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METODOLOGIA DA PESQUISA 
AULA 2 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof. Paulo Franz 
 
 
CONVERSA INICIAL 
 A confecção de um trabalho acadêmico de conclusão de curso não é uma 
tarefa fácil. Há várias etapas e, por isso, costuma ser difícil imaginar todas as 
partes de um TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) como um todo coeso e 
pronto, antes de ele ser efetivamente escrito. 
Assim, o esqueleto do projeto de pesquisa nos ajuda a pensar não só na 
estrutura geral de nosso trabalho, mas também no passo a passo para a sua 
escrita, considerando sumário, número de capítulos, autores que irão ser 
trabalhados, debates acadêmicos que serão apresentados, a ordem da linha de 
argumentação, fontes, dados, categorias e métodos escolhidos, formato de 
apresentação dos resultados e até mesmo o tempo necessário previsto para 
cada uma dessas tarefas. 
Nesta aula, falaremos sobre a confecção das seções iniciais de um projeto 
de pesquisa, ou do TCC propriamente dito. Nossa intenção aqui não é definir 
valores teóricos por trás de uma estrutura de projeto, mas apontar alguns 
caminhos possíveis para que um pesquisador consiga elaborar e apresentar de 
forma organizada e coesa as intenções de seu trabalho. 
Tais seções iniciais, que chamaremos de seções de apresentação, 
consistem em três partes: título, resumo ou abstract, e introdução. Nelas, o autor 
deve explicar, da forma mais organizada, clara e honesta possível, o conteúdo 
que o leitor irá encontrar ao longo dos outros capítulos. 
O argumento central desta aula é que, apesar de as seções iniciais serem 
constituídas pelo argumento central do trabalho, elas não podem omiti-lo. Em 
outras palavras, em um trabalho científico não há possibilidade de suspense. 
Ao contrário do que vemos em obras de ficção, como livros, filmes e 
séries, o spoiler1, em um artigo acadêmico, não só é aceito, como também 
desejável. A antecipação de métodos empregados e resultados da pesquisa 
esclarecem ao leitor o teor da pesquisa, aumentando as chances de o trabalho 
ser lido pelo seu público-alvo. 
Para garantir que as seções iniciais do trabalho antecipem o conteúdo de 
forma clara e honesta, é preciso que sejam bem estruturadas. Nesta aula, 
 
1 Termo empregado pejorativamente quando o enredo ou o final de uma história de ficção é 
revelado a alguém que ainda não os conhecia. 
 
 
3 
conheceremos alguns modelos para a escrita das seções iniciais de 
apresentação. 
TEMA 1 – TÍTULO 
 Trabalhos bem escritos costumam ser pensados minunciosamente, desde 
o título. Provavelmente, você só vai se decidir pelo título após ter mais controle 
sobre seus métodos, ou até mesmo sobre os seus resultados. Seguramente, não 
será assim para o seu leitor. A sua primeira impressão, e até mesmo o que o 
motiva a clicar, fazer o download e ler o trabalho, depende do título. E não, 
definitivamente não estamos exigindo de você uma obra de arte singular e 
inesquecível em uma ou duas linhas. O título deve apenas encaminhar o leitor 
para o tipo ou o tema do trabalho. Sublinhamos, portanto, que a clareza de um 
trabalho acadêmico começa pelo título. 
Embora todo autor, independentemente da área, tenha seu estilo de 
escrita, podemos afirmar categoricamente que na ciência não há espaço para 
suspense. Ao contrário, quanto maiores forem a clareza e a segurança sobre o 
que ele vai encontrar em um trabalho acadêmico, maiores as chances de o 
trabalho ser bem avaliado e recomendado por seus pares. 
Além disso, é notório que um bom título de trabalho acadêmico aumenta 
a probabilidade de você alcançar seu público-alvo e de ser lembrado pelos seus 
pares e colegas. Um estudo realizado no Reino Unido apontou que o estilo de 
escrita do título impacta o número de citações que o artigo recebe. Além disso, 
a pesquisa evidenciou que o tamanho do título é um elemento significativo no 
número de vezes que o trabalho é citado (Hudson, 2016). 
O primeiro passo, portanto, é se colocar no papel de um autor que procura 
um trabalho acadêmico de seu interesse. Quais termos, palavras-chaves e 
expressões devem estar presentes? O título de um trabalho acadêmico cumpre 
em geral duas funções primordiais (Lewison; Hartley, 2005): atrair autores e 
pesquisadores do seu campo de estudo e informar os leitores sobre o conteúdo 
do paper, artigo, monografia, dissertação ou tese. Por isso, é fundamental que o 
tema e o objeto de estudo já estejam claros no título. Você teria tempo de ler 
todos os estudos de ciência política e relações internacionais, para então saber 
quais estudos podem servir de bibliografia para o seu trabalho? Você teria 
paciência de ler detalhadamente um artigo, monografia, dissertação ou tese, só 
para saber se o tema de pesquisa coincide com o seu projeto? Facilite a vida de 
 
