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RELAÇÕES TRANSFERENCIAIS 
AULA 2 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof.ª Marianne Bonilha 
 
 
 
 
 
 
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CONVERSA INICIAL 
No texto Psicanálise silvestre ou selvagem, de 1910, Freud escreve que 
em psicanálise “Usamos a palavra ‘sexualidade’ no mesmo sentido 
compreensivo que aquele em que a língua alemã usa a palavra Lieben [‘amar’]” 
(Freud, 1996 [1910], p. 234). Já em uma carta a Jung, de 6 de dezembro de 
1906, Freud escreve que “Poder-se-ia dizer que a cura [psicanalítica] é 
essencialmente efetuada pelo amor”. Essas afirmações freudianas são 
fundamentadas no papel que a transferência ocupa na relação analítica, pois a 
transferência tem a ver com o amor, com nossa forma de amar, de demandar 
amor do outro e de ser amado. 
Nesta abordagem, iniciaremos destacando a noção de que a transferência 
não é tão somente negativa quanto possa ter parecido pelas abordagens 
freudianas tratadas anteriormente em nossos estudos, isto é, ela se configura 
como uma importante via de acesso ao inconsciente do sujeito, à medida que o 
atualiza, para além das palavras do analisando, em ato, no presente. Em 
seguida, iremos nos deter sobre o conceito de neurose de transferência, para 
que possamos compreender o grau de interferência que o dispositivo analítico 
aciona no que diz respeito à economia subjetiva do sujeito em análise. 
Em diversos momentos, vamos fazer referência a alguns textos 
freudianos, mas um em especial, importante para a temática da transferência: 
Observações sobre o amor transferencial, de 1915. Nele são feitas 
recomendações sobre a técnica e a ética do psicanalista, e Freud nomeia a 
transferência como amor, além de especificar o tipo de resposta que o analista 
oferece para esse amor que lhe é endereçado. Trataremos, então, de um dos 
temas de maior complexidade no que diz respeito à técnica psicanalítica e que 
é o manejo da transferência na situação analítica. 
Na sequência, o enfoque será dado naquilo que para Freud constituía o 
grande obstáculo contra a aplicação da psicanálise em casos de psicose, 
veremos que a principal objeção se dará justamente em torno da questão da 
transferência, em função da introversão da libido em quadros de psicose em 
direção ao próprio eu. A relação dessa afecção com a alteridade será mais 
gravemente prejudicada, em comparação com a neurose, em virtude da libido 
se retirar dos objetos do mundo externo em direção ao eu, como vimos 
anteriormente em nossos estudos, o que implica num decréscimo considerável 
para o estabelecimento da transferência. 
 
 
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Por fim, veremos algumas breves considerações sobre um conceito não 
tão explorado por Freud quanto por alguns dos pós-freudianos, que é o conceito 
de contratransferência. Com base em Freud, veremos que se trata de algo a ser 
resolvido na análise pessoal do próprio analista. 
TEMA 1 – ATUALIZAÇÃO DO INCONSCIENTE 
O termo Übertragung, traduzido como “transferência”, é um conceito 
fundamental em psicanálise, e vimos anteriormente como ele participa da própria 
fundação da psicanálise. Nesta, não se trata apenas de repetir ou rememorar, 
mas de elaborar, isto é, de criar condições para que, mediante a repetição deste, 
abra-se espaço para o novo. 
Mas o que é, de fato, a transferência? Podemos pensá-la, a grosso modo, 
como “um laço afetivo intenso, que se instaura de forma quase automática e 
independente da realidade” (Maurano, 2006, p. 16), de alguém que procura um 
analista para com este. Trata-se, no entanto, de um laço, em grande medida, 
inconsciente, em que sentimentos afetuosos se combinam com hostis, conforme 
vimos ao tratarmos do conceito de ambivalência. 
Ao analista será creditado ocupar no presente um lugar que para o sujeito 
fora antes ocupado por outras figuras significativas na organização de sua libido, 
isto é, de seu desejo, e o antigo padrão de relacionamento desse sujeito com 
esses objetos de desejo deverá se repetir em ato, no presente. Na pessoa do 
analista, portanto, “encontra-se coagulado àquilo que o sujeito espera do Outro 
a quem ele se dirige” (Maurano, 2006, p. 16); e o que ele espera? 
O que esperamos quando nos dirigimos a alguém? O mínimo que 
esperamos é que nos compreenda e que, ao nos compreender, nos responda 
nessa medida, nos satisfaça; em poucas palavras, que nos ame. A transferência, 
portanto, atualiza um estado de coisas inconsciente, pois coloca em ato as 
posições neuróticas e infantilizadas que o sujeito ocupa diante do outro em sua 
demanda de amor. 
É como se o sujeito se mantivesse engessado em certos estereótipos 
que se reeditam a cada nova relação que estabelece, do tipo: “Sou o 
coitadinho e ninguém me ama, portanto você também não me amará.”. 
Ou: “Sou aquele que acerta sempre e fico, portanto, aguardando seus 
aplausos.”. Ou ainda: “Sou sempre o injustiçado e, com você, sei que 
a injustiça se repetirá.”. E assim sucessivamente, aparecendo em 
incontáveis situações. O sujeito encontra-se preso numa trama que 
toma equivocadamente a designação de destino, de sina, de encosto, 
de carma —, conforme as crenças de cada um. (Maurano, 2006, p. 17) 
 
