Prévia do material em texto
Poder Judiciário TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 4ª REGIÃO APELAÇÃO CÍVEL Nº 5012655-71.2022.4.04.9999/SC RELATORA: JUÍZA FEDERAL GABRIELA PIETSCH SERAFIN RELATÓRIO Cuida-se de apelação contra sentença, publicada em 27-07-2022, na qual o magistrado a quo julgou improcedente o pedido de restabelecimento do benefício de auxílio-doença, com posterior conversão em aposentadoria por invalidez, condenando a parte autora ao pagamento de custas processuais e de honorários advocatícios, os quais restaram suspensos em razão do benefício da assistência judiciária gratuita. Em suas razões, a parte autora sustenta, em síntese, que permaneceu incapacitada para o trabalho em razão de ser portadora de patologias ortopédicas. Nesse sentido, destaca que a documentação médica acostada aos autos comprova a persistência do quadro incapacitante. Dessa forma, requer o restabelecimento do benefício de auxílio- doença (NB 31/623.297.305-8) a contar da cessação administrativa em 09-08- 2018, ou a concessão do benefício de auxílio-doença (NB 31/625.387.608-6), a contar da DER em 26-10-2018, bem como a conversão em aposentadoria por invalidez. Alternativamente, requer a concessão de auxílio-acidente. Apresentadas as contrarrazões, vieram os autos a esta Corte para julgamento. É o relatório. VOTO Mérito Na espécie, não se discute a condição de segurada da parte autora, restringindo-se a controvérsia à existência de incapacidade para o trabalho, desde o cancelamento administrativo (09-08-2018). A perícia médica judicial, nas ações que envolvem a pretensão de concessão de benefício por incapacidade para o trabalho, exerce importante influência na formação do convencimento do magistrado. Todavia, tal prova não se reveste de valor absoluto, sendo possível afastá-la, fundamentadamente, se uma das partes apresentar elementos probatórios consistentes que conduzam a juízo de convicção diverso da conclusão do perito judicial, ou se, apesar da conclusão final deste, a própria perícia trouxer elementos que a contradigam. No caso concreto, a parte autora possui 48, ensino fundamental incompleto e desempenha a atividade profissional de auxiliar de produção (conferente de estufa de madeira). Foram realizadas duas perícias médicas judiciais, por especialistas em medicina do trabalho, em 05-03-2020 (evento 35 e 55), e em ortopedia e traumatologia, em 04-05-2022 (evento 77). Respondendo aos quesitos formulados, o expert em medicina do trabalho manifestou-se no sentido de que a parte autora, embora seja portadora de lombalgia (CID M54.5), está apta para o exercício de atividades laborativas (evento 35-LAUDO1). Nesse passo, ao realizar exame físico, o expert ressaltou que a parte autora "apresenta sensibilidade ao leve toque da coluna lombar, dor lombar quando da rotação de ombros, dor lombar na compressão axial da cabeça, teste de distração positivo (faz o movimento completo quando é distraído), sinal de hiper reação presente (...) O autor alega quadro de lombalgia - CID M54.5. Porém, o atual exame pericial não demonstra doença, lesão ou sequela incapacitante ao trabalho. Muitos dos testes semiológicos demonstram sinais não compatíveis com doença orgância (discrepância entre o achado e o tipo de resultado que era esperado). Os dados existentes para análise não permitem afirmar a existência de incapacidade laborativa após a DCB em 09.08.2018. Obs: Os achados dos exames de imagem demonstram lesões inespecíficas em sua maioria degenerativas". Ademais, em resposta aos quesitos complementares apresentados pela parte autora, o perito ratificou suas conclusões, nos seguintes termos (evento 55-PET1): Para a complementação da prova pericial, foi realizada nova perícia a cargo de perito médico ortopedista, em 04-05-2022, o qual concluiu que a parte autora é portadora de dor lombar baixa (CID M54.5), moléstia que não lhe acarreta incapacidade laboral, nos seguintes termos (evento. 