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RELAÇÕES TRANSFERENCIAIS AULA 2 Prof.ª Marianne Bonilha 2 CONVERSA INICIAL No texto Psicanálise silvestre ou selvagem, de 1910, Freud escreve que em psicanálise “Usamos a palavra ‘sexualidade’ no mesmo sentido compreensivo que aquele em que a língua alemã usa a palavra Lieben [‘amar’]” (Freud, 1996 [1910], p. 234). Já em uma carta a Jung, de 6 de dezembro de 1906, Freud escreve que “Poder-se-ia dizer que a cura [psicanalítica] é essencialmente efetuada pelo amor”. Essas afirmações freudianas são fundamentadas no papel que a transferência ocupa na relação analítica, pois a transferência tem a ver com o amor, com nossa forma de amar, de demandar amor do outro e de ser amado. Nesta abordagem, iniciaremos destacando a noção de que a transferência não é tão somente negativa quanto possa ter parecido pelas abordagens freudianas tratadas anteriormente em nossos estudos, isto é, ela se configura como uma importante via de acesso ao inconsciente do sujeito, à medida que o atualiza, para além das palavras do analisando, em ato, no presente. Em seguida, iremos nos deter sobre o conceito de neurose de transferência, para que possamos compreender o grau de interferência que o dispositivo analítico aciona no que diz respeito à economia subjetiva do sujeito em análise. Em diversos momentos, vamos fazer referência a alguns textos freudianos, mas um em especial, importante para a temática da transferência: Observações sobre o amor transferencial, de 1915. Nele são feitas recomendações sobre a técnica e a ética do psicanalista, e Freud nomeia a transferência como amor, além de especificar o tipo de resposta que o analista oferece para esse amor que lhe é endereçado. Trataremos, então, de um dos temas de maior complexidade no que diz respeito à técnica psicanalítica e que é o manejo da transferência na situação analítica. Na sequência, o enfoque será dado naquilo que para Freud constituía o grande obstáculo contra a aplicação da psicanálise em casos de psicose, veremos que a principal objeção se dará justamente em torno da questão da transferência, em função da introversão da libido em quadros de psicose em direção ao próprio eu. A relação dessa afecção com a alteridade será mais gravemente prejudicada, em comparação com a neurose, em virtude da libido se retirar dos objetos do mundo externo em direção ao eu, como vimos anteriormente em nossos estudos, o que implica num decréscimo considerável para o estabelecimento da transferência. 3 Por fim, veremos algumas breves considerações sobre um conceito não tão explorado por Freud quanto por alguns dos pós-freudianos, que é o conceito de contratransferência. Com base em Freud, veremos que se trata de algo a ser resolvido na análise pessoal do próprio analista. TEMA 1 – ATUALIZAÇÃO DO INCONSCIENTE O termo Übertragung, traduzido como “transferência”, é um conceito fundamental em psicanálise, e vimos anteriormente como ele participa da própria fundação da psicanálise. Nesta, não se trata apenas de repetir ou rememorar, mas de elaborar, isto é, de criar condições para que, mediante a repetição deste, abra-se espaço para o novo. Mas o que é, de fato, a transferência? Podemos pensá-la, a grosso modo, como “um laço afetivo intenso, que se instaura de forma quase automática e independente da realidade” (Maurano, 2006, p. 16), de alguém que procura um analista para com este. Trata-se, no entanto, de um laço, em grande medida, inconsciente, em que sentimentos afetuosos se combinam com hostis, conforme vimos ao tratarmos do conceito de ambivalência. Ao analista será creditado ocupar no presente um lugar que para o sujeito fora antes ocupado por outras figuras significativas na organização de sua libido, isto é, de seu desejo, e o antigo padrão de relacionamento desse sujeito com esses objetos de desejo deverá se repetir em ato, no presente. Na pessoa do analista, portanto, “encontra-se coagulado àquilo que o sujeito espera do Outro a quem ele se dirige” (Maurano, 2006, p. 16); e o que ele espera? O que esperamos quando nos dirigimos a alguém? O mínimo que esperamos é que nos compreenda e que, ao nos compreender, nos responda nessa medida, nos satisfaça; em poucas palavras, que nos ame. A transferência, portanto, atualiza um estado de coisas inconsciente, pois coloca em ato as posições neuróticas e infantilizadas que o sujeito ocupa diante do outro em sua demanda de amor. É como se o sujeito se mantivesse engessado em certos estereótipos que se reeditam a cada nova relação que estabelece, do tipo: “Sou o coitadinho e ninguém me ama, portanto você também não me amará.”