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Introdução ao Estudo do Direito LIVRO UNIDADE 1 Aline Regina das Neves Direito, Justiça, Ciência, Sociedade e Fontes do Direito © 2015 por Editora e Distribuidora Educacional S.A Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo de sistema de armazenamento e transmissão de informação, sem prévia autorização, por escrito, da Editora e Distribuidora Educacional S.A. 2015 Editora e Distribuidora Educacional S. A. Avenida Paris, 675 – Parque Residencial João Piza CEP: 86041 ‑100 — Londrina — PR e‑mail: editora.educacional@kroton.com.br Homepage: http://www.kroton.com.br/ Sumário Unidade 1 | Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito Seção 1.1 - O que é Direito? Direito e justiça Seção 1.2 - O que é Direito? Direito e sociedade Seção 1.3 - O que é Direito? Direito e ciência Seção 1.4 - Fontes materiais e formais do direito 7 9 27 43 61 Palavras do autor Prezado aluno(a), Bem-vindo à disciplina de Introdução ao Estudo do Direito! Tenho certeza de que essa caminhada, apesar de longa e árdua, será extremamente fascinante. Ao final do curso, você olhará para trás e verá a evolução profissional e pessoal que este estudo lhe proporcionará. Esta disciplina, como o próprio nome já sugere, tem o objetivo de apresentar a você as noções preliminares do direito que serão usadas no decorrer de todo o curso. É a base, a estrutura, para que nos próximos anos você consiga sedimentar seus conhecimentos nas mais diversas áreas do direito. Nosso Livro Didático (LD) será dividido em 4 Unidades. Na Unidade 1, sobre direito, Justiça, ciência, sociedade e fontes do direito, você estudará o direito como fenômeno jurídico, suas origens, significados e funções, entendendo as relações entre direito e Justiça e o posicionamento do homem na sociedade. Ademais, estudará aspectos da cientificidade do direito, aprendendo sobre a conceituação das fontes e suas classificações. Na Unidade 2, você estudará o conceito da norma social e jurídica, seus tipos e atribuições dentro do Direito Público, Privado e Transindividual. Trabalhará, ainda, o conceito de norma jurídica nos seus campos da validade, eficácia, exigência e força, observando a teoria do ordenamento jurídico e, por fim, a hermenêutica. Na Unidade 3 trabalharemos alguns dos elementos filosóficos e sociológicos do Direito, em especial a Teoria Tridimensional do Direito e os ensinamentos do professor Miguel Reale. Por fim, na Unidade 4, você estudará os elementos da Ciência Política e da Teoria Geral do Estado, explicando a tripartição de poderes e o processo legislativo em si. Espero que nosso trabalho aqui seja proveitoso. Que você consiga desenvolver competências gerais necessárias para sua caminhada nesse campo jurídico. Explore suas leituras e participe de todas as atividades. Dedique-se ao que propomos aqui e tenha a certeza de o que te aguarda no futuro é o sucesso! Unidade 1 DIREITO, JUSTIÇA, CIÊNCIA, SOCIEDADE E FONTES DO DIREITO Prezado aluno, Seja bem-vindo à disciplina. Você iniciará agora a caminhada no estudo do Direito! Uma caminhada longa e contínua, mas fascinante e que, certamente, lhe será transformadora. Estamos aqui para guiá-lo nessa empreitada e para torná-la mais prazerosa e proveitosa. Conte sempre conosco! Para iniciar seus estudos, é necessário que sejam apresentados conceitos e noções iniciais, capazes de fazê-lo entender os ensinamentos posteriores. Tudo tem um começo e, no direito, não poderia ser diferente. A disciplina de Introdução ao Estudo do Direito (IED), como o próprio nome já sugere, tem o objetivo de apresentar a você as noções preliminares do direito, que serão necessárias no decorrer de todo o curso. É como se estivéssemos preparando o terreno e construindo as bases sobre as quais será edificado o seu conhecimento jurídico. Aí está a grande relevância da disciplina, que justifica todo o seu empenho e dedicação na execução das atividades propostas. Nesta primeira Unidade, estudaremos as diferentes acepções de direito, sua origem e função, sempre o relacionando com outros conceitos, como Justiça, Homem e Sociedade. Abordaremos, também, as teorias que justificam a formação da sociedade, tais como o Naturalismo e o Contratualismo, bem como os fatos sociais e jurídicos que decorrem desta vivência agregada. Trataremos, ainda, da acepção científica do direito e aspectos correlatos, bem como de suas fontes, ou seja, de onde vem o direito, debruçando-nos sobre cada uma delas. Para nos auxiliar no desenvolvimento dos temas propostos, utilizaremos uma Situação Geradora de Aprendizagem (SGA), a ser complementada em cada uma das seções por uma Situação-problema (SP). É a partir delas que desenvolveremos todo o conteúdo programático preparado para você, sendo muito importante a leitura do tópico “Não Pode Faltar”, constante em seu livro. Recomendamos que, após a leitura do “Não Pode Faltar”, com os conhecimentos adquiridos, você procure solucionar a SP apresentada e, em seguida, confira sua resposta com aquela indicada em seu livro, no tópico “Sem Medo de Errar”. Iniciando nossos trabalhos nesta primeira Unidade, pensemos num fato que chamou a atenção de todo o país no ano 2011: foi encontrado, no município de Areia Branca, no Rio Grande do Norte, José Antônio Nascimento, um homem Convite ao estudo Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 8 com 45 anos de idade, que vivia há 25 anos trancado em um quarto de 3m2, mantido sob grades e acorrentado. José Antônio estava nestas condições desde os seus 20 anos, quando, após presenciar o assassinato da cunhada, começou a apresentar um comportamento extremamente agressivo e transtornos psiquiátricos, a ponto de inviabilizar seu convívio com outras pessoas e submetê-las a risco. José Antônio vivia com seu pai, o Sr. Cícero Raimundo do Nascimento, com 79 anos de idade naquela época, que, temendo pela própria vida e em razão da agressividade do filho, não viu outra saída que não o trancar. Ele abria a grade que mantinha o filho no quarto apenas para entregar as refeições e dar-lhe cigarros, que, segundo suas palavras, ajudavam a manter José Antônio mais calmo. Fonte: Meio Norte. Disponível em: . Acesso em: 20 dez. 2015. Figura 1.1 | José Antônio em cárcere privado Para conhecer um pouco mais acerca da história de José Antônio, leia a reportagem: UOL. Pai mantém deficiente mental preso em cômodo de 3m2 há 25 anos em Areia Branca. Notícias. Disponível em: . Acesso em: 20 dez. 2015. Pesquise mais Após a descoberta do fato por uma equipe do Centro de Referência da Assistência Social (Cras), o Ministério Público foi comunicado para que tomasse eventuais medidas cabíveis. Agora, você, estagiário da Promotoria responsável, depara-se com essa situação e se pergunta, dentre outros questionamentos: a) Manter José Antônio aprisionado e acorrentado é uma medida justa? b) É justo deixá-lo em liberdade e expor todos aqueles que o rodeiam a agressões, à risco e à integridade física? c) Do ponto de vista social, pode José Antônio ser mantido em completo isolamento? d) Como o direito pode assistir José Antônio e seu pai? São questionamentos como estes que você, acadêmico de Direito, será convidado a responder ao longo de toda a Unidade 1. Frente à SGA apresentada, analise as Situações-problema propostas em cada uma das seções e comece seu estudo, sem se esquecer de ler atentamente as informações contidas no WebRoteiro e no seu livroBuscam certezas absolutas e universais. Busca previsibilidade e está relacionado ao Direito Positivo em determinado tempo e espaço. Leis de caráter informativo. Leis de caráter persuasivo. Não há juízo de valor. Há juízo de valor. Não há atividade de interpretação. Há atividade de interpretação. Fonte: O autor (2015) Quadro 1 | Distinção entre Ciências Naturais e o Direito É justamente a presença de tais diferenças que fez com que alguns autores negassem a natureza científica do Direito. Tal corrente, chamada de negativista, o via como mera técnica, já que não era universal. Este conceito não prosperou, já que o Direito apresenta objeto de estudo e metodologia própria, a saber: • Objeto de estudo: normas (FERRAZ JÚNIOR, 1980, p. 14), em sua relação de pertinência, vigência e aplicabilidade. Em outras palavras, estuda o fenômeno jurídico e como ele se concretiza no tempo e no espaço (REALE, 2002, p. 17). • Método: analítico, compreendido por procedimentos dedutivos (que partem da análise do geral para o particular), indutivos (que partem do individual para o geral) e pela analogia, que será abordada na seção 1.4. Assim, diante da presença dos elementos necessários para se adquirir status de cientificidade – objeto de estudo próprio e método –, é incontestável a existência da Ciência do Direito, também chamada de Jurisprudência, termo que não deve ser confundido com “jurisprudência” (grafada com letras minúsculas), que é o conjunto de decisões uniformes, objeto de estudo da próxima seção. Longe de ser simples técnica, a Ciência do Direito é constituída de várias técnicas, que são os meios empregados para alcançar determinada(s) finalidade(s) (NADER, 2000, p. 215), numa relação de complementaridade. Ou seja, da Ciência, provém o conhecimento teórico, enquanto que, da técnica, advém o suporte prático, sendo a técnica jurídica o conjunto de meios e procedimentos que tornam a norma jurídica efetiva (geradora de efeitos) (NADER, 2000, p. 216). As técnicas jurídicas, segundo Paulo Nader, classificam-se em: Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 50 - TÉCNICA DE ELABORAÇÃO: também chamada de técnica legislativa. São aquelas empregadas no procedimento de elaboração das normas (regras). - TÉCNICA DE INTERPRETAÇÃO: são aquelas que estabelecem como as normas devem ser interpretadas, ou seja, como se revelar o real significado e alcance delas. Ex.: gramatical, lógica, sistemática, entre outras, que serão estudadas em seções posteriores. - TÉCNICAS DE APLICAÇÃO: são aquelas que visam orientar a tarefa de julgar. TÉCNICAS JURÍDICAS Fonte: O autor (2015) Figura 1.22 | Organograma sobre as Técnicas Jurídicas O desenvolvimento das técnicas jurídicas e sua correta aplicação são indispensáveis para a Ciência do Direito, já que de nada adianta o conhecimento teórico se não estiver aliado à prática. E você perceberá isso ao longo do curso! Em cada aula de seu curso, você receberá dezenas de informações novas e outras tantas que lhe possibilitarão construir e sedimentar o seu conhecimento. Para facilitar a assimilação, vamos sistematizar o que vimos até agora, nesta seção? • Ciência é o conhecimento sistematizado sobre determinado objeto, passível de verificação mediante emprego de um método. • Como o Direito se distingue das Ciências Naturais, que apresentam proposições meramente descritivas e informativas, teve seu caráter científico questionado e, até mesmo, negado (corrente chamada negativista), sob o argumento de que, por ele, não se poderia chegar a verdades absolutas e universais, razão pela qual foi considerado mera técnica. • O Direito dispõe de objeto de estudo próprio e metodologia bem definida (método analítico, distinto dos métodos de experimentação empregados nas Ciências Naturais) e, por isso, é verdadeiramente uma Ciência (Jurisprudência). • Como de nada adianta o desenvolvimento do arcabouço teórico se inexistir meios práticos de sua efetivação, a Ciência do Direito utiliza-se de várias técnicas que permeiam, desde o procedimento de elaboração das normas/regras jurídicas (técnicas de elaboração), passando por sua interpretação e atribuição de real significado (técnicas de interpretação) e culminando naquelas responsáveis por nortear os julgamentos (técnicas de aplicação). Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 51 Técnicas de elaboração Técnicas de elaboração Técnicas de elaboração Agora que você sabe do caráter científico do Direito, fica bastante evidente a razão de ocupar espaço nos bancos universitários: o seu caráter científico e autônomo (que não se submete a nenhuma outra Ciência) e a amplitude de seu objeto de estudo, com vistas a esmiuçar a Ciência Jurídica. Há de se ressaltar, porém, que o fato de o Direito ser uma Ciência autônoma, que não se submete a nenhuma outra, não significa que seja completamente independente: ele está extremamente vinculado a outras Ciências, tais como a Sociologia, Filosofia, Economia e Política, áreas do conhecimento (Ciências) que lhe são complementares. Que relação pode ser tecida entre a Ciência do Direito e a Economia? Reflita Para entender a interdisciplinaridade do Direito e sua relação com outras Ciências, leia: • DIMOULIS, Dimitri. Manual de introdução ao estudo do direito. 2. ed. Revista dos Tribunais: São Paulo, 2008, p. 119-129. • REALE, Miguel. Lições preliminares de direito. 27 ed. Saraiva: São Paulo, 2004, p. 13-20. Pesquise mais Justamente em razão da amplitude e vastidão do objeto de estudo do Direito e, para facilitar sua ordenação de forma didática, costuma-se dividi-lo em diversos ramos – também chamados de disciplinas. É como se, de um único tronco (Ciência do Direito), partissem diversos galhos, que representam recortes no objeto a ser estudado: Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 52 Fonte: Vecteezy. Disponível em: . Acesso em: 21 dez. 2015. Figura 1.23 | Árvore e o tronco do direito Os ramos do Direito, por sua vez, ainda para fins didáticos, são divididos em dois grandes grupos: Direito Público e Direito Privado. Tal divisão popularizou-se com Ulpiano, que elegeu, para a classificação, o critério do interesse dominante. Assim, são ramos pertencentes ao Direito Público aqueles que se ocupam do estudo das relações em que o Estado é parte. Tais relações podem se dar pelo Estado em si mesmo ou com outros Estados. Exemplificando São exemplos de ramos vinculados ao Direito Público, dentre outros: • Direito Constitucional: aborda a estruturação do Estado, sua divisão de atribuições, direitos a serem assegurados pelo Estado, entre outros. • Direito Administrativo: aborda o Estado, enquanto Administração Pública e Poder Executivo. • Direito Penal: aborda as condutas consideradas ilícitas e, portanto, delituosas, bem como a sanção cominada àqueles que as comentem. • Direito Internacional Público: aborda as relações entre os Estados, que envolvam, sobretudo, questões voltadas à soberania. • Direito Processual: aborda o processo, como instrumento de realização da atividade jurisdicional. Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 53 Já o Direito Privado é o grupo composto por ramos do Direito direcionados ao estudo das relações mantidas entre os particulares (pessoas físicas ou jurídicas ou, ainda, entes despersonalizados, que você estudará em Direito Civil). Engloba, ainda, o estudo das relações em que o Estado figure em condição de igualdade e não de supremacia perante os particulares. Exemplificando São exemplos de ramos vinculados ao Direito Privado, dentre outros: • Direito Civil: aborda “pessoas, bens e atos jurídicos” (NADER, 2000, p. 352), englobando o estudo das famílias, sucessões, obrigações e coisas, setores que, em tese, prevalece a autonomia da vontade. • Direito Empresarial: abrange o estudo das diferentes espécies de pessoas jurídicas, títulos de crédito,falência e recuperação judicial. • Direito do Trabalho: com origem nas obrigações, aborda o estudo das relações de trabalho (gênero do qual a relação de emprego é espécie, como você estudará oportunamente) mantidas entre duas ou mais pessoas. Sendo assim, podemos dividir o direito em duas vertentes: Direito Direito Público Direito Privado - Direito Constitucional - Direito Civil - Direito Administrativo - Direito Empresarial - Direito Penal - Direito do Trabalho - Direito Processual Faça você mesmo Pesquise e elenque outros ramos do Direito vinculados ao Direito Público e outros vinculados ao Direito Privado. Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 54 Embora ainda utilizada, principalmente, para sistematizar o estudo, a classificação dos ramos do Direito em pertencentes ao Direito Público ou ao Direito Privado revela-se insuficiente e não acompanha a complexidade das relações tecidas. Isso porque surgiram ramos do Direito de natureza controvertida, que não podem ser categoricamente enquadráveis como pertencentes ao Direito Público ou ao Direito Privado. É o que acontece com o Direito do Consumidor, Direito Econômico e Direito Ambiental, situados em uma espécie de zona de penumbra entre os dois grandes e tradicionais grupos. Ademais, não se pode esquecer de que, sobretudo após a Constituição Federal de 1988, vislumbra-se uma tendência de publicação do direito privado, ou seja, interferência estatal sobre ramos do direito considerados eminentemente privados. De mesma forma, vale lembrar que, também, se depara com a privatização do Direito Público, diante do repasse de atividades e responsabilidades tipicamente estatais, como ocorre nas parcerias público-privadas, que você estudará em suas aulas de Direito Administrativo. Assim, a classificação em comento e seus critérios não se mostram rígidas, exaurientes e, tampouco, bem definidas, podendo-se falar, até mesmo, em terceiro grupo, que, por reunir características dos dois antecessores, é conhecido como “Direito Misto”. Para saber mais sobre a insuficiência da classificação de Ulpiano, leia: DIMOULIS, Dimitri. Manual de introdução ao estudo do direito. 2. ed. Revista dos Tribunais: São Paulo, 2008, p. 317-320. Pesquise mais SEM MEDO DE ERRAR! Com as informações e conteúdos apresentados no item “Não Pode Faltar”, que tal tentarmos solucionar nossa Situação-problema (SP), exposta no “Diálogo Aberto”? A SP era a seguinte: você é estagiário da Promotoria que atua no caso de José Antônio, aquele homem que, por apresentar transtornos psiquiátricos e comportamento agressivo, é mantido, pelo próprio pai, aprisionado em um pequeno cômodo, já que, assim, fica impedido de causar dano à integridade física dos demais. Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 55 A Promotora do setor onde você é estagiário, com vistas a refletir sobre o caso e tomar as providências mais acertadas, pediu que você reunisse obras jurídicas e livros relacionados aos ramos do Direito envolvidos na situação de José Antônio e de seu pai. Você vai até a biblioteca de sua Faculdade e depara-se com a seguinte divisão: à direita, ficam os livros de Direito Público, à esquerda, livros de Direito Privado. E agora? Você precisa de livros pertinentes a quais ramos da Ciência do Direito? Eles estão à direita ou à esquerda? Vimos que o Direito apresenta caráter científico, sendo verdadeira Ciência, já que apresenta objeto de estudo próprio e método. A amplitude de seu objeto de estudo faz com que ele seja dividido em dois ramos do direito: público e privado. Atenção! O Direito é uma ciência normativa, composta por proposições persuasivas, de finalidade prática, já que visa à apresentação de um modelo de conduta. A classificação tradicional é insuficiente, porque há ramos do Direito que não se enquadram, especificamente, em nenhum dos dois grandes grupos (Direito Público ou Direito Privado), estando equidistante deles. Ademais, assiste-se aos fenômenos da publicização do direito privado e da privatização do direito público, o que demonstra que os dois grandes grupos, suscitados desde momento anterior a Ulpiano, não são agrupamentos estanques e isolados. Lembre-se Posto isso, vamos investigar se o caso de José Antônio e seu aprisionamento por seu pai revela relação que conta com a participação do Estado, em posição de supremacia, ou apenas relação entre particulares, em que prevalece a autonomia da vontade. Temos de ponderar o seguinte: Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 56 a) José Antônio está tendo sua liberdade violada, já que está preso num pequeno cômodo, e liberdade, como você estudará em suas aulas de Direito Constitucional, é direito fundamental. b) A conduta do pai de José Antônio pode ser repelida pelo Direito, sendo considerada delito criminal (cárcere privado). c) O pai de José Antônio, caso o ordenamento fixe sanção a tal conduta (“se A é, B deve ser”), pode vir a sofrê-la. d) Pelas assertivas supracitadas, fica claro que a participação do Estado, em posição de supremacia, está presente no caso discutido, pois: • Cumpre ao Estado assegurar a liberdade de José Antônio, bem como cumpre ao Estado assegurar a integridade física de seu pai (Direito Constitucional). • O Estado tem não apenas o interesse, mas o dever de fixar condutas e de estabelecer aqueles que lhe são contrárias (Direito Penal). • Se for entendido que o pai de José Antônio deve ser punido, o Estado deverá estabelecer um instrumento para que isso se efetive, ou seja, o processo (Direito Processual). Assim, ainda que outras considerações secundárias possam ser observadas, num primeiro momento, a solução do caso de José Antônio remete ao Direito Constitucional, Direito Penal e Direito Processual, ramos vinculados ao Direito Público. Portanto, você estagiário, para atender à solicitação da Promotora, deverá procurar as obras nas prateleiras situadas à direita, na biblioteca. Avançando na prática Pratique mais! Instrução Desafiamos você a praticar o que aprendeu, transferindo seus conhecimentos para novas situações que pode encontrar no ambiente de trabalho. Realize as atividades e depois compare-as com a de seus colegas. Direito Público x Direito Privado 1. Competência de fundamento de área Dividir os ramos da Ciência do Direito nos dois grandes agrupamentos, tradicionalmente apresentados (Direito Público e Direito Privado) e reconhecer a ineficiência dessa classificação, frente ao fenômeno da publicização do Direito Privado. 2. Objetivos de aprendizagem Dar ao aluno a competência de refletir sobre a possibilidade de interferência do Estado em relações regidas por ramos do Direito Privado. Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 57 3. Conteúdos relacionados Direito Público e Direito Privado. 4. Descrição da SP Próximo a sua casa, constrói-se uma suntuosa casa noturna, destinada à realização de festas. No início, você fica animado, já que terá uma nova opção de entretenimento. Contudo, assim que a boate entra em funcionamento, você percebe que terá muitos problemas, já que o som alto até o início da amanhã tem o perturbado bastante e atrapalhado seu sono. Você tenta, sem sucesso, conversar com os proprietários da boate, mas seus pedidos de desenvolvimento de meios para abafar o som são todos ignorados. Sem alternativa, você resolve propor ação judicial que obrigue a boate a encerrar suas atividades mais cedo ou a fazer o chamado isolamento acústico do prédio, de forma a não atrapalhar o sono dos vizinhos. Já no processo, a boate manifesta-se (contestação) e afirma que o direito de propriedade é objeto de estudo do Direito Civil, que, por sua vez, é ramo do Direito Privado, em que prevalece a autonomia da vontade, de forma que o Estado não pode ter interferência sobre o horário de funcionamentodo empreendimento. O Juiz responsável pelo julgamento da ação proposta por você acatará seu pedido ou, reconhecendo a autonomia da vontade nos ramos do direito vinculados ao Direito Privado, acatará as alegações da boate? 5. Resolução da SP: O Direito Civil é, de fato, ramo do Direito Privado e, a ele, incumbe o estudo da propriedade. Ocorre que, em especial, a partir de 1988, não há ramo do Direito Privado em que prevaleça apenas a autonomia da vontade dos particulares. Até mesmo o direito de propriedade passa a esbarrar em algumas limitações (função social da propriedade) face à publicização do Direito Privado. Assim, não se pode admitir que, com o argumento do direito de propriedade, a boate possa interferir na paz e sossego da comunidade. O Juiz representante de uma das funções do Estado, dessa forma, mesmo reconhecendo que o direito de propriedade é objeto de estudo do Direito Civil, ramo por excelência do Direito Privado, lembrará a boate que o Estado pode intervir na relação que, a princípio, dar-se-ia apenas entre os particulares. Poderá determinar, por exemplo, que a boate proceda ao isolamento acústico do prédio, fixar horário de encerramento de atividades ou, ainda, a suspensão das atividades ou a mudança de local do empreendimento (para área não residencial). Diante da sua publicização, o Direito Privado não consegue mais manter a autonomia da vontade ilimitada nas relações estabelecidas. Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 58 1. Assinale a alternativa que contenha elementos indispensáveis às Ciências: a) Aplicação do método científico, passível de experimentação e comprovação mediante observação. b) Autonomia e independência das demais Ciências. c) Objeto de estudo próprio e método. d) Objeto de estudo próprio e técnica única. e) Objeto de estudo próprio e independência das demais Ciências. 2. Sobre o Direito, avalie as seguintes proposições: I.O Direito não é Ciência, sendo considerado apenas técnica, já que não é capaz de chegar a conclusões absolutas e universais. II. O método utilizado pelo Direito é o analítico, que engloba procedimentos indutivos, dedutivos, além do emprego da analogia. III. O Direito não é técnica, mas, para seu desenvolvimento prático, emprega um conjunto de técnicas. Estão corretas as seguintes proposições: a) I e III, apenas. b) II e III, apenas. c) I e II, apenas. d) Todas as alternativas estão corretas. e) Nenhuma das alternativas está correta. 3. Sobre o Direito e as Ciências Naturais, pondere as seguintes alegações: I. As proposições jurídicas são persuasivas, ao passo que as leis naturais são descritivas. II. A Ciência do Direito demanda juízos de valor, ao passo que as Ciências Naturais prescindem deles. III. Há identidade entre o método empregado nas Ciências Naturais e aquele empregado no Direito. Está(ão) incorreta(s) a(s): Faça valer a pena Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 59 a) I, II e III. b) I e II, apenas. c) II e III, apenas. d) Apenas III. e) Nenhuma das proposições. Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 60 Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 61 Seção 1.4 Fontes materiais e formais do direito Nas seções anteriores, nos preocupamos com as noções introdutórias de Direito, estudando algumas das acepções que o vocábulo pode adquirir. As demais, apresentadas na seção 1.1, por questões didáticas, serão abordadas em seção posterior (seção 3.1). Agora, cumpre-nos compreender de onde vem o direito, qual sua origem e seu centro de produção. Em outras palavras, estudaremos, nesta seção, quais as fontes do direito e suas respectivas classificações. O conteúdo que lhe será apresentado é extremamente interdisciplinar, já que se relaciona com temáticas que serão estudadas, por você, nas aulas de Direito Constitucional e de Teoria Geral do Estado. Para a absorção do conteúdo, retornemos à SGA, que traz a história de José Antônio, que, há anos, se encontra aprisionado num cômodo muito pequeno, sob o argumento de oferecer risco à sociedade, em especial, ao pai que, com ele vive e que não viu alternativa diversa de trancafiar seu filho. Com base na SGA que permeia toda a nossa primeira unidade, pensemos da seguinte Situação-problema (SP): no pequeno município em que José Antônio e o pai vivem, as pessoas têm por hábito prender doentes mentais que apresentam comportamento violento. Frente à escassez de recursos e de assistência por parte do Poder Público, como meio de preservação, as famílias dos doentes os mantêm trancafiados e, se houver necessidade, acorrentados, exatamente como ocorre com José Antônio. Na cidade, além do caso de José Antônio, há cinco famílias que mantêm entes aprisionados. Antes de tomar qualquer providência mais severa, a Promotoria a que o caso de José Antônio foi relatado e de que você, acadêmico, é estagiário, chama o pai, responsável pelo aprisionamento e acorrentamento do filho, para conversar. Ao ser questionado pela Promotora acerca da razão de manter o filho naquelas Diálogo aberto Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 62 condições, o pai responde com simplicidade, alegando não ter feito nada de errado: “Doutora, é costume nosso”. E agora? Cabe a você, estagiário, auxiliar a Promotora a verificar se tal prática, diante da sua repetição no pequeno município, é um costume e, em caso afirmativo, se tal costume pode tornar válida e jurídica a conduta do pai de José Antônio. Não pode faltar O direito não é um dado pronto e acabado, imposto à sociedade. Ao contrário, está em constante mutação, decorrente do próprio dinamismo social. Por vezes, ele altera a sociedade; em outras, os contornos sociais o modificam. Essa alteração constante, que impulsiona a evolução do direito, deriva da modificação de seus “centros produtores”. E quais são os centros produtores? De onde vem o direito? Buscar a resposta a essas indagações significa achar quais são as fontes do direito, o que o faremos nesta seção. Quando falamos em fonte, automaticamente, nos vêm à mente os vocábulos “origem”, “começo”, não é? Fonte provém do latim fons, lugar de surgimento da água, ou seja, nascente (DIMOULIS, 2008, p. 201). São, portanto, nascentes do direito os “centros produtores” da norma jurídica. Fonte: Ecodreams. Disponível em: . Acesso em: 20 dez. 2015. Figura 1.24 | As nascentes do direito Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 63 No ordenamento jurídico brasileiro, diversas são as espécies de fontes, bem como os critérios utilizados para sua classificação. Vamos estudá-los, iniciando pelas fontes materiais e formais. Como exposto anteriormente, a própria sociedade e as relação tecidas em seu âmbito, por seus membros, servem de substrato ao direito. Há fatos que estimulam seus centros criadores, que ensejam e justificam sua criação. Tais fatos, que podem ser econômicos, sociais ou de qualquer outra ordem, são chamados de fontes materiais do direito. Elas levantam os fatores que motivam a criação do Direito, mas não o são de fato. São apenas os “porquês” de sua criação. Exemplo: durante muito tempo, o matrimônio civil era a única forma de constituição de entidade familiar. no entanto, isso colocava à margem diversos casais que não eram civilmente casados, mas que conviviam como se fossem. Para estender a proteção estatal sobre tais casais, acrescentou-se o parágrafo terceiro ao art. 226 da Constituição Federal, que reconhece a união estável como forma de entidade familiar. Posteriormente, já em 2011, também para estender a proteção estatal àqueles para quem se renegava, o Supremo Tribunal Federal reconheceu a união estável homoafetiva. Faça você mesmo Liste outros exemplos em que, motivado por questões sociais, o direito foi alterado, mediante criação ou modificação legislativa. Note que, no exemploacima, o direito surgiu de uma necessidade fática: a existência de, em respeito ao princípio da igualdade, reconhecer como entidade familiar uniões não decorrentes do matrimônio. Essa necessidade fática é a fonte material do direito, neste caso. Identificada uma necessidade fática que justifique a criação do direito (no sentido de norma jurídica), é preciso conferir-lhe aspecto externo e força obrigatória. Eis, então, as fontes formais, assim chamadas porque “dão forma ao direito, formulam os dispositivos válidos” (DIMOULIS, 2008, p. 203). Se a fonte material responde a pergunta “por que o direito?”, a fonte formal é responsável pela resposta ao “o que é o direito?”