77-OUT1): "(...) Histórico/anamnese: Refere que em 2018 teve dor lombar baixa que irradiava para o seu pé esquerdo de forte intensidade, nega história de trauma na época que poderiam ter ocasionado sintomas. Consultou com Ortopedista (Dr Haroldo) e foi encaminhado a fisioterapia e cirurgia da coluna. Desde então sente dores constantes na região lombar baixa a esquerda que piora ao abaixar-se. Faz uso de Tramadol 50 mg diariamente de 12/12 horas para controle dos sintomas dolorosos. Faz uso também de amitriptilina 50 mg manhã e noite. Documentos médicos analisados: Atestados: 02/05/2018: Atesatdo M 255 - 1 dia - Dr Giuliano Brandes 04/05/2018: Atestado M 54 - 05 dias - Dr André L. de Carvalho 10/05/2018: Atestado M 54 - 07 dias - Dr Giuliano Brandes 18/05/2018: Atestado M 54.1 - 60 dias - Dr André L. de Carvalho 11/06/2018: Atesatdo M 54.1 - Dr André L. de Carvalho 17/08/2018: M 511 -Transtornos de discos lombares e de outros discos intervertebrais com radiculopatia - Dr André L. de Carvalho 11/10/2019: Atestado 90 dias (M51) - Dr Giuliano Brandes CNIS: 19/05/2018 - 09/08/2018 Auxílio doença Exames complementares: 25/09/2019: RM coluna lombar: Espondilodiscopatia difusa. Edema ligamentos interespinhosos L4-5 e L5-s1. Edema na margem inferior da articulação sacroilíaca a direita. 09/05/2018: Radiografias -Coluna lombo sacra: Eixo lombar normal. Corpos vertebrais com morfologia e estrutura normais. Redução do espaço discal L5-S1. Elementos dos arcos posteriores sem alterações - Coluna dorsal: Discreto escoliose torácica de convexidade à esquerda. Corpos vertebrais com morfologia e estrutura normais. Espaços discais preservados. Elementos dos arcos posteriores sem alterações. - Coluna cervical: Eixo cervical normal. Corpos vertebrais com morfologia e estrutura normais. Espaços discais preservados. Elementos dos arcos posteriores sem alterações. Exame físico/do estado mental: Marcha normal Ausência de deformidades aparentes e sem sinais de desvio de eixo de membros inferiores. Sensibilidade preservada em todos os dermatomos de ambos membros inferiores Força grau V para todos os planos de movimento e articulações de membros inferiores Mobilidade quadril: Direito: Rotação interna: 45 Rotação externa: 60 Flexão: 140 Extensão: 20 Esquerdo: Rotação interna: 45 Rotação externa: 60 Flexão: 140 Extensão: 20 Mobilidade joelhos: Direito: Extensão: Completa Flexão: 140 graus Esquerdo: Extensão: Completa Flexão: 140 graus Mobilidade tornozelos: Direito: Flexão dorsal: 40 graus Flexão plantar: 90 graus Esquerdo: Flexão dorsal: 40 graus Flexão plantar: 90 graus Reflexos: Patelar: Presente e simétrico bilateral Triceptal: Presente e simétrico bilateral Teste de Laseg: Negativo Teste de Silverskield: sem alterações. Diagnóstico/CID: - M54.5 - Dor lombar baixa Causa provável do diagnóstico (congênita, degenerativa, hereditária, adquirida, inerente à faixa etária, idiopática, acidentária, etc.): Degenerativa A doença, moléstia ou lesão decorre do trabalho exercido ou de acidente de trabalho? NÃO O(a) autor(a) é acometido(a) de alguma das seguintes doenças ou afecções: tuberculose ativa, hanseníase, alienação mental grave, neoplasia maligna, cegueira, paralisia irreversível e incapacitante, cardiopatia grave, doença de Parkinson, espondiloartrose anquilosante, nefropatia grave, estado avançado da doença de Paget (oesteíte deformante), S.I.D.A., contaminação por radiação ou hepatopatia grave? NÃO DID - Data provável de Início da Doença: 02/05/2018 O(a) autor(a) realiza e coopera com a efetivação do tratamento adequado ou fornecido pelo SUS para sua patologia? SIM Em caso de recebimento prévio de benefício por incapacidade, o tratamento foi mantido durante a vigência do benefício? SIM Observações sobre o tratamento: Fisioterapia e analgesia com Tramadol Conclusão: sem incapacidade atual - Justificativa: O periciado é acometido de dor lombar baixa sem sinais de lombociatalgia ou déficit neurológico dos membros inferiores que possa ocasionar incapacidade para sua atividade laboral atual parcial ou total. - Houve incapacidade