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PERVERSÃO E POLÍTICA 
AULA 3 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof. Altieres Edemar Frei 
 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
 Convidamos você a continuar a caminhada por este edifício onde 
observamos as salas e demais corredores que dão acesso ao pensamento 
forjado pelo inconsciente, às premissas psicanalíticas. Nesta etapa, o primeiro 
convite é para olhar para Freud (ainda que por um piscar de olhos) como alguns 
de seus biógrafos célebres puderam vê-lo. 
 Em seguida, propõe-se uma igualmente breve olhada em Jacques Lacan. 
Sua obra e seus conceitos parecem constituir outro pavimento a esse edifício, 
que, por si só, daria mote para cursos vastos. Nós, aqui, dado enfoque entre as 
relações sobre política e perversão, se tanto, subiremos alguns lances nos 
degraus dessa escada imaginária que separa um pavimento do outro para uma 
breve “pescoçada”, como se diz no senso comum. 
 Por fim, para um estudo que se propõe a visitar esse ensino de psicanálise 
que considera a articulação entre perversão e política, não podemos nos furtar 
de contemplar as proposições de Christian Dunker, o professor do Instituto de 
Psicologia da Universidade de São Paulo que, de forma magistral, cunhou a 
hipótese da lógica do condomínio para explicar o mal-estar da civilização 
brasileira em sua resposta “perversa" de virar as costas para a polis em nome 
de um ideal de segurança ou a partir de uma gestão de riscos. 
 Tal mergulho nos permite ensaios sobre o estágio atual do capitalismo 
mundial integrado, especialmente quando esse regime econômico neoliberal 
facilita um modo de subjetivação que culmina com indivíduos em vez de sujeitos, 
ou seja, as pessoas deslocadas da vida pública e alçadas ao individualismo por 
meio das leituras fragmentadas de sucesso ou fracasso. As cidades respondem 
a esses sintomas, com suas barreiras invisíveis que separam o luxo do lixo, e 
esse tipo de perversão que se faz defesa, além de suas correlações com a 
defesa (ou a recusa) à lei e a castração parecem ter muito a dizer para uma 
psicanálise que não pode se furtar a ser, também, clínica da cultura. 
 
 
 
3 
TEMA 1 – SÍNTESE DO ESTUDO DAS PERVERSÕES A PARTIR DE 
FRAGMENTOS DE BIOGRAFIAS DE FREUD 
Ao(a) leitor(a) que se aproxima da vasta obra de Freud, há a 
recomendação de praxe para que suas biografias possam ser visitadas. Há 
trabalhos importantes para entender a obra de Freud a partir de sua vida, de 
suas histórias de amor, dos seus “perrengues" financeiros do começo de carreira 
ou do momento que culminou com a Primeira Guerra Mundial, além do seu 
peculiar interesse pela cocaína no início de sua carreira. 
Uma dessas obras é “Sigmund Freud: em sua época, em nosso tempo” 
escrito pela psicanalista francesa Elizabeth Roudinesco (que também escreveu 
uma biografia de vigor sobre Jacques Lacan) e que no Brasil foi editada pela 
Editoria Zahar, com tradução de André Telles, em 2016. 
Ali Roudinesco frisa o que chamaríamos hoje de “caráter progressista” da 
obra de Freud, abrindo caminho para a importância da educação sexual na 
sociedade: 
Ao construir sua doutrina sexual em torno dos termos pulsão,
 
libido, 
fase, desejo ou busca do objeto, Freud libertava a criança – logo, o 
adulto – de todas as acusações que haviam alimentado as práticas 
médicas do fim do século XIX, em especial as oriundas da “pedagogia 
negra”, visando reprimir as manifestações da sexualidade. Da mesma 
forma, nessa óptica, a criança masturbadora deixava de ser vista como 
um selvagem cujos maus instintos cumpria domar para se tornar o 
protótipo do ser humano em devir. Freud normalizava “a aberração 
sexual”, libertando-a de toda abordagem em termos de patologia ou 
disposição inata comparável a uma “tara” ou “degenerescência”. Daí, 
muito naturalmente, passou a analisar as perversões sexuais relativas 
aos adultos, práticas até ali tratadas de maneira superafetada pelos 
sexólogos de sua época (pedofilia, fetichismo, zoofilia, 
sadomasoquismo, inversão etc.). Porém, em vez de catalogá-las, 
Freud tentava reportá-las a uma estrutura ligada a certo estágio da 
evolução subjetiva. Nesse âmbito em especial, fazia da 
homossexualidade não só a consequência de uma bissexualidade 
presente em todos os seres humanos, como uma componente 
adquirida da sexualidade humana: uma tendência inconsciente 
universal. Daí a célebre fórmula que já cogitara em 1896: “A neurose 
é, por assim dizer, o negativo da perversão.”. (Roudinesco, 2016, p. 
147) 
 Mais adiante, Roudinesco comenta sobre o apreço de Freud pela obra de 
Sade, ainda que sem diretamente citá-lo e a concordância em uma visão de 
civilização que, como citado em outros momentos, tem de se haver com a 
repressão, equalização ou a sublimação daquilo que receberá o nome de "pulsão 
de morte”. O trecho é categórico: 
 
