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Jornalismo: matéria de primeira página 
Luiz Amaral 
 
AMARAL, Luiz. Jornalismo: matéria de primeira página. Tempo Brasileiro, 2008. 
 
 
Prevalecia o termo “imprensa” quando só havia revistas e jornais em papel. 
Surgiu o rádio, fez-se a diferença, “imprensa escrita”, “imprensa falada”. 
Despontou a televisão, agregou-se a expressão “imprensa televisiva”. 
A cada etapa do desenvolvimento tecnológico, um qualificativo. 
Como encontrar um coletivo que aglomerasse a todos? 
A solução foi recorrer ao latim “media” (meios), plural de “medium”. 
O americano adotou o termo, dando uma pronúncia própria: media passou a mídia. 
Por volta de 1994, a internet tinha sobretudo aplicação militar e universitária no 
emergente mundo on-line. 
O processo de alargamento do setor, que se desenvolve em ritmo acelerado, 
aumenta o volume de informações e entretenimentos que podem ser captados com 
minúsculos aparelhos celulares. 
Os recursos movimentados superam os de muitas indústrias tradicionais. 
Desse modo, mídia engloba jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão e a 
mídia digital. 
 
Jornal 
Jornal é um negócio regido pelas regras do “deve e haver”, do “ativo e passivo”, 
destinado a dar lucro. 
Trata-se de uma mercadoria, como ocorre com qualquer mídia. 
É um diário dos anseios, triunfos e tragédias da humanidade, de suas lutas, dores e 
alegrias. 
• Um centro de debates de opiniões políticas, sociais e econômicas tendentes a 
acomodar divergências, buscar soluções, encontrar caminhos para 
estabelecimento de uma sociedade mais justa; 
• Um defensor do comportamento ético da sociedade, de uma política 
educacional capaz de libertar o homem do atraso secular, de um sistema que 
possibilite a igualdade de oportunidade e mantenha a luta permanente contra 
a corrupção; 
• Tribuna para examinar as ações daqueles que se encontram no poder, vigiar, 
verificar, confrontar e criticar seus atos. 
Cabe ao jornalista o exercício da dúvida, não aceitar nada sem prova, desconfiar 
sempre. 
Os jornais da opinião apareceram com a Revolução Francesa. 
Em meados do século 19 ainda eram muito caros e estavam reservados à elite. 
Difundiam-se por meio de assinaturas, sinais de riqueza. 
Em 1825, o Constitutionel (Paris) tinha mil assinaturas, o Times (Londres), 17 mil. 
O desenvolvimento veio mais tarde com a rotativa, a linotipo, a publicidade, a 
rapidez da informação e distribuição. 
A liberdade de imprensa está garantida na Constituição dos Estados Unidos e 
inspirou outras democracias. 
Graças à internet, às câmeras digitais e o telefone celular, surgiu um tipo de 
comunicação chamado de jornalismo cidadão, ou participativo, colaborativo, público, 
jornalismo de rede, jornalismo de raiz, jornalismo amador. 
Seja qual for o qualificativo, trata-se de um tipo de jornalismo que escapa ao 
tradicional, aberto a qualquer membro da sociedade. 
Usando blogs e sites, o indivíduo pode exercer influência, participando do processo 
de captação, análise e disseminação de notícias. 
Pretensão antiga, agora factível. 
 
Papel por pixels 
As profecias sugerem desventuras para o jornal. 
Houve discursos agourentos quando do aparecimento do rádio. 
O jornal assustou-se, temendo que o novo veículo significasse seu atestado de 
óbito. 
Os editores foram à luta para proibir as agências de fornecerem notícias às 
emissoras antes que elas tivessem sido publicadas. 
Os noticiários radiofônicos americanos deviam resumir-se a boletins curtos e 
requentados. 
As emissoras reagiram, fundaram departamentos de notícias próprios e apelaram 
para tesoura, gilete e goma-arábica. 
A luta, agora, é com os sites, blogs, jornais online. 
A tecnologia é avassaladora. 
Diante da impossibilidade de competir com a internet, o jornal em papel não teve 
outra saída a não ser aliar-se ao inimigo, aproveitando a nova tecnologia. 
A corrida do público para outras fontes de informações deixou muitos jornais em 
dificuldades. 
A cada instante os jornais impressos buscam inovações para sobreviver. 
Para isso, vale-se do espírito do jornalismo, que continua o mesmo. 
A humanidade nunca abandonou um meio de comunicação que tenha criado. 
O jornal e o rádio mantiveram suas áreas de influência. 
A televisão vive momentos gloriosos. 
Novas tecnologias tendem a descobrir oportunidades para as antigas. 
O jornal em papel tem resistido. 
Afinal, o jornalismo tem uma história de se adaptar às mudanças, expectativas e 
tecnologias. 
 
