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Composição e funções do sangue - Reece 2006

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KOOGAN GUANABARA WILLIAM O. REECE D.V.M., Ph.D. EDITORIA DE DOMÉSTICOS I DÉCIMA SEGUNDA EDIÇÃO DUKES / FISIOLOGIA DOS ANIMAISCAPÍTULO 3 Composição e Funções do Sangue por William O. Reece e Melvin J. Swenson Volume globular Contagens leucocitárias diferenciais Células sangüíneas, plasma e soro Anticoagulantes Hemoglobina Contagens leucocitárias totais Transporte de oxigênio adulto-fetal Tempo de vida Eritrócitos Origem Quantidade Plaquetas Composição Oxiemoglobina Baço Tamanho e teor de hemoglobina Mioglobina Densidade do sangue Carboxiemoglobina Taxa de sedimentação eritrocitária Número Metemoglobina Composição do plasma sangüíneo Área superficial Leucócitos Proteínas plasmáticas Tempo de vida Destino dos eritrócitos Granulócitos Reação do sangue Eritropoiese Agranulócitos Volume sangüíneo Nos estágios precoces da vida embrionária, as células rece- nos bovinos, e especialmente nos eqüinos, geralmente é mais es- bem seus nutrientes necessários por difusão. À medida que a curo. A cor resulta principalmente das concentrações variadas de multiplicação celular continua, a distância da difusão aumenta, e um pigmento denominado bilirrubina, embora o caroteno e ou- as células mais internas morreriam, se não houvesse um sistema tros pigmentos sejam fatores contribuintes. de distribuição que transportasse os nutrientes necessários e os Se o sangue for retirado do organismo e deixado coagular, materiais residuais. A distribuição é fornecida pelo sistema tornar-se-á massa gelatinosa (ver o Cap. 4). Após a coagulação, cardiovascular, e o seu meio de transporte é o sangue. sangue o coágulo sangüíneo retrai-se, fazendo brotar do coágulo um constitui um meio complexo que se caracteriza não apenas por líquido aquoso e claro denominado soro, o qual é semelhante ao suas células circulantes com muitas funções mas também por plasma, exceto que o fibrinogênio e outros fatores de coagula- substâncias químicas orgânicas e inorgânicas comuns ao corpo ção foram removidos. como um todo. As células e substâncias químicas ficam suspensas Pode-se obter o plasma adicionando um anticoagulante ao ou dissolvidas na água, o solvente universal. sangue total, para impedir a coagulação, e deixando as células depositarem-se, uma vez que são mais pesadas do que o plasma. Centrifugar o sangue apressa o depósito das células, de forma CÉLULAS SANGÜÍNEAS, PLASMA E SORO que o plasma pode ser obtido mais prontamente. 1. Quais as três classes de células encontradas no sangue? No animal adulto, o plasma contém 91 a 92% de água e 8 a 9% de sólidos. As proteínas plasmáticas são as mais abundantes 2. Diferenciar entre plasma e soro. 3. Qual a porcentagem de distribuição da água e dos sólidos no dos constituintes dos sólidos. Os principais componentes do plas- plasma? que compreende a maior parte do componente ma são a albumina, as globulinas e o fibrinogênio. Desses, a orgânico dos sólidos? albumina funciona regulando e mantendo a pressão coloidal 4. Quais as principais proteínas plasmáticas? osmótica do sangue, e como importante transportador de muitas 5. Qual o anticoagulante preferido para estudos sangüíneos que substâncias, incluindo ácidos graxos livres, ácidos biliares, envolve a morfologia e métodos quantitativos? bilirrubina, cátions, microelementos (p. ex., ferro, cobre, cobalto, manganês e zinco) e muitos fármacos (p. ex., penicilina). Além Identificam-se três classes de células sangüíneas (corpúscu- disso, a albumina plasmática encontra-se juntamente com o bi- los): eritrócitos (hematias), leucócitos (glóbulos brancos) e carbonato e fosfato, compreendendo os principais tampões do trombócitos (plaquetas). A coloração vermelha do sangue é cau- fluido extracelular. As globulinas incluem as imunoglobulinas, que sada pela hemoglobina nos eritrócitos. Todas essas células ficam atuam nas respostas imunes. A proteína mais abundante de outro suspensas no fluido denominado plasma. grupo de proteínas com funções diversas é o fibrinogênio, o pre- plasma, por si só, é amarelado a incolor, dependendo da cursor da fibrina, essencial à coagulação sangüínea. O equilíbrio quantidade, da espécie do animal e de sua dieta. Quando exami- dos constituintes orgânicos inclui os compostos nitrogenados não- nado em esfregaço fino, o plasma é quase incolor. Em algumas protéicos (NNP) (p. ex., uréia, ácido úrico, creatina, creatinina, espécies, como os felinos, os caninos, os ovinos e os caprinos, é aminoácidos, glutationa, xantina, hipoxantina), glicose, gordu- incolor ou apenas levemente amarelado em grandes quantidades; ras neutras, fosfolipídeos, colesterol e outros. Os constituintesComposição e Funções do Sangue 25 inorgânicos compõem cerca de 1% do plasma, tais como os mi- ERITRÓCITOS nerais cálcio, fósforo, magnésio, potássio, sódio, cloro, enxofre, 1. São discos bicôncavos todas as hematias animais? Quais as iodo, ferro, cobre, cobalto, manganês, zinco, selênio e molibdênio. vantagens de um disco bicôncavo? Alguns desses minerais são usados para a formação do osso; cer- 2. Como a hematia do caprino difere da do canino? tos deles são constituintes de proteínas e lipídeos nos músculos, 3. Onde fica a principal localização da produção de hematias órgãos, células sangüíneas e outros tecidos, bem como de várias após o nascimento? Quais alguns locais embrionários? enzimas. Os minerais estão envolvidos na manutenção da pres- 4. Poderá uma unidade formadora de colônia que pode são osmótica, equilíbrio ácido-básico bem como irritabilidade dos produzir rubriblastos também produzir mieloblastos? 5. Qual o tempo normal necessário para o desenvolvimento de músculos e nervos. um eritrócito a partir de um rubriblasto? 6. Do que é composta a malha ou o retículo de fibras azuis em Anticoagulantes um reticulócito corado? Muitos anticoagulantes podem ser utilizados visando obter 7. Poderíamos esperar a presença de reticulócitos no sangue do amostras de sangue, livres de coágulo, para transfusão e pesqui- eqüino? sa analítica. A heparina, um polissacarídeo conjugado, é o 8. Aproximadamente qual porcentagem da hematia é ocupada anticoagulante natural, produzido pelos basófilos (leucócitos de pela hemoglobina? 9. Conhecer o significado de VGA, HCM e CHCM, as unidades um tipo particular) e nos mastócitos por todo o organismo. Os para cada um deles e as variáveis usadas na sua determinação. mastócitos estão localizados dentro do tecido conjuntivo que cir- 10. Quais as unidades usadas para expressar o número de cunda os capilares nos pulmões e outros órgãos. A partir deste hematias em um animal? Que animal possui o maior número tecido, a heparina é liberada e passa para dentro dos capilares, por unidade de medida? onde se combina com a antitrombina III (constituinte do plas- 11. Notar a variabilidade do tempo de vida das hematias entre as ma), o principal inibidor da trombina e do fator (ver o Cap. 4). espécies. Qual é ela para o eqüino, para o canino e para os As propriedades inibitórias da antitrombina III são potencializadas frangos? Quantas hematias são formadas por segundo em um pela heparina. Sem a antitrombina III, a heparina não é um eqüino de 450 kg? anticoagulante significativo. A concentração de 0,2 mg (20 uni- 12. que é hemólise intravascular? Que porcentagem de hematias sofre essa forma de lise? dades) de heparina por mililitro de sangue é usada como 13. que é hemólise extravascular? Que porcentagem de anticoagulante. Uma unidade de heparina corresponde aproxi- hematias sofre essa forma de lise? madamente a 0,01 mg de heparina sódica. 14. que são células SFM? De quais células derivam? Um anticoagulante comumente usado nas transfusões de san- Quais algumas de suas localizações fixas? gue nos animais é o citrato de sódio. citrato combina-se com 15. Quais as duas principais causas de icterícia? os íons cálcio do plasma, formando um sal insolúvel de cálcio. 