 
 
4 
Renovador de uma crítica das genealogias familiares, Freud era tanto 
um pensador do irracional como o teórico de uma democracia elitista. 
Afirmava, por exemplo, que só a civilização – isto é, a coerção de uma 
lei imposta à onipotência das pulsões assassinas – permite à 
sociedade escapar à barbárie tão desejada pela própria humanidade. 
E, embora nunca tenha sido um grande leitor de Sade,Freud 
compartilhava com ele a ideia de que a existência humana caracteriza-
se menos por uma aspiração ao bem e à virtude do que pela busca de 
um permanente gozo do mal: pulsão de morte, desejo de crueldade, 
amor ao ódio, aspiração à infelicidade e ao sofrimento. Por essa razão, 
reabilitava a ideia segundo a qual a perversão é necessária à 
civilização como parte maldita das sociedades. Porém, em vez de 
enraizar o mal na ordem natural do mundo e fazer da animalidade do 
homem o sinal de uma inferioridade racial, preferia sustentar que 
apenas as artes e a cultura são capazes de arrancar a humanidade de 
sua vontade de autoaniquilar-se. (Roudinesco, 2016, p. 291) 
Outra obra significativa é “Freud, Pensador da Cultura” do psicanalista e 
professor da PUC-SP Renato Mezan1. Em alguns pontos sínteses dessa obra, 
Mezan (1985) retoma a importância dos estudos sobre o masoquismo para a 
constituição da perversão em Freud: 
Do ponto de vista da relação com o superego e com a angústia, nos 
interessa ressaltar aqui que o conceito de masoquismo vai intervir 
como operador essencial na análise do sentimento da culpabilidade, 
por meio da distinção entre três tipos sensivelmente diferentes: o 
masoquismo erógeno, o feminino e o moral. O primeiro consiste em 
encontrar prazer no sofrimento; o segundo, em uma posição do desejo 
que acentua fantasmas ligados à castração e à agelação; o terceiro dá 
conta do enigma do sentimento de culpabilidade. Freud distingue entre 
o masoquismo primário erógeno — testemunho da época em que se 
formou a intrincação pulsional — e o masoquismo secundário, 
resultante de um retorno do sadismo contra o ego e que vai se 
expressar na perversão masoquista propriamente dita.O masoquismo 
primário, como posição específica da pulsão, será elaborado mediante 
uma série de fantasias correlativas aos diferentes momentos da 
evolução libidinal: o da devoração pelo pai (atrás da qual se esconde a 
fantasia de devoração pela mãe), durante a etapa oral; o desejo de ser 
maltratado pelo pai, durante o estágio sádico-anal; e as fantasias de 
castração correspondentes à fase fálica. Como masoquismo feminino, 
ele estará na origem de uma posição particular do desejo do homem: 
desempenhar o papel receptivo no coito ou dar à luz. Em todas essas 
circunstâncias, o masoquismo se apresenta estreitamente vinculado às 
vicissitudes da vida sexual; mas com o masoquismo moral essa 
relação é menos evidente e necessita um trabalho prévio de 
interpretação. (Mezan, 1985, p. 568) 
 Uma outra biografia de Freud, escrita por Edgar Pesch em 1985,2 iria 
retomar, sob tópicos, questões-chave da obra de Freud como o inconsciente, a 
sexualidade, as pulsões etc, descrevendo-as e agrupando-as em tópicos. No 
tópico das perversõessexuais, Pesch sintetiza que as perversões agrupam 
fenômenos de duas ordens: a primeira delas é o que ele chama de 
 
1 MEZAN, R. Freud, pensador da cultura. São Paulo: Brasiliense; Conselho Nacional de 
Desenvolvimento Científico e Tecnológico, 1985. 
2 PESCH, E. Freud. Lisboa: Edições 70m, 1985 
 
