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capa_desigualdades_sociais_e_saude.pdf 1 15/04/25 07:51
capa_desigualdades_sociais_e_saude.pdf 1 15/04/25 07:51
UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA
reitor Paulo Cesar Miguez de Oliveira
vice-reitor Penildon Silva Filho
EDITORA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA
diretora Susane Santos Barros
conselho editorial
Titulares
Angelo Szaniecki Perret Serpa
Caiuby Alves da Costa
Cleise Furtado Mendes 
Evelina de Carvalho Sá Hoisel
George Mascarenhas de Oliveira
Mônica de Oliveira Nunes de Torrenté 
Mônica Neves Aguiar da Silva 
Suplentes
José Amarante Santos Sobrinho
Lorene Pinto
Lúcia Matos 
Lynn Alves
Paola Berenstein Jacques 
Rafael Moreira Siqueira
Salvador
Edufba
2025
2025, autores.
Direitos para esta edição cedidos à Edufba.
Feito o Depósito Legal.
Grafia atualizada conforme o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, 
em vigor no Brasil desde 2009.
coordenação editorial Cristovão Mascarenhas
coordenação gráfica Edson Nascimento Sales
coordenação de produção Gabriela Nascimento
assistente editorial Bianca Rodrigues de Oliveira
capa e projeto gráfico Gabriela Nascimento
revisão Mariana Leiro Cal
normalização Bianca Rodrigues de Oliveira
Sistema Universitário de Biblotecas - UFBA
Desigualdades sociais e saúde : abordagens inovadoras para avaliar seus efeitos 
 na população brasileira / Mauricio L. Barreto … [et al.], organizadores. – 
 Salvador : EDUFBA, 2025.
 249 p. 
 Acesso em: https://repositorio.ufba.br/handle/ri/42377
 Contém biografia.
 ISBN: 978-65-5630-771-8
 1. Igualdade – Aspectos da saúde. 2. Saúde pública – Aspectos sociais. 
3. Acesso aos serviços de saúde. 4. Indicadores sociais. I. Barreto, Mauricio L. 
 CDD 362
Elaborada por Selma Matos CRB-5: BA-1001
Editora afiliada à
Editora da UFBA
Rua Barão de Jeremoabo, s/n – Campus de Ondina
40170-115 – Salvador, Bahia • Tel.: +55 71 3283-6164
edufba@ufba.br • https://edufba.ufba.br/
Sumário
Apresentação … 11
Maria Yury T. Ichihara
Estela M. L. Aquino
Adalton dos Anjos Fonseca
Mauricio L. Barreto
Alastair H. Leyland
Capítulo 1
Índice Brasileiro de Privação (IBP): concepção, 
construção e aplicações … 19
Maria Yury T. Ichihara
Ruth Dundas
Elzo Pereira Pinto Júnior
Dandara Ramos
Andrêa J. F. Ferreira
Flávia José Alves
Camila Silveira Silva Teixeira
Mauricio L. Barreto
Alastair H. Leyland
Capítulo 2
Inequidades na mortalidade por causas sensíveis à pobreza em 
crianças menores de cinco anos no Brasil: aplicações do Índice 
Brasileiro de Privação (IBP) em análises no nível de Setores 
Censitários (SC) … 29
Elzo Pereira Pinto Júnior
Poliana Rebouças
Andrêa J. F. Ferreira
Camila Silveira Silva Teixeira
Aline dos Santos Rocha
Flávia José Oliveira Alves
Alastair H. Leyland
Ruth Dundas
Mauricio L. Barreto
Maria Yury T. Ichihara
Capítulo 3
Bases de mortalidade e privação material nos 
municípios brasileiros … 43
Victor Hugo Dias Diógenes
Elzo Pereira Pinto Júnior
Marcos Roberto Gonzaga
Maria Yury T. Ichihara
Bernardo Lanza Queiroz
Everton Emanuel Campos de Lima
Lilia Carolina Carneiro da Costa
Aline dos Santos Rocha
Andrêa J. F. Ferreira
Camila Silveira Silva Teixeira
Flávia José Oliveira Alves
Leila Milfont Rameh
Renzo Flores-Ortiz
Alastair H. Leyland
Ruth Dundas
Capítulo 4
Relação entre Índice Brasileiro de Privação (IBP) 
e cobertura do registro de óbitos para as menores 
áreas geográficas do Brasil … 59
Leila Milfont Rameh
Lilia Carolina Carneiro da Costa
Victor Hugo Dias Diógenes
Marcos Roberto Gonzaga
Elzo Pereira Pinto Júnior
Bernardo Lanza Queiroz
Everton Emanuel Campos de Lima
Maria Yury T. Ichihara
Andrêa J. F. Ferreira
Camila Silveira Silva Teixeira
Flávia José Oliveira Alves
Aline dos Santos Rocha
Renzo Flores-Ortiz
Ruth Dundas
Alaistair Leyland
Mauricio L. Barreto
Vital Katikaredi
Capítulo 5
Estimativas de taxas de mortalidade em pequenas áreas 
no Brasil: principais limitações e avanços recentes … 77
Marcos Roberto Gonzaga
Victor Hugo Dias Diógenes
Walter P. Silva Júnior
Everton Emanuel Campos de Lima
Bernardo Lanza Queiroz
Flávio Henrique Miranda de Araujo Freire
Lilia Carolina Carneiro da Costa 
Maria Yury T. Ichihara
Capítulo 6
Desigualdades sociais na pandemia da covid-19 … 93
Maria Yury T. Ichihara
Lilia Carolina Carneiro da Costa 
Rafael Felipe da Silva Souza
Cleiton Otavio da Exaltação Rocha
Jonatas Silva do Espírito Santo
Jackson Santos da Conceição
Aline Grimberg 
Everton Emanuel Campos de Lima
Marcos Roberto Gonzaga
Bernardo Lanza Queiroz
Flávio Henrique Miranda de Araujo Freire 
Mauricio L. Barreto
Capítulo 7
Tendências temporais e desigualdade social dos indicadores 
de amamentação e alimentação complementar: estimativas 
nacionais do sistema de vigilância alimentar e nutricional 
do Brasil, 2008-2019 … 113
Giesy Ribeiro de Souza
Aline dos Santos Rocha
Ila Rocha Falcão
Maria Yury T. Ichihara
Mauricio L. Barreto
Rita de Cássia Ribeiro-Silva
Capítulo 8
Índice Brasileiro de Privação (IBP) e desigualdades na mortalidade 
por Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT) … 127 
Deborah Carvalho Malta
Renato Azeredo Teixeira
Regina Tomie Ivata Bernal
Laís Santos de Magalhães Cardoso
Juliana Bottoni de Souza
Pedro Cisalpino Pinheiro
Crizian Saar Gomes
Alastair H. Leyland
Ruth Dundas
Mauricio L. Barreto
Capítulo 9
Desigualdade nas prevalências de adultos fumantes em capitais 
brasileiras segundo o Índice Brasileiro de Privação (IBP) … 143
Regina Tomie Ivata Bernal
Deborah Carvalho Malta
Renato Azeredo Teixeira
Laís Santos de Magalhães Cardoso
Juliana Bottoni de Souza
Pedro Cisalpino Pinheiro
Crizian Saar Gomes
Alastair H. Leyland
Ruth Dundas
Mauricio L. Barreto 
Capítulo 10
Associação entre o programa Minha Casa Minha Vida 
e desfechos em saúde: uma síntese de estudos aplicados à 
Coorte de 100 Milhões de Brasileiros … 163 
Andrêa J. F. Ferreira
Camila Silveira Silva Teixeira
Renzo Flores-Ortiz
Rosemeire Fiaccone
Mauro Sanchez
Júlia Pescarini
Alastair H. Leyland
Srinivasa Vittal Katikireddi
Maria Yury T. Ichihara
Mauricio L. Barreto
Rita de Cássia Ribeiro-Silva
Capítulo 11
Câncer de colo do útero e de mama em 20 milhões de 
mulheres adultas da Coorte de 100 Milhões de Brasileiros: 
panorama, desafios e potencialidades para a pesquisa … 175
Estela M. L. Aquino
Emanuelle F. Góes
Joanna M. N. Guimarães
Maria da Conceição Chagas de Almeida
Ligia Gabrielli
Sheila M. Alvim Matos
Ana Luísa Patrão
Ana Cristina de Oliveira Costa
Mauricio L. Barreto
Isabel dos-Santos-Silva
Capítulo 12
Percepções e experiências do compartilhamento e vinculação 
de dados administrativos para pesquisa e políticas públicas 
no Brasil … 203
Bethânia de Araújo Almeida 
Denise Moraes Pimenta
Capítulo 13
Envolvimento, comunicação e divulgação científica do Índice 
Brasileiro de Privação (IBP) … 221
Adalton dos Anjos Fonseca
Raiza Tourinho Lima
Sobre os autores … 233
11
Apresentação
Maria Yury T. Ichihara
Estela M. L. Aquino
Adalton dos Anjos Fonseca 
Mauricio L. Barreto 
Alastair H. Leyland
Falar sobre as desigualdades sociais no Brasil é inegavelmente algo 
comum e recorrente. Trata-se de uma problemática tão evidente que é 
vivenciada por qualquer pessoa que circule em uma área urbana ou rural 
de um município brasileiro. O país tem uma longa história de produção 
de desigualdades que resulta de seu modelo econômico concentrador 
de riquezas e de um duro processo de colonização que subjugou as po-
pulações nativas indígenas e escravizou os negros africanos por mais 
de quatro séculos. As profundas desigualdades de raça, etnia, gênero e 
classe social têm inúmeros efeitos sobre a saúde das pessoas, mas ainda 
é um grande desafio fazer a mensuração e avaliação desses efeitos.
Ao mesmo tempo, também é verdade que os governos têm inves-
tido mais em políticas sociais que visam minorar os efeitos dessas desi-
gualdades entre a parcela mais pobre da população, sobretudo a partir 
da década de 2000. Programas de transferência de renda e de acesso à 
moradia são alguns exemplosmodo 
que o quantitativo dos óbitos nas Unidades da Federação (UF), regiões 
e no Brasil são obtidos pela soma destes nos seus respectivos municí-
pios. Dessa forma, há pequenas diferenças na quantidade de registros 
no SIM, quando os dados são coletados diretamente pelo total da UF, 
região ou para o Brasil, pois há óbitos em que o município não foi iden-
tificado. Essas diferenças não afetaram as análises ou as conclusões do 
estudo. Cabe esclarecer que este capítulo se refere à cobertura relativa 
dos óbitos de uma fonte em relação à outra, e não à cobertura em rela-
ção ao verdadeiro número de óbitos, o qual não é conhecido.
resultados
A contagem dos óbitos no Brasil e nas grandes regiões evidenciou que, 
no nível nacional, o SIM captou mais óbitos (1.114.568) do que o Censo 
(Tabela 1). A proporção de óbitos registrados no SIM foi 7,75% maior em 
relação à contagem do Censo (1.034.418). Quando observada a cobertura 
em cada região, o SIM apresentou a maior cobertura relativa nas Regiões 
Centro-Oeste, Nordeste, Sul e Sudeste. Na Região Norte, os óbitos tive-
ram maior cobertura relativa no Censo quando comparado ao SIM, que 
registrou 91,12% dos óbitos captados na pesquisa censitária (Tabela 1). 
tabela 1 – Óbitos, Brasil e grandes regiões, ago./09 a jul./10, segundo fonte de registro
Região CENSO SIM Base com maior 
cobertura
SIM/CENSO
Brasil 1.034.418 1.114.568 SIM 107,75%
Norte 70.034 63.813 CENSO 91,12%
Nordeste 276.535 278.710 SIM 100,79%
Sudeste 456.358 523.114 SIM 114,63%
Centro-Oeste 69.193 71.099 SIM 102,75%
Sul 162.298 177.832 SIM 109,57%
Fonte: IBGE (2010) e SIM/Datasus/MS.
47Bases de mortalidade e privação material nos municípios...
O SIM foi a base com a maior cobertura relativa em 14 estados, o 
Censo em 13 (Tabela 2). No geral, os estados onde o SIM possui a maior 
cobertura relativa estão localizados nas Regiões Sudeste, Nordeste, Cen-
tro-Oeste e Sul. O Censo Demográfico apresentou o maior número de 
óbitos predominantemente nos estados da Região Norte, corroborando 
os resultados apresentados na Tabela 1. As maiores diferenças entre os 
registros do SIM e do Censo (abaixo de 90% a razão SIM/CENSO) foram 
observadas nos estados do Maranhão, Amapá e Pará 
tabela 2 – Óbitos por UF, ago./09 a jul./10, segundo fonte de registro
UF Região CENSO SIM
Base de maior 
cobertura SIM/CENSO
MA Nordeste 31.765 25.293 CENSO 79,63%
BA Nordeste 75.459 74.198 CENSO 98,33%
RN Nordeste 16.224 16.053 CENSO 98,95%
AP Norte 2.771 2.066 CENSO 74,56%
PA Norte 34.650 30.643 CENSO 88,44%
AM Norte 14.270 12.985 CENSO 91,00%
TO Norte 6.741 6.336 CENSO 93,99%
RR Norte 1.697 1.597 CENSO 94,11%
GO Centro-Oeste 31.289 31.549 SIM 100,83%
PB Nordeste 21.685 22.716 SIM 104,75%
RO Norte 7.022 7.194 SIM 102,45%
MG Sudeste 109.091 116.782 SIM 107,05%
RS Sul 68.608 77.238 SIM 112,58%
MS Centro-Oeste 13.901 14.172 SIM 101,95%
MT Centro-Oeste 14.038 14.697 SIM 104,69%
DF Centro-Oeste 9.965 10.681 SIM 107,19%
PI Nordeste 15.207 15.285 SIM 100,51%
AL Nordeste 17.206 17.424 SIM 101,27%
CE Nordeste 40.820 43.200 SIM 105,83%
SE Nordeste 10.008 10.850 SIM 108,41%
PE Nordeste 48.161 53.691 SIM 111,48%
AC Norte 2.883 2.992 SIM 103,78%
ES Sudeste 18.400 20.755 SIM 112,80%
SP Sudeste 223.009 260.941 SIM 117,01%
Continua
48 Capítulo 3
UF Região CENSO SIM Base de maior 
cobertura
SIM/CENSO
RJ Sudeste 105.858 124.636 SIM 117,74%
SC Sul 32.835 34.490 SIM 105,04%
PR Sul 60.855 66.104 SIM 108,63%
Total 
geral
1.034.418 1.114.568 SIM 107,75%
Fonte: IBGE (2010) e SIM/Datasus/MS.
A análise ao nível municipal evidenciou que a maior parte dos mu-
nicípios brasileiros (42,52%) possuía o SIM como a base com maior coleta 
de informações de óbitos. Dos 449 municípios da Região Norte, 65,48% 
destes teve o Censo como a base de maior cobertura relativa. Nas Re-
giões Nordeste e Centro-Oeste, o Censo foi a base com maior número 
de óbitos na maioria dos municípios, 44,43% e 39,27%, respectivamente. 
Contudo, nessas regiões o SIM apresentou o maior número de registros 
de óbitos totais. Tal aparente contradição é justificada pelos diferentes 
pesos que os municípios possuem no número total de óbitos. Por fim, 
a Região Sudeste apresentou o SIM como a base com a maior cobertura 
relativa, considerando tanto o número de óbitos como a quantidade de 
municípios (50,3%). 
Sumariamente, verifica-se uma concentração do Censo como base 
de maior cobertura relativa nos municípios da Região Norte de uma 
forma generalizada, e em algumas áreas da Região Nordeste (Mara-
nhão, norte do Rio Grande do Norte e no norte e oeste da Bahia). Já 
nos municípios do Sul e Sudeste prevalece o SIM como base de maior 
cobertura relativa
Em relação à associação entre SIM/CENSO e IBP, verificou-se, de 
uma forma geral, que os municípios com maior privação material 
(maiores valores do IBP) estão localizados no Norte e Nordeste do país 
e, em sua maioria, possuem baixos valores para a razão SIM/CENSO, o 
que significa uma maior cobertura do Censo em relação ao SIM (Figura 
1). Já nas Regiões Sul e Sudeste, estão localizados os municípios menos 
privados e mais desenvolvidos, cujos valores para a razão SIM/CENSO 
são predominantes altos. 
 
Conclusão
49Bases de mortalidade e privação material nos municípios...
figura 1 – IBP X Razão SIM/CENSO, Brasil, 2010
Fonte: elaborada pelos autores a partir dos dados do IBGE (2010) e SIM/Datasus/MS.
Esses resultados sugerem uma associação entre a base de maior co-
bertura relativa com o nível de desenvolvimento socioeconômico dos 
municípios brasileiros. Ou seja, o Censo conseguiu captar mais óbitos 
do que o SIM nos municípios mais carentes e menos desenvolvidos, 
enquanto o SIM possui melhor desempenho nos municípios com maio-
res níveis socioeconômicos. Exceções a esse padrão são os municípios 
localizados mais ao oeste da Região Norte e nas cidades localizadas 
no interior dos estados do Piauí, Ceará, Paraíba e Pernambuco, pois, 
mesmo apresentando valores altos para IBP, possuem o SIM como a 
base de maior cobertura
Resultado análogo é verificado considerando os mapas de clus-
ters bivariados oriundos do LISA de Moran (Figura 2). Verifica-se que 
50 Capítulo 3
os agrupamentos espaciais em cor-de-rosa são formados por municí-
pios que possuem altos valores para o indicador de privação material 
e seus vizinhos apresentam baixos valores para a razão SIM/CENSO 
(Alto-Baixo), estando concentrados majoritariamente na Região Norte 
e em algumas áreas da Região Nordeste. Já as áreas em azul claro, 
localizadas principalmente nas Regiões Sul e Sudeste, são formadas 
por municípios com baixo IBP e seus vizinhos têm altos valores para 
SIM/CENSO (Baixo-Alto). Por meio desse método também é possível 
identificar pontos discrepantes. As áreas em azul escuro, por exemplo, 
são formadas por municípios que têm baixo IBP e seus vizinhos apre-
sentam baixos valores para SIM/CENSO (Baixo-Baixo).
figura 2 – Mapa de clusters bivariado do IBP X Razão SIM/CENSO, Brasil, 2010
Fonte: elaborada pelos autores a partir dos dados do IBGE (2010) e SIM/Datasus/MS.
51Bases de mortalidade e privação material nos municípios...
Esses resultados indicam que a presença do Censo como a base de 
maior cobertura está relacionada espacialmente com os baixos níveis 
de desenvolvimento dos municípios vizinhos, e esses agrupamentos 
espaciais estão concentrados principalmente na Região Norte e, em 
menor grau, na Região Nordeste. 
discussão
De forma sucinta, este capítulo atestou que a maior cobertura relativa 
do Censo Demográfico 2010 em comparação ao SIM está concentrada 
nas Regiões Norte e, em menor grau, Nordeste, e que isso é observado 
nos municípios menos desenvolvidos e mais privados materialmente.
Esses resultados permitem sugerir que a base de maior registro 
de óbitos é uma variável associada com características socioeconômi-
cas dos municípios e há um claro padrão na distribuição espacial no 
Brasil. Vale ressaltar que níveis socioeconômicos e localização são ca-
racterísticas bastantecorrelacionadas no território brasileiro, estando 
nas Regiões Norte e Nordeste os municípios mais carentes. Portanto, o 
achado principal do capítulo foi que quanto menor o nível socioeconô-
mico do município, maior é a possibilidade de o Censo ter coberto um 
maior número de óbitos capturados em comparação às outras bases. 
Esse fato pode indicar que fatores como infraestrutura municipal nos 
órgãos de saúde (e outros, como presença de cartório) podem impactar 
severamente o fluxo dos registros do SIM em relação ao Censo.
Contrariando essa tendência geral, uma parte dos municípios do 
interior do Nordeste, mesmo possuindo baixos níveis socioeconômicos, 
apresenta uma maior cobertura relativa do SIM em relação ao Censo. 
Esse fato merece ser melhor explorado por estudos futuros, mas uma 
hipótese pode estar relacionada ao programa de redução de registros 
de óbitos por causas mal definidas. Esse programa focou o Nordeste 
e Norte brasileiro e objetivava melhorar a coleta e a qualidade da in-
formação do óbito captado pelo SIM nessas duas regiões, porém com 
resultados mais exitosos na região nordestina (França et al., 2014). 
Falhas nos sistemas locais de estatística de óbitos são apontadas 
pela literatura como um dos relevantes motivos para o sub-registro 
de óbitos no SIM (Lima; Queiroz, 2014; Vasconcelos, 1998). Esses fatos 
52 Capítulo 3
podem explicar em parte por que o Censo conseguiu captar mais óbitos 
nessas regiões do que o SIM.
A despeito dos sistemas oficiais de registros de óbitos, a inclusão 
do quesito sobre óbito no domicílio no questionário básico do Censo 
de 2010 trouxe um novo potencial de análises da mortalidade (Borges, 
2015; Caldas et al., 2017; Campos et al., 2017; Queiroz; Sacco, 2018). 
Importante ressaltar que a inclusão desse quesito foi uma sugestão da 
Organização das Nações Unidas (ONU) para a rodada dos censos sub-
sequentes, com vistas a obter melhores registros de mortalidade para 
países com sistemas vitais de menor qualidade.
Uma grande vantagem consiste na capilaridade que o Censo possui, 
que, em tese, cobre todo o território nacional. Nesse sentido, os quesitos 
contidos no questionário básico permitem uma desagregação geográfica 
dos dados até os seus menores níveis. Essa característica oferece uma 
grande oportunidade para estudos que visem identificar diferenças e ini-
quidade socioeconômicas e, especialmente, em saúde, além das pesqui-
sas voltadas para a estimação da mortalidade em pequenas áreas (Bilal et 
al., 2021) e nos diferenciais de mortalidade por diversas características 
populacionais (Pereira; Queiroz, 2016; Silva; Freire; Moraes, 2016).
Nesse contexto, os achados deste capítulo sugerem um ganho na 
relevância do Censo em relação ao SIM na captação dos óbitos nos mu-
nicípios menores e menos desenvolvidos, especialmente os localizados 
na Região Norte, e evidenciam ainda mais a importância da pesquisa 
censitária nas regiões com essas características sociodemográficas. 
Apesar de todo esse potencial, os dados de mortalidade do Censo 
apresentam limitações, como a sua frequência decenal; o período de 
referência do óbito de 12 meses que não coincide com um ano fe-
chado do calendário civil; a própria subenumeração dos óbitos, que, 
no Censo, por se tratar de uma informação declarada por algum resi-
dente do domicílio, é ocasionada por erros na compreensão do período 
de referência, desconsideração de óbitos, especialmente de crianças 
com pouco tempo de vida, e na possibilidade da extinção ou dissolução 
do domicílio após a morte de um indivíduo (Borges, 2015; Queiroz; 
Sawyer, 2012).
 Ainda como inconsistência do dado do Censo, vale ressaltar que 
pode haver erros na declaração da idade do falecido, bem como das pró-
prias pessoas vivas do domicílio (Agostinho, 2009). Embora não influen-
53Bases de mortalidade e privação material nos municípios...
cie na enumeração total de óbitos, esse problema pode interferir na 
estimativa da estrutura de mortalidade por idade (Preston; Elo, 1999).
Se deve deixar claro que a pesquisa censitária não deve ser vista 
como a solução do problema, mas uma alternativa complementar de 
fontes de dados de óbitos, e não diminui a essencialidade de se garan-
tir a existência de sistemas de registro de eventos vitais de qualidade. 
Nesse contexto, pode-se afirmar que há um consenso entre os usuários 
de dados de mortalidade de que a inclusão do quesito que capta o óbito 
no domicílio no questionário básico do Censo foi de suma importância 
para estudos relacionados ao tema, trazendo consigo novas possibilida-
des para se estimar níveis e estrutura de mortalidade mais verossímeis 
da realidade. 
O esforço deste capítulo em acrescentar o Censo Demográfico nas 
comparações entre os registros do SIM, bem como fazer uma asso-
ciação espacial da maior cobertura entre as bases com características 
socioeconômicas, se caracteriza como uma relevante contribuição à 
literatura das áreas da saúde e da demografia dedicada ao tema. 
Como limitação de pesquisa, ressalta-se que os óbitos coletados 
compreendem o período de referência do último Censo, o que resulta 
em um cenário de mortalidade de mais de dez anos atrás. É improvável 
que tenha havido mudanças significativas na estrutura e no nível de 
mortalidade, principalmente nos maiores níveis geográficos. 
Como provocação para trabalhos futuros que objetivem calcular 
estimativas de mortalidade para pequenas áreas, sugere-se uma conju-
gação das bases de óbitos no Brasil, considerando, em cada município, 
sexo e idade a base que captou o maior número de óbitos. Apesar de ser 
possível apenas em anos censitários, essa abordagem pode proporcio-
nar medidas de mortalidade melhores e mais verossímeis.
considerações finais
Os resultados encontrados sugerem que a base de maior registro de 
óbitos é uma variável associada com características socioeconômi-
cas dos municípios e há um claro padrão na distribuição espacial no 
Brasil. Vale ressaltar que níveis socioeconômicos e localização são ca-
racterísticas bastante correlacionadas no território brasileiro, estando 
54 Capítulo 3
nas Regiões Norte e Nordeste os municípios mais carentes. Portanto, 
nosso estudo evidencia que, quanto menor o nível socioeconômico do 
município, maior é a possibilidade de o Censo ter coberto um maior 
número de óbitos capturados em comparação ao SIM. Esse fato pode 
indicar que fatores como infraestrutura municipal nos órgãos de saúde 
(e outros, como presença de cartório) podem impactar severamente o 
fluxo dos registros do SIM em relação ao Censo.
Espera-se que esses resultados ensejem aos usuários de dados de 
mortalidade importantes recomendações e cuidados na escolha e no 
uso das bases de mortalidade no Brasil, já que distintos desfechos de 
mortalidade podem ser obtidos, dependendo da região de estudo e/ou 
da base de informação utilizada. Importante ressaltar que a qualidade 
dos registros de mortalidade tem evoluído ao longo dos últimos anos. 
Contudo, ainda se observa uma variabilidade regional na qualidade 
dos dados, sendo essencial uma avaliação criteriosa baseada nas dife-
rentes metodologias disponíveis.
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59
4
Relação entre Índice Brasileiro de Privação (IBP) e 
cobertura do registro de óbitos para as menores 
áreas geográficas do Brasil
Leila Milfont Rameh
Lilia Carolina Carneiro da Costa
Victor Hugo Dias Diógenes
Marcos Roberto Gonzaga
Elzo Pereira Pinto Júnior
Bernardo Lanza Queiroz
Everton Emanuel Campos de Lima
Maria Yury T. Ichihara
Andrêa J. F. Ferreira
Camila Silveira Silva Teixeira
Flávia José Oliveira Alves
Aline dos Santos Rocha
Renzo Flores-Ortiz
Ruth Dundas
Alaistair Leyland
Mauricio L. Barreto
Vital Katikaredi
introdução
Estimativas confiáveis de mortalidade são fundamentais para a com-
preensão da dinâmica demográfica, do planejamento financeiro e 
da política social (Queiroz et al., 2017). Decisões adequadas de saúde 
pública só são tomadas quando temos informaçõesde alta qualidade 
sobre eventos relacionados à saúde, como mortalidade, morbidade 
60 Capítulo 4
e causas de morte, que dependem de um sistema de informações de 
saúde bem coberto (Abouzahr; Boerma, 2005).
Os esforços em muitos países levaram a melhores informações 
sobre saúde e mortalidade nas últimas décadas (Setel et al., 2007). O sis-
tema de informações sobre mortalidade foi aprimorado ao longo dos 
anos, com uma redução na proporção de mortes por causas mal defini-
das e uma diminuição na proporção de registros com campos ignorados 
ou em branco em diversas variáveis. Assim, essas informações são captu-
radas pelo sistema e transferidas para o Ministério da Saúde (MS) (Lima 
et al., 2021). Além disso, a cobertura de óbitos de homens adultos no 
país aumentou de 83,2% em 1980-1991 para 89,7% em 2000-2010 (Lima; 
Queiroz, 2014).
Apesar das melhorias nos dados de mortalidade no Brasil nas úl-
timas décadas, a qualidade dos dados ainda é deficiente para muitos 
estados e municípios, principalmente os menos desenvolvidos (Quei-
roz et al., 2020a). Esses resultados indicam que, apesar do progresso na 
qualidade das informações, ainda é necessário envidar esforços para 
avaliar a qualidade dos dados e corrigir a subcontagem de mortes, se 
necessário, para que as estimativas de mortalidade sejam mais confiá-
veis (Queiroz et al., 2017).
Estimativas confiáveis de mortalidade subnacional são indispen-
sáveis para estudar as desigualdades de saúde em um país. Entre as di-
ficuldades com as estimativas de mortalidade para áreas subnacionais 
está a existência de pequenas populações que causam uma variação 
estocástica relativamente alta nas taxas de mortalidade. As pequenas 
áreas geralmente são muito irregulares e podem não ter números de 
mortes, o que significa que os tempos de morte reais subjacentes não 
são claros (Alexander; Zagheni; Barbieri, 2017).
Assim, dois fatores principais tornam as estimativas de mortali-
dade em áreas pequenas um desafio para demógrafos e pesquisadores 
de saúde pública. Primeiro, há o problema universal de populações 
pequenas e ampla variabilidade de amostragem nas mortes registra-
das (Bernardinelli; Montomoli, 1992; Schmertmann; Gonzaga, 2018; 
Pletcher, 1999; Riggan et al., 1991). Com baixas taxas de mortalidade e 
curtos períodos de exposição, as relações evento/exposição observadas 
são voláteis, e é difícil estimar os padrões de mortalidade (Schmert-
mann; Gonzaga, 2018). Em segundo lugar, o registro vital é incompleto 
61Relação entre Índice Brasileiro de Privação (IBP) e...
em muitos países ou regiões, e algumas mortes não são registradas nas 
estatísticas oficiais (Frias et al., 2013; Mathers et al., 2005).
Uma motivação para estimar a mortalidade nos Setores Censi-
tários (SC) é que essa é a menor área de desagregação geográfica de 
dados no Brasil. Essa estimativa pode auxiliar na compreensão das de-
sigualdades sociais em saúde em pequenas áreas e ajudar a direcionar 
melhor as políticas públicas e as ações dos gestores. As estimativas de 
saúde em pequenas áreas facilitam o estudo das características da vi-
zinhança e a operacionalização dos efeitos da vizinhança que compro-
vadamente afetam a saúde individual e comunitária (Cubbin; Leclere; 
Smith, 2000; Diez Roux, 2001) e permitem um estudo mais aprofun-
dado dos fatores responsáveis pelas desigualdades de saúde em áreas 
geográficas (Ruther; Leyk; Buttenfield, 2017).
No entanto, os métodos demográficos tradicionais para corrigir 
a subnotificação de mortalidade, chamados de Métodos de Distribui-
ção de Mortes (DDM), são inadequados para lidar com os desafios de 
mortalidade em pequenas áreas ou subnacionais, pois algumas de suas 
premissas não são atendidas, como a exigência de não haver migração. 
Além disso, como são métodos essencialmente determinísticos, os mé-
todos DDM não conseguem lidar satisfatoriamente com a alta variabi-
lidade no número de mortes característica de populações pequenas. 
Nesse sentido, métodos alternativos de correção da subnotificação de 
mortalidade em pequenas áreas, como é o caso deste capítulo, devem 
ser incentivados pela literatura. E caracterizam-se como uma linha de 
pesquisa proeminente em demografia e saúde (Schmertmann; Gon-
zaga, 2018; Queiroz et al., 2020b; Wilmoth et al., 2012).
Especificamente no Brasil, não temos conhecimento de estudos 
que estimaram a mortalidade para o nível de rastreamento do Censo. 
Além disso, alguns outros desafios são as disparidades nos registros 
de óbitos de acordo com a fonte das estimativas: Registro Civil (RC), 
Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) e Censo Brasileiro de 
2010. Já temos informações no nível de rastreamento do Censo para as 
duas últimas fontes. No entanto, no SIM, não temos 100% de geocodifi-
cação dos óbitos como temos no Censo de 2010.
Assim, o principal objetivo deste capítulo foi estimar a comple-
tude dos registros de óbitos para as menores áreas geográficas do 
Brasil (SC) em 2010. Mais especificamente, estimamos a completude 
62 Capítulo 4
dos registros de óbitos para os SC considerando duas fontes de dados: 
o SIM e o Censo Brasileiro 2010 (IBGE). Para isso, usamos como regres-
sores a taxa bruta de mortalidade registrada (RegCDR), o quadrado da 
RegCDR (RegCDRsq), a fração da população com 65 anos ou mais (%65), 
o logaritmo natural da taxa de mortalidade de menores de cinco anos 
(In(5qO)) e a cobertura da taxa de mortalidade de menores de cinco 
anos registrada (C(5q0)). Em seguida, relacionamos a completude dos 
registros de óbitos estimada com os quantis do Índice Brasileiro de 
Privação (IBP).
metodologia
No presente capítulo, com base no modelo de efeitos aleatórios pro-
posto por Adair e Lopes (2018), ajustamos um modelo de regressão 
beta com efeitos aleatórios no intercepto (Ferrari; Cribari-Neto, 2004), 
estratificado por sexo, para prever o logit da subnotificação de óbitos 
em todos os municípios. No Brasil, há 5.570 municípios (o primeiro 
nível do modelo) divididos entre 558 microrregiões (o segundo nível do 
modelo). A parametrização proposta foi:
figura 1 – Modelo de regressão beta ajustado
Fonte: elaborada a partir de Adair e Lopes (2018).