16. que significa eritropoiese? Qual o papel da vitamina do Deve-se ter o cuidado de não administrar muito citrato, porque ácido fólico e do cobalto na eritropoiese? este pode combinar-se com íons cálcio suficientes para produzir 17. que é eritropoietina? Qual o principal ponto de produção? hipocalcemia, a qual pode interferir no funcionamento dos ner- Qual o estímulo para sua produção? vos bem como músculos cardíaco e esquelético, levando à tetania, hipotensão e parada cardíaca. citrato de sódio é o anticoagulante Os eritrócitos no sangue circulante dos mamíferos são células de escolha nos estudos da coagulação sangüínea. Os sais de po- não-nucleadas e imóveis. Geralmente, eles aparecem como dis- tássio não são utilizados nas transfusões por causa da possibili- cos bicôncavos circulares com mancha pálida central. A biconca- dade de produzirem hipercalemia, a qual pode alterar a atividade vidade aumenta a área superficial e diminui a distância de difu- elétrica cardíaca (ondas T altas em pico, bradicardia, parada atrial, são, facilitando, dessa forma, a troca do oxigênio e dióxido de bloqueio ou parada cardíacos). carbono transportado pelos eritrócitos. Para facilitar o transpor- Outros anticoagulantes valiosos são os sais de sódio, potássio te do dióxido de carbono, as hematias contêm a enzima anidrase e amônio dos oxalatos e fluoretos. Compostos quelantes, como carbônica, a qual catalisa a reação reversível do dióxido de car- os sais do ácido etilenodiaminotetraacético (EDTA), também bono, para formar íons bicarbonato, eliminando, assim, pronta- são utilizados nos estudos hematológicos. Os sais de amônio mente o dióxido de carbono do organismo pelos pulmões (ver o não são recomendados, quando estão sendo determinados quan- Cap. 7 para mais detalhes). titativamente compostos que contêm nitrogênio, por causa do Os eritrócitos variam, em diâmetro e espessura, de acordo nitrogênio no anticoagulante. com a espécie e estado nutricional do animal, porém são capazes No cálculo dos índices eritrocitários (descritos adiante) como de sofrer modificações na forma, enquanto passam pelos leitos auxiliares diagnósticos, é essencial manter o tamanho da célula capilares. eritrócito do cão é acentuadamente bicôncavo; os como existia na circulação sangüínea, quando o volume de eritrócitos dos felinos e eqüinos são ligeiramente bicôncavos. glóbulos aglomerados (VGA) foi determinado. Desta forma, a pequeno eritrócito do caprino apresenta pouca biconcavidade. A heparina ou EDTA mantêm o tamanho dos eritrócitos constante, Fig. 3.1 apresenta eritrócitos do sangue de animais normais. Há quando são utilizadas as concentrações recomendadas nos méto- considerável variação na forma e tamanho dos eritrócitos dentro dos hematológicos. Dos dois, o EDTA é o anticoagulante prefe- das espécies e entre elas. Os caprinos possuem o menor número rido para os estudos da morfologia sangüínea, métodos quantita- de hematias por unidade de volume bem como as menores célu- tivos envolvendo células e os índices eritrocitários. las em diâmetro e volume cúbico (Quadro 3.1). Porém, a des-26 Composição e Funções do Sangue Quadro 3.1. Tamanho eritrocitário e conteúdo de hemoglobina nos animais nhagens hematopoiéticas. Com estímulo apropriado, as célu- domésticos adultos las-tronco pluripotentes diferenciam-se em UFC unipotentes Animal VCM HCM (pg) CHCM ou células progenitoras comprometidas, as quais possuem a ca- pacidade de proliferarem-se e diferenciarem-se em células de Canino 60-77 19,5-30 32-36 uma única linhagem hematopoiética, formando a série eritróide, Felino 39-55 12,5-17,5 30-36 mielóide, linfóide e megacariocítica. Assim, são produzidos os Bovino 40-60 11,0-17,0 30-36 eritrócitos, granulócitos, linfócitos e plaquetas (a partir dos Eqüino 36-49 12,7-17,5 34-36 megacariócitos). A célula-tronco linfóide é responsável pela Suíno 50-68 17,0-21,0 30-34 produção dos linfócitos T. Ela migra da medula óssea para o Ovino 28-40 8,0-12,0 31-34 Caprino 16-25 5,2-8,0 30-36 timo, onde ocorre o desenvolvimento para célula T. Frango 115-125 25,0-27,0 21-23 Os rubriblastos, precursores dos eritrócitos, proliferam-se a partir da UFC unipotente eritrocitária. O Quadro 3.2 mostra que, Valores de referência do Clinical Pathology Laboratory, Department of Veterinary Pathology, à medida que os rubriblastos se proliferam, desenvolvem-se em lowa State University, Ames, lowa, EUA. pró-rubrícitos; à medida que os pró-rubrícitos amadurecem, for- mam rubrícitos, os quais eventualmente formam o eritrócito. À medida que se observa o desenvolvimento dos eritrócitos, vantagem da difusão, devida à falta de concavidade, é compen- podem-se chegar a estas conclusões: sada por a célula ser menor (distância de difusão reduzida), e 1. Quanto mais jovem a célula, maior ela é. À medida que ela se maiores números de células fornecem maiores aglomerados de desenvolve, torna-se menor. hemoglobina. A Fig. 3.1H mostra eritrócitos fusiformes e de for- 2. Quanto mais jovem a célula, maior o núcleo. Ele diminui de ma alongada de um caprino angorá normal. A Fig. 3.1G apresen- tamanho com o desenvolvimento e finalmente se perde das ta hematias de forma elíptica de um camelo. Os animais da famí- hematias dos animais domésticos (mamíferos). lia Camelidae (ruminantes), como a alpaca, o camelo, a lhama e 3. No núcleo, a cromatina contendo o ácido desoxirribonucléico a vicunha, possuem eritrócitos elípticos e sem núcleo. As hematias (DNA) torna-se mais compacta ou densa (picnótica), à medi- dos animais de sangue frio são elípticas e possuem núcleos. Os da que o desenvolvimento prossegue e cora-se mais intensa- eritrócitos aviários no sangue circulante são também elípticos e mente em azul com o corante de Wright. possuem núcleos. 4. citoplasma dos rubriblastos contém ácido ribonucléico (RNA) e cora-se em azul. À proporção que a célula se de- Origem senvolve nos vários tipos, o citoplasma toma coloração No desenvolvimento fetal inicial, as hematias nucleadas são avermelhada (primeiramente no rubrícito) por causa da pre- produzidas no saco vitelino. Mais tarde, no desenvolvimento em- sença da hemoglobina. brionário, o fígado, baço e linfonodos ficam envolvidos. Durante a última parte da gestação e após o nascimento, a formação de No adulto, a eritropoiese prossegue continuamente na medu- hematias (eritropoiese) tem lugar na medula óssea. No adulto, a la óssea, e os corpúsculos são despejados na corrente sangüínea medula dos ossos longos, ativos na eritropoiese no animal jo- em velocidade equivalente, para equilibrar a destruição das vem, é substituída por gordura. A medula dos ossos membranosos hematias no indivíduo normal. Por isso, o número total no san- (corpos das vértebras, pelve, costelas e esterno) permanece ativa gue não flutua muito. Geralmente, leva quatro a cinco dias para nos animais mais velhos e existe tendência gradual para a medula um rubrícito desenvolver-se a um eritrócito. diminuir a atividade com a idade. potencial de atividade eritro- metarrubrícito, a célula da medula óssea que é a precursora poiética em todos os locais embrionários (exceto o saco vitelino), do eritrócito, é nucleado, e o eritrócito do mamífero, não. nú- incluindo a medula óssea, está presente no adulto. Podem-se cleo do último se perde por extrusão ou absorção, antes que o observar esses locais com capacidade regenerativa revertendo corpúsculo entre na corrente sangüínea. Normalmente, 1 a 3% para a produção de eritrócitos. Por exemplo, o fígado, baço e dos eritrócitos são basofílicos, sem núcleo. Com um corante su- linfonodos podem produzir eritrócitos nos animais adultos que pravital (novo azul de metileno), o RNA se precipita, conferindo possuem anemia grave prolongada. mesmo se aplica aos locais uma rede ou retículo de fibras azuis, daí o nome de reticulócito. inativos na medula óssea, como os longos e vértebras. Basicamente, os reticulócitos são hematias jovens que contêm o A partir das células mesenquimais do mesoderma esplâncnico remanescente de um núcleo