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EXTENSÃO 1: UNIVERSIDADE E SOCIEDADE EXTENSÃO 1: UNIVERSIDADE E SOCIEDADE EXTENSÃO 1: UNIVERSIDADE E SOCIEDADE Artur Rodrigues Neto NEAD – UNIFACVEST | ii © 2022 – UNIFACVEST. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito dos autores e do detentor dos direitos autorais. _____________________________________________________ NETO, Artur Rodrigues. Extensão 1: Universidade e Sociedade. Caderno de Estudos UNIFACVEST. PaperVest, Lages : SC, Brasil, 2022. 22p.: 28 cm 1. Extensão 1: Universidade e Sociedade – I. I. Título. _____________________________________________________ Capa: Núcleo de Produção EAD Unifacvest Imagem da capa: Copyright © 2010-2022 FreepikCompany Imagem livre de Direito Autoral Centro Universitário Unifacvest © 2022 - Todos os direitos reservados. Av. Mal. Floriano, 947 - Centro - CEP 88503-190 - Lages / SC NEAD – UNIFACVEST | iii SOBRE O AUTOR Artur Rodrigues Neto é graduado em História e Mestre em Práticas Transculturais pela UNIFACVEST. Sua experiência profissional é como professor de História na educação básica e atua no ensino superior ministrando disciplinas como Antropologia, Metodologia Científica e Sociologia. No campo da pesquisa dedicou-se principalmente à História da Infância em Lages-SC e ao universo das narrativas literárias, com enfoque nas aproximações e distanciamentos entre História e Literatura nas obras de Eduardo Galeano e Lima Barreto. Em 2021 publicou o livro História das Ideias Políticas, Econômicas e Sociaispela editora IESDE BRASIL. É produtor de materiais didáticos e tutor de Ensino à Distância na UNIFACVEST. NEAD – UNIFACVEST | iv GHHH Reitor: Geovani Broering Pró-Reitora de Administração e Finanças: Soraya Lemos Erpen Broering Pró-Reitor Acadêmico: Ricardo Leone Martins Pró-Reitor de Pesquisa e Extensão: Renato Rodrigues Núcleo de EaD Unifacvest: Felipe Boeck Fert e Viviane Grassi NEAD – UNIFACVEST | v Sumário v Palavras dos Reitores ............................................................................................................... 1 Breve história das universidadese da extensão universitária ................................................ 4 Projeto interdisciplinar de extensão e Agenda 2030 ............................................................. 12 Considerações finais ......................................................................................................... 16 Palavra dos Reitores Caro Leitor É com muita satisfação que nos dirigimos a você em nome de nossa Instituição de Ensino Superior. Estamos sempre dando novos passos na direção de aperfeiçoar a qualidade e a abrangência dos nossos serviços educacionais. Saiba que temos seguido à risca a legislação e as normatizações emanadas e supervisionadas pelo Conselho Nacional de Educação e pelo Ministério da Educação. Essa é a maior razão de termos aprovados e reconhecidos nossos Cursos Presenciais e a Distância com os melhores conceitos. A nossa estrutura tem qualidade e os nossos colaboradores e professores tem a determinação de fazer a diferença na formação de profissionais que precisam ser de excelente qualidade e reconhecidos como os melhores pela sociedade e pelos empregadores e usuários dos serviços por eles prestados. Somos jovens, quando comparados com instituições milenares europeias, estamos no caminho da terceira década, mas nossa garra é peculiar deste tempo. Não temos medo dos desafios, sabemos que podemos crescer e oferecer as melhores opções no setor educacional em nossa cidade sede, em nosso Estado e nos lugares em que estivermos presentes com a nossa estrutura ou nossos serviços. Queremos salientar que este material de produção científica é fruto dos esforços dos nossos acadêmicos e professores e está estruturado para atender necessidades de informação e formação acadêmica. Da mesma forma, queremos agradecer pela confiança neste trabalho que você tem em mãos. A nossa credibilidade é você quem garante. Um grande abraço, e boa leitura. Reitores da UNIFACVEST Geovani Broering Soraya Lemos Erpen Broering NEAD – UNIFACVEST | 2 [Deixar em branco] Extensão 1: Universidade e Sociedade NEAD – UNIFACVEST | 3 APRESENTAÇÃO Olá, seja bem-vindo (a)! Este é o seu caderno da disciplina Extensão 1: Universidade e Sociedade, e nele você encontrará as principais informações para o desenvolvimento de seus estudos. A elaboração deste material foi concebida para instrumentalizar os acadêmicos do Centro