Onde 00. Usando a notação y∼B(μ,ϕ), E(y)=μ e VAR(y)=μ 
(1-μ)/(1+ϕ). O parâmetro ϕ é conhecido como o parâmetro de precisão e 
aqui usamos esse parâmetro como uma constante. Se yij é a cobertura 
das mortes registradas para todas as idades do município i para a mi-
crorregião j tal que yij∼B(μij,ϕ), o modelo de regressão beta é definido 
como logit(μij)=β0 + β1*RegCDRsqij + β2*RegCDRij + β3*%65ij + β4*ln(5q0)ij + 
β5*C(5q0)ij + eij + γj, em que e é um termo de erro, γ é um efeito aleatório 
do nível de microrregião e a função de ligação é logit = log(μ/(1-μ)). Por-
tanto, essa abordagem relacionou o logit da completude dos registros 
de óbitos com as seguintes covariáveis: a taxa bruta de mortalidade 
63Relação entre Índice Brasileiro de Privação (IBP) e...
registrada (RegCDR), o quadrado da RegCDR (RegCDRsq), a fração da 
população com 65 anos ou mais (%65), o log natural da taxa de mor-
talidade de menores de cinco anos (In(5q0)) e a cobertura da taxa de 
mortalidade de menores de cinco anos registrada (C(5q0)).
O banco de dados resultou de diferentes fontes. A taxa de morta-
lidade de menores de cinco anos e a cobertura da taxa de mortalidade 
de menores de cinco anos registrada foram extraídas pela aplicação 
da abordagem bayesiana para ajustar o modelo de cobertura de óbitos 
ao nível dos municípios (Schmertmann; Gonzaga, 2018). A RegCDR e 
a RegCDRsq foram obtidas de uma combinação entre o SIM e o Censo 
brasileiro, considerando a fonte com a maior contagem de mortes para 
cada idade e sexo. A fonte da fração da população com 65 anos ou mais 
foi o Censo brasileiro.
treinamento-teste
O procedimento de divisão treinamento-teste foi usado para validar 
o modelo. Ou seja, a base de dados foi dividida em 70% para treina-
mento, onde o modelo foi ajustado, e 30% para teste, no qual, usando 
as estimativasde parâmetros encontradas na base de treinamento, a 
cobertura municipal da taxa de mortalidade registrada foi prevista e 
comparada com o valor verdadeiro. As Figuras 2 e 3 mostram a concor-
dância entre os valores observados e estimados para os gêneros mas-
culino e feminino. Observe que esses valores estão mais próximos da 
linha diagonal, indicando um bom ajuste.
64 Capítulo 4
figura 2 – Concordância entre os valores observados e estimados para o gênero 
feminino
Fonte: elaborada pelos autores.
figura 3 – Concordância entre os valores observados e estimados para o gênero 
masculino 
Fonte: elaborada pelos autores.
65Relação entre Índice Brasileiro de Privação (IBP) e...
número de mortes estimadas nos SC
Após estimar a cobertura de mortalidade, calculamos o número de óbitos 
para cada SC. Deparamo-nos com algumas inconsistências, como o fato 
de a soma dos óbitos nos setores de um determinado município ser maior 
do que o número de óbitos observados nesse município. Outro ponto de 
atenção é a ocorrência de zero óbitos observados e/ou corrigidos.
Para corrigir essas inconsistências, tratamos os zeros da seguinte 
forma:
Se tanto as mortes observadas quanto as corrigidas forem 0, consi-
deramos a cobertura do setor 1.
Se as mortes observadas forem maiores que 0 e as mortes corrigi-
das forem 0, estamos diante de um caso hipotético de supernotifica-
ção, que consideramos improvável. Nesse sentido, consideramos que 
esses casos são uma limitação do método e, portanto, assumimos que 
a cobertura também é 1.
Se os óbitos observados forem 0 e os óbitos corrigidos forem maio-
res que 0, isso constitui subnotificação e consideramos que a cobertura 
desse setor é também a média da cobertura dos setores desse município.
Para garantir que a soma dos óbitos nos setores de cada município 
coincida com o número de óbitos estimados no município, usamos os 
resultados da estimativa bayesiana proposta por Schmertmann e Gon-
zaga (2018) para estimar os óbitos por município. Calculamos a razão 
entre o número de óbitos por município encontrado na aproximação 
bayesiana e a soma dos óbitos nos setores do município em questão. 
E multiplicamos esse fator pelo número de mortes em cada setor corri-
gido pelo método que propusemos aqui.
Devido ao nosso interesse em estudar a relação entre a completude 
dos registros de óbitos e a privação em pequenas áreas, usamos o IBP, 
que mede a privação relativa, colocando os SC em uma escala de bem-es-
tar material do menos para o mais privado. Como a qualidade do regis-
tro do número de óbitos em um local está relacionada às suas condições 
sociais, econômicas e políticas, comparamos os quintis do IBP com a 
previsão da completude dos registros de óbitos nos SC.
Usamos o pacote betareg (Cribari-Neto; Zeileis, 2010) no software R 
Core Team (2021) para realizar nossa análise. 
66 Capítulo 4
resultados
Ajustamos um modelo de regressão beta de efeitos aleatórios para os 
gêneros masculino e feminino e para 5.570 municípios divididos entre 
558 microrregiões. As estimativas dos parâmetros concordam com as 
encontradas no artigo de Adair e Lopes, exceto pela fração da popula-
ção com 65 anos ou mais, que não foi significativa para o gênero femi-
nino e teve uma correlação positiva para gênero masculino (Tabela 1).
A relação entre a taxa bruta de mortalidade (Crude Death Rate – 
CDR) e a cobertura de mortalidade foi considerada no modelo como 
uma relação curvilínea porque dependerá da estrutura etária da popu-
lação, além de seu nível de mortalidade (Adair; Lopez, 2018). Depen-
dendo da combinação desses dois fatores, pode haver, por exemplo, 
duas populações com o mesmo CDR, mas uma com baixo nível de 
mortalidade, estrutura etária envelhecida e boa cobertura de mortes, 
enquanto a segunda tem alta mortalidade, população jovem e baixa 
cobertura de mortalidade. Nesse sentido, Adair e Lopes (2018) encon-
traram variações significativas na cobertura em países com CDR baixos 
e semelhantes. Entre as populações com alto CDR, em geral, espera-se 
que sejam regiões com estruturas etárias envelhecidas, com bom nível 
de desenvolvimento socioeconômico e, consequentemente, boa quali-
dade e cobertura de óbitos. 
A influência da participação da população com mais de 65 anos 
na cobertura de mortalidade não é unanimemente estabelecida na li-
teratura. A hipótese de Adair e Lopes é que essas duas variáveis estão 
inversamente relacionadas. No entanto, este capítulo encontrou uma 
relação positiva entre elas, o que pode ser explicado pelo contexto do 
sistema de seguridade social estruturado existente no Brasil. Para ga-
rantir que não haja pagamentos indevidos de pensões e benefícios as-
sistenciais, o sistema, além de permitir o acesso e a assistência a uma 
grande parcela da população idosa, inclui uma série de mecanismos de 
verificação e prova de vida, o que pode ajudar a reduzir a subnotifica-
ção de óbitos nessa faixa etária.
Com relação às covariáveis da mortalidade infantil e sua cober-
tura, suas relações com a cobertura de mortes são mais claras e diretas. 
Baixos níveis de mortalidade infantil (5q0) estão associados a popu-
lações mais desenvolvidas, dados de mortalidade de boa qualidade e 
67Relação entre Índice Brasileiro de Privação (IBP) e...
melhor cobertura. Por sua vez, a cobertura da mortalidade infantil 
(C(5q0)) pode ser considerada um bom indicador da cobertura da mor-
talidade geral na população. Nesse sentido, este estudo encontrou a 
relação esperada entre a cobertura da mortalidade geral, a mortalidade 
de 0 a 5 anos e a cobertura da mortalidade de 0 a 5 anos.
tabela 1 – Estimativas do modelo de cobertura de mortalidade por gênero para 
municípios
Estimativa Erro padrão Estimativa Erro padrão
Feminino Masculino
Intercepto 2.125*** 0.0664 2.031*** 0.0668
RegCDRsq -0.002*** 0.0005 -0.002*** 0.0004
RegCDR 0.040*** 0.0059 0.032*** 0.0054
%65 - - 0.276* 0.1276
ln(5q0) -0.036*** 0.0041 -0.058*** 0.0045
C(5q0) 0.549*** 0.0231 0.548*** 0.0230
Significância: 0 ‘***’ 0.001 ‘**’ 0.01 ‘*’ 0.05 ‘.’ 0.1 ‘ ’ 1 
Fonte: elaborada pelos autores.
O modelo ajustado ao nível municipal previu a cobertura de mor-
talidade por SC. Os mapas a seguir mostram a estimativa do grau de 
cobertura de mortes femininas e masculinas por SC. Notavelmente, a 
cobertura de mortalidade aumenta à medida que se vai do norte para 
o sul do país, com exceção de alguns SC nos estados do Amazonas e 
Roraima, onde a cobertura estimada foi superior a 90%.
Como as taxas de mortalidade adulta não são homogêneas no 
Brasil, as experiências do país não refletem as experiências de grupos 
populacionais específicos (Arruda; Carvalho; Alves, 2020). As taxas de 
mortalidade diferem com base em várias dimensões, como idade, raça, 
condição socioeconômica e contexto geográfico. A desigualdade geo-
gráfica na mortalidade parece ser maior no Brasil do que em outros 
países da América Latina, e diferentes regiões do país também têm 
experiências muito diferentes em termos de exposição ambiental, con-
68 Capítulo 4
trole de doenças, tratamento médico, risco e bem-estar (Brant et al., 
2017; Fenelon, 2013; França et al., 2017).
Os estados das Regiões Sul e Sudeste registram 100% dos óbitos 
para ambos os sexos. Em alguns estados do Nordeste e do Norte, a quali-
dade das informações é inferior, mas avançaram significativamente em 
relação a 1991-2000 (Agostinho; Queiroz, 2008; Setel et al., 2007; Paes; 
Albuquerque, 1999; Paes, 2005). Queiroz (2013) enfatiza que, nas últi-
mas três décadas, o Brasil fez um progresso significativo na melhoria 
dos dados de mortalidade. Entretanto, há diferenças entre as estimati-
vas de completude e mortalidade em nível estadual e durante todo o 
período dessa análise – 1980 a 2010. A versão recente de Brazil Burden 
of Disease inclui estimativas em nível subnacional, e há planos para al-
cançar regiões ainda menores, destacando a importância dessa questão. 
As estimativas de pequenas áreas enfrentam desafios adicionais devido 
a seus baixos níveisde completude: flutuações resultantes do pequeno 
número de eventos e variações aleatórias (Queiroz et al., 2020a).
figura 4 – Grau de cobertura de mortalidade no Brasil
Fonte: elaborada pelos autores.
Para entender melhor esse padrão de cobertura de mortalidade 
nos SC, essas estimativas foram correlacionadas com uma medida de 
privação, o IBP. A Tabela 2 mostra a distribuição da cobertura de mor-
69Relação entre Índice Brasileiro de Privação (IBP) e...
talidade pelos quintis do IBP. Observamos que quanto maior o quin-
til, maior a privação e menor a completude dos registros de óbitos, 
o que está de acordo com a literatura que aponta para uma relação 
proporcional entre o desenvolvimento socioeconômico e a qualidade 
dos dados das estatísticas civis (Ichihara, 2022).
O aspecto macroeconômico é um fator contextual que leva em 
consideração os indicadores econômicos de uma área geográfica na to-
talidade, e não características individuais. Fatores macroeconômicos 
podem afetar, direta ou indiretamente, fatores de risco imediatos dire-
tamente relacionados à saúde. Uma possível explicação para a relação 
entre maior renda e melhor saúde está baseada no pressuposto de que 
indicadores econômicos mais prósperos tendem a propiciar ganhos na 
coesão social, na redução das divisões sociais e, consequentemente, em 
melhores condições de saúde da população. Já a pobreza estaria asso-
ciada à exclusão social e piores condições ambientais, o que acarretaria 
condições de saúde inadequadas (Spijker, 2004).
É importante ter um sistema de informações sobre óbitos que per-
mita a obtenção de dados confiáveis e precisos para promover a saúde 
e prevenir doenças evitáveis (Rebouças, 2023).
Outros modelos podem ser sugeridos com a inclusão de outras va-
riáveis explicativas no modelo.
tabela 2 – Média estimada e desvio padrão da cobertura dos registros de óbitos 
femininos e masculinos segundo o IBP
Quintil 
do IBP 
Média Desvio-
padrão
Mediana Média Desvio-
padrão
Mediana
Fem Masc
1 0.971 0.043 0.991 0.969 0.043 0.990
2 0.963 0.051 0.988 0.961 0.050 0.988
3 0.950 0.061 0.978 0.948 0.059 0.970
4 0.921 0.081 0.922 0.923 0.076 0.928
5 0.844 0.102 0.867 0.848 0.099 0.870
Fonte: elaborada pelos autores.
70 Capítulo 4
considerações finais
O método proposto foi capaz de estimar a cobertura de mortalidade 
nos SC brasileiros. 
Verificamos que a cobertura de mortalidade está correlacionada 
com a privação material. Quanto maior o quintil do IBP, maior a priva-
ção e menor a cobertura média de mortalidade. O mesmo ocorre com 
a mediana. Isso demonstra uma correlação direta entre a qualidade dos 
dados das estatísticas civis e o desenvolvimento socioeconômico. Esse 
resultado é observado tanto para a cobertura de mortalidade mascu-
lina quanto para a feminina. As Regiões Sul e Sudeste tiveram a maior 
cobertura de mortalidade, o que é consistente com o fato de serem as 
regiões com o maior desenvolvimento socioeconômico do país. Essas 
estimativas de cobertura de mortalidade no menor nível de desagre-
gação geográfica dos dados são um passo importante para estimar as 
taxas de mortalidade e realizar estudos sobre as desigualdades sociais 
no risco de morrer e, assim, conduzir de forma mais assertiva as políti-
cas públicas em pequenas áreas. 
Uma limitação deste capítulo é a utilização das informações da 
mortalidade infantil e da cobertura da mortalidade infantil ao nível do 
município. Isso implica no pressuposto de que todos os setores de um 
município apresentam as mesmas taxas e a cobertura de mortalidade 
infantil, o que pode ocultar possíveis desigualdades intramunicipais 
na mortalidade.
Em contrapartida, este é um método alternativo aos métodos de-
mográficos tradicionais para correção e estimativas de mortalidade 
– os métodos DDM (Bennett; Horiuchi, 1984) –, pois não possui o pres-
suposto de ausência de migração e não requer dados intercensitários. 
Assim, torna-se possível identificar desigualdades na cobertura no 
nível intramunicipal e é fácil de ser replicado.
71Relação entre Índice Brasileiro de Privação (IBP) e...
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77
5
Estimativas de taxas de mortalidade em pequenas 
áreas no Brasil: principais limitações e avanços 
recentes
Marcos Roberto Gonzaga
Victor Hugo Dias Diógenes
Walter P. Silva Júnior
Everton Emanuel Campos de Lima
Bernardo Lanza Queiroz
Flávio Henrique Miranda de Araujo Freire
Lilia Carolina Carneiro da Costa 
Maria Yury T. Ichihara
introdução
Ter um sistema de registro de estatísticas vitais de qualidade é uma 
das metas para alcançar um desenvolvimento sustentável, como esta-
belecido pelaOrganização das Nações Unidas (ONU). No caso de dados 
confiáveis de mortalidade, por exemplo, ter um bom registro de óbitos 
auxilia em projeções populacionais, avaliação e implementação de pro-
gramas políticos e sociais, em especial aqueles relacionados à saúde 
pública (Abouzhar et al., 2015). 
Nesse contexto, os estudos sobre mortalidade em países em de-
senvolvimento, como o Brasil, têm sido historicamente limitados pela 
falta de dados de boa qualidade, sub-registro e falta de completude das 
informações sociodemográficas, em especial nos registros vitais, o que 
tem grande impacto quando se pensa em estudos regionais e de pe-
quenas áreas. Nesse sentido, obter estimativas de mortalidade se torna 
78 Capítulo 5
um desafio, uma vez que a qualidade da informação geralmente não é 
satisfatória (Hill; Queiroz, 2010). 
Apesar da melhora constante nos últimos anos, os registros de 
mortalidade no Brasil continuam com cobertura deficitária e com 
enormes diferenciais regionais de qualidade da informação. Se não 
bastasse a deficiência nos processos administrativos de registros das 
informações, quando o interesse é analisar aspectos demográficos que 
envolvem registros de óbitos para níveis desagregados, como municí-
pios, surge outro problema. Quanto mais desagregado o nível de aná-
lise, menores serão as populações expostas. Com o baixo contingente 
populacional, a omissão de óbitos tem peso ainda maior na estimativa 
das taxas de mortalidade. No que se refere à mortalidade, estudos mos-
tram como a incerteza sobre as estimativas de mortalidade e esperança 
de vida podem ser afetadas pelo tamanho populacional e pela magni-
tude da cobertura dos óbitos (Schmertmann; Gonzaga, 2018). 
O desenvolvimento de metodologia adequada, a disponibilidade de 
dados espacializados e uma demanda cada vez maior por informações 
regionais e georreferenciadas aumentam a importância de estudos de-
mográficos a nível regional. Nesse sentido, Kulkarni e demais autores 
(2011) argumentam a importância de estudos regionais de mortalidade 
e saúde para o adequado planejamento de políticas de saúde pública e 
cobertura dos sistemas de saúde. Esses mesmos autores, com base em 
dados recentes dos Estados Unidos, mostraram que há uma enorme 
variabilidade na esperança de vida entre as localidades, com algumas 
apresentando níveis de mortalidade muito mais altos do que os ob-
servados em outros países desenvolvidos. O Brasil é, assim como os 
Estados Unidos, caracterizado por uma grande variabilidade regional 
e uma crescente demanda por políticas de saúde adequadas, dado o 
processo de envelhecimento da população. Dessa forma, é importante 
o desenvolvimento de trabalhos que busquem avaliar a qualidade das 
informações de mortalidade por regiões dos países latino-americanos e 
permitam entender a sua evolução nos últimos anos. 
Outro aspecto relacionado ao sub-registro de óbitos é que ele pode 
variar conforme a fonte da base selecionada. No Brasil existem basica-
mente três fontes de óbitos, o Sistema de Informação sobre Mortalidade 
(SIM) e o Sistema de Estatísticas do Registro Civil (RC), ambos consti-
tuídos de registros administrativos contínuos de óbitos, e os Censos 
79Estimativas de taxas de mortalidade em pequenas áreas...
Demográficos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) 
de 2010 e 2022, que possuem informações de óbitos para o período de 
referência da pesquisa censitária. No caso do Censo de 2022, cujos re-
sultados ainda não estavam disponíveis até a conclusão deste capítulo, 
o período de referência foi estendido para três anos, o que permite 
captar os óbitos relacionados direta ou indiretamente com a pande-
mia pelo Sars-Cov-2. Como cada fonte possui características próprias e 
limitações, seja em relação ao procedimento de coleta ou do fluxo da 
informação, a capacidade de cada uma delas em captar todos os óbitos 
que efetivamente ocorreram pode variar conforme a região em análise. 
Diógenes e demais autores (2022) verificaram que o SIM é a base que 
possui a maior contagem de óbitos em 2010, contudo, quando a análise 
foi desagregada para áreas menores, o Censo conseguiu captar mais 
óbitos que o SIM em algumas áreas específicas, em especial nos mu-
nicípios mais carentes, que estão localizados predominantemente nas 
Regiões Norte e Nordeste. Esses resultados, segundo ainda os autores, 
podem ser explicados pela falta de uma adequada infraestrutura dos 
órgãos de saúde municipais, o que acaba influenciando severamente o 
fluxo dos registros no SIM e RC.
Nesse sentido, o objetivo deste capítulo é fazer um resgate dos 
principais métodos de correção de dados de mortalidade, ressaltando 
os seus potenciais, contextos aplicáveis, limitações e os avanços mais 
recentes da literatura que se dedica à temática, especialmente para as 
pequenas áreas do ponto de vista demográfico. 
métodos de análise de dados de mortalidade para 
pequenas áreas
A literatura demográfica apresenta uma série de métodos que permi-
tem estimar os níveis de mortalidade, utilizando métodos indiretos e/
ou métodos baseados na distribuição etária dos óbitos e que possibi-
litam uma avaliação da cobertura dos óbitos (Brass, 1975; Hill, 1987; 
Hill; You; Choi, 2009; Preston et al., 1980 entre outros). 
De forma geral, os métodos demográficos funcionam razoavel-
mente bem para grandes áreas, como países e estados, mas apresen-
tam piores ajustes para pequenas áreas (Hill et al., 2009; Queiroz, 2011). 
80 Capítulo 5
Além disso, os métodos demográficos possuem uma grande limitação, 
que é produzir um grau de cobertura ou fator de correção único para 
toda a curva de mortalidade, ao passo que existem evidências sobre 
diferenciais de cobertura de registro entre os grupos etários (Hill et al., 
2009, Schmertmann; Gonzaga, 2018). Portanto, é importante desenvol-
ver novas formas de obter estimativas de grau de cobertura das estatís-
ticas vitais, tal como a proposta desenvolvida por Adair e Lopez (2018). 
Nesse contexto, associação de métodos com adoção de aplicações da 
estatística, sobretudo sob a abordagem bayesiana (Schmertmann; Gon-
zaga, 2018), tem se apresentado como ferramenta importante para o 
estudo de sub-registros de eventos vitais. 
A seguir serão apresentados de forma sucinta os principais méto-
dos de estimação dos níveis de mortalidade em um contexto de baixa 
qualidade dos dados de óbitos, que são: Método da Razão de Sobre-
vivência Intercensitária (RIS) e os Métodos de Distribuição de Mortes 
(DDM). Em seguida, serão apresentados os métodos mais recentes ela-
borados para serem aplicados em contextos de pequenas áreas, que 
além de corrigirem o problema de subnotificação, procuram amenizar 
os erros associados ao pouco número de óbitos nessas regiões.
Métodos demográficos clássicos de estimação de 
mortalidade
Método da Razão de Sobrevivência Intercensitária (RIS) 
Um dos métodos mais simples e que requer poucas fontes de dados 
para estimar a mortalidade é o RIS, que necessita basicamente da in-
formação de dois censos consecutivos. Porém, sua aplicabilidade é bas-
tante limitada no caso de estimativas de pequenas áreas devido aos 
fortes pressupostos necessários para sua aplicação. A razão de sobrevi-
vência intercensitária, para o grupo de idade entre x e x+5 anos, corres-
ponde ao quociente entre a população com idade entre x+t e x+5+t anos 
no segundo censo – em que t corresponde à amplitude do intervalo 
intercensitário – e a população com idade entre x e x+5 anos no censo 
anterior. 
O método da razão intercensitária assume população fechada, ou 
com fluxos migratórios muito pequenos, o mesmo nível de cobertura 
81Estimativas de taxas de mortalidade em pequenas áreas...
dos dois censos utilizados e ausência de erros na declaração de idade. 
No caso de pequenas áreas, os fluxos migratórios afetam diretamente 
os resultados, uma vez que a emigração ocorrida entre os censos vai 
“parecer” com óbitos ocorridos e a imigração pode levar à conclusão 
errônea de um nível de mortalidademais baixo. Nesse sentido, a apli-
cação do RIS para estimação da mortalidade em pequenas áreas é bas-
tante restrita devido à violação dos seus pressupostos, principalmente 
o que exige população fechada. Além disso, o volume populacional e a 
composição demográfica de áreas geograficamente pequenas são bas-
tante susceptíveis aos movimentos migratórios, o que acaba compro-
metendo as estimativas pelo método de razão intercensitária. 
 Métodos de Distribuição de Mortes (DDM) 
Os Métodos de Distribuição de Mortes (conhecidos também por mé-
todos DDM na nomenclatura inglesa) agregam uma série de técnicas 
demográficas tradicionais e amplamente utilizadas para correção de 
sub-registro de óbitos e estimação de mortalidade. A ideia dos métodos 
DDM é comparar a distribuição de óbitos por idade com a distribuição 
etária da população e, assim, prover o padrão etário da mortalidade 
para um período definido. Há três principais métodos de avaliação de 
registro de óbitos: General Growth Balance (GGB), proposto por Hill 
(1987); Synthetic Extinct Generation (SEG), ou Gerações Extintas, pro-
posto por Bennett e Horiuchi (1981); e o Adjusted Synthetic Extinct 
Generations (SEG-adj), ou Gerações Extintas Combinado ou Ajustado, 
proposto por Hill, You e Choi (2009). Esses métodos têm pressupostos 
bastante fortes: população é fechada, o grau de cobertura dos óbitos é 
constante por idade, o grau de cobertura da contagem populacional é 
constante por idade, e as idades dos vivos e dos óbitos é declarada sem 
erros. Os métodos de distribuição de mortes produzem, na sua apli-
cação, gráficos de diagnóstico que permitem a avaliação da aplicação 
dos métodos e são informativos sobre a qualidade das informações e 
quebra dos pressupostos envolvidos. Um outro aspecto relevante é que 
esses métodos mais recentes oferecem medidas qualitativas para ava-
liar a qualidade dos dados e validar os resultados. 
Como já afirmado, os três métodos DDM assumem população fe-
chada para melhor uso das estimativas. Embora existam na literatura 
82 Capítulo 5
metodologias que permitem lidar com esse problema (Bhat, 2002; Hill; 
Queiroz, 2010), quando o intuito for trabalhar com dados regionais ou 
subnacionais, é importante considerar os possíveis efeitos dos fluxos 
migratórios nas estimativas de avaliação da qualidade dos dados. Uma 
alternativa utilizada em estudos de áreas menores com aplicação dos 
DDM é utilizar um intervalo etário para estimar o grau de cobertura 
que sofre pouca ou nenhuma influência dos fluxos migratórios (Hill et 
al., 2009; Queiroz, 2011) ou aplicar a metodologia proposta por Bhat 
(2002) ou Hill e Queiroz (2010). 
Contudo, mesmo com essas alternativas de métodos que relaxam 
o pressuposto da população fechada, os métodos DDM vêm apresen-
tando, de uma forma geral, restrições ao serem aplicados para peque-
nas áreas (Gonzaga; Schmertmann, 2016; Lima; Queiroz, 2014), em 
grande medida pela alta variabilidade dos dados de óbitos, que é carac-
terística dessas áreas, como já mencionado. Por esse motivo, sempre 
é oportuno avaliar a qualidade dos dados e das estimativas e, caso ne-
cessário, realizar ajustes devidos, via padronização ou técnicas de sua-
vização. Adicionalmente aos métodos demográficos tradicionais, vêm 
sendo incorporados à literatura de estimativas de mortalidade de pe-
quenas áreas modelos estatísticos bayesianos, como usado por Justin, 
Freire e Lucio, (2012), e modelos de regressão para predizer medidas de 
mortalidade, como Ahmad e Hill (2011). Essas novas abordagens serão 
detalhadas na seção seguinte. 
métodos alternativos para estimativas de mortalidade 
em pequenas áreas
Uma técnica comumente utilizada na demografia para se obter esti-
mativas de mortalidade em áreas menores é a padronização (Grupo 
de Foz, 2021). A técnica tem duas variantes: padronização direta ou 
indireta. Embora o seu uso seja bem mais amplo do que estimar taxas 
de mortalidade por idade para áreas menores, a padronização indireta, 
especificamente, pode ser empregada com essa finalidade. 
É muito comum em áreas menores não dispor ou não confiar na 
distribuição dos óbitos observados por idade por dois motivos: a) a ex-
posição é muito baixa e, portanto, tem-se poucos eventos por idade 
83Estimativas de taxas de mortalidade em pequenas áreas...
e sexo; e b) o grau de cobertura dos óbitos não é conhecido, ou não 
estimável, pelos métodos DDM. Assumindo que a distribuição etária 
dos óbitos nas áreas menores não é conhecida, mas que a distribui-
ção etária da população sim, a padronização indireta consiste em assu-
mir que a estrutura etária dos óbitos nas áreas menores é semelhante 
àquela da área maior. Então, multiplica-se as taxas de mortalidade por 
idade da área maior à população por idade da área menor, obtendo, 
assim, o número de óbitos esperados na área menor, caso as taxas de 
mortalidade por idade fossem semelhantes àquelas da área maior. Em 
seguida, divide-se o número total de óbitos esperados pelo número 
total de óbitos registrados na área menor, obtendo um fator de ajuste 
do nível de mortalidade que, aplicado às taxas de mortalidade por 
idade da área maior, resulta em taxas de mortalidade por idade da área 
menor coerentes com o total de óbitos registrados na área menor. 
Entretanto, a técnica de padronização indireta tem o inconve-
niente de assumir que a estrutura etária das taxas de mortalidade nas 
áreas menores é semelhante àquelas da área maior, o que pode ser 
contestado em situações de heterogeneidade sociodemográfica e eco-
nômica entre áreas menores de uma mesma região.
Adair e Lopez (2018) sugerem um modelo empírico para gerar esti-
mativas de correção de sub-registro com aplicabilidade para pequenas 
áreas. O método demonstra flexibilidade suficiente para prever uma 
ampla gama de níveis de completude a uma determinada taxa de mor-
talidade bruta registrada. O método pode ser aplicado utilizando dados 
prontamente disponíveis no nível subnacional. O modelo assume que 
o grau de cobertura dos óbitos tem uma relação positiva com a taxa 
bruta de mortalidade registrada e uma relação negativa com o nível de 
mortalidade e com uma estrutura etária mais envelhecida da popula-
ção. O modelo foi ajustado para dados de mais de 100 países e os parâ-
metros estimados podem ser usados para obter estimativas de grau de 
cobertura em outros países, ou localidades do mundo.
Alexander, Zagheni e Barbieri (2017) apresentaram um modelo ba-
yesiano hierárquico para estimar a mortalidade no nível subnacional, 
permitindo que as informações sobre mortalidade sejam compartilha-
das no tempo e no espaço. Essa abordagem ajuda a informar os padrões 
de mortalidade em áreas geográficas menores, para as quais a incer-
teza em torno dos dados é alta. Os resultados mostraram estimativas 
84 Capítulo 5
razoáveis, além de terem produzido intervalos de confiança em torno 
das estimativas de mortalidade, o que reflete a incerteza em torno da 
estimativa. Método semelhante foi aplicado por Lu e demais autores 
(2021) para estimar a mortalidade em níveis nacional e provinciais na 
China. Os autores verificaram que o modelo fornece boas estimativas e 
previsões razoáveis tanto a nível nacional como provincial. 
Gonzaga e Schmertmann (2016) propuseram utilizar a combinação 
de uma regressão de Poisson com o modelo relacional TOPALS para es-
timar a mortalidade por idade em pequenas áreas brasileiras (estados, 
mesorregiões, microrregiões e municípios) em 2010. Como vantagem 
para os métodos anteriores, os autores destacam que são dispensadas 
algumas suposições rígidas sobre os padrões regionais de idade, como 
a exigência de que todas as áreas menores dentro de uma área maior 
tenham estrutura de mortalidade logarítmica por idade com formato 
idêntico. Os resultados mostraram diferenças notáveis nos padrões de 
mortalidade por idade entre pequenas áreas adjacentes, o que atesta 
as vantagens de usar uma relação funcional flexível em modelos de 
regressão.
Queiroz e demais autores (2020)estimaram a mortalidade adulta 
e sua variação temporal nas 137 mesorregiões brasileiras. Primei-
ramente, eles aplicaram o modelo relacional TOPALS para estimar e 
suavizar as taxas de mortalidade por idade simples e gerar os óbitos es-
perados. Em seguida, usaram métodos de distribuição de mortes para 
avaliar a qualidade dos dados de mortalidade. Os resultados encontra-
dos foram consistentes com os diferenciais de mortalidade sugeridos 
pela literatura no Brasil.
O trabalho de Schmertmann e Gonzaga (2018) propõe a combina-
ção de métodos demográficos, suavização de taxas com base em um 
modelo relacional e uso de estatística bayesiana para obter estimati-
vas de qualidade de dados, e assim curvas de mortalidade corrigidas 
para pequenas áreas. O trabalho faz uma aplicação para o caso brasi-
leiro em 2010. Em resumo, eles desenvolvem um modelo de regressão 
bayesiano para estimar a mortalidade em pequenas áreas que aborda 
simultaneamente os problemas de pequenas amostras locais e o sub-
-registro de óbitos. O modelo proposto combina um modelo relacio-
nal para curvas de mortalidade com informação prévia probabilística 
sobre cobertura de registro de óbito derivada de técnicas de estimativa 
85Estimativas de taxas de mortalidade em pequenas áreas...
demográfica, como DDM, e de pesquisas de campo por especialistas em 
saúde pública (e.g. busca ativa). 
Metodologia semelhante foi utilizada por Rau e Schmertmann 
(2020) para estimar a expectativa de vida das cidades alemãs entre 
2015 e 2017. Para isso, os autores utilizaram um modelo bayesiano 
relacional TOPALS. Com esse modelo, os autores estimaram as taxas 
de mortalidade específicas por idade para todos os distritos com um 
modelo bayesiano que vincula os parâmetros do modelo entre os dis-
tritos. Com isso, o modelo produz taxas de mortalidade probabilísticas 
no nível distrital e em seguida calcula-se uma distribuição de probabi-
lidade para a expectativa de vida no nível distrital. 
Um método alternativo foi aplicado por Costa e demais autores 
(2020), que utilizaram Modelos Lineares Generalizados (GLM) para pre-
dizer o total de óbitos e a completude da informação aos níveis nacio-
nal, estaduais e municipais do Brasil em 2015 e 2016. Primeiramente, 
os autores vincularam os óbitos do SIM e do RC com métodos deter-
minísticos e depois verificaram a integridade de cada uma das fontes 
por método de captura-recaptura. Em seguida, rodaram um modelo 
de regressão GLM com as variáveis explicativas sendo características 
do falecido (sexo, idade, estado de residência, causa da morte e local 
da morte), além de variáveis sobre o município de ocorrência do óbito, 
como decil de educação e decil de densidade populacional.
Em um trabalho mais recente, Schmertmann (2021) propõe uma 
modificação à abordagem de splines penalizados (P-splines), seme-
lhante àquela utilizada na regressão TOPALS (Gonzaga; Schmertmann, 
2016), para estimar padrões de mortalidade ainda mais regulares e 
suavizados. Essa nova abordagem de penalização dos splines o autor 
denomina de D-splines, cuja diferença básica é a adoção de padrões de-
mográficos previamente selecionados que são incorporados ao termo 
de penalidade, ao invés de regras matemáticas genéricas. Utilizando 
dados de pequenas populações gerados por simulação, o autor verifi-
cou que estimadores D-splines apresentaram melhor ajuste do que os 
P-splines padrão, concluindo assim que essa nova abordagem de pe-
nalização dos splines, adotando o conhecimento demográfico sobre o 
padrão e variabilidade da mortalidade, apresenta propriedades mais 
favoráveis em pequenas populações. 
