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METODOLOGIA DA PESQUISA AULA 2 Prof. Paulo Franz CONVERSA INICIAL A confecção de um trabalho acadêmico de conclusão de curso não é uma tarefa fácil. Há várias etapas e, por isso, costuma ser difícil imaginar todas as partes de um TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) como um todo coeso e pronto, antes de ele ser efetivamente escrito. Assim, o esqueleto do projeto de pesquisa nos ajuda a pensar não só na estrutura geral de nosso trabalho, mas também no passo a passo para a sua escrita, considerando sumário, número de capítulos, autores que irão ser trabalhados, debates acadêmicos que serão apresentados, a ordem da linha de argumentação, fontes, dados, categorias e métodos escolhidos, formato de apresentação dos resultados e até mesmo o tempo necessário previsto para cada uma dessas tarefas. Nesta aula, falaremos sobre a confecção das seções iniciais de um projeto de pesquisa, ou do TCC propriamente dito. Nossa intenção aqui não é definir valores teóricos por trás de uma estrutura de projeto, mas apontar alguns caminhos possíveis para que um pesquisador consiga elaborar e apresentar de forma organizada e coesa as intenções de seu trabalho. Tais seções iniciais, que chamaremos de seções de apresentação, consistem em três partes: título, resumo ou abstract, e introdução. Nelas, o autor deve explicar, da forma mais organizada, clara e honesta possível, o conteúdo que o leitor irá encontrar ao longo dos outros capítulos. O argumento central desta aula é que, apesar de as seções iniciais serem constituídas pelo argumento central do trabalho, elas não podem omiti-lo. Em outras palavras, em um trabalho científico não há possibilidade de suspense. Ao contrário do que vemos em obras de ficção, como livros, filmes e séries, o spoiler1, em um artigo acadêmico, não só é aceito, como também desejável. A antecipação de métodos empregados e resultados da pesquisa esclarecem ao leitor o teor da pesquisa, aumentando as chances de o trabalho ser lido pelo seu público-alvo. Para garantir que as seções iniciais do trabalho antecipem o conteúdo de forma clara e honesta, é preciso que sejam bem estruturadas. Nesta aula, 1 Termo empregado pejorativamente quando o enredo ou o final de uma história de ficção é revelado a alguém que ainda não os conhecia. 3 conheceremos alguns modelos para a escrita das seções iniciais de apresentação. TEMA 1 – TÍTULO Trabalhos bem escritos costumam ser pensados minunciosamente, desde o título. Provavelmente, você só vai se decidir pelo título após ter mais controle sobre seus métodos, ou até mesmo sobre os seus resultados. Seguramente, não será assim para o seu leitor. A sua primeira impressão, e até mesmo o que o motiva a clicar, fazer o download e ler o trabalho, depende do título. E não, definitivamente não estamos exigindo de você uma obra de arte singular e inesquecível em uma ou duas linhas. O título deve apenas encaminhar o leitor para o tipo ou o tema do trabalho. Sublinhamos, portanto, que a clareza de um trabalho acadêmico começa pelo título. Embora todo autor, independentemente da área, tenha seu estilo de escrita, podemos afirmar categoricamente que na ciência não há espaço para suspense. Ao contrário, quanto maiores forem a clareza e a segurança sobre o que ele vai encontrar em um trabalho acadêmico, maiores as chances de o trabalho ser bem avaliado e recomendado por seus pares. Além disso, é notório que um bom título de trabalho acadêmico aumenta a probabilidade de você alcançar seu público-alvo e de ser lembrado pelos seus pares e colegas. Um estudo realizado no Reino Unido apontou que o estilo de escrita do título impacta o número de citações que o artigo recebe. Além disso, a pesquisa evidenciou que o tamanho do título é um elemento significativo no número de vezes que o trabalho é citado (Hudson, 2016). O primeiro passo, portanto, é se colocar no papel de um autor que procura um trabalho acadêmico de seu interesse. Quais termos, palavras-chaves e expressões devem estar presentes? O título de um trabalho acadêmico cumpre em geral duas funções primordiais (Lewison; Hartley, 2005): atrair autores e pesquisadores do seu campo de estudo e informar os leitores sobre o conteúdo do paper, artigo, monografia, dissertação ou tese. Por isso, é fundamental que o tema e o objeto de estudo já estejam claros no título. Você teria tempo de ler todos os estudos de