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use DEM��TRIO MAGNOLI Bacharel em Ci��ncias Sociais e doutor em Geografia Humana pela USP Especialista em Rela����es Internacionais e editor do jornal Mundo Geografia e Pol��tica Internacional GEOGRAFIA PARA ENSINO M��DIO ENSINO M��DIO EDI����O - 2012 S��O PAULO Atual EditoraCAP��TULO ORIENTE M��DIO E MUNDO ��RABE 31 ISL�� FOI ALICERCE SOBRE QUAL SE ERGUEU UM GRANDE IMP��RIO. mundo mu��ulmano, que se estende pelo Oriente M��dio, ��frica do Norte, ��sia meridional e um pequeno trecho da Europa, �� fruto desse imp��rio. Mundo ��rabe n��o se confunde com mundo mu��ulmano. Os ��rabes n��o se definem pela religi��o, mas pela l��ngua, embora Isl�� seja um componente b��sico da cultura ��rabe. Oriente M��dio, n��cleo hist��rico e cultural do Isl�� e do mundo ��rabe, figura como foco de conflitos geopol��ticos, nacionais e religiosos. Um dos eixos desse conflito �� a disputa pela influ��ncia na regi��o petrol��fera do Golfo P��rsico. outro eixo �� a quest��o nacional entre Israel e Palestina, que tem repercuss��es mundiais. Isl�� e povos ��rabes Ao lado do cristianismo e do juda��smo, o islamismo �� uma das tr��s grandes religi��es monote��stas. O princ��pio da exist��ncia de uma divindade ��nica funcionou como instru- mento de unifica����o pol��tica dos povos ��rabes e da forma����o de um vasto imp��rio. "S�� h�� um Deus, que �� Al��, e Maom�� �� o seu profeta." A voz do anjo Gabriel transmitiu essa mensagem a Maom��, no ano 610. A partir da chamada Noite do Destino, o profeta recebeu v��rias outras revela����es e passou a pregar a nova f�� Museu do Pal��cio Topkapi, Istambul, Turquia/Bildarchiv Steffens/The The Bridgeman Art Library/Grupo Keystone monote��sta na cidade de Meca. Meca era o centro religioso da pen��nsula Ar��bica. Nela ficava templo da Caaba, local de peregrina����o religiosa das diversas tribos ��rabes. A Caaba guardava a Pedra Negra, um peda��o de rocha considerado sagrado, e tamb��m os ��dolos dos cultos poli- te��stas das tribos do deserto e dos habitantes da cidade. Maom�� e 0 anjo Gabriel na "Noite do segundo uma representa����o turco-otomana do s��culo XVI. mito de origem do Isl�� desdobrou-se no terreno da pol��tica, pela unifica����o das tribos ��rabes em torno do Profeta. 623UNIDADE 3 Pol��tica, economia e espa��o mundial A nova f�� monote��sta difundiu-se entre os pobres monote��smo isl��mico �� mais absoluto que o de Meca e diversas tribos do deserto, alarmando os crist��o. Al�� n��o tem filhos, pois isso n��o seria coerente sacerdotes dos cultos dominantes da cidade. Perseguido com sua unicidade. Maom�� �� o principal profeta, mas, e hostilizado, Maom�� abandonou a cidade e refugiou- diferentemente do Jesus dos crist��os, n��o �� filho de se em Iatreb, n��cleo situado em um o��sis ao norte de Deus. Cor��o, livro sagrado dos mu��ulmanos, consi- Meca. A retirada do profeta e seus seguidores, em 16 de derado a fonte ��nica da palavra direta de Deus, cont��m julho de 622, ficou conhecida como H��gira. Essa data as revela����es recebidas por Maom��. Mas n��o foi escrito assinala o in��cio do calend��rio mu��ulmano. por Maom��, e sim pelo califa (chefe pol��tico e religioso Isl�� logo se tornou predominante em Iatreb, do Isl��) Otman, o terceiro sucessor do profeta, em 652 que passou a chamar-se Medina (a"cidade do profeta"). Apesar da sua profunda unidade doutrin��ria, Ent��o, Maom�� organizou seus seguidores e procla- Isl�� divide-se em diversas seitas. As mais importantes, mou uma jihad contra os senhores de Meca. Em 630, dos pontos de vista demogr��fico e pol��tico, s��o a sunita as for��as do profeta conquistaram Meca. Os antigos e a xiita. A cis��o que as originou tem ra��zes na disputa inimigos foram poupados e anistiados. pela sucess��o no imp��rio maometano. quarto califa, Ali ibn Abu Talib, genro de Maom��, foi assassinado em 661 e, com o apoio da No Ocidente, termo jihad �� frequentemente apresen- maioria dos l��deres religiosos, o cargo passou para tado como sin��nimo de "guerra santa". Contudo, essencial- Moawiya, governante da S��ria. A minoria revoltou-se, mente, jihad �� um esfor��o interior do fiel para tornar-se uma pessoa melhor e, tamb��m, um empreendimento religioso pois desejava que o califado ficasse com filhos de Ali, de difus��o da f�� verdadeira. Em circunst��ncias extremas, que acabaram assassinados por soldados de Moawiya. quando pesa uma amea��a sobre O Isl��, a jihad pode adquirir Os seguidores da maioria formaram a seita sunita, car��ter de uma "guerra santa" contra infi��is. que atualmente congrega a maioria dos mu��ulmanos. Os sunitas consideram que a fonte essencial para a Em 632, �� frente de milhares de seguidores, lei isl��mica �� a Suna, um resumo da vida e dos atos Maom�� realizou uma peregrina����o coletiva a Meca exemplares de Maom��. e retirou da Caaba os ��dolos polite��stas, deixando A minoria formou a seita xiita. Os xiitas acre- apenas a Pedra Negra. Aquele ato instituiu a nova ditam que s�� os membros do cl�� de Maom�� podem religi��o monote��sta liderar os mu��ulmanos. Ao contr��rio dos sunitas, que e concluiu a unifi- n��o conferem qualidades divinas ao l��der religioso, os ca����o pol��tica das xiitas atribuem ao im�� (t��tulo concedido aos principais tribos da pen��n- l��deres religiosos que sucederam Maom��) uma prote- sula. Maom�� mor- ����o sobrenatural contra o erro e o pecado. reu naquele mesmo ano, logo depois de A umma, comunidade regressar a mundial dos fi��is Em seu ��ltimo