86 Capítulo 5
Dada já uma variedade de sugestões metodológicas para superar o 
desafio de estimar a mortalidade em pequenas áreas, Denecke, Grigo-
riev e Rau (2023) buscaram elencar os recentes métodos demográficos 
para medidas de mortalidade em pequenas áreas, uma visão geral do 
estado da arte, e como eles se relacionam entre si. 
Os autores argumentam que, devido às diferentes configurações e 
critérios utilizados por esses estudos, é difícil para o pesquisador fazer 
comparações entre eles no que tange aos dados de entrada, taxas de 
mortalidade subjacentes, tamanhos populacionais, número de repe-
tições e métricas de desempenho. Para fazer a comparação entre os 
métodos, os autores selecionaram três trabalhos que utilizaram abor-
dagens que se distinguem de como o conhecimento sobre as curvas 
de mortalidade por idade (o que eles denominam de “conhecimento 
demográfico”) são incorporadas ao método: (i) regressão TOPALS de 
Gonzaga e Schmertmann (2016); (ii) D-splines de Schmertmann (2021); 
e (iii) modelo hierárquico bayesiano de Alexander, Zagheni e Barbieri 
(2017). Além de como o conhecimento demográfico é incorporado, 
outra distinção entre as abordagens é que os modelos de regressão 
TOPALS e D-splines estimam as taxas de mortalidade em diferentes 
regiões/subpopulações e ao longo do tempo, independentemente uma 
das outras. Já na abordagem bayesiana de TOPALS há uma dependência 
espacial, e no modelo hierárquico bayesiano essa dependência se dá no 
espaço e no tempo. Segundo os autores, esses fatores determinam os 
requisitos dos inputs dos modelos e a facilidade de seu uso.
Por meio de método de simulação, esses três métodos foram 
aplicados e avaliados, produzindo estimativas de taxas específicas de 
mortalidade na escala logarítmica, a partir das quais foi calculada as 
expectativas de vida. Em cada método, foram adotadas diferentes con-
figurações para os parâmetros necessários, como tamanho da exposi-
ção ao risco, conhecimento demográfico incorporado, entrada de um 
único ano e grupos de idade e estimadores exclusivos a depender do 
método. Utilizando as estimativas das taxas logarítmicas de mortali-
dade, o desempenho dos métodos foi avaliado conforme os seguintes 
critérios: viés (bias), raiz do erro quadrado médio, erro padrão empí-
rico, cobertura e largura dos intervalos de incerteza (ou de confiança). 
Como resultado, foi mostrado que existe uma relevante diferença de 
desempenho dos modelos conforme as idades e subpopulações/regiões, 
87Estimativas de taxas de mortalidade em pequenas áreas...
e que isso pode ser influência da escolha do conhecimento demográ-
fico adotado e do tamanho da exposição. Contudo, os autores ressal-
tam que não conseguiram (e nem foi o objetivo da pesquisa) identificar 
o melhor método e que o intuito da pesquisa foi fornecer uma visão 
geral das diferentes abordagens, bem como apresentar as vantagens e 
desvantagens de cada método de estimativa de mortalidade para pe-
quenas áreas.
discussão
Ter um sistema de estatísticas vitais de mortalidade confiável é im-
portante para o planejamento e efetividade de políticas públicas, es-
pecialmente aquelas relacionadas à saúde. Em um contexto de grande 
desigualdade socioeconômica, como é o caso brasileiro, a desagregação 
dessa informação se torna ainda mais primordial, já que é preciso iden-
tificar quais subpopulações precisam de ações específicas de atenção e 
assistência em saúde. 
Contudo, em países em que o sistema de informação de óbitos não 
tem a qualidade esperada, como baixo grau de cobertura, os indicado-
res e estimativas de mortalidade ficam comprometidos. Além disso, 
quando a análise é desagregada para pequenas áreas, adiciona-se mais 
um problema, que é o erro associado à alta volatilidade da informação 
decorrente da pequena população exposta ao risco de morte.
Embora se destaque os consideráveis avanços observados no Brasil 
nas últimas décadas, o cenário de desigualdade reforça primeiramente 
a necessidade da melhoria do fluxo de informação dos sistemas de es-
tatísticas vitais no Brasil, especialmente as localizadas nas áreas mais 
carentes e menos desenvolvidas. Essas medidas, que têm efeito de 
longo prazo, têm que ser acompanhadas de efetivo monitoramento 
por parte dos usuários acerca da melhoria da qualidade da informa-
ção e necessidade de técnicas demográficas para a correção dos dados 
quandodessas estratégias. Entretanto, muitas 
vezes faltam métodos e dados que nos permitam avançar no debate 
de modo mais profundo sobre as desigualdades em saúde no Brasil e 
sobre como a implementação de políticas sociais pode causar efeitos 
na saúde da população.
Esta coletânea se propõe a trazer de modo compilado os principais 
resultados de um projeto de pesquisa intitulado Políticas Sociais e De-
sigualdades em Saúde, realizado entre 2016 e 2020, que se desafiou a 
produzir conhecimentos relevantes sobre as desigualdades em saúde 
no Brasil e os efeitos das políticas sociais na melhoria das condições de 
saúde da população. O projeto foi desenvolvido a partir de uma parce-
ria entre o Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde 
12 Apresentação
(Cidacs/Fiocruz Bahia) e a Universidade de Glasgow, na Escócia, que 
lideraram a iniciativa, além de outras instituições de pesquisa como a 
Universidade Federal da Bahia (UFBA), Universidade Federal de Minas 
Gerais (UFMG), Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), a 
Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), além da London School 
of Hygiene and Tropical Medicine, na Inglaterra.
Ao acionar conhecimentos e metodologias de vários campos dis-
ciplinares – epidemiologia, estatística, ciência de dados, demografia, 
comunicação, entre outros –, foi possível alcançar resultados inovado-
res e capazes de contribuir para esse debate. É preciso destacar que o 
espectro de resultados vai além do propósito principal do projeto, uma 
vez que teorias, metodologias, procedimentos e conceitos foram atua-
lizados durante esse processo. Mas antes de apresentarmos o conteúdo 
desta obra, convém fazer uma breve contextualização do trabalho rea-
lizado pelo nosso grupo de pesquisa.
sobre o projeto
Em novembro de 2016, o National Institute for Health Research (NIHR), 
agência de fomento à pesquisa em saúde no Reino Unido, anunciou um 
novo programa de financiamento para grupos e unidades de pesquisa 
em saúde global, em parceria entre universidades do Reino Unido e 
instituições elegíveis em países de baixa e média renda. 
Nessa primeira chamada, os grupos de pesquisa em saúde global 
eram direcionados àqueles que eram novos na entrega de pesquisas de 
saúde aplicadas globalmente, enquanto as unidades de pesquisa em 
saúde global eram para aquelas com histórico de entrega de tais pes-
quisas. Os pesquisadores da Universidade de Glasgow tinham pouca ex-
periência em pesquisa de saúde global, tornando a colaboração entre 
brasileiros e escoceses uma nova oportunidade.
No curto período disponível, conseguimos formar uma equipe 
muito forte no Brasil e no Reino Unido, com áreas de especialização 
complementares – e em alguns casos sobrepostas. Em particular, os 
interesses comuns se concentravam no uso de bases de dados admi-
nistrativos que passaram por processo de vinculação (data linkage), na 
exploração da inovadora Coorte de 100 Milhões de Brasileiros (Barreto 
13Apresentação
et al., 2022)1 e o uso desses dados para avaliar experimentos naturais 
(Craig et al., 2017)2. Embora com dados do Brasil, o grupo Políticas So-
ciais e Desigualdades em Saúde se dedicou a um trabalho que fosse 
relevante em toda a América Latina e em outras regiões numa perspec-
tiva alinhada com o campo de estudos da saúde global.
No total, nove subgrupos de trabalho foram montados e avança-
ram em direção a objetivos distintos, mas com muita colaboração e 
aprendizado entre a equipe. Para a operacionalização das atividades, 
reuniões on-line e presenciais ocorreram periodicamente.
Os subgrupos de trabalho do projeto Políticas Sociais e Desigualda-
des em Saúde foram organizados da seguinte forma:
Grupo de Trabalho (GT1): O objetivo foi adicionar informações 
geográficas à Coorte de 100 Milhões de Brasileiros por meio do desen-
volvimento de um processo de geocodificação automática. Isso permi-
tiu que cada indivíduo da coorte fosse alocado ao seu Setor Censitário 
(SC) de residência (população média de 1.500 indivíduos) com base em 
endereços individuais. 
GT2: O objetivo foi desenvolver um índice de privação baseado 
em área e na descrição das desigualdades na mortalidade para a popu-
lação do Brasil. O Índice Brasileiro de Privação (IBP) foi acrescentado à 
Coorte de 100 Milhões de Brasileiros, expandindo a gama de análises 
possíveis, e foi amplamente disseminado para audiências acadêmicas, 
políticas e públicas. 
GT3: O objetivo foi vincular fontes de dados adicionais à Coorte 
de 100 Milhões de Brasileiros, focando em Doenças Não Transmissí-
veis (DNT). Esse subgrupo se concentrou em vincular registros de 
mortalidade, hospitalização selecionados (usando códigos CID-10 para 
identificar doenças subjacentes), além de dados de nutrição infantil 
e crescimento e do Programa Minha Casa, Minha Vida (PMCMV), que 
subsidiou 2,5 milhões de novas casas).
GT4: O objetivo foi avaliar o impacto do Programa Bolsa Família 
(PBF) – o maior programa condicional de transferência de renda do 
mundo – na saúde cardiovascular e cerebrovascular. 
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14 Apresentação
GT5: O objetivo foi avaliar o impacto do PMCMV em resultados, 
incluindo mortalidade cardiovascular e cerebrovascular. Os dados do 
MCMV foram vinculados à Coorte de 100 Milhões de Brasileiros, com 
uma abordagem analítica semelhante à do GT4.
GT6: O objetivo foi medir o progresso do Brasil em relação às 
metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) para as 
DNT, explorando o IBP, desenvolvido no GT2; e monitorar o progresso 
e as desigualdades no Plano Nacional de Redução de Mortalidade e Fa-
tores de Risco para as DNT.
GT7: O objetivo foi desenvolver a capacidade de pesquisa em ava-
liação de programas de saúde pública entre acadêmicos e formuladores 
de políticas. Desenvolvemos e entregamos (on-line) um curso de treina-
mento em design e análise de avaliação para um público internacional 
de acadêmicos e formuladores de políticas.
GT8: O objetivo foi desenvolver e manter relacionamentos bidire-
cionais com partes interessadas em nível nacional e local por meio de 
reuniões regulares, seminários e outros eventos, além da participação 
no grupo diretor. 
GT9: O objetivo foi sustentar o trabalho do grupo de estudos além 
de seu período de financiamento. Realizamos trabalhos preparatórios 
relacionados a dois projetos adicionais, um sobre desigualdades sociais 
no câncer no Brasil, o outro sobre a avaliação do Programa Cisternas – 
iniciativa que ajuda a criar estruturas para o armazenamento de água 
do período das chuvas para famílias que vivem no semiárido brasileiro 
e são atingidas pela seca.
O trabalho de nosso grupo enfrentou vários desafios. O maior 
deles foi o período da pandemia da covid-19, que impossibilitou as 
reuniões presenciais semestrais que ocorriam em Salvador-BA. A vi-
deoconferência, que havia sido usada para reuniões regulares dos di-
ferentes subgrupos de trabalho e reuniões ocasionais de toda a equipe 
de pesquisa, ganhou destaque e passamos a nos reunir como grupo a 
cada duas semanas, o que nos permitiu continuar a funcionar como 
uma equipe coesa. 
Em 2021, desdobramos a iniciativa ao propor uma ambiciosa es-
trutura de unidade de pesquisa para avaliar o impacto de programas 
sociais na saúde. Assim nasceu a nossa Unidade de Pesquisa em Saúde 
Global sobre Determinantes Sociais e Ambientais de Iniquidades de 
15Apresentação
Saúde (SEDHI), com foco no Brasil e no Equador, que começou as ativi-
dades em junho de 2022. Essa unidade expande nosso trabalho além da 
avaliação de políticas sociais, já que também considera os impactos das 
políticas ambientais e dos serviços de saúde na população.
sequêncianecessárias. 
Além disso, com a demanda cada vez maior por estimativas de 
mortalidade desagregadas e consistentes, é necessária a incorporação 
aos métodos demográficos consolidados na literatura de técnicas de 
88 Capítulo 5
correção e/ou suavização dos dados quando se tem alta volatilidade e 
grande incerteza. 
Os métodos demográficos tradicionais de correção dos dados de 
óbitos vêm se mostrando eficazes e aplicados aos níveis nacional, regio-
nal e até estadual. Contudo, para áreas menores, como municípios, eles 
se mostram demasiadamente inconsistentes. Trabalhos recentes, como 
os citados anteriormente, buscaram estimar a mortalidade para áreas 
menores utilizando a associação dos conhecimentos demográficos com 
abordagens estatísticas alternativas, encontrando considerável consis-
tência nos resultados. Essa associação de métodos demográficos de cor-
reção de dados com técnicas estatísticas se caracteriza hoje dentro da 
literatura como ramo de pesquisa profícuo e que vem ganhando aten-
ção dos pesquisadores das áreas de demografia, estatística e saúde.
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93
6
Desigualdades sociais na pandemia da covid-19
Maria Yury T. Ichihara
Lilia Carolina Carneiro da Costa 
Rafael Felipe da Silva Souza
Cleiton Otavio da Exaltação Rocha
Jonatas Silva do Espírito Santo
Jackson Santos da Conceição
Aline Grimberg 
Everton Emanuel Campos de Lima
Marcos Roberto Gonzaga
Bernardo Lanza Queiroz
Flávio Henrique Miranda de Araujo Freire 
Mauricio L. Barreto
introdução
A doença respiratória aguda grave chamada covid-19 foi detectada 
pela primeira vez em dezembro de 2019 na China, a qual se espalhou 
globalmente, causando um elevado número de mortes no mundo. No 
Brasil, a pandemia intensificou as desigualdades sociais, tornando-se 
desafiador para a população brasileira mais pobre cumprir as medidas 
não farmacológicas recomendadas pela Organização Mundial da Saúde 
(OMS). Isso se deveu, em parte, ao fato de que metade da população 
trabalhava no setor informal e muitas pessoas viviam em condições 
precárias em favelas, tornando o isolamento social e outras medidas de 
prevenção difíceis de serem seguidas (Couto; Couto; Cruz, 2020).
A pandemia impactou o aumento da fome, a insegurança alimen-
tar, a pobreza e a capacidade do sistema de saúde em atender a popu-
94 Capítulo 6
lação, dificultando o acesso aos serviços de saúde, aos equipamentos 
diagnósticos e terapêuticos e aos recursos humanos (Schappo, 2021).
Nessa perspectiva, ocorreu um aprofundamento das desigualda-
des históricas no sistema de saúde brasileiro nesse contexto mais com-
plexo da distribuição regional e da relação público-privada na saúde. 
O Sistema Único de Saúde (SUS), de caráter universal e com uma capi-
larização em todo o território nacional, enfrenta desafios relacionados 
aos vazios assistenciais, segmentação público-privada, deficiente regu-
lação no acesso aos cuidados especializados, dificuldades na coordena-
ção das ações da Atenção Básica, além do subfinanciamento crônico 
agravado por políticas de austeridade (Santos; Oliveira; Albuquerque, 
2022).
Durante a pandemia houve especial preocupação com a distri-
buição da oferta hospitalar, pública e privada, decorrente do rápido 
aumento da demanda por serviços de maior complexidade, sem que 
houvesse ampliação suficiente da oferta em saúde. No Brasil, havia 2,2 
leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) por 10 mil habitantes, con-
siderada média satisfatória pela OMS e pelo Ministério da Saúde (MS) 
– um a três leitos para cada 10 mil habitantes (Associação de Medicina 
Intensiva Brasileira, 2020) –, embora com uma distribuição muito desi-
gual no território nacional e com forte concentração nas capitais, em 
especial relacionado ao setor privado (Costa; Lago, 2020). Conforme 
Palamim e Marson (2020), apenas 11 dos 26 estados brasileiros e o Dis-
trito Federal apresentavam, até agosto de 2020, um leito de UTI/10 mil 
habitantes, entre eles, destacavam-se quatro estados da Região Sudeste 
(São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo). Essa região, 
embora fosse a mais privilegiada em relação à oferta de serviços e re-
cursos de saúde, também apresentou importantes desigualdades entre 
seus estados. Importante ressaltar que a maior dificuldade de acesso 
aos serviços foi vivenciada por aqueles com menor escolaridade, po-
pulação de menor renda e residentes nas Regiões Norte e Nordeste 
do país, principalmente Amazonas, Pará e Acre (Nunes et al., 2016), 
nas quais longos deslocamentos eram percorridos pelos pacientes para 
alcançar os serviços de saúde (Batista et al., 2020; Noronha et al., 2020). 
Além disso, grupos mais vulnerabilizados, como negros, pardos e in-
dígenas, além de idosos em situação precária, enfrentaram maiores 
barreiras de acesso aos serviços de saúde (Kalache, 2015).
95Desigualdades sociais na pandemia da covid-19
Os indicadores de mortalidade revelaram o impacto devastador da 
pandemia no Brasil. Entre abril de 2020 e dezembro de 2021, mais de 
620 mil mortes por covid-19 foram registradas, representando 22,2% 
do total de óbitos no período (Brasil, 2019, 2021). Diversos estudos 
mostraram o efeito da pandemia sobre a mortalidade, destacando-se 
desigualdades de gênero, raça, idade e renda (Pennington et al., 2021; 
Politi et al., 2020; Tyler et al., 2021).
A vacinação, embora eficaz na prevenção da doença e mortalidade, 
enfrentou desafios para sua implementação, como negacionismo, fake 
news e atrasos na aquisição, distribuição e sua aplicação. Problemas 
como a dependência de indústrias farmacêuticas internacionais e 
fracos investimentos em insumos biotecnológicos dificultaram a pro-
dução nacional de vacinas (Fundação Oswaldo Cruz, 2021). No Brasil, a 
vacina começou a ser aplicada em janeiro de 2021, com foco nas popu-
lações de maior risco, impactando a taxa de mortalidade (Moura et al., 
2022), porém houve desigualdade no acesso da população às vacinas, 
demonstrada pelas coberturas mais baixas nas regiões mais pobres do 
país (McGowan; Bambra, 2022).
Ainda existem lacunas sobre o efeito das desigualdades sociais na 
pandemia, inclusive relacionadas à dificuldade de acesso à vacinação 
(McGowan; Bambra, 2022). Considerando a necessidade de conhecer 
os efeitos das desigualdades pré-existentes e o seu aprofundamento 
durante a pandemia, este capítulo tem os seguintes objetivos:
1 Analisar a associação entre o Excesso de Mortalidade por todas as 
causas (EM) e sua relação com a vulnerabilidade social, segundo os 
padrões de privação material no Brasil, utilizando o Índice Brasi-
leiro de Privação (IBP) (Allik et al., 2020; Centro de Integração de 
Dados e Conhecimentos para Saúde, 2020) e implementando duas 
metodologias: 
1.1 Método de contagem de óbitos; 
1.2 Séries temporais interrompidas.
2 Avaliar a relação entre a cobertura vacinal em idosos (60 anos ou 
mais) e o IBP.
96 Capítulo 6
metodologia
Descrevemos a seguir os seguintes métodos de acordo com os objetivos:
1.1 Utilizou-se os 9.305.995 óbitos por todas as causas registradas 
no Sistema de Informação de Mortalidade (SIM), no período de 2015 
a 2021 (Brasil, 2019, 2021), excluídos 106.934 óbitos fetais ou com 
ausência de informações. O EM, definido como p-score, foi expresso 
pela média de óbitos mensais de 2015 a 2019, em comparação com o 
número de óbitos mensais observados em julho de 2020 e março de 
2021, para cada município (Mathieu et al., 2020); Lima et al., 2021).
O intervalo de confiança foi estimado por meio da simulação de 
Monte de Carlo (Lima et al., 2021). Realizou-se o agrupamento dos mu-
nicípios utilizando-se o IBP (z-score) e o EM por meio da divisão em 
tercis (três intervalos onde cada um contém ⅓ das observações) para 
ambas as variáveis (IBP e EM). Dessa maneira, os municípios foram 
agregados em nove grupos: 1) IBP alto/EM alto; 2) IBP alto/EM médio; 
3) IBP alto/EM baixo; 4) IBP médio/EM alto; 5) IBP médio/EM médio; 
6) IBP médio/EM baixo; 7) IBP baixo/EM alto; 8) IBP baixo/EM médio; 
9) IBP baixo/EM baixo. A análise da desigualdade social no EM (p-score) 
foi realizada pela análise dos agrupamentos dos municípios no pri-
meiro e segundo pico da pandemia por meio de mapas bivariados. 
1.2 Para analisar a relação da privação materialcom o EM por todas 
as causas, foi utilizado o método de séries temporais interrompidas 
(Cummins; Gasparrini, 2017). Esse método permite comparar o com-
portamento de uma série temporal antes e depois de um determinado 
ponto no tempo. Foram utilizados os óbitos por todas as causas obtidos 
do SIM no período de janeiro de 2015 a outubro de 2021. Foi calculada 
a taxa de mortalidade por todas as causas (por 100.000 habitantes) pa-
dronizada por idade para cada quintil do IBP. O EM por todas as causas 
foi estimado pela diferença entre a taxa de mortalidade mensal obser-
vada nos anos de 2020 e 2021 e a taxa esperada baseada no período de 
2015 a 2019 (contrafactual). Utilizou-se a modelagem por regressão de 
Poisson, especialmente útil quando se deseja avaliar a relação entre 
uma variável dependente (taxa de mortalidade padronizada por idade) 
e uma ou mais variáveis independentes (nível de privação material). Os 
97Desigualdades sociais na pandemia da covid-19
dados no tempo foram corrigidos pelos efeitos de sazonalidade, levan-
do-se em consideração a variação dos dados ao longo do ano. 
1.3 Para análise da associação da cobertura da vacina da covid-19 
e IBP, utilizou-se: 1) microdados da Campanha Nacional de Vacinação 
contra Covid-19 (OpenDataSUS-Ministério da Saúde do Brasil) (Brasil, 
2022), posteriormente agregados por idade, semana epidemiológica e 
municípios; e 2) projeções populacionais municipais por faixa etária 
(Freire et al., 2019). Foram calculadas as taxas de vacinação completa 
(dose única ou duas doses de vacina contra covid-19) entre os idosos 
(60 anos ou mais) por semana epidemiológica para 5.565 municípios 
brasileiros, no período entre as 3ª e 51ª semanas epidemiológicas de 
2021 (segunda onda de casos de covid-19 no Brasil). 
Para o agrupamento das séries temporais municipais das taxas de 
vacinação completa entre os idosos, foi aplicado um modelo de apren-
dizado de máquina não supervisionado. Esse modelo foi baseado no 
tradicional método k-means, considerando a Dynamic Time Warping 
(DTW) como medida de similaridade entre as séries temporais e o 
DTW Barycenter Average (DBA) como centróides dos grupos (Petitjean; 
Ketterlin; Gançarski, 2011). Para a escolha do número de grupos, foi 
utilizado o método Elbow baseado numa adaptação da medida Within-
-Cluster Sums of Squares (WCSS). Esse método adaptado do k-means, 
descrito em Espírito Santo e demais autores (2024), permite que o 
agrupamento ocorra mesmo com séries temporais de comprimentos 
diferentes. 
A aplicação do método resultou em sete grupos de municípios 
(1 a 7), em que cada grupo é composto por municípios similares em 
níveis de taxas de vacinação contra covid-19 entre idosos. Os primeiros 
grupos correspondem aos municípios com baixas taxas de vacinação e 
os últimos, aos municípios com maiores taxas de vacinação. A partir 
da definição desses grupos, foi observado o comportamento do IBP (z- 
-score) em cada agrupamento e realizados testes estatísticos para aferir 
a associação entre os padrões de vacinação e a privação material dos 
municípios.
98 Capítulo 6
resultados
Nesta seção, são apresentados os principais achados relacionados aos 
padrões espaciais e temporais que demonstram as dinâmicas da desi-
gualdade e suas implicações na saúde pública durante a pandemia. Os 
resultados refletem as mudanças observadas em períodos específicos, 
incluindo os padrões de desigualdade no excesso de mortalidade (EM) 
e à relação com o Índice de Privação Material (IBP), bem como as va-
riações nas taxas de mortalidade e na intensidade da vacinação contra 
covid-19 entre idosos em diferentes macrorregiões.
Padrões espaciais da desigualdade no EM por todas as 
causas segundo IBP 
A Tabela 1 descreve a classificação dos 5.565 municípios em dois mo-
mentos (julho de 2020 e março de 2021), conforme o agrupamento rea-
lizado utilizando duas variáveis: IBP e EM. Considerando todo o país, 
comparando o percentual de municípios em cada grupo, observou-se 
que os grupos caracterizados pelos municípios com alto IBP e EM ou 
baixo IBP e EM representavam 24,5% dos municípios, no primeiro 
momento, diminuindo para 11,9% no segundo. Em contrapartida, os 
grupos caracterizados pelos municípios com alto IBP e baixo EM ou 
baixo IBP e alto EM representavam 18,6% dos municípios, no primeiro 
momento, aumentando para 32% no segundo.
Na análise das macrorregiões geográficas, observou-se um padrão 
espacial entre IBP e EM (Figura 1), em ambos os momentos, em que: 
as Regiões Norte (25,6% e 14,2%) e Nordeste (32,2% e 12,3%) apresenta-
ram o maior percentual de municípios com maior IBP e EM; Sul (24,2% 
e 9,9%) e Sudeste (20% e 13,1%), menores indicadores; e Centro-Oeste 
(21,2% e 14,8%) com médio IBP e EM. No geral, a proporção de muni-
cípios mais privados que tiveram EM alto diminuiu no segundo mo-
mento, à medida que aumentou a proporção de municípios menos 
privados com EM alto.
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101Desigualdades sociaisna pandemia da covid-19
figura 1 – Distribuição espacial dos municípios brasileiros em grupos segundo IBP e 
EM por todas as causas no 1º e 2º pico da pandemia, Brasil, julho de 2020 e março de 
2021
Fonte: elaborada pelos autores usando dados do SIM (Brasil, 2019, 2021b) e IBP (Centro de 
Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde, 2020).
Desigualdades no EM por todas as causas: uso de séries 
temporais interrompidas
No período anterior à pandemia, janeiro de 2015 a fevereiro de 2020, 
observava-se uma tendência de queda na taxa de mortalidade em todos 
os níveis do IBP (Figura 2). No entanto, a partir de março de 2020, início 
da pandemia, o aumento nas taxas de mortalidade por todas as causas 
também ocorreu em todos os níveis. Esse aumento, quando se compara 
com o valor estimado caso não houvesse um ponto de corte (contrafac-
102 Capítulo 6
tual), se configurou em um excesso na taxa de mortalidade (padroni-
zada por idade). Em outubro de 2021, último mês da análise da série, 
essa diferença entre o valor observado e o contrafactual foi de 9,9, 10, 
11,6, 10,9 e 8,4, respectivamente, para os quintis 1 ao 5. Nessa análise, 
apesar do EM não ser o mais elevado no quintil 5 (o mais privado), no 
geral, essa variável mostrou-se influenciada pelo IBP. 
figura 2 – Série temporal da taxa de mortalidade por todas as causas padronizada 
por idade segundo quintis de IBP, Brasil, janeiro de 2015 a dezembro de 2021
Fonte: elaborada pelos autores usando dados do SIM (Brasil, 2019, 2021b) e IBP (Centro de 
Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde, 2020) e projeções populacionais (Freire; 
Gonzaga; Gomes, 2019).
103Desigualdades sociais na pandemia da covid-19
Padrões de vacinação contra a covid-19 entre idosos segundo 
privação material dos municípios no Brasil
A análise de agrupamento apontou sete grupos entre 5.565 municípios 
brasileiros, definidos conforme a similaridade entre as curvas de vaci-
nação contra covid-19 entre idosos (Figura 3). 
figura 3 – Agrupamento dos municípios brasileiros por intensidade das taxas de 
vacinação entre pessoas com 60 anos ou mais, Brasil, 3ª semana epidemiológica de 
2021 a 51ª semana epidemiológica de 2021
Fonte: elaborada pelos autores usando dados de vacinação (Brasil, 2022) e projeções 
populacionais (Freire et al., 2019).
De acordo com a Tabela 2, é possível perceber que aproximada-
mente 25% dos municípios se concentraram nos dois primeiros grupos 
(de menor intensidade de vacinação por covid-19), 25% nos dois últi-
mos grupos (de maior intensidade de vacinação) e a outra metade dos 
municípios nos grupos 3, 4 e 5. 
104 Capítulo 6
tabela 2 – Distribuição dos municípios brasileiros por grupo de intensidade da taxa 
de vacinação contra covid-19 entre idosos, Brasil, 3ª semana epidemiológica de 2021 a 
51ª semana epidemiológica de 2021
Grupo 1 2 3 4 5 6 7
Municípios (n) 474 909 1248 1.017 522 596 699
Municípios (%) 8,5 16,3 22,4 18,3 9,4 12,5 12,6
Fonte: elaborada pelos autores usando dados de vacinação (Brasil, 2022) e projeções 
populacionais (Freire et al., 2019).
A Figura 4 demonstra que a proporção de municípios do Norte e 
Nordeste do Brasil, no grupo 1, é de 77,0% e no grupo 2, é de 56,7%. 
Nos grupos 3, 4 e 5 são de 36,4%, 30,7% e 25,1%, respectivamente. No 
grupo 6, a proporção cresce para 43,8% e, no último grupo, o de maior 
intensidade da vacinação, a proporção é de somente 23,0%. 
figura 4 – Distribuição dos municípios brasileiros por grupo de intensidade da 
taxa de vacinação contra covid-19 entre idosos e macrorregião geográfica, Brasil, 3ª 
semana epidemiológica de 2021 a 51ª semana epidemiológica de 2021
Fonte: elaborada pelos autores usando dados de vacinação (Brasil, 2022) e projeções 
populacionais (Freire et al., 2019).
105Desigualdades sociais na pandemia da covid-19
De forma geral, a Figura 5 evidencia que, nos dois primeiros grupos 
(menor intensidade da vacinação entre idosos), a mediana do IBP foi 
positiva (maior privação) e, nos demais grupos, a mediana do IBP foi ne-
gativa (menor privação). Isto é, à medida que se avança para os últimos 
grupos, a mediana do IBP vai diminuindo, ou seja, quanto maior a taxa 
de vacinação contra covid-19 entre os idosos, menor a privação material 
do município. 
figura 5 – Distribuição do IBP entre os grupos de intensidade da taxa de vacinação 
contra covid-19 entre idosos, Brasil, 3ª semana epidemiológica de 2021 a 51ª semana 
epidemiológica de 2021
Fonte: elaborada pelos autores usando dados de vacinação (Brasil, 2022) e projeções 
populacionais (Freire et al., 2019).
A influência do IBP na intensidade da taxa de vacinação em idosos 
também pode ser observada na Figura 6, em que, nos grupos com altas 
taxas de vacinação, existe uma maior proporção de municípios com 
baixa privação (menores quintis do IBP), e vice-versa.
106 Capítulo 6
figura 6 – Distribuição dos municípios brasileiros por quintil do IBP e grupos de 
intensidade da taxa de vacinação contra covid-19 entre idosos, Brasil, 3ª semana 
epidemiológica de 2021 a 51ª semana epidemiológica de 2021
Fonte: elaborada pelos autores usando dados de vacinação (Brasil, 2022) e projeções 
populacionais (Freire et al., 2019).
considerações finais
Em relação ao EM por todas as causas, os resultados sugerem sua rela-
ção com a privação material. No método de contagem foi possível ob-
servar que essa relação foi maior no primeiro pico da pandemia (julho 
de 2020). Porém, observou-se, no segundo momento (março de 2021), 
o aumento do EM em municípios com baixo IBP, onde se espera me-
lhores condições de vida e saúde. Isso pode estar relacionado a diversos 
fatores, tais como a baixa adesão às medidas preventivas pelos grupos 
sociais mais abastados, como distanciamento social e uso de máscara, 
ou pela insuficiente implementação das medidas preventivas pelos 
gestores municipais. Além disso, é possível que, apesar de municípios 
mais ricos possuírem melhores condições de investimento em saúde, 
nem sempre tenham garantido o atendimento de qualidade a toda po-
pulação. Considerando a complexidade da pandemia, outros fatores 
relacionados à introdução de novas variantes, dificuldades de adoção 
da vacinação resultando em baixas coberturas vacinais, ao comporta-
mento da população quanto às medidas preventivas (como aumento da 
circulação das pessoas), a insuficiente estrutura dos serviços de saúde 
mais complexos nesse período podem ter tido influência sobre esse fe-
nômeno. Uma limitação do uso do IBP para medir a privação material é 
107Desigualdades sociais na pandemia da covid-19
que utiliza os dados do Censo Demográfico de 2010, não considerando, 
portanto, as mudanças socioeconômicas ocorridas nos municípios 
entre 2010 e 2021. 
Também foi observada a relação entre o nível de privação material 
e a intensidade da taxa de vacinação contra covid-19 na faixa etária 
de 60 anos ou mais. Isto é, os resultados sugeriram que onde o IBP era 
menor, garantiu-se acesso à vacinação para a faixa etária em questão. 
Isso indica que os idosos mais pobres tiveram sua prevenção específica 
da covid-19 comprometida. A situação se torna ainda mais complexa 
quando consideramos que locais com falta de saneamento e higiene 
precária tendem a favorecer o aumento das síndromes respiratórias. 