 
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Segundo Freud, “Qualquer linha de investigação que reconheça” a 
resistência e a transferência “e os tome como ponto de partida de seu trabalho 
tem o direito de chamar-se psicanálise, mesmo que chegue a resultados 
diferentes dos meus” (Freud, 1996 [1914], p. 26). 
Ele partiu de uma concepção do tratamento que preconizava o acesso ao 
conteúdo recalcado, mas vai se deslocando progressivamente do mero acesso 
e comunicação desses conteúdos para aquilo que verdadeiramente os impedia 
de disputar sua influência no seio da consciência do sujeito, isto é: a resistência. 
O elemento quando recalcado fica, com isso, fora do raio da consciência, de 
modo que as forças repressoras (ou anticatexias) não se confrontam com ele de 
igual para igual. 
Como vimos, quando cessam as associações livres do sujeito em função 
da resistência, é a transferência que passa ao ato, presentificando, desta forma, 
uma dimensão viva da experiência psicanalítica, para além das palavras. 
Quando na associação livre, regra fundamental do método psicanalítico, a 
cadeia associativa significante sucumbe em função das resistências que se 
interpõem, o sujeito atua sua realidade psíquica inconsciente na sua conduta, 
daí Freud aproximar a transferência do acting out em Recordar, repetir e 
elaborar, de 1914. 
Ora, se o que se deseja, do ponto de vista de uma análise, é acessar o 
reprimido, aquilo que ficou represado e que promove a regressão ao infantilismo 
no modo do sujeito agir, e trazê-lo à tona para a consciência, nada mais propício 
que as manifestações transferenciais. Logo, não se trata de um fenômeno a ser 
evitado, já que configura um acesso privilegiado ao modo de agir inconsciente 
do sujeito. Sobre os psicoterapeutas que não suportam escutar o que lhe é 
transferido e se autorizam a suprimir essas manifestações, no texto Observações 
sobre o amor transferencial (Novas recomendações sobre a técnica da 
psicanálise III), de 1915, Freud adverte: 
Instigar a paciente a suprimir, renunciar ou sublimar seus instintos, no 
momento em que ela admitiu sua transferência erótica, seria, não uma 
maneira analítica de lidar com eles, mas uma maneira insensata. Seria 
exatamente como se, após invocar um espírito dos infernos, mediante 
astutos encantamentos, devêssemos mandá-lo de volta para baixo, 
sem lhe haver feito uma única pergunta. Ter-se-ia trazido o reprimido 
à consciência, apenas para reprimi-lo mais uma vez, um susto. Como 
sabemos, as paixões pouco são afetadas por discursos sublimes. A 
paciente sentirá apenas humilhação e não deixará de vingar-se por ela. 
(Freud, 1996 [1915], p. 181) 
 