discurso, em Meca, Maom�� pro- clamou o princ��pio de que todos os mu��ulmanos s��o Multid��o de peregrinos irm��os e t��m o dever religioso de evitar guerras entre mu��ulmanos ao si. O Isl�� representou uma poderosa for��a unificadora. redor da Caaba, A no����o da unidade divina propiciou a centraliza����o na Grande Mesquita de em pol��tica das tribos ��rabes, antes divididas em diferentes novembro de 2011. cultos e engalfinhadas em incessantes conflitos. Fayez Nureldine/AFP/Getty Images 6240 Oriente M��dio e 0 mundo ��rabe CAP��TULO 31 Denomina-se umma a comunidade dos mu��ul- manos, ou seja, a comunidade dos que se submetem a Deus (Al��) e, voluntariamente, obedecem aos preceitos Images do Cor��o. califa �� o chefe pol��tico e religioso da umma. Os fi��is t��m a miss��o de difundir o Isl��, a fim de ampliar a umma. Esse foi, desde o in��cio, o combust��vel para a expan- s��o do imp��rio de Maom��. Depois da morte do profeta, os quatro primeiros califas conquistaram a Mesopot��- mia e Imp��rio Persa, no Oriente M��dio, e iniciaram a expans��o para a ��frica do Norte, dominando o Egito. A dinastia Om��ada prosseguiu o avan��o para o oriente, Captura de Constantinopla, pelos turcos otomanos, em 1453. califado mu��ulmano se transferiria para uma rumo ao Afeganist��o e �� ��ndia. Isl�� estabeleceu-se em nova sede, Istambul, a antiga Constantinopla. toda a ��frica do Norte e penetrou na Europa atrav��s da pen��nsula Ib��rica (veja o mapa abaixo). Turco-Otomano, o califado deslocou-se Expans��o imperial do Isl�� (630-750) para Istambul, a antiga Constantinopla. ��SIA REINO DOS FRANCOS EUROPA A captura de Constantinopla, Mar Negro IMP��RIO BIZANTINO em 1453, assinalou in��cio da Idade REINO DOS VISIGODOS Mar C��rdoba C��spio Moderna. Entre os s��culos XVI e OCEANO ATL��NTICO IMP��RIO PERSA Mar Mediterr��neo Jerusal��m Tr��pico de C��ncer Fez MAGREB XVII, imp��rio expandiu seu dom��- Cairo EGITO nio para grande parte do mundo Meridiano de Greenw ��FRICA Medina mu��ulmano, no Oriente M��dio e na Sede dos califas AR��BIA ��frica do Norte. Os dom��nios otoma- Expans��o do Isl�� Mar Ar��bico Cidade ou vila principal N Conquistas at�� a morte do profeta Maom�� (632) nos alcan��aram tamb��m a pen��nsula Conquistas dos quatro primeiros califas (632-656) 0 830 km Conquistas da dinastia Om��ada (661-750) Balc��nica, convertendo ao Isl�� popu- Fonte: FRANCO J��NIOR, Hil��rio; ANDRADE FILHO, Ruy de Oliveira. la����es s��rvias, croatas, maced��nias, Atlas hist��ria geral. S��o Paulo: Scipione, 1993. p. 19. albanesas e b��lgaras. califado de Istambul durou at�� a queda do Imp��- Isl�� nasceu entre as tribos da pen��nsula Ar��bica. rio Turco-Otomano, no final da Primeira Guerra Cor��o, escrito em ��rabe, difundiu uma l��ngua e uma Mundial (1914-1918). cultura em terras e povos que originalmente n��o eram Atualmente, Isl�� compreende mais de um bilh��o ��rabes. Esse processo de assimila����o desenvolveu-se de fi��is. O mundo mu��ulmano abrange uma extensa em todo o norte africano, gerando um vasto espa��o de faixa do globo, estendendo-se, de oeste a leste, desde circula����o de textos escritos em ��rabe. Assim, surgiu um mundo ��rabe que abrange Oriente M��dio, at�� Senegal, no ocidente africano, at�� as Filipinas, nos limites os limites da P��rsia (Ir��), e a ��frica do Norte. Fora do oceano Pac��fico, e de norte a sul, desde Casaquist��o, na ��sia central, at�� a Tanz��nia e a Indon��sia, nos dois do mundo ��rabe, o Isl�� difundiu-se entre numerosos outros povos, na ��frica, no Oriente M��dio, na ��sia lados do oceano ��ndico. Em toda essa faixa, o Isl�� �� a central e na ��sia meridional. principal religi��o e a cultura mu��ulmana exerce papel Nos tempos medievais, as sucessivas sedes do predominante. Casualmente, a cidade de Meca situa-se califado situaram-se no Oriente M��dio e no Egito. aproximadamente no centro do mundo mu��ulmano Mas, na Idade Moderna, com a emerg��ncia do Imp��rio (veja mapa na p��gina seguinte). 625UNIDADE 3 Pol��tica, economia e espa��o mundial Mundo ��rabe e mundo mu��ulmano no Cairo, em 1945, por sete pa��ses (L��bano, Egito, S��ria, Jord��nia, Ar��bia Saudita, Iraque Atman Cria����es e I��men) a fim de promover a coopera����o e R��SSIA mediar as disputas pol��ticas entre seus integran- tes. Atualmente, a organiza����o abrange todos FRAN��A CASAQUIST��O os pa��ses ��rabes (veja mapa abaixo). Tr��pico de IR�� CHINA Uma "Primavera ��rabe" C��ncer ARG��LIA L��BIA EGITO AR��BIA SAUDITA Meca Imp��rio Turco-Otomano dominou, NIGER INDIA SUD��O durante s��culos, a maior parte do mundo SOM��LIA MAL��SIA A dissolu����o do imp��rio, no final da Primeira Equador Guerra Mundial (1914-1918), abriu cami- nho para imperialismo da Gr��-Bretanha, da OCEANO OCEANO INDON��SIA ATL��NTICO ��NDICO Fran��a e da It��lia, que repartiram desigualmente os territ��rios otomanos e delinearam as frontei- N Mu��ulmanos ��rabes Tr��pico de Mu��ulmanos n��o ��rabes Capric��rnio ras dos atuais Estados ��rabes no Oriente M��dio Meridiano de Greenwich Xiitas ��rabes 0 2062 km Xiitas n��o ��rabes e na ��frica do Norte. A independ��ncia dos pa��ses ��rabes conso- Fonte: LACOSTE, Yves (dir.). Dictionnaire de G��opolitique. Paris: Flammarion, 1993. p. 1077. lidou-se durante a Segunda Guerra Mundial Fora dos limites do mundo mu��ulmano, h�� sig- (1939-1945) ou no p��s-guerra. No in��cio, estabelece- nificativas minorias isl��micas na ��ndia e na Europa. ram-se monarquias vinculadas ��s pot��ncias europeias. Na Europa, o Isl�� cresce em