 
4 
seus pares: delimite o seu objeto a partir de palavras e expressões de uso 
reconhecido pelos pesquisadores que trabalham com o mesmo tema. Não exija 
uma análise detalhada do seu trabalho, que demande um tempo que você 
também não tem quando faz pesquisa bibliográfica. Ler os trabalhos que tratam 
exatamente do nosso tema já ocupa tempo o suficiente. 
 Nosso primeiro ponto para garantir a clareza de um título é a sua concisão. 
Evidentemente, o tamanho de um título depende de uma série de fatores, como 
área de conhecimento, tema e objeto de estudo, além de objetivos gerais e 
específicos, o que impossibilita uma delimitação objetiva e muito definida do 
tamanho ideal de um título de trabalho científico. No entanto, se o seu título 
chegou a 200 caracteres, é muito importante que você repense as informações 
que acredita serem úteis para a apresentação imediata do trabalho. Títulos de 
artigos, monografias e TCCs devem ser claros, mas não precisam conter todos 
os detalhes de recorte e análise. 
Além disso, muitas informações atrapalham a clareza, como é caso deste 
exemplo: “Quem é Ministro no Brasil? Uma análise comparada entre 
recrutamento ministerial de políticos profissionais no Brasil durante os períodos 
ditatoriais e democráticos, através de modelo de regressão logística multinomial 
a partir de informações relativas à profissão e escolaridade”. Todas as 
informações do título são importantes para o leitor interessado no objeto. Mas 
você pode detalhar tais aspectos do seu trabalho no resumo, ou em um 
parágrafo conciso dentro da Introdução. Por ora, seu título deve ser claro, 
relacionado ao que você acredita que é o principal produto: o objeto? Os 
resultados? O método utilizado? A comparação estabelecida? 
TEMA 2 – MODELOS DE TÍTULO 
Como já mencionamos, a estratégia para escrever um bom título depende 
do tipo de estudo realizado. Vamos citar, aqui, algumas maneiras de apresentar 
o seu trabalho. Você pode adotar as seguintes estratégias: 
• Descrição do objeto específico: é a maneira mais tradicional no meio 
científico. Neste modelo, o autor opta por elucidar a sua variável 
dependente, ou seja, aquilo que ele procura explicar. Em geral, os autores 
lançam mão dessa estratégia por entenderem que a sua comunidade – 
ou seja, os pesquisadores com os quais ele conversa, ou que ele lê e cita 
 