pretérita em período(s) além daquele(s)em que o(a) examinado(a) já esteve em gozo de benefício previdenciário? NÃO - Caso não haja incapacidade atual, o(a) examinado(a) apresenta sequela consolidada decorrente de acidente de qualquer natureza? NÃO - Foram avaliadas outras moléstias indicadas nos autos, mas que não são incapacitantes? NÃO - Havendo laudo judicial anterior, neste ou em outro processo, pelas mesmas patologias descritas nestes autos, indique, em caso de resultado diverso, os motivos que levaram a tal conclusão, inclusive considerando eventuais tratamentos realizados no período, exames conhecidos posteriormente, fatos ensejadores de agravamento da condição, etc.: Não - Pode o perito afirmar se os sintomas relatados são incompatíveis ou desproporcionais ao quadro clínico? NÃO Nome perito judicial: DOUGLAS RIBAS SCHUMANN (CRMSC25845) Especialidade(s)/área(s) de atuação: Ortopedista Assistentes presentes: Assistente do réu: Ausente Assistente do autor: Ausente Outros quesitos do Juízo: a) Não foram identificados elementos que justifiquem incapacidade laboral. b) Sintomatologia dolorosa da coluna lombar (degenerativa) sem graves repercussões funcionais. c) 02/05/2018 d) Não foram identificados elementos que resultem em incapacidade laboral durante a avaliação pericial. e) Não possui restrições para exercer atividade laboral. f) Não se aplica g) Não se aplica h) Sim. Sem restrições. i) Não há incapacidade laboral j) Não se aplica" Como se vê, ambos os peritos do juízo concluíram que a parte autora, embora seja portadora de moléstia ortopédica na coluna lombar, está apta para o exercício de seu labor habitual. Com efeito, cumpre esclarecer que o perito judicial é o profissional de confiança do juízo, cujo compromisso é examinar a parte com imparcialidade. Por oportuno, cabe referir que, a meu juízo, embora seja certo que o juiz não fica adstrito às conclusões do perito, a prova em sentido contrário ao laudo judicial, para prevalecer, deve ser suficientemente robusta e convincente, o que, a meu sentir, não ocorreu no presente feito. Nesse passo, ressalto que a simples existência de moléstia não é suficiente para ensejar a concessão dos benefícios requeridos, os quais apresentam como requisito a incapacidade para o trabalho. Ademais, ainda que a parte autora tenha juntado aos autos prontuário, exames e atestados médicos (eventos 1-PRONT6 e ATESTMED7; 19-EXMMED2), cumpre ressaltar que os peritos judiciais analisaram tais documentos, porém estes foram considerados insuficientes para a comprovação de incapacidade pregressa e/ou atual. No ponto, verifico que o atestado médico mais recente, foi datado em 21-01-2019 (evento 1-ATESTMED7, fl. 20) e sugeriu o afastamento do autor por tempo indeterminado, até a realização do exame de ressonância magnética, o qual se deu em 25-09-2019 (evento 19-EXMMED2), ou seja, não foram juntados exames médicos contemporâneos à perícia médica realizada por ortopedista, ocorrida em 04-05-2022, que comprovassem a existência dos sintomas incapacitantes. Outrossim, cumpre esclarecer que grande parte dos documentos médicos são anteriores ao cancelamento administrativo (DCB em 09-08-2018). Ou seja, a documentação médica acostada pela parte autora foi emitida em período no qual estava sendo amparada pela Seguradora. Em outras palavras, a documentação médica acostada pela autora foi analisada por ambos os peritos, sendo esta insuficiente para comprovação da existência do estado incapacitante após a cessação do benefício. Além disso, conforme consta no extrato previdenciário acostado aos autos (evento 40-OUT3) e na consulta ao sistema CNIS, verificou-se que o demandante estabeleceu novos vínculos empregatícios após o cancelamento administrativo (09-08-2018) e o indeferimento do auxílio-doença NB 31/625.387.608-6 (DER em 26-10-2018), sem registros de afastamentos e/ou de novos requerimentos administrativos para a concessão do benefício de auxílio- doença, conforme segue abaixo colacionado: Dessa forma, entendo que a