virtude da imigra����o Em pouco tempo, contudo, tais regimes mon��rquicos proveniente da ��frica e da ��sia meridional. Na ��frica foram confrontados pelo movimento pan-arabista. subsaariana, em pa��ses como o Sud��o, o Chade, a Eti��- pia e a Nig��ria, verificam-se tens��es entre mu��ulmanos Liga ��rabe e seguidores de outras religi��es. EUROPA Mundo mu��ulmano e mundo ��rabe s��o conjun- ��SIA TUNISIA Portal de Mapas Mar Mediterr��neo L��BANO - tos geopol��ticos e culturais parcialmente superpostos, MARROCOS IRAQUE Golfo PALESTINA P��rsico EMIRADOS CATAR ARABES por��m distintos. O mundo mu��ulmano �� mais vasto ARG��LIA UNIDOS L��BIA KWAIT EGITO BAREIN que o mundo ��rabe. Os pa��ses com maior popula����o Golfo ARABIA de SAUDITA MAURIT��NIA mu��ulmana n��o s��o ��rabes: Indon��sia, Paquist��o, OMA SUD��O ��ndia e Bangladesh. S�� depois deles aparece Egito, I��MEN Golfo de Aden o mais populoso entre os pa��ses ��rabes. ��FRICA SOMALIA O mundo ��rabe faz parte do mundo mu��ulmano, Equador pois Isl�� �� a religi��o predominante em todos pa��ses OCEANO OCEANO ��rabes. A cultura mu��ulmana �� o alicerce hist��rico das ATL��NTICO ��NDICO sociedades ��rabes, mas, como j�� sabemos, mundo COMORES ��rabe se define pela l��ngua, n��o pela religi��o. As tr��s principais cidades sagradas do Isl��, que s��o Meca, Medina e Jerusal��m, situam-se no Oriente M��dio, Meridiano de Greenwich N n��cleo hist��rico do mundo ��rabe. Pa��s-membro da Liga ��rabe 0 1393 km No plano das organiza����es internacionais, a express��o do mundo ��rabe �� a Liga ��rabe, fundada Fonte: Elaborado pelo autor 6260 Oriente M��dio e 0 mundo ��rabe CAP��TULO 31 A monarquia eg��pcia foi derrubada, em 1952, por um golpe de oficiais militares liderados pelo Pedro Ugarte/AFP/Getty Images coronel Gamal Abdel Nasser. O l��der eg��pcio tornou-se a figura cen- tral do pan-arabismo. De acordo com essa doutrina, os povos ��rabes formariam uma ��nica na����o e deve- riam constituir um ��nico Estado. A unidade pol��tica seria o instrumento para a moderniza����o social e o crescimento econ��mico Pra��a Tahir, no centro do Cairo, em fevereiro de 2011: uma revolu����o popular derrubava ditador eg��pcio Hosni Mubarak, anunciando uma nova era no mundo ��rabe. da na����o ��rabe. O funda- mento do desenvolvimento consistiria na reuni��o dos do poder durante tr��s d��cadas, desde a independ��ncia, recursos dos diferentes pa��ses. O petr��leo abundante em 1957. A revolu����o tunisiana foi a centelha para da regi��o do Golfo P��rsico e a vasta m��o de obra dispo- a eclos��o de um levante popular pac��fico no Egito, n��vel em pa��ses como o Egito serviriam como plataforma n��cleo geopol��tico do mundo ��rabe. para o renascimento do brilho e do poder dos ��rabes. Desde a morte de Nasser, o Egito conhecera ape- O pan-arabismo inspirou partidos e movimentos nas dois governos. Anuar Sadat, o sucessor, dirigiu o em diversos pa��ses ��rabes. A S��ria chegou a formar pa��s entre 1970 e 1981, rompendo a antiga alian��a com o Egito uma Rep��blica ��rabe Unida (RAU), com a URSS e colocando o pa��s na esfera de influ��ncia que seria o embri��o da unidade, mas durou poucos dos Estados Unidos. assassinato de Sadat levou ao anos: de 1958 a 1961. No Iraque, o partido pan- poder o vice-presidente, Hosni Mubarak, tamb��m arabista chegou ao poder em 1968. No ano seguinte, oriundo da alta oficialidade militar. governo de um golpe de oficiais militares derrubou a monarquia Mubarak durou tr��s d��cadas, at�� fevereiro de 2011, l��bia, instalando um regime comprometido com o ideal quando foi afastado por uma junta militar, em meio da unidade ��rabe. Na Arg��lia, desde a independ��ncia, a ondas incontrol��veis de manifesta����es populares. em 1963, implantou-se uma rep��blica nacionalista A chamada "Primavera ��rabe" se espalhou pelo que tamb��m flertava com o discurso do pan-arabismo. Oriente M��dio e pela ��frica do Norte. O ditador impulso inicial de unidade pol��tica perdeu for��a do foi derrubado. Na L��bia, o in��cio de uma com os fracassos nas guerras ��rabe-israelenses e com guerra civil provocou uma campanha a��rea de for��as as diverg��ncias entre os regimes pan-arabistas. Aos europeias e norte-americanas que se concluiu com poucos, tais regimes se cristalizaram em ditaduras a derrubada de Muammar Kaddafi, no poder desde que, do ponto de vista das liberdades p��blicas, pouco 1969. Na S��ria, governada por Bashar Assad, filho se distinguiam das monarquias ��rabes remanescentes. e sucessor de Hafez Assad, no poder entre 1971 e O longo inverno ditatorial come��ou a se romper 2000, instalou-se uma prolongada guerra civil. Em no final de 2010, com a irrup����o de protestos de massa outros pa��ses, como a Jord��nia e o Marrocos, monar- na Tun��sia, que provocaram a queda do regime de Zine cas acuados apressaram-se em promover reformas Ben Ali, sucessor de Habib Bourguiba, personifica����o pol��ticas. 