 
5 
– gira em torno do mesmo objeto. Exemplos deste tipo de título: “Processo 
decisório no Poder Executivo: uma análise da Camex no presidencialismo 
de coalizão” (Santos; Steiner, 2019); “O Programa Bolsa Família e seus 
beneficiários na opinião pública brasileira” (Mundim et al., 2019). 
• Ênfase nos resultados: voltamos a repetir que não há espaço para 
suspense no campo científico. Nesta fórmula, os autores procuram atrair 
o leitor para os dados que serão apresentados. Em geral, esses títulos 
costumam conter a variável dependente – que fator será explicado – e a 
variável independente – que fator está explicando –, explicitando o nexo 
causal entre os dois fatores. Apesar de não ser uma estratégia tradicional, 
ela tem se tornado cada vez mais comum nas revistas de ponta,com alto 
fator de impacto. Vejamos alguns exemplos: “Pesquisas eleitorais afetam 
receitas de campanha: a correlação entre expectativa de vitória e 
financiamento de campanha em disputas ao Senado” (Silva; Gonçalves, 
2019); “Oligarquia Competitiva e Profissionalização Política: O Caso dos 
Senadores Brasileiros na Primeira República (1889-1934)” (Perissinotto; 
Massimo; Costa, 2017). 
• Método utilizado: estratégia usada por autores que procuram enaltecer 
principalmente as técnicas metodológicas utilizadas no trabalho, na 
maneira como os dados são tabulados, categorizados e apresentados. É 
muito comum entre pesquisadores que frequentam eventos e grupos de 
discussão metodológicos, nos quais a forma como se chega aos 
resultados é mais importante que os resultados em si. Também é uma 
maneira válida para autores que abordam objetos já tradicionais da sua 
área de conhecimento, mas de uma forma inovadora e inédita. São 
exemplo dessa maneira de apresentação: “Fatores familiares e 
desempenho escolar: uma abordagem multidimensional” (Alves et al., 
2013); “Contribuciones contemporáneas de metodologías cualitativas 
para el análisis de políticas públicas: Process Tracing y Qualitative 
Comparative Analysis” (Aviles, 2018). 
A escolha por uma ou outra estratégia depende sobretudo da visão que o 
autor tem de suas próprias contribuições. Longe de ser uma etapa meramente 
protocolar, a escolha do título do trabalho implica consciência sobre a nossa 
própria pesquisa. 
 
 
6 
TEMA 3 – RESUMO 
3.1 O que é e para que serve? 
Sugerimos anteriormente que o título do trabalho já apresente os seus 
resultados. Adotar essa estratégia, contudo, depende dos seus objetivos no 
momento de publicação. Quando falamos de resumo, ou abstract, a sugestão 
passa a ser uma norma. Isso porque o resumo tem como função justamente 
apresentar o conteúdo do trabalho, da introdução até a conclusão, passando 
pelos métodos adotados e pelos resultados encontrados. Novamente: sem 
suspense. 
Assim, o resumo tem como função informar o leitor, de forma clara e 
estruturada, o conteúdo que ele vai encontrar ao longo do trabalho. para que ele 
decida se a leitura daquele trabalho é pertinente ou não. Nesse sentido, ele 
auxilia pesquisadores a otimizarem o seu tempo na procura por artigos que o 
interessem de fato. Se houver afinidade de temas, objetos ou método, 
seguramente o trabalho será lido de forma mais interessada. Caso o resumo 
subtraia informações relevantes, as chances de o trabalho ser encontrado por 
pesquisadores realmente interessados em seu conteúdo diminui 
significativamente. Da mesma forma, o resumo não pode conter informações que 
não aparecem no trabalho. 
3.2 Modelo IMRAD 
 Em virtude disso, a comunidade científica se preocupou em consolidar o 
uso de formatos estruturados de abstracts. Nesta seção, iremos apresentar o 
formato mais usado em periódicos e eventos científicos: o IMRAD (Wu, 2011). 
 IMRAD são as iniciais das quatro seções obrigatórias de um resumo 
científico: Introduction, Methods, Results, and Discussion. Ou seja, com o intuito 
de otimizar tempo e espaço, o resumo IMRAD procura apresentar, em poucas 
linhas, cada seção do trabalho, de forma objetiva e clara. A exceção é o capítulo 
bibliográfico, embora seu conteúdo possa ser enunciado de forma muito sintética 
na Introdução. 
 Escrever um resumo é um exercício de engenharia literária. Afinal de 
contas, o desafio é condensar as informações mais relevantes de um trabalho 
acadêmico em um número limitado de palavras. É comum que, ao longo da sua 
 