Notícia 
A notícia é a matéria-prima, o centro de gravidade da mídia em geral, a base de tudo 
quanto é publicado. 
Em sua busca, concentra-se o esforço da redação. 
Ela determina o ritmo de trabalho, impõe horários, comanda a vida. 
Mas, o que é, em si, notícia? 
O repórter “sente” a notícia pelo “faro”, o instinto que o leva a perceber se vale a 
pena, ou não, correr atrás. 
Muitas são as definições, a maioria a partir do senso comum: “notícia é o que você 
não sabia ontem”. 
Mark Twain dizia que notícia é algo que faz alguém gritar “Santo Deus!” 
“Se alguém morde um cachorro é notícia, mas se um cachorro morde um jornalista é 
muito boa notícia”. 
O que passa por notícia vem dos primeiros aglomerados humanos. 
Homero fez-lhe referência na Ilíada. 
No século 16, Shakespeare usou o termo na peça Richard III. 
O efetivo aproveitamento comercial nasce com as primeiras agências internacionais: 
Havas (1832) e Reuters (1851). 
Charles Havas e Julius Reuter tiveram a ideia de produzir e vender informações. 
Os jornais não hesitaram em aceitar a proposta que oferecia ao público um produto 
atraente, capaz de interessar à população, independente de preferências partidárias. 
A ideia de notícia (news) data do início do século 19, cabendo à penny press dar-lhe 
o conceito moderno. 
Penny press foi o nome dado à revolução que houve na imprensa americana, a 
partir de 1830, em resposta ao desenvolvimento da sociedade urbana e à 
massificação do mercado. 
Notabilizou-se pela quebra da tradição e barateamento dos jornais. 
A notícia ganhou lugar de honra desbancando os insossos comentários políticos. 
A notícia que motiva a mídia atual não reúne essencialmente as características do 
jornalismo de informação. 
Notícia não é só o que os repórteres apuram, mas o que editores, produtores e 
donos da mídia decidem publicar e transmitir. 
A manipulação é prática antiga. 
Desde os pioneiros da divulgação e relações públicas: Phineas Taylor Bamum 
(agente de imprensa) e Ivy Lee, criador da assessoria de imprensa moderna. 
 
Reportagem 
A reportagem desfruta um lugar especial no conceito dos profissionais da mídia. 
Trata-se de um gênero completo. 
Conjuga investigação, interpretação e qualidade de estilo. 
O gênero pressupõe conhecimento para entender as implicações e o encadeamento 
de determinado fato ou notícia. 
Exige capacidade para condensar num texto bem escrito e atraente. 
Capaz de prender a atenção do público. 
É a notícia ampliada e contada em seus aspectos mais interessantes, por isso, 
requer tino jornalístico. 
O repórter há de ter capacidade de observação, sensibilidade, criatividade (sem 
agredir a verdade) e determinação no trabalho. 
A reportagem é quando o profissional tem possibilidade de manifestar 
conhecimentos e de valer-se de sua cultura. 
A escolha das fontes de informações precisa ser feita com muito cuidado. 
Só a confiança nos entrevistados não basta. 
O material precisa ser checado, analisado e confrontado com outros até que o autor 
chegue se não à verdade, pelo menos perto dela. 
O texto final, espécie de ensaio, deve fluir espontâneo, ser simples sem ser vulgar, e 
conciso. 
Um texto enxuto, sem adiposidade verbal. 
 