627UNIDADE 3 Pol��tica, economia e espa��o mundial O ciclo de mudan��as n��o se concluiu. Contudo, as pot��ncias ocidentais que a consolida����o de um nos mais diversos pa��ses, emergiram atores que, por Estado judaico, povoado por imigrantes, na Palestina. d��cadas, sofreram a repress��o dos regimes ditatoriais. Esse evento acirrou o nacionalismo ��rabe e desempe- Os mais destacados deles s��o os partidos oriundos da nhou um papel decisivo no surgimento da doutrina Irmandade Mu��ulmana eg��pcia, a mais antiga orga- do pan-arabismo. niza����o civil isl��mica do mundo ��rabe, fundada em O movimento sionista, que defende o direito 1928. Ao lado desses partidos de base sunita, vieram �� �� autodetermina����o dos judeus e a exist��ncia de tona movimentos liberais e socialistas. A instabilidade um Estado judaico, surgiu na Europa no final do pol��tica ser�� uma marca inevit��vel da paisagem das s��culo XIX. Express��o do nacionalismo judaico, o sociedades ��rabes no per��odo que se abre. Contudo, as sionismo projetava a cria����o de um Estado hebreu revoltas contra as ditaduras criaram um novo cen��rio, povoado pela imigra����o. Em 1882 come��ou a migra- muito mais diversificado e pluralista. ����o judaica para a Palestina. Os migrantes recebiam terras compradas pelo movimento sionista europeu. Israel e Palestina At�� ent��o, a Palestina era povoada por ��rabes, quase todos mu��ulmanos sunitas. Em 1918, com a ru��na do Imp��rio Turco-Oto- A paisagem pol��tica do mundo ��rabe e, em espe- mano, a regi��o foi transformada em mandato bri- cial, do Oriente M��dio, sofreu uma profunda mudan��a t��nico. No ano anterior, por meio da Declara����o com a forma����o de Israel. Nada contribuiu mais para Balfour, uma carta assinada pelo ministro do Exterior aumentar o ressentimento das sociedades ��rabes con- brit��nico Arthur Balfour, a pot��ncia europeia tinha se comprometido com a cria����o de um "lar nacional AP Photo/Glow Images judaico" na Palestina. A imigra����o judaica se ampliou, tendo como ponto de partida principal os pa��ses da Europa central e oriental, onde era intenso o antissemitismo, que se manifestava em forma de ativa discrimina����o contra judeus. Entre 1919 e 1923, transferiram-se para a Palestina cerca de 40 mil judeus, a maioria proveniente da R��ssia, que atravessava a guerra civil deflagrada pela revolu����o bolchevique. Na d��cada de 1930, explodi- ram violentos conflitos entre os imigrantes judeus e a popula����o ��rabe da Palestina. As guerras ��rabe-israelenses Ap��s a Segunda Guerra Mundial, a revela����o do genoc��dio dos judeus nos campos de exterm��nio nazis- tas transformou os sentimentos da opini��o p��blica mundial diante do movimento sionista. Em 1947, a ONU aprovou um plano de partilha da Palestina, Choques entre ��rabes e judeus, na cidade de Jaffa, que previa encerramento do mandato brit��nico e no Mandato Brit��nico da Palestina, em 1936. A Revolta ��rabe prenunciava futuros conflitos a cria����o de um Estado judeu e de um Estado ��rabe entre Israel e os palestinos. (veja o mapa da p��gina seguinte). 6280 Oriente M��dio e mundo ��rabe CAP��TULO 31 Plano das Na����es Unidas de partilha da Estado de Israel (1949) Palestina (1947) 34��L 34��L Atman Cria����es Atman Cria����es L��BANO L��BANO S��RIA S��RIA Mar Mar Telaviv Mediterr��neo Mediterr��neo Jerusal��m Telaviv Jerusal��m JORD��NIA EGITO JORD��NIA EGITO 30��N 30��N N AR��BIA 0 70 km AR��BIA SAUDITA N SAUDITA Israel Dividida entre Mar 0 70 km Israel e Jord��nia Vermelho Israel Mar Fonte: NATKIEL, Richard. Atlas of 20th century warfare. Estado ��rabe da Palestina Vermelho New York: Gallery Books, 1982. p. 201. Administra����o internacional Fonte: NATKIEL, Richard. Atlas of 20th century warfare. A chegada ao poder de Nasser, no Egito, modi- New York: Gallery Books, 1982. p. 201. ficou todo o panorama regional. O regime nasserista No ano seguinte, quando se completou a retirada adotou uma pol��tica nacionalista, destinada a supri- mir a influ��ncia brit��nica e modernizar a economia das tropas brit��nicas, eclodiu a guerra entre o novo Estado de Israel e os palestinos, que receberam o apoio eg��pcia, al��m de firmar programas de coopera����o da Liga ��rabe. Os israelenses recha��aram as for��as ��ra- militar e econ��mica com a URSS. Em 1956, nacio- bes e, nos acordos de armist��cio, conseguiram ampliar o nalizou o Canal de Suez, deflagrando uma nova territ��rio de Israel. As ��reas reservadas ao Estado ��rabe guerra na regi��o. dos palestinos foram colocadas sob controle da Jord��nia For��as brit��nicas e francesas ocuparam a zona e do Egito (veja o mapa da direita, no alto). Jerusal��m, do canal, enquanto for��as israelenses invadiram a que pelo plano da ONU deveria ficar sob administra����o pen��nsula do Sinai. No fim, diante de uma amea��a internacional, foi dividida entre Israel e a Jord��nia. de interven����o da URSS e de uma negativa de apoio A guerra provocou a fuga de milhares de pales- norte-americano �� opera����o anglo-francesa, as for��as tinos que habitavam cidades e povoados situados estrangeiras se retiraram. A Guerra de Suez consoli- no interior das fronteiras do novo Estado de Israel. dou a alian��a entre Egito e URSS, entrela��ando o con- Essa popula����o de refugiados estabeleceu-se, em flito ��rabe-israelense �� rivalidade global da Guerra Fria. sua maioria, na Jord��nia, no L��bano, na S��ria ou pan-arabismo de Nasser nutriu-se dos ressenti- no Egito. Abria-se uma nova etapa do conflito pela mentos ��rabes gerados pela forma����o do Estado de Israel. Palestina. Estado judeu na Palestina sintetizava, aos olhos dos 629UNIDADE 3 Pol��tica, economia e espa��o mundial ��rabes, a opress��o colonial europeia e, de modo geral, a palestinos vivem na Jord��nia, no L��bano e em outros arrog��ncia ocidental. Depois da Guerra de Suez, Nasser pa��ses do Oriente articulou uma coaliz��o militar contra Israel, reunindo fracasso militar ��rabe de 1967 aprofundou sob a lideran��a eg��pcia a S��ria e a Jord��nia. Em 1967, um ressentimentos contra Israel, irrigando as sementes da ataque-surpresa israelense a essa coaliz��o