 
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Sobre a transferência como atualização do inconsciente, importa ainda 
observar um ponto que comumente se volta para a psicanálise em forma de 
crítica, principalmente por aqueles que poucoa conhecem, o de que ela concebe 
o funcionamento psíquico muito atrelado ao passado, que só fala de passado, e 
que não considera o presente, o famoso “aqui e agora”, ou a perspectiva de 
futuro. Por tudo isso que estivemos vendo acerca da transferência, não se pode 
dizer que se trata apenas de passado pura e simplesmente, mas de presente e 
de expectativa de futuro, condicionadas ao passado, é verdade, mas um 
passado manifesto e atualizado no presente. 
TEMA 2 – A NEUROSE DE TRANSFERÊNCIA 
O estabelecimento de uma relação transferencial, segundo Freud, implica 
em uma situação virtual, na qual a pessoa do analista começa a ter um papel na 
economia psíquica daquele que o procura, sem que algo de real o justifique. O 
analista vai então progressivamente sendo inserido na neurose, como fica claro 
no caso de Anna O. O analista não sabe, de início, muito bem o porquê, qual 
traço ou característica seus podem ter facilitado essa transferência para sua 
pessoa e, em geral, via de regra, são coisas bem imprevisíveis e até curiosas, 
que fazem parte das fantasias do analisando. 
A instauração da neurose de transferência é uma condição para o 
tratamento analítico, trata-se da neurose do analisando agora transferida e 
reproduzida na própria situação analítica. Importante notar que a transferência 
acontece nas mais diversas relações, não apenas na análise. 
Ela acontece, por exemplo, quando uma mulher toma seu marido por seu 
pai, ou quando estabelecemos relações de concorrência com semelhantes, 
como se estivéssemos numa relação fraterna e concorrente entre irmãos. A 
grande diferença é que em psicanálise isso é parte conhecida e esperada no 
processo, pelo analista, que sabe das relações transferenciais e em vez de 
respondê-las das maneiras mais desencontradas e conflituosas, ele as 
interpreta, para que o sujeito possa, além de repetir, rememorar, e só então 
elaborar. 
Para tanto, é necessário renovar o conflito, isto é, que o analisando não 
apenas rememore seus padrões neuróticos, mas que os reviva em ato na 
experiência da transferência em análise, conectados aos seus afetos, em que 
 
 
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podem ser acolhidos como tais e assim ser articulados de outro modo, 
possibilitando ao sujeito outras formas de se relacionar consigo e com o outro. 
Para poder trabalhar, é fundamental que o analista saiba em que lugar 
está sendo colocado pelo analisando. Que uso este está fazendo dele, 
em sua organização subjetiva. É da posição que lhe é dada pela 
transferência que o analista pode analisar, interpretar, enfim, intervir 
sobre a própria transferência. (Maurano, 2006, p. 24) 
Assim, a análise se dá mediante o estabelecimento da neurose de 
transferência, mas o analista não visa introduzir uma neurose “a mais” na vida 
da pessoa à toa, para se alimentar dela. Na realidade, ele não instala nada, pois 
ela se instala sozinha, a partir da fantasia do próprio analisando, e essa 
característica espontânea é imprescindível para que se possa ter informações 
acerca da fantasia do próprio sujeito. Vimos no texto Observações sobre o amor 
transferencial que, tal como não se deve suprimir essas manifestações, como 
citado anteriormente, Freud também não recomenda que o analista as instigue. 
Chegou a meu conhecimento que alguns médicos que praticam a 
análise preparam frequentemente suas pacientes para o surgimento 
da transferência erótica ou até mesmo as instam a ‘ir em frente a 
enamorar-se do médico, de modo que o tratamento possa progredir’. 
Dificilmente posso imaginar procedimento mais insensato. Assim 
procedendo, o analista priva o fenômeno do elemento de 
espontaneidade que é tão convincente e cria para si próprio, no futuro, 
obstáculos difíceis de superar. (Freud, 1996 [1915], p. 179) 
Mas como manejar essa situação? Como livrar o analisando de sua nova 
neurose, a neurose de transferência? Sim porque a psicanálise, devemos insistir 
nisso, não visa a manutenção do analista como um ego exterior do sujeito, ou 
uma razão a quem o indivíduo deva sempre recorrer, ela visa antes emancipar 
o sujeito tanto quanto possível de sua sobre determinação inconsciente, restituir-
lhe a porção de sua libido subtraída pelo sintoma, bem como sua autonomia de 
sujeito. A transferência precisa ser manejada para que o destino da influência do 
analista sobre o analisando, como veremos, seja desaparecer. 
TEMA 3 – O MANEJO DA TRANSFERÊNCIA 
Uma das diferenças mais fundamentais entre a psicanálise e outras 
práticas psicoterápicas diz respeito ao manejo que se faz da transferência. Não 
se trata do tipo de coisa que se possa colocar em uma lista esquemática, não 
cabe em um livro, não há como enumerar as milhares de situações e formas 
possíveis em que a transferência pode emergir e como se deve fazer em cada 
 