Jornalismo investigativo 
Há aqui uma redundância. 
Ora, repórter é, por definição, investigativo, se não é, não é repórter. 
A expressão pleonástica faz parte do jargão profissional dos jornalistas. 
Um furo, uma informação, uma reportagem, tudo é fruto de apuração, portanto, de 
investigação. 
Por que jornalismo investigativo? 
Talvez para diferenciar do jornalismo acomodado, monótono, marasmático,do 
apanhador de releases e anotador de declarações oficiais. 
Confronta-se com o “jornalismo declaratório”, em que o repórter se contenta com as 
declarações do entrevistado. 
Trata-se do emprego amplificado das técnicas tradicionais de apuração dos fatos. 
Em vez de entrevistar uma ou duas pessoas, o repórter investigativo pode até 
entrevistar dezenas, vai a fundo na apuração, mesmo que isto lhe custe tempo, 
requeira trabalho e coragem. 
Às vezes, a tarefa é feita em equipe, cada repórter responsável por um aspecto da 
questão. 
Esse tipo de jornalismo foi durante muito tempo praticado sem ter um nome 
específico. 
No fim do século 19, foi chamado no Brasil de “jornalismo detetive”, alusão às 
técnicas de investigação empregadas pela polícia. 
O jornalismo investigativo atingiu o seu apogeu com os repórteres Bob Woodward e 
Carl Bemstein, do Washington Post no escândalo Watergate, que levou o presidente 
Richard Nixon à renúncia. 
 
Colunismo 
A reportagem é quintessência do jornalismo, o prato de luxo para os dias especiais. 
Mas o que desperta a cobiça jornalística é a coluna que, por ter direito a assinatura e 
embalar notícia e comentário, atrai profissionais e público. 
A coluna é uma área privativa do jornal com regulamento próprio, onde se misturam, 
em textos curtos, notícia e comentário, entrevista, interpretação, humorismo e 
gravidade. 
Completa o que faltou ao noticiário geral, pode conter o lado pitoresco do 
acontecimento, o detalhe curioso de uma decisão. 
É um cantinho especial, personalizado. 
A atração resulta do prestígio que a posição concede ao jornalista que se torna 
“dono” de uma “vitrine” permanente, com direito a informar, baseado em suas fontes, 
e comentar com certa liberdade os fatos de sua preferência. 
O profissional goza de liberdade maior do que os demais companheiros de redação. 
É ele quem pauta o seu dia em busca de novidades. 
O colunista é uma espécie de profissional liberal dentro do jornal, senhor do seu 
destino. 
Para o desempenho da função, conta com o conhecimento e a confiança dos 
entrevistados que possibilitam informações e declarações valiosas, de primeira mão, 
e deve ter capacidade para discernir uma informação honesta de uma que não 
passa de sondagem. 
Trata-se de alguém curioso, sociável, de texto claro, conciso e correto. 
O colunista disputa com o repórter o prazer da notícia em primeira mão, com o 
redator a capacidade de dizer o máximo com o mínimo de palavras e com o 
comentarista a sutileza de espírito, a perspicácia e a finura. 
Em muitos casos, a coluna acaba sendo uma fonte de informação para o próprio 
jornal. 
A ideia de delimitar a coluna e dar-lhe essa característica surgiu no fim do século 19, 
por Eugene Field, no Daily News, de Chicago. 
 
Humor 
O humor entretém, suaviza tensões, faz rir para refletir e quebra a indiferença da 
opinião pública. 
O humorista aproveita o viés do riso para questionar problemas sérios. 
Durante os conflitos bélicos, é arma de combate, exorcizando a angústia, dá 
confiança ao combatente e, esvaziando a ameaça, priva o adversário de sua arma 
psicológica. 
Charge, caricatura (do latim caricare: carregar, exagerar, acusar, ridicularizar) 
relativa a acontecimentos recentes, geralmente políticos. 
A charge política no Brasil, usada desde o Império pela Revista Ilustrada, de Ângelo 
Agostini. 
 
