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O DIREITO CIVIL BRASILEIRO REFERÊNCIA: “DIREITO CIVIL BRASILEIRO”, de CARLOS ROBERTO CONÇALVES PARTE I: A LEI CARACTERÍSTICAS E CLASSIFICAÇÕES DA LEI CARACTERÍSTICAS: 1. Generalidade: a Lei não se destina a um só indivíduo, mas a uma classe ou grupo genérico deles, ou mesmo a toda a sociedade. A Lei deve prever casos aplicáveis a todos – ou a um grande número de pessoas. É isso que torna a lei geral. a. Por isso, o Estatuto da Criança e do Adolescente, apesar de não dirigido a todos os membros das sociedades, é direcionado a um GRUPO AMPLO E GENÉRICO DE CIDADÃOS, por isso mantém seu caráter de LEI. 2. Imperatividade: a Lei não tem o papel de aconselhar ou de conscientizar. Também não tem a função de definir ou caracterizar, que é cumprida pela doutrina. A Lei IMPÕE uma ORDEM, uma EXIGÊNCIA. Se quer que algo seja feito, EXIGE. Se quer uma abstenção, PROÍBE. 3. Autorizamento: Segundo GOFFREDO DA SILVA TELLES, é o fato de ser autorizante. É essa característica da Lei que permite que o sujeito lesado pelo descumprimento da norma legal requeira seu cumprimento ou a compensação do dano causado. 4. Permanência: a Lei não pode ser aplicada apenas uma vez. Ela deve poder ser aplicada genericamente, por diversas vezes. Apesar da existência de leis de caráter temporário, as mesmas não perdem o caráter de permanência. 5. Emanação de autoridade competente: A norma legal advêm do Estado, do poder, por meio dos legisladores. O legislador deve ditar as leis, observados os limites de sua competência. Se extrapolados esses limites, cabe ao JUDICIÁRIO promover a nulidade da Lei 1 . NOTA: A sanção não pode ser considerada uma característica específica da Lei, pois todas as normas são sancionadores, inclusive as éticas. A violação de normas éticas pode gerar sanção interna e própria (vergonha, remorso, culpa), ou sanção externa (desconsideração social). Não é característica também a coação, já que a norma legal existe sem ela, bastando a promulgação. No então, é impossível a existência da coação sem a existência da Lei. CLASSIFICAÇÕES: 1. QUANTO À IMPERATIVIDADE: . a. Cogentes (ou de imperatividade absoluta): São as Leis que determinam regras absolutas aos membros da sociedade. Tratam de matérias que não devem ser arbitradas pelos próprios indivíduos, pois traria prejuízos à sociedade como um todo. Tratam de temas relacionados à ordem pública (interesses fundamentais do Estado ou ordem econômica e social) e aos bons costumes. Podem ser mandamentais (ordenam) ou proibitivas (proíbem). Bons exemplos são as normas relativas à adoção 2 (mandamental) e à restrição ao casamento 3 (proibitiva). Lato sensu, são Cogentes, no âmbito do Direito Civil, as Leis relativas ao Direito de Família, ao Direito das Sucessões e aos direitos reais. b. Não cogentes (dispositivas ou de imperatividade relativa): A Lei não cogente é aquela não impõe uma regra absoluta a um grupo de pessoas. Por outro lado, ela dá a possibilidade de escolha, convenção ou acordo (não cogentes permissivas), ou supre a ausência de qualquer manifestação (não cogentes supletivas). Normalmente, a Lei não cogente supletiva é apresentada por meio de “salvo estipulação em contrário...” ou “salvo se as partes convencionarem em 1 CF/88, art. 97º. 2 CC, art. 1619º. 3 CC, art. 1521º. contrário”. Exemplo clássico de lei não cogente permissiva é a possibilidade de escolha do modo de partilha de bens em um casamento, pelas próprias partes, em acordo 4 . São comuns leis não cogentes supletivas no ramo do Direito das Obrigações. Dispõe o artigo 327º do Código Civil que “Efetuar-se-á o pagamento no domicílio do devedor, salvo se as partes convencionarem diversamente, ou se o contrário resultar da lei, da natureza da obrigação ou das circunstâncias.”. 2. QUANTO À INTENSIDADE DA SANÇÃO a. Mais que perfeitas: São as normas legais que estipulam DUAS sanções àquele que as descumpre. Na maioria das vezes, uma das sanções autorizadas é de natureza penal, enquanto a outra é predominantemente civil. Um bígamo, por exemplo, sofre duas sanções: uma de natureza penal 5 , já que a bigamia é considerada crime, e uma de natureza civil 6 , que consiste na nulidade do casamento. b. Perfeitas: Aquelas que preveem a nulidade de um ato, mas que não estabelecem qualquer pena no caso de descumprimento. Bom exemplo é o caso da nulidade inerente ao contrato que é celebrado por pessoa absolutamente incapaz 7 . c. Menos que perfeitas: São as Leis que não preveem a nulidade de qualquer ato, mas que impõem uma condição (sanção), no caso de violadas. Imagine, a título de exemplo, uma viúva, com filho do ex- marido falecido, que se casa novamente antes de realizado inventário dos bens; não se anulará, por isso, o casamento. Apenas se imporá a condição de celebração do casamento em regime de separação total de bens. 4 CC, art. 1639º. 5 CP, art. 235º . 