deflagrou uma revanche. Em 1973, na Guerra de Outubro, ou do Yom nova guerra no Oriente M��dio. Kippur, Egito e S��ria tentaram retomar os territ��rios A Guerra dos Seis Dias, como ficou conhecida, assi- ocupados. N��o alcan��aram esse objetivo, mas susten- nalou o apogeu do expansionismo israelense. Derrotando taram uma guerra de v��rias semanas que se encerrou de modo contundente a coaliz��o ��rabe, Israel invadiu em um acordo de armist��cio, sem clara defini����o militar. territ��rios palestinos da Cisjord��nia e da Faixa de Gaza, Sadat, o sucessor de Nasser, conduziu a guerra administrados respectivamente pela Jord��nia e pelo Egito, de 1973. Depois do conflito, o l��der eg��pcio rompeu e a parte leste de Jerusal��m, de popula����o palestina e os acordos de coopera����o com a URSS e aceitou uma administrada pela Jord��nia. Al��m disso, tomou as colinas media����o dos Estados Unidos. Em 1977, tornou-se de Gol��, territ��rio s��rio, e a pen��nsula do Sinai, territ��rio primeiro chefe de Estado ��rabe a fazer uma visita eg��pcio (veja o mapa abaixo). oficial a Israel. Dois anos mais tarde, Egito e Israel firmaram os Acordos de Camp David. Segundo os Israel e territ��rios ocupados (1967) termos do tratado de paz, Israel devolveu ao Egito 34��L LIBANO Beirute Atman Cria����es a pen��nsula do Sinai. Contudo, manteve a ocupa����o das colinas de Gol�� e dos territ��rios palestinos da Damasco Cisjord��nia, Faixa de Gaza e Jerusal��m Leste. GOLA S��RIA Desde 1967, Israel colocou em pr��tica uma pol��- tica de povoamento judaico dos territ��rios palesti- nos. A pol��tica oficial de coloniza����o instalou mais de Mar CISJORD��NIA Telaviv Mediterr��neo 300 mil israelenses na Cisjord��nia, habitada por 2,5 Jerusal��m Am�� GAZA milh��es de palestinos, e poucos milhares na Faixa de Porto Said Gaza, habitada por mais de 1,6 milh��o de palestinos. EGITO JORD��NIA Na parte leste de Jerusal��m instalaram-se quase 200 Cairo mil judeus israelenses. Essa opera����o de implanta����o Suez 30��N de col��nias representou a continuidade do impulso SINAI sionista original, anterior �� cria����o de Israel. Golfo de Suez Golfo AR��BIA SAUDITA Sharm el Capital de pa��s N Sheikh Cidade principal : Meir Images Israel Estreito 0 70 km de Tiran Territ��rios ocupados por Israel Mar na Guerra dos Seis Dias Vermelho Fonte: ENTIDADE nacional palestina nasce em meio ��s col��nias israelenses. Mundo-Geografia e Pol��tica Internacional, S��o Paulo, n. 3, maio 1994. p.7. A guerra de 1967 gerou uma segunda di��spora palestina, que se somou �� de 1948. Como consequ��ncia direta dela, cerca de 300 mil pessoas deixaram a Cisjor- Col��nia israelense de Ofra, na Cisjord��nia ocupada, em d��nia e a Faixa de Gaza, rumando preferencialmente 2010. No canto superior esquerdo, 0 povoado palestino para a Jord��nia. Atualmente, mais de 3 milh��es de de Ein Yabrud. 6300 Oriente M��dio e 0 mundo ��rabe CAP��TULO 31 Duas bandeiras na Palestina Depois da cria����o de Israel, a emigra����o for��ada e a dispers��o dos palestinos pelos pa��ses do Oriente M��dio, Abbas Momani/AFP/Getty Images al��m da continuidade da imigra����o judaica, geraram uma maioria de judeus no conjunto Israel/Palestina. Contudo, a imigra����o de judeus russos do in��cio da d��cada de 1990, logo ap��s a implos��o da URSS, foi o NO ��ltimo forte influxo demogr��fico em Israel. Atualmente, JUSTICE elevado crescimento vegetativo palestino contrasta com o baixo incremento natural da popula����o judaica. Em 2010, no conjunto Israel/Palestina, cerca Um conflito desigual: jovem palestino lan��a pedra por de 5,7 milh��es de judeus conviviam com quase cima da "barreira de seguran��a" erguida por Israel na 5,8 milh��es de palestinos. A popula����o israelense faixa de fronteira da Cisjord��nia, em junho de 2011. somava quase 7,1 milh��es de habitantes, dos quais Israel se retiraram da Faixa de Gaza, que passou a ser pouco menos de 1,6 milh��o eram ��rabes, origin��rios administrada pelo governo aut��nomo palestino, mas do contingente que permaneceu em Israel ap��s 1949. permaneceu sob soberania israelense. Essa popula����o ��rabe recebeu cidadania israelense e As tentativas de paz esbarram em uma primeira usufrui de direitos pol��ticos e sociais limitados, confi- dificuldade, que �� o tra��ado das fronteiras do futuro gurando uma camada de "cidad��os de segunda classe". Estado palestino. Israel n��o aceita devolver conjunto O nacionalismo palestino desenvolveu-se princi- da Cisjord��nia, pois pretende incorporar a seu terri- palmente a partir da d��cada de 1960, com a cria����o da t��rio os principais blocos de col��nias judaicas. Em Organiza����o pela Liberta����o da Palestina (OLP). Na 2003, Israel come��ou a erguer uma barreira murada segunda metade da d��cada de 1980, na Cisjord��nia e na Faixa de Gaza, eclodiu a intifada ("sobressalto", em entre a Cisjord��nia e seu territ��rio, com o argumento ��rabe), uma revolta civil contra as for��as de ocupa����o de se proteger contra atentados terroristas. A barreira israelenses. Durante a intifada, ampliou-se a influ��n- avan��a sobre o territ��rio palestino em diversos trechos, cia do Hamas, uma corrente palestina, inspirada na para incorporar col��nias judaicas. Irmandade Mu��ulmana eg��pcia, que se op��e aos diri- A geopol��tica da ��gua tamb��m desempenha gentes nacionalistas tradicionais e defende a implanta- papel destacado no conflito palestino. Do ponto de ����o de um Estado palestino regido pelas leis religiosas. vista da morfologia, a Palestina