 
5 
"transgressões anatômicas quanto às partes destinas à realizar a união sexual”. 
O segundo agrupamento de fenômenos na perversão são os "entraves a 
proibições de certas relações intermediárias que, normalmente, devem ser 
ultrapassadas rapidamente para atingir o objetivo sexual” (Pesch, 1985, p. 171) 
 Pesch não parece mergulhar, nesta breve síntese, nas evoluções do 
conceito de perversão ao longo de obras aqui apresentadas como “Bate-se em 
uma criança” ou “Fetichismo”, mas deixa uma boa síntese para reforçarmos a 
ideia da “perversão nossa de cada dia” — tanto os impulsos ou pulsões 
perversas que seriam constituintes no aparelho psíquico, com a ressalva de que 
aos neuróticos há os mecanismos de recalque, sublimação ou fantasia para 
relativiza-los, ao passo que aos que serão definidos por Lacan e seus seguidores 
como advindos de uma “estrutura psicótica” fariam a chamada “passagem ao 
ato”, em que a metáfora do véu que recobre a Lei ou a imagem da falsidade ante 
a mentira apresentada anteriormente por Cassoria nos é, mais uma vez, de 
grande valia. Ao trecho, aqui transcrito ipsis litteris, com a ressalva de ser escrito 
no português lusitano vigente antes das normas ortográficas: 
Discutiu-se sobre se poderíamos saber se a perversão era congênita 
em si ou se, como o admite Binet, para o feitichismo ela teria a sua 
origem em experiências vividas. Podemos agora afirmar que em todas 
perversões há, com efeito, um fator congênito, mas esse fator 
encontra-se em todos os homens, podendo, enquanto tendência, variar 
de intensidade e necessitando para se manifestar de impressões 
vindas do exterior. Trata-se neste caso de tendências inatas inerentes 
à constituição, que numa série de casos se transformam em fatores 
determinantes da sexualidade (nos perversos) e noutros caso, tendo 
sido reprimidas apenas parcialmente (recalcamento), podem, ao 
transformar-se em sintomas mórbidos, apoderar-se por outra vida de 
parte considerável de energia sexual, enquanto nos casos felizes 
(entre os dois extremos) estabecer-se-á através de uma limitação 
efectiva e na sequência de outras modificações sofridas pelas 
tendências, aquilo a que chamamos uma vida sexual normal. 
Acrescentamos que a constituição hipotética, contendo em germe das 
as perversões, apenas poderes encontrada na criança, embora estas 
pulsões se apresentem com graça intensidade. Se somos assim 
levados a pensar que os nevróticos permaneceram no estado infantil 
da sexualidade ou a este regressaram, parece que o nosso interesse 
deve recair sobre a vida sexual da criança”. (Pesch, 1985, p. 173) 
Como lido, Pesch enfatiza a importância do retorno à vida sexual da 
criança, endossando a pertinência e a magnitude de textos como o aqui citado 
“Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” enquanto balisa para os 
movimentos psicanalíticos na clínica e na análise da cultura vigente. 
 
 
 
6 
TEMA 2 – PARA NÃO DIZER QUE NÃO FALAMOS DE LACAN: BREVES 
CONSIDERAÇÕES SOBRE O ESTATUTO DA PERVERSÃO ENQUANTO 
ESTRUTURA 
 Há na seara psicanalítica toda uma série de fábulas e cortinas de fumaça 
em torno da obra do caricato psicanalista Jacques Lacan, que, para muitos, 
opera uma guinada na psicanálise ao modo estruturalista, qual seja concebendo 
a ontogênese a partir de estruturas prévias de personalidade, neste caso, a 
tríade neurose, psicose e perversão. 
 Em boa parte desses discursos, reproduz-se a ideia de que acompanhar 
a leitura das obras de Jacques Lacan não é tarefa fácil. Esquece-se, entretanto, 
de mencionar que não se trata de obras escritas, mas de seminários que foram 
proferidos, gravados e transcritos — a curadoria de suas obras a cargo de seu 
genro Jacques A. Miller é sempre uma “pedra no sapato”, segundo muitos 
comentadores da obra de Lacan. 
 Mas isso não minimiza a complexidade de seu pensamento. Lacan, como 
bem demonstrou Elisabeth Roudinesco na biografia “Jacques Lacan: Esboço de 
uma vida, história de um pensamento”3, parte de uma família nuclear burguesa 
francesa para cursar medicina e dá uma guinada no curso do pensamento 
positivista ao se aliar, especialmente no período da Segunda Guerra Mundial, a 
grupos de surrealistas e outros artistas ou ativistas que se opunham aos terrores 
do fascismo. 
 Aliado a um apreço pela matemática e por escritas com ideogramas (tais 
quais o I Ching), Lacan, literalmente, virará a linguagem pelo avesso, 
aproximando-se dos teóricos que estudavam a linguística e a semiótica à época. 
É por isso que suas proposições e premissas do “inconsciente estruturado como 
linguagem” ou da diferenciação entre “significado e significante” consistirão 
pontos decisivos em sua contribuição à obra freudiana — sempre lembrando 
que, embora haja quem divide a psicanálise freudiana e a psicanálise lacaniana, 
Lacan se dizia um “freudiano" e o que propôs foi, em todos aspectos, um retorno 
a Freud. 
 Roudinesco (2008) comenta e enfatiza sobre esse retorno ou tributo à 
Freud presente na obra de Lacan e vale-se, para isso, da consulta a uma 
 
3 ROUDINESCO, E. Jacques Lacan: esboço de uma vida, história de um sistema de 
pensamento. Tradução de Paulo Neves. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. 
 