 
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uma delas, mas existe, sim, um norte, uma ética que norteia o manejo da 
transferência a nível estratégico. 
Contudo, deve se estar preparado para lidar com algo delicado. Segundo 
Freud, “O psicanalista sabe que está trabalhando com forças altamente 
explosivas e que precisa avançar com tanto cautela e escrúpulo quanto um 
químico” (Freud, 1996 [1915], p. 187). Essas forças inflamáveis representam os 
maiores riscos e obstáculos e, ao mesmo, são o motor do trabalho analítico. 
 Aquilo que solapa as relações do sujeito e empobrece suas interações 
amorosas e produtivas, quando atualizado com o analista, em um ambiente 
seguro e acolhedor, e desta vez em idade já mais madura, em que seu ego talvez 
já não seja tão vulnerável quanto o era na época em que se estabeleceram 
determinados padrões de funcionamento, pode agora ser interpretado, e a libido 
em jogo na parcela de satisfação que o sintoma condensa pode ser 
progressivamente restituída, ficando à disposição da pessoa para novas formas 
de investimento. 
O próprio analista, como representante do inconsciente do analisando, ao 
ser transferencialmente colocado como pivô da cena inconsciente, oferecerá 
satisfações substitutas como a própria possibilidade de interpretação do 
inconsciente, em vez das satisfações sintomáticas já experimentadas, já 
conhecidas e que se repetem. Com isso, a organização libidinal do analisando, 
viciada em sintomas que o satisfazem impondo uma série de dissabores, tem 
seu rol de possibilidades aumentada e diversificada. No texto Observações 
sobre o amor transferencial, Freud é claro quanto ao regime em que o tratamento 
deve ser leva a cabo: 
Já deixei claro que a técnica analítica exige do médico que que ele 
negue à paciente que anseia por amor a satisfação que ela exige. O 
tratamento deve ser levado a cabo na abstinência. Com isto não quero 
significar apenas a abstinência física, nem a privação de tudo que a 
paciente deseja, pois talvez nenhuma pessoa enferma pudesse tolerar 
isto. Em vez disso, fixarei como princípio fundamental que se deve 
permitir que a necessidade e anseio da paciente nela persistam, afim 
de poderem servir de forças que a incitem a trabalhar e efetuar 
mudanças, e que devemos cuidar de apaziguar estas forças por meio 
de substitutos. O que poderíamos oferecer nunca seria mais que um 
substituto, pois a condição da paciente é tal que, até que suas 
repressões sejam removidas, ela é incapaz de alcançar satisfação real. 
(Freud, 1996 [1915], p. 182) 
Note que não é uma situação assim tão fácil essa do analista, de permitir 
que os anseios persistam sem, contudo, correspondê-los. No entanto, é disso 
que se trata o manejo da transferência. O analista se presta ao erro, ou seja, ele 
 