hist��rica divide-se Um processo de paz iniciou-se em 1993, com a em tr��s unidades distintas (veja perfil de relevo assinatura dos Acordos de Oslo por Israel e pela OLP, na p��gina seguinte). A plan��cie costeira ocidental, ent��o liderada por Yasser Arafat. Pelos Acordos de que se encontra no territ��rio israelense, abriga um Oslo, a OLP reconheceu Estado de Israel, que se aqu��fero pouco volumoso, incapaz de abastecer as comprometeu a devolver os territ��rios ocupados, nos cidades, as ind��strias e os campos irrigados. O plat�� quais seria criado Estado palestino. Al��m disso, central, em torno do divisor de ��guas (eleva����o do estabeleceram-se ��reas de governo aut��nomo palestino relevo que divide bacias hidrogr��ficas), est�� sobre um na Cisjord��nia e na Faixa de Gaza. len��ol subterr��neo abundante e pouco profundo. A Contudo, o processo de paz enfrentou sucessi- vertente oriental termina na fossa de afundamento, vas crises, marcadas pela violenta repress��o israelense cerca de 300 metros abaixo do n��vel do mar, onde e por atentados terroristas palestinos, e entrou em est��o o lago Tiber��ades e o mar Morto, entre os quais colapso em 2000. Depois disso, em 2005, as for��as de corre rio Jord��o. 631UNIDADE 3 Pol��tica, economia e espa��o mundial relevo e as fronteiras na Palestina hist��rica Portal de Mapas OESTE LESTE L��BANO Mar Mediterr��neo Mar da Galileia Palestina Rio Jord��o Palestin L Mar Morto ISRAE EGITO JORD��NIA 30��N Limite N Israel /Cisjord��nia 890 m AR��BIA Plat�� central 650 m SAUDITA 1.040 m 210 m 880 m Vale do Jord��o 0 167 km Mar 310 m Vermelho Mar Plan��cie costeira Mediterr��neo N��vel do mar Israel Cisjord��nia Jord��nia Representa����o sem escala. Fonte: FOUCHER, Michel. H��rodote. Paris: Institut Fran��ais de G��opolitique, n. 29-30, 1983 p. 102. plat�� central da Cisjord��nia concentra a maior A paz entre palestinos e israelenses parece um parte da popula����o palestina da ��rea, que utiliza a ��gua sonho distante, mas �� uma necessidade cada vez mais das nascentes e po��os do len��ol subterr��neo. Mas Israel premente do ponto de vista da estabilidade regional e depende do abastecimento de ��gua retirada do lago da seguran��a do Estado judeu. crescimento vege- Tiber��ades e do rio Jord��o, cujas nascentes encontram- tativo da popula����o palestina �� mais elevado que da se nas colinas de Gol��. Assim, o acesso ��s fontes de ��gua popula����o israelense. Em poucas d��cadas, conjunto tornou-se um importante fator nos c��lculos estrat��gicos Israel/Palestina abrigar�� uma vasta maioria palestina. israelenses e um tema importante nas negocia����es de paz. Sem um acordo de paz, os israelenses teriam ape- Entretanto, os obst��culos mais profundos para a nas as alternativas de sustentar pela for��a um sistema paz na Palestina s��o de natureza pol��tica e simb��lica. Os semelhante ao do antigo apartheid sul-africano (veja palestinos aferram-se ao"direito do retorno", ou seja, ao cap��tulo 32), no qual a maioria da popula����o n��o se beneficiaria dos direitos de cidadania, ou conceder princ��pio de que os refugiados da guerra de 1948 devem direitos pol��ticos iguais para todos, o que equivaleria ter direito de retornar ��s ��reas nas quais suas fam��lias a renunciar ao car��ter judaico de Israel. A ��nica sa��da viviam. Israel argumenta que, incluindo os descenden- para o dilema pol��tico e geogr��fico �� realizar a partilha tes dos refugiados originais, contingente total soma da Palestina, mais de 60 anos ap��s a decis��o da ONU. milh��es de palestinos e o retorno da maioria deles trans- formaria os judeus em minoria em seu pr��prio Estado. Jerusal��m �� um foco de amargas diverg��ncias. A regi��o do Golfo P��rsico Depois da guerra de 1967, Israel declarou Jerusal��m O valor geopol��tico da regi��o do Golfo P��rsico sua "capital eterna e No entanto, a cidade est�� ligado �� circunst��ncia de concentrar a maior �� o centro pol��tico e espiritual da na����o palestina, que parte das reservas de petr��leo do mundo. O tra��ado enxerga sua parte oriental, tradicionalmente ��rabe, das fronteiras pol��ticas e as rivalidades regionais t��m como futura capital do Estado palestino. Dificilmente impacto direto na economia mundial. Ar��bia Saudita, se far�� um acordo de paz definitivo sem que israelenses Ir�� e Iraque s��o as tr��s pot��ncias da regi��o do Golfo e palestinos encontrem uma forma de compartilhar P��rsico e, em conjunto, det��m mais de dois quintos Jerusal��m (veja o texto do boxe na p��gina seguinte). das reservas mundiais comprovadas de petr��leo. 632Oriente M��dio e 0 mundo ��rabe CAP��TULO 31 Jerusal��m, cidade e s��mbolo Cidade santa para mu��ulmanos e crist��os, Jerusal��m est�� no n��cleo do conflito entre israelenses e palestinos. A Cidade Velha, cercada por muralhas milenares, na parte oriental da aglomera����o de 750 mil habitantes, Ryan Rodrick Beiler/Alamy/Other Images ocupa menos de um quil��metro quadrado, abriga diversos templos de grande import��ncia religiosa e �� constitu��da pelos bairros arm��nio, crist��o, judeu e mu��ulmano. Em seu centro fica a Esplanada das Mesquitas, onde se situam Domo da Rocha e a Mesquita de Al-Aqsa, lugares sagrados do Isl��. No limite ocidental da Esplanada das Mesquitas est�� Muro das A Cidade Velha de Jerusal��m, na qual se destaca a c��pula do Domo Lamenta����es, um dos principais lugares sagra- da Rocha. No conflito entre Israel e palestinos, os s��mbolos pol��ticos dos do juda��smo. e religiosos adquiriram import��ncia