 
7 
entrevista que Lacan concedeu em 1957 ao jornal L´Express. Optamos aqui pela 
citação desse trecho da referida biografia para dar dimensão, especialmente aos 
leitores pouco familiarizados, à magnitude desse tributo e das sínteses ali 
expressas: 
A entrevista saiu no jornal em 31 de maio de 1957. O título “Chaves 
para a psicanálise”, era anunciado na primeira página com uma foto do 
mestre acompanhada de uma legenda tirada do Evangelho segundo 
São João: “No começo era o Verbo”. Num discurso de grande clareza, 
Lacan conseguia uma verdadeira façanha: explicar ao leitor de 
L´Express ao mesmo tempo o que era a descoberta freudiana e o que 
podia ser, segundo ele, a única leitura verdadeira, necessariamente 
lacaniana dessa descoberta. Freud, sabemos, havia metaforizado sua 
história ao mostrar que toda investigação científica fazia o narcisismo 
humano sofrer uma humilhação. Entre essas humilhações sucessivas, 
ele reconhecia três principais. A primeira, de ordem cosmológica, fora 
infligida pela revolução copernicano, que havia derrubado a ilusão 
segundo a qual a Terra estava no centro do universo. A segunda, de 
ordem biológica, vinha do darwinismo e destruía a pretensão do 
homem a afirmar-se “diferente" do animal. A terceira, de ordem 
psicológica, resultava da existência do insconsciente freudiano: ela 
contradizia a ideia segundo a qual o eu é senhor em sua casa. 
Retomando por sua conta essa metáfora do descentramento, Lacan 
colocava o conjunto da doutrina freudiana sob o signo da ciência, da 
lógica e da racionalidade. Contra os obscurantistas que pretendiam 
provar o irracionalismo do mestre vienense, afirmava que Freud não 
apenas racionalizava aquilo que, até então, havia resistido à 
racionalização, como também mostrava “em ação uma razão racional 
como tal”. Em seguida, lembrava o caráter subversivo dessa 
descoberta [...] Com isso, dava ao gesto freudiano uma interpretação 
que, embora respeitando sua verdade, já não era mais exatamente a 
desejada por Freud. Com efeito, este jamais havia reivindicado, de 
maneira tão radical, que dia descoberta pudesse ser teorizada como 
um movimento de rebelião capaz de subverter a ordem social. Quando 
muito indicara seu lado escandaloso ou inaceitável. Tampouco havia 
afirmado que o inconsciente pudesse, stricto sensu, uma escrita cujos 
signos deviam seu valor apenas ao sistema ao qual pertenciam. Essas 
duas hipóteses — a natureza subversiva da doutrina psicanalíticae a 
assimilação do inconsciente a um sistema de signos — não faziam 
parte das concepções científicas de Freud. Todavia, não eram 
contrárias aos enunciados freudianos, o que permitia a Lacan atribuí-
las a Freud: “Leiam A interpretação dos sonhos”, dizia ele, “leiam o 
chiste e o inconsciente”, basta abrir essas obras em qualquer página 
para encontrar ali o que estou dizendo”. 
 São esses os grandes acentos da contribuição de Lacan em seu retorno 
à Freud: resgatar essa obra enquanto um tipo de lógica com a escrita sob signos 
do inconsciente (a premissa do inconsciente estruturado como linguagem) e 
acentuar esse caráter subversivo da premissa do inconsciente ante a soberba 
do racionalismo positivista. 
 Para fins deste curso, guardamos essa “chave da psicanálise”, a saber: a 
leitura de Freud enquanto um subversivo. Dentro do espírito de sua época, Freud 
rompeu com um sistema de saber-poder, o que o faz subversivo. Para efeitos da 
 
 
8 
articulação entre psicanálise e política, entendemos que isto engendra outros 
modos de subjetivação. São desvios na forma (no sentido aristotélico) e na forma 
(no sentido dos recipientes de fazer assar bolo) de concepção da humanidade 
que, sobretudo, consideram as mazelas impostas pelo pacto civilizacional, o tal 
mal-estar na cultura. 
2.1 Breves contribuições de Godino Cabas em “Curso e Discurso da Obra 
de Jacques Lacan” para acréscimos aos estudos sobre perversão 
 Se ler Lacan — ou acompanhar sua oratória transcrita na forma dos mais 
de vinte seminários tornados públicos por essa forma de editoração comentada 
— não é tarefa das mais fáceis, a julgar o discurso psicanalítico em voga, ler 
seus comentadores pode ser uma estratégia interessante a quem pretende 
aproximar-se do seu pensamento. 
 Um desses comentadores é Antonio Godino Cabas, em sua obra “Curso 
e Discurso da Obra de Jacques Lacan”4. Trata-se de um “manual" sobre como 
operam alguns conceitos fundamentais na obra do psicanalista francês. Não é 
objetivo desta ementa esgarçá-los, mas recorrermos às suas sínteses sobre “O 
Édipo como discurso do Outro” para um breve recorte sobre a compreensão da 
castração — ela será decisiva para resgate da premissa de que o perverso 
encobre a castração, ainda que com um véu translúcido, de forma “mequetrefe”, 
como sustentamos em outros momentos deste texto. Ao trecho: 
Sem dúvida, no texto freudiano, o complexo de castração consiste na 
operação pela qual o pai separa o menino da mãe, mediante a clássica 
sentença paterna que diz ao menino: “não dormirás com tua mãe”, e à 
mãe “não recuperarás o produto do teu ventre”. Claro que, por tudo o 
que vimos, a separação não é produzível mediante tão-somente uma 
ameaça. Intervêm vários outros elementos e, bastante centralmente, 
os outros interesses da mãe. Ora, a forma clássica que esses outros 
interesses assumem na observação freudiana é precisamente a 
presença de outros rivais: pai e irmãos. Nesse sentido, a separação da 
mãe é temida porque indicaria a primazia do rival narcísico sobre o 
sujeito. Mas, ao mesmo tempo, a castração é querida. E o é, pelo 
tráfico destino implícito ao narcisismo: destino que não é outro senão 
a morte do sujeito, o desaparecimento do sujeito no desejo do outro, já 
que a existência fálica — ser objeto do desejo do outro — obriga o 
sujeito a adequar-se ao que o outro deseja. Portanto e enquanto 
separa, a castração é querida, já que permite ao sujeito motorizar-se 
em sua própria história a história do próprio desejo. (Godino Cabas, p. 
151) 
 