 
7 
formulação, os autores procurem constantemente por sinônimos, realoquem 
frases, excluam orações inteiras, substituam termos a todo momento etc. A 
extensão de um resumo pode variar conforme a área de conhecimento sobre o 
qual a pesquisa se debruça, ou conforme as normas exigidas por revistas, 
eventos e instituições acadêmicas. Contudo, a maioria dessas instituições 
costuma cobrar resumos que tenham entre duzentas e trezentas palavras. Já o 
tamanho de cada seção do resumo varia de acordo com o interesse do autor. 
A parte introduction de um resumo simples consiste na apresentação 
geral do tema. Nela, o autor apresenta ao leitor o tema do trabalho, seu(s) 
objetivo(s), ou pergunta de pesquisa, assim como a justificativa – que pode ser 
teórica e/ou empírica – da importância do artigo, apontando as lacunas que ele 
procura preencher. As informações não precisam aparecer necessariamente 
nessa ordem. Em geral, os autores começam um resumo mencionando teses 
hegemônicas ou abordagens comuns acerca do seu objeto na literatura – 
“Movimentos Sociais têm sido analisados pela literatura através de [...]” –, ou a 
partir de observações do mundo prático pertinentes ao objeto – “A flexibilização 
do porte de armas tem mobilizado debates e narrativas dentro das redes sociais 
[...]”. Em geral, essa estratégia consegue, ao mesmo tempo, apresentar o objeto 
e justificar a realização da pesquisa. É importante que o autor, por meio de um 
conectivo e com bom uso de pontuação, indique especificamente qual o objeto 
de análise e qual o recorte temporal e espacial: “O objetivo deste trabalho é 
analisar o fenômeno x, ocorrido no lugar y, durante o período z”. 
 Após a apresentação do objeto, cabe ao autor evidenciar a maneira como 
vai analisar o objeto. É do que trata a parte methods. Aqui, costuma-se 
apresentar primeiramente a amostragem, para que o leitor tenha segurança 
quanto aos dados que serão analisados. Em seguida, há as variáveis 
explicativas, ou seja, com base em quais fatores o objeto será analisado. Além 
disso, é importante mencionar as categorias utilizadas para a análise, bem como 
as técnicas quantitativas e/ou qualitativa, as fontes de dados, a forma de coleta 
etc. A intenção é mostrar como o objeto apresentado na introduction será 
analisado, e como a pesquisa chegou aos dados apresentados na seção results. 
 Em results, os pesquisadores apresentam de forma simples e descritiva 
os principais achados do trabalho, sem um nível profundo de interpretação. Em 
geral, os autores descrevem os dados coletados. Em estudos quantitativos, por 
 