. Ou: “Sou aquele que acerta sempre e fico, portanto, aguardando seus aplausos.”. Ou ainda: “Sou sempre o injustiçado e, com você, sei que a injustiça se repetirá.”. E assim sucessivamente, aparecendo em incontáveis situações. O sujeito encontra-se preso numa trama que toma equivocadamente a designação de destino, de sina, de encosto, de carma —, conforme as crenças de cada um. (Maurano, 2006, p. 17) 4 Segundo Freud, “Qualquer linha de investigação que reconheça” a resistência e a transferência “e os tome como ponto de partida de seu trabalho tem o direito de chamar-se psicanálise, mesmo que chegue a resultados diferentes dos meus” (Freud, 1996 [1914], p. 26). Ele partiu de uma concepção do tratamento que preconizava o acesso ao conteúdo recalcado, mas vai se deslocando progressivamente do mero acesso e comunicação desses conteúdos para aquilo que verdadeiramente os impedia de disputar sua influência no seio da consciência do sujeito, isto é: a resistência. O elemento quando recalcado fica, com isso, fora do raio da consciência, de modo que as forças repressoras (ou anticatexias) não se confrontam com ele de igual para igual. Como vimos, quando cessam as associações livres do sujeito em função da resistência, é a transferência que passa ao ato, presentificando, desta forma, uma dimensão viva da experiência psicanalítica, para além das palavras. Quando na associação livre, regra fundamental do método psicanalítico, a cadeia associativa significante sucumbe em função das resistências que se interpõem, o sujeito atua sua realidade psíquica inconsciente na sua conduta, daí Freud aproximar a transferência do acting out em Recordar, repetir e elaborar, de 1914. Ora, se o que se deseja, do ponto de vista de uma análise, é acessar o reprimido, aquilo que ficou represado e que promove a regressão ao infantilismo no modo do sujeito agir, e trazê-lo à tona para a consciência, nada mais propício que as manifestações transferenciais. Logo, não se trata de um fenômeno a ser evitado, já que configura um acesso privilegiado ao modo de agir inconsciente do sujeito. Sobre os psicoterapeutas que não suportam escutar o que lhe é transferido e se autorizam a suprimir essas manifestações, no texto Observações sobre o amor transferencial (Novas recomendações sobre a técnica da psicanálise III), de 1915, Freud adverte: Instigar a paciente a suprimir, renunciar ou sublimar seus instintos, no momento em que ela admitiu sua transferência erótica, seria, não uma maneira analítica de lidar com eles, mas uma maneira insensata. Seria exatamente como se, após invocar um espírito dos infernos, mediante astutos encantamentos, devêssemos mandá-lo de volta para baixo, sem lhe haver feito uma única pergunta. Ter-se-ia trazido o reprimido à consciência, apenas para reprimi-lo mais uma vez, um susto. Como sabemos, as paixões pouco são afetadas por discursos sublimes. A paciente sentirá apenas humilhação e não deixará de vingar-se por ela. (Freud, 1996 [1915], p. 181) 5 Sobre a transferência como atualização do inconsciente, importa ainda observar um ponto que comumente se volta para a psicanálise em forma de crítica, principalmente por aqueles que poucoa conhecem, o de que ela concebe o funcionamento psíquico muito atrelado ao passado, que só fala de passado, e que não considera o presente, o famoso “aqui e agora”, ou a perspectiva de futuro. Por tudo isso que estivemos vendo acerca da transferência, não se pode dizer que se trata apenas de passado pura e simplesmente, mas de presente e de expectativa de futuro, condicionadas ao passado, é verdade, mas um passado manifesto e atualizado