. No exemplo anterior, a fonte formal seria a própria Constituição Federal e a Emenda que introduziu seu art. 226, § 3º. Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 64 Assimile Fontes materiais: fatos que originam e justificam a produção do Direito (por que o Direito?). Fontes formais: formas como o direito é externalizado (NADER, 2000, p. 138) (o que é o Direito?). Embora se recomende que, ao direito, correspondam fontes materiais, sob pena de haver problemas relacionados à eficiência e à aplicabilidade da norma – se não há fundamento fática para a norma, por que a aplicar? –, o estudo destas relaciona-se mais à Sociologia Jurídica ou à Filosofia do Direito, prestando a Ciência do Direito maior atenção às fontes formais. Tanto é assim que Miguel Reale nega a condição de fonte propriamente dita àquilo que, por ora, chamamos de fontes materiais (REALE, 2002, p. 139). Miguel Reale apresenta um entendimento peculiar acerca das fontes, que vale a pena ser conferido: REALE, Miguel. Lições preliminares de direito. 27 ed. Saraiva: São Paulo, 2004, p. 155-182. Pesquise mais E quais são as fontes formais, os instrumentos pelos quais o direito é externalizado? As fontes formais são de diversas espécies, podendo ser escritas ou não (primeiro critério de classificação de adotaremos). Segundo Dimitri Dimoulis (2008, p. 201-235), as fontes formais escritas consistem em leis em sentido amplo, jurisprudência e doutrina, enquanto que as não escritas são os costumes, os princípios gerais do direito e o poder negocial/ autonomia da vontade. Veja: Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 65 Fonte: O autor (2015) Figura 1.25 | Fontes formais do direito Escritas Não Escritas Fontes formais - Costumes - Princípios gerais do Direito - Poder Negocial - Lei em sentido lato - Jurisprudência - Doutrina (ATENÇÃO! Veja o item 1, letra ‘c’, a seguir) - secundum legem - praeter legem - contra legem - Constituição - lei em sentido estrito - emenda constitucional - medida provisória - decreto legislativo - resolução - decreto e regulamento - instrução - portaria Conheçamos, assim, cada uma das espécies supracitadas de fontes formais, ressaltando que muitas delas serão aprofundadas em suas aulas de Direito Constitucional e Teoria Geral do Estado. 1. Fontes formais escritas: a) Lei em sentido lato: utiliza-se o termo lei em sentido lato, ou seja, em sentido amplo, para indicar todas as construções normativas que atendam aos seguintes requisitos (DIMOULIS, 2008, p. 204): Fonte: O autor (2015) Figura 1.26 | Lei em sentido lato Lei em sentido lato Emitidas por autoridade competente Escritas Adoção de procedimento específico para sua elaboração (técnica de elaboração) Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 66 Este tipo de denominação abarca diversas espécies: • Constituição: é conhecida como “A Lei das leis”, já que é ocupa posição de prevalência no ordenamento jurídico, nos termos em que você está estudando em suas aulas de Direito Constitucional. Deriva do Poder Constituinte Originário e todo o ordenamento deve estar em conformidade com seus preceitos, sob pena de ser considerado inconstitucional ou, ainda, não recepcionado pela Constituição (quando a lei infraconstitucional é anterior ao texto constitucional e, a ele, não se adéqua). Não é propriamente uma lei, já que se encontra em posição superior a ela. Pesquise sobre as Constituições Brasileiras e suas respectivas classificações: SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo. 36 ed. Malheiros: Rio de Janeiro, 2015. Pesquise mais Fonte: A5 Mzstatic. Disponível em: . Acesso em: 21 dez. 2015. Figura 1.27 | Constituição Federal de 1988 • Lei em sentido estrito: elaboradas do Poder Legislativo, com caráter geral, abstrato e impessoal, o que pressupõe que não sejam destinadas a determinadas pessoas, mas, sim, a todos ou a todos que se enquadrem em determinada categoria. Classifica-se em: Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 67 Lei Ordinária: aprovada por maioria simples (maioria dos presentes) do Congresso (Câmara dos Deputados e Senado e sancionada (aceita) pela Presidência da República). Lei Complementar: aprovada por maioria absoluta (maioria dos integrantes da Casa) de votos (vide art. 69 da Constituição Federal) e refere-se a matérias específicas, indicadas na Constituição. Lei Delegada: leis elaboradas, excepcionalmente, pela Presidência da República em razão de autorização ao Congresso Nacional (vide art. 68 da Constituição Federal). A lei delegada viola a tripartição de poderes/funções (Executivo, Legislativo e Judiciário)? Reflita Sobre as espécies legislativas, vale a pena conferir as obras de Direito Constitucional: LENZA, Pedro. Direito Constitucional Esquematizado. 19 ed. Saraiva: São Paulo, 2015. Pesquise mais • Emenda Constitucional: são as reformas realizadas no Texto Constitucional, procedidas pelo Poder Constituinte Derivado (Congresso Nacional), com voto de três quintos dos integrantes do Poder Legislativo e bem observadas as técnicas de elaboração (procedimento legislativo). Nem todos os dispositivos constitucionais podem ser alterados, havendo aqueles que são imutáveis: as chamadas cláusulas pétreas, que se encontram elencadas no art. 60, § 4º, da Constituição Federal. Faça você mesmo Pesquise o que e quais são as cláusulas pétreas na Constituição Federal de 1988. Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 68 Há muito tempo, verificam-se, na sociedade, determinados setores que clamam pela redução da maioridade penal. Em agosto de 2015, a Câmara dos Deputados aprovou a Proposta de Emenda Constitucional 171/1993, que propõe a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos, para alguns delitos considerados graves. Agora que já sabe o que é cláusula pétrea, a maioridade penal pode ser reduzida ou é cláusula pétrea, de acordo com a Constituição Federal? Reflita • Medida provisória: atos do Chefe do Poder Executivo (presidente da República), sem a autorização do Poder Legislativo, que tem força de lei. A edição de medida provisória é possível em matérias determinadas e desde que presentes os requisitos de relevância e urgência. Faça você mesmo Pesquise sobre a edição de medidas provisórias e em quais hipóteses é possível sua ocorrência (sobre quais matérias se pode emitir medidas provisórias). • Decreto Legislativo: decretos expedidos pelo Congresso Nacional, independentemente da autorização ou sanção do presidente da República (DIMOULIS, 2008, p. 211). Abordam assuntos de competência exclusiva do Congresso. Faça você mesmo Pesquise na Constituição Federal quais são as competências exclusivas do Congresso Nacional e em que casos pode emitir decreto legislativo. • Resolução: ato normativo utilizado em questões de competência exclusiva da Câmara dos Deputados, do Senado ou do Congresso Nacional, sendo desnecessária a sanção presidencial (DIMOULIS, 2008, p. 211). Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 69 Faça você mesmo Pesquise sobre a diferença entre decreto legislativo e resolução. • Decretoe regulamento: normas elaboradas pelo presidente da República, com vistas a viabilizar os elementos necessários para sua aplicação. • Instrução: normas emitidas por ministros de Estado, como meio de se garantir a execução de leis, decretos e regulamentos. • Portaria: normas emitidas por membros do Poder Executivo para orientar a atividade da administração (DIMOULIS, 2008, p. 211). Sobre as espécies de leis lato sensu, ou seja, espécies normativas, seus conceitos e estrutura, leia: SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo. 36 ed. Malheiros: Rio de Janeiro, 2015. Pesquise mais Assimile A lei, em sentido lato, compreende as seguintes espécies: Constituição1. Lei em sentido estrito, que pode ser ordinária, complementar ou delegada. Emenda Constitucional. Medida Provisória. Decreto Legislativo. Resolução. Decreto e regulamento. Instrução. Portaria. 1 Atenção para a ressalva realizada anteriormente. Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 70 b) Jurisprudência: fonte formal escrita. Como fonte do direito, a jurisprudência indica o entendimento, manifestado pelos Tribunais e reiterado, sobre algo. Miguel Reale a define como “forma de revelação do direito que se processa através do exercício da jurisdição, em virtude de uma sucessão harmônica de decisões dos tribunais” (REALE, 2002, p. 167). Assimile Jurisprudência é o conjunto de decisões uniformes dos Tribunais, decorrentes da aplicação de mesmas normas para solucionar a demanda ou, ainda, de sua interpretação no mesmo sentido. Repare que jurisprudência é conjunto. Assim, quando temos uma ou duas decisões no mesmo sentido, não há jurisprudência e, tampouco, jurisprudências (que não existe), mas apenas um ou dois julgados. Veja o exemplo a seguir: PRISÃO CIVIL – DEPOSITÁRIO INFIEL – INCOMPATIBILIDADE – CONVENÇÃO AMERICANA SOBRE DIREITOS HUMANOS – PRECEDENTES DO PLENO: HC 87.585, RECURSOS EXTRAORDINÁRIOS Nºs 349.703 E 466.343. Conforme entendimento consolidado do Supremo, a prisão civil de depositário infiel é incompatível com a ordem jurídica em vigor. (AI 526078 AgR, Relator(a): Min. MARCO AURÉLIO, Primeira Turma, julgado em 22/04/2014, ACÓRDÃO ELETRÔNICO DJe-094 DIVULG 16-05-2014 PUBLIC 19-05-2014) O que você acabou de ver é chamado de ementa: resumo da decisão apresentada pelo membro do Poder Judiciário. Não é uma jurisprudência. Contudo, consta nesta mesma ementa que a impossibilidade de prisão do depositário infiel decorre de “entendimento consolidado”. Se há entendimento consolidado, há diversas decisões tomadas no mesmo sentido, de forma que é correto afirmar que a jurisprudência firmou-se no sentido de proibir a prisão do depositário infiel. Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 71 Jurisprudência, por si só, já transmite a ideia de uniformidade e de conjunto, quando uma gama de decisões é proferida pelos Tribunais no mesmo sentido. Mas como pode ser a jurisprudência fonte do direito se ela não cria o direito, apenas o interpreta e aplica ao caso concreto? É correto dizer que a jurisprudência é fonte e, ainda por cima, fonte formal e escrita? Sim. De fato, o juiz não cria normas jurídicas. Em suas decisões, deve-se pautar nos dispositivos integrantes do ordenamento sempre as fundamentando (art. 93, IX, CF). Contudo, ao interpretar e aplicar o direito e as normas jurídicas, o Poder Judiciário define os contornos das mesmas e cria o direito no caso concreto, submetido ao seu julgamento. Atenção! Segundo Reale (2002, p. 169): Se uma regra é, no fundo, a sua interpretação, isto é, aquilo que se diz ser o seu significado, não há como negar à jurisprudência a categoria de fonte do direito, visto como ao juiz é dado armar de obrigatoriedade aquilo que declara ser “de direito” no caso concreto. Assim, além de direcionar os julgamentos futuros, para que se realizem no mesmo sentido, a jurisprudência ocupa o status de legítima fonte do direito, ao “criá-lo”, dentro dos parâmetros do ordenamento, ao caso concreto. A natureza de fonte do direito da jurisprudência fica ainda mais evidente com a edição de súmulas, que são proposições sobre a interpretação do direito, derivadas da jurisprudência, no mesmo tribunal, sobre temas controvertidos (DIMOULIS, 2008, p. 215-216). Veja a Figura 1.28: Fonte: O autor (2015) Figura 1.28 | Situações do Direito Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 72 Os juízes não estão obrigados a aplicar a súmula dos Tribunais, a menos que sejam as Súmulas Vinculantes, editadas pelo Supremo Tribunal Federal, e que vinculam todos os órgãos do Poder Judiciário e da Administração Pública. As Súmulas Vinculantes foram introduzidas no ordenamento pela Emenda Constitucional n. 45/2004, que acrescentou o art. 103-A à Constituição Federal. Faça você mesmo Você estudará a fundo as súmulas vinculantes em suas aulas de Direito Constitucional. Contudo, que tal se antecipar? Pesquise sobre as Súmulas Vinculantes e traga exemplos de algumas já editadas pelo STF. Desta forma, quando você se deparar com indagações acerca da natureza de fonte do direito da jurisprudência, não se esqueça: jurisprudência é fonte do direito, sim! c) Doutrina: é a produção intelectual dos estudiosos do Direito. Os livros que você utiliza para seu estudo são livros doutrinários, que refletem as pesquisas e o entendimento de pensadores do Direito. Fonte: Bevilaqua. Disponível em: . Acesso em: 21 dez. 2015. Figura 1.29 | Doutrina Ainda que, por muito tempo e por muitos estudiosos, a doutrina tenha sido considerada como fonte formal e escrita do direito, assim não mais pode ser considerada. É esta a razão de constar, em nosso organograma de fontes, a observação “atenção”. Por mais renomado que um doutrinador seja, suas pesquisas e trabalhos não terão força normativa e, sim, investigativa e persuasiva. Explicamos: ainda que o doutrinador defenda que determinada conduta seja lícita, caso o ordenamento a considere ilícita, não será possível preterir a lei para a aplicação da tese do Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 73 doutrinador. Contudo, tais entendimentos servem de fundamento para as reformas legislativas e para dirimir controvérsias acerca da interpretação da lei. Como afirma Miguel Reale, “o fato de não ser fonte do direito não priva, todavia, a doutrina de seu papel relevantíssimo no desenrolar da experiência jurídica” (REALE, 2002, p. 176), até porque é a responsável pelo desenvolvimento e aprofundamento dos alicerces teóricos do direito. 