Portanto, a elevação da privação material não apenas pode aumentar 
o risco de morte, mas também minar os direitos básicos constitucio-
nalmente garantidos à população. Por tudo isso, salienta-se a impor-
tância de estudos desse tipo para que possam servir de alerta para a 
necessidade de orientar políticas que possam efetivamente reduzir as 
desigualdades sociais em saúde e mitigar o impacto de futuras emer-
gências de saúde pública na morbidade e mortalidade da população.
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113
7
Tendências temporais e desigualdade social dos 
indicadores de amamentação e alimentação 
complementar: estimativas nacionais do sistema de 
vigilância alimentar e nutricional do Brasil, 2008-2019
Giesy Ribeiro de Souza
Aline dos Santos Rocha
Ila Rocha Falcão
Maria Yury T. Ichihara
Mauricio L. Barreto
Rita de Cássia Ribeiro-Silva
contextualização: cenário atual e lacunas no 
conhecimento
O aleitamento materno e a introdução de alimentos complementares 
saudáveis às crianças nos primeiros anos de vida são fundamentais 
para o crescimento e desenvolvimento saudável (Schwartz; Issanchou; 
Nicklaus, 2009). Não ser exposto a alimentos saudáveis, práticas ali-
mentares inadequadas e deficiências nutricionais nos primeiros anos 
de vida podem elevar as taxas de morbimortalidade infantil e favorecer 
o desenvolvimento de Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT) em 
outras fases da vida (Engle; Castle; Menon, 1996; Klingelhöfer, 2021).
Dado o preocupante cenário socioeconômico brasileiro nos últi-
mos anos, junto à escassez de dados recentes disponíveis dos indica-
dores de alimentação de lactentes e crianças menores de dois anos no 
Brasil, o presente estudo teve como objetivo conhecer as tendências 
temporais dos indicadores de práticas alimentares em crianças atendi-
das pelos serviços de Atenção Primária à Saúde (APS) do Sistema Único 
114 Capítulo 7
de Saúde do Brasil (SUS), entre 2008 e 2019, de acordo com o Índice 
Brasileiro de Privação (IBP). Esses achados têm o potencial de auxiliar 
na elaboração de estratégias que podem atingir grupos de alto risco 
e contribuir para a prevenção e controle de morbidades associadas à 
alimentação, apoiando assim o alcance dos Objetivos de Desenvolvi-
mento Sustentável (ODS) descritos na Agenda 2030 da Organização das 
Nações Unidas (ONU).
desenho do estudo e população
Este é um estudo de série temporal com dados secundários de crianças 
menores de dois anos, usuárias dos serviços de Atenção Básica do SUS, 
com informações de consumo alimentar provenientes dos relatórios pú-
blicos do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan), no pe-
ríodo de 2008 a 2019. O acesso, processamento e análise dos dados foram 
realizados no Centro de Integração de Dados e Conhecimentos em Saúde 
(Cidacs), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) (Barreto et al., 2019).
indicadores de práticas alimentares
Os indicadores de práticas alimentares foram construídos com base em 
inquérito de consumo alimentar referente ao dia anterior à entrevista. 
A partir das respostas do inquérito alimentar foram calculados os indi-
cadores de práticas alimentares, que têm como referência aqueles su-
geridos pela Organização Mundial de Saúde (OMS) (2021) e o Ministério 
da Saúde (MS) (2015) (Brasil, 2015; World Health Organization; United 
Nations Children’s Fund, 2021).
variáveis demográficas e socioeconômicas
Os seguintes dados demográficos e socioeconômicos foram obtidos do 
Sisvan: sexo (feminino/masculino); faixa etária (0-5 meses/6-23 meses) 
e região geográfica de residência (Norte/Nordeste/Centro-Oeste/Sudeste/
Sul); e o IBP. Trata-se de uma medida que informa níveis de privação ma-
115Tendências temporais e desigualdade social dos indicadores...
terial ou, de um modo mais geral, níveis de posição socioeconômica, em 
diferentes áreas geográficas do Brasil. Para este estudo, os municípios 
foram agrupados em quintil (Q1 menor privação/Q5 maior privação).
análise estatística
Devido à modificação do questionário a partir de 2015, alguns indica-
dores não foram utilizados para todo o período da série estudada. As 
estimativas de Prais-Winsten foram usadas para analisar as tendências 
temporais na prevalência (Antunes; Cardoso, 2015). A razão entre as 
estimativas dos grupos extremos da variável de estratificação (IBP) foi 
calculada. Esta foi calculada dividindo-se os valores de prevalência cor-
respondentes ao grupo de menor privação (Q1) pelo valor do grupo 
com maior privação (Q5). Todos os dados foram processados e analisa-
dos no software Stata versão 15.1 (Estado Corp.).
considerações éticas 
Este estudo foi aprovado pelo comitê de ética do Instituto de Saúde 
Coletiva da Universidade Federal da Bahia (ISC/UFBA) (CAAE: 
41695415.0.0000.5030). 
resultados
O estudo incluiu um total de 911.735 crianças, com uma variação de 
12.279 em 2008 e 115.063 em 2019. A análise de tendência dos indi-
cadores de práticas alimentares, de acordo com IBP, encontra-se nas 
Tabelas 1 e 2. No geral, observa-se que o percentual de crianças me-
nores de seis meses em aleitamento materno misto variou de 10,0% 
para 11,9% entre 2015 e 2019, correspondente a uma variação anual 
de +10,38% (p=0,01). Tal aumento foi evidenciado nos quintis extre-
mos do IBP, sobretudo nos municípios de maior desigualdade [(Q/1: 
APC=10,60; pe Q/5: APC +2,20; p=0,04). 
discussão
Nossos dados apontam que os padrões de aleitamento materno e ali-
mentação complementar se diferenciam entre os quintis extremos do 
IBP; sendo mais favoráveis aos municípios de menor pobreza. Obser-
va-se um aumento da proporção de crianças menores de seis meses 
em aleitamento materno misto, sobretudo nos municípios de maior 
pobreza. Além disso, constatamos prevalências baixas para os indica-
dores: diversidade alimentar mínima, dieta mínima aceitável, quando 
comparado a outros estudos (Moga Lencha et al., 2022; Thorne-Lyman 
et al., 2021). Em relação aos indicadores de alimentação complementar 
houve uma melhoria dos padrões de diversidade alimentar mínima, 
dieta mínima aceitável e consumo de carnes e/ou ovos ao longo da série 
estudada, sobretudo entre os municípios de menor pobreza. Chama 
atenção a redução na proporção de crianças que não consumiam frutas 
e vegetais entre os municípios de maior pobreza. Além disso, é digno 
de nota a redução do consumo de bebidas adoçadas e alimentos ultra-
processados, independentemente do grau de desigualdade. 
117Tendências temporais e desigualdade social dos indicadores...
Apesar da recomendação de que o leite materno deva ser o único 
alimento oferecido a crianças menores de seis meses, pela primeira vez 
em uma série histórica no Brasil não foram observados aumentos reais 
da prevalência do aleitamento materno exclusivo (Boccolini et al., 2017). 
Esse resultado demonstra um cenário preocupante de desaceleração 
dos ganhos que vinham sendo observados entre 1986 e 2006 e uma dis-
sonância com o perfil histórico do aleitamento exclusivo de 113 países, 
que apresentaram aumento de aproximadamente 35% em 2000 para 
49% em 2019 (Boccolini et al., 2017; Neves et al., 2021). Por outro lado, 
o aumento da proporção de crianças em aleitamento materno misto, 
principalmente entre os municípios com maior nível de privação, é 
preocupante, o consumo de alimentos substitutos de leite materno au-
mentou globalmente e essa prática tem sido associada ao aumento do 
risco de sobrepeso/obesidade (Baker et al., 2021; Davis et al., 2018).
No que se refere à dieta mínima aceitável, um indicador composto 
por informações referentes à diversidade alimentar mínima em con-
junto com a frequência alimentar mínima, verifica-se tendência cres-
cente para aqueles municípios de menor pobreza. Por ser um indicador 
composto, a dieta mínima aceitável implica que as crianças precisam 
receber tanto uma alimentação diversificada (diversidade alimentar 
mínima) quanto em número recomendado de refeições (frequência 
alimentar mínima) – como o consumo de seis grupos de alimentos no 
dia anterior –; condição que pode não ser de fácil alcance em regiões 
mais pobres (Tizazu et al., 2022). Muitas famílias ainda enfrentam o 
desafio de atenderem aos padrões mínimos de qualidade dietética para 
crianças (Cavalcanti; Boccolini, 2022). Isso mostra a necessidade de 
uma compreensão mais abrangente sobre práticas alimentares com-
plementares, no contexto da insegurança alimentar e nutricional, 
quando ocorre um comprometimento no acesso regular e constante 
de alimentos de qualidade, em quantidades suficientes, sem compro-
meter as outras necessidades básicas e tendo como base as práticas 
alimentares promotoras de saúde (18–20). Outras associações negativas 
semelhantes entre a dieta mínima aceitável e o baixo status socioeconô-
mico também foram encontradas em estudos que utilizam dados das 
Demographic and Health Surveys (DHSs) realizados em países de baixa 
e média renda (Gatica-Dominguez et al., 2021; Tizazu et al., 2022).
Verificamos redução no percentual de crianças que consomem 
bebidas açucaradas e alimentos ultraprocessados, independentemente 
118 Capítulo 7
dos quintis extremos de pobreza. Paralelamente, verifica-se importante 
redução na proporção de crianças que não consomem frutas e vegetais, 
sobretudo em municípios de maior pobreza. Cabe destacar que as mo-
dificações no padrão alimentar têm sido evidenciadas nas últimas dé-
cadas, as quais se inserem no conceito da transição alimentar, processo 
de modificações sequenciais no padrão de consumo. Assim, um padrão 
alimentar não se apresenta estagnado. É possível especular para o sur-
gimento de um novo estágio do processo de transição alimentar, em 
consequência do desejo de prevenir ou retardar doenças degenerativas 
e prolongar a saúde, com a adoção de uma dieta com melhor qualidade 
e maior quantidade de frutas, vegetais e grãos integrais (Chong, 2022). 
Verifica-se aumento na proporção de crianças que consomem 
alimentos de origem animal, aqui avaliado pelo consumo de carnes 
e ovos ao longo da série, ainda que superior entre os municípios de 
menor pobreza (Q1/IBP). Essas disparidades provavelmente se devem 
ao alto custo desses alimentos (Bai et al., 2021). A inacessibilidade e o 
alto custo de alimentos ricos em proteínas tem sido uma área crescente 
de preocupação, impedindo a adoção de dietas adequadas e saudáveis 
(Headey; Alderman, 2019). No Brasil, o preço dos alimentos ricos em 
proteína aumentou significativamente nos últimos anos, enquanto, 
durante o mesmo período, o preço dos alimentos ultraprocessados per-
maneceu estável ou até mesmo apresentou algum declínio (Siqueira et 
al., 2021). Tais mudanças de preços podem, assim, desencorajar ainda 
mais a adoção de uma dieta adequada e saudável, o que explica em 
parte a prevalência de alimentos ultraprocessados ainda alta em todos 
os estratos sociais (Passos et al., 2020).
Em conclusão, os padrões de aleitamento materno e alimenta-
ção complementar se diferenciam entre os quintis extremos do IBP; 
mais favoráveis aos municípios de menor pobreza. Os dados revelaram 
ainda melhorias desses padrões ao longo da série temporal estudada, 
sobretudo entre os municípios de menor pobreza. Assim, esses acha-
dos têm o potencial de auxiliar na elaboração de ações direcionadas 
para grupos de maior risco e contribuir para a prevenção e controle de 
morbidades associadas à alimentação, apoiando assim o alcance dos 
ODS descritos na Agenda 2030 da ONU, incluindo esforços para erra-
dicar a fome e a desnutrição e para promover a saúde e o bem-estar.
119Tendências temporais e desigualdade social dos indicadores...
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127
8
Índice Brasileiro de Privação (IBP) e desigualdades 
na mortalidade por Doenças Crônicas Não 
Transmissíveis (DCNT)1 
Deborah Carvalho Malta
Renato Azeredo Teixeira
Regina Tomie Ivata Bernal
Laís Santos de Magalhães Cardoso
Juliana Bottoni de Souza
Pedro Cisalpino Pinheiro
Crizian Saar Gomes
Alastair H. Leyland
Ruth Dundas
Mauricio L. Barreto
introdução
As Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT) representam a maior 
causa de morbimortalidade no mundo e no Brasil, além de resultarem 
em mortes prematuras, incapacidades, perda da qualidade de vida e 
importantes impactos econômicos (Malta et al., 2019; Marinho et al., 
2019; World Health Organization, 2018). 
Estima-se que, anualmente, as DCNT sejam responsáveis por 41 
milhões de mortes no mundo (71% de todas as mortes) (World Health 
Organization, 2018). Desses óbitos, 15 milhões são prematuros (de capítulos
Os capítulos desenvolvidos por 54 pessoas que fizeram parte da equipe 
de pesquisa são baseados em artigos científicos publicados em reno-
madas revistas internacionais e nacionais, em relatórios, teses de dou-
torado e em palestras e comunicações apresentadas em congressos e 
seminários acadêmicos. 
O primeiro capítulo, “Índice Brasileiro de Privação (IBP): concep-
ção, construção e aplicações”, apresenta o IBP – primeira medida de pri-
vação material no Brasil que permite análises no nível do SC, além do 
nível municipal. Esse produto deu base a uma série de análises sobre as 
desigualdades em saúde no país que compõe os capítulos subsequentes. 
Os quatro capítulos seguintes trazem diversas abordagens sobre 
a mortalidade e as desigualdades no Brasil. O capítulo 2, intitulado 
“Inequidades na mortalidade por causas sensíveis à pobreza em crian-
ças menores de cinco anos no Brasil: aplicações do Índice Brasileiro de 
Privação (IBP) em análises no nível de Setores Censitários (SC)”, explora 
o IBP no nível dos SC para analisar a mortalidade por causas sensíveis 
à pobreza em crianças menores de cinco anos. O capítulo 3, “Bases de 
mortalidade e privação material nos municípios brasileiros”, avalia a 
qualidade das bases de dados de mortalidade no Brasil – Sistema de 
Informação de Mortalidade (SIM), Censo do Instituto Brasileiro de Geo-
grafia e Estatística (IBGE) e Sistemas de Estatísticas do Registro Civil 
(RC) – no que diz respeito ao sub-registro de óbitos. Enquanto o capí-
tulo 4, “Relação entre Índice Brasileiro de Privação (IBP) e cobertura do 
registro de óbitos para as menores áreas geográficas do Brasil”, estima 
a cobertura dos registros de óbitos para menores áreas geográficas no 
país, os SC, relacionando com o IBP. E o capítulo 5, “Estimativas de 
taxas de mortalidade em pequenas áreas no Brasil: principais limita-
ções e avanços recentes”, traz uma reflexão do ponto de vista da demo-
16 Apresentação
grafia sobre os principais métodos de correção de dados de mortalidade 
em pequenas áreas no Brasil, bem como suas limitações e avanços.
O capítulo 6, intitulado “Desigualdades sociais na pandemia da 
covid-19”, tem como tema a pandemia da covid-19. Os efeitos das desi-
gualdades nesse período de emergência sanitária se refletiram tanto na 
propagação da doença quanto nos óbitos e acesso à vacinação, segundo 
a equipe de pesquisa que conduziu esses estudos. Já o capítulo 7, “Ten-
dências temporais e desigualdade social dos indicadores de amamen-
tação e alimentação complementar: estimativas nacionais do sistema 
de vigilância alimentar e nutricional do Brasil, 2008-2019”, usou o IBP 
para conhecer as tendências temporais dos indicadores de práticas ali-
mentares em crianças atendidas pelos serviços de Atenção Primária em 
Saúde (APS) entre 2008 e 2019.
O IBP ainda foi explorado por mais outros dois capítulos com foco 
nas capitais brasileiras e Distrito Federal. Em “Índice Brasileiro de Pri-
vação (IBP) e desigualdades na mortalidade por Doenças Crônicas Não 
Transmissíveis (DCNT)”, estimou-se a mortalidade prematura por DCNT, 
enquanto em “Desigualdade nas prevalências de adultos fumantes em 
capitais brasileiras segundo o Índice Brasileiro de Privação (IBP)”, esti-
mou-se as prevalências de tabagismo e propôs-se novas categorias de 
privação do IBP.
Os capítulos 10 e 11 exploram DCNT na Coorte de 100 Milhões de 
Brasileiros. Em “Associação entre o Programa Minha Casa Minha Vida 
e desfechos em saúde: uma síntese de estudos aplicados à Coorte de 
100 Milhões de Brasileiros”, avalia-se os efeitos do PMCMV em diver-
sos desfechos em saúde, como mortalidade cardiovascular prematura 
e por diabetes. No capítulo “Câncer de colo do útero e de mama em 20 
milhões de mulheres adultas da Coorte de 100 Milhões de Brasileiros: 
panorama, desafios e potencialidades para a pesquisa”, são discutidos 
os desafios e as vantagens de analisar dados de mais de 20 milhões 
de mulheres em vários estudos sobre aqueles que são os principais 
cânceres potencialmente curáveis ou tratáveis na população feminina. 
São apresentados resultados evidenciando as desigualdades regionais, 
raciais e sociais na mortalidade por essas neoplasias.
O capítulo 12, “Percepções e experiências do compartilhamento e 
vinculação de dados administrativos para pesquisa e políticas públicas 
no Brasil”, traz o resultado de um estudo que buscou compreender 
17Apresentação
como as pessoas que são proprietárias dos seus dados e gestores públi-
cos percebem a vinculação e utilização dessas informações para gerar 
conhecimentos e políticas públicas. E o último capítulo, intitulado “En-
volvimento, comunicação e divulgação científica do Índice Brasileiro 
de Privação (IBP)”, relata uma experiência inovadora de divulgação 
científica do IBP que envolveu um trabalho coletivo entre a equipe de 
pesquisa e jornalistas.
Além de dialogar com um amplo espectro de pesquisadores de di-
versos campos do conhecimento, a natureza multidisciplinar refletida 
nos capítulos desta obra busca colaborar para a tomadas de decisões 
coletivas e individuais relacionadas às desigualdades em saúde no 
Brasil e em países de média e baixa renda. Dessa forma, esta coletânea 
foi pensada para apoiar o trabalho de gestores públicos, profissionais 
de saúde, Organizações Não Governamentais (ONGs) e entidades da so-
ciedade civil.
19
1
Índice Brasileiro de Privação (IBP): concepção, 
construção e aplicações
Maria Yury T. Ichihara
Ruth Dundas
Elzo Pereira Pinto Júnior
Dandara Ramos
Andrêa J. F. Ferreira
Flávia José Alves
Camila Silveira Silva Teixeira
Mauricio L. Barreto
Alastair H. Leyland
introdução
A construção de indicadores para avaliar as desigualdades sociais é um 
interesse crescente entre gestores e pesquisadores no Brasil. Nas últi-
mas décadas, medidas de mensuração foram criadas, a maioria delas 
em nível municipal, a exemplo do Índice de Desenvolvimento Humano 
Municipal (IDHM) em 1998 (Pinto; Costa; Marques, 2013) e o Índice de 
Vulnerabilidade Social do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada 
(IVS/IPEA) em 2015 (Costa; Marguti, 2015) ou a partir de dados de Seto-
res Censitários (SC) de um único município ou estado, como o Índice 
de Vulnerabilidade Social Paulista (IPVS) no estado de São Paulo (São 
Paulo, 2013) e o Índice de Vulnerabilidade em Saúde (IVS) no município 
de Belo Horizonte (Belo Horizonte, 2003).
Índices de privação têm sido criados para identificar padrões de 
bem-estar material e social para análise das desigualdades sociais na 
saúde. Desenvolvidos pela primeira vez no Reino Unido na década de 
20 Capítulo 1
1980 (Carstairs; Morris 1991; Jarman, 1983; Townsend; Phillimore; 
Beattie, 1988), se expandiram para outros países desenvolvidos como 
Nova Zelândia (Salmond; Crampton, 2012), Austrália (Pink, 2013), 
França (Havard et al., 2008), Japão (Fukuda; Nakamura; Takano, 2007), 
Espanha (Sánchez-Cantalejo; Ocana-Riola; Fernández-Ajuria, 2008), 
e em países de baixa e média renda, como Chile (Vasquez; Cabieses; 
Tunstall, 2016), Equador (Cabrera-Barona et al., 2015) e África do Sul 
(Noble et al., 2009).
Até dezembro de 2020, quando o Índice Brasileiro de Privação (IBP) 
foi criado, não havia no Brasil um índice capaz de capturar a privação 
material para todos os municípios do país, bem como para as peque-
nas áreas geográficas – os SC – em todo o território nacional (Ichihara, 
2018). O IBP poderá ser útil para identificar, em áreas intramunici-
pais, subpopulações em situações de privação material; acompanhar 
a implementação de programas sociais para populações socialmente 
vulnerabilizadas; e explorar a privação material como fator causal ou 
associado a resultados de saúde por meio da sua vinculação com outros 
dados de sistemas de informação de saúde.
Para a construção do IBP utilizou-se o método de Carstairs (Cars-
tairs; Morris, 1991), constituído das seguintes etapas:
seleção de dados apropriados e área geográfica
Utilizou-se os dados coletados em 310.120 SC, no período de 31 dena distribuição da 
mortalidade entre estratos com situações de privação distintas, os SC 
do local de residência dos óbitos foram classificados de acordo com as 
categorias de IBP, criadas como descrito anteriormente, para cada uma 
das capitais. Destaca-se que os óbitos sem informação de SC impossibi-
litaram a classificação de privação e, portanto, não foram considerados 
na análise e representam cerca de 30% dos óbitos. 
130 Capítulo 8
Foram considerados os óbitos prematuros ou de indivíduos com 
idades entre 30 e 69 anos (World Health Organization, 2018) nos triê-
nios 2010 a 2012 e 2017 a 2019, nas 26 capitais brasileiras e no DF. As 
estimativas foram feitas para a soma dos óbitos por DCNT, que incluiu 
as doenças cardiovasculares, doenças respiratórias crônicas, neoplasias 
e diabetes mellitus.
Considerando a heterogeneidade da qualidade do SIM no país e ao 
longo do tempo, foram aplicados métodos visando padronizar a quali-
dade das bases de dados das capitais considerando os dados faltantes e 
a qualidade da definição das causas básicas de morte. A primeira etapa 
consistiu no tratamento dos “dados faltantes”, por meio da redistribui-
ção proporcional dos ignorados e em branco, segundo ano, idade, sexo 
e local de residência (Ishitani et al., 2017; Malta et al., 2020a). Posterior-
mente, foi feita a redistribuição das causas garbage (CG). Esse termo 
define um grupo de causas que não podem ser consideradas causas 
básicas de morte, ou seja, refere-se a causas mal definidas ou inespecí-
ficas que são, portanto, de pouca utilidade para a saúde pública, posto 
que dificultam a identificação das reais doenças e agravos que desen-
cadearam o óbito (Ishitani et al., 2017). Por esse motivo, as CG devem 
ser detectadas e redistribuídas entre óbitos por causas específicas, de 
modo a melhorar a validade das análises sobre mortalidade (França et 
al., 2014; Teixeira et al., 2021) .
Foi seguida a metodologia proposta por Teixeira e demais auto-
res (2021), que inclui os códigos garbage definidos pelo estudo de Carga 
Global de Doenças (GBD) 2017; foram feitas as redistribuições propor-
cionais de acordo com os níveis de CG e seus respectivos alvos (França, 
2019; Global Burden of Disease Study, 2020).
Análise dos dados
As estimativas das taxas de mortalidade foram padronizadas pelo 
método direto, considerando apenas a morte prematura, tendo como 
população padrão o Censo Demográfico de 2010 para o Brasil. Além das 
estimativas pontuais, foram estimados os intervalos de confiança de 
95% (National Center for Health Statistics; Centers for Disease Control 
and Prevention, 2000).
Comparações por meio da Variação Percentual Relativa (VPR) 
foram feitas considerando os dois triênios 2010 a 2012 e 2017, em cada 
131Índice Brasileiro de Privação (IBP) e desigualdades na...
estrato do IBP. Todas as análises foram feitas segundo capitais e respec-
tivas categorias do IBP.
Aspectos éticos
Esta pesquisa obedece à Resolução nº 466, de 12 de dezembro de 
2012, do Conselho Nacional de Saúde (CNS). Foi aprovada pelo Comitê 
de Ética em Pesquisa envolvendo seres humanos (CEP) da Universidade 
Federal de Minas Gerais (UFMG), sob parecer nº 3.258.076. 
resultados
No geral, não foi possível geocodificar cerca de 30% dos óbitos. Essa 
perda foi maior no triênio 2010-2012, em algumas capitais do Nor-
deste, como Fortaleza, João Pessoa e Salvador. No triênio 2017-2019, o 
percentual de perdas foi menor, de 28% em média (Figura 1). 
figura 1 – Percentual de óbitos não geocodificados. Sistema de Informação de 
Mortalidade (SIM), capitais do Brasil, triênios 2010-2012 e 2017-2019
*Óbitos sem informação do Setor Censitário (SC) correspondente ao endereço de residência 
do indivíduo.
No triênio 2010 a 2012, considerando a totalidade das capitais, as 
taxas de mortalidade após os ajustes e a redistribuição de CG foram 
de 246,1/100.000 habitantes, 296,5/100.000 habitantes e 289,2/100.000 
habitantes nos estratos de baixa, média e elevada privação. No triênio 
2017 a 2019, para todas as capitais, essas taxas, após os ajustes e a 
132 Capítulo 8
redistribuição de CG, passaram para 180,3, 248,7 e 258,4 por 100 mil 
habitantes nos estratos de baixa, média e elevada privação (dados não 
mostrados).
No triênio de 2010-2012, as taxas de mortalidade por DCNT após 
a redistribuição de CG no estrato de baixa privação variaram de 105,0 
em Fortaleza a 266,6 por 100 mil habitantes no Rio de Janeiro. No 
estrato de média privação, Fortaleza apresentou a taxa mais baixa, de 
133,4 por 100 mil habitantes, e Rio de Janeiro a mais alta, de 356,3 
por 100 mil. No estrato de alta privação, a taxa mais baixa ocorreu em 
Fortaleza e a mais alta no Rio de Janeiro, respectivamente, 142,8 e 353 
por 100 mil habitantes (Figura 2).
No triênio de 2017-2019, também as taxas foram maiores nos es-
tratos intraurbanos de alta privação. No estrato de baixa privação, as 
taxas de mortalidade após a redistribuição de CG variaram de 101,9 
no DF a 243,8 por 100 mil habitantes no Rio de Janeiro. No estrato de 
média privação, as taxas variaram de 132,4 em São Luís a 345,9 por 100 
mil habitantes no Rio de Janeiro. No estrato de alta privação, a taxa 
mais baixa ocorreu em Fortaleza e a mais elevada no Rio de Janeiro, 
respectivamente 152,4 e 348,2 por 100 mil habitantes (Figura 2).
Considerando as estimativas após ajustes e redistribuição de CG 
e analisando-se a evolução das taxas ao longo dos dois triênios, obser-
vou-se redução entre os períodos no conjunto das capitais, em todos 
os estratos de privação. O maior decréscimo ocorreu no estrato de 
baixa privação (-18,2%), e o menor no estrato de alta privação (-7,5%). 
As capitais com a maior redução nas taxas no estrato de baixa priva-
ção foram: Curitiba (-37,1%), São Luís (-33,6%), Brasília (-28,9%), Palmas 
(-27,7%) e Belo Horizonte (-22,3%). No estrato de média privação, os 
maiores decréscimos ocorreram em Curitiba (-40,5%), Palmas (-36,3%) 
e São Luís (-22,3%), e no estrato de alta privação os decréscimos mais 
expressivos ocorreram em Curitiba (-41,0%), Palmas (-33,4%) e São Luís 
(-23,5%). Duas capitais apresentaram acréscimo das taxas nos três estra-
tos de privação: Rio Branco (26,7%, 13,6%, 3,8%) e Boa Vista (8,6%, 5,4% 
e 22,6%). Macapá (39,2% e 28,1%) e Fortaleza (9,4% e 6,7%) tiveram au-
mento nos estratos de média e alta privação, e Florianópolis apresen-
tou acréscimo da taxa no estrato de média privação (14,4%) (Figura 3).
133Índice Brasileiro de Privação (IBP) e desigualdades na...
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134 Capítulo 8
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135Índice Brasileiro de Privação (IBP) e desigualdades na...
discussão
O estudo aponta o declínio nas taxas de mortalidade prematura por 
DCNT comparando-se os triênios 2010-2012 e 2017-2019, na maioria 
das capitais. Nas análises entre os estratos do IBP, encontrou-se dife-
rença importante nas taxas de mortalidade: os estratos de baixa priva-
ção apresentaram menores taxas de mortalidade,e os estratos de alta 
e super alta privação com taxas mais elevadas.
Destaca-se que o estudo inova por apresentar avanços metodológi-
cos na redistribuição de CG e por utilizar o IBP para apontar as desigual-
dades intraurbanas. As diferenças nas estimativas das taxas por DCNT 
entre as categorias do IBP, com taxas mais elevadas na maioria das ca-
pitais e em ambos os triênios nos estratos de maior privação, apontam 
a importância de se medir as desigualdades em saúde na escala intraur-
bana. Essas diferenças têm sido bem documentadas na literatura, que 
sugere que a população de baixa renda e menor escolaridade detém 
taxas mais elevadas de morbimortalidade por DCNT (Odukoya, 2021), 
além de prevalências mais elevadas de fatores de risco para essas doen-
ças (Malta et al., 2020b), em razão das desigualdades sociais e baixo 
acesso a bens e serviços de saúde (Marmot; Bell, 2019).
Outro importante achado consistiu na redução das taxas de mor-
talidade por DCNT na maioria das capitais brasileiras no período ana-
lisado. Malta e colaboradores (Malta et al., 2020b), ao analisarem dados 
do GBD entre 1990 e 2019, identificaram declínio de 35,9% na mortali-
dade por DCNT prematura, sendo que as doenças cardiovasculares tive-
ram a redução mais expressiva, cerca de metade. Esses avanços podem 
ser explicados pela melhoria das condições de vida e saúde, redução da 
pobreza, maior acesso a bens e serviços, expansão do Sistema Único 
de Saúde (SUS) com aumento da cobertura do seu rol de serviços, bem 
como da Atenção Primária, o que possibilita atender às necessidades 
de saúde da população brasileira impulsionadas pelas transições epide-
miológica, nutricional e demográfica (Global Burden of Disease Study, 
2020). Somam-se a isso os avanços nas políticas de saúde, incluindo a 
implementação do Plano de Ações Estratégicas para o Enfrentamento 
das DCNT (Malta et al., 2020b; Malta; Morais Neto; Silva Junior, 2011), a 
Política Nacional de Promoção da Saúde (PNPS) (Malta et al., 2018), im-
136 Capítulo 8
plementação de medidas regulatórias, como a lei de ambientes livres 
de tabaco (Malta et al., 2020b), entre outras. 
Por outro lado, algumas capitais do Norte e do Nordeste apresen-
taram incremento das taxas entre os triênios, o que pode ser expli-
cado pela melhora na qualidade das informações de mortalidade nas 
últimas décadas, avanços relacionados à ampliação da cobertura dos 
óbitos, à notificação mais precisa sobre as causas e à diminuição da 
proporção de CG (Teixeira et al., 2019).
Além da redistribuição proporcional dos CG considerando-se as 
causas-alvo dentro do grande grupo das DCNT, a metodologia proposta 
por Teixeira e colaboradores (Teixeira et al., 2019) introduz algoritmos 
de redistribuição de CG específicos para o Brasil, uma vez que consi-
dera os resultados de investigações de óbitos iniciadas no projeto com 
60 cidades (Marinho et al., 2019). Ao propor essa metodologia empí-
rica baseada nas investigações realizadas nas secretarias estaduais de 
saúde, a metodologia considera o contexto brasileiro, que é diferente 
do observado em outros países (França et al., 2014; Teixeira et al., 2019).
O SIM foi criado para a obtenção regular de dados sobre mortali-
dade no país e apresenta cobertura universal. Avanços relacionados à 
ampliação da cobertura dos óbitos, completude de dados e à melhor 
definição das causas básicas de morte, por meio da diminuição da pro-
porção de CG (Marinho et al., 2019), comprovam os bons resultados 
de ações do MS para qualificação dos dados de mortalidade no país 
(Brasil, 2022). Entretanto, o uso de dados brutos, sem correção, não 
é recomendado, principalmente em níveis subnacionais (França et 
al., 2014; Malta et al., 2020a). Recomenda-se a correção de óbitos sub- 
-registrados, bem como o tratamento das causas mal definidas e dos 
CG por meio de métodos de redistribuição (França et al., 2014; Malta et 
al., 2020a).
Dentre as limitações do estudo, embora este se atenha às capi-
tais brasileiras, as quais possuem melhor qualidade da informação de 
óbito, deve-se considerar que a qualidade dos dados do SIM em locais 
mais pobres é pior, entretanto não se sabe ao certo o quão diferente é a 
proporção de sub-registro entre as áreas analisadas no presente estudo. 
A utilização do IBP, que foi construído com dados do Censo de 2010, 
pode não estar captando as mudanças na distribuição da privação na 
última década, o que só será aferido após o Censo de 2022 e recálculo 
do IBP com os dados censitários atualizados.
137Índice Brasileiro de Privação (IBP) e desigualdades na...
Além disso, considerando o conjunto das capitais, 30% dos óbitos, 
em média, não puderam ser geocodificados e, portanto, não foram 
classificados nas categorias do IBP. As análises se limitaram às capitais, 
pela melhor qualidade da informação de óbito nessas localidades. 
Por fim, o presente estudo evidenciou diferenças intraurbanas no 
risco de morte por DCNT, segundo estratos de vulnerabilidade social. 
O uso de metodologia para tratamento dos dados de mortalidade está 
em constante desenvolvimento, entretanto é importante incentivar a 
melhoria da vigilância e do preenchimento das declarações de óbito e 
reforçar a abordagem da temática nos espaços de formação de futuros 
profissionais.