no presente. TEMA 2 – A NEUROSE DE TRANSFERÊNCIA O estabelecimento de uma relação transferencial, segundo Freud, implica em uma situação virtual, na qual a pessoa do analista começa a ter um papel na economia psíquica daquele que o procura, sem que algo de real o justifique. O analista vai então progressivamente sendo inserido na neurose, como fica claro no caso de Anna O. O analista não sabe, de início, muito bem o porquê, qual traço ou característica seus podem ter facilitado essa transferência para sua pessoa e, em geral, via de regra, são coisas bem imprevisíveis e até curiosas, que fazem parte das fantasias do analisando. A instauração da neurose de transferência é uma condição para o tratamento analítico, trata-se da neurose do analisando agora transferida e reproduzida na própria situação analítica. Importante notar que a transferência acontece nas mais diversas relações, não apenas na análise. Ela acontece, por exemplo, quando uma mulher toma seu marido por seu pai, ou quando estabelecemos relações de concorrência com semelhantes, como se estivéssemos numa relação fraterna e concorrente entre irmãos. A grande diferença é que em psicanálise isso é parte conhecida e esperada no processo, pelo analista, que sabe das relações transferenciais e em vez de respondê-las das maneiras mais desencontradas e conflituosas, ele as interpreta, para que o sujeito possa, além de repetir, rememorar, e só então elaborar. Para tanto, é necessário renovar o conflito, isto é, que o analisando não apenas rememore seus padrões neuróticos, mas que os reviva em ato na experiência da transferência em análise, conectados aos seus afetos, em que 6 podem ser acolhidos como tais e assim ser articulados de outro modo, possibilitando ao sujeito outras formas de se relacionar consigo e com o outro. Para poder trabalhar, é fundamental que o analista saiba em que lugar está sendo colocado pelo analisando. Que uso este está fazendo dele, em sua organização subjetiva. É da posição que lhe é dada pela transferência que o analista pode analisar, interpretar, enfim, intervir sobre a própria transferência. (Maurano, 2006, p. 24) Assim, a análise se dá mediante o estabelecimento da neurose de transferência, mas o analista não visa introduzir uma neurose “a mais” na vida da pessoa à toa, para se alimentar dela. Na realidade, ele não instala nada, pois ela se instala sozinha, a partir da fantasia do próprio analisando, e essa característica espontânea é imprescindível para que se possa ter informações acerca da fantasia do próprio sujeito. Vimos no texto Observações sobre o amor transferencial que, tal como não se deve suprimir essas manifestações, como citado anteriormente, Freud também não recomenda que o analista as instigue. Chegou a meu conhecimento que alguns médicos que praticam a análise preparam frequentemente suas pacientes para o surgimento da transferência erótica ou até mesmo as instam a ‘ir em frente a enamorar-se do médico, de modo que o tratamento possa progredir’. Dificilmente posso imaginar procedimento mais insensato. Assim procedendo, o analista priva o fenômeno do elemento de espontaneidade que é tão convincente e cria para si próprio, no futuro, obstáculos difíceis de superar. (Freud, 1996 [1915], p. 179) Mas como manejar essa situação? Como livrar o analisando de sua nova neurose, a neurose de transferência? Sim porque a psicanálise, devemos insistir nisso, não visa a manutenção do analista como um ego exterior do sujeito, ou uma razão a quem o indivíduo deva sempre recorrer, ela visa antes emancipar o sujeito tanto quanto possível de sua sobre determinação inconsciente, restituir- lhe a porção de sua libido subtraída pelo sintoma, bem como sua autonomia de sujeito. A transferência precisa ser manejada para que o destino da influência do analista sobre o analisando, como veremos, seja desaparecer. TEMA 3 – O MANEJO DA TRANSFERÊNCIA Uma das diferenças mais fundamentais entre a psicanálise e outras práticas psicoterápicas diz respeito ao manejo que se faz da transferência. Não se trata do tipo de coisa que se possa colocar em uma lista esquemática, não