 
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acolhe esse lugar imaginário que o paciente projeta nele (transferência), pois 
será por meio dessa relação transferencial que o analista vai se aproximar do 
inconsciente do sujeito. 
Contudo, o analista não se identifica com essa posição em que é 
colocado, não responde desde esse lugar, porque o que a psicanálise visa é 
justamente descontruir o equívoco da transferência. Trata-se, portanto, do 
manejoda transferência que, certamente, é um desafio e nele consistem os 
maiores progressos a serem obtidos na análise, bem como seus maiores 
entraves. 
É importante compreender que não se trata de uma “correção de 
equívoco” cognitiva, por exemplo: quando o analisante pede constantemente 
aprovação do analista, este pode perceber que está projetado ali a mesma 
relação que o analisando tinha com a mãe. Nessa situação, não é adequado que 
o analista explique ao analisante algo como “eu não sou sua mãe” ou “você 
parece se relacionar comigo como se eu fosse sua mãe”. 
O analista não deve dar esse tipo de orientação, nem fazer essas 
correções. Nos parágrafos anteriores, afirmamos que o analista acolhe esse 
lugar em que o analisando o coloca, mas não responde, ou seja, não atua desde 
esse lugar. Isso quer dizer que o analisando pode seguir repetindo na relação 
com o analista algo da sua vivência, o que exige que o analista acolha, mas não 
assuma essa posição de mãe. 
Vamos dar um outro exemplo: um jovem adulto com histórico de ter sido 
criado pela avó, pois os pais o abandonaram. Em sua vida buscou 
constantemente agradar os outros para ser o aluno preferido, o amigo preferido, 
o funcionário de destaque, em última análise, o filho desejado. Ele atuava 
tentando ser amado pela analista, agradar a analista e ser preferido por ela. 
Toda vez que ele saía da sessão, costumava dizer: “ah, essa sessão valeu 
muito, um dia vou te pagar mais do que pago hoje” ou “um dia ainda vou te pagar 
5 mil por uma sessão”, até que certa vez a analista respondeu: “a minha sessão 
custa x”. Ela não respondeu a essa posição em que ele a colocava, deixando-o 
reflexivo sobre a questão: “por que estou falando isso para ela?”. 
Podemos dizer, então, que o manejo da transferência requer que o 
analista se preste ao engano no sentido de se deixar como depositário da 
transferência do analisando, mas é um engano advertido, pois não o encarnará, 
nem responderá desde esse lugar. Ele deve se deslocar gradativamente dele, 
 
 
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interpretando e mostrando na relação que isso não tem a ver com ele e a 
situação presente, mas com um padrão de repetição que o analisando atua sem 
saber, repete. Isso pode parecer fácil, mas, como escreveu Freud, representa as 
maiores dificuldades em um processo analítico. 
É, portanto, tão desastroso para a análise que o anseio da paciente por 
amor seja satisfeito, quanto que seja suprimido. O caminho que o 
analista deve seguir não é nenhum destes; é um caminho para o qual 
não existe modelo na vida real. Ele tem de tomar cuidado para não se 
afastar do amor transferencial, repeli-lo ou torna-lo desagradável para 
a paciente; mas deve, de modo igualmente resoluto, recusar-lhe 
qualquer retribuição. Deve manter um firme domínio do amor 
transferencial, mas trata-lo como irreal, como uma situação que deve 
atravessar no tratamento e remontar às suas origens inconscientes e 
que pode ajudar a trazer tudo que se acha muito profundamente oculto 
na vida erótica da paciente para sua consciência e, portanto, para 
debaixo de seu controle. (Freud, 1996 [1915], p. 183) 
Se o analista repele a transferência de modo muito áspero, com um 
sonoro não, por exemplo, o analisando pode se frustrar demais e romper com a 
análise; já se o analista responder satisfazendo às demandas, os problemas 
podem ser bem maiores, de modo que cabe uma avaliação de cada caso em 
particular, no sentido de compreender o grau que cada paciente pode suportar 
de frustração, e em cada momento particular. 
TEMA 4 – A TRANSFERÊNCIA NA PSICOSE 
O conceito de transferência foi desenvolvido por Freud com base nos 
casos de neurose, como vimos, desde antes da obra considerada fundadora da 
psicanálise (A Interpretação dos Sonhos, de 1900), com os Estudos sobre 
histeria, de 1895. No entanto, nessa obra monumental sobre os sonhos, Freud 
também se refere à transferência, como uma formação do inconsciente, mas não 
como uma formação qualquer, haja visto que pode se endereçar ao outro. 
Sua consideração aqui estará atrelada à noção de deslocamento, 
característica do processo primário, junto com a condensação. Todo ser humano 
desloca afetos e ideias, substitui uma coisa por outra, e a transferência só é 
possível por intermédio dessa peculiaridade do aparelho psíquico. Mas é num 
texto posterior, de 1914, Sobre o narcisismo: uma introdução que Freud irá 
inaugurar um importante capítulo em relação ao pensamento analítico no que diz 
respeito às psicoses. 
Como se sabe, Freud não tratou de casos de psicose, ou de parafrenia, 
como chamava, embora tenha escrito um importante estudo sobre o tema 
 