4 GODINO CABAS, A. Curso e discurso da obra de Jacques Lacan. Tradução de Maria Lúcia 
Baltazar. São Paulo: Moraes, 1982. 
 
 
9 
 Neste ponto da discussão, Godino Cabas está nas diferenciações entre o 
falo e a castração. O falo aqui caracterizado com: a) relação com o Outro; b) 
intercâmbio de suportes; c) privilégio de suporte-pênis e d) conjuntura da 
masturbação e a castração aqui caterizada com: a) ameaça do órgão, b) 
sucumbimento da premissa universal do pênis; c) ruptura na relação mãe-filho e 
d) rompimento com o narcisismo. 
 São pontos técnicos que, para nosso estudo, não nos cabe devido 
aprofundamento; entretanto, deixamos mencionada essa questão da castração 
inserindo um movimento no sujeito — um tipo de giro, como dizemos na clínica, 
expresso pela expressão motorizar-se em sua própria história a história do 
próprio desejo. Esse parece ser o cerne da questão. 
 A premissa é a de que o sujeito pendente para essa concepção estrutural 
da perversão tem outros giros, outra forma de apreensão e circulação do seu 
desejo e, por isso, a ausência de sentimentos de culpa ou de responsabilidade 
perante às normas sociais. A política, portanto, tem outro giro para esse sujeito, 
ela não consiste em um subconjunto — era como se o sujeito visto sob esse 
ponto estruturalista da perversão estivesse aquém e além de toda política. 
 Mas essa analogia nos interessa não somente para pensar o sujeito, como 
para pensar as próprias estruturas sociais. Em um momento da democracia ou 
da participação popular — incluindo a participação via dispositivos 
revolucionários — ameaça ocupar a política, a Lei, o establishment, pode 
interessar aos sistemas de saber-poder vigentes, por mais paradoxal que seja, 
o esgarçamento da noção de política como uma espécie de “estratégia de 
defesa”. 
 O argumento parece ardido, mas é o que norteará a segunda parte deste 
curso, quando pretenderemos debruçar-nos sobre essa relação entre perversão 
e política, mas à guisa de introdução, deixamos essa premissa. A imagem é 
como a de um reino sitiado que, para se defender, tem como recurso a explosão 
das estradas que dão acesso ao castelo — todas elas. A política, desse modo, 
corta a própria corda que sustenta a política no edifício social. São essas as 
imagens que poderão nos ser úteis para pensar mais adiante o fascismo 
enquanto perversão e estratégia de governo, a necropolítica ou gestão das crises 
enquanto sustentação do capitalismo mundial integrado. 
 