Entrevista 
Entrevistar é buscar informações. 
Mas o jornalista utiliza uma técnica para que a fonte diga o que não estaria disposto 
a contar. 
Por isso, o diálogo nem sempre conta com a boa vontade do entrevistado. 
As perguntas indiscretas assustam as fontes. 
Para obter informações que valham a pena, o repórter precisa agir com tato e 
persistência. 
O gênero exige empatia, intuição, delicadeza, às vezes ousadia, conhecimento do 
assunto e do entrevistado. 
A iniciativa da conversa cabe sempre ao jornalista. 
Se ele não dominar, de certo modo, o tema a abordar, e não conduzir a conversa 
com inteligência, a chance é mínima de obter algo interessante. 
Mesmo assim, o repórter pode sair frustrado do encontro se o entrevistado resolver 
“não abrir o jogo”. 
Alguns profissionais acham que o ideal é quando o repórter tem apenas 
conhecimento superficial sobre o tema da entrevista. 
Isso aguçaria a sua curiosidade para indagar, insistir, indagar sempre, fazendo a vez 
do mais do público. 
Mas, mesmo não dominando o assunto, aconselha-se estudar bem o tema, 
preparar-se com as dúvidas. 
Além de saber perguntar, o outro segredo é saber ouvir. 
Mesmo quando a fonte se esmera na autopromoção, o repórter precisa ter paciência 
para escutar. Manda a técnica não interferir demais na exposição do entrevistado, a 
não ser quando foge do assunto central. 
Mola do jornalismo, a prática da entrevista tem sofrido modificações com o 
desenvolvimento tecnológico. 
O ideal seria uma conversa cara a cara para que o entrevistador pudesse olhar bem 
nos olhos do entrevistado e acompanhar a linguagem corporal a cada pergunta feita. 
Pois, o entrevistado é capaz de cometer indiscrições, mesmo sabendo que está 
falando a um repórter. 
Por conta da produtividade, recorre-se à tecnologia de e-mail, celular e 
webconferência. 
A frase que predomina é “mande as perguntas que eu respondo por e-mail”. 
Outras fontes apelam: “se você quer saber o que eu penso acesse meu blog” ou as 
redes sociais. 
Discute-se quem deu a primeira entrevista jornalística. 
Querem uns que foi a prostituta, dona de famoso bordel em Nova Iorque, 
RosinaTownsend, em 16 de abril de 1836. 
Outros acham que foi Brigham Young, líder religioso mórmon, presidente da Igreja 
de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. 
 
Estilo jornalístico 
Estilo jornalístico é sinônimo de clareza e concisão. 
Direto, fácil, acessível a qualquer um. Requer economia de palavras. 
As sugestões são muitas: 
• Palavras curtas, captadas com maior rapidez e economizam espaço e tempo; 
• Vocabulário usual, poupa esforço suplementar do público; 
• Frases breves, com abuso do ponto final; 
• Verbos vigorosos, de ação, eles dão vida às frases. 
O talento do jornalista é o estilo. 
Os caminhos da simplicidade e da clareza são feitos de trabalho e dedicação, 
embora deem impressão de facilidade. 
 
Ato de escrever 
O texto não dita as regras. 
A jornalista e escritora francesa Françoise Giroud era taxativa: “O ato de escrever é 
algo extraordinário. Para começar, é um mistério completo. Não se aprende. Nunca 
vi ninguém aprender. E realmente uma coisa que vem do interior.” 
E dizia que escrever faz parte da experiência do ser humano que sai pelo mundo 
com seu código genético moldando a personalidade na forja da vida. 
Por isso, aconselha ler, ler, ler, ler sempre e mais. 
O jornalista Cláudio Abramo achava que “escrever é como desenhar, se o sujeito 
insiste muito acaba aprendendo”. 
Primordial no ato de escrever é o aproveitamento otimizado dos recursos linguístico. 
O professor José Oiticica aponta seis qualidades essenciais ao estilo: correção, 
concisão, clareza, harmonia, originalidade e vigor. 
Para criar uma identidade, principalmente os jornais, adotam manuais de redação e 
estilo. 
Na década de 1960, os escritores americanos Tom Wolfe, Truman Capote e Norman 
Mailer tentaram fundir jornalismo e literatura numa experiência chamada “novo 
jornalismo”ou “jornalismo literário.” 
A ideia era usar a percepção e novas técnicas de entrevista em busca de uma visão 
interior do acontecimento, evitando a apuração modelo dos fatos. 
Era ao mesmo tempo cuidar do estilo e da narrativa com técnica de ficção. 
 
Crônica 
A crônica tem certidão de nascimento, com local e datas precisos da chegada da 
crônica ao jornal: 1799, Journal de Débats, Paris. 
De temperamento mais literário é acolhida pelo leitor médio e sempre contou com 
autores de expressão. 
Em poucos países, a crônica jornalística desfruta o prestígio que goza no Brasil. 
Afinal, tem entre seus diletos, Machado de Assis. 
Outro ícone, João do Rio foi dos grandes cronistas brasileiros. 
Outros literatos também aderiramà crônica, como Olavo Bilac, José de Alencar, 
Rachel de Queiroz, Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga, Fernando Sabino, 
Luís Fernando Veríssimo e João Ubaldo Ribeiro. 
Por sua efemeridade, o fato de abordar acontecimentos diários, passageiros, a 
crônica é classificada como gênero jornalístico. 
Perecível, feita para durar horas, o máximo um dia. 
Qual o melhor tema de uma crônica? Em princípio, qualquer um. 
 