prova documental acostada pela parte autora não é suficiente para infirmar as conclusões dos experts do juízo. Por tais razões, entendo que deve ser mantida a sentença de improcedência no ponto. Do pedido de concessão de auxílio-acidente. O benefício de auxílio-acidente é devido ao filiado quando, após a consolidação das lesões decorrentes de acidente de qualquer natureza, resultarem sequelas permanentes que impliquem a redução da capacidade de exercer a sua ocupação habitual. Sua concessão está disciplinada no art. 86 da Lei nº 8.213/91, que assim dispõe: Art. 86. O auxílio-acidente será concedido, como indenização, ao segurado quando, após consolidação das lesões decorrentes de acidente de qualquer natureza, resultarem seqüelas que impliquem redução da capacidade para o trabalho que habitualmente exercia. (Redação dada pela Lei nº 9.528, de 1997) § 1º O auxílio-acidente mensal corresponderá a cinqüenta por cento do salário-de-benefício e será devido, observado o disposto no § 5º, até a véspera do início de qualquer aposentadoria ou até a data do óbito do segurado. (Redação dada pela Lei nº 9.528, de 1997) § 2º O auxílio-acidente será devido a partir do dia seguinte ao da cessação do auxílio-doença, independentemente de qualquer remuneração ou rendimento auferido pelo acidentado, vedada sua acumulação com qualquer aposentadoria. (Redação dada pela Lei nº 9.528, de 1997) § 3º O recebimento de salário ou concessão de outro benefício, exceto de aposentadoria, observado o disposto no § 5º, não prejudicará a continuidade do recebimento do auxílio-acidente. (Redação dada pela Lei nº 9.528, de 1997) São quatro os requisitos necessários à sua concessão: a) a qualidade de segurado; b) a consolidação das lesões decorrentes de acidente de qualquer natureza; c) a redução permanente da capacidade de trabalho; d) a demonstração do nexo de causalidade entre o acidente e a redução da capacidade. Contemplada pelo inciso I do art. 26 da Lei de Benefícios, esta prestação independe de carência. Inicialmente, cabe averiguar a existência de sequelas - após consolidação das lesões decorrentes de acidente de qualquer natureza - que impliquem redução da capacidade para o trabalho que habitualmente exercia a parte autora. No caso específico dos autos, cumpre ressaltar que não houve a juntada de documento que comprove a ocorrência de evento acidentário. Inexiste menção a eventual acidente no exame médico realizado junto ao INSS, em 09- 08-2018, para fins de concessão do auxílio-doença (evento 40-OUT3, fl. 14). Ademais, nas perícias médicas judiciais realizadas por experts em medicina do trabalho e ortopedia (eventos 35, 55 e 77), não houve referência à redução da capacidade laborativa da parte autora para o exercício de sua atividade habitual. Considerando, pois, que não restaram atendidos os requisitos para a concessão do benefício do art. 86 da Lei nº 8.213/91, em virtude da não comprovação do evento acidentário e tampouco da redução permanente da capacidade para o trabalho que exercia, rejeito o pedido alternativo de concessão de benefício de auxílio-acidente. Considerando que a sentença foi publicada após 18-03-2016, data definida pelo Plenário do STJ para início da vigência do NCPC (Enunciado Administrativo nº 1-STJ), bem como o Enunciado Administrativo n. 7 - STJ (Somente nos recursos interpostos contra decisão publicada a partir de 18 de março de 2016, será possível o arbitramento de honorários sucumbenciais recursais, na forma do art. 85, § 11, do novo CPC), aplica-se ao caso a sistemática de honorários advocatícios ora vigente. Desse modo, considerando a manutenção da sentença de primeiro grau e tendo em conta o disposto no § 11 do art. 85 do NCPC, bem como recentes julgados do STF e do STJ acerca da matéria (v.g.ARE971774 AgR, Relator p/ Acórdão: Min. EDSON FACHIN, PrimeiraTurma, DJe 19-10-2016; ARE 964330 AgR, Relator p/ Acórdão: Min. ROBERTO BARROSO, Primeira Turma, DJe 25-10-2016; AgIntno AREsp 829.107/RJ, Relator p/ Acórdão Ministro MARCO BUZZI, Quarta