6 CC, arts. 1521º, IV, e 1548º, II. 7 CC, art. 166º, I. d. Imperfeitas: São leis inertes, cujo descumprimento não gera nenhuma consequência ou sanção. As leis classificadas como imperfeitas são sui generis, e não propriamente jurídicas, pois a norma jurídica deve ter caráter AUTORIZANTE. É exemplo disso a lei que discorre sobre o pagamento de dívidas de jogo ou de dívidas prescritas 8 . O pagamento é inexigível. Apesar de não ter eficácia jurídica por si só, a norma imperfeita a obtém após realizado o ato. Dentro do mesmo exemplo: quem pagar voluntariamente a dívida de jogo ou a dívida prescrita, não poderá requerer de volta a restituição do que foi pago 9 . 3. QUANTO À NATUREZA a. Substantivas (ou materiais): As leis substantivas são aquelas que estabelecem direitos, deveres, obrigações, ilegalidades. São as Leis que tratam de coisa material e palpável, que não discorre acerca do andamento processual. Constituem o direito substantivo. b. Adjetivas (ou processuais): São as Leis que, segundo Carlos Roberto Gonçalves, “traçam os meios de realização dos direitos”. São chamadas de processuais (ou formais), e constituem o direito adjetivo. NOTA: A classificação das Leis quanto à sua natureza vem se tornando menos usual, atingindo a obsolescência. Há leis que definem direitos ao mesmo passo que definem como devem ser realizados. No Código de Processo Civil, por exemplo, quando se atesta que alguém tem direito a algo no curso do processo, a norma toma caráter adjetivo. 4. QUANTO À SUA HIERARQUIA a. Constitucionais: São os dispositivos da Constituição Federal do Brasil de 1988. São supremos e invioláveis, por traçarem os princípios do Estado. Todas as demais Leis devem se coadunar com o texto constitucional. Devem discorrer, em sua essência, sobre os 8 CC, art. 814º. 9 CC, art. 882º. Direitos Fundamentais da Pessoa Humana e sobre os moldes da organização do Estado. b. Leis complementares: São hierarquicamente superiores às Leis Ordinárias, e são subordinadas à Constituição. Visam a regulamentar o texto constitucional, quando suas medidas não são autoexecutáveis ou bem determinadas. Tratam de matérias especiais, que não podem ser tratadas em Leis Ordinárias, e exigem quórum mínimo para aprovação. c. Leis Ordinárias: São as Leis comuns que emanam do Poder Legislativo competente. Devem ser votadas em ambas as Casas do Congresso Nacional, e depois sancionadase promulgadas pelo Presidente da República. Então, são publicadas no Diário Oficial da União, quando passam a ter validade. d. Leis delegadas: São as Leis elaboradas pelo Poder Executivo, munido de expressa autorização do Poder Legislativo competente. Ocupam a mesma posição hierárquica das Leis Ordinárias. e. Medidas Provisórias: Ocupam a mesma posição hierárquica das Leis Ordinárias e das Leis delegadas, embora não sejam propriamente Leis. Têm caráter normativo e são editadas e criadas pelo Poder Executivo 10 , nos casos previstos na Constituição Federal. NOTA: Com as modificações na Constituição Federal de 1988, as Medidas Provisórias passaram a substituir os antigos decretos-leis. Agora, as Medidas Provisórias podem ser decretadas pelo presidente da República (tendo força de Lei) sempre que se mostrar relevante, necessário ou urgente, desde que sejam submetidas de imediato ao Congresso Nacional. A MP perderá a validade se não convertida em Lei em até 60 (sessenta) dias após sua promulgação. Esse prazo é prorrogável uma única vez, por igual período. 5. QUANTO À COMPETÊNCIA (OU EXTENSÃO TERRITORIAL) 10 CF/88, art. 84º, XXVI. a. Leis Federais: São aquelas que, segundo a Constituição Federal, legislam sobre matéria de interesse (ou relacionada) à União 11 . Seus dispostos são válidos em todo o território nacional. A edição dessas Leis é de competência do Congresso Nacional. b. Leis Estaduais: Lei estadual é aquela que tem validade (e incide) em apenas um estado federativo específico (ou em parte dele), no qual foi criada. Sua criação e edição são de competência das Assembleias Legislativas. Os estados da federação legislam sobre matéria que não lhes é vedada pela Constituição Federal 12 . c. Leis Municipais: São as Leis editadas pelas Câmaras Municipais dos Municípios, e que tratam dos temas de sua competência, segundo a CF/88, e que legislam suplementarmente às Leis Federais e Estaduais. São válidas dentro dos limites territoriais do município. 6. QUANTO AO ALCANCE a. Gerais: São as Leis que se aplicam a todo um sistema de relações jurídicas. Integram o Direito Comum. Um bom exemplo é o das leis do Código Civil. b. Especiais: Leis que se destinam a situações jurídicas específicas ou a relações jurídicas determinadas. Afastam-se do Direito Comum. Referências Bibliográficas I. Civil, P. d. (4 de Setembro de 1942). DECRETO-LEI Nº 4.657, DE 4 DE SETEMBRO DE 1942. Acesso em 3 de Março de 2016, disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del4657compilado.htm II. Gonçalves, C. R. (2015). DIREITO CIVIL BRASILEIRO (13ª ed., Vol. 1). São Paulo, Brasil: Saraiva. 11 CF/88, art. 22º. 12 CF/88, art. 25º, §1º.