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143
9
Desigualdade nas prevalências de adultos 
fumantes em capitais brasileiras segundo 
o Índice Brasileiro de Privação (IBP)
Regina Tomie Ivata Bernal
Deborah Carvalho Malta
Renato Azeredo Teixeira
Laís Santos de Magalhães Cardoso
Juliana Bottoni de Souza
Pedro Cisalpino Pinheiro
Crizian Saar Gomes
Alastair H. Leyland
Ruth Dundas
Mauricio L. Barreto
introdução
O consumo de tabaco constitui um dos principais fatores de risco para 
Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT) (Malta et al., 2013, 2020). 
No Brasil, a prevalência do tabagismo em 1989 foi de 34,8% em 
adultos, com declínio importante nos anos seguintes (Giovino et al., 
2012; Malta et al., 2020), chegandoa 12% em adultos em 2019, segundo 
a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) (Malta et al., 2020). A redução do uso 
do tabaco é resultado das medidas regulatórias implementadas prin-
cipalmente a partir da adesão à Convenção-Quadro para o Controle 
do Tabaco (CQCT) em 2005, que proibiu a propaganda de cigarros, au-
mentou preços e impostos dos produtos, instituiu ambientes livres de 
fumo, entre outras (Giovino et al., 2012; Malta et al., 2013, 2020). Des-
taca-se, ainda, o Plano Estratégico de Ação para o Enfrentamento das 
DCNT no Brasil 2011-2022, contendo ações intersetoriais de prevenção 
144 Capítulo 9
e controle, bem como de implementação da vigilância das DCNT e mo-
nitoramento do tabagismo, e metas de redução do tabagismo (Malta et 
al., 2020).
A prevalência de consumo de produtos fumígenos é maior em pes-
soas de baixa renda, baixa escolaridade (Giovino et al., 2012) e que resi-
dem em locais com elevadas vulnerabilidades sociais (Bernal et al., 2020). 
O Índice Brasileiro de Privação (IBP) foi proposto em 2020 pelo 
Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs) 
e possibilita a mensuração da distribuição da desigualdade social em 
todo país. Assim, a utilização do IBP pode indicar áreas de maior vul-
nerabilidade social e com maior risco de acumular fatores de risco e 
piores desfechos em saúde (Allik et al., 2020; Fundação Oswaldo Cruz, 
2020).
Este capítulo apresenta uma nova proposta de recategorizacão do 
IBP para as capitais brasileiras e estima as prevalências de tabagismo 
nessas novas categorias de privação.
métodos
O estudo utilizou os dados do sistema de Vigilância de Fatores de Risco 
e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito (Vigitel), nas 26 capi-
tais e no Distrito Federal, no período de 2010 a 2013 (Brasil, 2014).
Anualmente, o sistema entrevista aproximadamente 54 mil indi-
víduos com 18 ou mais anos de idade, sendo cerca de 2 mil em cada 
uma das 26 capitais dos estados brasileiros e no Distrito Federal. Em 
cada cidade, o processo de amostragem do sistema é realizado em duas 
etapas, que envolvem o sorteio de amostras probabilísticas de linhas 
telefônicas e o sorteio de um morador com idade igual ou superior a 
18 anos de idade por linha telefônica. Detalhes sobre o processo de 
amostragem do sistema Vigitel são fornecidos nos relatórios técnicos 
anuais do sistema (Brasil, 2014).
Para avaliar o uso de cigarro, analisou-se as respostas à questão 
“O(a) senhor(a) fuma?”, independentemente do número de cigarros, da 
frequência e da duração do hábito de fumar (Brasil, 2014).
O estudo analisou a distribuição do IBP segundo quintil, decil e 
vigintil de privação e propôs uma nova categorização do IBP. Conside-
145Desigualdade nas prevalências de adultos fumantes...
rando os 65.687 Setores Censitários (SC) das 26 capitais e DF, nota-se 
que a distribuição dos setores por quintil de privação não ocorre de 
maneira uniforme nas capitais. Nas Regiões Norte e Nordeste, ocorre 
uma concentração de setores nos dois últimos quintis; enquanto nas 
Regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste, a concentração está no primeiro 
quintil. Além disso, as Regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste têm percen-
tual inferior a 1% ou ausência de SC no último quintil (Tabela 1).
Na análise por decil de privação, a distribuição dos setores também 
não ocorre de forma uniforme nas capitais. Na Região Norte, nota-se 
uma concentração de setores entre o sexto e sétimo decil; enquanto na 
Região Nordeste, a concentração está entre o sétimo e oitavo decil. Nas 
Regiões Sudeste e Sul, observa-se uma alta concentração dos setores no 
primeiro e segundo decil; enquanto na Região Centro-Oeste os setores 
estão concentrados entre o primeiro e quarto decil. Além disso, as Re-
giões Sul, Sudeste e Centro-Oeste apresentam um percentual inferior a 
1% ou ausência de setores no último decil. Ao contrário das cidades que 
compõem as Regiões do Sul, Sudeste e Centro-Oeste, algumas cidades 
das Regiões Norte e Nordeste apresentam o percentual acima de 5% dos 
SC no penúltimo ou no último decil (Tabela 2).
Na análise por vigintil de privação, é observado o mesmo compor-
tamento obtido na distribuição dos SC por quintil e decil (Tabela 3).
 
146 Capítulo 9
tabela 1 – Distribuição dos Setores Censitários (SC) por região e capital segundo 
quintil do IBP. 26 capitais e Distrito Federal, Censo 2010
Região Cidade
Quintil do IBP
TotalBaixa privação Alta privação
1 2 3 4 5
Norte Belém 17.68 19.82 27.90 31.25 3.35 100.00
Boa Vista 13.83 16.05 26.42 37.28 6.42 100.00
Macapá 6.26 10.37 26.78 40.60 15.98 100.00
Manaus 11.80 20.37 31.50 31.05 5.28 100.00
Palmas 31.40 19.42 28.51 16.12 4.55 100.00
Porto Velho 10.72 23.20 30.60 23.00 12.48 100.00
Rio Branco 10.42 15.18 19.35 40.48 14.58 100.00
Nordeste Aracaju 33.24 17.36 18.98 24.90 5.52 100.00
Fortaleza 18.19 17.13 24.91 35.58 4.19 100.00
João Pessoa 25.40 19.55 15.20 29.01 10.84 100.00
Maceió 12.61 9.34 14.53 31.09 32.44 100.00
Natal 19.45 14.11 25.37 33.33 7.74 100.00
Recife 24.22 12.58 19.25 37.78 6.18 100.00
Salvador 26.15 18.98 34.48 18.78 1.61 100.00
São Luís 18.07 16.99 20.30 30.05 14.58 100.00
Teresina 12.14 13.86 22.47 32.70 18.83 100.00
Sudeste Belo Horizonte 52.68 26.70 15.90 4.57 0.16 100.00
Rio de Janeiro 47.87 23.87 19.63 8.17 0.45 100.00
São Paulo 44.90 28.71 18.60 7.23 0.57 100.00
Vitória 59.79 19.76 17.48 2.97 0.00 100.00
Sul Curitiba 71.68 21.53 5.91 0.84 0.00 100.00
Florianópolis 69.89 21.90 6.92 1.29 0.00 100.00
Porto Alegre 67.53 15.41 12.81 3.95 0.29 100.00
Continua
147Desigualdade nas prevalências de adultos fumantes...
Região Cidade
Quintil do IBP
TotalBaixa privação Alta privação
1 2 3 4 5
Centro-Oeste Distrito 
Federal
42.05 28.49 18.77 9.78 0.91 100.00
Campo Grande 27.77 25.86 28.53 17.18 0.67 100.00
Cuiabá 38.33 25.09 21.47 14.11 1.00 100.00
Goiânia 43.00 29.49 19.19 8.20 0.12 100.00
Legenda: 0
 10%
>20%
Fonte: elaborada pelos autores.
Conclusão
148 Capítulo 9
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150 Capítulo 9
tabela 3 – Distribuição dos Setores Censitários (SC) por região e capital segundo vigintil 
do IBP, 26 capitais e Distrito Federal, Censo 2010
Região Cidade
Vigintil IBP
TotalBaixa 
privação
Alta 
privação
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20
Norte Belém 3.58 4.88 5.34 3.89 4.65 5.03 4.34 5.79 7.01 6.40 6.63 7.85 9.60 8.61 8.00 5.03 2.21 0.61 0.30 0.23 100.0
Boa Vista 1.73 4.20 2.72 5.19 3.21 4.94 3.95 3.95 4.44 6.91 7.41 7.65 9.88 9.88 12.10 5.43 2.47 1.23 2.22 0.49 100.0
Macapá 0.65 0.86 1.73 3.02 2.81 1.51 3.02 3.02 3.67 5.62 6.91 10.58 10.58 10.80 7.99 11.23 7.78 5.40 1.73 1.08 100.0
Manaus 2.66 2.33 2.91 3.91 4.70 4.66 5.61 5.40 6.28 7.86 8.52 8.85 7.69 8.52 8.06 6.77 2.83 1.58 0.71 0.17 100.0
Palmas 7.44 10.33 9.50 4.13 6.61 2.07 4.55 6.20 5.79 6.61 6.61 9.50 6.61 4.55 2.89 2.07 2.07 1.24 1.24 0.00 100.0
Porto Velho 1.75 2.73 2.73 3.51 4.48 6.04 4.68 7.99 5.07 9.94 6.63 8.97 8.19 6.04 6.04 2.73 3.12 4.48 2.73 2.14 100.0
Rio Branco 1.49 2.08 3.87 2.98 4.46 2.68 2.98 5.06 3.57 4.76 6.25 4.76 10.12 11.31 7.44 11.61 4.76 4.76 2.68 2.38 100.0
Nordeste Aracaju 9.69 11.31 5.92 6.33 6.19 3.36 3.90 3.90 4.85 4.98 4.85 4.31 7.13 7.67 6.19 3.90 3.77 1.21 0.40 0.13 100.0
Fortaleza 4.92 5.05 4.06 4.16 4.32 3.99 3.82 4.99 4.96 5.19 6.98 7.78 10.01 10.14 8.58 6.85 3.06 0.83 0.17 0.13 100.0
João Pessoa 7.97 7.65 4.99 4.78 4.99 5.31 5.53 3.72 3.29 2.98 3.61 5.31 5.74 7.12 6.59 9.56 6.48 3.51 0.53 0.32 100.0
Maceió 2.98 4.62 3.46 1.54 2.31 1.83 3.27 1.92 3.27 2.89 3.66 4.72 4.81 7.70 8.57 10.01 12.22 13.47 5.10 1.64 100.0
Natal 5.57 6.83 4.32 2.73 3.75 3.53 3.64 3.19 6.14 5.57 5.57 8.08 8.76 7.74 8.99 7.85 5.01 2.05 0.68 0.00 100.0
Recife 6.94 7.71 5.52 4.05 3.06 3.12 2.68 3.72 3.50 5.30 4.43 6.01 7.05 9.08 11.26 10.39 4.54 1.15 0.49 0.00 100.0
Salvador 8.98 7.90 5.10 4.16 3.60 4.33 4.93 6.12 7.76 8.87 9.04 8.81 6.97 6.06 4.16 1.59 1.16 0.37 0.08 0.00 100.0
São Luís 2.50 5.28 5.81 4.47 4.03 3.85 4.38 4.74 3.94 5.46 4.56 6.35 7.60 7.25 8.41 6.80 7.96 4.03 2.42 0.18 100.0
Teresina 1.53 3.73 3.63 3.25 2.68 3.44 3.54 4.21 4.68 4.78 6.60 6.41 6.88 7.27 7.55 10.99 7.74 6.31 3.92 0.86 100.0
Sudeste Belo Horizonte 20.15 14.54 9.48 8.51 8.61 6.50 6.26 5.32 4.57 4.12 3.84 3.37 1.96 1.36 0.81 0.44 0.16 0.00 0.00 0.00 100.0
Rio de Janeiro 19.63 12.31 8.39 7.55 6.71 6.16 5.44 5.55 4.86 4.87 5.30 4.60 3.54 2.44 1.41 0.78 0.28 0.13 0.00 0.00 100.0
São Paulo 14.87 11.47 9.78 8.78 7.45 7.53 7.14 6.58 5.67 5.25 4.25 3.43 2.76 2.08 1.58 0.81 0.36 0.13 0.07 0.00 100.0
Vitória 29.20 15.03 9.62 5.94 4.90 6.47 4.02 4.37 5.59 5.24 4.20 2.45 1.57 0.87 0.35 0.17 0.00 0.00 0.00 0.00 100.0
Sul Curitiba 25.71 18.57 16.08 11.31 7.05 6.46 4.69 3.33 2.32 1.22 1.56 0.80 0.42 0.30 0.08 0.04 0.00 0.00 0.00 0.00 100.0
Florianópolis 31.08 18.52 10.63 9.66 6.28 7.25 4.51 3.86 2.74 2.25 1.45 0.48 0.81 0.32 0.16 0.00 0.00 0.00 0.00 0.00 100.0
Porto Alegre 36.08 17.09 7.90 6.47 4.87 4.07 3.15 3.32 3.53 4.20 2.77 2.31 1.60 1.55 0.59 0.21 0.25 0.00 0.00 0.00 100.0
Centro-Oeste Distrito Federal 20.59 9.08 6.64 5.73 6.89 6.96 7.99 6.64 6.59 5.08 3.98 3.12 2.87 2.56 2.68 1.68 0.68 0.14 0.09 0.00 100.0
Campo Grande 6.77 7.44 7.82 5.73 6.77 6.68 6.20 6.20 7.35 6.39 7.73 7.06 7.63 5.92 2.67 0.95 0.48 0.19 0.00 0.00 100.0
Cuiabá 7.49 8.11 12.11 10.61 7.62 6.62 5.87 4.99 5.62 7.37 4.24 4.24 6.12 3.50 2.75 1.75 0.25 0.62 0.12 0.00 100.0
Goiânia 12.03 11.66 10.73 8.57 8.82 8.14 7.03 5.49 4.57 4.87 5.49 4.26 3.76 2.65 1.54 0.25 0.12 0.00 0.00 0.00 100.0
Legenda: 0
 10%
Fonte: elaborada pelo autores.
151Desigualdade nas prevalências de adultos fumantes...
tabela 3 – Distribuição dos Setores Censitários (SC) por região e capital segundo vigintil 
do IBP, 26 capitais e Distrito Federal, Censo 2010
Região Cidade
Vigintil IBP
TotalBaixa 
privação
Alta 
privação
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20
Norte Belém 3.58 4.88 5.34 3.89 4.65 5.03 4.34 5.79 7.01 6.40 6.63 7.85 9.60 8.61 8.00 5.03 2.21 0.61 0.30 0.23 100.0
Boa Vista 1.73 4.20 2.72 5.19 3.21 4.94 3.95 3.95 4.44 6.91 7.41 7.65 9.88 9.88 12.10 5.43 2.47 1.23 2.22 0.49 100.0
Macapá 0.65 0.86 1.73 3.02 2.81 1.51 3.02 3.02 3.67 5.62 6.91 10.58 10.58 10.80 7.99 11.23 7.78 5.40 1.73 1.08 100.0
Manaus 2.66 2.33 2.91 3.91 4.70 4.66 5.61 5.40 6.28 7.86 8.52 8.85 7.69 8.52 8.06 6.77 2.83 1.58 0.71 0.17 100.0
Palmas 7.44 10.33 9.50 4.13 6.61 2.07 4.55 6.20 5.79 6.61 6.61 9.50 6.61 4.55 2.89 2.07 2.07 1.24 1.24 0.00 100.0
Porto Velho 1.75 2.73 2.73 3.51 4.48 6.04 4.68 7.99 5.07 9.94 6.63 8.97 8.19 6.04 6.04 2.73 3.12 4.48 2.73 2.14 100.0
Rio Branco 1.49 2.08 3.87 2.98 4.46 2.68 2.98 5.06 3.57 4.76 6.25 4.76 10.12 11.31 7.44 11.61 4.76 4.76 2.68 2.38 100.0
Nordeste Aracaju 9.69 11.31 5.92 6.33 6.19 3.36 3.90 3.90 4.85 4.98 4.85 4.31 7.13 7.67 6.19 3.90 3.77 1.21 0.40 0.13 100.0
Fortaleza 4.92 5.05 4.06 4.16 4.32 3.99 3.82 4.99 4.96 5.19 6.98 7.78 10.01 10.14 8.58 6.85 3.06 0.83 0.17 0.13 100.0
João Pessoa 7.97 7.65 4.99 4.78 4.99 5.31 5.53 3.72 3.29 2.98 3.61 5.31 5.74 7.12 6.59 9.56 6.48 3.51 0.53 0.32 100.0
Maceió 2.98 4.62 3.46 1.54 2.31 1.83 3.27 1.92 3.27 2.89 3.66 4.72 4.81 7.70 8.57 10.01 12.22 13.47 5.10 1.64 100.0
Natal 5.57 6.83 4.32 2.73 3.75 3.53 3.64 3.19 6.14 5.57 5.57 8.08 8.76 7.74 8.99 7.85 5.01 2.05 0.68 0.00 100.0
Recife 6.94 7.71 5.52 4.05 3.06 3.12 2.68 3.72 3.50 5.30 4.43 6.01 7.05 9.08 11.26 10.39 4.54 1.15 0.49 0.00 100.0
Salvador 8.98 7.90 5.10 4.16 3.60 4.33 4.93 6.12 7.76 8.87 9.04 8.81 6.97 6.06 4.16 1.59 1.16 0.37 0.08 0.00 100.0
São Luís 2.50 5.28 5.81 4.47 4.03 3.85 4.38 4.74 3.94 5.46 4.56 6.35 7.60 7.25 8.41 6.80 7.96 4.03 2.42 0.18 100.0
Teresina 1.53 3.73 3.63 3.25 2.68 3.44 3.54 4.21 4.68 4.78 6.60 6.41 6.88 7.27 7.55 10.99 7.74 6.31 3.92 0.86 100.0
Sudeste Belo Horizonte 20.15 14.54 9.48 8.51 8.61 6.50 6.26 5.32 4.57 4.12 3.84 3.37 1.96 1.36 0.81 0.44 0.16 0.00 0.00 0.00 100.0
Rio de Janeiro 19.63 12.31 8.39 7.55 6.71 6.16 5.44 5.55 4.86 4.87 5.30 4.60 3.54 2.44 1.41 0.78 0.28 0.13 0.00 0.00 100.0
São Paulo 14.87 11.47 9.78 8.78 7.45 7.53 7.14 6.58 5.67 5.25 4.25 3.43 2.76 2.08 1.58 0.81 0.36 0.13 0.07 0.00 100.0
Vitória 29.20 15.03 9.62 5.94 4.90 6.47 4.02 4.37 5.59 5.24 4.20 2.45 1.57 0.87 0.35 0.17 0.00 0.00 0.00 0.00 100.0
Sul Curitiba 25.71 18.57 16.08 11.31 7.05 6.46 4.69 3.33 2.32 1.22 1.56 0.80 0.42 0.30 0.08 0.04 0.000.00 0.00 0.00 100.0
Florianópolis 31.08 18.52 10.63 9.66 6.28 7.25 4.51 3.86 2.74 2.25 1.45 0.48 0.81 0.32 0.16 0.00 0.00 0.00 0.00 0.00 100.0
Porto Alegre 36.08 17.09 7.90 6.47 4.87 4.07 3.15 3.32 3.53 4.20 2.77 2.31 1.60 1.55 0.59 0.21 0.25 0.00 0.00 0.00 100.0
Centro-Oeste Distrito Federal 20.59 9.08 6.64 5.73 6.89 6.96 7.99 6.64 6.59 5.08 3.98 3.12 2.87 2.56 2.68 1.68 0.68 0.14 0.09 0.00 100.0
Campo Grande 6.77 7.44 7.82 5.73 6.77 6.68 6.20 6.20 7.35 6.39 7.73 7.06 7.63 5.92 2.67 0.95 0.48 0.19 0.00 0.00 100.0
Cuiabá 7.49 8.11 12.11 10.61 7.62 6.62 5.87 4.99 5.62 7.37 4.24 4.24 6.12 3.50 2.75 1.75 0.25 0.62 0.12 0.00 100.0
Goiânia 12.03 11.66 10.73 8.57 8.82 8.14 7.03 5.49 4.57 4.87 5.49 4.26 3.76 2.65 1.54 0.25 0.12 0.00 0.00 0.00 100.0
Legenda: 0
 10%
Fonte: elaborada pelo autores.
152 Capítulo 9
Devido à heterogeneidade da distribuição dos SC nas capitais se-
gundo o quintil, decil e vigintil de privação, o estudo propõe o agrupa-
mento do vigintil de privação em quatro grupos nas Regiões Norte e 
Nordeste e em três grupos no Sudeste, Sul e Centro-Oeste.
O critério utilizado para juntar o vigintil de privação foi de manter 
os grupos homogêneos para os indicadores “Percentual de domicílio 
com renda per capita ≤ ½ salário mínimo” e “Percentual de pessoas 
analfabetas com idade igual ou superior a sete anos”, como pode ser 
observado no Quadro 1. Considerando esses grupos de vigintil de pri-
vação, nota-se que o indicador “Percentual de domicílio com acesso 
inadequado ao saneamento básico, coleta de lixo, vaso sanitário e ba-
nheiro no domicílio” apresenta alta variabilidade dentro de cada grupo 
em todas as regiões.
A partir dessa análise foi possível reduzir de 20 para 4 grupos nas 
Regiões Norte e Nordeste e 3 grupos para as demais regiões (Tabelas 4 e 
5). Dessa maneira, há um aumento no percentual de setores classifica-
dos como alta privação nas Regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste.
153Desigualdade nas prevalências de adultos fumantes...
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154 Capítulo 9
tabela 4 – Distribuição dos Setores Censitários (SC) das Regiões Norte e Nordeste, 
segundo grupo de IBP
Região Cidade
IBP
Total
Baixo
V1 a V5
Médio
V6 a V10
Alto
V11 a V15
Muito alto
V16 a V20
Norte Belém 22.3 28.6 40.7 8.4 100.0
Boa Vista 17.0 24.2 46.9 11.9 100.0
Macapá 9.1 16.8 46.9 27.2 100.0
Manaus 16.5 29.8 41.6 12.1 100.0
Palmas 38.0 25.2 30.2 6.6 100.0
Porto Velho 15.2 33.7 35.9 15.2 100.0
Rio Branco 14.9 19.0 39.9 26.2 100.0
Nordeste Aracaju 39.4 21.0 30.1 9.4 100.0
Fortaleza 22.5 22.9 43.5 11.0 100.0
João Pessoa 30.4 20.8 28.4 20.4 100.0
Maceió 14.9 13.2 29.5 42.4 100.0
Natal 23.2 22.1 39.1 15.6 100.0
Recife 27.3 18.3 37.8 16.6 100.0
Salvador 29.7 32.0 35.0 3.2 100.0
São Luís 22.1 22.4 34.2 21.4 100.0
Teresina 14.8 20.7 34.7 29.8 100.0
Fonte: elaborada pelos autores.
tabela 5 – Distribuição dos Setores Censitários (SC) das Regiões Sudeste, Sul e Centro-
-Oeste, segundo grupo de IBP
Região Cidade
IBP
TotalBaixo
(V1 a V5)
Médio
(V6 a V10)
Alto
(V11 a V20)
Sudeste Belo Horizonte 61.3 26.8 11.9 100.0
Rio de Janeiro 54.6 26.9 18.5 100.0
São Paulo 52.4 32.2 15.5 100.0
Vitória 64.7 25.7 9.6 100.0
Continua
155Desigualdade nas prevalências de adultos fumantes...
Região Cidade
IBP
TotalBaixo
(V1 a V5)
Médio
(V6 a V10)
Alto
(V11 a V20)
Sul Curitiba 78.7 18.0 3.3 100.0
Florianópolis 76.2 20.6 3.2 100.0
Porto Alegre 72.4 18.3 9.3 100.0
Centro-Oeste Distrito Federal 48.9 33.3 17.8 100.0
Campo Grande 34.5 32.8 32.6 100.0
Cuiabá 45.9 30.5 23.6 100.0
Goiânia 51.8 30.1 18.1 100.0
Fonte: elaborada pelos autores.
Para estimar as prevalências de adultos fumantes em cada grupo 
de privação, nas 26 capitais brasileiras e Distrito Federal, usou-se o 
método indireto de estimação em pequenas áreas.
resultados
Os resultados das prevalências estimadas pelo método indireto mos-
traram um gradiente positivo em 16 (59,3%) das 27 cidades: Belém, 
Macapá, Palmas, Porto Velho, Aracaju, Fortaleza, João Pessoa, Natal, 
Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Curitiba, Florianópolis, Porto 
Alegre, Goiânia e Distrito Federal. As prevalências de fumantes foram 
menores nos SC classificados como baixa vulnerabilidade e mais eleva-
das nos SC classificados como alta/muito alta vulnerabilidade. Em nove 
capitais (33,3%), as prevalências foram maiores em áreas de alta/muito 
alta vulnerabilidade, embora com sobreposição de Intervalos de Con-
fiança (IC) (dados não mostrados); e, em duas capitais (7,4%), não houve 
diferença nas prevalências (Figuras 1 a 5). As estimativas de adultos 
fumantes em São Paulo e Rio de Janeiro estão superestimadas devido 
ao alto percentual de SC com pelo menos uma entrevista do Vigitel 
nessas capitais. Em Palmas não foi possível estimar a prevalência para 
o grupo de privação muito alta, devido ao número baixo de entrevistas.
Conclusão
156 Capítulo 9
figura 1 – Prevalências de adultos fumantes por SC, segundo IBP. Capitais da Região 
Norte, 2010 a 2013
Fonte: elaborada pelos autores.
157Desigualdade nas prevalências de adultos fumantes...
figura 2 – Prevalências de adultos fumantes por SC, segundo IBP. Capitais da Região 
Nordeste, 2010 a 2013
Fonte: elaborada pelos autores.
158 Capítulo 9
Figura 3 – Prevalências de adultos fumantes por SC, segundo IBP. Capitais da Região 
Centro-Oeste, 2010 a 2013
Fonte: elaborada pelos autores.
Figura 4 – Prevalências de adultos fumantes por SC, segundo IBP. Capitais da Região 
Sudeste, 2010 a 2013
Fonte: elaborada pelos autores.
159Desigualdade nas prevalências de adultos fumantes...
figura 5 – Prevalências de adultos fumantes por SC, segundo IBP. Capitais da Região 
Sul, 2010 a 2013
Fonte: elaborada pelos autores.
discussão 
Os resultados encontrados possibilitaram identificar desigualdades in-
traurbanas, o que já tem sido apontado em outros estudos (Bernal et 
al., 2020). 
As questões territoriais subjacentes à saúde resultam de condi-
çõesculturais e socioambientais compartilhadas entre as regiões e 
áreas próximas umas às outras. E por vezes os elementos envolvidos 
se relacionam de forma heterogênea, criando diferenças intraurbanas 
que exigem a atuação dos gestores no direcionamento das políticas de 
saúde para alcançar os diferentes grupos sociais ali localizados (Mar-
tins et al., 2013).
Análises espaciais possibilitam identificar a cadeia explicativa do 
processo de saúde-doença de acordo com a realidade territorial, sendo 
primordial para a orientação das políticas e ações intersetoriais nas 
diversas localidades (Martins et al., 2013). Tais políticas devem ter como 
principal objetivo superar as iniquidades geradas pela distribuição 
desigual de recursos, atuando no planejamento de ações que modifi-
quem, além dos contextos individuais, os espaços e contextos intraur-
banos (Bernal et al., 2021; Martins et al., 2013).
A utilização do IBP permitiu identificar áreas de maior vulnera-
bilidade e com maior prevalência de tabagismo. O uso de indicadores 
compostos tem inovado na identificação de desigualdades em saúde 
(Allik et al., 2020; Fundação Oswaldo Cruz, 2020). Esse fato foi confir-
mado no estudo atual, no qual as prevalências de tabagismo em IBP de 
160 Capítulo 9
elevado risco foram mais elevadas do que aquelas residentes em IBP 
de baixo risco, em que residem populações com melhores condições 
sócio-econômicas.
O presente estudo tem algumas limitações. Primeiro, a exclusão 
de 14% das entrevistas do Vigitel, devido à não identificação dos SC 
pelo linkage. Segundo, o uso da base do Vigitel, por SC, também agrega 
vícios, por existirem setores não representados pela ausência de entre-
vistas. Terceiro, foi utilizado para classificação dos setores o Censo de 
2010, e muitos indicadores podem ter se alterado ao longo da última 
década. 
O estudo permite indicar diferenças na prevalência de fumantes 
segundo áreas de vulnerabilidade, mapeadas segundo o IBP, e utiliza 
novas metodologias para estimar prevalências para pequenas áreas. 
Esses resultados podem contribuir para nortear as políticas públicas 
na definição de prioridades para alocação de recursos, identificando 
populações mais vulneráveis. 
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163
10
Associação entre o programa Minha Casa Minha 
Vida e desfechos em saúde: uma síntese de 
estudos aplicados à Coorte de 100 Milhões de 
Brasileiros 
Andrêa J. F. Ferreira
Camila Silveira Silva Teixeira
Renzo Flores-Ortiz
Rosemeire Fiaccone
Mauro Sanchez
Júlia Pescarini
Alastair H. Leyland
Srinivasa Vittal Katikireddi
Maria Yury T. Ichihara
Mauricio L. Barreto
Rita de Cássia Ribeiro-Silva
introdução
A habitação é um direito humano básico e um importante determinante 
social da saúde e bem-estar (World Health Organization, 2011). Vários 
estudos têm investigado a relação entre a saúde das populações e as 
condições de habitação (Thomson et al., 2013; Wimalasena et al., 2021). 
Fatores relacionados a inadequadas condições estruturais de moradia, 
em especial aquelas associadas ao isolamento térmico e à ventilação, e 
ainda densidade e aglomeração populacional encontram-se associadas 
às doenças infecciosas e cardiorrespiratórias dos residentes (Azuma, 
2018; Howden-Chapman et al., 2007). O espaço físico da vizinhança, 
164 Capítulo 10
que inclui disponibilidade de espaços verdes com instalações despor-
tivas e parques infantis e alimentos saudáveis, mostrou-se impactante 
na saúde cardiovascular (Azuma, 2018; Daniels et al., 2021; Patil, 2014). 
Menos visível, mas também importantes, são as características sociais 
da vizinhança, que incluem violência e capital social, e seus efeitos na 
saúde física e mental, especialmente em comunidades vulneráveis em 
países de alta renda (Ku et al., 2020; Singh et al., 2019). 
No Brasil, a moradia precária é um grave problema social, afe-
tando 84,9% da população com renda familiar de até três salários míni-mos, devido à ausência de planejamento urbano adequado em resposta 
ao intenso e contínuo êxodo rural (Fundação José Pinheiro, 2018), fato 
que contribuiu para a geração de complexos habitacionais precários, 
localizados principalmente às margens de grandes centros urbanos 
(Baeza et al., 2021). Na tentativa de minimizar os problemas relacio-
nados ao déficit habitacional e de moradias inapropriadas no Brasil, 
ao longo dos anos foram implantados vários programas de habitação 
social de ordem nacional, dentre eles, o Programa Minha Casa Minha 
Vida (PMCMV), criado em 2009, em parceria com estados, municípios, 
empresas e entidades sem fins lucrativos de todo o país. O PMCMV foi 
considerado o maior programa de habitação social da América Latina. 
Dados de 2018, da Caixa Econômica Federal, maior financiadora dos 
empreendimentos do PMCMV, apontaram que 14,7 milhões de pessoas 
compraram um imóvel com o programa (7% da população brasileira) 
(Brasil, 2009; Fellet, 2018). No entanto, até o presente momento, não 
existem estudos longitudinais documentados que avaliem o impacto 
de um programa habitacional deste porte na América Latina em des-
fechos em saúde. Além disso, a maioria dos estudos que avaliam os 
impactos na saúde dessas intervenções foi realizada em países de alta 
renda (Thomson et al., 2013). 
No Brasil, há uma dupla carga de doenças infecciosas. Cerca de 
27% de todas as causas de morte são atribuídas a Doenças Cardiovas-
culares (DCV), a primeira causa de morte no país (Oliveira et al., 2024). 
Em 2019, o país ficou em primeiro lugar na América Latina e quinto 
no mundo em número de adultos com diabetes, com 16,8 milhões de 
casos (International Diabetes Federation, 2019). Hanseníase e tuber-
culose são duas das doenças infecciosas mais importantes no Brasil e 
afetam predominantemente populações vulneráveis e marginalizadas 
https://pt.wikipedia.org/wiki/Caixa_Econ%C3%B4mica_Federal
165Associação entre o programa Minha Casa Minha Vida e...
(Pescarin, 2018). Dado o padrão social de acesso e qualidade à habitação 
no contexto brasileiro, as intervenções habitacionais também podem 
ter impactos importantes na saúde de grupos populacionais vulnerabi-
lizados. Diante do exposto, usaremos a linha de base da Coorte de 100 
Milhões de Brasileiros para avaliar o efeito do PMCMV nesses desfechos 
adversos da saúde. 
métodos e análise 
Desenho e população do estudo
Trata-se de um estudo observacional do tipo quase-experimental, ad-
vindo de uma base de dados secundários – o Cadastro Único do Minis-
tério de Desenvolvimento Social (CadÚnico) do governo federal –, com 
dados disponíveis para o período de 2001 a 2018 (Barreto et al., 2019). 
Os indivíduos cadastrados no CadÚnico foram acompanhados ao longo 
dos anos, de acordo com o recebimento do PMCMV, bem como cada 
um dos desfechos em saúde apresentados1 – óbito por DCV e Diabetes 
Melittus (DM), e detecção de casos novos de hanseníase. Mais detalhes 
sobre a Coorte de 100 Milhões de Brasileiros e o PMCMV podem ser en-
contrados no protocolo de estudo publicado on-line (Ferreira et al., 2021). 