cabe em um livro, não há como enumerar as milhares de situações e formas possíveis em que a transferência pode emergir e como se deve fazer em cada 7 uma delas, mas existe, sim, um norte, uma ética que norteia o manejo da transferência a nível estratégico. Contudo, deve se estar preparado para lidar com algo delicado. Segundo Freud, “O psicanalista sabe que está trabalhando com forças altamente explosivas e que precisa avançar com tanto cautela e escrúpulo quanto um químico” (Freud, 1996 [1915], p. 187). Essas forças inflamáveis representam os maiores riscos e obstáculos e, ao mesmo, são o motor do trabalho analítico. Aquilo que solapa as relações do sujeito e empobrece suas interações amorosas e produtivas, quando atualizado com o analista, em um ambiente seguro e acolhedor, e desta vez em idade já mais madura, em que seu ego talvez já não seja tão vulnerável quanto o era na época em que se estabeleceram determinados padrões de funcionamento, pode agora ser interpretado, e a libido em jogo na parcela de satisfação que o sintoma condensa pode ser progressivamente restituída, ficando à disposição da pessoa para novas formas de investimento. O próprio analista, como representante do inconsciente do analisando, ao ser transferencialmente colocado como pivô da cena inconsciente, oferecerá satisfações substitutas como a própria possibilidade de interpretação do inconsciente, em vez das satisfações sintomáticas já experimentadas, já conhecidas e que se repetem. Com isso, a organização libidinal do analisando, viciada em sintomas que o satisfazem impondo uma série de dissabores, tem seu rol de possibilidades aumentada e diversificada. No texto Observações sobre o amor transferencial, Freud é claro quanto ao regime em que o tratamento deve ser leva a cabo: Já deixei claro que a técnica analítica exige do médico que que ele negue à paciente que anseia por amor a satisfação que ela exige. O tratamento deve ser levado a cabo na abstinência. Com isto não quero significar apenas a abstinência física, nem a privação de tudo que a paciente deseja, pois talvez nenhuma pessoa enferma pudesse tolerar isto. Em vez disso, fixarei como princípio fundamental que se deve permitir que a necessidade e anseio da paciente nela persistam, afim de poderem servir de forças que a incitem a trabalhar e efetuar mudanças, e que devemos cuidar de apaziguar estas forças por meio de substitutos. O que poderíamos oferecer nunca seria mais que um substituto, pois a condição da paciente é tal que, até que suas repressões sejam removidas, ela é incapaz de alcançar satisfação real. (Freud, 1996 [1915], p. 182) Note que não é uma situação assim tão fácil essa do analista, de permitir que os anseios persistam sem, contudo, correspondê-los. No entanto, é disso que se trata o manejo da transferência. O analista se presta ao erro, ou seja, ele 8 acolhe esse lugar imaginário que o paciente projeta nele (transferência), pois será por meio dessa relação transferencial que o analista vai se aproximar do inconsciente do sujeito. Contudo, o analista não se identifica com essa posição em que é colocado, não responde desde esse lugar, porque o que a psicanálise visa é justamente descontruir o equívoco da transferência. Trata-se, portanto, do manejoda transferência que, certamente, é um desafio e nele consistem os maiores progressos a serem obtidos na análise, bem como seus maiores entraves. É importante compreender que não se trata de uma “correção de equívoco” cognitiva, por exemplo: quando o analisante pede constantemente aprovação do analista, este pode perceber que está projetado ali a mesma relação que o analisando tinha com a mãe. Nessa situação, não é adequado que o analista explique ao analisante algo como “eu não sou sua mãe” ou “você parece se relacionar comigo como se eu fosse sua mãe”. O analista não deve dar esse tipo de orientação, nem fazer essas correções. Nos parágrafos anteriores, afirmamos que o analista acolhe esse lugar em que o analisando o coloca, mas não responde, ou seja, não atua desde esse lugar. Isso quer dizer que o analisando pode seguir repetindo na relação