 
10 
TEMA 3 – CONTRIBUIÇÕES DE CHRISTIAN DUNKER AO ESTUDO DAS 
PERVERSÕES E SUA APLICAÇÃO POLÍTICA NO MAL-ESTAR BRASILEIRO 
 Certamente um dos autores que mais tem difundido a psicanálise e tecido 
contribuições para análise do mal-estar na civilização brasileira contemporânea 
é o professor do Instituto de Psicologia da USP, Christian Ingo Lenz Dunker, 
também famoso pelo seu canal de vídeos na plataforma YouTube, a qual 
recomendamos com veemência, especialmente quando em seus debates sobre 
a formação de analistas e a psicanálise enquanto ciência. 
 Uma de suas obras decisivas é “Mal-Estar, Sofrimento e Sintoma”, editada 
pela Boitempo em 20155. Ali Dunker, de forma magistral, registrará a tese de que 
uma das respostas que a cultura brasileira deu para mitigar os sintomas do mal-
estar social, incluindo a violência, miséria e a sensação de insegurança 
decorrente destas nas classes mais abastadas foi, simplesmente, virar as costas 
para a questão. Um gesto e uma postura perversa, seguindo as interpretações 
das pistas que temos até então. 
 Este virar-se de costas se deu com a materialização dos condomínios. 
São esses conglomerados de casas e apartamentos separados por muros altos 
que passam a ideia rasa de que “aqui resolvemos os problemas sociais da 
insegurança e da miséria”, não importando o que fica do lado de lá dos muros. 
É a lógica do condomínio a serviço dos estudos sobre a perversão: 
A lógica do domínio é a face familiar, privada e íntima desse processo. 
Por isso, quase todos os atributos verificados no processo produtivo se 
encontrarão, com o sinal trocado e de forma invertida, no condomínio 
onde vigora a vida reprodutiva. Um lugar fortemente delimitado 
(muros), no qual a representação é substituída pela administração 
funcional (síndico) que cria uma lei rígida própria (regulamentos) 
conferindo suplemento de identidade moral a seus habitantes. Aofim 
e ao cabo, um condomínio é em geral adquirido por meio de uma dívida 
extensa, que fixa o sujeito a um compromisso futuro e introduz um 
grande distanciamento físico de sua família ou de seu bairro de origem. 
O papel dessa dívida, que pode ser substituída, trocada, 
superestimando o valor do bem imobiliário, mostrou sua importância 
na crise econômica de 1998. Estados Unidos, Espanha, Irlanda, Grécia 
— em quase todos os casos a crise desencadeou-se como uma 
questão imobiliária. (Dunker, 2015, p. 58) 
 De certa forma, os condomínios partem dessa utopia de “fazer omelete 
sem quebrar os ovos”, qual seja, resolver o problema social “varrendo a sujeita 
 
5 DUNKER, C. I. L. Mal-Estar, sofrimento e sintoma: uma psicopatologia no Brasil entre muros. 
1a. ed. São Paulo: Boitempo, 2015. 
 
 
11 
por debaixo do tapete”. Os condomínios são a perversão da cidade, uma vez 
que "a utopia é uma ilusão que se sabe ilusão”, como completa Dunker (2015). 
Quando a função de ideal é substituída pela função de um objeto 
determinado, está estabelecida a condição para os três tempos de 
fantasia do condomínio: fascínio totalitário, redução identitária e 
servidão voluntária. Ora, essa substituição regressiva, que procura 
alocar um objeto empírico no lugar de uma falta estrutural, dissociando 
crenças e saberes, mimetizando regras particulares com leis 
universais, é exatamente a estrutura social do fetichismo. (Dunker, 
2015, p. 59) 
TEMA 4 – OUTRAS CONTRIBUIÇÕES A PARTIR DA LEITURA DA OBRA DE 
DUNKER PARA ENTENDIMENTO DA RELAÇÃO ENTRE DEFESAS E 
PERVERSÕES 
 Além da brilhante proposição dos condomínios como resposta ao mal-
estar no estilo brasileiro durante os atravessamentos do neoliberalismo, o texto 
de Dunker deixa vastas conexões com a história do movimento psicanalítico no 
Brasil, além de abordar diagramas conceituais importantes. 
 Uma dessas contribuições que nos interessa neste estudo sobre a 
perversão são essas que dão outro giro à ideia da perversão como “avesso" da 
neurose. Ao trecho: 
A definição da neurose como defesa contra a fantasia perversa gera 
um sério inconveniente para a própria definição de perversão, uma vez 
que esta corresponderia ou a um conjunto de disposições que 
“realizam" fantasias neuróticas ou a um conjunto de comportamentos 
que se deduzem da normalidade genital, violando o princípio 
propriamente diagnóstico da psicanálise. Ora, isso introduz uma 
disparidade óbvia na noção de estrutura quando aplicada entre 
neurose e psicose e quando aplicada entre neurose e perversão. 
Nesse sentido, as narrativas do trauma e da alienação da alma são 
simplesmente dispensáveis para definir a perversão. A teoria da defesa 
é, no fundo, uma concepção mais genérica do que a ideia do trauma, 
que depende de uma narrativa ligada à alienação da alma, mas agora 
conjugada com a concepção que busca uma etiologia dos sintomas 
baseada no modelo de um elemento intrusivo, uma alteridades que não 
pode ser reconhecida pelo próprio aparelho psíquico que dele se 
defende. Por isso ela é pensada segundo atos de negação, de 
operações de retorno do recalcado, de divisões e recomposições 
sintomáticas da subjetividade. (Dunker, 2015, p. 245) 
 Decorre-se desse breve excerto o acento às defesas, mesmo aquelas 
defesas erguidas ante elementos intrusivos que sequer foram sentidos ou 
codificados. É, de certa forma, uma derivação das perversões nossas de cada 
dia a ilusão de que os muros do condomínio seriam suficientes para repelir o 
mal-estar. Como o próprio autor demonstrará ao longo da narrativa, é questão 
 