A população do estudo incluiu indivíduos que entraram na Coorte 
de 100 Milhões de Brasileiros de 1º de janeiro de 2010 a 31 de dezembro 
de 2015, período em que os dados de recebimento do MCMV estavam 
disponíveis. Foram incluídos os beneficiários do MCMV que perten-
ciam à faixa 1, que é destinada às famílias que recebiam até três salá-
rios mínimos, residentes em área urbana, correspondendo à moradia 
financiada exclusivamente pelo Fundo de Arrendamento Residencial 
(FAR). Além disso, foram incluídas apenas as observações pertencentes 
a municípios que tivessem pelo menos um registro de beneficiário do 
MCMV no período de estudo. A partir dessa definição da população, 
1 O desfecho de detecção de casos novos de tuberculose foi proposto inicialmente no pro-
tocolo de análise publicado, contudo, a exploração dos dados disponíveis evidenciou li-
mitações importantes para o cálculo das estimativas e interpretação dos achados, princi-
palmente devido ao curto espaço de tempo entre a provisão da moradia e a infecção por 
tuberculose, que tem dinâmica diferente dos outros desfechos crônicos. Assim, as análises 
para esse desfecho foram inviabilizadas neste momento e não descritas neste capítulo. 
166 Capítulo 10
foram definidos critérios específicos para a seleção da população de 
estudo considerando as particularidades relativas às análises para os 
desfechos em saúde proposto2. 
Análises estatísticas
Escores de propensão têm sido uma abordagem bastante utilizada com 
o objetivo de reduzir o viés de confundimento (Austin; Stuart, 2015). 
Esse escore representa a probabilidade de a unidade de análise rece-
ber uma intervenção/tratamento condicionada às suas características 
observadas. A abordagem utilizada neste capítulo baseou-se na pon-
deração pelo Inverso da Probabilidade de Receber Tratamento (IPTW) 
para equilibrar as covariáveis entre beneficiários e não beneficiários do 
PMCMV (Ferreira et al., 2021)3. A metodologia utilizada para o cálculo 
do IPTW está descrita em outras publicações [23]. Em seguida, usamos 
a regressão de Cox ponderada pelo IPTW para analisar a associação 
entre o status do recebimento do PMCMV e os desfechos estudados. Re-
latamos a razão de risco e seu Intervalo de Confiança de 95% (95 % IC). 
O status do recebimento do PMCMV foi modelado como uma variável 
dependente do tempo para contabilizar o período de tempo entre o re-
gistro no CadÚnico e o recebimento do PMCMV (Levesque et al., 2010). 
O modelo de regressão de Cox ponderado por IPTW foi ainda ajustado 
para as covariáveis do estudo para mitigar possível confusão residual 
(Nguyen et al., 2017).
2 Detecção de casos de hanseníase: foram incluídos indivíduos com idade até 100 anos 
e com pelo menos um membro do domicílio com idade >15 anos. Foram excluídos os 
indivíduos que se registraram como casos de hanseníase antes de ingressar na coorte, 
ou antes de receber qualquer benefício do MCMV, e os casos de hanseníase que tiveram 
reingressos no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), considerando 
a data do último diagnóstico para essa exclusão. Mortalidade por doenças cardiovascu-
lares: foram incluídos indivíduos com idade entre 30 e 69 anos. Todos eles foram acom-
panhados desde a data do 30º aniversário até o falecimento (data do 70º aniversário) ou 
o término do estudo, o que ocorrer primeiro. Mortalidade por Diabetes Melittus (DM): 
foram incluídos indivíduos com idade entre 18 e 79 anos.
3 O Inverso da Probabilidade de Receber Tratamento (Inverse Probability Treatment 
Weighting – IPTW) para ponderar as observações foi calculado para todas as unidades de 
análise. No caso das observações entre os não beneficiários, a ponderação utilizou valor 
da probabilidade/1 – valor do escore de propensão –; para os beneficiários, consideramos 
o valor da probabilidade/valor do escore de propensão.
167Associação entre o programa Minha Casa Minha Vida e...
resultados sumarizados e desafios da avaliação 
de impacto do MCMV
Essa coorte de estudo de base populacional de dados administrativos 
vinculados incluiu uma amostra em grande escala e representativa de 
indivíduos de baixa renda no Brasil. Os beneficiários do PMCMV apre-
sentaram maior risco geral de mortalidade cardiovascular prematura 
(HR: 1,49, IC 95%: 1,37-1,63) e por causas especificas (doença cerebro-
vascular HR: 1,32, IC 95%: 1,14-1,52) e isquemia cardíaca (HR: 1,33, IC 
95%: 1,16-1,52). Observamos também que os beneficiários do MCMV ti-
veram um risco maior de mortalidade por diabetes em comparação aos 
não beneficiários (HR: 1,12, IC 95%: 1,01–1,24). Ademais, os indivíduos 
que receberam o benefício do MCMV tiveram 1,46 vezes o risco de se 
tornar um caso novo de hanseníase (IC 95% 1,26-1,69) em comparação 
aos não expostos ao programa.
Até o momento, são escassas as evidências sobre a relação entre 
MCMV e desfechos em saúde, e não há estudos robustos sobre a associa-ção entre os PMCMV e os desfechos avaliados neste estudo. Diferente-
mente da nossa hipótese inicial – associação protetiva do recebimento 
da habitação sobre desfechos em saúde – os resultados sugerem que o 
risco para a ocorrência desses desfechos foi maior entre os beneficiários 
do programa de habitação social em comparação aos não beneficiários. 
Na análise de subgrupos (dados não apresentados) encontramos maior 
risco de morrer entre aqueles que viviam em um contexto mais vulne-
rável, ou seja, municípios mais empobrecidos e nas regiões brasileiras 
menos desenvolvidas e em contexto de privação social.
Hipotetizamos que esses resultados são reflexo das condições pré-
vias de vida dos beneficiários do programa, e não um efeito direto deste 
sobre os desfechos em saúde. Alguns pontos importantes nos ajudam 
a sustentar essa hipótese, a qual iremos discutir a seguir. Baseando-se 
nos requisitos de priorização do recebimento do programa (famílias de 
baixa renda que não têm casa própria, que vivem em locais de risco), 
os beneficiários do programa tendem a residir em áreas de risco ou 
em contextos mais insalubres e vulneráveis, e em piores condições. 
Assim, suspeitamos que essas famílias, dados os longos períodos de 
vivência em contextos mais vulneráveis em comparação com os não 
beneficiários, tendem a apresentar piores indicadores de saúde devido 
168 Capítulo 10
ao acúmulo de exposição a condições adversas, resultando em piores 
indicadores de morbimortalidade nesse grupo em comparação aos não 
beneficiários. Ademais, ressalta-se o curto tempo de exposição dos be-
neficiários (média de dois anos e meio) às novas condições de moradia 
propiciadas pelo programa, o que seria insuficiente para explicar a as-
sociação observada neste estudo. 
Além disso, considerando o aspecto crônico dos desfechos incluí-
dos, como a mortalidade por DCV e DM e o longo período de latên-
cia necessário para o desenvolvimento e diagnóstico da hanseníase, a 
plausibilidade dos resultados encontrados é questionável e nos aponta 
a possibilidade de viés dos resultados (causalidade reversa), muito pre-
sente em estudos epidemiológicos dessa natureza. 
Por outro lado, nossos resultados podem ser considerados um 
claro indicativo de que o programa teve uma boa focalização de seu 
público-alvo por alcançar famílias em situação de maior vulnerabili-
dade social, e consequentemente piores indicadores de saúde. 
Temos ainda que considerar nossas limitações em relação aos 
dados disponíveis neste estudo. Apesar da disponibilidade da data de 
assinatura do contrato de aquisição do MCMV, não há garantias preci-
sas das datas em que essas famílias se mudaram, e nem se de fato elas 
se mudaram para o novo empreendimento habitacional, ou mesmo 
a sua permanência nas novas unidades habitacionais, o que também 
poderia comprometer a exposição aos benefícios da nova condição de 
moradia ofertada pelo programa.
Ademais, não temos acesso a informações importantes relativas 
às condições prévias dos beneficiários, bem como a dados relativos a 
comportamentos em saúde e fatores de risco cardiometabólicos, inti-
mamente associados às DCVs e à DM.
De certo que os formuladores de políticas esperam que os progra-
mas de proteção social, em particular de habitações sociais, que dispo-
nibilizam casas acessíveis para famílias de baixa renda, possam reduzir 
as desigualdades sociais e, portanto, beneficiar os resultados de saúde. 
Contudo, avaliações anteriores dos efeitos econômicos do MCMV mos-
traram que o programa enfrenta dificuldades em encontrar terrenos 
bem localizados e acessíveis, e que são necessárias melhores soluções 
habitacionais na escala metropolitana (Lima Neto; Krause; Furtado, 
2015), dado o histórico de periferização dos empreendimentos habi-
169Associação entre o programa Minha Casa Minha Vida e...
tacionais, muitas vezes localizados às margens das grandes cidades. A 
maioria dos complexos do MCMV foi construída como projetos isola-
dos, apenas para habitação, em terrenos baratos na periferia urbana 
(Lima Neto; Krause; Furtado, 2015), e sem ou com pouco acesso a outros 
bens essenciais como transporte, acesso à comercialização de alimentos 
in natura, serviços de saúde e conexão com grandes centros urbanos. 
Assim, os achados da literatura apontam a necessidade de uma 
reestruturação do programa, com enfoque não apenas no número de 
unidades habitacionais entregues, mas também que conecte esses em-
preendimentos habitacionais à malha urbana, e que apresente condi-
ções infraestruturais no entorno desses empreendimentos, efetivando 
a habitação como direito humano fundamental. A implantação de gran-
des conjuntos habitacionais em áreas de difícil acesso e sem urbani-
dade reforçou a condição de desigualdade no acesso à infraestrutura, 
transporte, equipamentos e serviços públicos (Leiro; Prudente, 2017). 
As estratégias de intervenção relacionadas à habitação precisam ser 
complementadas por intervenções políticas em educação, emprego, 
transporte, creche, sistemas de saúde, impostos, salários, níveis de be-
nefícios e segurança no emprego. Cada um desses fatores pode afetar 
direta e indiretamente a capacidade das pessoas de desfrutar de mora-
dia para se manterem saudáveis.
No que se refere aos pontos fortes, destaca-se a utilização de dados 
coletados rotineiramente para um programa de proteção social de ha-
bitação que abrange pessoas em contextos mais vulneráveis no Brasil, 
vinculados a informações em saúde. Até o presente momento, este é o 
primeiro estudo, em larga escala, a avaliar o efeito de um programa de 
habitação social (abordando desfechos crônico e infecciosos) em países 
de baixa e média renda. Além disso, destaca-se a não influência dos pes-
quisadores no planejamento, entrega ou alocação das moradias proce-
dentes do PMCMV, reduzindo assim possibilidades de viés de seleção 
no estudo. Outras limitações do estudo incluíram o uso de métodos 
restritos a abordar apenas fatores de confusão observados, ou seja, fa-
tores que são medidos e coletados no estudo. Assim, nossos resultados 
podem ser influenciados por confusão residual, uma vez que pesquisas 
anteriores destacaram que as pessoas que vivem em habitação social 
geralmente concentram piores indicadores de saúde em comparação 
com a população em geral.
170 Capítulo 10
Nossos achados sugeriram um caso de causalidade reversa em nosso 
estudo, que pode ocorrer quando analisamos a associação entre uma 
intervenção complexa, como habitação social, e um resultado crônico 
de saúde, considerando um tempo médio de exposição relativamente 
curto. Destacamos ainda a necessidade de continuar melhorando a dis-
ponibilidade de informações sobre intervenções habitacionais e dados 
de saúde para garantir evidências de melhor qualidade para os for-
muladores de políticas. Pesquisas futuras devem estudar o efeito do 
programa de habitação social MCMV sobre os desfechos estudados em 
um período mais longo de exposição, bem como adicionar outras bases 
de informações que possibilitem o delineamento da condição de saúde 
dos beneficiários antes e após o recebimento das habitações sociais. 
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174 Capítulo 10
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a 1º de agosto de 2010, durante o Censo Demográfico do Instituto Bra-
sileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (2010). O Censo tem cobertura 
consistente dos dados para todo o território nacional e apresenta ho-
mogeneidade do número de pessoas entre os SC (com média de 615.1 
pessoas sd= 354.3 e com variação entre 1 e 5.315 pessoas). Apesar da 
limitação de informações disponíveis e de sua defasagem no tempo, os 
dados informam sobre 57.324.185 domicílios particulares permanen-
tes (do total de 67,6 milhões de domicílios visitados) e 190.755.799 de 
pessoas. Um questionário básico foi aplicado em Domicílios Particula-
res Permanentes (DPP), em Domicílios Particulares Improvisados (DPI) 
e em Domicílios Coletivos (DC), e um questionário mais detalhado foi 
utilizado em amostra de 11% de DPP (6,4 milhões) (IBGE, 2010).
21Índice Brasileiro de Privação (IBP)
Assim, o SC, sendo a menor área geográfica criada pelo IBGE para a 
coleta de dados, tende a ter maior homogeneidade em áreas de grande 
densidade populacional (The Atlas [...], 2019). Cerca de 49,5% dos SC (56% 
da população) encontrava-se nas Regiões Sudeste e Sul e apenas 7,7% 
dos setores (7,4% da população) encontra-se na Região Centro-Oeste. 
A maioria da população residia em SC classificados como urbanos.
O IBP foi calculado com dados de 303.218 SC (97,8%), cobrindo 
190.145,077 (99,7%) de pessoas. Excluiu-se 6.302 SC (2%) com dados 
omitidos para proteger a privacidade dos indivíduos e 600 SC com 
apenas residências coletivas.
1) Seleção de indicadores de privação por domínios
Foram selecionados com base em literatura prévia, nos dados co-
letados pelo questionário básico do Censo de 2010 e de acordo com os 
seguintes critérios: a)  melhor ajuste ao conceito de privação material 
adotado, ou seja, desvantagem ou carência na condição material da 
população, segundo os domínios de renda, educação e condições de 
moradia; b) ser uma informação para o maior número de SC e o maior 
número de pessoas dentro do setor; c) ser capaz de distinguir os setores 
dentro e entre as regiões brasileiras segundo a prevalência e variação 
empírica; e d) ter correlação com os demais indicadores dos outros 
domínios (Allik et al., 2016; Noble et al., 2006).
Analisou-se 14 indicadores: 4 no domínio de renda – renda nominal 
mensal per capita por DPP; renda mensal média nominal do chefe da 
família (com rendimento); rendimento nominal mensal médio com 
10 anos ou mais de idade (com e sem rendimento); e renda nominal 
mensal média com 10 anos ou mais de idade (com rendimento) –; 
3 no domínio de educação – alfabetização na faixa etária de 5 anos e mais; 
alfabetização nas faixas etárias de 7-9 anos e de 50 anos e mais; e alfa-
betização no grupo etário de 7 anos e mais –; e 7 no domínio de condições 
de moradia – acesso a rede de abastecimento de água ou poço, acesso a 
rede de esgotamento sanitário ou fossa séptica, banheiro ou sanitário 
para uso exclusivo dos moradores, coleta de lixo, energia elétrica por 
rede pública com ou sem medidor exclusivo de uso. Indicadores sobre 
características do entorno – iluminação pública, calçada, meio-fio de 
rua, bueiro, esgoto a céu aberto/vala, lixo acumulado nas ruas –, por 
estarem disponíveis predominantemente para áreas urbanas, foram 
excluídos do indicador. 
22 Capítulo 1
Após a descrição dos indicadores nos SC foram pré-selecionados 7 
indicadores – renda menor que 1/4 de salário mínimo (SM) e 1/2 SM, 
percentual de pessoas não alfabetizadas com 5 anos e mais, 7 anos e 
mais, 7-9 anos e 50 anos e mais, e condições de moradia restritas ou 
estendidas –, que foram correlacionados entre si para o Brasil e entre 
as regiões. Ao final, escolheu-se 3 indicadores para medir a privação: 
percentual de domicílios com renda per capitaAcesso em: 23 jan. 2021.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Environmental burden of disease 
associated with inadequate housing. Summary report. Copenhagen: World 
Health Organization Regional Office for Europe, 2011. Disponível 
em: http://www.euro.who.int/__data/assets/pdf_file/0017/145511/
e95004sum.pdf. Acesso em: 23 jan. 2021.
ZHENG, M. et al. Health impacts of water and sanitation insecurity 
in the Global North: a scoping literature review for U.S. colonias on 
the Mexico border. Journal of Water and Health, London, v. 20, n. 9, 
p. 1329-1342, 2022. Disponível em: https://iwaponline.com/jwh/
article/20/9/1329/90598/Health-impacts-of-water-and-sanitation-
insecurity. Acesso em: 23 jan. 2021.
http://www.euro.who.int/__data/assets/pdf_file/0017/145511/e95004sum.pdf
http://www.euro.who.int/__data/assets/pdf_file/0017/145511/e95004sum.pdf
175
11
Câncer de colo do útero e de mama em 20 milhões 
de mulheres adultas da Coorte de 100 Milhões de 
Brasileiros: panorama, desafios e potencialidades para 
a pesquisa
Estela M. L. Aquino
Emanuelle F. Góes
Joanna M. N. Guimarães
Maria da Conceição Chagas de Almeida
Ligia Gabrielli
Sheila M. Alvim Matos
Ana Luísa Patrão
Ana Cristina de Oliveira Costa
Mauricio L. Barreto
Isabel dos-Santos-Silva
introdução
As Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT) representam um 
enorme ônus para a saúde no Brasil (Marinho et al., 2018), com as 
Doenças Cardiovasculares (DCV) e os cânceres sendo os dois principais 
grupos de causas de mortalidade e incapacidade (Disability Adjusted 
Life Years – DALY) em 2019 (Vos et al., 2020). Mas se as taxas de morta-
lidade por DCV caíram drasticamente, nas últimas décadas, as mortes 
por câncer aumentaram no mesmo período (Lotufo, 2019). Estima-se 
que mesmo que as taxas permaneçam estáveis no futuro, em termos 
absolutos, casos de doença e de morte por câncer no Brasil devem con-
tinuar aumentando, como resultado do envelhecimento populacional 
(Sung et al., 2021).
176 Capítulo 11
A crescente carga de DCNT, no Brasil, está sendo alimentada pela 
rápida transição epidemiológica, com a mudança no perfil de morbi-
dade, do predomínio de doenças infecciosas para as não transmissí-
veis. Cenário semelhante pode ser observado no interior do grupo de 
neoplasias, em que há uma modificação da preponderância daquelas 
ligadas a infecções (por exemplo, o câncer de colo do útero) para os as-
sociados a fatores de risco ambientais e de estilo de vida (por exemplo, 
o câncer de mama) (Sung et al., 2021). 
Essa transição epidemiológica do câncer não está ocorrendo, uni-
formemente, em todo o país, refletindo as grandes desigualdades so-
ciais e geográficas existentes (Barbosa, et al., 2016; Girianelli; Gamarra; 
Silva, 2014). Isso pode ser ilustrado pela comparação entre regiões geo-
gráficas da mortalidade por câncer de mama, que superou a de colo 
do útero como o câncer feminino mais comum no Brasil. Essa inflexão 
ocorreu, na década de 1970, na Região Sul, uma das mais ricas (Aze-
vedo e Silva et al., 2016); no final da década de 1980, na Região Centro-
-Oeste, uma região de afluência intermediária; mas ainda não se deu na 
Região Norte, uma das regiões menos desenvolvidas e que apresenta 
mais desigualdades do país (Girianelli; Gamarra; Silva, 2014).
Grande parte da carga oncológica no Brasil é atribuível a fatores 
de risco modificáveis, tais como o tabagismo, a má alimentação, a obe-
sidade e a inatividade física (Azevedo e Silva et al., 2016). Há fortes evi-
dências de que mulheres de status socioeconômico menos privilegiado, 
incluindo pretas, pardas e indígenas, não apenas têm uma prevalência 
mais alta desses fatores de risco (Malta et al., 2015), como também estão 
mais expostas a barreiras de acesso aos serviços de saúde, incluindo a 
detecção precoce do câncer (Alves et al., 2022; Cabral et al., 2019,).
Além da pobreza, a sociedade brasileira é marcada por profundas 
desigualdades sociais, o que motivou, em período recente, a adoção pelo 
Estado brasileiro de programas sociais, para enfrentá-las. Destaca-se a 
implementação, em 2003, do Programa Bolsa Família (PBF) – o maior 
programa de transferência condicional de renda do mundo (Menicucci 
and Gomes 2018). Com o objetivo de reduzir a pobreza absoluta, me-
lhorar o estado nutricional e ampliar o acesso a serviços preventivos 
de saúde e de educação, o PBF envolve pagamentos em dinheiro para 
famílias pobres e muito pobres, entregues preferencialmente a mulhe-
res chefes de família, e o recebimento está condicionado à frequência 
das crianças à escola e o comparecimento aos serviços de saúde para 
177Câncer de colo do útero e de mama em 20 milhões de...
cumprir algumas ações específicas de cuidados pré-natais, puericultura 
e imunização.
Estudos têm demonstrado o impacto do PBF sobre a saúde materna 
e infantil (Falcão, et al., 2022), a mortalidade materna (Alves et al., 2023) 
e mortalidade infantil (Ramos et al., 2021), as doenças transmissíveis, 
como tuberculose (Nery et al., 2017) e hanseníase (Pescarini et al., 2020), 
os suicídios (Machado et al., 2022) e as DCV (Pescarini et al., 2022). Con-
tudo, não há estudos sobre seu impacto na mortalidade por neoplasias, 
principalmente por câncer de mama e de colo do útero.
Todas essas evidências científicas justificaram a incorporação das 
neoplasias como objeto de estudo na Coorte de 100 Milhões de Brasilei-
ros para investigar os determinantes sociais na mortalidade por essas 
doenças e avaliar o impacto dos programas sociais, em particular o PBF, 
na magnitude das desigualdades observadas.
coorte de 100 milhões de brasileiros: oportunidade sem 
precedentes de estudar desigualdades na ocorrência do 
câncer
A literatura internacional tem produzido evidências sobre os determi-
nantes sociais de diferentes tipos de câncer, em particular das duas 
principais neoplasias que acometem as mulheres – as de mama e as de 
colo do útero, que são potencialmente evitáveis ou curáveis (Coughlin, 
2019; Kazemi et al., 2021).
A Coorte de 100 Milhões de Brasileiros, cujos aspectos metodológicos 
encontram-se publicados (Barreto et al., 2022), reúne aproximadamente a 
metade mais pobre da população do país, inscrita no Cadastro Único do 
Ministério de Desenvolvimento Social (CadÚnico) para pleitear benefícios 
em programas sociais. Ao CadÚnico são vinculados dados de diferentes 
programas sociais, entre os quais o Bolsa Família, e dados de saúde como 
condições de nascimento, ocorrência de doenças infecciosas, hospitaliza-
ções e mortes.
A Coorte de 100 Milhões de Brasileiros apresenta várias vantagens 
analíticas para o estudo de diferentes tipos de câncer, em particular 
da sua mortalidade, o que exige a análise de eventos raros, ainda que 
relevantes. Para a investigação de determinantes sociais é desejável 
ainda a estratificação da população segundo marcadores sociais, o que 
178 Capítulo 11
se torna ainda mais difícil em estudos que dependem da coleta primá-
ria de dados.
A produção científica sobre mortalidade por câncer no Brasil tem 
enfatizado as desigualdades regionais, com estudos ecológicos e de 
tendências temporais, comparando macrorregiões e área de residência 
(Girianelli et al., 2014; Ichihara et al., 2022). A utilização de dados se-
cundários do Ministério da Saúde (MS), com abrangência nacional, per-
mite superar o problema da raridade dos eventos, mas estes carecem 
de informações sociodemográficas e sobre saúde em nível individual, 
o que explica a escolha de desenhos de estudos em que a unidade de 
análise é um agregado populacional ao invés de indivíduos. Esses tipos 
de estudos estabelecem comparações entre grupos populacionais de 
áreas geográficas distintas ou entre diferentes momentos do mesmo 
grupo ao longo do tempo. Dessa maneira, pretendem incorporar nas 
análises informações sobre os contextos social e ambiental, também 
em nível agregado.
Por outro lado, o uso de técnicas de relacionamento (linkage) de 
dados administrativos de saúde com dados sociais, provenientes de 
vários sistemasde informação, permite a construção de grandes bases 
de dados (big data) e confere um valor enorme aos estudos populacio-
nais sobre saúde ao oferecer tamanhos de amostra muito grandes e 
combinar informações, detalhadas em nível individual, de múltiplas 
fontes de dados (Harron et al., 2017). 
Essas vantagens analíticas motivaram a constituição da Coorte de 
100 Milhões de Brasileiros, vinculando dados individuais de diversas 
fontes1, o que acrescenta uma grande riqueza de informações socioe-
conômicas a variados desfechos de saúde, incluindo as neoplasias, e 
permite análises sofisticadas em escala sem precedentes no país. Os 
dados socioeconômicos incluem informação sobre as circunstâncias 
individuais das mulheres, bem como sobre a área onde elas vivem. 
Ademais, trata-se de uma coorte dinâmica, cuja estrutura longitudinal 
é metodologicamente sólida, possibilitando a adição de novas exposi-
ções ou desfechos; estudar os resultados em diferentes momentos da 
1 Cadastro Único (CadÚnico), Programa Bolsa Família  (PBF), Sistema de Informações de 
Mortalidade (SIM), Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc), Sistema de In-
formação de Agravos de Notificação (Sinan), Sistema de Informações Hospitalares (SIH), 
entre outros.
179Câncer de colo do útero e de mama em 20 milhões de...
exposição, inclusive a longo prazo; e avaliar o impacto de políticas de 
proteção social na saúde (Barreto et al., 2022).
câncer de mama e de colo do útero na coorte de 100 
milhões de brasileiros: a expressão das desigualdades 
geográficas, sociais e raciais
O câncer de mama e o de colo do útero são, respectivamente, a pri-
meira e a quarta causas de mortalidade por neoplasias entre as mulhe-
res brasileiras (Tabela 1). Na Coorte de 100 Milhões de Brasileiros, essa 
última localização primária assume maior relevância e fica na terceira 
posição, o que pode ser explicado por esta ser composta pela porção 
mais pobre da população, o que apresenta maior risco de morrer por 
câncer de colo do útero (Sing; Azuine; Siahpus, 2012).
tabela 1 – Mortalidade proporcional por câncer em mulheres com 20 anos e mais*, 
segundo localização primária – Brasil e Coorte de 100 Milhões de Brasileiros – 2015
Localização Primária (CID 10)
Brasil Coorte de 100 
Milhões de Brasileiros
Óbitos % Óbitos %
Mama (C50) 15.403 16,1 2.923 16,1
Traqueia, Brônquios e Pulmões (C33 e C34) 10.963 11,5 2.008 11,1
Cólon e Reto (C18 e C20) 7.699 8,1 1.218 6,7
Colo do útero (C53) 5.725 6,0 1.675 9,2
Todas as outras 55.722 58,3 10.329 56,9
Total 106.759 100,0 18.153 100,0
Fonte: MS/SVS/CGIAE - Sistema de Informações sobre Mortalidade – SIM.
* Ponto de corte disponível para a população brasileira
Desigualdades geográficas
Registram-se diferenciais relevantes na mortalidade por câncer 
de colo do útero e mama entre as cinco grandes regiões do país. As 
taxas de mortalidade por câncer do colo do útero, padronizadas por 
180 Capítulo 11
idade, foram maiores nas Regiões Norte, Centro-Oeste e Sul (Figura 1). 
A Região Norte, que compartilha com o Nordeste as piores condições 
de moradia e maiores níveis de privação, caracteriza-se pela grande 
extensão territorial, marcada por vazios assistenciais em saúde. O Nor-
deste, apesar da pobreza, distingue-se pela alta cobertura da Estraté-
gia de Saúde da Família (ESF)2, o que deve favorecer o melhor acesso 
às ações de detecção, diagnóstico e tratamento precoces da neoplasia 
(Tabela 2). A Região Sul, embora apresente os melhores indicadores so-
cioeconômicos, tem muito baixa cobertura da ESF, o que significa que 
as mulheres mais pobres dessa região têm um menor acesso aos ser-
viços básicos de saúde. Isso provavelmente também ocorre em menor 
proporção na Região Centro-Oeste (Tabela 2), o que merece ser investi-
gado em estudos futuros.
figura 1 – Taxas de mortalidade padronizadas por idade* por câncer cervical e de 
mama, por 100 mil mulheres-ano, por grandes regiões do país. Coorte de 100 Milhões 
de Brasileiros (2004-2015), N=20.665.005 mulheres de 18 a 100 anos
* As taxas foram padronizadas por idade em faixas etárias de 5 anos, exceto para idades 
>=70, que foram agrupadas em uma única categoria usando a população mundial de Segi.
2 A ESF foi instituída pelo Ministério da Saúde (MS) brasileiro para expandir, qualificar e con-
solidar a Atenção Básica, contando com uma equipe multiprofissional – médico(a), enfer-
meiro(a), auxiliar ou técnico(a) em enfermagem; agentes comunitários de saúde; bem como 
odontólogo(a). Cada equipe é responsável por 3.000-4.000 pessoas de um determinado terri-
tório (Ver em: https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps/estrategia-saude-da-familia).
181Câncer de colo do útero e de mama em 20 milhões de...
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183Câncer de colo do útero e de mama em 20 milhões de...
Quanto à mortalidade por câncer de mama, há um nítido gra-
diente, com as maiores taxas nas Regiões Sudeste e Sul do país – aque-
las com as melhores condições socioeconômicas (Figura 1), a exemplo 
do que se observa em estudos nacionais (Meira et al., 2015, Nogueira; 
Kluthcovsky 2022). 
A constatação de diferenciais socioespaciais na mortalidade por 
neoplasias em mulheres da Coorte de 100 Milhões de Brasileiros mo-
tivou o interesse em investigar a associação entre segregação residen-
cial (em tercis, baixa/média/alta) e mortalidade por câncer de mama 
(Guimarães et al., 2024), a neoplasia que mais mata mulheres no Brasil. 
A segregação residencial econômica é definida como a separação siste-
mática dos indivíduos em diferentes áreas geográficas de acordo com 
a sua renda (Barber et al., 2018), devido a práticas e políticas habita-
cionais discriminatórias que historicamente marginalizam os mais 
pobres (Barber et al., 2018; Krieger et al., 2020; Williams; Collins, 2001). 
A segregação residencial atua como uma “causa fundamental” das ini-
quidades em saúde, pois reforça as diferenças socioespaciais no acesso 
a recursos que promovem a saúde e, consequentemente, a diferenças 
na saúde individual (Williams; Collins, 2001). 
Os resultados do nosso estudo mostraram que as mulheres da Coorte 
de 100 Milhões de Brasileiros que viviam em municípios altamente se-
gregados tiveram risco de mortalidade por câncer de mama cerca de 
20% maior do que as mulheres que viviam em municípios com baixa 
segregação, o que poderia ser explicado pelo acesso limitado a serviços 
de saúde importantes para melhorar o prognóstico da doença, como o 
diagnóstico precoce e o tratamento adequado, entre aquelas vivendo em 
áreas mais segregadas. Além disso, quanto maior o nível de segregação 
do município, maior o risco de mortalidade da mulher por câncer de 
mama. A pesquisa mostrou também que o recebimento do benefício do 
PBF influiu na redução da mortalidade por câncer de mama, já que entre 
aquelas que não recebiam o benefício o risco de morrer pela doença foi 
aproximadamente 12% maior do que entre as beneficiárias. 
Outro achado relevante foi que as mulheres residentes em áreas se-
gregadas e beneficiárias do PBF tiveram um menor risco de morrer por 
câncer de mama do que aquelas vivendo em áreas segregadas que não 
recebiam o benefício. Estudos mostram que os programas condicionais 
de transferência de renda como o PBF são efetivos para aumentar o uso 
184 Capítulo 11
de serviços preventivos de saúde pelas mulheres (por exemplo, maior 
realização de exames preventivos de colo do útero) (Fultz; Francis, 
2013), melhorar o estado de saúde (Lagarde; Haines; Palmer, 2007) e 
aumentar o empoderamento das mulheres ao ampliar a renda familiar 
(Lucas et al., 2022). A renda individual pode atenuar a associação entre 
a desvantagem socioeconômica da área de moradia e a mortalidade 
por câncer de mama (Luningham; Seth et al., 2022). Portanto, podemos 
supor que o PBF pode contribuir para mitigar os efeitos negativos de 
viver em áreas economicamente segregadas na mortalidade por câncer 
de mama, ao melhorar o acesso das mulheres a recursos comunitários 
(por exemplo, alimentação saudável, medicamentos, transporte) e ser-
viços preventivos como o exame clínico das mamas e o rastreamento 
mamográfico, levando à detecção e ao tratamento precoces, reduzindo 
assim a mortalidade. A renda gerada pelo programa, somada a uma 
possível maior procura das mulheres por serviços de saúde, como con-
dição para o recebimento do benefício, podem ter influenciado o auto-
cuidado das mulheres e o diagnóstico precoce, ajudando a reduzir os 
efeitos negativos do contexto de moradia desfavorável sobre o diagnós-
tico tardio e a mortalidade por câncer de mama.
 Desigualdades raciais e socioeconômicas
Outra abordagem adotada no estudo dos diferenciais na mortalidade 
por câncer de colo do útero e de mama nas mulheres da Coorte de 
100 Milhões de Brasileiros enfocou a relação entre raça/etnia e a mor-
talidade por essas neoplasias (Góes et al., 2024). Partimos do pressu-
posto de que o racismo é um determinante estrutural e institucional 
que impacta as condições de vida, o processo saúde-doença e a busca 
de cuidados de saúde (Williams; Lawrence; Davis, 2019). Pesquisas 
nacionais apresentam que mulheres negras, indígenas, de periferias, 
menos escolarizadas, das Regiões Norte e Nordeste acessam e utilizam 
menos serviços de saúde, como consultas ginecológicas, mamografias 
e exames preventivos do câncer do colo do útero, o que as torna mais 
expostas a desfechos negativos na saúde (Silva et al., 2019). 
Na Coorte de 100 Milhões de Brasileiros, as mulheres indígenas apre-
sentaram um risco de morte por câncer do colo do útero 80% maior do 
185Câncer de colo do útero e de mama em 20 milhões de...
que as mulheres brancas3. Para as mulheres de origem asiática, pardas 
e pretas o risco foi 63%, 27% e 18% maior4, respectivamente. Mulheres 
pretas tiveram risco de mortalidade por câncer de mama 10% maior do 
que as mulheres brancas5, o que é consistente com resultados de estu-
dos anteriores que mostram que a prevalência de câncer de mama em 
estágio avançado no momento do diagnóstico foi maior para mulheres 
brasileiras pretas ou pardas (Renna-Junior et al., 2021; Silva et al., 2019). 