Turma, DJe 06-02-2017e AgInt nos EDcl no REsp1357561/MG, Relator Ministro MARCO AURÉLIO BELLIZZE, Terceira Turma, DJe 19-04-2017), majoro a verba honorária de R$ 900,00 (novecentos reais) para R$1.080,00 (mil e oitenta reais), restando suspensa a satisfação respectiva, por ser a parte beneficiária da AJG. Por fim, vale dizer que os honorários periciais e custas processuais também devem ficar sob encargo da parte autora, a qual ficou vencida na lide, cuja exigibilidade, porém, resta suspensa em virtude do benefício de AJG. Ante o exposto, voto por negar provimento à apelação da parte autora. Documento eletrônico assinado por GABRIELA PIETSCH SERAFIN, Juíza Federal Convocada, na forma do artigo 1º, inciso III, da Lei 11.419, de 19 de dezembro de 2006 e Resolução TRF 4ª Região nº 17, de 26 de março de 2010. A conferência da autenticidade do documento está disponível no endereço eletrônico http://www.trf4.jus.br/trf4/processos/verifica.php, mediante o preenchimento do código verificador 40004001716v24 e do código CRC d6093946. Informações adicionais da assinatura: Signatário (a): GABRIELA PIETSCH SERAFIN Data e Hora: 13/12/2023, às 16:57:49 5012655-71.2022.4.04.9999 40004001716 .V24 Conferência de autenticidade emitida em 27/06/2025 11:52:52. Identificações de pessoas físicas foram ocultadas Poder Judiciário TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 4ª REGIÃO APELAÇÃO CÍVEL Nº 5012655-71.2022.4.04.9999/SC RELATORA: JUÍZA FEDERAL GABRIELA PIETSCH SERAFIN VOTO DIVERGENTE Peço vênia a i. Relatora para divergir da solução alvitrada por Sua Excelência. No caso em apreço, embora o perito tenha constatado, no exame físico, que o autor apresenta sensibilidade ao leve toque da coluna lombar, dor lombar quando da rotação dos ombros, dor lombar na compressão axial da cabeça, e, inclusive, mencionado a existência de documentação clínica com alterações degenerativas, concluiu que o segurado não demonstra doença, lesão ou sequela incapacitante ao trabalho (evento 35, LAUDO1). Não obstante as considerações esposadas pelo expert, sabe-se que o juízo não está adstrito às conclusões do laudo médico pericial, nos termos do artigo 479 do CPC, podendo discordar, fundamentadamente, das conclusões do perito em razão dos demais elementos probatórios coligidos aos autos. Pois bem. No caso em tela, a parte autora juntou aos autos documentação clínica comprovando que, por ocasião da cessação do benefício n.º 623.297.305-8, em 09-08-2018, encontrava-se incapacitado, devido a dor lombar baixa e transtornos de discos lombares e de outros discos intervertebrais com radiculopatia, com piora sensível dos sintomas e indicação para reabilitação profissional: a) Atestado datado de 21-06-2018 referindo incapacidade por tempo indeterminado, em decorrência de piora sensível dos sintomas incapacitantes decorrentes de dor lombar baixa ( evento 1, ATESTMED7 - pág. 13) b) Atestado datado de 17-08-2018 referindo limitação de flexão de coluna, sobrecarga em coluna lombar e quadro álgico, com sugestão de reabilitação profissional para atividade diversa que não exija esforços físicos ( evento 1, ATESTMED7 - pág. 18) Ora, é evidente que, diante das comorbidades ortopédicas, dificilmente o segurado tem condições de desenvolver plenamente sua atividade sem dores ou sofrimento, pois atua como auxiliar de produção, atividade consabidamente desgastante e que demanda esforços físicos. Assim, seria uma violência contra o segurado exigir que persista desempenhando trabalhos rudes e que exigem flexões posturais incompatíveis com suas patologias que são degenerativas e progressivas. A propósito, deve ser aplicado o Enunciado 21 da I Jornada de Direito da Seguridade Social do Conselho da Justiça Federal, que dispõe que "quando demonstrada a presença de várias patologias, a circunstância de individualmente não serem consideradas incapacitantes não afasta a possibilidade de, numa visão sistêmica, conduzirem à impossibilidade, temporária ou definitiva, do desempenho de atividade