Universitário Facvest – UNIFACVEST na prática dessa disciplina. Sua formatação está direcionada para a construção de uma percepção teórica e sócio-histórica da prática de extensão, amparando-se em seus respectivos marcos legais. Ao mesmo tempo, trata-se de um material que fornecerá subsídios conceituais que permitam a realização prática, a qual se refletirá em ações concretas. Tais ações são o foco principal da disciplina. Por esse motivo, o material procura apontar para algumas possibilidades de extensão, sem a pretensão de esgotar o repertório de propostas e estudos que só poderão ser executados no contexto real da prática acadêmica. Ressalta-se, portanto, que a execução final dependerá sempre das ações manejadas no cotidiano acadêmico entre professores e alunos. Bons estudos! Extensão 1: Universidade e Sociedade NEAD – UNIFACVEST | 4 EMENTA Definição, numa perspectiva histórico-filosófica, estudos referentes ao Centro Universitário e à Extensão Universitária e a sua função acadêmica e social. Analisa as concepções, a legislação e as tendências da Extensão nas Universidades Brasileiras. Aborda os procedimentos pedagógicos, metodológicos e técnico-científicos de projetos e atividades de extensão universitária, articulados ao ensino de graduação e à iniciação científica/Pesquisa. OBJETIVOS Entender a função e responsabilidade social da Universidade e particularmente da Extensão Universitária. Discutir o significado da Extensão Universitária em uma perspectiva articuladora com o Ensino e a Iniciação científica/Pesquisa, assim como suas implicações no processo de formação acadêmico-profissional e de transformação social. Elaborar e desenvolver atividades e projetos de Extensão Universitária numa abordagem multidisciplinar e interdisciplinar. Divulgar o conhecimento científico produzido às comunidades acadêmicas e grupos sociais. INTRODUÇÃO Intitulado Extensão 1 – Universidade e sociedade, este caderno propõe uma reflexão histórica e crítica a respeito da formação da extensão universitária no Brasil e no Mundo e busca também contextualizar a prática da extensão universitária com o presente, apresentando paradigmas teóricos e práticos para a criação de projetos que se relacionem com as contradições e desafios da formação profissional e da iniciativa científica nesta primeira metade do século XXI. Faremos uma visão panorâmica sobre o surgimento das universidades na História e seu desenvolvimento tardio no Brasil, bem como analisaremos o desenrolar do conceito de extensão universitária em diferentes decretos e marcos legais regulatórios a respeito do ensino superior no país. Passaremos também por uma reflexão sobre a responsabilidade social das universidades, vinculando este processo às práticas e estudos do centro universitário Unifacvest e à relação entre conhecimento científico e os diferentes grupos sociais. Para encerrar este primeiro caderno sobre extensão universitária apresentaremos algumas possibilidades de projetos interdisciplinares e metodologias de pesquisa vinculadas a Agenda 2030, da Organização das Nações Unidas, para a construção do desenvolvimento sustentável no Brasil. Bons estudos! 1. BREVE HISTÓRIADAS UNIVERSIDADES E DA EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA A história das universidades no Brasil é bastante recente em relação a outros lugares do mundo. Enquanto a Europa consolidou as universidades como instituição Extensão 1: Universidade e Sociedade NEAD – UNIFACVEST | 5 social de protagonismo nos séculos finais da Idade Média, sobretudo a partir do século XII, o Brasil, por sua vez, conheceu sua primeira universidade somente na primeira metade do século XX. É uma história que tem dois aspectos fundamentais: primeiro, como dito, é muito recente. O Segundo ponto que serve como fundamento para o debate sobre extensão universitária que faremos neste caderno diz respeito a dimensão social das universidades brasileiras, que durante grande parte de sua existência enquanto instituição foi acessada por uma parte minoritária da população brasileira. A ampliação do acesso ao ensino superior às classes populares é ainda mais recente e remonta as primeiras décadas do corrente século XXI. Para datarmos com maior precisão os argumentos anteriores vamos realizar um olhar panorâmico sobre a criação e extensão das universidades no Brasil, de forma que o desenvolvimento tardio do ensino superior brasileira fica ainda mais evidente. A primeira universidade brasileira foi construída