 
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analisando as memórias escritas do presidente Schreber. A principal objeção 
freudiana em relação ao tratamento analítico de pessoas com quadros psicóticos 
está relacionada, também, com a questão da transferência. 
No texto sobre o narcisismo, Freud parte da análise da megalomania, 
característica da paranoia, para identificar aí uma regressão da libido ao eu do 
sujeito, ao estágio de desenvolvimento localizado entre o autoerotismo e o amor 
objetal, ou seja, ao narcisismo primário, sendo que o que possibilita esse 
reinvestimento em períodos posteriores é justamente o narcisismo secundário. 
Freud chega a essa compreensão contrapondo as neuroses de 
transferência (histeria, obsessão e fobia) com as neuroses narcísicas ou 
psicoses. Nestas, a relação com a alteridade fica defasada em função da libido 
ter regredido ao estágio narcisista e se fixado, por assim dizer, ao próprio eu do 
sujeito. O psicótico, assim, não transfere, não desloca. 
Um motivo premente para nos ocuparmos com a concepção de um 
narcisismo primário e normal surgiu quando se fez a tentativa de incluir 
o que conhecemos da demência precoce (Kraepelin) ou da 
esquizofrenia (Bleuler) na hipótese da teoria da libido. Esse tipo de 
pacientes, que eu propus fossem denominados de parafrênicos, 
exibem duas características fundamentais: megalomania e desvios de 
seu interesse do mundo externo – de pessoas e coisas. Em 
consequência da segunda modificação, tornam-se inacessíveis à 
influência da psicanálise e não podem ser curados por nossos 
esforços. (Freud, 1996 [1914], p. 82) 
Freud continua esse trecho relativizando essa distinção com a perda da 
realidade no caso de neuróticos em função da fantasia. A partir da segunda 
tópica freudiana, o conceito de negação (Verleugnung) traz novos contornos 
para a relação entre a psicose e o eu. No texto Neurose e Psicose, de 1924, 
Freud distingue essas duas afecções assim: “a neurose é o resultado de um 
conflito entre o ego e o id, ao passo que a psicose é o desfecho análogo de um 
distúrbio semelhante nas relações entre o ego e o mundo externo” (Freud, 1996 
[1924], p. 167). 
Dessa forma, com a frustração de satisfação libidinal imposta pelo mundo 
externo, o sujeito retrai sua libido extraindo-a do mundo externo e regredindo a 
estágios primitivos do desenvolvimento psicossexual e de satisfação do desejo. 
A castração não é recalcada (leia-se, simbolizada) no inconsciente, mas negada 
ou, para utilizar um termo lacaniano, foracluída. 
Como se observa, trata-se, na psicose, de uma ruptura mais drástica com 
a realidade. Isso será explorado por Freud num texto do mesmo ano, de 1924, 
que é A perda da realidade na neurose e na psicose. No entanto, nesse texto, 
 
 
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tanto o sintoma na neurose quanto o delírio na psicose serão tomados como 
equivalentes, no sentido de que tentam reparar uma relação do sujeito com a 
realidade que já fora traumática para ambos. 
A diferença se dá em relação ao fato de que na neurose é às custas do id 
é que se dá o reestabelecimento, enquanto que na psicose esse 
restabelecimento se dá às custas da realidade exterior, à medida que o psicótico 
rompe com o mundo externo e cria uma realidade paralela. Na neurose, um 
fragmento da realidade é subtraído, mas há uma submissão do sujeito àrealidade, um reconhecimento (simbolização) da castração, enquanto que na 
psicose ele a repudia e tenta substituí-la. 
É importante notar, contudo, esse que é um paradigma psicanalítico sobre 
os fenômenos elementares das psicoses (delírios e alucinações), e que é a 
consideração dos fenômenos elementares como uma tentativa endógena de 
cura, isto é, próprio da psicanálise e vai em direção bastante oposta em relação 
à concepção psiquiátrica, que visa eliminar os sintomas. 
Dito isso, é necessário dizer que Freud apresenta essas ressalvas em 
diferentes momentos de sua obra, por exemplo, no importante texto O 
inconsciente, de 1915, mas também em outros. No entanto, não encerra a 
questão e, em vários outros momentos de sua obra, embora hesite, não 
desestimula a pesquisa e até o atendimento de casos de psicose com 
esperanças um pouco mais modestas no que diz respeito à possibilidade de 
cura. 
TEMA 5 – A CONTRATRANSFERÊNCIA 
Freud não se ocupou muito com o tema da contratransferência, 
mencionando-o poucas vezes ao longo de sua obra e com pouco 
desenvolvimento nas vezes em que o mencionou. Ele o faz em uma carta a Jung, 
quando Sabina Spielrein, paciente de Jung, solicita a este uma sessão para tratar 
de sua relação amorosa com o analista. São conhecidas algumas divergências 
entre os dois em relação aos limites dessa situação. 
Freud até admite, em um primeiro momento, a importância que a vivência 
de afetos por parte do analista em relação ao paciente pode ter para efeitos de 
uma melhor compreensão, por parte do primeiro, da natureza da relação que se 
estabelece, porém, logo depois, Freud adverte em relação ao problema 
permanente que esses sentimentos representam e sobre a necessidade de 
 