Além disso, o intervalo entre o diagnóstico e o início do tratamento é 
maior para mulheres negras, aumentando o risco de morte por câncer 
de mama (Cabral et al., 2019). Portanto, embora possíveis diferenças 
biológicas possam contribuir para as disparidades raciais encontradas, 
as barreiras de acesso à saúde decorrentes das desigualdades sociais 
e do racismo estrutural podem explicar melhor nossos resultados, o 
que corrobora estudos anteriores (Cabral et al., 2019; Coughlin, 2019, 
Renna-Junior et al., 2021; Williams; Lawrence; Davis, 2019).
As profundas desigualdades raciais e sociais que marcam a so-
ciedade brasileira resultam de um duro processo de colonização que 
subjugou as populações nativas indígenas e escravizou os negros afri-
canos por mais de quatro séculos (Werneck, 2016). Isso tem afetado as 
condições de vida e saúde das populações pretas, pardas e indígenas 
por meio de diversas expressões de racismo (estrutural e institucional), 
que moldam as oportunidades de vida, os contextos residenciais e as 
dificuldade de acesso à saúde (Barber et al., 2018; Constante; Bastos, 
2021), ampliando as diferenças raciais na saúde. A noção de intersec-
cionalidade busca capturar as consequências estruturais de dinâmicas 
da interação entre dois ou mais eixos da subordinação (Akotirene, 
2019) e é uma potente ferramenta para o estudo das desigualdades so-
ciais. Usando uma abordagem interseccional na análise dos dados das 
mulheres da Coorte de 100 Milhões de Brasileiros foi evidenciado que 
as desigualdades raciais na mortalidade por câncer do colo do útero 
foram mais acentuadas entre mulheres de baixa escolaridade e condi-
ções de moradia mais precárias. 
3 Razão de Mortalidade Padronizada (RMP) =1,80, IC 95%=1,39-2,33.
4 Mulheres de origem asiática (RMP=1,63, IC 95%=1,20-2,22), pardas (RMP=1,27, IC 95%=1,21-
1,33) e pretas (RMP=1,18, IC 95%=1,09-1,28) vs. mulheres brancas.
5 Mulheres pretas vs. mulheres brancas (RMP=1,10, IC 95%=1,04-1,17).
186 Capítulo 11
desafios metodológicos nos estudos sobre mortalidade 
por câncer na coorte de 100 milhões de brasileiros
Em que pese as evidentes vantagens das análises de dados da Coorte 
de 100 Milhões de Brasileiros para pesquisas em saúde, a vinculação 
de registros provenientes de diversas fontes (linkage) apresenta vários 
desafios. Especialmente por se tratar de um grande volume de dados, 
é necessário dispor de ferramentas eficientese assegurar que a vincu-
lação seja precisa e sensível (Ali et al., 2019, Barbosa et al., 2020; Maia 
et al., 2017). 
Um dos principais desafios diz respeito à possibilidade de vieses 
decorrentes da perda de registros que não podem ser vinculados ou 
da sua vinculação incorreta (Harron et al., 2017). Essas dificuldades re-
lacionam-se tanto ao processo de linkage quanto à qualidade dos dados 
originais das bases que estão sendo vinculadas, incluindo o sub-regis-
tro e a subnotificação dos desfechos de saúde, bem como o preenchi-
mento inadequado de covariáveis.
Na Coorte de 100 Milhões de Brasileiros, para vincular sua linha 
de base aos programas de proteção social e às informações socioeco-
nômicas do CadÚnico, foi efetuada a ligação determinística usando o 
Número de Identificação Social (NIS). O relacionamento da coorte com 
dados administrativos de saúde utiliza a ferramenta de vinculação não 
determinística Centre for Data and Knowledge Integration for Health 
– Record Linkage (Cidacs-RL), considerada inovadora e eficiente, por 
possuir melhor escalonamento, sensibilidade e velocidade de execução 
frente às demais plataformas disponíveis (Barbosa et al., 2020, Barreto 
et al., 2022). 
Em relação à qualidade dos dados originais, o sub-registro de 
óbitos, ou seja, aqueles que nem sequer foram registrados no Sis-
tema de Informação de Mortalidade (SIM), tem diminuído ao longo do 
tempo, mas ainda ocorre em municípios brasileiros de regiões mais 
pobres, especialmente considerando óbitos nas faixas etárias extremas 
(Ichihara et al., 2022). Por outro lado, a subnotificação resulta da clas-
sificação dos casos com os códigos garbage (GB), que são inespecíficos 
ou não correspondem à causa básica do óbito (Teixeira et al., 2021). 
Casos de câncer em geral são captados por serviços de saúde, e por esse 
motivo o diagnóstico costuma ser melhor do que em outras causas, 
187Câncer de colo do útero e de mama em 20 milhões de...
com implicações para o menor sub-registro e menos subnotificação 
nos sistemas de informações em saúde. Entretanto, não é incomum a 
classificação dos casos de câncer de colo do útero, como câncer uterino 
de porção não especificada (Sousa et al., 2016).
O preenchimento das covariáveis não é geograficamente homogê-
neo e tem variado ao longo do tempo. Os dados sobre raça/cor e escola-
ridade, por exemplo, apresentam melhora no preenchimento ao longo 
dos anos (Costa et al., 2022, Souza et al.,2022), embora com distribuição 
desigual entre as regiões do país (Felix et al., 2012). 
Para lidar com esses múltiplos desafios, foram adotadas algumas 
medidas na constituição da população de estudo, com a delimitação do 
período a ser estudado e a exclusão de registros que indicavam incor-
reção na vinculação dos dados, bem como a realização de análises de 
sensibilidade de modo a dimensionar a ocorrência de potenciais vieses 
de informação nos resultados.
A linha de base da Coorte de 100 Milhões de Brasileiros inclui indi-
víduos inscritos no CadÚnico pela primeira vez, como candidatos a rece-
ber algum benefício social, mesmo que não tenham sido contemplados. 
Informações sobre o recebimento do maior benefício social do Brasil, o 
PBF, só se tornaram disponíveis a partir de 2004. Soma-se a isso o fato 
de que, até 2003, havia muitos dados faltantes sobre condições socioeco-
nômicas, especialmente a raça/cor e a escolaridade. Desse modo, foram 
consideradas como potencialmente elegíveis para os estudos realizados 
as mulheres adultas (com idade entre 18 e 99 anos) que se inscreveram 
no CadÚnico, entre 2004 e 2015 (último ano com dados de mortalidade 
disponíveis na ocasião). Foram excluídas aquelas cuja data de óbito foi 
anterior à data de arrolamento na Coorte de 100 Milhões de Brasileiros, 
o que indicava a possibilidade de erros de linkage (0,3%), e aquelas com 
dados faltantes para raça/etnia (4,8%), totalizando 20.665.005 mulheres 
na população de estudo.
A completude das informações originais não é regionalmente 
uniforme, e municípios menores e/ou menos desenvolvidos frequente-
mente apresentam qualidade inferior (Maia et al., 2017; Romero; Maia; 
Muzy, 2019). Para dimensionar o impacto disso nos resultados, pro-
cedeu-se a análise de sensibilidade considerando apenas municípios 
brasileiros que apresentam alta cobertura de registro de óbitos (≥ 95%) 
e comparando esses resultados com aqueles obtidos a partir da totali-
188 Capítulo 11
dade dos municípios. A constatação de resultados semelhantes permi-
tiu afastar a possibilidade desse tipo de viés de informação.
Para mensurar o efeito da subnotificação de óbitos por câncer de 
colo do útero classificados como câncer uterino de porção não especifi-
cada, restringimos a análise a mulheres com menos de 45 anos, uma vez 
que entre essas mulheres o câncer de corpo uterino é muito raro e, por-
tanto, praticamente todos os casos de porção não especificada podem 
ser considerados como câncer de colo do útero. Os achados de análises 
nas quais o desfecho foi definido como “(CID-10 C53)” foram então com-
parados com aqueles de análises em que o resultado foi definido como 
“câncer cervical (CID-10 C53)” ou “câncer de útero, parte não especifi-
cada (CID-10 C55)”, tendo sido encontrados resultados semelhantes.
Alguns limites são inerentes à constituição atual da Coorte de 100 
Milhões de Brasileiros e à disponibilidade de dados para a análise das 
desigualdades sociais na ocorrência dos cânceres de mama e de colo do 
útero. Não dispomos de dados sobre a incidência das neoplasias e, por-
tanto, não é possível separar se os fatores socioeconômicos afetam o risco 
de adoecer, sobreviver e/ou morrer por essas causas, já que a mortalidade 
é afetada tanto pela incidência quanto pela sobrevivência. Também não 
dispomos de dados sobre fatores de risco mais proximais, tais como o 
histórico da vida sexual e reprodutiva e hábitos como o tabagismo. 
A coorte é relativamente jovem com grande proporção de participan-
tes que ainda não atingiram as idades em que a incidência e a mortali-
dade por câncer são mais altas. E ainda, como já mencionado, é restrita 
à metade mais pobre da população brasileira e, portanto, quaisquer 
gradientes socioeconômicos observados provavelmente serão mais 
fracos do que na população em geral.
Esses limites poderão ser parcial e gradativamente superados à 
medida que outras bases sejam incorporadas e estejam disponíveis 
para análises futuras.
189Câncer de colo do útero e de mama em 20 milhões de...
o impacto de programas sociais na ocorrência e nos 
fatores de risco de câncer de mama e de colo do útero: 
uma potencialidade a ser explorada
Uma das principais aplicações da Coorte de 100 Milhões de Brasileiros 
é para avaliar diferentes impactos dos programas sociais na ocorrência 
de variados desfechos de saúde.
Diversos países em todo o mundo têm implementado programas 
de proteção social, particularmente aqueles com transferência de re-
cursos financeiros a famílias em situação de extrema carência mate-
rial. Esses programas têm a finalidade de aliviar a pobreza e romper 
o ciclo intergeracional de reprodução da miséria, promovendo o bem- 
-estar social. Alguns programas exigem o cumprimento de condiciona-
lidades, tais como a utilização de serviços básicos de saúde, a matrícula 
e a frequência escolar de crianças e adolescentes das famílias beneficiá-
rias, a presença em encontros organizados sobre saúde sexual e repro-
dutiva, dentre outras. Outros programas são incondicionais e outros, 
ainda, são universais. Ao contribuir com a melhoria das condições de 
vida das camadas mais pobres da população, promovem a segurança 
alimentar, o consumo de bens e o acesso a serviços públicos básicos de 
saúde, educação e assistência social. 
São mútiplos os possíveis mecanismos de interferência dos progra-
mas de proteção social na ocorrência dos cânceres de mama ou colo 
uterino e seus fatores de risco: mudanças nos padrões alimentares com 
acesso a alimentação saudável e/ou aumento da ingestão calóricae suas 
relações com o sobrepeso/obesidade; aumento da autonomia e indepen-
dência financeira das meninas e mulheres, com efeito no autocuidado 
da saúde; na presença de condicionalidades de saúde, o maior contato 
com serviços de saúde e cuidados preventivos, incluindo atendimento 
ginecológico e rastreamento para o câncer de colo do útero e o câncer 
de mama; no sentido contrário, o cumprimento dessas mesmas condi-
cionalidades, como responsabilidade exclusiva da mulher, pode reduzir 
o tempo para o próprio cuidado com a saúde (Mariano; Carloto, 2009).
Isso motivou a realização de uma revisão sistemática sobre o tema 
protocolo (Gabrielli et al., 2024) de modo a identificar lacunas e emba-
sar estudos futuros que avaliem o impacto do PBF na ocorrência dos 
cânceres de mama e de colo do útero e de seus fatores de risco e prote-
190 Capítulo 11
ção. Entre os 43 artigos selecionados pelos critérios previamente esta-
belecidos pelo protocolo (Gabrielli et al., 2024), não foram localizados 
estudos de avaliação de impacto dos programas sociais sobre aqueles 
que foram considerados desfechos primários da revisão, como incidên-
cia, sobrevivência ou mortalidade, evidenciando uma lacuna na litera-
tura sobre o tema. 
No entanto, foram incluídos estudos do efeito de programas de 
proteção social nos desfechos secundários definidos como rastreio e 
fatores de risco para os canceres de mama e de colo do útero.
Um exemplo disso é como meninas adolescentes de famílias bene-
ficiárias de programas de transferência de renda se matriculam e fre-
quentam mais a escola do que meninas de famílias não beneficiárias, 
mesmo quando o programa não exigia essa condicionalidade (Handa 
et al., 2015; Rosenberg et al., 2015). O resultado disso costuma ser a me-
diação da escolarização sobre o adiamento da primeira relação sexual, 
do casamento e do primeiro filho, além do maior espaçamento entre 
as gestações, aumento do uso de preservativos e a redução da multi-
parceria (Handa et al., 2014; Schaefer et al., 2020), podendo afetar favo-
ravelmente fatores de risco do câncer do colo uterino relacionados ao 
aumento da exposição às Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs), 
em particular ao Papilomavírus Humano (HPV), que se associa à ocor-
rência de lesões intraepiteliais de alto grau (International Collabora-
tion of Epidemiological Studies of Cervical Cancer, 2009).
Inversamente, programas de transferência de renda, com a fina-
lidade de compra de alimentos ou não, têm sido relacionados ao au-
mento de obesidade em mulheres adultas, fator de risco reconhecido 
para a ocorrência de vários cânceres, em particular o câncer de mama 
(Santos et al., 2021; Zagorsky; Smith 2009). Apesar disso, vários autores 
têm demonstrado em estudos de boa qualidade que esses programas 
podem até reduzir o peso de suas beneficiárias (Almada; Tchernis 2018; 
Levasseur, 2019; Pérez-Lu et al., 2017).
Dois estudos avaliaram o rastreio do câncer de colo do útero em 
participantes do PBF. O primeiro, um artigo que avaliou o Programa de 
Melhoria do Acesso e da Qualidade na Atenção Básica (PMAQ), estudou 
critérios de qualidade desse tipo de rastreio, mostrando que as mulhe-
res do PBF apresentaram maior acesso a esse tipo de exame e foram 
melhor orientadas quanto ao procedimento e seus resultados (Barcelos 
191Câncer de colo do útero e de mama em 20 milhões de...
et al., 2017). O segundo, utilizando dados do inquérito telefônico Vigi-
tel, apontou que as beneficiárias do PBF fizeram menos exame preven-
tivo de colo do útero do que as mulheres da população em geral, mas 
nessa análise não foi feito qualquer ajuste, o que terminou por deixar 
os dois grupos não comparáveis, uma vez que as mulheres do PBF têm 
menor renda e menor escolaridade, além de habitar as regiões mais 
pobres do país (Malta et al., 2020).
Já foram observados efeitos que ultrapassaram a população-alvo 
dos programas, atingindo também pessoas que não recebem o bene-
fício, mas que residem na mesma localidade. Foi o caso do aumento 
da demanda por exames preventivos do câncer de colo por mulheres 
não beneficiárias do Programa de Educação, Saúde e Alimentação (Pro-
gresa), programa de transferência condicional de renda do México, 
em vilas onde foi implementado programa com essa condicionalidade 
(Avitabile, 2021).
Estudos têm mostrado que as condicionalidades de saúde impostas 
pelo PBF aumentam o contato das mulheres beneficiárias com os ser-
viços de saúde, propiciando o enfrentamento das barreiras de acesso a 
esses serviços e facilitando o cumprimento de estratégias de prevenção 
(Silva; Paes, 2019).
No entanto, ainda há lacunas do conhecimento quanto ao im-
pacto dos programas de proteção social sobre desfechos relacionados 
aos dois principais cânceres das mulheres, o câncer de mama e o de 
colo do útero. Essas lacunas apontam a necessidade de mais estudos 
para melhor avaliar o rastreio dessas doenças, mas também verificar o 
efeito dos programas sociais sobre a incidência, o estágio ao diagnós-
tico, a sobrevivência e a mortalidade por esses dois cânceres.
De qualquer modo, há motivos para supor que adicionar às con-
dicionalidades do PBF exames de rastreio, em particular a detecção 
precoce do câncer de colo do útero, mas talvez também a mamografia, 
dentro do que preconiza o MS, teria o potencial de aumentar a co-
bertura desses exames, com o consequente aumento do diagnóstico e 
tratamento precoces. Outra sugestão possível seria a adição da vacina 
contra o HPV no calendário infantil de vacinação, que tem o cumpri-
mento já incluído nas condicionalidades de saúde (hoje são exigidas 
apenas as vacinas indicadas até os sete anos de idade). Essas ações em 
conjunto, em última análise, podem diminuir a mortalidade por essas 
doenças que acometem principalmente as mulheres mais vulneráveis.
192 Capítulo 11
comentários finais
Os resultados dos nossos estudos têm evidenciado a relação entre de-
sigualdades sociais e risco de morte por neoplasias entre mulheres da 
Coorte de 100 Milhões de Brasileiros. Os determinantes sociais das 
neoplasias têm sido investigados por nós com diferentes recortes, con-
siderando as diferenças geográficas, raciais e socioeconômicas. Esses 
achados somam-se aos de estudos anteriores e avançam ao adotar uma 
perspectiva interseccional de gênero, raça/etnia e posição social e com-
binar indicadores individuais e contextuais.
A revisão sistemática sobre impacto de programas sociais como o 
PBF na ocorrência dos cânceres de mama e de colo do útero evidenciou 
lacunas que poderão inspirar estudos futuros, especialmente em países 
de baixa e média renda, e análises futuras dos dados da Coorte de 100 
Milhões de Brasileiros. Sendo esta uma coorte dinâmica, a incorporação 
de dados mais recentes, com períodos mais longos de follow-up e bases 
de dados adicionais, dispondo de novas variáveis explanatórias e de 
desfechos, pode permitir ampliar os estudos sobre o câncer de colo do 
útero e de mama, bem como realizar estudos científicos sobre outros 
tipos de câncer de relevância epidemiológica na população brasileira.
agradecimento
A Ana Clara Campos e Greice M. S. Menezes.
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203
12
Percepções e experiências do compartilhamento e 
vinculação de dados administrativos para pesquisa 
e políticas públicas no Brasil
Bethânia de Araújo Almeida 
Denise Moraes Pimenta
introdução
Dados pessoais são tradicionalmente utilizados em pesquisas científi-
cas, particularmente nas ciências da saúde e ciências sociais. Nos úl-
timos anos, com a intensificação da quantidade e variedade de dados 
gerados e de sua ampla circulação, apoiadas por tecnologias digitais 
cada vez mais potentes e especializadas, discussões acerca do acesso e 
reutilização de dados contendo informações pessoais se tornaram cada 
vez mais frequentes.
No contexto do trabalho desenvolvido no Centro de Integração de 
Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs/Fiocruz Bahia), que integra 
dados para responder a perguntas complexas, principalmente dados 
administrativos1 e da entrada em vigor da Lei Geral de Proteção de 
Dados Pessoais (LGPD)2, foi concebida e conduzida a pesquisa “Percep-
ções e experiências sobre compartilhamento e vinculação de dados 
para pesquisa e avaliação de políticas públicas na área da saúde”.
1 Dados administrativos são dados coletados quando o cidadão interage com o governo, e 
são utilizados com diferentes propósitos, como administração de programas e prestação 
de serviços à sociedade.
2 Sancionada em 2018 e vigência a partir de 2021, Lei nº 13.709/2018. Ver em: http://www.
planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2018/lei/l13709.htm.
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2018/lei/l13709.htm
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2018/lei/l13709.htm
204 Capítulo 12
Em virtude da integração de dados administrativos se mostrar 
um recurso importante para estudos de base populacional na área da 
saúde, por viabilizar a correlação de dados a nível individual de distin-
tas fontes para entender a distribuição e os determinantes dos eventos 
e estados de saúde de grupos específicos ou de populações inteiras, o 
Cidacs estruturou um complexo sistema de gerenciamento de dados 
com dispositivos de segurança da informação, ética e privacidade. 
A plataforma de dados do Cidacs foi criada com o objetivo de prio-
rizar a proteção dos direitos dos titulares dos dados e o interesse pú-
blico da pesquisa em saúde voltada à busca por respostas e evidências 
para melhorar as condições de vida da população brasileira. A integra-
ção das bases de dados e o acesso aos dados integrados ocorrem em 
ambiente controlado e seguro sob determinados termos e condições, 
em conformidade com a finalidade da cessão das bases de dados, que se 
relaciona a estudos de saúde pública (Barreto et al., 2019). 
A despeito da necessidade de dados individualizados para viabi-
lizar a aplicação de técnicas de vinculação entre diferentes bases de 
dados (record linkage), esses processos não buscam informações ao nível 
individual, mas padrões, regularidades significativas que emergem das 
correlações entre os dados para auxiliar na geração de novos conhe-
cimentos e na busca por respostas para problemas relacionados aos 
determinantes sociais da saúde, por exemplo.
No que tange à LGPD, esta visa proteger os direitos fundamentais 
de liberdade e de privacidade e o livre desenvolvimento da persona-
lidade da pessoa natural. Considerada um marco na regulamentação 
da proteção de dados pessoais no Brasil, essa lei abarca de forma espe-
cífica o acesso, o tratamento e o uso de dados pessoais para pesquisa 
acadêmica e estudos em saúde pública (artigos 4, 7, 11 e 13). 
A LGPD prevê que dados pessoais e sensíveis devem ser tratados 
de forma legal, justa e transparente, no que tange aos titulares dos 
dados, buscando mitigar potenciais riscos em relação aos seus direitos 
e liberdades. Para tal, estabelece uma série de requisitos para que esses 
dados possam ser legitimamente tratados e aponta limites que devem 
ser observados no seu tratamento.
Ao considerarmos que o acesso e a integração de dados admi-
nistrativos apresentam muitos desafios, notadamente éticos, legais e 
sociais, o estudo direcionou especial atenção ao compartilhamento e 
205Percepções e experiências do compartilhamento e vinculação...
vinculação de dados administrativospara pesquisa científica e avalia-
ção de políticas públicas.
metodologia 
Optou-se pela entrevista semiestruturada como a técnica mais ade-
quada para a condução do estudo, visto que essa forma garante a exis-
tência de uma estrutura base que conta com roteiros de perguntas, 
mas, ao mesmo tempo, permite a flexibilidade necessária a um estudo 
exploratório que se que constrói e se adapta na medida do próprio con-
tato com os interlocutores e das questões que emergem desse encontro.
Por ser um tema novo de investigação, com muitas lacunas para 
a sua compreensão, particularmente no Brasil, os participantes foram 
escolhidos a partir de características diversas, objetivando garantir 
uma variedade de impressões. A pesquisa teve início no segundo se-
mestre de 2020, sob o signo da pandemia da covid-19. 
Entrevistas que, a princípio, foram pensadas para serem, em sua 
maioria, presenciais, tiveram que ser repensadas e adaptadas para o 
formato remoto, o que não se deu sem desafios e percalços na medida 
em que o acesso à internet e a qualidade da conexão não são padroni-
zados, o que atingiu diretamente muitos dos entrevistados.
amostra
A princípio, a amostra foi desenhada com 25 participantes, no en-
tanto, devido aos desafios impostos pela pandemia, foi redesenhada 
com a participação de 15 entrevistados(as) e ampliada em termos de 
diversidade. 
Inicialmente, a intenção era entrevistar pacientes, beneficiários 
de programas sociais, gestores de políticas públicas e pesquisadores 
que atuam na área de saúde. No entanto, a partir da percepção da pró-
pria complexidade do tema, optou-se pela expansão das características 
dos pesquisadores entrevistados. 
Dessa forma, a amostra da pesquisa contou também com pesqui-
sadores das áreas da educação, da ciência da computação, das ciências 
206 Capítulo 12
sociais e de patrimônio e história, dentre eles, uma pesquisadora indí-
gena e outra quilombola.
Os sujeitos entrevistados se dividiram em três grupos: quatro ti-
tulares de dados (pacientes e beneficiários de programas sociais), oito 
pesquisadores e três gestores com experiência em políticas públicas 
nas áreas de saúde e proteção social. Por fim, é importante dizer que, 
para garantir a diversidade e evitar vieses na pesquisa, desenhou-se, a 
priori, o perfil esperado para os participantes – sendo a diversidade um 
dos principais parâmetros norteadores para a composição da amostra. 
Para condução das entrevistas semiestruturadas foram construí-
dos roteiros específicos para cada grupo de entrevistados, três ao todo. 
Ao fim das 15 entrevistas, foram mais de 24 horas de gravação de áudio 
e vídeo e mais de 540 páginas transcritas, analisadas e comparadas. 
Por meio do material analisado, foi possível encontrar padrões 
sobre temas que subsidiaram o mapeamento das principais categoriais 
sociais que emergiram a partir das análises comparadas das entrevistas.
promoção de sensibilização e literacia
Durante o desenvolvimento da própria pesquisa, de acordo com os 
achados, percebeu-se a necessidade da elaboração de materiais para 
promover sensibilização e literacia sobre o tema. Com esse intuito, 
conteúdos foram elaborados e postados semanalmente nas mídias so-
ciais do Cidacs por dois meses para chamar a atenção de diferentes 
públicos sobre a importância dos dados em nossas vidas. 
As postagens apresentam definições, conceitos, cenários de utili-
zação e reflexões acerca do uso de dados pessoais e sensíveis para fins 
de pesquisa e de políticas públicas em aderência à LGPD e regulamen-
tações voltadas à ética em pesquisa que envolve seres humanos.
Os conteúdos e a diagramação das postagens foram pensados para 
tornar o material atrativo para diferentes públicos, sem perder a pro-
fundidade que o tema requer. Todo o conteúdo elaborado e postado nas 
redes sociais (Facebook, Instagram, Twitter e WhatsApp) encontra-se 
disponível no site do Cidacs3 para ser livremente utilizado.
3 O material produzido está disponível para download e livre utilização no site do Cidacs: https://
cidacs.bahia.fiocruz.br/2021/11/24/material-do-projeto-seus-dados-contam-e-fazem-historia. 
https://cidacs.bahia.fiocruz.br/2021/11/24/material-do-projeto-seus-dados-contam-e-fazem-historia
https://cidacs.bahia.fiocruz.br/2021/11/24/material-do-projeto-seus-dados-contam-e-fazem-historia
207Percepções e experiências do compartilhamento e vinculação...
limitações do estudo
Estudos de caráter qualitativo tendem a ter limitado potencial de 
generalização devido ao reduzido tamanho das amostras e de sua re-
presentatividade. Contudo, ao selecionarmos participantes com ca-
racterísticas específicas, a amostra foi cuidadosamente pensada para 
captar diversas experiências e percepções relativas ao tema. Portanto, 
os achados do estudo são indicadores importantes de pontos de vista 
que poderão ser utilizados para informar e ampliar discussões e a par-
ticipação da sociedade no que concerne ao compartilhamento e vin-
culação de dados contendo informações pessoais com finalidades de 
pesquisa e de políticas públicas.
resultados e discussões
As categorias que se sobressaíram na análise do material produzido 
no estudo são Documentos e Cidadania; Privacidade, Consentimento e 
Ética; questões como estigma, medo, ganhos e facilidades foram agru-
padas, tratadas e analisadas como Riscos versus Benefícios; e, por fim, 
Transparência, Confiança e Governança de Dados.
Documentos e Cidadania
Quando nos referimos a dados pessoais, alguns dos nossos entrevis-
tados fizeram menção aos documentos, como carteira de identidade 
– antigamente chamada de Registro Geral (RG) – e Cadastro de Pessoa 
Física (CPF), que no país representam valores e mesmo direitos à cida-
dania nas suas dimensões civis, políticas e sociais.
É por meio da documentação, do registro civil que o indivíduo existe 
oficialmente para que possa ter acesso a direitos. O registro de nasci-
mento é o início desse reconhecimento4, que se relaciona diretamente 
com a ideia de dignidade humana. 
4 De acordo com a Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílio (PNAD), conduzida pelo 
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2015, mais de 3 milhões de bra-
sileiros não possuem certidão de nascimento. Pessoas invisíveis para o Estado e para 
a sociedade, inexistentes nas estatísticas e nas políticas públicas, privadas de exercer 
direitos básicos como acesso à saúde e educação. Ver em: Longuinho (2021).
208 Capítulo 12
No Brasil, existem vários tipos de documentos para identificar 
civilmente uma pessoa, pois ainda não há no país um registro com 
número de identificação unificado, que reúna de forma integrada as 
informações necessárias à vida civil. 
É fundamental pontuar que a identificação civil no Brasil possui 
um histórico relacionado à polícia e aos serviços de segurança nacio-
nais. Desse modo, se, por um lado, a identificação civil confere cida-
dania aos indivíduos, por outro lado, pode constranger e intimidar, 
principalmente aqueles que se encontram em camadas vulnerabiliza-
das da população. Essa relação é indispensável para compreendermos 
como titulares de dados, usuários/beneficiários de programas sociais e 
também gestores de políticas públicas percebem e vivenciam o acesso 
aos dados dos cidadãos que estão sob a custódia do Estado.
Beneficiários de programas sociais governamentais demonstra-
ram maior temor em relação ao processamento de seus dados pelo 
Estado do que por grandes empresas de tecnologia, o que é justificá-
vel se pensarmos que é a relação com o Estado que confere cidadania 
ao indivíduo, garantindo a liberdade e o acesso a direitos, com seus 
contornos jurídicos amparados pela Constituição e contornos socioló-
gicos. Adicionalmente à incerteza do uso de seus dados pelo governo, 
também indicaram omissão de certos dados ao realizar determinado 
cadastro por receio de sofrer prejuízos. Portanto, o mesmo aparato que 
pode conferir acesso a direitos, dependendo do caso, poderá gerar des-
confiança, medo e insegurança aostitulares dos dados.
Nesse sentido, a coleta e o processamento de dados pessoais e 
sensíveis não se situam em um espaço a-histórico, habitam um ter-
reno permeado pela interseccionalidade e todas as consequências que 
esses cruzamentos (raça, gênero, classe, capacidade física, localização 
geográfica, religiosidade, orientação sexual, dentre outros marcadores 
sociais) podem causar na vida de indivíduos e grupos, aspectos que 
produzem receios na população, particularmente daqueles que mais 
necessitam acessar programas sociais que visam a equidade, que é pau-
tada pela busca por justiça social.
Gestores de políticas públicas, diante das inúmeras desigualda-
des sociais do Brasil, mostraram-se preocupados e também responsá-
veis pela promoção e garantia da segurança dos dados dos cidadãos, 
principalmente dos que estão em situação de vulnerabilidade social. 
209Percepções e experiências do compartilhamento e vinculação...
Reconhecem a existência de conflito de interesses acerca do acesso e 
finalidades de utilização dos dados dos cidadãos, principalmente de 
participantes de programas de assistência social, notadamente de pro-
gramas de transferência de renda.
A sociedade tem um conceito de preservação e defesa da privacidade de uma par-
cela da sociedade, quando é pobre, esse conceito fica bem com as bordinhas fluidas, 
sabe?! Porque ela está ‘encostada no Estado’, eu tenho o direito de devassar a vida 
dela. Isso vai valer para um conjunto de coisas... O dado que eu tenho no seguro 
de saúde privado é uma coisa... Então, esta é toda uma discussão complicada, 
num país com esse nível de desigualdade como o Brasil, né?! [...] Então assim, esse 
conceito, não estou dizendo que todo mundo pensa assim, mas como vocês estão 
fazendo uma investigação que eu acho interessante, vale a pena tentar abordar 
isso, porque a minha experiência é que as pessoas respeitam muito menos a priva-
cidade da população de baixa renda. E aí, se você for para esses públicos, mulher, 
negra… aí lascou.
Ex-gestora de políticas públicas
O recorte de classe aparece explicitamente na fala da entrevistada, 
que afirmou que os dados de pessoas pobres no Brasil circulam e são 
usados de forma diferente daqueles da classe média e da classe alta. 
Ressalta ainda que pessoas de classe média e alta estão mais bem in-
formadas de seus direitos, e quando estes lhes faltarem, saberão como 
se portar, inclusive tendo condições financeiras de acessar a malha ju-
rídica para valer um direito ou solucionar conflitos de interesses entre 
as partes. 
Por conta das diversas características históricas, culturais, socioe-
conômicas e políticas apontadas pelos entrevistados, faz-se indispensá-
vel entender qual é a compreensão destes no que tange à privacidade, 
consentimento e ética no trato de dados pessoais no Brasil, particular-
mente para pesquisa científica e para políticas públicas. 
Privacidade, consentimento e ética
A despeito das ambiguidades relacionadas ao consentimento e priva-
cidade produzidas pelas redes sociais, com raras exceções, a maioria 
de nossos interlocutores se mostrou pouco preocupada com a circula-
210 Capítulo 12
ção e os usos de seus dados por grandes empresas de tecnologias (big 
techs) que oferecem serviços de busca, e-mail, aplicativos e redes sociais, 
e mesmo de usuários diversos que acessam os seus perfis e respecti-
vos conteúdos disponíveis nas redes sociais. As facilidades cotidianas 
advindas dos serviços ofertados parecem invisibilizar, ou compensar, 
os potenciais riscos envolvidos nas distintas estratégias das empresas 
para monetizar dados de seus usuários.
Verifica-se ainda que pesquisadores e gestores apontam a ne-
cessidade de consentimento, licença social para estabelecimento de 
parcerias entre governos e empresas privadas acerca da coleta e pro-
cessamento de dados administrativos contendo informações pessoais, 
pois requerem transparência e ampla disseminação dos acordos esta-
belecidos para que tenham legitimidade de agir em nome do governo 
e da população. Chamam atenção para a necessidade de transparência 
e de demonstração de que os dados são tratados dentro dos parâmetros 
legais com exigências de verificação e responsabilização em casos de 
abusos, usos indevidos e negligência.
Especificamente no que tange à cessão de dados administrativos 
com finalidade de pesquisa científica, foi unânime a opinião de gesto-
res entrevistados ao apontarem que pesquisadores vinculados a ins-
tituições com credenciais adequadas e interessados em utilizar bases 
de dados administrativos contribuem para a melhoria e promoção de 
políticas públicas e, geralmente, garantem o bom uso desses dados.