ciência política e relações internacionais, para então saber quais estudos podem servir de bibliografia para o seu trabalho? Você teria paciência de ler detalhadamente um artigo, monografia, dissertação ou tese, só para saber se o tema de pesquisa coincide com o seu projeto? Facilite a vida de 4 seus pares: delimite o seu objeto a partir de palavras e expressões de uso reconhecido pelos pesquisadores que trabalham com o mesmo tema. Não exija uma análise detalhada do seu trabalho, que demande um tempo que você também não tem quando faz pesquisa bibliográfica. Ler os trabalhos que tratam exatamente do nosso tema já ocupa tempo o suficiente. Nosso primeiro ponto para garantir a clareza de um título é a sua concisão. Evidentemente, o tamanho de um título depende de uma série de fatores, como área de conhecimento, tema e objeto de estudo, além de objetivos gerais e específicos, o que impossibilita uma delimitação objetiva e muito definida do tamanho ideal de um título de trabalho científico. No entanto, se o seu título chegou a 200 caracteres, é muito importante que você repense as informações que acredita serem úteis para a apresentação imediata do trabalho. Títulos de artigos, monografias e TCCs devem ser claros, mas não precisam conter todos os detalhes de recorte e análise. Além disso, muitas informações atrapalham a clareza, como é caso deste exemplo: “Quem é Ministro no Brasil? Uma análise comparada entre recrutamento ministerial de políticos profissionais no Brasil durante os períodos ditatoriais e democráticos, através de modelo de regressão logística multinomial a partir de informações relativas à profissão e escolaridade”. Todas as informações do título são importantes para o leitor interessado no objeto. Mas você pode detalhar tais aspectos do seu trabalho no resumo, ou em um parágrafo conciso dentro da Introdução. Por ora, seu título deve ser claro, relacionado ao que você acredita que é o principal produto: o objeto? Os resultados? O método utilizado? A comparação estabelecida? TEMA 2 – MODELOS DE TÍTULO Como já mencionamos, a estratégia para escrever um bom título depende do tipo de estudo realizado. Vamos citar, aqui, algumas maneiras de apresentar o seu trabalho. Você pode adotar as seguintes estratégias: • Descrição do objeto específico: é a maneira mais tradicional no meio científico. Neste modelo, o autor opta por elucidar a sua variável dependente, ou seja, aquilo que ele procura explicar. Em geral, os autores lançam mão dessa estratégia por entenderem que a sua comunidade – ou seja, os pesquisadores com os quais ele conversa, ou que ele lê e cita 5 – gira em torno do mesmo objeto. Exemplos deste tipo de título: “Processo decisório no Poder Executivo: uma análise da Camex no presidencialismo de coalizão” (Santos; Steiner, 2019); “O Programa Bolsa Família e seus beneficiários na opinião pública brasileira” (Mundim et al., 2019). • Ênfase nos resultados: voltamos a repetir que não há espaço para suspense no campo científico. Nesta fórmula, os autores procuram atrair o leitor para os dados que serão apresentados. Em geral, esses títulos costumam conter a variável dependente – que fator será explicado – e a variável independente – que fator está explicando –, explicitando o nexo causal entre os dois fatores. Apesar de não ser uma estratégia tradicional, ela tem se tornado cada vez mais comum nas revistas de ponta,com alto fator de impacto. Vejamos alguns exemplos: “Pesquisas eleitorais afetam receitas de campanha: a correlação entre expectativa de vitória e financiamento de campanha em disputas ao Senado” (Silva; Gonçalves, 2019); “Oligarquia Competitiva e Profissionalização Política: O Caso dos Senadores Brasileiros na Primeira República (1889-1934)” (Perissinotto; Massimo; Costa, 2017). • Método utilizado: estratégia usada por autores que procuram enaltecer principalmente as técnicas metodológicas utilizadas no trabalho, na maneira como os dados são tabulados, categorizados e apresentados. É muito comum entre pesquisadores que frequentam eventos e grupos de discussão metodológicos, nos quais a forma como se chega aos resultados é mais importante que os resultados em si. Também é uma maneira válida para autores que abordam objetos já tradicionais da sua área de conhecimento, mas de uma forma inovadora e inédita. São exemplo dessa maneira de apresentação: “Fatores familiares e desempenho escolar: uma abordagem multidimensional” (Alves et al., 2013); “Contribuciones contemporáneas de metodologías cualitativas para el análisis de políticas públicas: Process Tracing y Qualitative Comparative Analysis” (Aviles, 2018). A escolha por uma ou outra estratégia depende sobretudo da visão que o autor tem de suas próprias contribuições. Longe de ser uma etapa meramente protocolar, a escolha do título do trabalho implica consciência sobre a nossa própria pesquisa. 