ainda maior que territ��rios. A conquista israelense da parte oriental de Jerusal��m representou uma profunda derrota palestina. De 1967 em diante, sucessivos governos israelenses declaram que um acordo de paz definitivo n��o deve mudar estatuto da cidade, de capital unificada de Israel. Contudo, nenhuma corrente pol��tica palestina aceita renunciar ao estabelecimento do governo do Estado palestino na parte oriental de Jerusal��m. Golfo P��rsico conecta-se ao mar Ar��bico e ao A Ar��bia Saudita �� uma monarquia isl��mica oceano ��ndico pelo estreito de Ormuz, uma passagem sunita que mant��m alian��a de seguran��a com os estrat��gica na qual trafegam os petroleiros que se diri- Estados Unidos e funciona como Estado protetor gem ao Extremo Oriente, �� Europa e �� Am��rica (veja de Kuwait, Barein, Catar, Emirados ��rabes Unidos mapa abaixo). e Om��, pequenas monarquias integrantes do Con- selho de Coopera����o dos Estados ��rabes do Golfo Golfo P��rsico P��rsico (CCG). O n��cleo da rede terrorista Al-Qaeda 50��L originou-se na Ar��bia Saudita. A monarquia saudita IRAQUE desempenha o papel simb��lico crucial de protetora KUWAIT IR�� dos principais lugares santos do Isl�� (leia o texto do Cidade do Kuwait Golfo boxe na p��gina seguinte). Ir�� n��o �� um pa��s ��rabe, mas persa, que se con- verteu em rep��blica isl��mica ap��s a Revolu����o de 1979. AR��BIA BAREIN SAUDITA Ormuz Manama Sua popula����o �� majoritariamente xiita e sua pol��tica Estreito OMA Doha externa organiza-se em torno do antiamericanismo e da Golfo CATAR Riad de oposi����o ao Estado de Israel. Atualmente, os Estados Om�� Tr��pico de C��ncer N Unidos e seus aliados europeus acusam o Ir�� de condu- EMIRADOS ��RABES Mascate UNIDOS zir um programa nuclear com fins militares. 0 23 km Capital de pa��s Iraque �� um pa��s ��rabe cujas fronteiras foram Fonte: CENTRAL Intelligence Agency. The World Factbook 2007. Dispon��vel tra��adas pela Gr��-Bretanha, no final da Primeira em: Acesso em: 9 jun. 2012. Guerra Mundial, em raz��o dos interesses petrol��feros 633UNIDADE 3 Pol��tica, economia e espa��o mundial da grande pot��ncia europeia. Os mu��ulmanos xiitas Gabriel Duval/AFP/Getty Images formam a maioria da popula����o iraquiana, mas h�� significativas minorias de mu��ulmanos sunitas e de curdos (que s��o sunitas, mas n��o s��o ��rabes). A Revolu����o Iraniana de 1979 abriu um ciclo de conflitos regionais que prossegue at�� hoje. Em 1980, o governo nacionalista e sunita de Saddam Hussein, do Iraque, atacou o Ir�� xiita. A causa aparente da guerra eram antigas disputas de fronteira na costa do Golfo P��rsico, mas a motiva����o real era o temor iraquiano de um levante interno de sua maioria xiita, estimulada pela revolu����o no pa��s vizinho. O Iraque contou com ajuda material e financeira dos Estados Unidos, que pretendiam limitar a influ��ncia iraniana. Contudo, suas tropas n��o conseguiram realizar progressos e a guerra se arrastou, sangrenta e cruel, por oito Retorno do aiatol�� Khomeini a Teer��, em fevereiro de anos. No fim, um acordo provis��rio encerrou o conflito, 1979. Na Revolu����o Iraniana, uma insurrei����o popular derrubou x�� (imperador) Reza Pahlevi, abrindo caminho que enfraqueceu sensivelmente dois contendores. para a cria����o de um regime controlado pelas autoridades Dois anos ap��s o fim da guerra entre Ir�� e Iraque, religiosas xiitas. o regime de Saddam Hussein atacou o Kuwait e o ocupou, alegando que pequeno emirado do Golfo P��rsico era uma cria����o artificial brit��nica. A anexa����o Os lugares santos do Kuwait transformaria Iraque na mais poderosa A Ar��bia Saudita �� conhecida como a "Terra das pot��ncia da regi��o e representaria uma amea��a direta duas Mesquitas Sagradas". Trata-se de uma refer��ncia a �� integridade territorial da Ar��bia Saudita. Meca e a Medina, OS dois lugares mais sagrados do Isl��. A monarquia conservadora e absolutista saudita extrai sua O ousado movimento iraquiano provocou a rup- legitimidade pol��tica da circunst��ncia de ser a protetora tura da coopera����o entre Saddam Hussein e Estados desses dois lugares. Unidos. Os norte-americanos articularam uma coaliz��o Estado saudita surgiu no in��cio do s��culo ap��s internacional, que contou com a participa����o do Egito e cerca de 150 anos de lutas pelo controle da pen��nsula da S��ria, para expulsar as for��as iraquianas do Kuwait. Ar��bica. Essas lutas se iniciaram em meados do s��culo Na Guerra do Golfo (1990-1991), Iraque foi der- XVIII, quando Mohammed bin Saud, governante de uma rotado pelas for��as dos Estados Unidos e da coaliz��o. pequena cidade, aliou-se ao cl��rigo Mohammed ibn Naquela guerra, a Ar��bia Saudita aceitou o esta- Abd-al-Wahab, fundador de uma seita puritana que se belecimento de bases militares norte-americanas em considerava a ��nica representa����o do Isl�� verdadeiro. Os aliados proclamaram uma jihad e, em nome da pureza seu territ��rio. Esse evento assinalou o in��cio da cam- isl��mica, declararam guerra aos chefes locais da pen��n- panha de terror da Al-Qaeda contra os Estados Uni- sula Ar��bica. dos. Os dirigentes da rede terrorista romperam com a A tomada de Riad, em 1902, marcou a vit��ria da monarquia saudita, acusando-a de permitir a viola����o jihad. A monarquia saudita conservou a antiga alian��a pelos infi��is de territ��rio sagrado e proclamaram uma entre a dinastia dos Saud e a seita Wahab. Nessa alian��a, jihad antiamericana. Wahab controlam da Educa����o e das Os atentados terroristas de 11 de setembro