fragmentado, sendo os ribossomas do saco vitelino, há formação de uma célula-tronco primitiva e polirribossomas no citoplasma precipitados parcialmente pela denominada unidade formadora de colônia (UFC), que consti- coloração. tui diversas células-tronco pluripotentes ou UFC, as quais se- Em casos de necessidade, como durante uma hemorragia, meiam os sinusóides hepáticos e esplênicos por influência doenças hemolíticas e parasitismo, a maior parte dos animais hormonal. fígado semeia o timo e a medula óssea. timo se- responde com a liberação de hematias jovens nucleadas e meia os linfonodos e baço. Os linfonodos produzem linfócitos T reticulócitos a partir da medula óssea no sangue circulante. e (discutidos adiante). Com vistas à exata origem dos eritrócitos, Entretanto, o eqüino geralmente não responde dessa forma. as células-tronco pluripotentes na medula óssea são capazes de Reticulócitos e hematias nucleadas raramente são observados auto-renovação e produção de células unipotentes de várias li- no sangue periférico dos eqüinos.Composição e Funções do Sangue 27 C E Fig. 3.1 Fotomicrografias de varredura eletrônica dos eritrócitos. (A) Canino, 2.300x; (B) felino, 2.040x; (C) eqüino, 2.100x; (D) bovino, 1.800x; (E) ovino, 1.620x; (F) caprino, 2.100x; (G) camelo, 1.440x; (H) caprino com eritrócitos fusiformes e em forma de fuso, 1.890x. (A a F fornecidas pelo Dr. N.C. Jain, do Department of Clinical Pathology, School of Veterinary Medicine, University of California, Davis; G do The Veterinary Journal, vol. 130, Jain e Keeton, Morphology of camel and llama erythrocytes as viewed with the scanning electron microscope, p. 288, 1974, com permissão de Ballière Tindall; e H de Schalm, Jain e Carroll 1975, Veterinary Hematology, 3d ed., Lea & Febiger, Philadelphia G Lippincott Williams & Wilkins© 1975.)28 Composição e Funções do Sangue Quadro 3.2. Estágios do desenvolvimento das várias células sangüíneas Quadro 3.3. Valores médios do sódio e potássio dos eritrócitos Série Células Espécie Potássio (mM/kg) Sódio (mM/kg) Eritrocítica Rubriblasto Felina 5,9 103,7 Pró-rubrícito Bovina 21,8 79,8 Rubrícito Canina 8,7 107,0 Metarrubrícito Caprina 18,4 93,2 Reticulócito Suína 99,5 10,8 Eritrócito Ovina 18,4 83,5 Granulocítica Mieloblasto 64,2 15,6 Pró-granulócito 58,1 46,0 Mielócito Frango 97,3 7,1 Metamielócito Peru 99,5 9,7 Bastonete Neutrófilo, eosinófilo, basófilo Dados de Kerr 1937, J. Biol. Chem. 117:227-35. Linfocítica Linfoblasto Pró-linfócito Linfócito Monocítica Monoblasto Nos animais com hematias PK, os outros tecidos são Pró-monócito indistinguíveis daqueles nos animais RK. O Quadro 3.3 fornece Monócito os valores do potássio e sódio para os vários animais domésti- Macrófago cos. As diferenças genéticas são evidentes, especialmente nos Trombocítica Megacarioblasto ovinos com hematias RK e PK. Os valores relatados do potássio Pró-megacariócito Megacariócito das hematias nos eqüinos encontram-se em torno de 88 mM/kg. Trombócito plaqueta Os valores séricos do potássio e sódio para os eqüinos são de 2,4 a 4,7 e 132 a 146 mEq/L, respectivamente. Os animais com eritrócitos RK, como o eqüino, suíno e al- guns ruminantes, possuem bomba de sódio ativa que troca o sódio Composição intracelular pelo potássio extracelular com a hidrólise do trifosfato Os eritrócitos nos animais adultos contêm 62 a 72% de água; de adenosina (ATP). Por outro lado, alguns ovinos, caprinos e do restante, aproximadamente 35% consistem em sólidos. Dos bovinos possuem valores do potássio relativamente baixos e con- sólidos, a hemoglobina constitui cerca de 95%. O restante é cons- seqüentemente valores de sódio mais elevados nos eritrócitos. tituído por proteínas no estroma e pela membrana celular: lipídeos, As hematias PK apresentam baixa atividade da bomba de potás- como os fosfolipídeos (lecitina, cefalina, esfingomielina), sio e elevada permeabilidade passiva ao potássio. colesterol livre, ésteres do colesterol e gordura neutra; vitaminas funcionando como co-enzimas; glicose para energia; enzimas, como a colinesterase, fosfatases, anidrase carbônica, peptidases Tamanho e teor de hemoglobina e as ligadas à glicólise; e minerais (eletrólitos), como o fósforo, diâmetro dos eritrócitos tem sido medido freqüentemente. enxofre, cloro (principal ânion intracelular), magnésio, potássio Para a maior parte dos mamíferos domésticos, os diâmetros mé- e sódio. dios a partir de esfregaços secos variam de 4 nos caprinos até sódio é o principal cátion no fluido extracelular. Os valores 7 para o cão (Quadro 3.4). Existem várias falhas nesta medi- de sódio e potássio do soro ou plasma da maior parte dos ani- da: (1) as células no esfregaço seco (ou em estado úmido, porém mais domésticos variam de 140 a 150 e de 4 a 5 mEq/L, res- perdendo água) são menores, (2) muito poucas células são medi- pectivamente. Cátions e ânions dentro e fora da célula ajudam a das a partir da amostra de sangue colhida, e (3) a profundidade, estabelecer e manter os gradientes elétricos através das mem- ou a terceira dimensão da célula, não pode ser levada em conta. branas celulares pela bomba de sódio, pelo transporte ativo de Por essas razões, os diâmetros dos eritrócitos são menos impor- cátions e ânions, bem como por difusão. Esses processos fisio- tantes do que os seus volumes cúbicos, os quais devem ser utili- lógicos ajudam a manter um estado de equilíbrio dos eletrólitos zados para medir as células. dentro das células. O potássio é o principal cátion dos eritrócitos de algumas es- Índices eritrocitários pécies; em outros animais, predomina o sódio (Quadro 3.3). Está Os índices eritrocitários são determinações calculadas após comprovado que os animais domésticos apresentam diferenças os eritrócitos terem sido enumerados, e o volume de glóbulos aglo- genéticas no teor de potássio dos eritrócitos. Existem tanto merados (VGA) bem como a concentração de hemoglobina ([Hb]) eritrócitos pobres em potássio (PK) quanto ricos em potássio terem sido determinados. Há três índices, indicados a seguir: (RK) nos caninos, felinos, bovinos, caprinos e ovinos. As hematias nos ovinos PK são mais ricas em potássio ao nascimento do que 1. VCM = volume corpuscular médio em fentolitros (fL); fento quando adultos. potássio gradualmente se reduz aos valores = um quadrilionésimo dos adultos em um a dois meses após o nascimento, quando a 2. HCM = hemoglobina corpuscular média em picogramas; pico hemoglobina fetal não se encontra mais presente. = um trilionésimoComposição e Funções do Sangue 29 Quadro 3.4. Valores estimados para calcular a área superficial eritrocitária total Espécie Humana Bovina Caprina Ovina Suína Eqüina Canina Felina Frango Peso (kg) 70 500 30 40 100 500 20 3 2 Volume sangüíneo (mL, calculado em 8% do peso corpóreo) 5.600 40.000 2.400 3.200 8.000 40.000 1.600 240 160 total de de sangue 5 7 14 11 7 10 7 7 3 Diâmetro das hematias esfregaços secos) 7,5 5,9 4 4,8 6 5,5 7 6 11,2x6,8 m³ totais de sanguex 5,6 40 2,4 3,2 8,0 40 1,6 0,24 0,16 total de hematias 2,8 28 3,4 3,5 5,6 40 1,1 0,17 0,048 Área superficial estimada/hematia com base no diâmetro e espessura (esfregaços úmidos) 162 110 50 66 113 84 121 113 183 em 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 Area superficial eritrocitária total estimada (m²) 4.536 30.800 1.700 2.310 6.328 33.600 1.330 192 88 Relação da área superficial eritrocitária com peso corporal (m²/kg do peso corpóreo) 65 62 57 58 63 67 67 64 44 3. CHCM = concentração de hemoglobina corpuscular média eritrócitos grandes. Os suínos geralmente nascem com eritróci- em g/dL ou g% tos grandes (VCM 80 a os quais, em seguida, diminuem (VCM 55 a 65 fL) em oito semanas. HCM expressa o peso As derivações dos valores são as seguintes (manipulações médio da hemoglobina presente nos eritrócitos, e CHCM forne- exponenciais completadas, mas não incluídas): ce a porcentagem média do VCM que a hemoglobina ocupa. Es- ses valores variam entre as espécies (ver o Quadro 3.1). A ane- 1. VCM (VGA/hematias) X 10 mia perniciosa nos humanos é macrocítica, porém esse tipo de Exemplo: VGA 42%; hematias 7 anemia não ocorre nos animais domésticos. A variação em tais 42/7 10 fL valores é considerável nos animais domésticos. erro na conta- 2. HCM (Hb/hematias) X 10 gem dos eritrócitos contribui para variações no VCM e HCM. Exemplo: (Hb) 14 g/dL; hematias 7 14/7 10 = 20 pg Número 3. CHCM (Hb/VGA) X 100 número de hematias varia muito entre as espécies (Quadro Exemplo: (Hb) 14 g/dL; VGA = 42% 3.5) e, ainda, entre os indivíduos de uma espécie. 