Editorial 
O editorial, expressão moderna do “artigo de fundo”, é um “ensaio curto, embebido 
de senso de oportunidade”, um texto de opinião que reflete o ponto de vista do 
jornal. 
Difere do ensaio propriamente dito por não ter, em geral, valor permanente, 
subordinando-se sua vida à dos fatos que o determinam. 
Sua fonte é um acontecimento. 
É a “boca” do jornal, por onde ele se identifica e diz quem é. 
Cobra-se imparcialidade, quando não objetividade do jornalismo, mas a cobrança 
não chega aos editorialistas, livres para divulgar a “linha do jornal”, indiferentes, em 
muitos casos, à opinião dos leitores. 
O editorial é a visão subjetiva dos acontecimentos. 
O editorialista pode ser também a voz da moderação. 
A imprensa brasileira tem tradição de grandes editorialistas: Oto Maria Carpeaux, 
Franklin de Oliveira, Álvaro Lins, José Eduardo Macedo Soares, Moacyr Padilha, 
Antônio Pinto de Medeiros, Márcio Moreira Alves, Cláudio Abramo, Boris Casoy. 
 
Objetividade 
Objetividade pode ser rigorosa imparcialidade e pensamento sem julgamento de 
valor, existência real daquilo que se concebeu no espírito, existência dos objetos 
fora do eu. 
Isso no sentido filosófico. 
No sentido estético, é a perfeição do estilo, do desenho, da execução de uma obra. 
Nos dois sentidos, o conceito interessa à mídia. 
No primeiro caso, importa saber se é possível o jornalista executar o trabalho diário 
com absoluta isenção. 
Se ele pode agir livre de preconceitos e do sistema de valores que lhe são 
embutidos, desde criança, e que constituem a sua personalidade. 
Cada ser humano tem uma maneira de ver o mundo, sentir e reagir aos agentes 
externos e construir a sua realidade. 
Reagimos segundo nossa raça, classe social, preferência política, crença religiosa. 
Temos preconceitos, peculiaridades, excentricidades, frustrações, ideias de 
perfeição, disposições de humor, simpatias e antipatias. 
Daí o ceticismo quanto à isenção de espírito. 
A noção de objetividade chegou ao jornalismo em meados do século 19, com 
princípios de imparcialidade e equilíbrio determinantes da ética profissional. 
Contribuíram para tanto as agências de notícias, o desenvolvimento industrial e o 
advento da publicidade e das relações públicas. 
A insistência na objetividade chegou a tal ponto que, em 1937, a Associated Press 
demitiu um repórter acusado de ter redigido uma notícia de forma tendenciosa. 
“A objetividade não passa de um ideal: nenhum sujeito a realiza”. 
Críticos da mídia consideram a matéria jornalística subjetiva e que a objetividade 
não passa de um ideal. 
 