 
12 
de tempo até essa ilusão cair no chão e esfacelar-se em muitos pedaços: estão 
aí as “tretas de condomínio” para nos lembrar que os muros altos não são 
garantias de uma convivência cívica e passiva entre endinheirados, muito pelo 
contrário. 
 A imponência desses muros é capaz de engendrar barreiras simbólicas 
onde o sujeito se vê descolado da polis, em vez de inserido nela. O condomínio 
é, por isso, uma perversão política. O exemplo citado logo adiante na seção “Na 
Prática” buscará explicitar ainda mais esta relação. 
 Dunker, em outros momentos de sua análise, contribuirá também para o 
estudo das violências que nos servirá para trazer outros substratos às noções 
de perversão aqui esticadas. Entre os tipos de violência, estão as violências dos 
que produzem as leis, mas também temos a violência daqueles que as mantém 
(Dunker, 2018). 
 Usará também diversos autores e referenciais da Escola de Frankfurt, 
como ficou conhecido esse importante movimento cultural e acadêmico que 
articula psicanálise e marxismo na primeira metade do século XX. De um de seus 
expoentes, T. Adorno, Dunker emprestará a tese de que “toda forma de 
sofrimento é uma reflexão que ainda não encontrou seu ponto de virada” e 
quando articula essas chaves com os imperativos da proibição parece chegar no 
cerne da Lógica do Condomínio: 
Não basta limitar a liberdade a tudo aquilo que não é proibido e, nesse 
sentido, levar as bordas da cultura para os limites da lei. De fato, a 
melhor expressão do sofrimento de indeterminação é a chamada 
“cultura da insegurança” ou “cultura da administração de riscos”. 
Reencontramos aqui esse modo de subjetivação que chamei de lógica 
do condomínio, ou seja, a estratégia baseada em privatização do 
espaço, seguida da hipernormatização de seu funcionamento e do 
incremento de políticas de identidade baseadas na conformação de 
gozo. Na medida em que a cultura tornar-se anódina no que diz 
respeito a sua eticidade, e que a eticidade torna-se expressão de uma 
política de identidade, o resultado estrutural é a hipótese permanente 
de que outras formas de vida (inacessíveis, dada a segmentação 
cultural) detém um fragmento de gozo (ilegítimo, inautêntico e 
excessivo) que está na raiz de nossas disposições de preconceito e 
segregação. (Dunker, 2015, p. 226) 
 Se quando o homem inventa o trem, inventa o descarrilamento, podemos 
seguir com Dunker que com a invenção dos condomínios tem-se outros 
refinamentos na invenção de segregações, de gestão de riscos, de definir qual 
é o corpo que poderá passar pela entrada geral e a qual corpo cabe a entrada 
de serviços. Em um país racista com tradição escravocrata e militar, esse tipo de 
refinamento parece ter peso dois. 
 
 
13 
TEMA 5 – BREVE ENSAIO SOBRE MUROS INVISÍVEIS NAS CIDADES E 
OUTRAS PERVERSÕES COTIDIANAS 
 A perspectiva apresentada por Christian Dunker nos permitirá o estudo 
sobre outras estratégias de defesa e antecipação aos “riscos" igualmente 
perversas na constituição das cidades. Esses muros ou condomínios podem ser 
físicos, pragmáticos e duradouros, mas também podem ser perenes, invisíveis, 
pragmáticos e, ainda assim, existirem de forma contundente. 
 São comuns os casos dessas fronteiras invisíveis na constituição urbana. 
O caso de metrópoles como São Paulo escancaram lógicas do condomínio em 
sua versão de elite, mas também naquilo que parece ser o seu avesso. Por um 
lado, o chamado comércio de luxo, Shoppings Centers luxuosos com acesso 
exclusivo por automóveis que restringe o acesso a transeuntes ou usuários de 
transporte público. Por outro lado, a existência de equivalentes às zonas 
autônomas temporárias, espaços regidos por outra configuração arquitetônica, 
temporal e simbólica, como no caso das regiões conhecida como cracolândias. 
 Em um caso, o luxo, em outro caso, o sintoma da miséria. No modus 
operandi de ambas, a lógica do condomínio permeando um descolamento da 
vida pública. 
 Em nossas proposições, esse descolamento da vida pública, essa 
realidade que faz dobra interessa, pois implica narrativas díspares e processos 
de subjetivação que contribuem para uma lógica de que o sucesso ou o fracasso 
diz respeito aos méritos do indivíduo, e não à trama social da economia 
capitalista. 
 Sustentar e manter esses tipos perversos de vida coletiva traz consigo um 
subtexto de sustentar e manter osdiscursos monocausais, seja o de “fazer por 
merecer”, “se esforçar” em um caso, seja o de deslocar todas as complexidades 
de saúde mental em torno de um reducionismo em torno da “droga”, nessa 
operação que, muitas vezes, reduz a complexidade do sujeito e suas relações 
históricas a uma mera relação causa-efeito. 
 Do ponto de vista de uma leitura de psicanálise que também se propõe a 
ser clínica da cultura, estas são categorias e indicadores passíveis de análise e, 
por isto, recai aí também as premissas diagnósticas comuns à categorização da 
perversão. 
 