com o analista algo da sua vivência, o que exige que o analista acolha, mas não assuma essa posição de mãe. Vamos dar um outro exemplo: um jovem adulto com histórico de ter sido criado pela avó, pois os pais o abandonaram. Em sua vida buscou constantemente agradar os outros para ser o aluno preferido, o amigo preferido, o funcionário de destaque, em última análise, o filho desejado. Ele atuava tentando ser amado pela analista, agradar a analista e ser preferido por ela. Toda vez que ele saía da sessão, costumava dizer: “ah, essa sessão valeu muito, um dia vou te pagar mais do que pago hoje” ou “um dia ainda vou te pagar 5 mil por uma sessão”, até que certa vez a analista respondeu: “a minha sessão custa x”. Ela não respondeu a essa posição em que ele a colocava, deixando-o reflexivo sobre a questão: “por que estou falando isso para ela?”. Podemos dizer, então, que o manejo da transferência requer que o analista se preste ao engano no sentido de se deixar como depositário da transferência do analisando, mas é um engano advertido, pois não o encarnará, nem responderá desde esse lugar. Ele deve se deslocar gradativamente dele, 9 interpretando e mostrando na relação que isso não tem a ver com ele e a situação presente, mas com um padrão de repetição que o analisando atua sem saber, repete. Isso pode parecer fácil, mas, como escreveu Freud, representa as maiores dificuldades em um processo analítico. É, portanto, tão desastroso para a análise que o anseio da paciente por amor seja satisfeito, quanto que seja suprimido. O caminho que o analista deve seguir não é nenhum destes; é um caminho para o qual não existe modelo na vida real. Ele tem de tomar cuidado para não se afastar do amor transferencial, repeli-lo ou torna-lo desagradável para a paciente; mas deve, de modo igualmente resoluto, recusar-lhe qualquer retribuição. Deve manter um firme domínio do amor transferencial, mas trata-lo como irreal, como uma situação que deve atravessar no tratamento e remontar às suas origens inconscientes e que pode ajudar a trazer tudo que se acha muito profundamente oculto na vida erótica da paciente para sua consciência e, portanto, para debaixo de seu controle. (Freud, 1996 [1915], p. 183) Se o analista repele a transferência de modo muito áspero, com um sonoro não, por exemplo, o analisando pode se frustrar demais e romper com a análise; já se o analista responder satisfazendo às demandas, os problemas podem ser bem maiores, de modo que cabe uma avaliação de cada caso em particular, no sentido de compreender o grau que cada paciente pode suportar de frustração, e em cada momento particular. TEMA 4 – A TRANSFERÊNCIA NA PSICOSE O conceito de transferência foi desenvolvido por Freud com base nos casos de neurose, como vimos, desde antes da obra considerada fundadora da psicanálise (A Interpretação dos Sonhos, de 1900), com os Estudos sobre histeria, de 1895. No entanto, nessa obra monumental sobre os sonhos, Freud também se refere à transferência, como uma formação do inconsciente, mas não como uma formação qualquer, haja visto que pode se endereçar ao outro. Sua consideração aqui estará atrelada à noção de deslocamento, característica do processo primário, junto com a condensação. Todo ser humano desloca afetos e ideias, substitui uma coisa por outra, e a transferência só é possível por intermédio dessa peculiaridade do aparelho psíquico. Mas é num texto posterior, de 1914, Sobre o narcisismo: uma introdução que Freud irá inaugurar um importante capítulo em relação ao pensamento analítico no que diz respeito às psicoses. Como se sabe, Freud não tratou de casos de psicose, ou de parafrenia, como chamava, embora tenha escrito um importante estudo sobre o tema 10 analisando as memórias escritas do presidente Schreber. A principal objeção freudiana em relação ao tratamento analítico de pessoas com quadros psicóticos está relacionada, também, com a questão da transferência. No texto sobre o narcisismo, Freud parte da análise da megalomania, característica da paranoia, para identificar aí uma regressão da libido ao eu do sujeito, ao estágio de desenvolvimento