Comunica����es. de 2001, em Nova York e em Washington, repre- 6340 Oriente M��dio e 0 mundo ��rabe CAP��TULO 31 tas, que haviam sido apeados do poder, e incont��veis Gary Kieffer/DOD/Time Life Pictures/Getty Images atentados de militantes da Al-Qaeda. Do ponto de vista da rede terrorista, o Iraque representava um novo campo de batalha de sua jihad global. Quando tra��aram as fronteiras iraquianas, os brit��nicos reuniram as ��reas xiitas do sul da Meso- pot��mia ��s ��reas curdas do norte, onde se encontram grandes reservas de petr��leo. Na regi��o central, sol- dando o conjunto, localizam-se as ��reas de povoa- mento majorit��rio sunita (veja mapa a seguir). A montagem brit��nica permitia o transporte do petr��- leo de Kirkuk, em ��rea curda, para o porto de Basra, em ��rea xiita. A antiga cidade de Bagd��, que havia Po��os de petr��leo no Kuwait incendiados pela for��as sido sede do califado, no limite entre as ��reas sunita iraquianas em retirada, ap��s a ofensiva terrestre norte- e xiita, funcionaria como capital do novo pa��s. americana na Guerra do Golfo, em mar��o de 1991. Depois da independ��ncia do Iraque, em 1932, sentaram a culmin��ncia da jihad da Al-Qaeda. A e da substitui����o da monarquia pela rep��blica, em primeira rea����o norte-americana foi a invas��o do 1958, formou-se um regime nacionalista baseado na Afeganist��o, cujo regime oferecia apoio e prote����o popula����o ��rabe sunita. A ditadura de Saddam Hus- �� Al-Qaeda. A segunda, em 2003, foi a invas��o do sein, consolidada em 1979, completou processo de Iraque, sob o pretexto de que o regime iraquiano centraliza����o do poder, reprimindo violentamente desenvolvia um programa de armas de destrui����o xiitas e curdos. em massa, uma alega����o que se revelaria falsa. Grupos ��tnicos e religiosos no Iraque Zakho Xiitas, sunitas e curdos TURQUIA Dahuk Atman Cria����es Arbil Sob governo de George W. Bush (2001- Mosul Kirkuk 2008), os Estados Unidos ocuparam o Iraque com Sulaymania 35��N projeto de reorganizar o cen��rio geopol��tico do S��RIA Taknit Rio Oriente M��dio. Um Iraque sob influ��ncia direta Anah Samarra IR�� dos Estados Unidos asseguraria o fornecimento Ramadi Bagd�� est��vel de petr��leo para a economia mundial e Rutbah Falluja Kut permitiria a retirada dos militares norte-ameri- JORD��NIA Karbala Hillah canos da Ar��bia Saudita, algo que eliminaria um Capital de pa��s Amarah Najaf Diwaniah poderoso argumento pol��tico da Al-Qaeda. Nessa Cidade principal Deserto Samawah ordem de ideias, a invas��o do Iraque seria seguida ��rabes xiitas 55% Nasiriah Basra Curdos 21% Zubair por opera����es destinadas a desestabilizar os regi- (sunitas, xiitas, yazidis) ��rabes sunitas 18,5% mes antiamericanos do Ir�� e da S��ria. Ass��rios, Caldeus, KUWAIT Contudo, o sucesso militar da invas��o do Arm��nios 3,5% (crist��os) N Golfo Turcomanos 2% (xiitas e sunitas) Iraque encerrou-se com a domina����o de Bagd��, Mandaeanos 0,5% 0 106 km AR��BIA SAUDITA (sabeanos) a capital do pa��s. disso, as for��as norte- Fonte: PERRY-CASTA��EDA Library. Collection The University of Texas at americanas e seus aliados brit��nicos enfrentaram Dispon��vel em: uma violenta campanha de resist��ncia dos suni- html>. Acesso em: 9 jun. 2012. 635UNIDADE 3 Pol��tica, economia e espa��o mundial A ocupa����o norte-americana Curdist��o: um espa��o ��tnico destruiu a estabilidade do Iraque. 40��L GE��RGIA R��SSIA Mar Elei����es diretas, organizadas pelas C��spio Mar Negro Wladimir Senise for��as ocupantes, produziram um governo de maioria xiita. Com isso, ARM��NIA lerevan AZERBAIJ��O Baku ironicamente, ampliou-se a influ��ncia 40��N Erzurum do Ir�� sobre o Iraque. A repress��o �� AZERB. TURQUIA resist��ncia armada sunita provocou ago um ��xodo de cerca de 1,5 milh��o de Malatya Elazig Van Diyarbakir Lago sunitas, que se refugiaram em pa��- Orumiyeh Sanliurfa Urmia ses vizinhos, especialmente na S��ria. Mosul Mahabad Enquanto isso, os curdos consegui- Hasakah Irbil ram estabelecer um regime aut��nomo Mar Mediterr��neo IR�� Karkuk no norte do Iraque. Sulaymania S��RIA Tendo conquistado a autono- IRAQUE L��BANO Bakhtaran mia, algumas correntes pol��ticas cur- N Beirute ��rea habitada Damasco das voltaram a sonhar com a cria����o Bagd�� pelos curdos Capital de pa��s 0 123 km de um Curdist��o independente. Os principal curdos que habitam o Oriente M��dio Fonte: CENTRAL Intelligence Agency. The World Factbook 2007. Dispon��vel em: formam uma popula����o de cerca de gov/library/publications/the-world-factbook> Acesso em: 9 jun. 2012. 24 milh��es. As maiores comunida- des curdas habitam a Turquia (13 milh��es), Ir�� tentar com a autonomia pol��tica, mas podem tentar a (4,5 milh��es), o Iraque (5 milh��es) e a S��ria (1,8 separa����o se houver uma nova centraliza����o do poder milh��o). Essas comunidades vivem em ��reas cont��- no pa��s. Ir�� e a S��ria reprimem com viol��ncia peque- nuas, mas separadas pelas fronteiras pol��ticas (veja nas correntes separatistas curdas. o mapa acima). O caldeir��o de tens��es geopol��ticas no Oriente Na Turquia, o Partido dos Trabalhadores do Cur- M��dio �� principal foco de instabilidade da ordem dist��o (PKK), uma corrente radical, almeja criar um mundial p��s-Guerra Fria. Petr��leo, terror global, Estado curdo unificado e mant��m um movimento nacionalismos em choque e conflitos religiosos se guerrilheiro. Os curdos iraquianos parecem se con- misturam no complexo cen��rio estrat��gico da regi��o. 636

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