6 TEMA 3 – RESUMO 3.1 O que é e para que serve? Sugerimos anteriormente que o título do trabalho já apresente os seus resultados. Adotar essa estratégia, contudo, depende dos seus objetivos no momento de publicação. Quando falamos de resumo, ou abstract, a sugestão passa a ser uma norma. Isso porque o resumo tem como função justamente apresentar o conteúdo do trabalho, da introdução até a conclusão, passando pelos métodos adotados e pelos resultados encontrados. Novamente: sem suspense. Assim, o resumo tem como função informar o leitor, de forma clara e estruturada, o conteúdo que ele vai encontrar ao longo do trabalho. para que ele decida se a leitura daquele trabalho é pertinente ou não. Nesse sentido, ele auxilia pesquisadores a otimizarem o seu tempo na procura por artigos que o interessem de fato. Se houver afinidade de temas, objetos ou método, seguramente o trabalho será lido de forma mais interessada. Caso o resumo subtraia informações relevantes, as chances de o trabalho ser encontrado por pesquisadores realmente interessados em seu conteúdo diminui significativamente. Da mesma forma, o resumo não pode conter informações que não aparecem no trabalho. 3.2 Modelo IMRAD Em virtude disso, a comunidade científica se preocupou em consolidar o uso de formatos estruturados de abstracts. Nesta seção, iremos apresentar o formato mais usado em periódicos e eventos científicos: o IMRAD (Wu, 2011). IMRAD são as iniciais das quatro seções obrigatórias de um resumo científico: Introduction, Methods, Results, and Discussion. Ou seja, com o intuito de otimizar tempo e espaço, o resumo IMRAD procura apresentar, em poucas linhas, cada seção do trabalho, de forma objetiva e clara. A exceção é o capítulo bibliográfico, embora seu conteúdo possa ser enunciado de forma muito sintética na Introdução. Escrever um resumo é um exercício de engenharia literária. Afinal de contas, o desafio é condensar as informações mais relevantes de um trabalho acadêmico em um número limitado de palavras. É comum que, ao longo da sua 7 formulação, os autores procurem constantemente por sinônimos, realoquem frases, excluam orações inteiras, substituam termos a todo momento etc. A extensão de um resumo pode variar conforme a área de conhecimento sobre o qual a pesquisa se debruça, ou conforme as normas exigidas por revistas, eventos e instituições acadêmicas. Contudo, a maioria dessas instituições costuma cobrar resumos que tenham entre duzentas e trezentas palavras. Já o tamanho de cada seção do resumo varia de acordo com o interesse do autor. A parte introduction de um resumo simples consiste na apresentação geral do tema. Nela, o autor apresenta ao leitor o tema do trabalho, seu(s) objetivo(s), ou pergunta de pesquisa, assim como a justificativa – que pode ser teórica e/ou empírica – da importância do artigo, apontando as lacunas que ele procura preencher. As informações não precisam aparecer necessariamente nessa ordem. Em geral, os autores começam um resumo mencionando teses hegemônicas ou abordagens comuns acerca do seu objeto na literatura – “Movimentos Sociais têm sido analisados pela literatura através de [...]” –, ou a partir de observações do mundo prático pertinentes ao objeto – “A flexibilização do porte de armas tem mobilizado debates e narrativas dentro das redes sociais [...]”. Em geral, essa estratégia consegue, ao mesmo tempo, apresentar o objeto e justificar a realização da pesquisa. É importante que o autor, por meio de um conectivo e com bom uso de pontuação, indique especificamente qual o objeto de análise e qual o recorte temporal e espacial: “O objetivo deste trabalho é analisar o fenômeno x, ocorrido no lugar y, durante o período z”. Após a apresentação do objeto, cabe ao autor evidenciar a maneira como vai analisar o objeto. É do que trata a parte methods. Aqui, costuma-se apresentar primeiramente a amostragem, para que o leitor tenha segurança quanto aos dados que serão analisados. Em seguida, há as variáveis explicativas, ou seja, com