localizado entre o autoerotismo e o amor objetal, ou seja, ao narcisismo primário, sendo que o que possibilita esse reinvestimento em períodos posteriores é justamente o narcisismo secundário. Freud chega a essa compreensão contrapondo as neuroses de transferência (histeria, obsessão e fobia) com as neuroses narcísicas ou psicoses. Nestas, a relação com a alteridade fica defasada em função da libido ter regredido ao estágio narcisista e se fixado, por assim dizer, ao próprio eu do sujeito. O psicótico, assim, não transfere, não desloca. Um motivo premente para nos ocuparmos com a concepção de um narcisismo primário e normal surgiu quando se fez a tentativa de incluir o que conhecemos da demência precoce (Kraepelin) ou da esquizofrenia (Bleuler) na hipótese da teoria da libido. Esse tipo de pacientes, que eu propus fossem denominados de parafrênicos, exibem duas características fundamentais: megalomania e desvios de seu interesse do mundo externo – de pessoas e coisas. Em consequência da segunda modificação, tornam-se inacessíveis à influência da psicanálise e não podem ser curados por nossos esforços. (Freud, 1996 [1914], p. 82) Freud continua esse trecho relativizando essa distinção com a perda da realidade no caso de neuróticos em função da fantasia. A partir da segunda tópica freudiana, o conceito de negação (Verleugnung) traz novos contornos para a relação entre a psicose e o eu. No texto Neurose e Psicose, de 1924, Freud distingue essas duas afecções assim: “a neurose é o resultado de um conflito entre o ego e o id, ao passo que a psicose é o desfecho análogo de um distúrbio semelhante nas relações entre o ego e o mundo externo” (Freud, 1996 [1924], p. 167). Dessa forma, com a frustração de satisfação libidinal imposta pelo mundo externo, o sujeito retrai sua libido extraindo-a do mundo externo e regredindo a estágios primitivos do desenvolvimento psicossexual e de satisfação do desejo. A castração não é recalcada (leia-se, simbolizada) no inconsciente, mas negada ou, para utilizar um termo lacaniano, foracluída. Como se observa, trata-se, na psicose, de uma ruptura mais drástica com a realidade. Isso será explorado por Freud num texto do mesmo ano, de 1924, que é A perda da realidade na neurose e na psicose. No entanto, nesse texto, 11 tanto o sintoma na neurose quanto o delírio na psicose serão tomados como equivalentes, no sentido de que tentam reparar uma relação do sujeito com a realidade que já fora traumática para ambos. A diferença se dá em relação ao fato de que na neurose é às custas do id é que se dá o reestabelecimento, enquanto que na psicose esse restabelecimento se dá às custas da realidade exterior, à medida que o psicótico rompe com o mundo externo e cria uma realidade paralela. Na neurose, um fragmento da realidade é subtraído, mas há uma submissão do sujeito àrealidade, um reconhecimento (simbolização) da castração, enquanto que na psicose ele a repudia e tenta substituí-la. É importante notar, contudo, esse que é um paradigma psicanalítico sobre os fenômenos elementares das psicoses (delírios e alucinações), e que é a consideração dos fenômenos elementares como uma tentativa endógena de cura, isto é, próprio da psicanálise e vai em direção bastante oposta em relação à concepção psiquiátrica, que visa eliminar os sintomas. Dito isso, é necessário dizer que Freud apresenta essas ressalvas em diferentes momentos de sua obra, por exemplo, no importante texto O inconsciente, de 1915, mas também em outros. No entanto, não encerra a questão e, em vários outros momentos de sua obra, embora hesite, não desestimula a pesquisa e até o atendimento de casos de psicose com esperanças um pouco mais modestas no que diz respeito à possibilidade de cura. TEMA 5 – A CONTRATRANSFERÊNCIA Freud não se ocupou muito com o tema da contratransferência, mencionando-o poucas vezes ao longo de sua obra e com pouco desenvolvimento nas vezes em que o mencionou. Ele o faz em uma carta a Jung, quando Sabina Spielrein, paciente de Jung, solicita a este uma sessão para tratar de sua relação amorosa com o analista. São conhecidas algumas divergências