questão que per- siste até os dias atuais. Em destaque Escravos africanos no Rio de Janeiro Até a extinção do tráfico negreiro, o número de escravos existentes em todo o país correspondia a cerca de 33% da população. No Rio de Janeiro, entretanto, os cativos representavam de 40 a 50% do total de habitantes durante o século XIX. Leia, a seguir, a interpretação do historiador brasileiro Luiz Felipe de Alencastro sobre essa situação. Considerando que a população do município praticamente dobrou nos anos 1821-1849, a corte agregava nessa última data, em números absolutos, a maior concentração urbana de escravos existentes no mundo desde o final do Império Romano: 110 mil escravos para 266 mil habitantes. No entanto, ao contrário do que sucedia na Antiguidade, o escravismo moderno, e particularmente o brasileiro, baseava-se na pilhagem de indivíduos de uma só região [...]. Em outras palavras, no moderno escravismo do continente americano a oposição senhor/escravo desdobra-se numa tensão racial que impregna toda a sociedade. Tamanho volume de escravos dá à corte as características de uma cidade [...] meio afri- cana. [...] Entranhado no Estado centralizado, difundido em todo o território, na corte e nas pro- víncias mais prósperas como nas mais remotas, o escravismo brasileiro ameaçava a esta- bilidade da monarquia e fazia o país perigar. E a elite imperial sabia disso: [...] o Brasil será — até 1850 — o único país independente a praticar o tráfico negreiro, assimilado à pirataria e proibido pelos tratados internacionais e pelas próprias leis nacionais. ALENCASTRO, Luiz Felipe de. Vida privada e ordem privada no império. In: NOVAIS, Fernando A. (Org.). História da vida privada no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. v. 2. p. 24-25, 28-29. 1. Como Luiz Felipe de Alencastro caracteriza o escravismo brasileiro, em comparação com o escravismo antigo (grego, romano etc.)? 2. Por que, para o autor, o escravismo brasileiro “ameaçava a estabilidade da monarquia e fazia o país perigar”? 213CAPÍTULO 16 Segundo Reinado 205a217_U3_C16_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 213 5/17/16 11:32 AM crescimento industrial As grandes somas de dinheiro resultantes das exportações de café não foram aplicadas apenas na expansão da própria cafeicultura. Em certa medida, também financiaram a instalação de indústrias e a modernização de algumas cidades brasi- leiras, principalmente Rio de Janeiro e São Paulo. Além do dinheiro da cafeicultura, o crescimento industrial também foi favo- recido, como vimos, pelos capitais antes destinados ao tráfico internacional de escravos. Mas houve uma medida propriamente de política econômica, adotada pelo governo brasileiro, que começou a incentivar a industrialização no país: o aumento das taxas de importação. tarifa alves Branco Em 1844, anos antes da extinção do tráfico negreiro, o ministro da Fazenda, Manuel Alves Branco, decretou a cobrança de uma nova tarifa alfandegária sobre os produtos importados, que ficou conhecida como tarifa Alves Branco. Até então, o imposto sobre importação era de apenas 15%. Com a tarifa Alves Branco, a maioria dos produtos importados passou a ser tributada em 30%. Caso produtos semelhantes fossem fabricados no Brasil, a tarifa chegava a 60%. Isso acarretou o aumento do preço desses produtos, forçando o consumidor bra- sileiro a procurar similares nacionais. Com o estímulo dessa medida, passou a ser mais vantajoso investir os capitais disponíveis no país na criação de indústrias, bancos, empresas de navegação, ferrovias, companhias de seguros, mineradoras etc. Como resultado, na última década do império (1880-1889), o Brasil já contava com 600 indústrias, que empregavam quase 55 mil operários nos setores têxtil, alimentício, madeireiro, metalúrgico e de vestuário. Investigando 1. Quais são os principais produtos importados pelo Brasil atualmente? Pesquise. 2. Você consome produtos importados? Quais? Por quê? Navio sendo carregado com contêiner no porto de Santos (SP). Atualmente, esse é o principal porto do Brasil e um dos mais movimentados do mundo. Por ele passam, todos os dias, diversos produtos importados e exportados. Fotografia de 2012. g e r S o n g e r l o f f /P u l S a r I M a g e n S 214 UNIDADE 3 Liberdade e independência 205a217_U3_C16_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 214 5/17/16 11:32 AM alcances e limites das transformações Em destaque Barão de Mauá: um empresário no império Isso não ocorreu, por exemplo, nos Estados Uni- dos, um país que se assemelha ao nosso tanto em ter- mos da vastidão de seu território, como em relação ao período em que ocorreu sua colonização e ocupação. Na interpretação de Darcy Ribeiro, nos Estados Unidos — com exceção dos estados sulistas —, a forma normal de obtenção da proprieda- de rural era a posse (ocupação das terras) para aqueles que fossem para o oeste — como se vê nos filmes de faroeste. [...] O resultado é que nos Estados Unidos se multiplicou um imenso sistema de pequenas e médias pro- priedades, criando e generalizando para mi- lhões de modestos granjeiros uma prosperi- dade geral. RIBEIRO, Darcy. op. cit. p.16. No período de crescimento industrial e modernização econômica do Brasil imperial, merece destaque a figura de Irineu Evangelista de Sousa, barão e, depois, visconde de Mauá (1813-1889). Homem de iniciativa e visão empresarial, Mauá foi responsável por grandes empreendimentos econômicos no Segundo Reinado. Fundou empresas de construção de navios a vapor e fundição de ferro. Construiu a primeira ferrovia brasileira (ligando o Rio de Janeiro a Petrópolis)e a primeira linha de bondes do Rio de Janeiro. Foi responsável pela instalação da iluminação a gás nessa cidade, pela construção de linhas de telégrafo no país e de um cabo submarino intercontinental, ligando a Europa e o Brasil. Há várias interpretações sobre o sucesso e, depois, o fracasso de Mauá. Uma delas diz que o sucesso de Mauá durou até suas empresas serem abaladas pela concorrên- cia dos produtos importados (principalmente ingleses) e passarem a sofrer diversos atentados e sabotagens. Pela pressão de empresários estrangeiros, as empresas de Mauá foram à falência. • De acordo com o texto, qual é a importância de Mauá para nossa história? Todas essas mudanças repercutiram no desenvol- vimento urbano e econômico do país, propiciando a expansão dos setores de serviços, comércio e indústria. No entanto, cabe ressaltar que essas transformações não beneficiaram igualmente todas as regiões do Brasil. Como a expansão do café, o crescimento das cidades e a industrialização ocorreram principalmente na região sudeste, foi esta a maior favorecida pelo desenvolvimen- to socioeconômico desse período. Por outro lado, o crescimento dos setores industrial e de serviços não foi suficiente para renovar, de modo amplo e profundo, a face tradicional de nossa econo- mia, que ainda se apoiava no latifúndio e na agricultu- ra de exportação. Apesar dos avanços, a Lei de Terras, promulgada em 1850, acabou reafirmando a socieda- de latifundiária brasileira e a exclusão social da maioria da população. Cartaz de Mauá: o imperador e o rei (direção de Sérgio Rezende, Brasil, 1999, 135 min.), filme que retrata a infância, o enriquecimento e a falência do empresário. M au á - o IM Pe ra d o r e o r eI . d Ir eç ã o : S ér g Io r ez en d e. 215CAPÍTULO 16 Segundo Reinado 205a217_U3_C16_HISTGLOBAL2_PNLD18.indd 215 5/17/16 11:32 AM