14/42 X 100 33,3% Diversos fatores afetam não apenas as contagens eritrocitárias mas também a concentração de hemoglobina e de outros consti- É mais fácil visualizar as referidas derivações, considerando o tuintes sangüíneos: esses fatores são principalmente a idade, sexo, seguinte: exercício, estado nutricional, lactação, gestação, produção de ovos, excitação (liberação de adrenalina), volume sangüíneo 1. Para VCM. As hematias em um litro de sangue ocupam o (hemodiluição ou hemoconcentração), fase do ciclo estral, raça, volume de 420 mL. Como existem 7 milhões por µL, pode-se hora do dia, temperatura ambiente, altitude e outros fatores cli- determinar o volume de cada célula dividindo o volume total máticos. (420 µL) pelo número de hematias (7 milhões por con- tidas naquele volume. Quadro 3.5. Número de eritrócitos, concentração da hemoglobina ([Hb]) e volume 2. Para HCM. Existem 140 g de Hb em 1 L de sangue. A quan- de glóbulos aglomerados (VGA) nos animais domésticos tidade de Hb em cada hematia pode ser determinada dividin- Animal Hematias [Hb](g/dL) VGA (%) do-se a quantidade total de Hb em L (140 g) pelo número de hematias naquele litro (7 milhões por µL). Canino 5,5-8,5 12-18 (8-12)* 37-55 (25-37)* 3. Para CHCM. Admite-se que a massa das hematias pese 42 g; Felino 5,0-10,0 10-15 (8-11)* 30-45 (24-34)* portanto, a porcentagem atribuída à Hb é obtida pela divisão, Bovino 5,0-10,0 8-15 24-46 Eqüino 7,0-11,0 11,5-16,0 34-45 como foi demonstrada, e multiplicando por 100. Suíno 5,0-8,0 10,0-16,0 32,0-50,0 Ovino 9,0-15,0 9,0-15,0 27,0-45,0 Esses índices representam auxílio no diagnóstico de várias Caprino 8,0-18,0 8,0-12,0 22-38 anemias. A deficiência de ferro em todos os mamíferos, incluindo os humanos, caracteriza um tipo microcítico de anemia (células *Mais baixo nos caninos e felinos com 5 a 6 semanas de idade; aumento gradual para os valores do adulto em torno dos 5 meses de idade. muito pequenas). VCM fornece o tamanho médio da célula em Variações de referência do Clinical Pathology Laboratory, Department of Veterinary micrômetros cúbicos. A maior parte dos mamíferos nasce com Pathology, lowa State University, Ames, lowa.30 Composição e Funções do Sangue sangue dos eqüinos velozes, como os de corrida, 0 tempo de vida dos eritrócitos dos frangos é de 20 a 30 temente possui mais hematias por unidade de volume do que o dias e para o pato, de 30 a 40 dias. É possível que o curto perí- dos eqüinos de tração. Os eritrócitos dos eqüinos puros-sangues odo de vida dos eritrócitos nas aves seja devido à sua tempera- são de tamanho menor, e a combinação de números maiores e tura corpórea elevada e rápida taxa metabólica. tamanhos menores fornece uma grande área superficial Os eritrócitos são destruídos diariamente em grandes núme- eritrocitária, o que facilita o transporte do oxigênio dos pulmões ros. número total de eritrócitos no organismo de um animal para os tecidos. A contagem eritrocitária por unidade de volume com 450 kg com volume de sangue de 8% do peso corpóreo é de nas mulas é praticamente a mesma que para os eqüinos de tração. 300 trilhões. Se a vida média dos eritrócitos individualmente for de 100 dias, três trilhões deverão ser destruídos (e formados) no Área superficial organismo em cada dia ou cerca de 35 milhões em cada segundo. A área superficial eritrocitária total pode ser estimada, quan- Como os eritrócitos se tornam menores, à medida que se do o volume sangüíneo, contagem, diâmetro e espessura dos desenvolvem, pode-se pensar que, na anemia por deficiência de eritrócitos são conhecidos. As áreas superficiais são surpreen- ferro, o tempo de vida das hematias fique prolongado, porque dentemente grandes (Quadro 3.4), sendo de grande importância são anormalmente pequenas. Este não é o caso. Na anemia por para a função respiratória ou transporte de gases do sangue. O deficiência de ferro, há interrupção da maturação dos eritróci- valor relativamente constante da área superficial eritrocitária para tos no estágio final de rubrícito. À medida que as células aguar- o peso corpóreo é mantido. Para os mamíferos, varia de 57 a 67 dam a necessidade do ferro na síntese da hemoglobina, ocorre m²/kg. valor para os frangos, 44 m²/kg, é muito baixo em com- mais divisão celular, produzindo hematias menores do que as paração com o valor para os mamíferos. A área superficial média normais deficientes em hemoglobina, o que é característico da estimada por eritrócito foi calculada inicialmente a partir das di- anemia microcítica hipocrômica na deficiência de ferro. mensões relatadas em esfregaços secos. Este valor foi aumentado em 20%, para chegar à área superficial eritrocitária úmida estima- Destino dos eritrócitos da. A espessura média foi calculada como sendo de 2 Apesar Os eritrócitos possuem a notável capacidade de mudar de for- de erro considerável poder ser introduzido neste e em outros valo- ma, à medida que passam pelos capilares. Eritrócitos com diâ- res, tais medidas fornecem alguns valores comparativos para auxi- metro de 7 a 10 um passam por capilares com diâmetro de 3 a 5 liar na compreensão dos mecanismos do transporte de gás. À proporção que tais células chegam ao fim de sua vida, tornam-se menos deformáveis. Nessa ocasião, cerca de 10% das Tempo de vida células mais antigas podem sofrer lise, à medida que passam pe- tempo de vida dos eritrócitos varia de acordo com a espé- los leitos capilares, como conseqüência de alterações na permea- cie, e os valores relatados variam conforme o método utilizado bilidade da membrana e tumefação osmótica. Quando tal ocorre, para medir o tempo de vida. Os eritrócitos são marcados com a hemoglobina é liberada, combina-se com a haptoglobina (uma isótopos do ferro, cromo, fósforo ou carbono ⁵⁵Fe, proteína plasmática) e é subseqüentemente engolfada pelas célu- ³²P ou em seguida, a sua meia-vida é medida e o tempo de las do sistema fagocítico mononuclear (SFM). Este modo de vida calculado. No cão, o tempo de vida varia de 100 a 130 dias, destruição é conhecido como hemólise intravascular. Fragmen- com média de 118. Os valores relatados para o felino são de 70 a tos celulares e a maioria (90%) dos eritrócitos mais velhos po- 80 dias e para os eqüinos, de 140 a 150 dias. Nos ruminantes dem ser fagocitados diretamente pelas células do SFM. Este modo adultos (bovinos, ovinos e caprinos), o tempo de vida dos de destruição das hematias é conhecido como hemólise extra- eritrócitos varia de 125 a 150 dias; nos cordeiros e bezerros, é vascular. As células do SFM derivam dos monócitos e incluem mais curto, variando de 50 a 100 dias. as células estreladas, ou de Küpffer, encontradas nas paredes dos Os reticulócitos geralmente se encontram presentes no san- seios vasculares do fígado, células semelhantes no baço e deter- gue dos animais, quando o tempo de vida é menor do que 100 minadas células da medula óssea bem como dos linfonodos. Na dias. cão é exceção. Os bovinos e especialmente eqüinos com maior parte dos animais domésticos, a medula óssea vermelha é tempos de vida de hematias mais longos não apresentam o ponto principal de destruição eritrocitária. Nos humanos, prova- reticulócitos no sangue circulante em boas condições de saúde. velmente o baço seja de grande importância; no coelho e cobaia, o Os bovinos alcançarão números moderados de reticulócitos nas é menos. Em algumas espécies de animais, o fígado também é lo- anemias responsivas. cal importante. Nas aves, o fígado constitui o principal