 
8 
exemplo, os autores fazem referência aos números apresentados, que servem 
de embasamento para as conclusões finais. 
 A intepretação desses resultados, bem como as conclusões gerais, é 
apresentada de forma condensada na seção discussion. Aqui, o autor extrapola 
os resultados de sua pesquisa, a partir da literatura consultada e das hipóteses 
elaboradas ao longo da pesquisa. Em linhas gerais, deve-se indicar o que os 
dados presentes nos resultados significam para a comunidade acadêmica 
estudiosa no assunto, assim como as implicações teóricas desses achados. 
TEMA 4 – ILUSTRANDO O RESUMO IMRAD 
 Usando essa estrutura de resumo, leitores, pareceristas, debatedores e 
bancas de avaliação se sentem mais seguros sobre o conteúdo do trabalho, 
aumentando as chances de uma boa avaliação acerca da pesquisa. Além disso, 
há uma série de periódicos científicos que já exigem resumo no formato IMRAD 
para a submissão de manuscritos. É o caso, por exemplo, da Revista de 
Sociologia e Política, que exige o formato e a indicação da posição de cada uma 
das seções IMRAD, para facilitar a leitura do resumo. Segue um exemplo retirado 
de um fascículo de 2019: 
Introdução: Este artigo trata do financiamento de campanhas no 
Brasil. Embora não faltem evidências de que as arrecadações de 
campanha estão associadas ao sucesso eleitoral, pouco se sabe sobre 
o quanto a intenção de voto pode afetar o montante arrecadado pelos 
candidatos. Nosso objetivo é investigar este fenômeno. Materiais e 
Métodos: A análise empírica foi realizada com dados de prestações 
de contas eleitorais dos 134 candidatos ao Senado Federal em 2014 e 
com resultados de pesquisas de intenção de voto do instituto IBOPE. 
Utilizamos como ferramentas de análise estatísticasdescritivas e 
regressão linear múltipla. Resultados: Os resultados atestam o 
impacto positivo das intenções de voto aferidas nas sondagens pré-
eleitorais e do apoio do governador sobre as arrecadações totais. Já 
ser mandatário e candidato à reeleição (incumbency) foi um fator 
ineficaz para a explicação de quase todas as receitas. Discussão: Em 
virtude da associação encontrada entre intenção de voto e 
financiamento eleitoral, alertamos para a necessidade de considerar a 
existência de endogenia na relação entre dinheiro e voto nas disputas 
majoritárias, visto que as variáveis são mutuamente afetadas. Além 
disso, sugerimos que a relação entre viabilidade do candidato e 
financiamento eleitoral reafirma a ideia de que os doadores agem de 
maneira estratégica ao definir quais candidatos devem apoiar. Nesse 
sentido, doadores optam por candidaturas viáveis que contam com 
apoios políticos relevantes e oferecem, assim, menos riscos de derrota. 
(Silva; Gonçalves, 2019) 
No exemplo, os autores (cientistas políticos formados pelo Centro 
Universitário Internacional – Uninter) apresentam seu tema de pesquisa de forma 
 
 
9 
rápida e objetiva (financiamento de campanha no Brasil), trazendo evidências da 
literatura acadêmica e lacunas existentes na área. Na parte metodológica, são 
apresentados: as fontes (contas eleitorais e IBOPE), o número de casos (134), 
os dados utilizados (contas eleitorais e intenção de voto), assim como as 
técnicas de análises (estatística descritiva e regressão linear múltipla). Em 
resultados, são descritas as correlações encontradas (“impacto positivo”), ou não 
(“fator ineficaz”), entre as variáveis analisadas. Na discussão, os autores 
mencionam limites dos seus achados – como a endogenia – e interpretações 
sociais por trás dos dados encontrados ao longo da pesquisa (doadores 
investem em candidaturas viáveis). 
Como podemos observar no exemplo, um bom resumo consiste em um 
bom spoiler, antecipando o que leitor pode encontrar ao longo do artigo, de forma 
didática e estruturada. Um abstract em formato introdução-métodos-resultados-
e-discussão facilita o trabalho de avaliação por pares, otimiza o tempo de 
trabalho e leitura dos demais pesquisadores, e contribui para que núcleos e 
acadêmicos com temas afins tenham acesso aos trabalhos uns dos outros. Com 
um bom resumo, você aumenta as chances de chegar aos “leitores certos”, isto 
é, a quem de fato sua pesquisa interessa. 
Mas uma vez aberto o seu artigo, ou trabalho de conclusão de curso, 
perguntamos: qual a melhor forma de iniciar o texto do seu trabalho? 
TEMA 5 – A INTRODUÇÃO 
5.1. Por que o trabalho tem uma introdução? 
Para além de atrair a atenção do leitor, o objetivo de uma Introdução é 
apresentar os objetivos gerais e específicos do trabalho, o problema teórico e 
empírico de seu projeto de pesquisa, assim como antecipar, de forma resumida, 
a estrutura e o encadeamento do argumento de seu trabalho. O capítulo 
introdutório oferece ao leitor um bom panorama do que irá encontrar ao longo 
das próximas páginas e capítulos. 
 Todas essas funções podem ser apresentadas de forma fluída e coerente, 
desde que o autor tenha controle sobre o seu próprio trabalho. Por isso, costuma-
se orientar os alunos para que façam a escrita da introdução depois que o 
desenho do trabalho já estiver bem definido. 
 