 
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resolvê-los. No texto As perspectivas futuras da terapêutica psicanalítica, de 
1910, sobre as inovações da técnica no que diz respeito ao analista, Freud é 
taxativo: 
Tornamo-nos cientes da ‘contratransferência’, que, nele, surge como 
resultado da influência do paciente sobre os seus sentimentos 
inconscientes e estamos inclinados a insistir que ele reconhecerá a 
contratransferência, em si mesmo, e a sobrepujará. Agora que um 
considerável número de pessoas está praticando a psicanálise e, 
reciprocamente, trocando observações, notamos que nenhum 
psicanalista avança além do quanto permitem seus próprios complexos 
e resistências internas; e, em consequência, requeremos que ele deva 
iniciar sua atividade por uma autoanálise e levá-la, de modo contínuo, 
cada vez mais profundamente, enquanto esteja realizando suas 
observações sobre seus pacientes. Qualquer um que falhe em produzir 
resultados numa autoanálise desse tipo deve desistir, imediatamente, 
de qualquer ideia de tornar-se capaz de tratar pacientes pela análise. 
(Freud, 1996 [1910], p. 150) 
É interessante notar que a contratransferência é aqui abordada como algo 
a se sobrepujar, isto é, ultrapassar, suplantar, e que é justamente sua própria 
análise pessoal (do analista) que lhe permite fazê-lo. Não se pode ir muito 
adiante na análise de alguém quando o analista não teve um progresso razoável 
em sua própria análise, e a atuação contratransferencial, compreendida como as 
reações emocionais inconscientes do analista frente às investidas afetivas do 
paciente, segundo Freud, não deve fazer parte do processo. 
Se no texto Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise, de 
1912, Freud irá se utilizar da metáfora do receptor telefônico para dizer como o 
inconsciente do analista participa e é mesmo uma das principais ferramentas 
para a investigação do psiquismo do paciente em análise, no texto Observações 
sobre o amor transferencial, ele será claro quanto aos limites que devem ser 
observados em relação a essa situação. 
Freud enfatiza a abstinência e faz objeção inclusive à posição 
intermediária de alguns analistas de observar apenas a abstinência física, se 
autorizando a retribuir a afeição mais calma e sublimada como substituto. Freud 
enfatiza que “o tratamento analítico na baseia na sinceridade, e neste fato reside 
grande parte de seu efeito educativo e de seu valor ético” (Freud, 1996 [1915], 
p. 182). 
 
 
 