local. No suíno, quando os eritrócitos são marcados com isótopo e Quando os eritrócitos são fagocitados pelas células do SFM, reinfundidos no mesmo animal, a meia-vida para as células elas sofrem hemólise dentro da célula fagocítica e a hemoglobi- autólogas foi de 28 4 dias e para as células homólogas (células na, outras proteínas e lipídeos da membrana das hematias fagoci- infundidas em animais da mesma espécie), de 13,8 5,7 dias. tadas são catabolizados. Um resumo da degradação da hemoglo- Por isso, os eritrócitos de um animal infundidos em outro animal bina que começou desta forma está demonstrado na Fig. 3.2. da mesma espécie não vivem igualmente tanto. Com as células ferro e a globina são separados do heme, a globina é degradada autólogas, o tempo de vida dos eritrócitos nos suínos se aproxi- em seus aminoácidos e reutilizados. ferro fica estocado nas ma do relatado para os humanos (100 a 120 dias). Ainda, tem- células do SFM na forma de ferritina e hemossiderina, ou é trans- po de vida das hematias é menor quando as células são transferidas ferido para o plasma, onde se combina com uma proteína plas- de um doador para o receptor na transfusão sangüínea. mática, a apotransferrina, para se tornar transferrina, a qual cir-Composição e Funções do Sangue 31 Hemoglobina dos túbulos, mas pode ultrapassar o limiar renal para reabsorção e Célula Reutilizados Heme do SFM continuar na urina, conferindo-lhe coloração avermelhada, condi- Ferro ção conhecida como hemoglobinúria. A hemoglobina excessiva Biliverdina nos túbulos renais, acoplada à reabsorção tubular de água, pode provocar a precipitação da hemoglobina. Os túbulos obstruídos Bilirrubina com a hemoglobina podem resultar em insuficiência renal aguda. Diglicuronídeo de bilirrubina Fígado Eritropoiese Bile Circulação A eritropoiese (formação de eritrócitos) é um processo contí- enteroepática Urobilinogênio Urobilina nuo. Muitos nutrientes são essenciais para este processo. A vita- Excretadas Rim nas fezes mina (cianocobalamina) contém um átomo de cobalto em Estercobilinogênio Estercobilina cada molécula. Ela funciona na maturação dos eritrócitos. É ne- Intestino Urobilinogênio urinário cessária (como o ácido fólico) para a síntese do DNA em todas Fig. 3.2 Degradação da hemoblobina que começou dentro das células do sistema fagocítico as células do organismo, incluindo os eritrócitos. ácido fólico mononuclear (SFM). (ácido pteroilglutâmico) também é necessário à síntese do RNA nas hematias. Ambas as vitaminas atuam como co-enzimas na cula pela medula óssea, onde o ferro é usado para a síntese de nova síntese dos ácidos nucléicos ou dos seus constituintes, as bases hemoglobina. Durante a síntese da hemoglobina, o ferro liberado purínicas e pirimidínicas. A deficiência da vitamina nos huma- da decomposição dos eritrócitos é utilizado em vez de estocado. nos provoca anemia macrocítica hipercrômica. Nos animais do- heme é convertido em biliverdina (pigmento verde) e, em mésticos, a deficiência da vitamina produz anemia, mas o seguida, reduzido a bilirrubina (pigmento amarelo). A bilirrubina tamanho das hematias não se altera tanto quanto nos humanos. livre (insolúvel na água) é liberada no plasma, onde se liga à cobalto é nutriente/mineral dietético essencial para os rumi- albumina. Quando ele circula pelo fígado, separa-se da albumina. nantes, porque estes sintetizam a vitamina no rúmen. No fígado, a bilirrubina insolúvel é tornada solúvel pela conjuga- Outras vitaminas que ajudam a eritropoiese são a piridoxina, ção com o ácido glicurônico, para formar o diglicuronídeo de riboflavina, ácido nicotínico, ácido pantotênico, tiamina, biotina bilirrubina. É secretada na bile nesta forma e entra no intestino. e ácido ascórbico. Quando essas vitaminas são deficientes, o cres- Bactérias dentro do intestino grosso reduzem o diglicuronídeo cimento e desenvolvimento dos eritrócitos ficam prejudicados. A de bilirrubina a urobilinogênio. A maior parte do urobilinogênio deficiência da piridoxina nos suínos produz anemia microcítica é excretada com as fezes nas formas oxidadas de urobilina ou hipocrômica. estercobilina, pigmentos que conferem às fezes a sua coloração Tanto as vitaminas, os nutrientes como os minerais e os normal. Parte do urobilinogênio é absorvida na circulação aminoácidos, quanto a água e a energia são necessários à sínte- enteroepática, da qual a maior parte é reexcretada na bile. Parte se das proteínas do sangue. Os minerais mais comumente ne- do urobilinogênio absorvido ultrapassa o fígado, entra na circu- cessários são o ferro, cobre e cobalto. ferro faz parte da mo- lação geral e é excretada na urina, para tornar-se o pigmento lécula de hemoglobina, e o cobre é essencial como co-enzima normal da urina (urobilina). Um teste diagnóstico demonstrando ou catalisador na síntese da hemoglobina. Dado que o ferro li- a ausência do urobilinogênio na urina pode indicar o bloqueio vre pode catalisar os radicais livres da molécula de oxigênio, o completo do ducto biliar. Muitos animais normais possuem ferro intracelular fica ligado ou incorporado a várias proteínas, flutuações na excreção do urobilinogênio, por isso podem não para reduzir a sua toxicidade. É transportado e estocado na for- contê-lo na urina por determinados tempos. ma ligada à proteína em seu estado de oxidação férrico (Fe³⁺). Por causa de doença do fígado, a bilirrubina livre, combinada Com a finalidade de ser transportado através das membranas com a albumina, pode não ser separada no fígado e continuar a celulares, o ferro deve se encontrar no seu estado de oxidação circular, aparecendo em elevada concentração no plasma e flui- ferroso (Fe²⁺). A maior parte do cobre circulante no plasma fica dos intersticiais. Também, se o ducto biliar se tornar bloqueado, ligada à glicoproteína ceruloplasmina, a qual possui atividade o diglicuronídeo de bilirrubina poderá extravasar do fígado para ferroxidase e é necessária para liberar o ferro na circulação (i. o plasma. Em qualquer dessas condições, pode-se produzir colo- e., transportar o ferro através das membranas). Os suínos defi- ração amarelada nos tecidos conhecida como icterícia. cientes em cobre, devido à falta de ceruloplasmina, apresentam A hemoglobina derivada da hemólise intravascular que se liga sinais de deficiência funcional de ferro. ferro acumula-se no com a haptoglobina e, em seguida, entra nas células do SFM é fígado, células do SFM e enterócitos por causa da incapacidade degradada como descrito para a hemólise extravascular. Como o de mobilizar o ferro desses locais. resumo da absorção, es- complexo hemoglobina-haptoglobina constitui-se numa molécu- tocagem, utilização e transporte do ferro pelo plasma é demons- la grande, não é filtrado pelos glomérulos renais. Entretanto, trado na Fig. 3.3. Como o ácido clorídrico das células parietais hemólise intravascular excessiva (doença hemolítica) pode ocor- do estômago aumenta a absorção do ferro a partir do alimento rer, e haptoglobina suficiente pode não ser disponível. O plasma e converte o ferro férrico em ferroso, para facilitar a absorção, permanece com aspecto avermelhado, condição conhecida como uma acloridria reduz acentuadamente a absorção do ferro. Do- hemoglobinemia. A hemoglobina livre é, então, filtrada nos ses elevadas de antiácidos também prejudicam a absorção do glomérulos e entra nos túbulos renais. Muito dela é reabsorvido ferro e subseqüente desenvolvimento da hematia.32 Composição e Funções do Sangue VOLUME DE GLÓBULOS AGLOMERADOS da mitocôndria 1. Quais os componentes do hematócrito? Ferritina (Fe³⁺) 2. Se o VGA é relatado como sendo de 42%, qual a porcentagem Hemossiderina (Fe³⁺) ferritina do sangue que representa o plasma? 