base em quais fatores o objeto será analisado. Além disso, é importante mencionar as categorias utilizadas para a análise, bem como as técnicas quantitativas e/ou qualitativa, as fontes de dados, a forma de coleta etc. A intenção é mostrar como o objeto apresentado na introduction será analisado, e como a pesquisa chegou aos dados apresentados na seção results. Em results, os pesquisadores apresentam de forma simples e descritiva os principais achados do trabalho, sem um nível profundo de interpretação. Em geral, os autores descrevem os dados coletados. Em estudos quantitativos, por 8 exemplo, os autores fazem referência aos números apresentados, que servem de embasamento para as conclusões finais. A intepretação desses resultados, bem como as conclusões gerais, é apresentada de forma condensada na seção discussion. Aqui, o autor extrapola os resultados de sua pesquisa, a partir da literatura consultada e das hipóteses elaboradas ao longo da pesquisa. Em linhas gerais, deve-se indicar o que os dados presentes nos resultados significam para a comunidade acadêmica estudiosa no assunto, assim como as implicações teóricas desses achados. TEMA 4 – ILUSTRANDO O RESUMO IMRAD Usando essa estrutura de resumo, leitores, pareceristas, debatedores e bancas de avaliação se sentem mais seguros sobre o conteúdo do trabalho, aumentando as chances de uma boa avaliação acerca da pesquisa. Além disso, há uma série de periódicos científicos que já exigem resumo no formato IMRAD para a submissão de manuscritos. É o caso, por exemplo, da Revista de Sociologia e Política, que exige o formato e a indicação da posição de cada uma das seções IMRAD, para facilitar a leitura do resumo. Segue um exemplo retirado de um fascículo de 2019: Introdução: Este artigo trata do financiamento de campanhas no Brasil. Embora não faltem evidências de que as arrecadações de campanha estão associadas ao sucesso eleitoral, pouco se sabe sobre o quanto a intenção de voto pode afetar o montante arrecadado pelos candidatos. Nosso objetivo é investigar este fenômeno. Materiais e Métodos: A análise empírica foi realizada com dados de prestações de contas eleitorais dos 134 candidatos ao Senado Federal em 2014 e com resultados de pesquisas de intenção de voto do instituto IBOPE. Utilizamos como ferramentas de análise estatísticasdescritivas e regressão linear múltipla. Resultados: Os resultados atestam o impacto positivo das intenções de voto aferidas nas sondagens pré- eleitorais e do apoio do governador sobre as arrecadações totais. Já ser mandatário e candidato à reeleição (incumbency) foi um fator ineficaz para a explicação de quase todas as receitas. Discussão: Em virtude da associação encontrada entre intenção de voto e financiamento eleitoral, alertamos para a necessidade de considerar a existência de endogenia na relação entre dinheiro e voto nas disputas majoritárias, visto que as variáveis são mutuamente afetadas. Além disso, sugerimos que a relação entre viabilidade do candidato e financiamento eleitoral reafirma a ideia de que os doadores agem de maneira estratégica ao definir quais candidatos devem apoiar. Nesse sentido, doadores optam por candidaturas viáveis que contam com apoios políticos relevantes e oferecem, assim, menos riscos de derrota. (Silva; Gonçalves, 2019) No exemplo, os autores (cientistas políticos formados pelo Centro Universitário Internacional – Uninter) apresentam seu tema de pesquisa de forma 9 rápida e objetiva (financiamento de campanha no Brasil), trazendo evidências da literatura acadêmica e lacunas existentes na área. Na parte metodológica, são apresentados: as fontes (contas eleitorais e IBOPE), o número de casos (134), os dados utilizados (contas eleitorais e intenção de voto), assim como as técnicas de análises (estatística descritiva e regressão linear múltipla). Em resultados, são descritas as correlações encontradas (“impacto positivo”), ou não (“fator ineficaz”), entre as variáveis analisadas. Na discussão, os autores mencionam limites dos seus achados – como a endogenia – e interpretações sociais por trás dos dados encontrados ao longo da pesquisa (doadores investem em candidaturas viáveis). Como podemos observar no exemplo, um bom resumo consiste em um bom spoiler, antecipando o que leitor pode encontrar ao longo do artigo, de forma didática e estruturada. Um abstract em formato introdução-métodos-resultados- e-discussão facilita o trabalho