 
14 
 De certa forma, o desmentido, a verdade que é recoberta por um véu e se 
torna “invisível”, seja a da castração no caso do desenvolvimento do aparelho 
psíquico proposto por Freud, seja no caso de não enxergar o rosto da pessoa 
que vive em situação de rua, no caso do drama contemporâneo das metrópoles 
nesse estágio da economia mundializada. São modus operandi que operam em 
uma direção diferente da do recalque. 
 E no que diz respeito à análise das massas, muito recalque pode ser 
perigoso: pode inflamar, tomar outras proporções e fomentar ideias 
revolucionários. Ante a esse risco, a estratégia de dissociação, os desmentidos 
da perversão podem se tornar mais eficazes, pois minimizam o perigo de algo 
coletivo inflamar. Dito de outra forma, a perversão fragmenta o devir 
revolucionário. 
 Com isso, quem detém o sistema de saber e poder, quem detém os meios 
de produção faz com que o capital continue “nadando de braçadas”. Os dados 
econômicos que sugerem a concentração de mais da metade da riqueza mundial 
em apenas um por cento da população de super-ricos enfatizam este fato, ao 
passo que os trabalhadores, nessa lógica perversa, vão ficando cada vez mais 
em posições precárias, obrigados a adotar regimes de contrato perversos e 
precários por trabalhos avulsos, com uma expropriação da força intelectual e 
vital cada vez mais perversa. 
 Outros muros se erguem, separando com farpas e novos tipos de arame 
os que estão “do lado de dentro” daqueles que não conseguiram entrar na festa. 
Uma psicanálise que se furta a essa realidade não merece se autorizar a ser 
chamada como tal. 
NA PRÁTICA 
 Em 2020, ficou conhecido o caso do empresário que humilhou policiais 
em um condomínio de luxo na Grande São Paulo . Acesso em: 11 abr. 2024. 
 No vídeo que se via amplamente divulgado em redes sociais, observou-
se uma apatia complacente por parte do oficial da Polícia Militar ante aos 
xingamentos que recebia que, dificilmente, poder-se-ia observar da mesma 
forma em uma ou outra quebrada Grande São Paulo ou baixada Santista. 
 
 
15 
 Tal fato atesta, de acordo com as proposições apresentadas, a 
pertinências dos muros invisíveis, engordando outros códigos sociais, outras 
versões da lei — perversão também comporta a tradução de “uma outra versão”. 
O capitalismo forja esses espaços de proteção, onde os tratamentos são 
diferentes, onde estupradores pagam fianças milionárias e outras brechas do 
tipo. Outras facetas das perversões nossas de cada dia. 
FINALIZANDO 
 Pudemos ao longo desse percurso por entre salas onde repousam e se 
concebem conceitos psicanalíticos observar, entre quadros e cenas, o olhar de 
alguns biógrafos, ainda que de relance, para o giro que o estudo das perversões 
proporcionou na trajetória freudiana, especialmente com seus tipos distintos de 
negação — a mentira está para a perversão, tal qual a falsidade para neurose, 
como havíamos visto. Não há como falar de perversão sem mencionar o giro que 
Jacques Lacan dará ao estudo, alçando (em seu paradigma estruturalista) tal 
categoria ao status de estrutura. 
Comentamos brevemente sobre algumas dessas premissas. E aplicando 
o modus operandi da "perversão nossa de cada dia" na sociedade brasileira 
resgatamos a magnífica contribuição de Christian Dunker ao tema, em sua tese 
sobre a lógica do condomínio. As cidades também têm seus desmentidos e suas 
zonas de negação da Lei, e isso, longe de ser mitigado, parece interessar e dar 
lucros a uma seleta camada da população, abrindo flancos para as analogias 
entre perversão e política. 
 
 
 
16 
REFERÊNCIAS 
DUNKER, C. Mal-estar, sofrimento e sintoma. São Paulo: Boitempo, 2015. 
GODINO CABAS, A. Curso e discurso da obra de Jacques Lacan. Tradução 
de Maria Lúcia Baltazar. São Paulo. Moraes. 1982. 
MEZAN, R. Freud, pensador da cultura. São Paulo: Brasiliense; Conselho 
Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, 1985. 
PESCH, E. Freud. Lisboa, Edições 70, 1985 
ROUDINESCO, E. Jacques Lacan: esboço de uma vida, história de um sistema 
de pensamento. Tradução de Paulo Neves. São Paulo: Companhia das Letras, 
2008. 
_____. Sigmund Freud: em sua época, em nosso tempo. Tradução de André 
Telles. São Paulo: Editora Zahar, 2016.

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