laborativa". Saliente-se, por oportuno, que se revela assaz prematura a aposentadoria por invalidez postulada pela parte autora neste momento, porquanto deve ser oportunizado ao segurado e ao próprio Instituto Previdenciário o serviço de reabilitação para outra profissão, previsto nos artigos 18, III, alínea "c", 62 e 89 a 93 da Lei 8.213/91. Com efeito, a reabilitação profissional é uma das prestações compreendidas pelo RGPS a que tem direito os segurados e destina-se a promovera reinserção no mercado de trabalho daqueles que tenham ficado incapazes de voltar a exercer a sua atividade profissional. De outro lado, a submissão do segurado ao processo de reabilitação profissional é uma obrigação legal, e o seu descumprimento acarreta uma sanção administrativa - a suspensão do pagamento do benefício (art. 101 da Lei 8.213/91) - ou, quando o benefício de auxílio-doença é concedido judicialmente e é determinada a reabilitação profissional, a recusa ou o abandono configuram, também, um descumprimento de decisão judicial. Portanto, ainda que o laudo pericial realizado tenha concluído pela aptidão laboral da parte autora, a confirmação da existência da moléstia incapacitante referida na exordial (dor lombar baixa e alterações degenerativas da coluna lombar), corroborada pela documentação clínica, associada às suas condições pessoais - habilitação profissional (auxiliar de produção) e idade atual (49 anos de idade) - demonstra a efetiva incapacidade temporária para o exercício da atividade profissional, o que enseja, indubitavelmente, a concessão de auxílio por incapacidade temporária, desde 09-08-2018 (DCB), até a efetiva reabilitação profissional. Dos consectários Segundo o entendimento das Turmas previdenciárias do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, estes são os critérios aplicáveis aos consectários: Correção monetária A correção monetária incidirá a contar do vencimento de cada prestação e será calculada pelos índices oficiais e aceitos na jurisprudência, quais sejam: - INPC no que se refere ao período posterior à vigência da Lei 11.430/2006, que incluiu o art. 41-A na Lei 8.213/91, conforme deliberação do STJ no julgamento do Tema 905 (REsp mº 1.495.146 - MG, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, D DE 02-03-2018), o qual resta inalterada após a conclusão do julgamento de todos os EDs opostos ao RE 870947 pelo Plenário do STF em 03-102019 (Tema 810 da repercussão geral), pois foi rejeitada a modulação dos efeitos da decisão de mérito. Juros moratórios Os juros de mora incidirão à razão de 1% (um por cento) ao mês, a contar da citação (Súmula 204 do STJ), até 29/06/2009. A partir de 30/06/2009, incidirão segundo os índices oficiais de remuneração básica e juros aplicados à caderneta de poupança, conforme art. 5º da Lei 11.960/09, que deu nova redação ao art. 1º-F da Lei 9.494/97, cuja constitucionalidade foi reconhecida pelo STF ao julgar a 1ª tese do Tema 810 da repercussão geral (RE 870.947), julgado em 20/09/2017, com ata de julgamento publicada no DJe n. 216, de 22/09/2017. SELIC A partir de dezembro de 2021, a variação da SELIC passa a ser adotada no cálculo da atualização monetária e dos juros de mora, nos termos do art. 3º da Emenda Constitucional nº 113/2021: "Nas discussões e nas condenações que envolvam a Fazenda Pública, independentemente de sua natureza e para fins de atualização monetária, de remuneração do capital e de compensação da mora, inclusive do precatório, haverá a incidência, uma única vez, até o efetivo pagamento, do índice da taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e de Custódia (Selic), acumulado mensalmente." Honorários advocatícios Invertidos os ônus sucumbenciais, estabeleço a verba honorária em 10% (dez por cento) sobre as parcelas vencidas (Súmula 111/STJ), considerando as variáveis dos incisos I a IV do § 2º do artigo 85 do CPC. Custas Processuais O INSS é isento do pagamento de custas (art. 4º, inciso I, da Lei nº 9.289/96 e Lei Complementar Estadual nº 156/97, com a