de avaliação por pares, otimiza o tempo de trabalho e leitura dos demais pesquisadores, e contribui para que núcleos e acadêmicos com temas afins tenham acesso aos trabalhos uns dos outros. Com um bom resumo, você aumenta as chances de chegar aos “leitores certos”, isto é, a quem de fato sua pesquisa interessa. Mas uma vez aberto o seu artigo, ou trabalho de conclusão de curso, perguntamos: qual a melhor forma de iniciar o texto do seu trabalho? TEMA 5 – A INTRODUÇÃO 5.1. Por que o trabalho tem uma introdução? Para além de atrair a atenção do leitor, o objetivo de uma Introdução é apresentar os objetivos gerais e específicos do trabalho, o problema teórico e empírico de seu projeto de pesquisa, assim como antecipar, de forma resumida, a estrutura e o encadeamento do argumento de seu trabalho. O capítulo introdutório oferece ao leitor um bom panorama do que irá encontrar ao longo das próximas páginas e capítulos. Todas essas funções podem ser apresentadas de forma fluída e coerente, desde que o autor tenha controle sobre o seu próprio trabalho. Por isso, costuma- se orientar os alunos para que façam a escrita da introdução depois que o desenho do trabalho já estiver bem definido. 10 A seguir, veremos como apresentar com clareza e coerência o seu objeto de análise, sua pergunta de pesquisa, suas expectativas e a estrutura do trabalho como um todo. 5.2. Como estruturar a escrita de uma introdução? A exemplo do que ocorre com o restante das ciências sociais, aplicadas ou não, os conteúdos dos estudos de ciência política e relações internacionais fazem referência a fenômenos sociais. Ou seja, todos os nossos problemas de pesquisa são fatos empíricos, e não somente teóricos. Você conseguiria exemplificar o problema empírico de sua pesquisa? Como o problema teórico do seu trabalho acadêmico se materializa no mundo? Enunciar acontecimentos reais, fatos históricos, episódios e situações cotidianas que tenham relação com a nossa pergunta de pesquisa é uma boa maneira de começar a revelar o seu objeto. Para isso, você pode recorrer a dados estatísticos (“Em março de 2020, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística publicou que...”), manchetes e notícias de jornal, declarações de personalidades (“Em um programa ao vivo na TV Bandeirantes, o apresentador...”), ou enunciar trechos de entrevistas ou livros de memórias de autoridades (“Em uma de suas memórias, Fernando Henrique Cardoso menciona que...”), que sirvam de ilustração prática do problema que você pretende analisar. Não tenha medo de citar uma referência fora do círculo acadêmico para desenvolver seu objeto de análise. Mesmo sendo uma obviedade, não custa lembrar: nossas pesquisas se referem a fatos. Ligar os acontecimentos ao nosso objeto é tão importante quanto tecer reflexões teóricas. Essa estratégia não só tem o poder de atrair o leitor, ao evidenciar o nexo entre um trabalho acadêmico e o “mundo real”, mas também contextualiza o objeto de análise. Além disso, esse tipo de introdução serve de justificativa empírica para o projeto, em um ou dois parágrafos. Após enunciar essa dimensão empírica do tema de trabalho, você deve apresentar a contextualização teórica de seu artigo. A ideia é mostrar como a sua pesquisa faz parte de uma tradição de estudos que já se preocupam, cada um à sua maneira, com o tema e o objeto de análise. Nesta parte, o autor já começa a apresentar aos leitores termos e jargões da área, além dos principais 11 autores (citando-os devidamente) representantes de cada corrente teórica e dos debates existentes sobre o tema. Também se espera que o autor tenha conhecimento dos últimos trabalhos que têm sido produzidos sobre o tema. É de bom tom, portanto, que a contextualização teórica do objeto analisado inclua alguma menção a trabalhos mais recentes, produzidos ao longo do último ano, resumindo-os em poucas linhas ou parágrafos. O objetivo aqui é convencer seu leitor de que trabalhamos com um objeto relevante também no campo acadêmico, e que você é capaz de apresentar um panorama completo e bem estruturado sobre tal área do conhecimento. Mais adiante, você terá a oportunidade de apresentar tanto esses debates quanto a fronteira do conhecimento em torno desse tema, de forma mais detalhada e minuciosa, no capítulo bibliográfico. Sua pesquisa, contudo, não é apenas uma repetição ou réplica de análises já feitas anteriormente pelos autores citados. Seu trabalho tem