 
10 
A seguir, veremos como apresentar com clareza e coerência o seu objeto 
de análise, sua pergunta de pesquisa, suas expectativas e a estrutura do 
trabalho como um todo. 
5.2. Como estruturar a escrita de uma introdução? 
A exemplo do que ocorre com o restante das ciências sociais, aplicadas 
ou não, os conteúdos dos estudos de ciência política e relações internacionais 
fazem referência a fenômenos sociais. Ou seja, todos os nossos problemas de 
pesquisa são fatos empíricos, e não somente teóricos. Você conseguiria 
exemplificar o problema empírico de sua pesquisa? Como o problema teórico do 
seu trabalho acadêmico se materializa no mundo? 
Enunciar acontecimentos reais, fatos históricos, episódios e situações 
cotidianas que tenham relação com a nossa pergunta de pesquisa é uma boa 
maneira de começar a revelar o seu objeto. Para isso, você pode recorrer a 
dados estatísticos (“Em março de 2020, o Instituto Brasileiro de Geografia e 
Estatística publicou que...”), manchetes e notícias de jornal, declarações de 
personalidades (“Em um programa ao vivo na TV Bandeirantes, o 
apresentador...”), ou enunciar trechos de entrevistas ou livros de memórias de 
autoridades (“Em uma de suas memórias, Fernando Henrique Cardoso 
menciona que...”), que sirvam de ilustração prática do problema que você 
pretende analisar. 
Não tenha medo de citar uma referência fora do círculo acadêmico para 
desenvolver seu objeto de análise. Mesmo sendo uma obviedade, não custa 
lembrar: nossas pesquisas se referem a fatos. Ligar os acontecimentos ao nosso 
objeto é tão importante quanto tecer reflexões teóricas. 
 Essa estratégia não só tem o poder de atrair o leitor, ao evidenciar o nexo 
entre um trabalho acadêmico e o “mundo real”, mas também contextualiza o 
objeto de análise. Além disso, esse tipo de introdução serve de justificativa 
empírica para o projeto, em um ou dois parágrafos. 
 Após enunciar essa dimensão empírica do tema de trabalho, você deve 
apresentar a contextualização teórica de seu artigo. A ideia é mostrar como a 
sua pesquisa faz parte de uma tradição de estudos que já se preocupam, cada 
um à sua maneira, com o tema e o objeto de análise. Nesta parte, o autor já 
começa a apresentar aos leitores termos e jargões da área, além dos principais 
 
 
11 
autores (citando-os devidamente) representantes de cada corrente teórica e dos 
debates existentes sobre o tema. 
Também se espera que o autor tenha conhecimento dos últimos trabalhos 
que têm sido produzidos sobre o tema. É de bom tom, portanto, que a 
contextualização teórica do objeto analisado inclua alguma menção a trabalhos 
mais recentes, produzidos ao longo do último ano, resumindo-os em poucas 
linhas ou parágrafos. O objetivo aqui é convencer seu leitor de que trabalhamos 
com um objeto relevante também no campo acadêmico, e que você é capaz de 
apresentar um panorama completo e bem estruturado sobre tal área do 
conhecimento. Mais adiante, você terá a oportunidade de apresentar tanto esses 
debates quanto a fronteira do conhecimento em torno desse tema, de forma mais 
detalhada e minuciosa, no capítulo bibliográfico. 
 Sua pesquisa, contudo, não é apenas uma repetição ou réplica de 
análises já feitas anteriormente pelos autores citados. Seu trabalho tem um 
recorte específico, ainda não explorado, um método inovador de um objeto já 
analisado, uma perspectiva teórica ainda não abordada etc. Independentemente 
de sua inovação, a exposição teórica do objeto deve ser sucedida pelo gap 
presente na literatura. Ou seja, quais lacunas dos estudos sobre o tema você 
procura preencher; quais evidências existentes não são satisfatórias; qual tipo 
de abordagem ainda falta adotar para que o tema seja melhor compreendido; o 
que precisa ser melhor estudado etc. 
Esse parágrafo costuma ser iniciado com termos adversativos, como 
contudo, entretanto, todavia, sucedidos de problemas, ausências e limitações 
identificados pelo autor nos trabalhos citados. Ou seja, nesse trecho o autor 
costuma afirmar a originalidade de seu trabalho, defendendo que análises como 
as que serão feitas nessa pesquisa ainda são incipientes na literatura 
especializada. Não se sinta intimidado ao identificar gaps em sua área de estudo. 
É sempre uma honra para um pesquisador ou uma pesquisadora ter a sua obra 
citada e questionada, pois revela que você leu, interpretou e propôs um debate 
sobre algo daquela pesquisa. 
 Assim, entramos no que vem a ser o trecho mais importante na Introdução 
de um trabalho científico: o anúncio claro e detalhado dos objetivosespecíficos. Possivelmente, em nenhum outro parágrafo ao longo de todo o 
trabalho o leitor terá tanta segurança e clareza quanto ao tipo de estudo que está 
lendo. Em geral, acadêmicos costumam apresentar seus objetivos de forma 
 