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NA PRÁTICA 
Um analista em supervisão narra o seguinte caso: ele atendia uma moça 
muito atraente e sedutora, e histérica, que vinha se insinuando e insistindo em 
franquear o setting analítico para além do divã ou, pelo menos, do divã analítico. 
Essa era sua posição na vida e isso se repetia em atos corporais, convites 
diretos, sonhos com o analista etc. Este último, perturbado com a situação, às 
vezes pedia um minuto, ia até o banheiro, respirava, lavava o rosto, e voltava 
muito ansioso. Certa vez, diante de uma investida direta por parte dela, 
convidando-o a continuar a sessão no bar, ele apontou para sua aliança, 
afirmando ser casado. A analisanda já sabia desse fato, pois já vira a aliança 
outras vezes. 
O supervisor apontou para o fato de que, ainda que o analista tenha 
mantido o regime de abstinência prescrito por Freud como uma posição ética 
inegociável, ele o fez tomando a situação pelo seu valor real, e não virtual, ou 
ficcional. Ele tomou a situação pela sua realidade objetiva, e não pela realidade 
psíquica em jogo, pela transferência no sentido de virtualidade, de irrealidade. 
Ele negou como homem que não pode por ser casado, e não por ser analista, e, 
como analista, estava tendo dificuldades em explorar e interpretar esse padrão 
já identificado da analisante. 
Em supervisão, ficou claro que era justamente isso que se esperava que 
emergisse, isto é, para além de sua rememoração, a atualização do inconsciente 
pela repetição em ato de conduta, e que a posição de analista, neste contexto, 
deveria se nortear pelo desejo do analista, isto é: “fale mais sobre isso”. Ao 
analista, não caberia então recusar e tampouco aceitar, mas falar sobre isso sem 
constrangimento, dada que a situação não era com a pessoa dele, mas com o 
padrão e a questão feminina dela. 
FINALIZANDO 
Vimos que o termo sexualidade em psicanálise abrange muito daquilo que 
nos referimos ao utilizar o verbo amar e que, no caso da Übertragung, a 
transferência, suas raízes também remontam à sexualidade e de que se trata 
mesmo de amor. Freud escreve que “a cura [psicanalítica] é essencialmente 
efetuada pelo amor”, e que é de transferência que se trata, isto é, de nossa forma 
de amar, de demandar amor do outro e de ser amado. 
 
 
14 
Em nossa abordagem, promovemos uma noção de transferência 
extremamente importante para a cínica psicanalítica que não é apenas a da 
resistência, qual seja, a transferência como uma importante via de acesso ao 
inconsciente do sujeito, à medida que o atualiza, em ato, no presente. Nos 
detivemos ainda sobre o conceito de neurose de transferência, em que pudemos 
apreender mais sobre o grau de interferência que o dispositivo analítico aciona 
no que diz respeito à economia subjetiva do sujeito em análise. O analista foi ali 
situado como pivô das projeções neuróticas que o analisando repete por meio 
de sua atuação. 
Vimos, em diferentes momentos, vários trechos do texto Observações 
sobre o amor transferencial, de 1915, em que Freud fez recomendações sobre 
a técnica da psicanálise, nomeando a transferência como amor, e especificando 
com clareza e assertividade o tipo de resposta que o analista pode oferecer para 
esse amor que lhe é endereçado, dentro dos limites de exposição que uma 
posição dessa implica. Freud aqui nos brinda com considerações acerca da 
posição ética do psicanalista e da psicanálise, que norteiam a estratégia a ser 
utilizada no manejo da transferência. 
Vimos ainda que, para Freud, o grande obstáculo contra a aplicação da 
psicanálise em casos de psicose, sua principal objeção se deu justamente em 
torno da questão da transferência, em função da introversão da libido em 
quadros de psicose em direção ao próprio eu. A relação dessa afecçãocom a 
alteridade foi conceituada como mais gravemente prejudicada, em comparação 
com a neurose, em virtude da libido se retirar dos objetos do mundo externo em 
direção ao eu, o que implica num decréscimo considerável para o 
estabelecimento da transferência. 
Vimos algumas importantes considerações teóricas acerca das neuroses 
de transferência e a função do sintoma, em detrimento do id quando da 
experiência de castração e sua simbolização; e entre o eu e a realidade externa, 
nos casos da negação (Verleugnung) que ocorre na psicose. A postura freudiana 
sempre foi de reserva, mas nunca de obstrução em relação à pesquisa, por 
exemplo, haja vista sua própria incursão pelas memórias do presidente 
Schreber. 
Por fim, tivemos ainda a oportunidade de constatar o quão lúcido, 
responsável e ético Freud foi ao especificar o tipo de resposta requerida do 
psicanalista para a situação irreal que se configura na transferência. Se a 
 
 
15 
situação é irreal, porque deslocada, artificial, não cabe ao analista atuar 
contratransferencialmente, identificando-se com o afeto que lhe direcionado, 
mas manejar essa situação de forma cautelosa, nem se opondo ou suprimindo, 
nem jamais estimulando, mas interpretando. 
Com isso, por meio de sua análise pessoal, o analista pode articular ética, 
estratégia e tática nisso que Freud tantas vezes se referiu metaforicamente como 
uma verdadeira guerra que é o tratamento analítico. 
 
 
 
16 
REFERÊNCIAS 
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