apenas em 1920sob o decreto 14.343. Trata-se da tradicional Universidade do Rio de Janeiro e sua criação se relaciona com uma missão diplomática do país que receberia o rei da Bélgica para conceder a este o título de doutor honoris causa. Diploma da Escola Polytechnica da Universidade do Rio de Janeiro em 1928 Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Diploma_da_Escola_de_Engenharia_UFRJ.jpg Na América Latina há universidades consolidadas desde o século XVI, como a universidade São Marcos, no Peru e a Universidade do México, por exemplo. Ambas fundadas em 1551. No Brasil, além da Universidade do Rio de Janeiro, já citada, houve também a fundação da Universidade de São Paulo na década de 30 do século XX, muitos séculos depois destes exemplos de colonização espanhola. https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Diploma_da_Escola_de_Engenharia_UFRJ.jpg Extensão 1: Universidade e Sociedade NEAD – UNIFACVEST | 6 Após a década de 30 o Brasil intensifica o processo universitário e também da educação básica na chamada Era Vargas. Em 1931 é promulgado um importante decreto que regulariza a questão do ensino superior no país. É o Estatuto das Universidades Brasileiras que definia as orientações para a formação e unificação de faculdades em universidades oficiais, geridas pelo Estado, ou livres, geridas pela iniciativa privada. Neste período ainda não se discutia o conceito de extensão universitária. A instituição universitária consistia na formação e divulgação de pesquisas para as classes sociais minoritárias que tinham acesso as letras e a educação formal. A partir da década de 1930 as universidades passam a figurar nas fotografias das principais capitais brasileiras. A consolidação da extensão universitária tal como a conhecemos hoje, vinculando a relação do conhecimento científico à comunidade é algo que remonta a organização dos profissionais da educação já nos idos da década de 1960. Mas antes de iniciarmos a descrição desse desenvolvimento é importante discutir sobre o conceito de extensão universitária e a formação histórica desta ideia. Para pensar a extensão universitária no Brasil é necessário que estejamos atentos a função social do conhecimento científico. Para quê e para quem servem as universidades? Qual a capacidade de reprodução e/ou transformação da vida social nos oferecem os bancos universitários? Como se relacionam o saber e o poder? O conhecimento tradicional e popular é compatível com o saber acadêmico? As práticas cotidianas constituem campo de reflexão e atuação entre os acadêmicos do Brasil? Essas e outras perguntas acerca das relações sociais e/na produção do conhecimento estão intrínsecas a discussão que faremos neste caderno sobre extensão universitária no Brasil. A universidade é hoje constituída de três características concomitantes para seu Extensão 1: Universidade e Sociedade NEAD – UNIFACVEST | 7 funcionamento: Ensino, Pesquisa e Extensão. Para que o ensino atinja efetividade é necessário que se efetuem pesquisas para a produção do saber e apropriação do conhecimento. O conhecimento, no entanto, não adquire sentido quando não é socialmente compartilhado. E é na socialização do saber produzido por diferentes grupos sociais e áreas do conhecimento que se estabelece a extensão universitária. Diz respeito à produção científica das universidades e sua relação com a sociedade em que se insere. Tanto para transformá-la, quanto para reproduzi-la em suas contradições, a depender do enfoque admitido pela extensão universitária. O início da ideia de extensão universitária remonta à Europa do século XIX e à consolidação gradual do sistema capitalista no mundo. Neste tempo histórico as transformações do mundo tecnológico e social através da revolução industrial já havia se tornado uma realidade material em grande parte do globo. E com estas transformações, também as suas contradições. Em um mundo marcado por uma produtividade nunca antes vista, com ampliação das indústrias e mercados, houve também uma reorganização da vida social no espaço urbano e a divisão da sociedade em duas principais classes sociais que vivenciavam a dinâmica das sociedades fabris: a burguesia, dona dos meios de produção (as fábricas, as terras, etc.) e o operariado, dona da força de trabalho. Esta sociedade profundamente marcada pela desigualdade social e econômica nas cidades possui contradições que se não mediadas pelo Estado e suas instituições, pelas classes dominantes e seus representantes e pela luta dos dominados, dos excluídos e dos marginalizados. É nesse contexto, no seio destas contradições que surge a extensão universitária. Ferro e Carvão, de William Bell Scott (1855-60). Cotidiano dos trabalhadores no período da revolução industrial. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Revolu%C3%A7%C3%A3o_Industrial#/media/Ficheiro:William_Bell_Scott_- _Iron_and_Coal.jpg https://pt.wikipedia.org/wiki/Revolu%C3%A7%C3%A3o_Industrial#/media/Ficheiro:William_Bell_Scott_-_Iron_and_Coal.jpg https://pt.wikipedia.org/wiki/Revolu%C3%A7%C3%A3o_Industrial#/media/Ficheiro:William_Bell_Scott_-_Iron_and_Coal.jpg Extensão 1: Universidade e Sociedade NEAD – UNIFACVEST | 8 Os primeiros movimentos da extensão universitária na Inglaterra do século XIX, por exemplo, estavam relacionados a estes grupos sociais marginalizados pelo sistema capitalista e configuraram-se de diferentes formas. É nesse contexto que: O Estado e outras instituições responsáveis pela manutenção da ordem social despertaram para a necessidade de oferecer políticas capazes de atender/neutralizar reivindicações operário-populares, que também as universidades se voltaram, de fato, para a questão social, inicialmente, e, depois, para um amplo conjunto de campos e interesses, que vão da educação de jovens e adultos às políticas públicas de saúde e tecnologias à prestação de serviços, da produção cultural ao monitoramento, avaliação de políticas públicas, entre muitas outras atividades. (DE PAULA, p. 9, 2013). As mudanças sociais que levaram os camponeses para a cidade e os trabalhadores das manufaturas para o chão de fábrica, como operários, fizeram com que a universidades também se transformassem. Era impossível que as instituições de ensino e a intelectualidade pudessem passar ilesas pelas transformações que afetaram toda a vida social na Europa e no mundo a partir da revolução industrial. Esta nova classe social, o operariado, que formava a imensa maioria dos habitantes das sociedades industriais, vivia em condições insalubres nos centros urbanos. Com jornadas de trabalho de 14 a 16 horas diárias e tendo em suas fileirastrabalhadores a partir de 5 anos de idade, esta classe começou a protagonizar uma série de revoltas e lutas sociais no seio da sociedade capitalista (DE PAULLA, 2013). A comuna de paris de 1871, por exemplo, foi a primeira vez que os trabalhadores decidiram protagonizar o destino construindo uma tomada de poder e lutar pela distribuição das riquezas e dos direitos produzidos na sociedade industrial. Para tanto, baseavam-se nos ideais socialistas e anarquistas, que propunham uma revolução social baseada na luta entre as classes sociais do operariado e da burguesia. Extensão 1: Universidade e Sociedade NEAD – UNIFACVEST | 9 Barricade The Paris Commune May, 1871. AndreDevambez, 1911. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Barricade-the-paris-commune-may-1871-andre-devambez- 677166a1.jpg Para intervir nesta realidade social de desigualdade e ao mesmo tempo evitar o aprofundamento das revoltas e dos ideais revolucionários, a universidade e outras instituições, como a igreja católica, iniciam uma série de programas de assistência social junto aos grupos subalternos da sociedade industrial. A alfabetização da classe operária e a cientifização das sociedades fabris são marcas desse olhar das universidades para o campo social através da extensão universitária no século XIX. No Brasil dos anos 1960 o conceito de extensão universitária se pauta no interior de uma série de lutas pela democratização do acesso ao conhecimento científico, por um lado e da incorporação dos saberes populares às universidades, por outro. Esteve diretamente associada a luta por direitos para a população. Em 1964 com o advento do golpe militar que afastou do poder o presidente João Goulart as contradições da sociedade brasileira não estiveram concentradas apenas no campo político institucional. Todas as esferas da sociedade estiveram povoadas por disputas por direitos que vinham sendo consolidados pelas reformas populares de João Goulart e dos movimentos sociais e pela organização dos trabalhadores e intelectuais de diversos campos sociais. Segundo Moacir Gadotti (2017) a extensão universitária nesta década foi fruto da mobilização de alguns movimentos sociais como a UNE – União nacional dos estudantes, que com o projeto UNE Volante propunham caravanas de estudantes pelo Brasil para https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Barricade-the-paris-commune-may-1871-andre-devambez-677166a1.jpg https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Barricade-the-paris-commune-may-1871-andre-devambez-677166a1.jpg Extensão 1: Universidade e Sociedade NEAD – UNIFACVEST | 10 conscientizar a população sobre os seus direitos. É também parte desse período de articulação política a criação do Movimento de Cultura Popular (MCP), o Movimento de Educação de Base e a experiência do educador Paulo Freire na Universidade de Recife, com o Serviço de Extensão Cultural. Paulo Freire 1 Fotografia de 1977. Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Paulo_Freire_1977.jpg Paulo Freire é tido como um dos maiores educadores mundiais, sendo o intelectual brasileiro mais citado em trabalhos científicos ao redor do mundo. Pedagogo, criou um modelo pioneiro de extensão universitária no país e um método de alfabetização que utilizava os saberes populares como base estrutural da construção do conhecimento. Uma das experiências que consagraram o trabalho do Seviço de Extensão Cultural dirigido por Freire foi a de Angico, no sertão do Rio Grande do Norte. Na ocasião Freire e seu grupo de professores alfabetizaram cerca de 300 trabalhadores rurais em 40 horas. Para Freire, segundo Gadotti (p. 2, 2017), a experiência popular de extensão universitária defendida pelo educador “significa troca de saberes acadêmico e popular que tem por consequência não só a democratização do conhecimento acadêmico, mas, igualmente, uma produção científica, tecnológica e cultural enraizada na realidade”. Essa experiência de alfabetização e extensão como troca de saberes populares e científicos é uma ilustração muito efetiva do contexto de extensão universitária ligada a lutas por direitos na primeira década da ditadura militar. Vivida em 1963 pode, ainda assim, jogar luz sobre metodologias e intencionalidades dos projetos que podemos articular de acordo com as necessidades e sabedorias populares da atualidade. Abaixo, segue uma dica de documentário sobre a experiência de Freire em 1963: Extensão 1: Universidade e Sociedade NEAD – UNIFACVEST | 11 Disponível no youtube, o documentário 40 horas na memória, produzido pela Universidade Federal Rural do Semi-Árido, remonta e celebra o projeto pioneiro de Paulo Freire na alfabetização de Jovens e Adultos. Produzido em 2013 o audiovisual comemorou os 50 anos da experiência do Serviço de Extensão Cultural idealizado pelo educador. Link do documentário: https://www.youtube.com/watch?v=PkN97kOriJc Em 1968 surge o primeiro marco legal efetivo da extensão universitária. Trata-se da lei 5.540/68 que regula a relação entre a produção do conhecimento acadêmico e a necessidade de transmissão desta sabedoria formal para a população. Veja o artigo 20 desta resolução, que sintetiza a concepção adotada, no quadro abaixo: “as universidades e as instituições de ensino superior estenderão à comunidade, sob a forma de cursos e serviços especiais, as atividades de ensino e os resultados da pesquisa que lhe são inerentes” Lei 5.540/68. Artigo 20. Resultado de experiências e embates no campo da educação, como vimos, este marco legal estabelece o conceito tradicional de extensão universitária, ou seja: uma forma de estender o conhecimento científico até as populações que não acessavam as instituições de ensino superior. Durante o regime militar Paulo Freire foi preso por 72 dias em 1964 e depois forçado ao exílio por ser considerado um subversivo. A repressão ao pensamento crítico, às organizações estudantis e de trabalhadores são uma marca do período que vai de 1964 a 1985, de forma que a censura e o aparelhamento militar das universidades foram intensas. Com o fim da ditadura em 85, uma série de intelectuais e movimentos saem da clandestinidade e do exílio e passam a disputar os formatos e experiências de uma educação democrática. A extensão universitária não passa incólume a este processo e a https://www.youtube.com/watch?v=PkN97kOriJc Extensão 1: Universidade e Sociedade NEAD – UNIFACVEST | 12 criação do Fórum Nacional de Pró-Reitores de Extensão das Universidades Públicas Brasileiras, em 1987, marcam um retorno a concepções mais críticas de extensão universitária. Hoje denominada FORPROEX (Fórum de Pró-Reitores de Extensão das Instituições de Educação Superior Públicas Brasileiras) esta organização compreende a extensão universitária como um processo dinâmico e democrático. Veja no quadro abaixo