2. Fontes Formais não Escritas a) Costumes jurídicos: cotidianamente, dizer que algo é costume é o mesmo que afirmar que acontece sempre. Exemplo: “tenho o costume de tomar café pela manhã” significa dizer que todos os dias/sempre/com frequência tomo café pela manhã. Costume, portanto, é uma prática reiterada. No entanto, para que um costume seja fonte formal não escrita do direito não basta sua simples repetição. Deve haver a consciência da obrigatoriedade desse comportamento (REALE, 2002, p. 158). Vejamos: em determinada localidade, embora não houvesse lei que fizesse tal determinação, as pessoas começaram a colocar espelhos retrovisores em suas bicicletas. A experiência foi bem recepcionada e, de repente, todos passaram a utilizar tais retrovisores, o que perdurou por certo tempo. Ao comprar uma bicicleta, as pessoas, imediatamente, já instalavam o acessório porque, dada a segurança que oferecia e sua utilidade, pensavam ser obrigatório. A partir do momento em que as pessoas tomam consciência da obrigatoriedade da conduta, moldando o comportamento social, um costume torna-se jurídico e é fonte formal e não escrita do direito. Fonte: Clipart. Disponível em: . Acesso em: 21 dez. 2015.Figura 1.30 | Bicicleta, retrovisores e costume Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 74 Como o costume pressupõe reiteração de conduta, além de internalização da obrigatoriedade dessa mesma conduta, seu surgimento é lento e gradual. Sua vigência coincide com sua eficácia (REALE, 2002, p. 158), ou seja, o costume jurídico só se torna vigente quando passa a gerar efeitos, o que o distingue da lei, que, primeiro se torna vigente, depois (inclusive, depois da vacatio legis, que você estudará em Direito Constitucional) gera efeitos. Em alguns países da África e do Oriente Médio, adota-se a mutilação genital feminina, que consiste em remover, em ritual, parte externa dos órgãos sexuais femininos. Essa prática é costume em tais países, com fundamento em questões culturais. Você considera que esse costume pode ser fonte do direito? Reflita Os costumes classificam-se em: Secundum legem: costume conforme a lei. Exemplo: há dispositivo legal que determina que uma questão será regulamentada segundo os costumes. Na Lei de Locações consta que, caso não haja data e forma estipulada para pagamento, o aluguel será pago conforme os costumes do local. Há previsão legal para adoção dos costumes. Praeter legem: costume supletivo à lei, destina-se a suprir lacuna deixada pelas fontes escritas. Exemplo: o cheque é um título de crédito que se destina ao pagamento à vista. Porém, independentemente de autorização legislativa, criou- se o costume de pré-datá-lo para depósito posterior. Não há previsão legal para a adoção dos princípios. Contra legem: costume contrário à lei e que, por isso, não figura como fontes do direito. Exemplo: uma comunidade inteira obtém seu sustento do comércio ilegal de armas, prática criminalizada pelo ordenamento. O fato de a prática ser reiterada não a torna lícita e possível. Assim, como fonte formal e não escrita do direito, admitem-se apenas os costumes secundum legem e praeter legem. Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 75 Fonte: O autor (2015) Figura 1.31 | Costumes do Direito Costumes Praeter legem (Fonte) Secundum legem (Fonte) Contra legem (Não é fonte) b) Princípios gerais do direito: são as proposições básicas do direito, responsáveis por nortear toda a produção jurídica. Dimitri Dimoulis esclarece que “princípios gerais são orientações gerais, que devem ser levadas em consideração na aplicação do direito por corresponder à ideologia política, às opções e valores dos legisladores” (DIMOULIS, 2008, p. 230). Nos termos do art. 4º, da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro, na ausência de lei, o Juiz julgará conforme a analogia, costumes e princípios gerais do direito, o que confere, a estes últimos, a natureza de fonte subsidiária do direito. Sobre a fundamentação de decisões e a utilização de princípios, leia: STRECK, Lênio Luiz. O que é isto – decido conforme minha consciência?. 4 ed. Livraria do Advogado: Porto Alegre, 2014. Pesquise mais Cada ramo do direito têm princípios próprios, que lhe serão apresentados, gradualmente, no decorrer do curso. Por ora, apenas não se esqueça de que os princípios são também fonte do direito. Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 76 Sobre princípios e sua distinção de regra jurídica, leia: ÁVILA, Humberto. Teoria dos princípios: da definição à aplicação dos princípios jurídicos. 14. ed. Malheiros: São Paulo, 2013. Pesquise mais c) Fonte negocial: é a autonomia da vontade como elemento capaz de gerar direitos em determinados ramos da Ciência Jurídica. Exemplificando Imagine um contrato de compra e venda celebrado entre duas pessoas. Tal contrato prevê que uma das partes entregará um automóvel a outra, que, por sua vez, deverá pagar o preço ajustado por elas. Neste caso, a autonomia da vontade, representada pelo contrato celebrado, criou direitos a ambas as partes: uma dispõe do direito de exigir o veículo, enquanto, para a outra, surge o direito de pleitear o recebimento do preço ajustado pelo bem. Faça você mesmo Ainda sobre a autonomia da vontade, mas, agora, do âmbito do Direito do Trabalho, elabore pesquisas sobre as Convenções Coletivas de Trabalho, celebradas entre Sindicatos representativos da categoria econômica e profissional, e Acordos Coletivos de Trabalho, celebrados, por sua vez, entre empregador e Sindicato representativo da categoria profissional. São exemplos do poder negocial e da autonomia da vontade como fontes do direito. Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 77 Agora que já vimos quais as fontes do direito e já as agrupamos entre fontes escritas e não escritas, vamos conhecer outros critérios de classificação. Vale ressaltar que não há consenso doutrinário acerca dos critérios de classificação e, tampouco, do enquadramento de cada uma das fontes segundo tais critérios. a) Classificação segundo a função da fonte: • Fontes próprias: são exclusivamente e sempre fontes do direito. Exemplo: lei em sentido lato, cujo procedimento de criação segue as técnicas de elaboração. • Fontes impróprias: apenas por excepcionalidade, assumem a condição de fonte. Exemplo: costume. b) Classificação segundo a origem: • Fontes estatais: derivadas do Estado. Exemplo: leis em sentido lato, que se submetem ao procedimento próprio para sua elaboração (técnicas de elaboração/ procedimento legislativo). • Fontes não estatais: derivadas de outras instituições que não sejam o Estado. Exemplo: costumes que nascem na sociedade. Miguel Reale destaca que, atualmente, as fontes estatais prevalecem sobre todas as demais (REALE, 2002, p. 154). c) Classificação segundo a hierarquia: • Fontes principais: são as que, primeiramente, são aplicadas para a resolução do caso em concreto, sobrepondo-se às demais. • Fontes acessórias: são as que apresentam caráter subsidiário, ou seja, serão aplicadas na ausência de fontes principais adequadas ao caso. A hierarquia de fontes altera-se segundo o modelo adotado por cada um dos ordenamentos. Os ordenamentos vinculados ao civil Law, por exemplo, consideram a lei como fonte principal, enquanto que aqueles vinculados ao common Law consideram os costumes como tal. Faça você mesmo Diferencie civil law (modelo adotado no Brasil, a título de exemplo) e common law (modelo adotado, por exemplo, na Inglaterra) e aponte em que grande grupo o ordenamento pátrio está inserido. Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 78 SEM MEDO DE ERRAR! Vamos solucionar nossa SP apresentada no início da seção? No município em que José Antônio e o pai vivem, as pessoas têm por hábito prender doentes mentais que apresentam comportamento violento. As famílias dos doentes os mantêm presos, assim como José Antônio. Já sabemos que há cinco famílias que mantêm entes aprisionados. Após conversa com a Promotora, o pai de José Antônio afirma que cometeu tal ato, pois se tratava de um costume na região. Cabe a você, estagiário, auxiliar na verificação e confirmação de prática e opinar se tal costume pode tornar válida e jurídica a conduta do pai de José Antônio. Vimos que, para ser costume jurídico, não basta a reiteração de condutas. Deve haver a aceitação daquela conduta como sendo obrigatória. A simples repetição de condutas, desprovida da consciência de que seja obrigatória, pode torná-la costume, mas não costume jurídico, criador do direito. Um costume só se torna jurídico se forem identificadas as seguintes condições: a) repetição habitual do comportamento em determinado tempo; e b) consciência social da obrigatoriedade da conduta. Lembre-se Assim, em resposta à primeira indagação, temos que, de fato, no pequeno município em que José Antônio e o pai vivem, aprisionar os doentes mentais representa uma conduta repetida. Pode-se dizer, desta forma, que é um hábito, um costume. Tal conduta apenas será um costume jurídico se houver, na consciência social, a aceitação daquela conduta como obrigatória,ou seja, se todos aqueles que apresentam familiares com problemas de ordem psiquiátrica pensarem que devem segregá-los do convívio, mediante prisão. Ademais, já em resposta à segunda indagação, devemos observar que aprisionar o doente e mantê-lo trancafiado e acorrentado viola a lei (lei lato sensu), já que a própria Constituição Federal assegura a todos a liberdade. Se não bastasse, o Direito Penal tipifica a conduta (trata-se do delito de manutenção em cárcere privado). Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 79 Assim, ainda que fosse costume, tratar-se-ia de costume contra legem, contrário à lei e ao ordenamento, motivo pelo qual não é e nem pode ser aceito como fonte do direito. Avançando na prática Pratique mais! Instrução Desafiamos você a praticar o que aprendeu, transferindo seus conhecimentos para novas situações que pode encontrar no ambiente de trabalho. Realize as atividades e depois compare-as com a de seus colegas. Costumes 1. Competência de fundamento de área Identificar quando o costume pode ser elevado à condição de fonte do direito. 2. Objetivos de aprendizagem Dar ao aluno a competência de refletir, a partir da classificação dos costumes jurídicos, sobre as situações em que os costumes podem ser considerados como fonte do direito. 3. Conteúdos relacionados Fontes do direito e costumes. 4. Descrição da SP Em determinada localidade, pela falta de recursos financeiros das famílias e escassez de mão de obra, a partir dos dez anos, todas as crianças passam a laborar numa usina que se ocupa do corte de cana de açúcar e produção de etanol. Isso acontece com todas as crianças e a comunidade vê na atividade proveito recíproco: representa renda para a família, indispensável para a subsistência de seus membros, e sana o problema de falta de mão de obra na Usina. Considerando os benefícios recíprocos que a comunidade acredita obter, bem como o fato de isso acontecer com todas as crianças da comunidade, este costume é fonte do direito? Justifique. Atenção! Antes de responder a questão, leia o art. 7º, inciso XXXIII, da Constituição Federal. 5. Resolução da SP Não se deve reconhecer como fonte do direito costumes que se contraponham ao ordenamento jurídico, que, por sua vez, deve ser visto como um todo unitário e harmônico. O art. 7º, inciso XXXIII, da Constituição, disciplina que: a) é proibido o trabalho do menor de 16 anos, salvo na condição de aprendiz, a partir dos 14 anos; e b) é proibido o trabalho do menor de 18 anos sob condições consideradas, nos termos da normatização do Direito do Trabalho, insalubres ou perigosas. No exemplo citado, crianças de dez anos estão laborando em usinas de cana de açúcar. Independentemente de estarem ou não expostas a condições insalubres ou perigosas – oportunamente, você estudará quais são essas condições –, a Constituição proíbe o desempenho de qualquer atividade laborativa às crianças de dez anos. Trata-se, portanto, de costume contra legem, já que se choca com o dispositivo constitucional e, consequentemente, não é fonte do direito. Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 80 1. Sobre as fontes do direito, assinale a alternativa: a) Fontes são os desdobramentos que a norma jurídica pré-existente adquire na sociedade. b) As fontes do direito possuem sempre natureza estatal já que advêm do Estado. c) Consideram-se fontes jurídicas os centros produtores do direito. d) O ordenamento pátrio não admite fontes não escritas, já que causariam insegurança jurídica. e) Nenhuma das alternativas está correta. 2. As fontes do direito podem ser classificadas em materiais e formais. Sobre elas, considere as seguintes proposições: I. As fontes formais são objeto de estudo da Sociologia Jurídica. II. As fontes materiais são os fatos que justificam a elaboração das fontes formais. III. A fonte material é pré-existente à fonte formal. Assinale a alternativa que indique as proposições corretas: a) Apenas II e III estão corretas. b) Apenas I e III estão corretas. c) Apenas I e II estão corretas. d) Todas as alternativas estão corretas. e) Nenhuma das alternativas está correta. 3. Considerando o conceito de fontes formais do direito, assinale a alternativa que contenha apenas exemplos de fontes formais escritas: a) Jurisprudência e princípios gerais do direito. b) Doutrina e autonomia da vontade. c) Fonte negocial e lei. d) Lei e jurisprudência. e) Princípios gerais do direito e costume. Faça valer a pena Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 81 Referências ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: introdução à filosofia. 2. ed. São Paulo: Moderna, 1993. ARISTÓTELES. Política. Tradução e notas de Mario da Gama Kury. 3. ed. Brasília: Editora UNB, 1997. ASSIS, Machado de. O alienista. São Paulo: L&PM EDITORES, 1998. ASSIS, Olney Queiroz; KUMP, Vitor Frederico. Manual de antropologia jurídica. São Paulo: Saraiva, 2011. ÁVILA, Humberto. Teoria dos princípios: da definição à aplicação dos princípios jurídicos. 14. ed. São Paulo: Malheiros, 2013. CEZARIO, Leandro Fazollo. 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Nela, apresentamos a você o caso de José Antônio, homem que há 25 anos é mantido, pelo próprio pai, aprisionado em um cômodo minúsculo e em condições precárias, sob o argumento de apresentar comportamento agressivo e colocar em risco a integridade física daqueles que o rodeiam. O comportamento agressivo, como vimos, é decorrente de distúrbios de ordem psiquiátrica, o que o torna, segundo o pai, incapaz de se controlar e refletir sobre os efeitos de sua conduta, justificando, segundo o genitor, o fato de permanecer trancafiado e acorrentado. Depois da descoberta do caso pela assistente social, você, na condição de estagiário, se vê diante de uma situação bastante complexa e que o leva à seguinte reflexão: dada a sua agressividade, é justo manter José Antônio aprisionado em um cômodo de 3m2 que o pai o trancou? Cumpre a você auxiliar a Promotora da qual é estagiário a viabilizar a conferência, ao caso, da solução mais condizente com os parâmetros do direito e da Justiça. Para responder a SP da primeira seção, desenvolveremos as noções introdutórias de direito e Justiça. Diálogo aberto Não pode faltar A língua portuguesa é riquíssima e bastante intrigante. Por vezes, há vários vocábulos com mesmo significado (sinônimos) e, por outras, um mesmo termo pode apresentar significados diferentes. São as palavras plurívocas e “direito” é uma delas. Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 10 Fonte Sou do Nordeste. Disponível em: . Acesso em: 20 dez. 2015. Fonte: Livraria Saraiva. Disponível em: . Acesso em: 20 dez. 2015. Figura 1.2 | Dicionário, Palavras Plurívocas e Direito Figura 1.3 | Lições Preliminares do Direito Quando pensamos em direito, a primeira ideia que nos vêm à cabeça é a de correção: direito é aquilo que é correto, contrário ao errado, o que vai ao encontro da própria origem do termo, já que o vocábulo provém do latim directum ou rectum, cujo significado é “reto” ou “aquilo que é como uma régua” (FERRAZ JÚNIOR, 2007, p. 32-34; MONTORO, 1999, p. 31). Dentro dessa concepção, o direito é responsável por fixar as condutas consideradas corretas em determinado tempo e espaço, podendo, inclusive, impor sanções àqueles que ajam em desacordo com elas. Miguel Reale afirma que o direito é, “aos olhos do homem comum, [...] um conjunto de regras obrigatórias que garante a convivência social graças ao estabelecimento de limites a cada um de seus membros” (REALE, 2002, p. 1), sendo, portanto, conforme ensinamentos de Santi Romano, referenciados pelo próprio Reale, a realização da convivência ordenada (REALE, 2002, p. 1). Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 11 Conforme as primeiras noções mencionadas anteriormente, se o direito assume o papel de regulamentador da convivência social, ele só existe se considerarmos uma pluralidade de indivíduos, afinal, não haveria necessidade de regulamentar a conduta de quem quer que fosse se esta pessoa não tivesse com quem interagir, correto? É por esta razão que se consagrou o provérbio “ubi jus, ibi societas” (onde está o Direito, está a sociedade), já que não se pode conceber a ideia de direito apartado, separado da convivência social. Assimile Ubi jus, ibi societas (onde está o Direito, está a sociedade) é utilizada, pois a função do direito é coordenar de forma harmônica a convivência social. Para entender melhor a relação entre direito e sociedade, que será objeto de estudo de nossa seção 1.2, assista ao filme: ZEMECKIS, Robert et al. Náufrago. [Filme-vídeo]. Produzido por Jack Rapke, Robert Zemericks, Steve Starkey e Tom Hanks. Dirigido por Robert Zemericks. Estados Unidos, 2001, Fox Century/Dream Works. Duração: 144min. Protagonizado por Tom Hanks, o filme conta a história de um homem que, após ser o único sobrevivente de um acidente aéreo, passa a viver sozinho numa ilha do Oceano Pacífico, tendo apenas a “companhia” de uma bola de vôlei e de uma fotografia. O trailer do filme pode ser encontrado no link disponível em: . Acesso em: 20 dez. 2015. Assista ao filme! Você vai gostar e vai te auxiliar a compreender melhor a relação de interdependência entre direito e sociedade. Fonte: Gstatic. Disponível em: . Acesso em: 20 dez. 2015. Figura 1.4 | O Náufrago Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 12 Dando continuidade sobre as noções de direito anteriormente expostas, não podemos nos esquecer de que se trata de um vocábulo plurívoco, apresentando, assim, outras acepções. Portanto, a seguir, listamos algumas acepções diferentes, que também são atribuídas, pela doutrina, ao direito. De acordo com Montoro (1999) e Reale (2002): a) Direito enquanto norma: o direito não permite dirigir embriagado. Na verdade, o que se pretende dizer com o exemplo acima é que a norma não permite dirigir embriagado. Trata-se, como estudaremos, em capítulos posteriores, da acepção chamada de “direito objetivo”. b) Direito enquanto faculdade, prerrogativa, possibilidade: todos têm o direito de ir e vir, ou seja, todos podem e têm a prerrogativa de ir e vir. Conforme veremos oportunamente, esta acepção é chamada de “direito subjetivo”. c) Direito enquanto Ciência: o direito deve se ocupar do estudo da atividade jurisdicional. O que se pretendeu dizer é que a Ciência do Direito deve estudar a atividade jurisdicional. É comum que, ao fazer referência do direito como ciência, encontraremos a grafia em letras maiúsculas (Direito). d) Direito enquanto fato social: o direito deve ser estudado pela Sociologia. Dessa forma, o vocábulo direito é entendido como fato cultural, fenômeno da vida coletiva, aspecto em que também nos aprofundaremos nas seções desta unidade. e) Direito enquanto ideal de justiça: receber aquilo que lhe devem é direito seu. Aqui, o direito é utilizado no sentido valorativo, axiológico, como sendo aqui que “é devido por justiça” (MONTORO, 1999, p. 39). Assim, temos que, além das breves noções apresentadas no início deste tópico, podemos utilizar o termo “direito” nos seguintes sentidos ou acepções: Norma Faculdade/prerrogativa Ciência Fato social Justiça Direito Fonte: O autor (2015) Figura 1.5 | Acepções do Direito Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 13 Atenção! Direito é palavra que pode dispor de diversos significados. Entender o sentido atribuído à palavra, inserida em determinado contexto, é de suma relevância. Cada uma das diferentes acepções de direito será estudada no decorrer desta Unidade. Agora, interessa-nos apenas a acepção mencionada na letra ‘e’, ou seja, Direito enquanto Justiça ou ideal de justo. Para saber mais sobre a noção de direito e suas diferentes acepções, não deixe de ler: • REALE, Miguel. Lições preliminares de direito. 27 ed. Saraiva: São Paulo, 2002, p. 1-10; 59-68. • NADER, Paulo. Introdução ao estudo do direito. 20 ed. Forense: Rio de Janeiro, 2000, p. 71-80. • MONTORO, André Franco. Introdução à ciência do direito. 25 ed. Revista dos Tribunais: São Paulo, 1999, p. 33-60. • DIMOULIS, Dimitri. Manual de introdução ao estudo do direito. 2 ed. Revista dos Tribunais: São Paulo, 2008, p. 17-34. Pesquise mais Para identificarmos direito como sendo justiça, é necessário, ao menos, termos uma noção prévia do que ela significa. Mas o que é Justiça? Quais os critérios podem ser utilizados para seconsiderar algo como justo ou injusto e como esses critérios se relacionam com o direito? Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 14 Fonte: Que Conceito. Disponível em: . Acesso em: 20 dez. 2015. Figura 1.6 | A Justiça Você já percebeu que a Justiça é uma tarefa bastante árdua, que tem desafiado juristas e filósofos ao longo dos tempos. Faça você mesmo Para aferir a dificuldade da tarefa, responda com os conhecimentos adquiridos até agora: O que é Justiça? O que você considera justo? Compartilhe sua resposta com seus colegas. E aí? Foi fácil? A partir do item “Faça você mesmo”, é provável que tenha vindo a sua mente dezenas de exemplos de situações que podem lhe parecer justas e de outras tantas que lhe pareçam injustas. Porém, a exemplificação não é suficiente para nos fornecer um conceito ou uma definição sobre o termo, de forma que o problema persiste: o que é justiça? O conceito de justiça é mais facilmente obtido mediante seu anticonceito. Explicamos: se não é tarefa simples conceituar Justiça, reconhecemos prontamente situações cotidianas que, por suas peculiaridades e pelos pré-conceitos que nos acompanham, são tomadas como injustas. Em outras palavras, ainda que, num primeiro momento, possamos ter dificuldade em formar definição acerca da Justiça, sabemos o que, por nossas próprias convicções pessoais, não consideramos justo. Nosso objetivo não é lhe fornecer um conceito – ou uma definição – definitiva sobre Justiça. Queremos dar-lhe os subsídios necessários para que você obtenha suas próprias conclusões. Para tanto, apresentaremos a forma como algumas Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 15 correntes de pensamento encararam a Justiça, pendendo ora pela valorização da virtude, ora da liberdade ou do bem-estar. Para Aristóteles, justiça é dar às pessoas o que elas merecem, ou seja, dar a cada um aquilo que é seu (SANDEL, 2012, p. 17). Porém, a partir desta definição, algumas indagações podem surgir: o que cada um merece? O que é digno de merecimento? Fonte: Palavras, Todas Palavras. Disponível em: . Acesso em: 20 dez. 2015. Figura 1.7 | Aristóteles Como você pode ver, a acepção de Justiça trazida por Aristóteles embasou-se em concepções particulares e valorativas. Se cada um deve receber aquilo que é merecido, precisamos avaliar o que é objeto de merecimento e, portanto, valorar condutas, o que ocasiona certo relativismo. Para evitar que os princípios da Justiça se fundamentassem em concepções particulares, desenvolveram-se noções diversas para a palavra, ressaltando que as correntes de pensamento que lhe serão apresentadas a seguir não estão expostas, necessariamente, em ordem cronológica. Na tentativa de fugir dos relativismos que poderiam emergir do fato de se relacionar justiça ao merecimento e à virtude, surgiram pensadores que passaram a defender que a Justiça consistia em propiciar a máxima felicidade ao maior número de pessoas (SANDEL, 2012, p. 47). A isso se deu a denominação de “utilitarismo”, cujo principal representante foi Jeremy Benthan. Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 16 Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: . Acesso em: 20 dez. 2015. Figura 1.8 | Jeremy Benthan Para os utilitaristas, algo seria justo se propiciasse a maior utilidade – aqui, entendida como aquilo que produz prazer ou felicidade (SANDEL, 2012, p. 48) – para a maioria. Avaliar se algo seria justo ou não passava por uma espécie de operação matemática, pela análise de seu custo e de seu benefício: seria justo se propiciasse felicidade e bem-estar à maioria, ainda que sob sacrifício da minoria. No entanto, tal forma de raciocínio pode ensejar situações bastante delicadas. Ao pensarmos que o indivíduo, sob a perspectiva do utilitarismo, não é relevante quando sozinho, mas apenas ganha importância quando em grupo e quando seu grupo representa a maioria, chegaremos às seguintes conclusões: a) Em casos de catástrofes naturais e isolamento, estando várias pessoas submetidas à situação de risco de morte por falta de alimentos, é justo que se sacrifique uma delas para que sirva de alimento às demais. b) Se houver várias pessoas aguardando por transplantes de órgãos diferentes (uma necessita do transplante de coração, outra de rim e uma terceira de fígado), todas correndo risco de morte, caso não seja realizado o procedimento cirúrgico com urgência, é justo sacrificar uma delas para salvar as demais. Leia o livro: FULLER, Lon L. O caso dos exploradores de cavernas. Tradução do original inglês e introdução por Plauto Faraco de Azevedo. 10ª reimpressão. Fabris: Porto Alegre, 1999. Vale muito a pena a leitura desta obra, pois aborda de forma bastante didática os conflitos que estão sendo discutidos nesta seção. Pesquise mais Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 17 Note que, em ambos os exemplos, sacrifica-se uma pessoa para que um número maior delas sobreviva. Partindo de critérios numéricos e sob a perspectiva do utilitarismo, salvar mais pessoas é melhor do que salvar apenas uma! Porém, se pensarmos desta forma, sempre as minorias serão oprimidas e sufocadas, não serão? Você acha que isso é correto? É justo sacrificar uma minoria em prol do bem-estar ou da satisfação dos interesses da maioria? Reflita Cada pessoa é dotada de garantias e direitos que não podem, sob qualquer justificativa, ser sacrificados. A opressão de minorias, como você estudará durante o curso, choca-se com os ideais de democracia e com os princípios fundamentais que regem nosso ordenamento jurídico. Então, opondo-se aos utilitaristas, existem os libertários, defensores do chamado “libertarismo”. Para eles, todos têm direito à liberdade (SANDEL, 2012, p. 78), sendo a pessoa a única proprietária de si mesma (SANDEL, 2012, p. 84) e que, portanto, não deve se sacrificar pelo bem de quem quer que seja. Assim, para os libertários, justo é aquilo que não viola a liberdade humana, ressaltando que tal liberdade não pode acarretar prejuízo aos outros. Sob essa perspectiva, por exemplo, é justo dirigir embriagado, desde que em estrada deserta, já que não haveria meios de causar danos a ninguém, a não ser ao próprio motorista embriagado, que, utilizando-se de sua liberdade, optou por assumir o risco de sua conduta. Também, segundo o libertarismo, as determinações de pagamento de tributos são injustas, uma vez que violam a liberdade do indivíduo de gastar seu dinheiro como quiser. As aulas de Direito Constitucional ensinarão a você que a liberdade, de fato, é direito fundamental em nosso ordenamento (veja o art. 5º, caput, da Constituição Federal de 1988), mas não é o único, de forma que, se resolvermos aplicá-la sempre e de maneira irrefletida, podemos violar outros direitos igualmente fundamentais, como a vida ou o princípio da dignidade da pessoa humana. Você consegue pensar numa situação em que isso poderia acontecer? Pense no seguinte caso: em respeito à liberdade individual, admite-se que alguém venda seus órgãos, já que estes lhe pertencem. Essa pessoa poderia vender um órgão vital, o que lhe levaria à morte? A liberdade e a propriedade de seu próprio corpo Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 18 poderiam prevalecer sobre a vida? Por certo não, já que, como você pode observar no mesmo art. 5º, da Constituição Federal, a vida também é direito fundamental. Convicto dos problemas mencionados anteriormente, além de outros relacionados à Teoria Libertária de Justiça, já no século XX, um filósofo chamado John Rawls passou a defender a Justiça como sendo a garantia de distribuição igualitária de valores sociais, tais como renda e oportunidades. Segundo Ferreira(2015, p. 15), “Rawls considera que uma sociedade somente será justa se todos os valores sociais, tais como liberdade e oportunidades, ingressos e riquezas, forem distribuídos de maneira igual, a menos que uma distribuição desigual gere benefícios a todos”. Fonte: Web Britannica. Disponível em: . Acesso em: 20 dez. 2015. Figura 1.9 | John Rawls Para Rawls, são justos os princípios que os indivíduos elegem sem conhecer a posição que ocupam na sociedade (exemplo: pobre ou rico), partindo de uma posição de igualdade (SANDEL, 2012, p. 188), de forma a não se deixar influenciar por seus interesses pessoais. Esse estado de desconhecimento de sua própria posição é chamado de “véu da ignorância”, como se as pessoas tivessem seus olhos cobertos por um véu que as impossibilitasse de ver a posição ocupada e seus interesses individuais. Justiça, portanto, para Rawls, parte do pressuposto de distribuição igualitária entre os indivíduos, sendo as desigualdades admitidas apenas em benefício dos menos favorecidos (SANDEL, 2012, p. 189). Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 19 Assimile Definições de Justiça, segundo as teorias estudadas: - Utilitarismo: é justo aquilo que gera o máximo de felicidade ao maior número de pessoas. - Libertarismo: é justo aquilo que respeita a liberdade do indivíduo. - Liberalismo igualitário: é justo o que seja equânime e viabilize a distribuição igualitária. Essas breves noções acerca de algumas das Teorias da Justiça, desenvolvidas pelos pensadores ao longo dos tempos, pretendem apenas demonstrar a você as diferentes formas de se conceber a justiça e de se classificar algo como justo ou injusto. Qual das teorias da justiça você considera mais adequada? Reflita Durante sua caminhada no estudo do Direito, essa questão será retomada diversas vezes, inclusive após a sua graduação. Assim, o aprofundamento da matéria é mais do que recomendado! Para que você complemente e aprofunde seus estudos acerca das Teorias da Justiça, recomendamos as seguintes obras: DIMOULIS, Dimitri. O caso dos denunciantes invejosos: introdução prática às relações entre direito, moral e justiça. 8. ed. Revista dos Tribunais: São Paulo, 2012. SANDEL, Michael J. Justiça: o que é fazer a coisa certa. 9. ed. Civilização Brasileira: Rio de Janeiro, 2012. YOUTUBE. A Justiça com Michael Sandel. Disponível em: . Acesso em: 20 dez. 2015. Pesquise mais Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 20 Sobre a ampla variação do conceito de Justiça, sobretudo, a partir da ponderação de diferentes teorias, qualquer noção atual dela que você vise estruturar, deve ponderar certas características essenciais (MONTORO, 1999, p. 130): a) Alteridade: a aplicação da Justiça pressupõe a existência de outra pessoa, o que remete à alteridade. Franco Montoro explana que “ninguém é justo ou injusto para consigo mesmo” (MONTORO, 1999, p. 130), sendo, portanto, a justiça predicado daquilo que se destina ao outro, razão pela qual é correto dizer que justiça é uma virtude social. b) Exigibilidade: justo é dar aquilo que é devido e que disponha de lastro legal. Não se deve apenas por questões morais, mas, sim, com fulcro em obrigatoriedade imposta pelo bem da coletividade (bem-comum). A esta exigibilidade, dá-se o nome de atributividade: qualidade de atribuir a quem for lesado pelo descumprimento da norma a faculdade de exigir do violador o cumprimento dela (MONTORO, 1999, p. 133). c) Igualdade: a igualdade é pressuposto de justiça, já que remete à ideia de equivalência entre todos os homens. Assimile De acordo com André Franco Montoro, qualquer noção e/ou definição hodierna que se pretenda atribuir à Justiça deve apresentar as seguintes características: • Alteridade. • Exigibilidade ou atributividade. • Igualdade (não apenas numérica, mas, sobretudo, relacionada ao fundamento de igualdade material dos homens). Como vimos, a formulação de noção de justiça é tarefa árdua e relativa, sendo você convidado, com base nos conhecimentos adquiridos, a estabelecer a sua própria. Depois de conhecer algumas acepções do vocábulo Justiça, resta perguntar: como Justiça e direito se relacionam? Por que direito também é tomado como sinônimo de Justiça? Logo nas primeiras linhas desta seção, falamos que o direito visa à regulamentação da convivência social. Espera-se, assim, que tal regulamentação se dê de forma Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 21 harmônica, justa, sendo o direito, portanto, verdadeira exigência da justiça (NADER, 1999, p. 123), cuja noção é alterada conforme o momento histórico e os valores da sociedade. Sendo assim, a justiça deve nortear a elaboração do direito e ele só será legítimo se atender aos anseios de justiça de cada povo e de cada momento histórico. Independentemente das demais acepções do vocábulo “direito”, todas igualmente corretas e válidas e que serão estudadas nas seções seguintes, como acadêmico do curso de Direito e futuro profissional da área, nunca se esqueça de que, acima de outras definições e objetivos, o direito tem de buscar o ideal de Justiça. E é para isso que você está se preparando! Exemplificando Agora que você já foi apresentado a algumas das teorias da justiça, pense na seguinte situação: a História do Brasil é marcada pela escravidão de diversos povos (índios e negros). Tais povos, com seu trabalho compulsório, foram responsáveis pelo desenvolvimento, seja do Brasil- Colônia, seja após a Independência, ocorrida em 1822. Considerando as teorias da justiça apresentadas, a escravidão pode ser considerada justa? A classificação da escravidão como sendo justa ou injusta depende da acepção de justiça adotada. Veja: a) Para a teoria utilitarista, considerando os benefícios advindos da escravidão para o desenvolvimento do Brasil, enquanto Colônia de Portugal, ou após a proclamação da independência, poderíamos considerar a prática de escravizar pessoas justa, já que atenderia aos interesses da maioria (mais utilidade/felicidade para o maior número de pessoas). b) Para a teoria libertária, a escravidão é injusta, já que limita a liberdade daquele que é escravizado, privando-lhe, até mesmo, do direito de ir e vir e de dispor da sua força de trabalho. c) Para a teoria liberal igualitária, a escravidão jamais poderia ser justa, já que, sob o véu da ignorância, nenhum indivíduo, assim, a consideraria. Ademais, a escravidão confere tratamento desigual (de recursos, oportunidades, entre outros) entre as pessoas. Vale lembrar que, nos termos dos ordenamentos vigentes, inclusive o do Brasil, qualquer forma de escravidão viola o direito fundamental e, além de injusta, é inadmissível! Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 22 Faça você mesmo Pense agora em alguma situação considerada, segundo a teoria utilitarista, justa, sendo, contudo, injusta para a teoria libertária. Compartilhe seu exemplo com seus colegas. SEM MEDO DE ERRAR! Agora que já absorvemos as noções constantes no tópico “Não Pode Faltar”, convidamos você a solucionar a Situação-problema (SP) apresentada no “Diálogo Aberto”. Recorda-se dela? Em síntese, a Situação Geradora de Aprendizagem (SGA) refere-se à história de José Antônio, que, em razão de seu comportamento altamente agressivo, decorrente de distúrbios mentais apresentados após presenciar o assassinato da cunhada, é mantido preso e acorrentado pelo seu pai. Após a assistente social verificar a situação em que José Antônio se encontrava, os fatos foram levados ao conhecimento do Ministério Público. Você, então, na condição de estagiário, se vê diante de situação bastante complexa e que o leva à reflexão: dada a sua agressividade, é justo manter José Antônio aprisionado por seu pai em um ambiente de 3m 2 ? Cumpre a você auxiliar a Promotora a viabilizar a soluçãomais condizente com os parâmetros do Direito e da Justiça. Sua sugestão variará conforme a Teoria da Justiça que for adotada, pois: a) Para o utilitarismo, a manutenção em cárcere privado (manter aprisionado) é justa, já que José Antônio é agressivo e oferece risco ao seu pai e à sociedade (a todos aqueles que o rodeiam). Sua prisão tem maior utilidade a um maior número de pessoas do que mantê-lo em liberdade. b) Para o libertarismo, a manutenção em cárcere privado é injusta, já que fere a liberdade – inclusive, de locomoção – de José Antônio, garantia máxima de todo e qualquer indivíduo. c) Para o liberalismo igualitário, a manutenção em cárcere privado é injusta, já que confere tratamento desigual a José Antônio, impedindo-o de desenvolver suas aptidões. De acordo com a celebração de contrato social (trataremos mais a fundo deste contrato na próxima seção), sob o véu da ignorância, ninguém jamais toleraria o cárcere privado, já que não poderia saber se, a exemplo de José Antônio, não seria acometido por distúrbios psiquiátricos, que lhe imporiam comportamento Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 23 agressivo. Ninguém correria o risco de, futuramente, ser mantido aprisionado e acorrentamento, independentemente de ameaçar, ou não, a integridade física dos demais. Atenção! As teorias de justiça são o utilitarismo, libertarismo e o liberalismo igualitário. Para resolver a Situação-problema, é necessário ter uma compreensão conjunta das três teorias. Confrontando as Teorias da Justiça com nosso ordenamento, sobretudo, com os dispositivos constitucionais, tem-se que, independentemente de sua conduta e da agressividade dela, a manutenção de José Antônio sob cárcere privado é injusta e juridicamente inaceitável, pois viola o princípio da dignidade da pessoa humana. A melhor solução que você, como estagiário da Promotora, poderia sugerir, é o encaminhamento de José Antônio a tratamento médico adequado, medida que contribuiria para o bem-estar de todos, além de respeitar o direito social à saúde, previsto no art. 6º, caput, da Constituição Federal de 1988. A noção de Justiça não é única e universal. Ela depende da corrente que se julgue mais adequada. Lembre-se Avançando na prática Pratique mais! Instrução Desafiamos você a praticar o que aprendeu, transferindo seus conhecimentos para novas situações que pode encontrar no ambiente de trabalho. Realize as atividades e depois compare-as com a de seus colegas. “Noções de Direito e de Teorias da Justiça” 1. Competência de fundamento de área Conhecer e relacionar os fundamentos filosóficos e teóricos gerais e do direito. 2. Objetivos de aprendizagem Dar ao aluno a competência de refletir sobre o ordenamento jurídico vigente e encontrar suas bases e correspondência no passado, por meio do estudo dos Fundamentos Históricos do Direito. Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 24 3. Conteúdos relacionados Noções de direito e de Teorias da Justiça. 4. Descrição da SP A Polícia Federal recebeu uma denúncia anônima de que há uma bomba instalada num movimentado shopping center de São Paulo, bem como do local onde o responsável por ela estaria escondido. Os policiais conseguem localizar o acusado, porém, ele se recusa a dizer onde está a bomba, revelando apenas que ela está prestes a explodir, sequer havendo tempo de evacuar o local. É justo e autorizado pelo direito torturar o acusado para que ele revele onde está a bomba e a forma de desarmá-la? Considere as disposições constitucionais de nosso ordenamento. 5. Resolução da SP: Para o utilitarismo, é justo e juridicamente possível, já que se espera que, mediante tortura, o acusado revele o local em que se situa a bomba, bem como o meio de desarmá- la. A medida se justifica para salvar as pessoas que estão no shopping e nos seus arredores e que, com a eventual explosão, correrão risco de morte. Para o libertarismo e o liberalismo igualitário, não se admitiria a tortura, já que feriria as garantias fundamentais, irrenunciáveis e inafastáveis do acusado. Ressalta-se que, segundo o liberalismo igualitário, a tortura somente seria permitida sob o véu da ignorância, se fosse autorizada em tais hipóteses (de risco de morte a outras pessoas). • Utilitarismo: é justo aquilo que gera o máximo de felicidade ao maior número de pessoas. • Libertarismo: é justo aquilo que respeita a liberdade do indivíduo. • Liberalismo igualitário: é justo o que seja equânime e que viabilize a distribuição igualitária. Lembre-se Faça você mesmo Em casa, pesquise outras acepções de Justiça que utilizem teorias diferentes das que lhe foram apresentadas nesta seção. Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 25 1. Qual o objetivo principal do direito e de todo o ordenamento jurídico? a) Servir de instrumento de dominação de um grupo, por outro que se situe em condições mais favoráveis. b) Possibilitar a convivência social ordenada e harmoniosa. c) Impor conceitos e valores e repreender aqueles que não se enquadrem nos conceitos impostos. d) Impedir que as minorias tenham acesso às mesmas garantias que as maiorias. e) O direito não apresenta função ou objetivo específico. 2. Direito é vocábulo plurívoco, ou seja, pode apresentar diversas acepções. Assinale a alternativa que não contenha uma das acepções que podem ser atribuídas ao direito: a) Direito enquanto norma jurídica. b) Direito enquanto ideal de Justiça. c) Direito enquanto prerrogativa, faculdade. d) Direito enquanto instrumento de dominação. e) Direito enquanto Ciência. 3. Sob as noções e definições de Justiça, assinale a alternativa correta: a) A Justiça é um conceito e um parâmetro universal, havendo consenso sobre o que é justo ou não. b) A noção de Justiça é atemporal, permanecendo a mesma no transcorrer dos tempos. c) Os critérios de aferição de Justiça são bastante diversificados, inexistindo definição única e unânime. d) A noção de Justiça, em nada relaciona-se ao direito, de forma que está correto dizer que “o direito é injusto”. e) O conceito de justiça é relativo, já que, para que algo seja justo a um indivíduo, necessariamente, será injusto a outro. Faça valer a pena Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 26 Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 27 Seção 1.2 O que é Direito? Direito e sociedade. Em nossa primeira seção, você foi apresentado à breve noção de direito, vocábulo que pode ser empregado em diversas acepções. Vimos, ainda, que a principal função do direito é a pacificação social, de forma que sua existência pressupõe a existência da sociedade, razão pela qual se fala ubi jus, ibi societas (onde está o Direito, está a sociedade), não havendo direito onde não haja a última. Nesta seção, iremos estudar, conforme o pensamento de teóricos importantes, as razões pelas quais o homem se reúne em grupos e forma a sociedade, o que impulsiona a criação do direito. Estudaremos, também, como a interação social enseja o estabelecimento de fatos diversos (sociais e jurídicos). O conteúdo desta seção fornecerá elementos para que você vá edificando seu conhecimento jurídico, o que demanda a compreensão do papel que o direito ocupa no âmbito social. Recapitulemos a nossa SGA, exposta no início da unidade: José Antônio, em decorrência dos riscos que oferece à integridade física daqueles que o rodeiam, há anos é mantido preso e acorrentado em um cômodo de 3m2. Segundo seu pai, responsável pela manutenção de José Antônio sob tais condições, não há meios do filho conviver com outras pessoas, sem que represente um perigo a elas. Imagine agora que José Antônio alterne momentos de extrema agressividade com momentos de lucidez e perceba, exatamente, seu potencial ofensivo e o risco que oferece a sua família nos momentos de descontrole. Ciente dessas premissas, ele decide que, para zelar pelo bem-estar daqueles que lhe são próximos, nãoquer mais viver em sociedade e expõe seu desejo à Promotoria em que você estagia. Cumpre a você, estagiário da Promotoria, verificar a possibilidade de atender a vontade de José Antônio, considerando se haveria violação a algum preceito básico, inerente a toda pessoa. Diálogo aberto Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 28 Não pode faltar Na seção passada, vimos que, caso os homens não convivessem, não haveria a necessidade de existência do direito, já que este visa à ordenação da vida agregada. A essa agregação, ao conjunto de indivíduos reunidos e vinculados por traços culturais semelhantes, dá-se o nome de sociedade. Fonte: Notícias Universia. Disponível em: . Acesso em: 20 dez. 2015. Figura 1.10 | Operários, Tarsila do Amaral Assimile Sociedade é o conjunto de indivíduos que, dispondo de traços culturais em comum, vivem de forma agregada, relacionando-se entre si, de forma coordenada pelo direito. É claro que, embora traços culturais em comum sejam, historicamente, elementos sociais identificadores, não podemos nos esquecer de que, considerando a complexidade do homem, as diferenças entre os indivíduos e os grupos comunitários são enormes, o que não é – e jamais pode ser – fundamento para desarmonia e, muito menos, intolerância. No decorrer de suas aulas de Direito Constitucional, você aprenderá que todos são iguais perante a lei e, como iguais, devem ser tratados e respeitados, sem qualquer hierarquia ou sobreposição de valores individuais. Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 29 Atenção! As diferenças entre os membros que compõem a sociedade não podem ensejar tratamentos discriminatórios ou desrespeitosos. Conforme preceitos constitucionais, todos devem ser respeitados em sua individualidade, o que culmina na construção de uma sociedade mais harmônica e inclusiva. Atente-se para a redação do art. 3º, da Constituição Federal: Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: I - construir uma sociedade livre, justa e solidária; II - garantir o desenvolvimento nacional; III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação (BRASIL, 1988, on- line). Mas, por qual razão a sociedade se forma? Por que o homem se reúne em agrupamentos (família, comunidade) que culminam na formação da sociedade? Quais as justificativas você encontra para tal agregação, já que parece tão tentadora a ideia de viver sozinho? Vários foram os pensadores que, em momentos históricos distintos, tentaram explicar os fundamentos da formação da sociedade. Aristóteles (384-322 a.C.), discípulo de Platão, considerava que “a vida individual estava imbricada na vida comunitária” (ARANHA; MARTINS, 1993, p. 195), sendo o homem um animal social (ARISTÓTELES, 1997, p. 15). Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 30 Fonte: Wikimedia Commons. Disponível em: . Acesso em: 20 dez. 2015. Figura 1.11 | Aristóteles Portanto, ele acreditava que o homem disporia de uma tendência natural de agrupamento, não podendo se esquivar da vivência coletiva, a não ser em duas situações: pela total ignorância ou por um estado de quase santidade (CEZÁRIO, 2010). Aristóteles é considerado, portanto, o pai da Teoria Naturalista, que considera como fato natural a associação do homem ser gregário por natureza e que apenas por situações adversas permanece em isolamento. Para saber mais sobre o pensamento aristotélico, vale a pena ler: ARISTÓTELES. Política. Tradução e notas de Mario da Gama Kury. 3. ed. UNB: Brasília, 1997. Pesquise mais Por sua vez, São Tomás de Aquino, teórico católico do século XIII e vinculado à filosofia cristã chamada de escolástica, cujos ensinamentos são chamados de aristotélico-tomistas, afirma que apenas em três situações o homem vive isoladamente: Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 31 a) Excellentia naturae: quando o homem vive em plena comunhão com Deus. b) Corruptio naturae: casos de anomalia mental. c) Malafortuna: casos de desastre e fortuitos, como o relatado no filme Náufrago. Fonte: Resenhas de Filosofia. Disponível em: . Acesso em: 20 dez. 2015. Figura 1.12 | São Tomás de Aquino Como podemos ver, o ponto de contato entre o pensamento dos teóricos vinculados à Teoria Naturalista, sob a influência de Aristóteles, é o reconhecimento de que há a tendência humana inerente à vivência coletiva. Assimile Para os teóricos do Naturalismo, o homem é, por sua própria natureza, um ser social e gregário. Em contraposição à Teoria Naturalista, surgem diversos teóricos que refutam ser a sociabilidade uma qualidade inata do homem. Tais teóricos pertencem, em que pesem as particularidades dos estudos de cada um, à chamada Teoria Contratualista. Para os contratualistas, o homem reúne-se e forma a sociedade, em razão de um contrato, ou seja, de um acordo multilateral de vontades. Seria, portanto, Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 32 o consenso que originaria a sociedade. A razão de tal acordo, respeitadas as variantes do pensamento de cada teórico da corrente contratualista, seriam as eventuais vantagens que os homens auferem pela vivência coletiva, nos termos dos ensinamentos de Dalmo de Abreu Dallari: […] é a negativa do impulso associativo natural, com a afirmação de que só a vontade humana justifica a existência da sociedade, o que vem a ter influência fundamental nas considerações sobre a organização social, sobre o poder social e sobre o próprio relacionamento dos indivíduos com a sociedade (DALLARI, 2005, p. 12). Assimile Para os contratualistas, o homem se reúne aos demais, formando a sociedade e, consequentemente, o Estado, em razão da própria vontade. É o consenso, e não a tendência natural do homem, o elemento indispensável para a associação. Existem três principais teóricos do contratualismo: Thomas Hobbes, John Locke e Jean Jacques Rousseau. Thomas Hobbes entendia que o homem, em seu estado natural – denominado de estado de natureza –, vivia de forma desordenada e em “guerra de todos contra todos”. Assim, os homens celebram entre si o contrato social, mediante o qual todos cedem direitos a um ente único e soberano, chamado de Leviatã (Estado), na tentativa de garantir a paz e a ordem. A formação da sociedade e, via de consequência, do Estado, dar-se-ia para retirar o homem do estado de guerra, considerando que ele era, por si só, mau e causava prejuízo aos demais (“o homem é o lobo do homem”). Como o Leviatã seria o ente supremo, os estudos de Thomas Hobbes foram o fundamento dos Estados Absolutistas. Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 33 Fonte: Stefano Justo. Disponível em: . Acesso em: 20 dez. 2015. Fonte: Stefano Justo. Disponível em: . Acesso em: 20 dez. 2015. Figura 1.13 | O Leviatã Figura 1.14| O Leviatã Já John Locke, diferentemente de Hobbes, não acreditava que o homem, no estado de natureza, poderia viver em guerra, mas o considerava indefeso e com medo. Para ele, embora o homem, ainda no estado de natureza, dispusesse do direito à liberdade, ele preferiria a celebração do contrato social para consolidar tais direitos, em especial a propriedade privada e a própria liberdade. É como se, pelo contrato social e pela passagem do estado de natureza ao estado civil, cada homemtransferisse um pouco de sua liberdade ao Estado, para que este a assegurasse em plenitude. Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 34 Dada a relevância que confere à garantia de liberdade, John Locke é considerado o pai do Liberalismo Político e Econômico, corrente que defende a não intervenção estatal em questões diversas da manutenção da segurança e da propriedade privada. Negando que o homem vivesse, durante o estado de natureza, em guerra e, contrapondo-se à ideia inicial de Thomas Hobbes, Jean Jacques Rousseau, um dos grandes teóricos da Revolução Francesa, defendia que, no estado de natureza, o homem é bom – o bom selvagem – e que renuncia a vontade individual para a sobreposição da vontade geral, celebrando o contrato social. Ao chamar o homem de o bom selvagem, Rousseau remete-se às qualidades superiores que o homem dispõe no estado de natureza. Ocorre que, ao celebrar o pacto, o homem, que antes era bom, se corrompe. Essa é razão pela qual Rousseau não vê com bons olhos a celebração desse pacto, pois a forma como o fora acordado entre os homens acentua a desigualdade. Fonte: E-books Brasil. Disponível em: . Acesso em: 20 dez. 2015. Figura 1.15 | Do Contrato Social, Jean-Jacques Rousseau Para conhecer de forma mais aprofundada o pensamento dos contratualistas, confira as seguintes obras: • HOBBES, Thomas. Leviatã. 3. ed. Ícone: São Paulo, 2008. • LOCKE, John. Dois tratados sobre o governo. Martins: São Paulo, 2005. • ROUSSEAU, Jean Jacques. Do contrato social. L&PM: São Paulo, 2007. Pesquise mais Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 35 Como você pode constatar, há diversidade de razões, segundo a óptica de cada um dos pensadores, para justificar a formação da sociedade, havendo, entretanto, consenso quanto à impossibilidade do homem, ressalvadas condições adversas, viver sozinho. Hoje, essas condições adversas que ensejam a vivência isolada têm de ser encaradas com muito cuidado. Não se pode admitir nenhum tipo de segregação e de isolamento, sob pena de violação de direitos humanos e dos próprios objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil (art. 3º da Constituição Federal), que você estudará oportunamente em suas aulas de Direito Constitucional. As únicas condições adversas admitidas são aquelas que Tomás de Aquino chamou de malafortuna (má sorte), que são transitórias e decorrentes de casos fortuitos. Pode ser considerada justa uma sociedade excludente? Segregar o diferente está em conformidade com os preceitos constitucionais? Reflita Você já viu que o homem agrupa-se e passa a viver em sociedade. Além disso, é fato público e notório que pessoas mantidas em cárcere privado e, portanto, em condição de isolamento, apresentam déficit de desenvolvimento mental (MENDONÇA, 2009). E também é certo que essa vivência coletiva impõe o relacionamento intersubjetivo entre os membros que compõem a sociedade, concorda? Vivendo em sociedade, o homem altera o meio em que se encontra e molda a forma como se porta e comporta, exercendo, assim, intensa atividade criadora. Atribui-se o nome de cultura a essa intensa atividade criadora do homem. Para facilitar a memorização, lembre-se do vocábulo “agricultura”, em que agro remete à terra, à modificação realizada pelo homem sobre a terra (REALE, 2004, p. 25). Assim, segundo os ensinamentos de Miguel Reale, “cultura é tudo aquilo que, nos planos material e espiritual, o homem constrói sobre a base da natureza, quer para modificá-la, quer para modificar-se a si mesmo” (REALE, 2004, p. 25-26). Assimile Cultura é o reflexo da atividade criadora do homem. Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 36 Embora o direito seja expressão cultural, não é o responsável pelo estudo dos fenômenos e atividades culturais, incumbência atribuída à Antropologia, ciência que tem por objeto de estudo “a forma da vida, das crenças, das estruturas sociais e das instituições desenvolvidas pelo homem no processo de civilizações” (REALE, 2004, p. 26). Para conhecer mais sobre os fenômenos culturais e Antropologia, leia: • ASSIS, Olney Queiroz; KUMP, Vitor Frederico. Manual de antropologia jurídica. Saraiva: São Paulo, 2011. • REALE, Miguel. Lições preliminares de direito. 27 ed. Saraiva: São Paulo, 2004, p. 23-30. Pesquise mais Dentro dessa perspectiva de desempenho de atividade transformadora e, portanto, cultural, a vivência em sociedade faz surgir fatos, considerados como qualquer transformação da realidade ou do mundo exterior (NADER, 2000, p. 316). Esses fatos podem ser puramente sociais (serão abordados na seção 3.4 do seu material, momento em que estudaremos a Sociologia Jurídica e Émile Durkheim) e, por sua vez, econômicos, artísticos ou jurídicos. Estes últimos nada mais são do que fatos regulados pelo direito, que geram, modificam ou extinguem relações jurídicas (NADER, 2000, p. 316). Assimile Fatos jurídicos são acontecimentos da vida social a que se conferem efeitos jurídicos. Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 37 Fonte: O autor (2015) Figura 1.16 | Fatos Sociais - Fatos Econômicos - Fatos Artísticos - Fatos Jurídicos Fatos Sociais - Direito - resultado da atividade transformadora do homem CULTURA É pelo fato de haver fatos sociais que são regulados pelo direito, que este pode ser entendido na acepção de fato social. Veja um exemplo para que o entendimento fique mais simples. Exemplificando Pense no nascimento. Trata-se de um acontecimento do mundo fático e, portanto, é um fato. Contudo, o nascimento enseja efeitos para o mundo jurídico, já que o art. 2º, do Código Civil, estabelece que a personalidade da pessoa começa do nascimento com vida, embora, desde a concepção, já se resguardem os direitos do nascituro. Assim, o nascimento é um acontecimento importante para o direito e que é, por ele, regulamentado, motivo pelo qual, além de ser um simples fato (gênero), é um fato jurídico (espécie). Faça você mesmo Pense agora em outros fatos jurídicos e, dentro do conhecimento que você já obteve em suas aulas, exponha, junto a seus colegas, suas reflexões. Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 38 Os fatos jurídicos servem de substrato à regra jurídica, como você verá na seção 2.1. Isso porque, quando se diz que a “fórmula” da regra jurídica é “se A é, B deve ser”, o A nada mais é do que um fato a que se acresce uma consequência (B), fazendo com que seja regulado pelo direito. O fato regulado pelo direito é o fato jurídico. É importante ressaltar que os fatos jurídicos, sua classificação, seus vícios e efeitos serão estudados de forma pormenorizada em suas aulas de Direito Civil, quando você adentrar a Teoria de Validade dos Atos/Fatos Jurídicos. Tal Teoria abordará os fatos, atos e negócios jurídicos, bem como a nulidade, anulabilidade e inexistência de cada um deles, o que não o impede de se antecipar e expandir seus conhecimentos. Sobre a Teoria de Validade dos Atos/Fatos Jurídicos, que será estudada em suas aulas de Direito Civil, não deixe de ler: • NADER, Paulo. Introdução ao estudo do direito. 20 ed. Forense: Rio de Janeiro, 2000, p. 315 – 338. • REALE, Miguel. Lições preliminares de direito. 27 ed. Saraiva: São Paulo, 2004, p. 199-226. • VENOSA, Silvio de Salvo. Direito Civil: parte geral. 15 ed. Atlas: São Paulo, 2015. Pesquise mais SEM MEDO DE ERRAR! Agora que já absorvemos as noções constantes no tópico “Não Pode Faltar”, convidamos você a solucionar a Situação-problema (SP) apresentada no “Diálogo Aberto”. Recorda-se dela? Em síntese, você é o estagiário da Promotoria que atua junto ao caso de José Antônio, narrado no início da unidade, e tem de resolver a seguinte questão: José Antônio pode, conscientemente, pleitear viver isoladamente, em razão das patologias que lhe acometem? Responderemos a questãode acordo com as Teorias Naturalistas e Contratualistas, embasadas nos pensadores apresentados no decorrer da seção. Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 39 Já vimos que, para os naturalistas, viver em sociedade é uma característica inerente ao homem que, apenas não o faz em situações adversas, que justificam o isolamento. Assim, segundo os ensinamentos de Aristóteles, em que a total ignorância, que inclui as demências, serve para negar a característica humana de vivência em sociedade, José Antônio poderia viver isoladamente. O mesmo se tem quanto aos ensinamentos de São Tomás de Aquino, considerando que José Antônio apresenta quadro de doença psiquiátrica, e, assim, enquadrar-se-ia nos exemplos de corruptio naturae, o que também rompe com a tendência humana ao agrupamento. Contudo, ponderando a Teoria Contratualista, segundo a qual o homem não é predisposto ao agrupamento, mas o prefere fazer em razão da celebração do contrato social, não há meios de José Antônio viver de forma isolada, já que a celebração social é anterior a ele, que, por sua vez, não dispõe de meios de negá- lo. Atenção! A formação da sociedade é explicada de forma diferente pela corrente naturalista e contratualista, o que deve ser levado em consideração em sua resposta. Ponderando os preceitos constitucionais, sobretudo o art. 3º, da CF-88, que elenca a construção de sociedade livre, justa e solidária, bem como o art. 6º, que consagra o direito social à saúde, José Antônio não pode viver em isolamento por apresentar patologias psiquiátricas, ainda que manifeste comportamento agressivo. Recolhê-lo ao isolamento ou permitir que ele o faça, violaria o princípio da dignidade da pessoal humana. A República Federativa do Brasil, segundo todo o texto Constitucional, assume o compromisso de inclusão e não tolera nenhum tipo de segregação. Lembre-se Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 40 Avançando na prática Pratique mais! Instrução Desafiamos você a praticar o que aprendeu, transferindo seus conhecimentos para novas situações que pode encontrar no ambiente de trabalho. Realize as atividades e depois compare-as com a de seus colegas. Sociedade 1. Competência de fundamento de área Conhecer e relacionar os fundamentos doutrinários das Teorias Naturalistas e Contratualistas. 2. Objetivos de aprendizagem Dar ao aluno a competência de refletir sobre a formação da sociedade e justificá-la, mediante a adoção das Teorias Naturalistas e Contratualistas. 3. Conteúdos relacionados Naturalismo e Contratualismo. 4. Descrição da SP Naturalismo e Contratualismo. No livro O Alienista, Machado de Assis conta a história de um médico, Dr. Bacamarte, que resolve construir, na cidade de Itaguaí, a Casa Verde, local destinado a abrigar todos aqueles que o médico considerasse louco. O objetivo era o simples abrigo e não o tratamento. Em pouco tempo, ponderando os critérios do Dr. Bacamarte, a Casa Verde estava lotada, já que 75% da cidade de Itaguaí lá se encontrava. Diante do número de internamentos, Dr. Bacamarte passa a pensar que, se a maioria estava internada, loucos seriam aqueles que apresentavam o padrão comportamental esperado inicialmente pelo doutor: o comportamento de pessoas loucas. Ou seja, a maioria ditou os padrões de normalidade. Pensando na conhecida obra de Machado de Assis, nas Teorias Naturalistas e Contratualistas, bem como na Constituição Federal, pode Dr. Bacamarte retirar os chamados “loucos” do convívio social? Justifique. 5. Resolução da SP De acordo com Aristóteles e São Tomás de Aquino, Dr. Bacamarte pode aprisionar os loucos na Casa Verde, já que se enquadrariam nas hipóteses chamadas de corruptio naturae (a leitura da obra demonstra que Dr. Bacamarte passa a utilizar critérios bastante estranhos para considerar uma pessoa como louca ou não). Contudo, para os contratualistas, tal aprisionamento, que não tinha por função o tratamento dos considerados loucos, mas apenas a segregação deles, não pode se dar ante a prévia opção pela celebração do contrato social. Conforme a Constituição Federal, a medida, não seria possível, ante seu art. 3º, inciso I, e art. 6º, que assegura a todos o direito social à saúde. Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 41 Fonte: Gstatic. Disponível em: . Acesso em: 20 dez. 2015. Figura 1.17 | O Alienista, Machado de Assis A grande distinção entre os teóricos do Naturalismo e do Contratualismo é que os primeiros atribuem a formação da sociedade a uma tendência natural do homem ao agrupamento, enquanto que os segundos fundamentam seus posicionamentos na existência de um contrato social, negando a tendência humana ao agrupamento. Lembre-se Faça você mesmo Em casa, pesquise outros exemplos de representantes das Teorias Naturalistas e Contratualistas, fazendo uma síntese do pensamento de cada um dos pensadores pesquisados. 1. Sobre Direito e Sociedade, assinale a alternativa incorreta: a) O Direito tem a função de ordenação e pacificação social. b) Não há sociedade que dispensa a presença de regramento, ainda que mínimo, para a manutenção da vivência harmônica. c) O Direito é preexistente à sociedade. Faça valer a pena Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 42 d) Sociedade e Direito são instituições relacionadas e interdependentes uma da outra. e) O surgimento do Direito é concomitante, ou posterior, ao surgimento da sociedade. 2. Sobre a teoria de formação da sociedade chamada de naturalista, analise as assertivas a seguir: I. A Teoria Naturalista defende ser inerente ao homem a vivência isolada, já que é ser agressivo e irracional. II. A Teoria Naturalista defende ser inerente ao homem a convivência e a tendência ao agrupamento, não havendo hipóteses de vivência isolada. III. A Teoria Naturalista defende ser inerente ao homem a convivência e a tendência ao agrupamento, havendo, contudo, hipóteses de vivência isolada. IV. Aristóteles é defensor da Teoria Naturalista. Assinale a alternativa correta: a) Estão corretas as assertivas II e IV, apenas. b) Estão corretas as assertivas III e IV, apenas. c) Está correta a assertiva IV, apenas. d) Estão corretas as assertivas I e IV, apenas. e) Nenhuma das assertivas está correta. 3. Aristóteles, discípulo de Platão, defendia que o homem é um animal social, sendo o precursor da teoria naturalista. Sobre Aristóteles, assinale a alternativa correta: a) Para Aristóteles, em hipótese nenhuma, o homem poderia viver sozinho, já que é um animal político. b) Aristóteles afirmava que somente seres supremos poderiam viver isoladamente, a exemplo dos monges. c) Os ensinamentos aristotélicos não influenciaram pensadores que o sucederam, sendo pouco estudados atualmente. d) Aristóteles atribuía a condição de patologia à vontade que o homem médio poderia ter de permanecer sozinho por determinado período. e) Os ensinamentos de Aristóteles serviram de base aos de São Tomás de Aquino. Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 43 Seção 1.3 O que é Direito? Direito e ciência Desde a primeira seção, estamos conhecendo diferentes acepções do direito e explorando sua função e relação intrínseca com a sociedade, motivo pelo qual você foi apresentado ao provérbio ubi jus, ibi societas (Onde está o Direito, está a sociedade). Assim, já estudamos a noção de direito como sendo aquilo que é justo (seção 1.1) e direito como fato social (seção 1.2). Cumpre a nós, nesta seção, o estudo da acepção do Direito enquanto Ciência, bem como a abordagem de suas técnicas, cujas considerações serão aprofundadas posteriormente, em seções próprias. Com as informações obtidas aqui, você terá condições de melhor visualizar a amplitude e a relevância do fenômeno jurídico. Vamos, de início, recapitular nossa SGA, sobre a qual nos debruçamos nesta unidade:José Antônio vive preso em um pequeno cômodo, em decorrência de sua agressividade, que, por sua vez, deriva de problemas psiquiátricos. A prisão é ensejada pelo pai, senhor de idade, que não vê alternativa para conter o comportamento agressivo e perigoso do filho. Você é o estagiário da Promotoria responsável pela análise e tomada de providências pertinentes ao caso de José Antônio. Assim, ponderando a SGA apresentada, analise a seguinte SP: a Promotora de Justiça do setor onde você é estagiário solicita a separação de obras jurídicas que contemplem a temática em comento. Atendendo à determinação da Promotora, você se dirige até a biblioteca de sua Faculdade e depara- se com as seguintes indicações: à direita, “obras de Direito Público” e, à esquerda, “obras de Direito Privado”. Diálogo aberto Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 44 Fonte: Roteiros Literários. Disponível em: . Acesso em: 20 dez. 2015. Figura 1.18 | Biblioteca Para atender ao pedido de sua superiora, você deve se localizar na biblioteca, optando pela busca de livros à direita ou à esquerda. E agora? Você precisa de livros pertinentes a quais ramos da Ciência do Direito? Os ramos do Direito a serem investigados pertencem ao Direito Público ou ao Direito Privado? Não pode faltar Quando você se apresenta como estudante de Direito ou quando afirma que seu sonho é graduar-se em Direito, está conferindo um significado à palavra “direito” diferente daqueles explorados até agora. Nos exemplos anteriores, Direito remete à área do conhecimento: “eu sou estudante de uma área do conhecimento chamada de Direito”, “meu sonho é graduar-me em área do conhecimento chamada Direito”, sempre concebendo o conhecimento sob o viés científico, já que se pode falar em diversas formas de conhecimento, desde o vulgar, até o científico, conforme você estudará nas aulas de Filosofia e de Metodologia. Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 45 Fonte: Kroton. Disponível em: . Acesso em: 20 dez. 2015. Figura 1.19 | Graduação em Direito Em que pese a utilização corriqueira do termo nesse sentido. No entanto, precisamos nos questionar se, de fato, o Direito é verdadeiramente uma Ciência ou se consiste em simples técnica, agregada às Ciências Sociais e Humanas diversas. Para responder a tais indagações, precisamos, inicialmente, entender o que é uma Ciência e, a partir da identificação de seus elementos, classificar ou não o Direito enquanto tal. Tércio Sampaio Ferraz Júnior define Ciência como sendo o “conjunto de enunciados que visa transmitir de modo adequado informações verdadeiras sobre o que existe, existiu ou existirá” (FERRAZ JÚNIOR, 1980, p. 10). A Ciência, portanto, busca verdades sobre algo, assertivas demonstradas ou demonstráveis, verificadas ou verificáveis, mediante a utilização de um método que as evidenciem. Assimile Ciência é uma verificação de conhecimentos e um sistema de conhecimentos verificados (REALE, 2002, p. 10). Assim, são elementos indispensáveis à Ciência o objeto de estudo próprio e o método, considerados como princípios de avaliação da evidência (FERRAZ JÚNIOR, 1980, p. 11), compatível com o que se deseja analisar. Com tais elementos, adquire-se a feição e autonomia de Ciência, apartando-se de outras. Contudo, a noção de Ciência atrelada à verificação e à obtenção de verdades universais, bem como seus elementos, foi talhada para atender às Ciências Naturais, em que se pode mais facilmente proceder à experimentação, a testes, entre outros métodos, com vistas à certificação das proposições. Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 46 Na Química, na Física e na Biologia, pode-se realizar testes para chegar à conclusão de algo que, efetivamente, é. Não há que se falar em juízo de valor, sendo, portanto, as leis naturais meramente descritivas de algo que, mediante pesquisas, é perceptível. Para as Ciências Naturais, portanto, a comunicação tem sentido informativo (FERRAZ JÚNIOR, 2007, p. 40). Fonte: Alunos Online. Disponível em: . Acesso em: 20 dez. 2015. Figura 1.20 | Ciências Naturais No direito, contudo, não se revela possível obter verdades universais, inquestionáveis e, tampouco, proceder a experimentações nos moldes realizados nas Ciências Naturais. Isso porque, no direito, é indispensável a atividade de interpretação e, consequentemente, valoração, ou seja, deve-se realizar juízos de valor. Sobre os juízos de valor realizados no âmbito do Direito, tem-se que, sendo este essencialmente persuasivo, revela interesses contidos em seu discurso. Este discurso evidencia valores que, por sua vez, manifestam interesses, como explica Maria Helena Diniz, ao afirmar que a ideologia é responsável por escolher os valores que pautarão o discurso jurídico (DINIZ, 2014, p. 231). Como os interesses variam, os discursos também o fazem, de acordo com os valores escolhidos e valorados ideologicamente. Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 47 Atenção! Se o discurso jurídico reflete interesses escolhidos e valorados ideologicamente, a escolha de valores equivocados e a defesa de interesses escusos pode fazer com que o direito seja instrumento de dominação. Hodiernamente, em razão dos preceitos constitucionais e dada a multiplicidade social não se pode entender a seleção de valores realizada pela ideologia como sinônimo de imposição de valores. Dessa forma, é necessário saber e aprender a conviver harmonicamente com as diferenças. Para entender o risco de se utilizar valores equivocados como norteadores do direito, pesquise sobre a ideologia prevalecente na Alemanha Nazista e como o direito lhe serviu de instrumento de dominação. Pesquise mais Fonte: 2BP. Disponível em: . Acesso em: 21 dez. 2015. Figura 1.21 | Hitler e Nazismo Não apenas, mas também, pela variação dos valores escolhidos para nortear o discurso jurídico, o direito não é único em todo o tempo e lugar. Conforme afirma Miguel Reale, o direito “é enquanto deve ser” (2002, p. 86), o que sugere sua contínua evolução. Sua análise está vinculada ao ordenamento vigente em Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 48 determinado espaço e local, o que afasta a possibilidade de obtenção de verdades universais (veremos adiante, quando estudarmos o direito natural, que também há verdades universais no campo jurídico). Assimile O Direito é a Ciência que estuda o direito positivado no espaço e no tempo, sempre sendo analisado em concreto. Nas palavras de Miguel Reale, “é forma de conhecimento positivo da realidade social, segundo normas e regras objetivadas, ou seja, tornadas objetivas, no decurso do processo histórico” (REALE, 2002, p. 17). Entretanto, as particularidades do Direito não são suficientes para afastar sua cientificidade, tornando-o apenas distinto das Ciências Naturais, passíveis, por sua vez, de experimentação e obtenção de certezas absolutas (REALE, 2002, p. 82). Enquanto as Ciências Naturais são descritivas, o Direito é diretivo: dirige a conduta humana, impondo modelo de comportamento que, se descumprido, ensejará a aplicação de uma sanção. Tendo como finalidade influenciar o comportamento das pessoas, o Direito é persuasivo, objetiva convencer e não meramente informar. Atenção! “A Ciência Jurídica não apenas informa, mas conforma o objeto que estuda” (FERRAZ JR, 2007, p. 40). O Direito, portanto, distingue-se das Ciências Naturais, em síntese, pelas seguintes razões: Direito, justiça, ciência, sociedade e fontes do direito U1 49 Ciências Naturais Direito As leis naturais ocupam-se daquilo que é. As leis jurídicas ocupam-se do que é enquanto devem ser.