um recorte específico, ainda não explorado, um método inovador de um objeto já analisado, uma perspectiva teórica ainda não abordada etc. Independentemente de sua inovação, a exposição teórica do objeto deve ser sucedida pelo gap presente na literatura. Ou seja, quais lacunas dos estudos sobre o tema você procura preencher; quais evidências existentes não são satisfatórias; qual tipo de abordagem ainda falta adotar para que o tema seja melhor compreendido; o que precisa ser melhor estudado etc. Esse parágrafo costuma ser iniciado com termos adversativos, como contudo, entretanto, todavia, sucedidos de problemas, ausências e limitações identificados pelo autor nos trabalhos citados. Ou seja, nesse trecho o autor costuma afirmar a originalidade de seu trabalho, defendendo que análises como as que serão feitas nessa pesquisa ainda são incipientes na literatura especializada. Não se sinta intimidado ao identificar gaps em sua área de estudo. É sempre uma honra para um pesquisador ou uma pesquisadora ter a sua obra citada e questionada, pois revela que você leu, interpretou e propôs um debate sobre algo daquela pesquisa. Assim, entramos no que vem a ser o trecho mais importante na Introdução de um trabalho científico: o anúncio claro e detalhado dos objetivosespecíficos. Possivelmente, em nenhum outro parágrafo ao longo de todo o trabalho o leitor terá tanta segurança e clareza quanto ao tipo de estudo que está lendo. Em geral, acadêmicos costumam apresentar seus objetivos de forma 12 literal, como: “O objetivo deste trabalho é”, e na sequência um verbo no infinitivo indicando suas intenções científicas, como analisar, mensurar, compreender, replicar, detalhar, investigar etc. Esse verbo, por sua vez, será sucedido pelo seu objeto de análise, já indicando especificidades, recorte temporal e, se necessário, fontes de dados. É comum, após a apresentação dos objetivos específicos de sua pesquisa, que os autores mencionem a hipótese geral do trabalho. Quais movimentos, correlações, evidências eles esperam encontrar em seus resultados. Apesar de muitos artigos alocarem as hipóteses específicas em outros locais ao longo do trabalho – no fim do capítulo bibliográfico ou do capítulo metodológico, ou até mesmo antes dos testes propriamente ditos na seção resultados –, enunciar a hipótese geral após descrever seu objetivo já na Introdução informa o leitor o tipo de pesquisa que ele encontrará ao longo do texto, com os elementos que o autor mobilizou para analisar seu objeto. Por último, observa-se um crescente uso do último parágrafo do capítulo introdutório como uma espécie de sumário do trabalho. O objetivo é informar o leitor sobre a estrutura geral do trabalho, assim como o encadeamento do argumento do autor. Em geral, tais parágrafos são apresentados da seguinte forma: Assim, o presente trabalho está da estrutura como segue: na próxima seção apresentamos os debates estabelecidos entre as [teoria a] e [teoria b]; a seguir, detalhamos nossos bancos de dados, a maneira de coleta, nossas categorias, nossas [variáveis dependentes] e [independentes], assim com a fonte para a nossa coleta; os resultados são apresentados no capítulo 3, em duas subseções: [x] e [y]; a seguir, discutimos sobre as evidências encontradas a partir dos debates presentes na literatura; por último, as nossas conclusões. Obviamente, trata-se de um exemplo de uma pesquisa geral sobre qualquer assunto, pois as estruturas de um trabalho acadêmico podem variar conforme a área específica em que trabalhamos. Nosso objetivo aqui é mostrar como o capítulo introdutório tenta fornecer todas as ferramentas possíveis para apresentar o trabalho ao leitor nas suas mais variadas dimensões: empírica, teórica, de objeto e de estrutura (Quadro 1). 13 Quadro 1 – Estrutura do capítulo introdutório Assim, podemos concluir que, após a realização de um trabalho acadêmico, a seção Introdução é seguramente uma das mais simples de confeccionar. Sua eficiência está na clareza, com a disposição de construir um bom spoiler de seu próprio trabalho, informando bem o leitor do que ele irá encontrar na leitura, o que aumenta as chances de receber uma boa avaliação. NA PRÁTICA Seguir uma receita para produzir uma seção introdutória devidamente estruturada pode parecer um tanto mecânico para quem ainda não está acostumado com a escrita científica. Com o tempo, contudo, conseguimos nos familiarizar com o processo, passando