 
12 
literal, como: “O objetivo deste trabalho é”, e na sequência um verbo no infinitivo 
indicando suas intenções científicas, como analisar, mensurar, compreender, 
replicar, detalhar, investigar etc. Esse verbo, por sua vez, será sucedido pelo seu 
objeto de análise, já indicando especificidades, recorte temporal e, se 
necessário, fontes de dados. 
 É comum, após a apresentação dos objetivos específicos de sua 
pesquisa, que os autores mencionem a hipótese geral do trabalho. Quais 
movimentos, correlações, evidências eles esperam encontrar em seus 
resultados. Apesar de muitos artigos alocarem as hipóteses específicas em 
outros locais ao longo do trabalho – no fim do capítulo bibliográfico ou do capítulo 
metodológico, ou até mesmo antes dos testes propriamente ditos na seção 
resultados –, enunciar a hipótese geral após descrever seu objetivo já na 
Introdução informa o leitor o tipo de pesquisa que ele encontrará ao longo do 
texto, com os elementos que o autor mobilizou para analisar seu objeto. 
 Por último, observa-se um crescente uso do último parágrafo do capítulo 
introdutório como uma espécie de sumário do trabalho. O objetivo é informar o 
leitor sobre a estrutura geral do trabalho, assim como o encadeamento do 
argumento do autor. Em geral, tais parágrafos são apresentados da seguinte 
forma: 
Assim, o presente trabalho está da estrutura como segue: na próxima 
seção apresentamos os debates estabelecidos entre as [teoria a] e 
[teoria b]; a seguir, detalhamos nossos bancos de dados, a maneira de 
coleta, nossas categorias, nossas [variáveis dependentes] e 
[independentes], assim com a fonte para a nossa coleta; os resultados 
são apresentados no capítulo 3, em duas subseções: [x] e [y]; a seguir, 
discutimos sobre as evidências encontradas a partir dos debates 
presentes na literatura; por último, as nossas conclusões. 
 Obviamente, trata-se de um exemplo de uma pesquisa geral sobre 
qualquer assunto, pois as estruturas de um trabalho acadêmico podem variar 
conforme a área específica em que trabalhamos. Nosso objetivo aqui é mostrar 
como o capítulo introdutório tenta fornecer todas as ferramentas possíveis para 
apresentar o trabalho ao leitor nas suas mais variadas dimensões: empírica, 
teórica, de objeto e de estrutura (Quadro 1). 
 
 
 
 
 