entre os dois em relação aos limites dessa situação. Freud até admite, em um primeiro momento, a importância que a vivência de afetos por parte do analista em relação ao paciente pode ter para efeitos de uma melhor compreensão, por parte do primeiro, da natureza da relação que se estabelece, porém, logo depois, Freud adverte em relação ao problema permanente que esses sentimentos representam e sobre a necessidade de 12 resolvê-los. No texto As perspectivas futuras da terapêutica psicanalítica, de 1910, sobre as inovações da técnica no que diz respeito ao analista, Freud é taxativo: Tornamo-nos cientes da ‘contratransferência’, que, nele, surge como resultado da influência do paciente sobre os seus sentimentos inconscientes e estamos inclinados a insistir que ele reconhecerá a contratransferência, em si mesmo, e a sobrepujará. Agora que um considerável número de pessoas está praticando a psicanálise e, reciprocamente, trocando observações, notamos que nenhum psicanalista avança além do quanto permitem seus próprios complexos e resistências internas; e, em consequência, requeremos que ele deva iniciar sua atividade por uma autoanálise e levá-la, de modo contínuo, cada vez mais profundamente, enquanto esteja realizando suas observações sobre seus pacientes. Qualquer um que falhe em produzir resultados numa autoanálise desse tipo deve desistir, imediatamente, de qualquer ideia de tornar-se capaz de tratar pacientes pela análise. (Freud, 1996 [1910], p. 150) É interessante notar que a contratransferência é aqui abordada como algo a se sobrepujar, isto é, ultrapassar, suplantar, e que é justamente sua própria análise pessoal (do analista) que lhe permite fazê-lo. Não se pode ir muito adiante na análise de alguém quando o analista não teve um progresso razoável em sua própria análise, e a atuação contratransferencial, compreendida como as reações emocionais inconscientes do analista frente às investidas afetivas do paciente, segundo Freud, não deve fazer parte do processo. Se no texto Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise, de 1912, Freud irá se utilizar da metáfora do receptor telefônico para dizer como o inconsciente do analista participa e é mesmo uma das principais ferramentas para a investigação do psiquismo do paciente em análise, no texto Observações sobre o amor transferencial, ele será claro quanto aos limites que devem ser observados em relação a essa situação. Freud enfatiza a abstinência e faz objeção inclusive à posição intermediária de alguns analistas de observar apenas a abstinência física, se autorizando a retribuir a afeição mais calma e sublimada como substituto. Freud enfatiza que “o tratamento analítico na baseia na sinceridade, e neste fato reside grande parte de seu efeito educativo e de seu valor ético” (Freud, 1996 [1915], p. 182). 13 NA PRÁTICA Um analista em supervisão narra o seguinte caso: ele atendia uma moça muito atraente e sedutora, e histérica, que vinha se insinuando e insistindo em franquear o setting analítico para além do divã ou, pelo menos, do divã analítico. Essa era sua posição na vida e isso se repetia em atos corporais, convites diretos, sonhos com o analista etc. Este último, perturbado com a situação, às vezes pedia um minuto, ia até o banheiro, respirava, lavava o rosto, e voltava muito ansioso. Certa vez, diante de uma investida direta por parte dela, convidando-o a continuar a sessão no bar, ele apontou para sua aliança, afirmando ser casado. A analisanda já sabia desse fato, pois já vira a aliança outras vezes. O supervisor apontou para o fato de que, ainda que o analista tenha mantido o regime de abstinência prescrito por Freud como uma posição ética inegociável, ele o fez tomando a situação pelo seu valor real, e não virtual, ou ficcional. Ele tomou a situação pela sua realidade objetiva, e não pela realidade psíquica em jogo, pela transferência no sentido de virtualidade, de irrealidade. Ele negou como homem que não pode por ser casado, e não por ser analista, e, como analista, estava tendo dificuldades em explorar e interpretar esse padrão já identificado da analisante. Em