a reproduzir essa lógica de escrita com mais naturalidade, à medida que lemos, escrevemos e publicamos. Nesse sentido, o primeiro passo para um pesquisador conseguir desenhar as seções iniciais de apresentação do trabalho é ler e identificar as seções estruturais nos títulos, resumos e introduções dos trabalhos em suas áreas. Por isso, convidamos o aluno a reconhecer as quatro seções da estrutura IMRAD (Introdução, Métodos, Resultados e Discussão) em uma revista da área em ciência política e relações internacionais. É uma atividade muito simples: • Selecione uma revista científica de alto impacto na área de ciência política e relações internacionais. • Dela, escolha um número razoável de artigos recentes. • Reúna os resumos de cada um desses trabalhos em uma planilha. Introdução Contextualização empírica do tema Contextualização teórica do tema Gap teórico metodológico na área Descrição detalhada i) dos objetivos do trabalho e ii) do objeto de análise Hipótese geral da pesquisa Estrutura sumária do trabalho 14 • Identifique, em cada resumo, as quatro subseções: introdução, métodos, resultados e discussão. Se preferir, disponibilizamos uma planilha com todos os artigos do volume 24 da Revista de Sociologia e Política2. Nela, apresentamos títulos e resumos de todos os 28 artigos publicados naquele ano; separamos uma coluna onde devem ser copiados introdução, método, resultados e discussão de cada um dos artigos. Boa atividade! FINALIZANDO Nesta aula, conhecemos modelos de escrita das seções de apresentação de um trabalho acadêmico: título, resumo e introdução. Tais seções são responsáveis por informar ao leitor o conteúdo do trabalho, de maneira organizada, clara, objetiva e honesta. Nossa intenção, assim, foi sublinhar a importância de antecipar ao leitor os elementos centrais do argumento do trabalho: o tema de pesquisa, os objetivos do trabalho, o recorte do objeto, o método utilizado, os resultados encontrados, e por fim as conclusões gerais a partir dos dados e da literatura consultada. Tudo deve estar devidamente indicado já nas seções de apresentação do trabalho, sem qualquer mistério ou suspense. Para isso, é importante que essas seções sigam uma estrutura já reconhecida pela comunidade (autores, leitores, revistas e eventos), que facilite a consulta e a leitura do trabalho pelos pares. Propomos modelos de títulos que podem ser adotados, dependendo do foco central do trabalho: objeto de análise, método abordado ou conclusões. Sugerimos também um modelo de estrutura de resumo, muito utilizado pela comunidade científica: o IMRAD. Também indicamos uma estrutura prévia para a apresentação atraente do objeto, dos objetivos, das hipóteses e do conteúdo ao longo do trabalho no capítulo introdutório. Tais estruturas apresentam dupla função: atrair leitores e informá-los sobre o conteúdo do texto. Preenchendo esses requisitos nas seções de apresentação da pesquisa, as chances de seu trabalho alcançar o público alvo que se interessa de fato pelo conteúdo do artigo serão muito maiores. 2 Disponível em: . Acesso em: 23 set. 2020. 15 REFERÊNCIAS ALVES, M. T. G. et al. Fatores familiares e desempenho escolar: uma abordagem multidimensional. Dados, v. 56, n. 3, p. 571–603, set. 2013. AVILES, E. A. Z. Contribuciones contemporáneas de metodologías cualitativas para el análisis de políticas públicas: Process Tracing y Qualitative Comparative Analysis. Revista de Sociologia e Política, v. 26, n. 67, p. 21–37, set. 2018. HUDSON, J. An analysis of the titles of papers submitted to the UK REF in 2014: authors, disciplines, and stylistic details. Scientometrics, v. 109, n. 2, p. 871– 889, 29 nov. 2016. LEWISON, G.; HARTLEY, J. What’s in a title? Numbers of words and the presence of colons. Scientometrics, v. 63, n. 2, p. 341–356, abr. 2005. MUNDIM, P. S. et al. O Programa Bolsa Família e seus beneficiários na opinião pública brasileira. Opinião Pública, v. 25, n. 3, p. 556–576, dez. 2019. PERISSINOTTO, R. M.; MASSIMO, L.; COSTA, L. D. Oligarquia Competitiva e Profissionalização Política: O Caso dos Senadores Brasileiros na Primeira República (1889-1934). Dados, v. 60, n. 1, p. 79–110, mar. 2017. SANTOS, L. G. C.; STEINER, A. Q. Processo decisório no Poder Executivo: uma análise da Camex no presidencialismo de coalizão. Revista de Sociologia e Política, v. 27, n. 69, 2019. SILVA, B. F. DA; GONÇALVES, R. D. 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