Ombusdsman 
Com o propósito de apresentar um produto mais confiável ao público, os jornais (a 
mídia, em geral) amoldaram às suas necessidades a histórica função pública criada 
para canalizar reclamações da população e reinventaram a figura do ombudsman. 
O objetivo é garantir informações corretas aos leitores e estimular as vendas. 
O ombudsman funciona como intermediário entre o jornal e os leitores, 
hipoteticamente é o advogado dos leitores. 
Recebe e apura as queixas, faz a crítica interna e controla a qualidade do que sai 
publicado. 
E visto com certa desconfiança por jornalistas e leitores. 
Em geral, escreve coluna com as principais questões da semana e as providências 
tomadas. 
Na escolha para o posto são levados em consideração conhecimentos jornalísticos, 
experiência e integridade. 
O perfil exigido é o de um elemento competente, em dia com o processo jornalístico 
e a orientação política da empresa jornlística. 
A tarefa do ombudsman não é das mais confortáveis. 
O posto requer firmeza e diplomacia, sabendo-se quão presunçosos e testudos são 
os jornalistas. 
Os leitores apontam falhas na apuração de notícias, dados errados, discutem 
escolha e colocação de matérias e fotos, falta de objetividade. 
Preocupam-se com a exposição excessiva de um político, adjetivação, momento 
propício para publicação dessa ou daquela reportagem. 
Enfim, queixam-se de tudo. 
As condições de trabalho dos jornalistas exigem atenção constante. 
Eles estão sempre sob pressão, tem prazos rigorosos para entrega das matérias, 
enfrentam competição por furos, e deles se espera um trabalho correto, imparcial, a 
todo tempo. 
Os principais motivos para a ter um ombudsman: 
• Melhorar a qualidade do noticiário com monitoramento da precisão, 
honestidade e equilíbrio; 
• Ajudar o veículo a tornar-se mais acessível, responsável e credível; 
• Aumentar a consciência dos profissionais para as preocupações públicas; 
• Economizar tempo dos diretores e editores indo as questões diretamente para 
um responsável individual; 
• Resolver questões que, de outro modo, poderiam exigir advogados e 
processos longos e custosos. 
A Folha de S. Paulo é a pioneira no Brasil, criou o cargo de ombudsman em 1989, 
seguida pelo jornal O Povo, de Fortaleza. 
 
A invenção do lide 
“O presidente foi baleado num teatro esta noite e talvez esteja ferido mortalmente.” 
Esse despacho da agência Associated Press (AP), de 14 de abril de 1865, sobre o 
atentado contra Abraham Lincoln, em Washington, é tido por alguns como o primeiro 
exemplar de “lead”. 
Lawrence Gobright, o autor do texto, conta em suas memórias, que estava sozinho 
na redação da AP, despreocupado, lendo jornal, fumando charuto, depois de ter 
enviado o que pensou fosse o último despacho da noite, quando alguém entrou 
esbaforido gritando que o presidente tinha sido assassinado. 
Foi assim que Gobright, com uma dúzia de palavras, e sem ter testemunhado coisa 
nenhuma, entrou para a história do jornalismo. 
Naquele momento, nada mais sabia do atentado, tudo o que lhe contaram escreveu. 
Outros são de opinião que desde 1840 o lide já dava sinais de vida, quando abriu 
caminho com as agências de notícias empurrado pelo alto custo das transmissões 
telegráficas. 
O historiador David TMindich tem outro juízo: o pioneiro no emprego do lide não foi 
Gobright nem jornalista nenhum, foi, sim, o secretário da Guerra do presidente 
Lincoln, Edwin Stenton. 
Com seus boletins objetivos (no sentido estético do estilo), privilegiando o essencial 
e deixando os detalhes para depois, Stenton teria sido um dos precursores do lide. 
Ironia, já que ele controlava a imprensa, perseguia repórteres, era um censor. 
A sua política de informação mascarava intenções de supressão e distorção dos 
fatos, propaganda e cerceamento da liberdade de expressão. 
A objetividade, já muitos suspeitavam, era usada para ocultar a sua própria agenda 
e ordenar deliberadamente os fatos para manipular a percepção do público. 
Foi nessa época, 1863, que o general Joseph Hoocker estipulou a obrigatoriedade 
da assinatura das matérias (by-line). 
Mindich, ao comparar os textos de Gobright e Stanton, concluiu que embora os de 
Stanton não sejam perfeitos, estão mais próximos da pirâmide invertida do que as 
matérias de Gobright. 
O enxugamento e a concisão dos textos jornalísticos têm a ver com as agências 
telegráficas, a primeira delas, a Havas, francesa, fundada em 1835. 
Os custos econômicos das transmissões definiam o tamanho dos despachos. 
Pouco a pouco, os textos foram se tomando compactos, objetivos e mais agradáveis 
à leitura. 
Sem dúvida um texto novo, diferente emergiu. 
A pirâmide invertida não teria acontecido não fosse a invenção do telégrafo. 
O telégrafo foi tão revolucionário quanto hoje é a internet. 
A penny-press revolucionou a ideia de notícia. 
Trouxe ao jornalismo o sentido da oportunidade e deu vida à noção de que a notícia 
mais importante é aquela que o público está querendo. 
Enfatizou o noticiário local, explorados crime e sexo,e “inventada” a chamada 
matéria de interesse humano. 
A notícia suplantou o comentário. 
O surgimento do lide e da pirâmide invertida é ponto polêmico entre os historiadores.

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