3. Como a excitação afeta o VGA? Eritrócito em Estocagem desenvolvimento Hematócrito é o método pelo qual os componentes do san- na medula óssea gue (células e plasma) são separados de acordo com a densidade Transferrina (Fe³⁺) Circulação ou gravidade específica por centrifugação. Os componentes do sistêmica hematócrito em ordem de maior densidade são (1) a massa eri- Célula trocitária (VGA), (2) os leucócitos e (3) o plasma. Desta forma, epitelial o VGA ocupa a parte mais baixa do hematócrito; os leucócitos, a Ferritina (Fe³⁺) intestinal faixa estreita acima do VGA, e referida como capa leucocitária, a parte média; e o plasma, a parte superior. VGA freqüente- Intestino mente é referido como hematócrito. Mais corretamente, consti- tui um componente do hematócrito. Os dados para a relação do hematócrito são prontamente obtidos de amostras sangüíneas com Fig. 3.3 Resumo da absorção, estocagem, utilização e transporte do ferro. ferro deve se encontrar no estado ferroso oxidado para ser transportado através das membranas. tipo e quantidade apropriados de anticoagulante (ver Anticoagu- O ferro intracelular está ligado incorporado a várias proteínas a outros quelatos em lantes anteriormente). Os melhores resultados são obtidos utili- seu estado de oxidação férrica para reduzir a sua toxicidade, porque ferro livre zando uma centrífuga e tubos de microematócrito. O sangue nos pode catalisar radicais livres de oxigênio molecular e íons hidrogênio, gerando conseqüências tubos capilares é centrifugado por 5 min a 11.000 rpm. A propor- desastrosas para os materiais biológicos. ferro transportado é ligado à proteína apotransferrina, conhecida como transferrina. O ferro fica estocado nos tecidos como fração ção do comprimento da coluna de sangue ocupada pelas hematias móvel, solúvel, difusa (ferritina), como depósitos agregados, insolúveis (hemossiderina). pode ser obtida por medição. Como a capa leucocitária é estrei- As principais localizações da estocagem do ferro são fígado e baço, seguidos pelo rim, ta, às vezes pode ser incluída na medida do VGA. Se separação coração, músculos esqueléticos e cérebro. Na medula óssea, todas as formas eritróides notável foi discernível, pode não ser possuem receptores de membrana superficial para a transferrina. Quando internalizado, o ferro liberado é transportado para dentro da mitocôndria do eritrócito em desenvolvimento, VGA é expresso em volume por cento de células aglomera- combina-se com a proteína apoferritina, para ser estocado como ferritina. das no sangue total após a centrifugação. As variações nos valo- res do VGA entre os animais domésticos são demonstradas no Quadro 3.5. Hemoconcentração devida a desidratação, asfixia ou estímulo à eritropoiese parece ser a necessidade tecidual excitação, provocando a liberação de eritrócitos concentrados de oxigênio. sensor de oxigênio não foi definido, mas a con- no baço, pode resultar em valores anormalmente elevados do centração de oxigênio reduzido no tecido resulta na secreção VGA. A excitação nos cães pode causar valores do VGA que mu- do hormônio conhecido como eritropoietina (EPO). rim é dam de 42 para 53%. Na excitação, a adrenalina causa contração o principal local (o único local nos caninos) de produção da esplênica, o que força os eritrócitos estocados no sangue EPO nos mamíferos adultos. A eritropoietina é produzida pelas circulante e aumenta o VGA. Normalmente, o VGA é aproxima- células intersticiais dentro do córtex interno e medular exter- damente três vezes a concentração da hemoglobina (g/dL), o que na do rim. fígado é uma fonte extra-renal de EPO nos adultos se baseia na CHCM normal de cerca de um terço. (principal local no feto dos mamíferos). A produção extra-re- nal de EPO em determinados animais e humanos auxilia a man- HEMOGLOBINA ter a eritropoiese durante a anemia causada por doenças renais graves. A anemia é seqüela comum de nefrite intersticial crôni- 1. Que parte da estrutura da hemoglobina confere a coloração vermelha do sangue? ca nos cães por causa da falta de fonte extra-renal de EPO. 2. Fica a síntese da hemoglobina confinada ao rubriblasto? Na medula óssea, a EPO estimula as células-tronco com- 3. Qual a diferença fisiológica entre a hemoglobina fetal e a do prometidas, incluindo os rubriblastos, os pró-rubrícitos e adulto? rubrícitos jovens, visando aumentar a sua atividade mitótica para 4. Quais os valores normais da concentração de hemoglobina a produção e liberação mais rápidas de reticulócitos e eritróci- nos animais? tos maduros. Como resultado, reticulócitos podem, às vezes, 5. Quais os valores normais da concentração do ferro plasmático? ser observados nos animais hipóxicos. 6. Como a estrutura e função da mioglobina diferem daquelas da período de vida da EPO é de menos de um dia, curto tempo hemoglobina no sangue? de vida que auxilia a fornecer maior flexibilidade no ajuste dos 7. Por que o monóxido de carbono é prejudicial ao transporte do oxigênio pela hemoglobina? números de eritrócitos, para regular mais exatamente a necessi- 8. Por que a metemoglobina é incapaz de transportar o oxigênio? dade tissular de oxigênio. Não aparecem novos eritrócitos na 9. Quais os efeitos da metemoglobinemia revertida? circulação até cerca de cinco dias após o início da sua formação. Por isso, EPO adicional pode ser formada, para permitir produ- ção contínua durante esse ínterim. Quando os novos eritróci- *N.R.T.: VGA (volume de glóblulos aglomerados) só leva em conta a quantida- de de hematias, sendo dado em porcentagem. A capa leucocitária varia de acordo tos aparecem na circulação, a necessidade tissular de oxigênio com as alterações no número de glóbulos brancos e normalmente é excluída da começa a ser encontrada, e a EPO não é mais secretada. leitura do VGA (hematócrito).IFC-BCAR Composição e Funções do Sangue 33 do para os fetos felinos, sem a vantagem de afinidade aumenta- Resíduo imidazólico da pelo oxigênio, devido à natureza da formação placentária e NH do arranjo contracorrente dos fluxos sangüíneos. Os ruminan- tes possuem hemoglobinas fetais estruturalmente distintas que Resíduo de cisteinil possuem afinidades mais elevadas pelo oxigênio do que as hemoglobinas dos adultos, permitindo, dessa forma, afinidades mais elevadas da hemoglobina pelo oxigênio do que as da mãe. Os cães, eqüinos e suínos não possuem hemoglobinas estrutu- Cadeia de polipeptídeo N ralmente distintas, porém, ao contrário, as hematias fetais nes- 2 Resíduo ses animais apresentam concentrações muito mais baixas de de cisteinil 2,3-bifosfoglicerato (BPG) (o BPG reduz a afinidade da he- C moglobina pelo oxigênio) do que as hematias dos adultos, cri- ando, dessa forma, afinidades mais elevadas pelo oxigênio nas células do sangue fetal. As hematias dos cães, eqüinos e suínos adultos normalmente contêm concentrações elevadas de BPG, NH e as dos felinos e ruminantes domésticos possuem baixas con- centrações. A capacidade de o BPG reduzir a afinidade pelo oxigênio nos ruminantes é conseguida primariamente reduzin- do o pH intracelular (nem as hemoglobinas dos ruminantes fetais Fig. 3.4 Representação esquemática de um grupo heme e sua cadeia polipeptídica associada. nem as dos adultos ligam-se ao BPG em qualquer extensão). Quatro dessas combinações, em diferentes orientações em relação às outras, compreendem Como foi demonstrado pela curva de dissociação oxigênio- a hemoglobina. heme é mantido em sua cadeia polipeptídica específica (uma das quatro hemoglobina (Fig. 3.5), a curva para a hemoglobina fetal é mais na proteína globina) por pontes de cistina (um aminoácido) e pela ligação do ferro aos grupos imidazólicos da histidina (um aminoácido). oxigênio molecular liga-se ao ferro acentuada do que a da hemoglobina do adulto. Em determinada ferroso (Fe²⁺). tensão de oxigênio, a hemoglobina fetal capta mais oxigênio do que a hemoglobina do adulto. Além disso, a curva mais íngreme indica que maior quantidade de oxigênio é liberada da hemoglo- bina para cada incremento da redução da tensão do oxigênio, o A hemoglobina, o pigmento dos eritrócitos, é uma proteína que permite maior liberação para os tecidos, enquanto ainda re- conjugada complexa contendo ferro, composta de pigmento e tém gradiente adequado de difusão do sangue para os tecidos. proteína