 
13 
Quadro 1 – Estrutura do capítulo introdutório 
 
Assim, podemos concluir que, após a realização de um trabalho 
acadêmico, a seção Introdução é seguramente uma das mais simples de 
confeccionar. Sua eficiência está na clareza, com a disposição de construir um 
bom spoiler de seu próprio trabalho, informando bem o leitor do que ele irá 
encontrar na leitura, o que aumenta as chances de receber uma boa avaliação. 
NA PRÁTICA 
 Seguir uma receita para produzir uma seção introdutória devidamente 
estruturada pode parecer um tanto mecânico para quem ainda não está 
acostumado com a escrita científica. Com o tempo, contudo, conseguimos nos 
familiarizar com o processo, passando a reproduzir essa lógica de escrita com 
mais naturalidade, à medida que lemos, escrevemos e publicamos. Nesse 
sentido, o primeiro passo para um pesquisador conseguir desenhar as seções 
iniciais de apresentação do trabalho é ler e identificar as seções estruturais nos 
títulos, resumos e introduções dos trabalhos em suas áreas. 
 Por isso, convidamos o aluno a reconhecer as quatro seções da estrutura 
IMRAD (Introdução, Métodos, Resultados e Discussão) em uma revista da área 
em ciência política e relações internacionais. É uma atividade muito simples: 
• Selecione uma revista científica de alto impacto na área de ciência política 
e relações internacionais. 
• Dela, escolha um número razoável de artigos recentes. 
• Reúna os resumos de cada um desses trabalhos em uma planilha. 
Introdução Contextualização empírica do tema
Contextualização teórica do tema
Gap teórico metodológico na área
Descrição detalhada i) dos objetivos do trabalho e
ii) do objeto de análise
Hipótese geral da pesquisa
Estrutura sumária do trabalho
 
 
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• Identifique, em cada resumo, as quatro subseções: introdução, métodos, 
resultados e discussão. 
Se preferir, disponibilizamos uma planilha com todos os artigos do volume 
24 da Revista de Sociologia e Política2. Nela, apresentamos títulos e resumos 
de todos os 28 artigos publicados naquele ano; separamos uma coluna onde 
devem ser copiados introdução, método, resultados e discussão de cada um dos 
artigos. Boa atividade! 
FINALIZANDO 
 Nesta aula, conhecemos modelos de escrita das seções de apresentação 
de um trabalho acadêmico: título, resumo e introdução. Tais seções são 
responsáveis por informar ao leitor o conteúdo do trabalho, de maneira 
organizada, clara, objetiva e honesta. 
 Nossa intenção, assim, foi sublinhar a importância de antecipar ao leitor 
os elementos centrais do argumento do trabalho: o tema de pesquisa, os 
objetivos do trabalho, o recorte do objeto, o método utilizado, os resultados 
encontrados, e por fim as conclusões gerais a partir dos dados e da literatura 
consultada. Tudo deve estar devidamente indicado já nas seções de 
apresentação do trabalho, sem qualquer mistério ou suspense. 
 Para isso, é importante que essas seções sigam uma estrutura já 
reconhecida pela comunidade (autores, leitores, revistas e eventos), que facilite 
a consulta e a leitura do trabalho pelos pares. 
 Propomos modelos de títulos que podem ser adotados, dependendo do 
foco central do trabalho: objeto de análise, método abordado ou conclusões. 
Sugerimos também um modelo de estrutura de resumo, muito utilizado pela 
comunidade científica: o IMRAD. Também indicamos uma estrutura prévia para 
a apresentação atraente do objeto, dos objetivos, das hipóteses e do conteúdo 
ao longo do trabalho no capítulo introdutório. 
 Tais estruturas apresentam dupla função: atrair leitores e informá-los 
sobre o conteúdo do texto. Preenchendo esses requisitos nas seções de 
apresentação da pesquisa, as chances de seu trabalho alcançar o público alvo 
que se interessa de fato pelo conteúdo do artigo serão muito maiores. 
 
2 Disponível em: 
. Acesso em: 23 set. 2020. 
 
 
15 
REFERÊNCIAS 
ALVES, M. T. G. et al. Fatores familiares e desempenho escolar: uma 
abordagem multidimensional. Dados, v. 56, n. 3, p. 571–603, set. 2013. 
AVILES, E. A. Z. Contribuciones contemporáneas de metodologías cualitativas 
para el análisis de políticas públicas: Process Tracing y Qualitative Comparative 
Analysis. Revista de Sociologia e Política, v. 26, n. 67, p. 21–37, set. 2018. 
HUDSON, J. An analysis of the titles of papers submitted to the UK REF in 2014: 
authors, disciplines, and stylistic details. Scientometrics, v. 109, n. 2, p. 871–
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