supervisão, ficou claro que era justamente isso que se esperava que emergisse, isto é, para além de sua rememoração, a atualização do inconsciente pela repetição em ato de conduta, e que a posição de analista, neste contexto, deveria se nortear pelo desejo do analista, isto é: “fale mais sobre isso”. Ao analista, não caberia então recusar e tampouco aceitar, mas falar sobre isso sem constrangimento, dada que a situação não era com a pessoa dele, mas com o padrão e a questão feminina dela. FINALIZANDO Vimos que o termo sexualidade em psicanálise abrange muito daquilo que nos referimos ao utilizar o verbo amar e que, no caso da Übertragung, a transferência, suas raízes também remontam à sexualidade e de que se trata mesmo de amor. Freud escreve que “a cura [psicanalítica] é essencialmente efetuada pelo amor”, e que é de transferência que se trata, isto é, de nossa forma de amar, de demandar amor do outro e de ser amado. 14 Em nossa abordagem, promovemos uma noção de transferência extremamente importante para a cínica psicanalítica que não é apenas a da resistência, qual seja, a transferência como uma importante via de acesso ao inconsciente do sujeito, à medida que o atualiza, em ato, no presente. Nos detivemos ainda sobre o conceito de neurose de transferência, em que pudemos apreender mais sobre o grau de interferência que o dispositivo analítico aciona no que diz respeito à economia subjetiva do sujeito em análise. O analista foi ali situado como pivô das projeções neuróticas que o analisando repete por meio de sua atuação. Vimos, em diferentes momentos, vários trechos do texto Observações sobre o amor transferencial, de 1915, em que Freud fez recomendações sobre a técnica da psicanálise, nomeando a transferência como amor, e especificando com clareza e assertividade o tipo de resposta que o analista pode oferecer para esse amor que lhe é endereçado, dentro dos limites de exposição que uma posição dessa implica. Freud aqui nos brinda com considerações acerca da posição ética do psicanalista e da psicanálise, que norteiam a estratégia a ser utilizada no manejo da transferência. Vimos ainda que, para Freud, o grande obstáculo contra a aplicação da psicanálise em casos de psicose, sua principal objeção se deu justamente em torno da questão da transferência, em função da introversão da libido em quadros de psicose em direção ao próprio eu. A relação dessa afecçãocom a alteridade foi conceituada como mais gravemente prejudicada, em comparação com a neurose, em virtude da libido se retirar dos objetos do mundo externo em direção ao eu, o que implica num decréscimo considerável para o estabelecimento da transferência. Vimos algumas importantes considerações teóricas acerca das neuroses de transferência e a função do sintoma, em detrimento do id quando da experiência de castração e sua simbolização; e entre o eu e a realidade externa, nos casos da negação (Verleugnung) que ocorre na psicose. A postura freudiana sempre foi de reserva, mas nunca de obstrução em relação à pesquisa, por exemplo, haja vista sua própria incursão pelas memórias do presidente Schreber. Por fim, tivemos ainda a oportunidade de constatar o quão lúcido, responsável e ético Freud foi ao especificar o tipo de resposta requerida do psicanalista para a situação irreal que se configura na transferência. Se a 15 situação é irreal, porque deslocada, artificial, não cabe ao analista atuar contratransferencialmente, identificando-se com o afeto que lhe direcionado, mas manejar essa situação de forma cautelosa, nem se opondo ou suprimindo, nem jamais estimulando, mas interpretando. Com isso, por meio de sua análise pessoal, o analista pode articular ética, estratégia e tática nisso que Freud tantas vezes se referiu metaforicamente como uma verdadeira guerra que é o tratamento analítico. 16 REFERÊNCIAS DOS SANTOS, M. A. A transferência na clínica psicanalítica: a abordagem freudiana. Temas em Psicologia. Ribeirão Preto, 1994. v. 2. n. 2. FREUD, S. (1895). Estudos sobre a Histeria. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. 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