as diretrizes desta concepção, segundo Moacir Gadotti (p. 2, 2017): a Extensão Universitária foi entendida como um processo educativo, cultural e científico que articula o Ensino e a Pesquisa de forma indissociável e viabiliza a relação transformadora entre Universidade e Sociedade. Para o FORPROEX, A Extensão Universitária é "uma via de mão-dupla" entre Universidade e sociedade. O saber acadêmico e o saber popular se reencontravam. GADOTTI, Moacir. Expensãouniversitária : Para quê?. 2017 Com a redemocratização do país outros marcos legais foram se tornando fundamentais para a compreensão do papel social das universidades e da extensão universitária no Brasil. A própria constituição promulgada em 1988, chamada de constituição cidadã, em em 1996 a criação das Leis de Diretrizes e Bases da educação dão o tom de uma nova etapa da história nacional e da educação concomitantemente. A LDB de 1996 (Lei 9.394/96) estabelece a indissociabilidade entre as três funções obrigatórias das universidades: o ensino, a pesquisa e a extensão. Configura a extensão universitária como um processo que envolvea comunidade e a universidade em uma troca de saberes e em busca de soluções para as contradições e necessidades do país. É nessa perspectiva que se deve pensar os projetos de extensão que se faz durante a trajetória acadêmica, como veremos mais adiante. Para organizar seus estudos vamos dialogar com o artigo do professor João Antônio de Paula (2013) e sistematizar a extensão universitária no Brasil em 3 grandes etapas, como você pode conferir no quadro abaixo: 1. A anterior a 1964, cuja centralidade foi dada pela campanha pela Escola Pública e pela aproximação com o movimento das Reformas de Base, a partir de obra e de prática de Paulo Freire 2. A etapa que vai de 1964 a 1985, polarizada pela emergência e demandas dos movimentos sociais urbanos 3. A terceira etapa corresponde ao período pós-ditadura e se caracteriza pela emergência de três grandes novos elencos Os três novos elencos citados no artigo dizem respeito aos movimentos sociais urbanos e rurais; a ampliação do conceito de cidadania incorporando novos grupos e sujeitos sociais; e as demandas do setor produtivo, tecnológico e de serviços para o desenvolvimento nacional (DE PAULA, 2013, p. 19/20). Extensão 1: Universidade e Sociedade NEAD – UNIFACVEST | 13 Já no século XXI a extensão universitária passa a ser defendida como parte do currículo formativo dos acadêmicos. Este caderno e os projetos que você defenderá junto aos professores da UNIFACVEST estão neste ínterim como resultado de um longo processo histórico como temos visto aqui. As diretrizes legais de forma detalhada você verá no Caderno 2 – Mídia eCidadania, escrita pelo professor da instituição Rafael Araldi Vaz. No entanto, veja abaixo uma cronologia da curricularização da extensão universitária para contextualizar a discussão: Plano Nacional da Educação (PNE) 2001 – 2010: Obrigatoriedade de 10% dos créditos curriculares exigidos para a graduação, integralizados em ações extensionistas. Plano Nacional da Educação (PNE) 2014 – 2023: Assegurar, no mínimo, 10% (dez por cento) do total de créditos curriculares exigidos para a graduação em programas e projetos de extensão universitária, orientando sua ação, prioritariamente, para áreas de grande pertinência social. Resolução nº 7 - 2018: As atividades de extensão deverão fazer parte da matriz curricular dos cursos, compondo o mínimo de 10% do total da carga horária do curso. Compreende-se que a interação entre pesquisa-iniciação científica e ensino se dará no interior dos componentes curriculares oferecidos na grade curricular de cada curso. É de acordo com as normas e diretrizes acima citadas que a UNIFACVEST constrói seus projetos de extensão universitária, ou seja: articulando os projetos de extensão às demandas sociais nas quais está inserida, vinculando de forma conjunta e indissociável o ensino, a pesquisa e a extensão. Os trabalhos de iniciação científica na área de extensão devem envolver, portanto, coleta e análise de dados, divulgação e publicação. Para realizar os projetos de extensão universitária durante sua trajetória no ensino superior, vamos apresentar a seguir algumas ideias consolidadas internacionalmente para a construção de um futuro com equilíbrio social e sustentabilidade e que podem servir como uma orientação nas suas produções acadêmicas para além dos muros da universidade. Nossa intenção é que ao mesmo tempo em que os conhecimentos adquiridos na sua área de formaçãopossam ser levados para diálogo com a comunidade, você possa também fazer de forma transversal e interdisciplinar um diálogo com as demandas e sabedorias populares. Para tanto, fique atento as resoluções da agenda 2030 estabelecidas pela ONU – Organização das Nações Unidas – como objetivos e desafios contemporâneos do Brasil nesta década. Elas serão apresentadas nas reflexões a seguir. 