O argumento da ampliação do conceito de público para além do 
que está atrelado ao Estado é fundamental para que os indivíduos com-
preendam seus dados como portadores de valores coletivos. A ressignifi-
cação do dado administrativo como algo valoroso para a transformação 
social – e não apenas relacionado à vigilância estatal do cidadão – é um 
elemento-chave para o consentimento direto e indireto da população 
quanto aos usos e reusos de seus dados para a promoção de pesquisas e 
políticas públicas que sejam orientadas para o coletivo, o bem comum. 
Titulares de dados apontaram desconfiança em relação a certos 
estudos e falta de retorno das investigações científicas.
[...]. A minoria que deu a devolutiva [...] Mas quando a gente foi perguntar pelo 
menos da devolutiva, o que é que tinha sido visto na pesquisa deles, eles disse-
ram que a pesquisa estava com termos que as mães não iriam entender [...] Então 
211Percepções e experiências do compartilhamento e vinculação...
assim, não foram com essas palavras bonitinhas, mas foram ‘ah, porque os termos 
são científicos e as mães não vão poder entender’, ou seja, por que você não faz um 
termo mais claro para que as mães, que não têm acesso a esses termos, terem o 
conhecimento do que foi pesquisado? [...]. Então assim, acho que o mais difícil é a 
parte da devolutiva, porque a gente raramente recebeu, raramente. Eu até recebi 
um que foi em formato de um livro, que foi uma pesquisadora de Brasília, e assim, 
foi um carinho muito grande que a gente ficou todo mundo emocionado, quando 
recebeu. É um livro que é muito lindo falando... não diz o nome de ninguém, ne-
nhuma família, nada, mas tá lá todas as histórias, todas bonitinhas.
Beneficiária de pensão especial para pessoas com síndrome 
congênita decorrente do zika vírus5 – antigo Benefício de Prestação 
Continuada (BPC) –, mãe de uma criança com microcefalia 
decorrente do zika vírus 
Constata-se que os titulares dos dados desejam receber retorno 
sobre os resultados de pesquisas relacionadas às suas condições de vida 
e saúde, principalmente dos estudos que participam. Diante da falta 
de retorno dos resultados de pesquisas realizadas a partir dos dados 
de grupos tradicionais, medidas alternativas foram tomadas pelas pró-
prias comunidades para assegurarem seus direitos.
As comunidades, elas estão um pouco mais espertas e vigilantes nesse sentido de 
para quem a gente vai passar as informações, né?! Algumas comunidades fazem: 
‘você quer vir na minha comunidade? Então tá bom. Você vai assinar um termo. 
Nesse termo você tem que dizer isso, isso e isso. Minha responsabilidade é essa e 
essa e essa’. Que a gente não aguenta mais ver nossos dados aí, sendo jogados aí e 
sem saber e sem respeitar... Por que a gente passa uma informação e você pega essa 
informação e faz o que quer com ela? Tipo assim, não tá preocupado com o grupo, 
né? Em vez de você trazer uma política para acrescentar, você pega isso pra fazer 
o contrário, fazer o inverso disso?!.
Pesquisadora quilombola da área de ciências sociais
5 A pensão é destinada a quem possui o diagnóstico da síndrome, desde que tenham nas-
cido entre 1º de janeiro de 2015 e 31 de dezembro de 2019, e que sejam titulares do 
Benefício de Prestação Continuada (BPC). O pagamento é vitalício, no valor de um saláriodesigualdades, re-
fletidas em diferentes padrões, regiões e grupos sociais. O IBP é uma 
ferramenta valiosa e inovadora no cenário nacional, pois permitirá 
uma nova perspectiva na análise das desigualdades no país, sendo pos-
sível analisar desigualdades intramunicipais que antes, com medidas 
ou indicadores contextuais municipais, não eram possíveis.
Estudos têm evidenciado a associação entre diferentes níveis de 
privação material e desfechos em saúde, com concentração de piores 
indicadores de saúde em regiões ou SC com maior privação material. 
Estudos procedentes da Escócia, Portugal, África do Sul, entre outros, 
têm reportado que indivíduos que vivem em áreas caracterizadas 
por maiores níveis de privação material enfrentam maiores taxas de 
doenças crônicas, infecciosas, parasitárias e aumento da mortalidade 
e acesso limitado a serviços de saúde de qualidade. Porém, no Brasil, 
ainda há dificuldades em se obter conhecimento sobre a relação entre 
privação material e desfechos em saúde, em função da dificuldade da 
geocodificação desses eventos nos SC.
Desde o seu lançamento em dezembro de 2016, vários pesquisado-
res vêm utilizando o IBP, principalmente a nível municipal, para ava-
liar a relação da situação de privação e a qualidade da informação, com 
alguns eventos de saúde a nível agregado, e até mesmo a incorporação 
do indicador como parte de uma dimensão de desigualdade social, a 
exemplo do Índice de Desigualdade Social para Covid-19. Análises ex-
ploratórias sobre a relação do IBP municipal com desfechos em saúde 
mostraram a potencialidade do uso do IBP para investigar a associação 
entre a situação de privação material de populações e desfechos de 
saúde, aprofundando a análise de desigualdades sociais no campo da 
saúde pública.
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de-desenvolvimento-humano/. Acesso em: 23 jun. 2023.
VASQUEZ, A.; CABIESES, B.; TUNSTALL, H. Where Are 
Socioeconomically Deprived Immigrants Locatedmínimo mensal. O benefício não pode ser acumulado com outras indenizações pagas em 
razão de decisões judiciais sobre os mesmos fatos e nem com o próprio BPC.
212 Capítulo 12
Destaca-se ainda que alguns pesquisadores apontam para a neces-
sidade de envolvimento e participação de grupos aos quais as pesquisas 
se relacionam, inclusive no desenho da pesquisa, sugestões de tópicos 
de estudo, bem como participação na análise dos dados, pois fornecem 
informações e perspectivas relevantes. Para tal, é imprescindível ini-
ciar o estabelecimento de diálogo: 
[...] Nunca falar ‘por’ eles e sim falar ‘com’ eles [...] Porque a gente fica muito por 
dentro de nós mesmos assim e elucubrando aqui uma coisa, e se você conversa com 
uma liderança dessas, ela já vai te dar uma noção. Então, eu acho que mesmo 
que a gente trabalhe com dados secundários, com dados administrativos, a gente 
tem que abrir o canal de diálogo com essas lideranças [...]. Quando a gente vai 
trabalhar com dados secundários, dados de domínio público, a gente não tem esse 
cuidado e que é extremamente relevante. Extremamente!
Pesquisadora da área de saúde 
Nesse sentido, destacamos que a LGPD se refere exclusivamente 
a direitos dos indivíduos sobre seus dados, e que dados anonimizados 
não são considerados dados pessoais. Contudo, mesmo sem fazer re-
ferência a qualquer indivíduo específico, algumas informações como 
condições de saúde, status socioeconômico, locais georreferenciados e 
etnicidade, por exemplo, podem expor e prejudicar grupos e comu-
nidades, requerendo escrutinamento ético sobre os potenciais benefí-
cios e riscos. Conferir voz à população estudada, seja no que tange aos 
dados primários ou secundários, é também uma maneira de avaliar e 
mitigar riscos. 
Entendendo que indivíduos, grupos sociais e comunidades tra-
dicionais possuem agência e têm o desejo de participação e autono-
mia de decisão, a seguir, traremos alguns dos argumentos elencados 
por nossos entrevistados a respeito de suas percepções e experiências 
acerca do compartilhamento e vinculação de dados pessoais e sensíveis.
Riscos versus benefícios
Muitos(as) de nossos(as) entrevistados(as) demonstraram conhecimento 
sobre suas situações de vulnerabilidade e também apontaram estar 
atentos(as) aos riscos que podem correr por conta dos usos e reusos de 
213Percepções e experiências do compartilhamento e vinculação...
seus dados. Por outro lado, também revelaram benefícios que podem 
ser advindos desses usos e compartilhamentos, que incluem a vincu-
lação de dados, desde que sejam realizados de modo adequado e ético. 
Titulares de dados – principalmente beneficiários(as) de progra-
mas sociais, representantes de pacientes e pesquisadores(as) oriun-
dos(as) de grupos tradicionais – estão a todo tempo balanceando os 
riscos e benefícios da exposição de seus dados pessoais e dos dados de 
seus grupos de pertencimento. De certa forma, todos estamos equili-
brando os riscos e os benefícios da exposição e do compartilhamento 
de nossos dados. 
Porque assim, é uma doença com estigma. Com forte estigma. [...] tem aí um pro-
jeto que vai trabalhar a questão de medicar os contatos dessas pessoas afetadas 
pela hanseníase. E aí, assim, primeiro o projeto vai ter que ter acesso aos pacientes, 
aos dados dos pacientes para ir na casa deles. E aí, como fazer essa abordagem, 
que muitos deles escondem em casa que são pessoas que tão com hanseníase. Isso 
por um lado dificulta a saúde pública, porque você tem que examinar os contatos, 
por outro, é um direito dele [...], mas, ao mesmo tempo, há a questão da saúde 
coletiva de você ter que tratar as pessoas na casa. Cuidar, ver se não vai aparecer 
nenhum caso, né?! Isso é muito delicado.
Representante de pacientes com hanseníase
E quando se trata de dados de grupos e comunidades tradicionais, 
como estes são percebidos? A partir das entrevistas com pesquisadoras 
de origens indígena e quilombola, foi apontado que o sentimento de 
pertencimento vai muito além dos números e estatísticas sobre o grupo, 
assim, muitas comunidades receiam que dados coletados, ao invés de 
garantir, possam deslegitimar os grupos como coletivos de direitos.
Então eu sempre... eu digo que a genética não é nada sem epidemiologia, e epide-
miologia não é nada se ela não discutir a antropologia, as culturas.
Pesquisadora indígena da área da saúde-antropologia (geneticista) 
Além disso, outros pesquisadores demonstraram a importância de 
se lidar de modo ético com a coleta de dados primários e também com 
o uso de dados secundários de comunidades tradicionais e grupos de 
214 Capítulo 12
pacientes, visto que essas informações subsidiam políticas públicas e 
também direitos. A coleta mal realizada, o indevido compartilhamento 
das informações ou o mau uso dos dados primários e secundários 
podem colocar em risco e impactar a vida não apenas de indivíduos, 
mas de comunidades inteiras.
Como mencionado anteriormente, grupos e indivíduos possuem 
agência em suas decisões, mesmo que não de maneira absoluta, mas o 
certo é que, dentro de suas possibilidades de atuação nos contextos so-
ciais em que estão inseridos, encontram-se a todo tempo balanceando 
riscos e benefícios no que diz respeito à exposição e ao compartilha-
mento de informações pessoais e de seus coletivos. 
Pesquisadores entrevistados seguem reforçando que a agência e 
autonomia de indivíduos e grupos dependem e podem ser ampliadas 
a partir da informação e da “educação para a cidadania”. O acesso à 
informação garante que pessoas e comunidades possam entender os 
termos, condições e finalidades de coleta de seus dados, como também 
fazer uso de seus dados e informações para obter direitos respaldados 
e garantidos por lei.
Transparência, confiança e governança de dados
Apesar de estarem relativamente bem-informados sobre a circulação 
e reutilização de uma imensa quantidade de dados pessoais por uma 
infinidade de atores – como grandes empresas de tecnologia, farmá-
cias, laboratórios farmacêuticos, supermercados, lojas comerciais em 
geral –, pouquíssimos de nossos interlocutores se mostraram preocu-
pados com a privacidade de seus dados nas mídias sociais das quais 
participam.
Interessante notar que essa circulação de dados entre empresas 
com finalidade comercial, apesar de ser algo do conhecimento da 
maioria dos entrevistados, foi apresentada por eles mesmos como algo 
mais distante, abstrato e menos urgente do que suas preocupações em 
relação aos usos de seus dados pessoais pelo Estado.
Por outro lado, enquanto o “capitalismo de vigilância”, nos termos 
de Zuboff (2019), mostrou-se algo distante do dia a dia e mesmo algo 
abstrato, a possível vigilância dos governos e suas ações punitivas em 
relação ao cidadão (por exemplo, dificultar o acesso do indivíduo a di-
215Percepções e experiências do compartilhamento e vinculação...
reitos e programas sociais), emergiu naturalmente nas falas de muitos 
dos entrevistados.
Ressalta-se, portanto, que a confiança dos cidadãos em relação aos 
usos e reusos de seus dados pelo Estado só poderá se dar por meio da 
transparência das ações, o que exige uma governança de dados ética, 
participativa e socialmente responsável. A confiabilidade acerca do tra-
tamento dos dados administrativos pelos órgãos do Estado está direta-
mente relacionada à transparência do processo e empoderamento dos 
cidadãos para o estabelecimento de relações mais simétricas.
Quanto mais a população for informada sobre os termos, condi-
ções e finalidades de usos e reusos de seus dados pelos setores públicos, 
maior segurança terão em relação à manipulação de suas informações 
como um bem público indispensável ao bom andamento da sociedade 
e da promoção de políticas públicas em benefício dos indivíduos, titu-
lares dos dados, e da sociedade. 
Inclusive, alguns pesquisadores defendem que a literacia, o escla-
recimento e provimento de informações podem vir a substituir a ne-
cessidade de solicitação de termo de consentimentoin Chile? A Spatial 
Analysis of Census Data Using an Index of Multiple Deprivation from 
the Last Three Decades (1992-2012). PloS One, San Francisco, v. 11, 
n. 1, p. 1-19, 2016. Disponível em: https://journals.plos.org/plosone/
article?id=10.1371/journal.pone.0146047. Acesso em: 21 nov. 2024.
https://www.undp.org/home
https://www.undp.org/home
https://www.undp.org/home
http://atlasbrasil.org.br/2013/en/o_atlas/metodologia/construcao-dasunidades-de-desenvolvimento-humano/
http://atlasbrasil.org.br/2013/en/o_atlas/metodologia/construcao-dasunidades-de-desenvolvimento-humano/
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29
2
Inequidades na mortalidade por causas sensíveis 
à pobreza em crianças menores de cinco anos no 
Brasil: aplicações do Índice Brasileiro de Privação (IBP) 
em análises no nível de Setores Censitários (SC)
Elzo Pereira Pinto Junior
Poliana Rebouças
Andrêa J. F. Ferreira
Camila Silveira Silva Teixeira
Aline dos Santos Rocha
Flávia Jôse Oliveira Alves
Alastair H. Leyland
Ruth Dundas
Mauricio L. Barreto
Maria Yury T. Ichihara
introdução
As taxas de mortalidade em crianças menores de cinco anos e nos seus 
subgrupos (neonatal, pós-neonatal, infantil e 1-4 anos) se correlacio-
nam com uma série de determinantes, tais quais: acesso à alimenta-
ção adequada, infraestrutura sanitária, de habitação e acesso à água 
potável, acesso a serviços de saúde de qualidade, além de componen-
tes relacionados à educação e renda (Global Burden of Disease Study, 
2021). Globalmente, a maioria desses óbitos é devida às complicações 
relacionadas à prematuridade (17,7%), infecções respiratórias (13,9%), 
eventos relacionados ao parto (11,6%) e diarreia (9,1%), o que aponta o 
caráter evitável de muitos desses eventos (Perin et al., 2022).
30 Capítulo 2
A mortalidade em crianças menores de cinco anos apresentou 
uma tendência global de redução nas últimas décadas. A taxa de morta-
lidade nessa faixa etária caiu 59% de 1990 até 2021, variando de 93 para 
38 óbitos por 1.000 nascidos vivos. Apesar dessa redução significativa, 
estimou-se que 5 milhões de crianças morreram em 2021. Além disso, 
persistem profundas desigualdades na ocorrência desse desfecho entre 
diferentes regiões do mundo. Também em 2021, nos países da África 
subsaariana, a taxa de mortalidade em menores de cinco anos foi de 74 
óbitos/1.000 nascidos vivos, enquanto nos países europeus esse indica-
dor não passou de 4 óbitos/1.000 nascidos vivos (UNICEF, 2023).
No Brasil, também foi notável a redução da mortalidade em crian-
ças. De 1990 a 2015, houve uma queda substancial da Taxa de Morta-
lidade Infantil (TMI), que reduziu, em média, 4,9% ao ano, variando 
de 47,1 para 13,4 óbitos/1.000 nascidos vivos. Desigualdades regionais 
também marcam a distribuição desse indicador no país. Em 2015, o 
Amapá apresentava a maior TMI (23,5 óbitos/1.000 nascidos vivos) e o 
Distrito Federal a menor (13,4 óbitos/1.000 nascidos vivos) (Szwarcwald 
et al., 2020).
Além das desigualdades regionais, outros fatores também se rela-
cionam a diferentes padrões de mortalidade em crianças. Estudo re-
cente, utilizando dados de mais de 19 milhões de crianças nascidas 
vivas no Brasil, demonstrou que o racismo é um importante marcador 
de inequidades. O risco de morrer antes de completar cinco anos de 
idade foi quase 98% maior em crianças filhas de mães indígenas, 39% 
maior em filhos de mães pretas e 19% maior naqueles filhos de mães 
pardas, comparados aos filhos de mães brancas. Quando foram anali-
sados os óbitos por condições mais sensíveis à pobreza, como doenças 
diarreicas e relacionadas à desnutrição, essas diferenças foram ainda 
mais alarmantes (Rebouças et al., 2022). 
Os determinantes da mortalidade em crianças menores de cinco 
anos também envolvem os indicadores socioeconômicos dos indivíduos 
e famílias e dos contextos comunitários nos quais as pessoas vivem. 
Nesse cenário, índices que avaliam a privação material, medidos ao 
nível de pequenas áreas, como Setores Censitários (SC), são importan-
tes para avaliar as inequidades na mortalidade. Evidências apontam 
que maiores níveis de privação estão associados a maior risco de mor-
talidade em menores de cinco anos, sendo tais diferenças maiores nas 
31Inequidades na mortalidade por causas sensíveis à pobreza...
causas de óbitos consideradas evitáveis, como as doenças infecciosas 
(Odd et al., 2022).
No Brasil, recente revisão de escopo identificou uma série de in-
dicadores utilizados para avaliar privação ou condições socioeconô-
micas nos mais diferentes níveis de agregação: municípios, distritos e 
bairros. No entanto, quando são consideradas medidas no nível de SC, 
os indicadores propostos foram construídos em contextos específicos, 
como municípios ou estados, não sendo observado nenhum indicador 
para medir privação material em SC para todos os mais de 5 mil muni-
cípios brasileiros (Ichihara et al., 2018).
Considerando essa lacuna, foi construído o Índice Brasileiro de Pri-
vação (IBP), que mediu a privação material no nível de SC para todos os 
municípios brasileiros, com dados do Censo Populacional do Instituto 
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), realizado em 2010. O IBP 
combina três domínios: habitação, renda e educação (Allik et al., 2020). 
Diversos estudos têm sido realizados para avaliar as inequidades em 
saúde utilizando o IBP, com temas relacionados à nutrição e alimenta-
ção infantil (Souza et al., 2023), qualidade dos registros de mortalidade 
(Diógenes et al., 2022), cobertura vacinal (Donalisio et al., 2023) e covid-19 
(Cerqueira-Silva et al., 2022; Pereira et al., 2022).
Este estudo teve como objetivo avaliar as inequidades no perfil e 
nas taxas de mortalidade por causas sensíveis à pobreza em crianças 
menores de cinco anos no Brasil, no nível dos SC, utilizando o IBP.
método
Este estudo epidemiológico utilizou os dados individuados dos regis-
tros de óbitos do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM) que 
compõem a Coorte de 100 Milhões de Brasileiros. Os registros de óbitos 
foram geocodificados a partir de uma série de métodos que permiti-
ram vincular cada óbito a um SC, a partir do endereço do local de resi-
dência presente na declaração de óbito. A partir dessa informação, os 
óbitos foram agregados no nível de SC. Nesse sentido, trata-se de um 
estudo ecológico. Além das informações sobre os óbitos, originadas do 
SIM, as informações de população residente na faixa etária de menores 
de cinco anos foram obtidas a partir dos dados do Censo 2010, do IBGE.
32 Capítulo 2
Foram incluídos os óbitos em crianças menores de cinco anos 
ocorridos em todos os municípios brasileiros, nos anos 2009, 2010 e 
2012. A exclusão do ano 2011 se justificou pela baixa proporção de 
óbitos geocodificados do SIM. Considerando os três anos do estudo, a 
taxa de geocodificação foi de 71% de todos os óbitos nessa faixa etária.
Os óbitos e a população de crianças menores de cinco anos foram 
agregados em quintis de privação, estimados a partir do IBP. Para maio-
res informações sobre a estimação do IBP e a construção dos seus quin-
tis, consultar Allik e demais autores (2020). 
Para a análise das inequidades relacionadas à mortalidade, foram 
utilizadas duas estratégias: a) análise do perfil de mortalidade em cada 
quintil de privação material, segundo o IBP, estimando-se a mortali-
dade proporcional, segundo principais capítulos da Classificação Inter-
nacional de Doenças – 10ª revisão (CID-10); e b) estimativa das taxas 
de mortalidade por causas sensíveis à pobreza (doenças infecciosas, 
doenças endócrinas e nutricionais, doenças respiratórias) e estimativa 
de percentual de óbitos atribuídos às desigualdades, segundo os quin-
tis de privação do IBP.
O cálculo da mortalidade proporcional considerou a razão entre 
os óbitos por grupo de causa e o total de óbitos em crianças meno-
res de cinco anos, em cada quintil de privação. A estimativa das taxas 
de mortalidade consideroua média de óbitos por causas sensíveis à 
pobreza no triênio e a população residente (de acordo com dados do 
Censo 2010) nos SC que compunham cada quintil de privação. Já a 
estimativa da mortalidade atribuída às inequidades relacionadas à pri-
vação material estimou a quantidade de óbitos esperados se as taxas de 
mortalidade fossem iguais ao quintil de menor privação material, e a 
partir daí, estimou-se o excesso de óbitos e a proporção de óbitos atri-
buídos às inequidades nos quintis 2, 3, 4 e 5 e para a população total.
As análises foram realizadas no software Stata, versão 14. 
Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Ins-
tituto Gonçalo Moniz, da Fundação Oswaldo Cruz (IGM/Fiocruz Bahia), 
sob o número de protocolo do projeto n° 1.612.302.
33Inequidades na mortalidade por causas sensíveis à pobreza...
resultados
Em 2009, 2010 e 2012, foram notificados e geocodificados 2.056 óbitos 
por doenças infecciosas em crianças menores de cinco anos no Brasil. 
A taxa de mortalidade no triênio foi de 14,93/100.000 crianças no Brasil, 
variando de 9,82 até 19,20/100.000 crianças no primeiro e quinto quin-
til de privação, respectivamente. Estima-se que 34,4% desses óbitos 
foram atribuídos às desigualdades na privação material (Tabela 1). 
As doenças endócrinas e nutricionais foram responsáveis por 549 
óbitos nessa faixa etária, o que representa uma taxa de mortalidade de 
3,99/100.000 crianças. Essa taxa variou de 2,14 a 6,26 óbitos/100.000 
crianças, comparando-se os quintis de menor e maior privação mate-
rial, sendo estimado que 46,3% dessas mortes podem ser atribuídas às 
desigualdades nos níveis de privação (Tabela 2).
Já as doenças respiratórias, mais comuns nessa faixa etária, foram 
a causa básica de óbito de 2.479 crianças, que corresponde a uma taxa 
de mortalidade de 18,01 óbitos/100.000 crianças. No quintil de menor 
privação material, esse indicador foi de 12,99, enquanto no de maior 
privação foi de 19,16 óbitos/100.000 crianças. Comparando-se os dife-
rentes níveis de privação, foi possível estimar que 27,9% dos óbitos 
em menores de cinco anos por essas causas podem ser atribuídos às 
desigualdades no IBP (Tabela 3).
A análise da mortalidade proporcional evidenciou que, no triênio 
analisado, as afecções perinatais e as malformações congênitas foram 
a causa mais frequentes em todos os quintis de privação. No entanto, 
à medida que o nível de privação material aumenta, aumentam os per-
centuais de óbitos relacionados às Doenças Infecciosas e Parasitárias 
(DIP), doenças respiratórias e doenças nutricionais (Tabela 1).
 
34 Capítulo 2
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37Inequidades na mortalidade por causas sensíveis à pobreza...
discussão
A análise da mortalidade em crianças menores de cinco anos no Brasil 
evidenciou que maiores taxas de mortalidade por doenças sensíveis 
à pobreza e maior proporção de óbitos por essas causas foram obser-
vadas em áreas de maior privação material. Além disso, foi possível 
estimar a magnitude dessas desigualdades, sendo demonstrado o per-
centual elevado de óbitos atribuídos às diferenças no nível de privação 
das áreas em que residem essas crianças e suas famílias. Ressalta-se 
ainda que esse é um dos primeiros estudos capazes de estimar a morta-
lidade e medir as desigualdades desse indicador no nível de SC.
Crianças cujos pais/cuidadores vivem em situação de vulnerabili-
dade socioeconômica podem apresentar piores condições de saúde do 
que as que vivem em melhores condições (Pearce et al., 2019). Os meca-
nismos pelos quais as condições de vida afetam a saúde das crianças são 
complexos e impulsionados pela distribuição desigual e injusta de re-
cursos, que influenciam as circunstâncias em que as crianças crescerão. 
O aumento dos percentuais de óbitos por DIP, doenças respirató-
rias e doenças nutricionais, de acordo com o aumento do nível de pri-
vação material observado neste estudo, pode ser explicado em grande 
medida pela precarização das suas condições de vida (Souza; Dal, 2010). 
Crianças menores de um ano, que vivem nas regiões brasileiras mais 
pobres, sofrem mais mortes por diarreia, pois essas regiões têm piores 
condições sociais e de saneamento (Coimbra et al., 2013). Tais condi-
ções são determinantes sociais modificáveis, tornando essas causas de 
óbito potencialmente evitáveis, se a atenção e o cuidado à saúde forem 
fornecidos em tempo hábil.
Nosso estudo tem algumas limitações. A primeira se refere aosub-
-registro de óbitos e à qualidade do preenchimento das Declarações 
de Óbito (DO). Apesar do contínuo aumento da qualidade geral das in-
formações disponibilizadas pelo SIM ao longo dos anos, com destaque 
para as dimensões de cobertura, completitude e estudos de causas mal 
definidas e garbage codes (Brasil, 2018, 2021; França et al., 2019), dispari-
dades ainda persistem, em particular para as Regiões Norte e Nordeste, 
que continuam com piores resultados, sendo estas as regiões com maio-
res níveis de privação (Brasil, 2021; Diógenes et al., 2022; França et al., 
2019; Teixeira et al., 2019). Outra limitação se refere à geocodificação 
de desfechos, que também depende da qualidade de preenchimento do 
38 Capítulo 2
endereço do local de residência presente na DO. Não tivemos 100% de 
geocodificação dos óbitos nos anos estudados, mas alcançamos 71%, o 
que aproxima o alcance de nossos métodos com o de estudos anterio-
res (Davis Junior; Alencar, 2011a, 2011b; Silveira et al., 2012).
Este estudo possibilitou avaliações da privação material intramu-
nicipal, medidas de iniquidades mais precisas proporcionadas pela 
análise de pequenas áreas, fornecendo potencialidades futuras para 
monitoramento de indicadores de saúde nessas áreas, considerando as 
variações da privação quando se utiliza indicadores municipais. Ainda 
existem alguns desafios a serem superados, sendo um deles a melhoria 
da qualidade das informações utilizadas, em particular no que tange 
ao registro de óbitos e dos endereços para a geocodificação, e com isso, 
melhorar a estimativa dos desfechos. Será possível também investigar 
a ocorrência de desfechos raros, com o aumento da precisão dos méto-
dos fornecidos por estudos em pequenas áreas.
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43
3
Bases de mortalidade e privação material nos 
municípios brasileiros
Victor Hugo Dias Diógenes
Elzo Pereira Pinto Júnior
Marcos Roberto Gonzaga
Maria Yury T. Ichihara
Bernardo Lanza Queiroz
Everton Emanuel Campos de Lima
Lilia Carolina Carneiro da Costa
Aline dos Santos Rocha
Andrêa J. F. Ferreira
Camila Silveira Silva Teixeira
Flávia José Oliveira Alves
Leila Milfont Rameh
Renzo Flores-Ortiz
Alastair H. Leyland
Ruth Dundas
introdução
Os indicadores de mortalidade são vitais na elaboração e monitora-
mento de políticas públicas, especialmente políticas de saúde. No 
entanto, é preciso ressaltar a importância do uso de estimativas con-
fiáveis, capazes de refletir com fidedignidade o perfil epidemiológico 
e demográfico das áreas estudadas (Abouzahr, 2015; Setel et al., 2007). 
Para tanto, é essencial um sistema de informação de mortalidade de 
boa qualidade, e que registre de forma satisfatória os óbitos que efeti-
vamente aconteceram. Nesse sentido, é de grande interesse de pesqui-
44 Capítulo 3
sadores das áreas da saúde e da demografia a investigação da qualidade 
das estatísticas de óbitos. 
Um dos principais problemas na qualidade das bases de mortali-
dade no Brasil é o sub-registro do óbito (Queiroz, 2020a, 2020b), o que 
pode comprometer a estimação de estatísticas de mortalidade, cau-
sando imprecisão em seus indicadores. Embora esse problema tenha di-
minuído consideravelmente nas últimas décadas (Lima; Queiroz, 2014), 
ainda há significativas diferenças regionais quanto à cobertura da infor-
mação (Schmertmann; Gonzaga, 2018; Vasconcelos, 1998), o que pode 
ter relação com diferenças socioeconômicas (Queiroz, et al., 2017; Quei-
roz; Sawyer, 2012). Além disso, as causas do sub-registro são diversas e 
podem variar conforme a base de dados adotada (Lima et al., 2021).
No Brasil, estudos de mortalidade que contemplem dados de 
todo o território nacional, no nível municipal, podem ser elaborados 
a partir de três principais fontes de informação: o Sistema de Infor-
mação sobre Mortalidade (SIM) e o Sistema de Estatísticas do Registro 
Civil (RC), ambos constituídos de registros administrativos contínuos 
de óbitos (Lima et al., 2021); e o Censo Demográfico do Instituto Brasi-
leiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2010, que possui informações 
de óbitos para o período de referência da pesquisa censitária. 
 Historicamente, a comparação entre as bases do SIM e do RC é 
utilizada para validar e verificar o desenvolvimento e a consolidação 
de ambos os sistemas de registros administrativos (Costa, 2020; Lima 
et al., 2021; Paes, 2005). No entanto, poucos são os estudos que compa-
ram os óbitos dos registros administrativos com os dados dos óbitos 
oriundos do Censo 2010. Algumas pesquisas avaliaram a qualidade dos 
dados de mortalidade da pesquisa censitária (Queiroz; Sawyer, 2012) 
ou utilizaram essa fonte para verificar diferenciais de mortalidade na 
população e as compararam com as encontradas a partir de dados do 
SIM (Ribeiro; Turra; Pinto, 2021). 
Por se tratar de métodos distintos de coleta de óbitos, sujeitos a 
diferentes tipos de erros de subnotificação, é pertinente verificar se 
eventuais discrepâncias na contagem dos óbitos entre as bases estão as-
sociadas a alguma característica socioeconômica das áreas analisadas. 
Desse modo, o objetivo deste capítulo é verificar a associação espacial 
entre a diferença do número de óbitos captados pelo SIM e pelo Censo 
e as características socioeconômicas dos municípios. 
45Bases de mortalidade e privação material nos municípios...
métodos
O presente estudo propõe primeiramente uma análise comparativa 
entre o número de óbitos totais contabilizados pelo SIM e Censo 
2010 ocorridos durante o período de referência da pesquisa censitária 
(agosto de 2009 a junho de 2010) nos municípios brasileiros, a partir 
da razão entre eles (SIM/CENSO). O Censo de 2010 coleta informações 
sobre óbitos ocorridos no domicílio nos últimos 12 meses, incluindo 
o sexo e a idade da pessoa que faleceu. Já os dados do SIM têm como 
fonte primária a Declaração de Óbito (DO). Os dados foram coletados 
nos sites públicos do Departamento de Informação e Informática do 
Sistema Único de Saúde (Datasus), no caso do SIM, e do IBGE, para o 
Censo 2010.
Posteriormente, a medida SIM/CENSO, que reflete o quanto o SIM 
captou mais ou menos óbitos do que o Censo, foi associada espacial-
mente com o Índice Brasileiro de Privação (IBP). Desenvolvido e dispo-
nibilizado pelo Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para 
Saúde, da Fundação Oswaldo Cruz (Cidacs/Fiocruz), acessível on-line1 o 
IBP representa uma medida composta de privação material, conside-
rando os seguintes aspectos: renda, escolaridade e condições de domi-
cílio (Allink et al., 2020). 
A associação espacial entre o IBP dos municípios e a razão SIM/
CENSO foi feita por meio de dois métodos geoestatísticos. O primeiro 
método descritivo consistiu na construção de mapas coropléticos bi-
variados, que utiliza uma matriz de cores para representar, numa 
escala contínua, os valores de duas variáveis no espaço geográfico, 
simultaneamente.
Já o segundo método se baseou no conceito de dependência local 
espacial bivariada, na qual o valor de uma variável em uma região está 
correlacionado no espaço com os valores de outra variável das regiões 
vizinhas. Para esse fim, utilizou-se o Índice Local de Associação Espa-
cial (LISA), de Moran Bivariado, do qual derivam os mapas de clusters 
bivariados. Por meio desses mapas é possível identificar agrupamen-
tos espaciais onde há associação estatisticamente significativa entre os 
valores de uma variável de determinado município e valores de outra 
1 Ver em: https://cidacs.bahia.fiocruz.br/ibp/.
46 Capítulo 3
variável de sua vizinhança. Para mais detalhes do método, consultar 
trabalho de Anselin e colegas (Anselin; Syabri; Smirnov, 2003). 
As informações de óbitos são coletadas ao nível municipal, de

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