simples. A proteína é uma globina, a histona. A cor ver- oxigênio passa da mãe para o feto por difusão, e a tensão do melha da hemoglobina é devida ao heme, composto metálico que oxigênio no sangue da veia umbilical (sangue retornando ao feto) contém um átomo de ferro A hemoglobina possui quatro é a mesma que a do sangue arterial no lado materno da placenta. cadeias polipeptídicas alfa, beta, gama e delta. Cada uma das Nos pulmões sem ar dos fetos, os vasos sangüíneos são ultra- quatro une-se com um grupo heme, resultando na molécula de hemoglobina (Fig. 3.4). A biossíntese da hemoglobina inicia-se no rubrícito (eritroblasto policromatófilo) e continua nos estágios subseqüentes do desen- 100 volvimento celular. A formação da hemoglobina pode continuar C por quanto tempo o material nuclear estiver presente na célula, 80 se as células estiverem presentes na medula óssea ou no sangue A circulante. Os reticulócitos contendo RNA e uma porção do nú- cleo possuem a capacidade de sintetizar a hemoglobina. pécies são relatados como variando de 66.000 a 69.000. Com base no teor de ferro da hemoglobina como sendo de 0,334% e o % de saturação da Hb com 60 Os pesos moleculares da hemoglobina da maior parte das es- 40 peso atômico do ferro como sendo 55,84, o valor de 16.718 é derivado do peso molecular mínimo de um heme e um 20 polipeptídeo. Como a hemoglobina compreende quatro dessas unidades, o peso molecular (16.718 X 4 66.872) encontra-se dentro da variação ora fornecida. As diferenças nas moléculas de hemoglobina entre as espécies provavelmente sejam responsá- 20 40 60 80 100 120 veis pelas ligeiras diferenças em seus pesos moleculares. Pressão de (mm Hg) Transporte de oxigênio adulto-fetal Fig. 3.5 Curvas de dissociação oxigênio-hemoglobina da hemoglobina do adulto (A), da Exceto para o felino doméstico, a afinidade da hemoglobina hemoglobina fetal (B) e da mioglobina (C). As curvas mais acentuadas da hemoglobina fetal e da mioglobina fornecem maior quantidade de oxigênio a ser liberado para cada incremento pelo oxigênio no sangue fetal é mais elevada do que a do san- da diminuição da tensão de oxigênio, permitindo dessa forma maior liberação aos tecidos, gue materno (adulto). oxigênio é adequadamente transporta- enquanto ainda retém pressão suficiente para difusão do sangue para tecidos.34 Composição e Funções do Sangue passados, em sua maior parte, e o sangue retorna ao átrio es- próprio sangue. A concentração de ferro do plasma normalmente querdo do coração. Assim, alta porcentagem do sangue é desvi- é de 100 a 300 e nos animais deficientes em ferro pode ada para o lado arterial pelos vasos que normalmente se tornam chegar apenas a 40a 50 organismo conserva cuidadosa- fechados ao nascimento ou logo após. mente o ferro resultante da destruição da hemoglobina, perden- Nos bezerros, a hemoglobina fetal representa entre 41 e do-se somente pequena quantidade diariamente. Por isso, o fer- 100% da hemoglobina total ao nascimento. Ela diminui rapida- ro dietético necessário à formação da hemoglobina é pequeno. mente após o nascimento e geralmente é substituída pelo tipo Quando saturado de oxigênio, 1 g de hemoglobina transporta adulto mais comum aos dois a três meses de idade. cerca de 1,34 mL de oxigênio. Como resultado, 15 g de hemoglo- A hemoglobina está presente no sangue de todos os mamífe- bina em 100 mL de sangue podem transportar aproximadamente ros e de outros animais. Além das variações nas hemoglobinas 20 mL de oxigênio (ver o Cap. 7 para mais detalhes). A hemoglo- entre os indivíduos (tipos adulto e fetal), existem variações entre bina oxigenada, as suas soluções aquosas e o sangue arterial são as espécies. As diferenças são na parte globina da molécula de vermelho-vivos, e a hemoglobina desoxigenada, as suas soluções hemoglobina, pois o heme não varia na composição tanto nos aquosas e o sangue venoso são animais vertebrados como no reino vegetal. Mioglobina Quantidade A mioglobina, ou a hemoglobina muscular, é uma hemoglobina O teor de hemoglobina no sangue é expresso em gramas por verdadeira, composta de heme e apenas uma cadeia polipeptídica. decilitro de sangue. A quantidade pode variar dentro de certos heme é idêntico à hemoglobina no sangue. As globinas das limites normais. As variações da concentração de hemoglobina diferentes espécies, como as das hemoglobinas sangüíneas, dife- entre os animais domésticos são demonstradas no Quadro 3.5. É rem ligeiramente por causa das variações no teor de aminoácidos. comum obter valores maiores do que 15 g/dL em alguns animais. A hemoglobina muscular contém apenas um grupo heme, e por A excitação pode aumentar a concentração de hemoglobina por isso apenas um átomo de ferro por molécula. O teor de ferro é de causa do VGA aumentado e número de eritrócitos por unidade 0,32%. Seu peso molecular é aproximadamente de 16.700. A de volume. Essas modificações são devidas à liberação de cate- curva de dissociação oxigênio-hemoglobina é hiperbólica (muito colaminas (adrenalina e noradrenalina), provocando a contração escarpada), como está demonstrado na Fig. 3.5, e a curva da do baço que mobiliza os eritrócitos no sistema circulatório. hemoglobina sangüínea é em forma de S. A concentração de hemoglobina no sangue aviário é mais di- A mioglobina lembra a hemoglobina do sangue em função. fícil de determinar por causa dos eritrócitos nucleados. Vários Funciona como breve estoque de oxigênio dentro da fibra mus- fatores de correção foram utilizados no passado, para ajustar-se cular desde uma contração para a outra. A mioglobina possui aos eritrócitos nucleados, o que provocava leituras altas falsas, maior afinidade pelo oxigênio do que a hemoglobina do sangue. quando eram usados os métodos convencionais. Foi aconselha- Entretanto, compatível com a sua curva mais pronunciada de do um método para determinar a hemoglobina no sangue dos dissociação do oxigênio, o oxigênio é liberado rapidamente, quan- frangos, e a concentração normal de hemoglobina no sangue des- do a Po, se mostra suficientemente reduzida durante a contração ses animais varia de 6,5 a 9 g/dL. muscular. A mioglobina fica preenchida com oxigênio durante o Nas condições que baixam a pressão parcial de oxigênio (Po₂) estado de repouso. no sangue (p. ex., pressão barométrica reduzida na altitude ele- vada), verifica-se aumento no número de eritrócitos e na produ- Carboxiemoglobina ção de hemoglobina, para auxiliar na compensação da deficiên- A hemoglobina tem o poder de combinar-se não apenas com cia de oxigênio nos tecidos. Em altitudes elevadas de 4.200 a o oxigênio mas também com determinados outros gases (p. ex., 4.800 m, a contagem de hematias pode aumentar (policitemia) o monóxido de carbono). composto resultante é a carboxie- até 40 a 50%. moglobina ou Quando o monóxido de carbono está presente no ar inspirado, entra no sangue e combi- Oxiemoglobina na-se com a hemoglobina, promovendo a exclusão do oxigênio, A hemoglobina possui importantes relações fisiológicas com já que a afinidade da hemoglobina pelo monóxido de carbono é o oxigênio. Durante a passagem das células vermelhas pelos ca- mais de 200 vezes maior do que para o oxigênio. monóxido de pilares pulmonares, a hemoglobina é oxigenada, e, à medida carbono liga-se ao ferro do heme na mesma localização do oxi- que atravessa os capilares sistêmicos, o oxigênio difunde-se pe- gênio. monóxido de carbono evita que a hemoglobina se ligue los tecidos. Sob condições apropriadas, essas reações ocorrem ao transportador do oxigênio; por isso, ele interfere no forneci- imediatamente. A hemoglobina atua como o pigmento respirató- mento do oxigênio para os tecidos. A respiração de ar contendo rio do sangue. As hematias, os transportadores da hemoglobina, 0,1% do monóxido de carbono provoca efeitos graves em 30 a despendem apenas 1 S atravessando um capilar. A relação entre a 60 min: nessas condições, cerca de 20% da hemoglobina são hemoglobina e o oxigênio pode ser expressa, do seu modo mais convertidos em carboxiemoglobina (HbCO). O monóxido de simples, da seguinte forma: Hb + A hemoglobina carbono, combinado com a hemoglobina, será substituído pelo deve a sua capacidade combinante com oxigênio ao seu teor oxigênio, se a pressão parcial deste último for suficientemente de ferro. A quantidade de ferro no sangue é pequena, sendo cer- grande. A substituição acompanha a lei de ação das massas. A ca de 0,334% da molécula de hemoglobina ou 0,04 a 0,05% do reação HbCO + O2 HbO, + CO.Composição e Funções do Sangue 35 A carboxiemoglobina é de coloração cereja-brilhante. As LEUCÓCITOS amostras de sangue e tecidos de um animal intoxicado pelo 1. Qual a localização predominante da função leucocitária? monóxido de carbono podem levar alguém a pensar enganosa- 2. Qual a diferença entre leucocitose e leucopenia? mente que o animal teve fornecimento abundante de oxigênio. 