2. PROJETO INTEDISCIPLINAR DE EXTENSÃO E AGENDA 2030 Você verá no caderno 2 de extensão que nas diretrizes da resolução nº7 de 2018, que regulam a extensão universitária no interior do currículo formativo, que os projetos Extensão 1: Universidade e Sociedade NEAD – UNIFACVEST | 14 de extensão devem ter uma série de compromissos com a melhora da sociedade em que vivemos e com a transformação e superação das desigualdades e desequilíbrios. Entendemos que a Agenda 2030 podem ser objetivos que orientem o plano de ação que os acadêmicos e professores devem desenvolver no decorrer dos semestres. Antes de apresentar os 17 objetivos globais para a erradicação da pobreza e pela sustentabilidade do planeta é importante frisar que a agenda 2030 aqui é uma provocação para despertar ideias e motivações para professores e acadêmicos e não um pressuposto para ser seguido acriticamente. É no decorrer das aulas, diálogos, debates, com o corpo acadêmico, os estudos e a comunidade que os projetos serão construídos. A agenda é uma construção assinada pelo Brasil e por outros 192 países que compõem a Organização das Nações Unidas. No Brasil a agenda tem 17 objetivos ambiciosos para a construção de um país mais justo e sustentável. Estes objetivos foram estabelecidos de acordo com as necessidades de uma realidade social marcada por desigualdades históricas e estruturais no campo econômico, de gênero, racial e ambiental. Entendemos que a universidade deve contribuir para que a sociedade caminhe em direção da resolução destes objetivos. Evidentemente que os acadêmicos da UNIFACVEST devem pensar a transformação da realidade a partir de seu próprio universo de experiência. É nos bairros, grupos sociais e demais comunidades com os quais se relacionam que os estudantes devem construir seus projetos de extensão, articulando os desafios locais com os desafios globais. Para tanto, é necessário que se desenvolva um plano de ação, uma metodologia de pesquisa, um corpo teórico que fundamente a sua atuação, como veremos mais detalhadamente a seguir e no caderno 2. Observe abaixo quais são os objetivos aglutinadores desta agenda global no Brasil: 1.Erradicação da Pobreza; 2. Fome zero e agricultura sustentável; Saúde e bem-estar; 4. Educação de qualidade; 5. Igualdade de Gênero; 6. Água potável e saneamento; 7. Energia limpa e acessível; 8. Trabalho decente e crescimento econômico; 9. Indústria, inovação e infraestrutura; 10. Redução das desigualdades; 11. Cidades e comunidades sustentáveis; 12. Consumo e produção responsáveis; 13 Ação contra a mudança global do clima; 14. Vida na água; 15 Vida terrestre; 16. Paz, justiça e instituições eficazes; 17. Parcerias e meios de implementação. Extensão 1: Universidade e Sociedade NEAD – UNIFACVEST | 15 Estes objetivos devem ser articulados de acordo com a área de formação do acadêmico. A articulação de ensino, pesquisa e extensão deve permear todo o projeto, portanto os conteúdos estudados durante a realização das disciplinas do semestre devem aparecer nos projetos junto à comunidade. Para fundamentar teoricamente um projeto que dialoga com estes objetivos, o site da Agenda 2030 traz uma série de reflexões sobre cada um destes temas.1 Cada projeto deve ser produzido de acordo com os formulários de extensão estabelecidos pela instituição, pela ementa da disciplina e devem preencher os tópicos abaixo: Título Área de conhecimento Objetivo geral Objetivos Específicos Justificativa Metodologia Local de realização Os projetos de extensão devem ser construídos de acordo com as Diretrizes da Extensão na Educação Superior e devem ser estruturadas de acordo com estas principais características (BRASIL, 2018): 1. A interação dialógica da comunidade acadêmica com a sociedade; 2. A formação cidadã dos estudantes; 3. A produção de mudanças na própria instituição superior e nos demais setores da sociedade; 4. Articulação entre ensino/extensão/pesquisa Enquanto o projeto é realizado a partir de uma relação de interesses e conhecimento prévios do estudantea respeito da