redação dada pelo art. 3º da LCE nº 729/2018). Tutela específica- implantação do benefício Considerando a eficácia mandamental dos provimentos fundados nos artigos 497 e 536 do CPC, quando dirigidos à Administração Pública, e tendo em vista que a presente decisão não está sujeita, em princípio, a recurso com efeito suspensivo, determino o cumprimento do acórdão no tocante à implantação do benefício da parte autora, especialmente diante do seu caráter alimentar e da necessidade de efetivação imediata dos direitos sociais fundamentais. TABELA PARA CUMPRIMENTO PELA CEAB CUMPRIMENTO Restabelecer Benefício NB 6232973058 DIB 09/08/2018 DIP Primeiro dia do mês da decisão que determinou a implantação/restabelecimento do benefício DCB RMI A apurar OBSERVAÇÕES Com inclusão em PRP Requisite a Secretaria da 9ª Turma, à CEAB-DJ-INSS-SR3, o cumprimento da decisão e a comprovação nos presentes autos, no prazo de 20 (vinte) dias. Dispositivo Ante o exposto, com a devida vênia da relatoria, voto por dar provimento à apelação da parte autora, bem como determinar a imediata implantação do benefício, via CEAB. Documento eletrônico assinado por PAULO AFONSO BRUM VAZ, na forma do artigo 1º, inciso III, da Lei 11.419, de 19 de dezembro de 2006 e Resolução TRF 4ª Região nº 17, de 26 de março de 2010. A conferência da autenticidade do documento está disponível no endereço eletrônico Conferência de autenticidade emitida em 27/06/2025 11:52:52. Identificações de pessoas físicas foram ocultadas http://www.trf4.jus.br/trf4/processos/verifica.php, mediante o preenchimento do código verificador 40004280514v10 e do código CRC 2251ef8b. Informações adicionais da assinatura: Signatário (a): PAULO AFONSO BRUM VAZ Data e Hora: 13/12/2023, às 18:36:7 5012655-71.2022.4.04.9999 40004280514 .V10 Poder Judiciário TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 4ª REGIÃO APELAÇÃO CÍVEL Nº 5012655-71.2022.4.04.9999/SC RELATORA: JUÍZA FEDERAL GABRIELA PIETSCH SERAFIN EMENTA PREVIDENCIÁRIO. BENEFÍCIO POR INCAPACIDADE. VINCULAÇÃO RELATIVA AO LAUDO. PROVA INDICIÁRIA. CONDIÇÕES PESSOAIS. DOENÇA ORTOPÉDICA. AUXILIAR DE PRODUÇÃO. AUXÍLIO POR INCAPACIDADE TEMPORÁRIA RESTABELECIDO. JULGAMENTO NA FORMA DO ARTIGO 942 DO CPC. 1. O juízo não está adstrito às conclusões do laudo médico pericial, nos termos do artigo 479 do CPC ( O juiz apreciará a prova pericial de acordo com o disposto no art. 371, indicando na sentença os motivos que o levaram a considerar ou a deixar de considerar as conclusões do laudo, levando em conta o método utilizado pelo perito), podendo discordar, fundamentadamente, das conclusões do perito em razão dos demais elementos probatórios coligido aos autos. 2. Segundo o Enunciado 21 da I Jornada de Direito da Seguridade Social do Conselho da Justiça Federal, quando demonstrada a presença de várias patologias, a circunstância de individualmente não serem consideradas incapacitantes não afasta a possibilidade de, numa visão sistêmica, conduzirem à impossibilidade, temporária ou definitiva, do desempenho de atividade laborativa. Conferência de autenticidade emitida em 27/06/2025 11:52:52. Identificações de pessoas físicas foram ocultadas 3.Hipótese em que o acervo probatório permite relativizar as conclusões do jusperito para restabelecer auxílio por incapacidade temporária, em decorrência de dor lombar baixa e alterações degenerativas da coluna lombar, a segurado que atua profissionalmente como auxiliar de produção. 