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Introdução à causalidade em epidemiologia (parte 3) Fernando Pires Hartwig Inferência causal Inferência causal • Processo através do qual julga-se se uma associação se refere a um efeito causal. ➢Avalia-se o número e qualidade de estudos no assunto, possíveis explicações alternativas para os resultados, etc... ➢Processo sujeito a erro → determinar causalidade com 100% de certeza requer conhecer o que teria acontecido caso a realidade tivesse sido diferente! • Para auxiliar neste processo, podem ser utilizados os critérios de Hill: ➢Nove princípios propostos pelo epidemiologista Sir Bradford Hill em 1965. ➢A ideia é que cada princípio atingido aumenta a plausibilidade de que exista um efeito causal. ➢Porém, não são regras, apenas princípios gerais! o Cumprir os critérios não prova causalidade. o Deixar de cumprir um ou mais critérios não necessariamente exclui causalidade. Critérios de Hill • Temporalidade • Força da associação • Consistência • Gradiente biológico (dose-resposta) • Plausibilidade biológica • Coerência • Especificidade • Evidência experimental • Analogia Temporalidade • Princípio: uma causa sempre precede sua consequência. • Único critério de Hill que é essencial. ➢É possível uma ação hoje mudar algo que aconteceu ontem? • Alguns exemplos: ➢Girar a chave faz o carro ligar. ➢Adianta colocar o capacete depois de sofrer o acidente? Temporalidade • Cumprir o critério de temporalidade é necessário para investigar causalidade. • Por exemplo: vamos supor que queremos estudar o efeito causal do sedentarismo (possível causa) sobre a obesidade (possível consequência). Estudo Obesidade Sedentarismo A 30 anos 30 anos B 20 anos 30 anos C 30 anos 20 anos Em qual estudo garantimos que o critério de temporalidade é cumprido? Força de associação • Princípio: quanto mais forte a associação, maior a plausibilidade de que exista um efeito causal. ➢ Em geral, associações fortes são mais “convincentes”. • Porém: ➢ Associações fracas não excluem relações causais. ➢ Associações fortes por si só não garantem causalidade. Força de associação • Em qual dos sexos o critério de força de associação é melhor cumprido? ➢Ou seja, em qual dos sexos a associação é mais forte? 100 110 120 130 140 150 160 170 180 Homens Mulheres 1 (mais pobres) 2 3 (mais ricos) Exemplo hipotético: média de altura na fase adulta conforme posição socioeconômica ao nascer Consistência • Princípio: observar uma associação em várias populações e circunstâncias diferentes aumenta a plausibilidade de que exista um efeito causal. • Ausência não exclui relação causal! • Efeitos causais podem variar entre contextos. ➢ Por exemplo, o efeito de fornecer auxílio financeiro sobre a situação de saúde infantil provavelmente é maior em famílias pobres do que em famílias ricas, pois nas primeiras o benefício terá um peso relativo maior no orçamento familiar. ➢ Lógica de programas de transferência condicional de renda, como o Bolsa Família. • Presença não garante relação causal! • Diferentes estudos podem ser afetados pelas mesmas fontes de viés, produzindo consistência artificial! Consistência (exemplos hipotéticos) Pobreza e depressão 0 10 20 30 40 50 Brasil Inglaterra % D ep re ss ão 1 (mais pobres) 2 3 (mais ricos) Pobreza e obesidade 0 10 20 30 40 50 Brasil Inglaterra % O b es id ad e 1 (mais pobres) 2 3 (mais ricos) Gradiente biológico (dose-resposta) •Princípio: se a possível consequência sempre aumenta (ou sempre diminui) quanto mais a possível causa aumenta, é maior a plausibilidade de que exista um efeito causal. Exemplo de gradiente biológico: quanto mais fumo, maior a ocorrência de câncer de pulmão. Gradiente biológico (dose-resposta) • Nem toda relação causal apresenta gradiente biológico! M o rt al id ad e Subnutridos Eutróficos Sobrepeso Obesos Índice de massa corporal (IMC) Para diminuir o risco de mortalidade, precisamos: • Aumentar o IMC dos subnutridos. • Diminuir o IMC dos obesos. E não é que faz sentido? ☺ Plausibilidade biológica • Princípio: a existência de mecanismos biológicos que possivelmente expliquem a associação aumenta a plausibilidade que exista uma relação causal. • Em geral, relaciona-se com a existência de possíveis mecanismos. • Não comprova nem contraria causalidade: ➢ A simples existência de um mecanismo plausível não significa que não existam fontes de viés. ➢ É possível bolar uma explicação para quase qualquer resultado... ➢ O desconhecimento de mecanismos pode ser devido simplesmente ao assunto em questão ser pouco estudado! Plausibilidade biológica Exemplo •Em um estudo, observou-se associação entre obesidade e infarto agudo do miocárdio (IAM). •Considerando que: • É sabido que ↑obesidade →↑pressão arterial. • É sabido que ↑pressão arterial →↑IAM. •Seria plausível que a associação entre obesidade e IAM se deve ao seguinte mecanismo: Obesidade Pressão arterial IAM Coerência • Princípio: a plausibilidade de que exista um efeito causal é maior caso não exista conflito entre a associação encontrada e o conhecimento sobre a história natural e a biologia da doença. ➢Ou seja, resultados que não divergem dos conhecimentos já existentes são considerados mais plausíveis. • Normalmente relacionado com achados de tendências temporais e geográficas. • Não comprova nem contraria causalidade: ➢ A simples ausência de divergência com o conhecimento vigente não significa que não existam fontes de viés. ➢ O conhecimento disponível pode ser errado ou incompleto. Especificidade • Princípio: é mais plausível que uma associação seja causal caso a possível causa apresente associação apenas com uma possível consequência, e vice-versa. • Critério pouco utilizado. ➢Pouco plausível à luz da teoria multicausal. ➢Por exemplo: sabe-se que obesidade tem um efeito causal sobre diabetes, infarto, alguns tipos de câncer, etc... • Valia para teoria unicausal: ➢ Muitas doenças infecciosas são causadas por apenas um tipo de bactéria ou vírus. Evidência experimental • Princípio: associações demonstradas em estudos experimentais são mais plausíveis de corresponderem a efeitos causais do que associações demonstradas em estudos observacionais. • Inviável no caso de exposições prejudiciais: ➢ Dificulta sua aplicação como critério para estabelecer causalidade • Alguns autores dizem que não um é critério, mas um uma fonte de evidências (dentre as várias disponíveis) muito robusta. Fumo vs. Câncer de pulmão Analogia • Princípio: associações análogas a relações de causa e efeito estabelecidas são mais plausíveis de corresponderem a relações de causa e efeito. • Exemplo: talidomida e rubéola congênita → efeitos teratogênicos. ➢ Por analogia, poderíamos pensar que outras drogas ou infecções congênitas têm efeitos semelhantes. • Problema: facilmente se consegue pensar em uma analogia para quase qualquer resultado. ➢ Logo, o critério tem pouca força. Critérios de Hill DESENHO/RESULTADOS DO ESTUDO •Força de associação •Gradiente biológico •Temporalidade •Evidência experimental CONHECIMENTO PRÉVIO •Consistência •Plausibilidade biológica •Coerência •Especificidade •Evidência experimental •Analogia Critérios de Hill • Temporalidade é o único critério essencial. • Especificidade, evidência experimental e analogia são pouco aceitos. • Utilização destes critérios deve ser feita com cautela. • Não existe “receita” nem métodos infalíveis. ➢ Inferência causal é uma questão de interpretação!