comunidade com que pretende atuar e do conteúdo sobre o qual pretende atuar, o relatório de extensão, por sua vez, deve ser constituído de percepções acerca do trabalho realizado levando em conta os dados levantados com pesquisa, os resultados das ações promovidas, a amplitude do projeto. Toda a análise da ação que compõe o relatório deve ser feita de maneira científica, com rigor metodológico e fundamentação teórica. Pegando como exemplo um projeto que trabalhe a questão ambiental, em diferentes áreas do conhecimento, é possível dialogar com diversos temas da agenda de 1 Site: https://brasil.un.org/pt-br/sdgs https://brasil.un.org/pt-br/sdgs Extensão 1: Universidade e Sociedade NEAD – UNIFACVEST | 16 forma concomitante. Se o assunto que o acadêmico pretende trabalhar diz respeito a mudanças climáticas e aquecimento global, é possível articular este tema com as mais variadas áreas do conhecimento e estabelecer um enfoque especial, como por exemplo: hábitos culturais que contribuem para a preservação ambiental, reciclagem, análise de territórios e produção de resíduos, divulgação de tecnologias artesanais, possibilidades de reciclagem, material com dicas para a população sobre uso da água. Aliado a um projeto de ação é possível fazer uma pesquisa junto à comunidade, que pode ser qualitativa ou quantitativa. Os diferentes formatos de extensão universitária, bem como as diferentes mídias possíveis de serem utilizadas nos projetos serão apresentadas de forma minuciosa no segundo caderno e certamente permitirão que o acadêmico construa uma relação entre o conhecimento científico e as necessidades da população para transformar a realidade. CONSIDERAÇÕES FINAIS Vimos que a extensão universitária tal como a entendemos hoje foi um processo social e histórico longo de disputas no seio da sociedade brasileira. Entendemos as peculiaridades do Brasil na História da educação superior em relação a Europa e a América latina e discutimos a necessidade da extensão universitária estar vinculada a um compromisso ético com todo o corpo social. Entendemos que a extensão universitária não trata-se somente de levar o conhecimento para além dos muros da universidade, mas dialogar com a população com base nas diferentes sabedorias e demandas sociais de forma a intervir coletivamente no processo de desenvolvimento sustentável das regiões e coletivos humanos em que estamos inseridos. Este caderno é o início de uma grande jornada na relação entre a ciência e a vida em sociedade que os acadêmicos terão ainda durante toda a sua formação superior. Todas as ações que envolvem essa curricularização da extensão universitária deve servir para a formação da cidadania, com criticidade, conhecimento das causas em que atuam os envolvidos no processo e que se dará durante toda a vida, durante e depois de completar a graduação. Todo o conhecimento produzido no ensino superior está inserido em contextos de conquistas individuais que alteram a vida de quem completa este ciclo importante e repleto de desafios. Mas além destas conquistas profundas e fundamentais em nossas vidas, nossas comunidades precisam acompanhar estas conquistas e é nesse processo de intervenção e diálogo com a sociedade que o conhecimento que adquirimos passa a possuir sentido e significado. Esperamos que este caderno lhe ajude a compreender os desafios, bem como colabore com resultados práticos e efetivos na vida de todos os envolvidos. O diálogo apenas inicia nas palavras que aqui se apresentam, mas devem ser ampliados na relação entre professores, tutores e acadêmicos para a formação de projetos e relatórios com capacidade crítica, intenção solidária, vivência cientifica e fraterna. Os desafios sanitários, sociais e econômicos que compõem o cenário desta Extensão 1: Universidade e Sociedade NEAD – UNIFACVEST | 17 primeira metade do século XXI são gigantescos e sem a contribuição da universidade não há perspectiva de um futuro mais justo, livre e igualitário como prega a nossa constituição federal de 1988. Portanto, vamos ao trabalho! REFERÊNCIAS BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. 2018. BRASIL. Ministério da Educação. Resolução CNE/CES nº 7, de 18 de dezembro de 2018, que estabelece as Diretrizes para a Extensão na Educação Superior Brasileira e regimenta o disposto na Meta 12.7 da Lei nº 13.005/2014. Disponível em: http://mec.gov.br. acesso em: 29 de março de 2021. COSTA, Aryana Lima. 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