4. Recurso provido para reformar a sentença e restabelecer o benefício até a efetiva reabilitação profissional. ACÓRDÃO Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas, a Egrégia 9ª Turma do Tribunal Regional Federal da 4ª Região decidiu, por maioria, vencidos a relatora e o Desembargador Federal RICARDO TEIXEIRA DO VALLE PEREIRA, dar provimento à apelação da parte autora, bem como determinar a imediata implantação do benefício, via CEAB, nos termos do relatório, votos e notas de julgamento que ficam fazendo parte integrante do presente julgado. Florianópolis, 21 de fevereiro de 2024. Documento eletrônico assinado por PAULO AFONSO BRUM VAZ, Relator do Acórdão, na forma do artigo 1º, inciso III, da Lei 11.419, de 19 de dezembro de 2006 e Resolução TRF 4ª Região nº 17, de 26 de março de 2010. A conferência da autenticidade do documento está disponível no endereço eletrônico http://www.trf4.jus.br/trf4/processos/verifica.php, mediante o preenchimento do código verificador 40004361229v4 e do código CRC f88da0a2. Informações adicionais da assinatura: Signatário (a): PAULO AFONSO BRUM VAZ Data e Hora: 26/2/2024, às 19:15:57 5012655-71.2022.4.04.9999 40004361229 .V4 Poder Judiciário TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 4ª REGIÃO EXTRATO DE ATA DA SESSÃO VIRTUAL DE 04/12/2023 A 12/12/2023 Conferência de autenticidade emitida em 27/06/2025 11:52:52. Identificações de pessoas físicas foram ocultadas APELAÇÃO CÍVEL Nº 5012655-71.2022.4.04.9999/SC RELATORA: JUÍZA FEDERAL GABRIELA PIETSCH SERAFIN PRESIDENTE: DESEMBARGADOR FEDERAL PAULO AFONSO BRUM VAZ PROCURADOR(A): MAURICIO PESSUTTO Certifico que este processo foi incluído na Pauta da Sessão Virtual, realizada no período de 04/12/2023, às 00:00, a 12/12/2023, às 16:00, na sequência 527, disponibilizada no DE de 23/11/2023. Certifico que a 9ª Turma, ao apreciar os autos do processo em epígrafe, proferiu a seguinte decisão: APÓS O VOTO DA JUÍZA FEDERAL GABRIELA PIETSCH SERAFIN NO SENTIDO DE NEGAR PROVIMENTO À APELAÇÃO DA PARTE AUTORA E A DIVERGÊNCIA INAUGURADA PELO DESEMBARGADOR FEDERAL PAULO AFONSO BRUM VAZ NO SENTIDO DE DAR PROVIMENTO À APELAÇÃO DA PARTE AUTORA, BEM COMO DETERMINAR A IMEDIATA IMPLANTAÇÃO DO BENEFÍCIO, VIA CEAB, NO QUE FOI ACOMPANHADO PELO DESEMBARGADOR FEDERAL SEBASTIÃO OGÊ MUNIZ, O JULGAMENTO FOI SOBRESTADO NOS TERMOS DO ART. 942 DO CPC/2015. VOTANTE: JUÍZA FEDERAL GABRIELA PIETSCH SERAFIN VOTANTE: DESEMBARGADOR FEDERAL SEBASTIÃO OGÊ MUNIZ VOTANTE: DESEMBARGADOR FEDERAL PAULO AFONSO BRUM VAZ ALEXSANDRA FERNANDES DE MACEDO Secretária MANIFESTAÇÕES DOS MAGISTRADOS VOTANTES Acompanha a Divergência - GAB. 93 (Des. Federal SEBASTIÃO OGÊ MUNIZ) - Desembargador Federal SEBASTIÃO OGÊ MUNIZ. Poder Judiciário TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 4ª REGIÃO EXTRATO DE ATA DA SESSÃO VIRTUAL DE 14/02/2024 A 21/02/2024 APELAÇÃO CÍVEL Nº 5012655-71.2022.4.04.9999/SC RELATORA: JUÍZA FEDERAL GABRIELA PIETSCH SERAFIN Conferência de autenticidade emitida em 27/06/2025 11:52:52. Identificações de pessoas físicas foram ocultadas PRESIDENTE: DESEMBARGADOR FEDERAL PAULO AFONSO BRUM VAZ PROCURADOR(A): DANIELE CARDOSO ESCOBAR Certifico que este processo foi incluído na Pauta da Sessão Virtual, realizada no período de 14/02/2024, às 00:00, a 21/02/2024, às 16:00, na sequência 561, disponibilizada no DE de 31/01/2024. Certifico que a 9ª Turma, ao apreciar os autos do processo em epígrafe, proferiu a seguinte decisão: PROSSEGUINDO NO JULGAMENTO, APÓS O VOTO DO DESEMBARGADOR FEDERAL RICARDO TEIXEIRA DO VALLE PEREIRA ACOMPANHANDO A RELATORA E O VOTO DO DESEMBARGADOR FEDERAL HERMES SIEDLER DA CONCEIÇÃO JÚNIOR ACOMPANHANDO A DIVERGÊNCIA, A 9ª TURMA DECIDIU, POR MAIORIA, VENCIDOS A RELATORA E O DESEMBARGADOR FEDERAL RICARDO TEIXEIRA DO VALLE PEREIRA, DAR PROVIMENTO À APELAÇÃO DA PARTE AUTORA, BEM COMO DETERMINAR A IMEDIATA IMPLANTAÇÃO DO BENEFÍCIO, VIA CEAB, NOS TERMOS DO VOTO DO DESEMBARGADOR FEDERAL PAULO AFONSO BRUM VAZ QUE LAVRARÁ O ACÓRDÃO. RELATOR DO ACÓRDÃO: DESEMBARGADOR FEDERAL PAULO AFONSO BRUM VAZ VOTANTE: DESEMBARGADOR FEDERAL HERMES SIEDLER DA CONCEIÇÃO JÚNIOR VOTANTE: DESEMBARGADOR FEDERAL RICARDO TEIXEIRA DO VALLE PEREIRA ALEXSANDRA FERNANDES DE MACEDO Secretária MANIFESTAÇÕES DOS MAGISTRADOS VOTANTES Acompanha o(a) Relator(a) - GAB. 61 (Des. Federal RICARDO TEIXEIRA DO VALLE PEREIRA) - Desembargador Federal RICARDO TEIXEIRA DO VALLE PEREIRA. Acompanho o(a) Relator(a) Acompanha a Divergência - GAB. 51 (Des. Federal HERMES SIEDLER DA CONCEIÇÃO JÚNIOR) - Desembargador Federal HERMES SIEDLER DA CONCEIÇÃO JÚNIOR.