3. Quais dos leucócitos pertencem às séries respectivas de granulócitos e agranulócitos? Metemoglobina 4. Diferenciar entre neutrófilos segmentados e bastonetes. A metemoglobina, um derivado da hemoglobina, é formada pela 5. Qual a função da substância granulada específica lactoferrina? oxidação do ferro ferroso da hemoglobina ao estado férrico. Por 6. Qual a função dos pirogênios produzidos pelos neutrófilos? 7. Qual a função dos eosinófilos associados às reações isso, a metemoglobina é o verdadeiro óxido da hemoglobina, e a alérgicas? oxiemoglobina, um derivado oxigenado. A metemoglobina é um 8. Como os basófilos iniciam e promovem modificações composto não-tóxico mas, por causa da oxidação do ferro (Fe³⁺), inflamatórias nas áreas de inflamação? não pode combinar-se com o oxigênio. Dessa forma, é inútil como 9. Qual a função dos quatro linfócitos T e dos linfócitos B? pigmento respiratório no sangue. A metemoglobina é formada em 10. Em que aspecto são os linfócitos singularmente diferentes dos pequenas quantidades no sangue circulante, porém os sistemas ou granulócitos e dos monócitos? compostos redutores nos eritrócitos (ácido ascórbico, glutationa) 11. Qual a função dos interferons produzidos pelos linfócitos? evitam o seu acúmulo. Sob algumas condições, entretanto, como 12. Como os monócitos realizam a sua função? após a administração de determinados fármacos (nitritos, 13. Conhecer a base racional para distinguir entre valores absolutos e relativos, quando tiver de interpretar as contagens aminofenóis, acetanilida, sulfonamidas etc.), pode ocorrer em quan- leucocitárias diferenciais. tidades maiores na corrente sangüínea. A metemoglobina produz 14. Nomear alguns fatores que podem influenciar a coerência o sangue corado mais escuro (castanho-chocolate) e pode deixar o associada às contagens leucocitárias totais. animal cianótico. A metemoglobina irá se formar espontaneamen- 15. Ficar familiarizado com o tempo de vida dos leucócitos em te no sangue ou em soluções de hemoglobina mantidas in vitro. A relação uns com os outros. desoxigenação parcial das amostras favorece a sua formação. Muitas substâncias químicas, incluindo determinados agentes Os leucócitos, ou glóbulos brancos, são muito menos nume- oxidantes, promovem a conversão da hemoglobina em metemo- rosos que os eritrócitos no sangue circulante. Os eritrócitos fun- globina in vitro. cionam na corrente sangüínea, e os leucócitos exercem as suas Em condições de campo, o veterinário freqüentemente é cha- funções predominantemente nos tecidos. Existem aproximada- mado para tratar animais intoxicados com nitratos e cloratos. mente 1.300 eritrócitos para cada leucócito na corrente sangüínea Esses compostos fazem a metemoglobina se formar (ver adian- dos caprinos; 1.200 para um nos ovinos; 1.000 para um nos te). Os cloratos às vezes estão presentes nos herbicidas que po- eqüinos; 800 para um nos bovinos; 700 para um nos humanos; dem ser ingeridos pelos rebanhos. Os fertilizantes podem conter 600 para um nos caninos e felinos; 400 para um nos suínos; e 100 porcentagem elevada de nitratos. A folhagem das plantas cresci- para um nos frangos. Na anemia, o número de eritrócitos pode das em solos altamente fertilizados pode conter níveis elevados ficar consideravelmente reduzido. Nas infecções bacterianas, os de nitratos e intoxicar os rebanhos. Os nitratos ingeridos pelos leucócitos, especialmente os neutrófilos, podem se mostrar ruminantes são convertidos em nitritos no rúmen (mais adiante, grandemente aumentados (leucocitose). Nas doenças virais, o nú- no trato digestivo dos suínos), formando a metemoglobina; a mero de leucócitos, especialmente de neutrófilos, pode ficar redu- metemoglobina não transporta o oxigênio para os tecidos. A re- zido (leucopenia). A leucopenia também é encontrada nas dução da metemoglobina à hemoglobina geralmente é conseguida endotoxinas bacterianas, na septicemia e na toxemia. Nos tumores pela infusão intravenosa de azul de metileno, um agente redutor. (neoplasias) envolvendo o sistema linfóide, o número de linfócitos Os bovinos às vezes podem ingerir grãos de sorgo crescidos na corrente sangüínea pode apresentar aumento pronunciado, com durante períodos de seca ou após uma geada. Nessas circunstân- modificações das relações normais entre eritrócitos e leucócitos. cias, o ácido hidrociânico (ácido prússico) está geralmente pre- Os leucócitos podem ser encontrados no sangue circulante sente nas plantas. Os bovinos que ingerem essas plantas quase aderidos ao (marginação) ou passando lentamente ao longo do sempre ficam intoxicados pelo cianeto. Ocorre asfixia porque a revestimento endotelial dos capilares e dos pequenos vasos. Os utilização do oxigênio em nível tissular fica muito prejudicada. últimos compreendem um reservatório marginal de leucócitos e Para apressar a detoxificação, os veterinários administram vári- podem representar 50% ou mais dos leucócitos. As contagens os compostos por via intravenosa, para formar a metemoglobina, totais de leucócitos fornecidas no Quadro 3.6 geralmente não a qual se une ao cianeto, a fim de formar a cianoemoglobina. incluem as células marginais. A adrenalina (liberada em resposta Este composto é, em seguida, degradado e detoxificado do or- à excitação) mobiliza células do reservatório marginal para a cir- ganismo. Por exemplo, o tiossulfato de sódio une- culação, o que é responsável pelo aumento na contagem total de se ao cianeto, para formar tiocianato (SCN), o qual não pos- leucócitos após a adrenalina ser administrada ou quando o ani- sui ação do cianeto e é praticamente atóxico. nitrito de sódio mal está excitado. exercício age como força contrária à e outros compostos podem ser administrados para formar marginação e distribui os leucócitos no sangue circulante. No metemoglobina no animal intoxicado. Uma solução de azul animal saudável, os leucócitos ficam constantemente passando de metileno é, então, infundida, visando auxiliar na redução do reservatório marginal para os tecidos, visando remover subs- da metemoglobina à hemoglobina. tâncias antigênicas, potencialmente nocivas para o animal.36 Composição e Funções do Sangue Quadro 3.6. Número total de leucócitos por microlitro de sangue e porcentagem de cada leucócito Contagem leucocitária Porcentagem de cada leucócito Espécies total (variação) Neutrófilo Linfócito Monócito Eosinófilo Basófilo Suína: 1 dia 10.000-12.000 70 20 5-6 2-5Composição e Funções do Sangue 37 Fig. 3.7 Esfregaços sangüíneos monstrando os eritrócitos, leucócitos e plaquetas. (Esquerda superior) Cinco plaquetas e um bastonete (neutrófilo imaturo) de um cão. (Direita superior) Dois linfócitos grandes e dois neutrófilos de um cão. (Esquerda inferior) Um eosinófilo e cinco plaquetas de um eqüino. (Direita inferior) Um basófilo de cão. 2.300x. (Fornecido pelo Dr. Harpal S. Bal, do Department of Veterinary Anatomy, College of Veterinary Medicine, lowa State University, Ames, lowa, EUA.) A mobilização dos neutrófilos ocorre da seguinte forma: então, invagina-se para dentro do citoplasma dos neutrófilos e tor- na-se uma vesícula fagocítica flutuando livremente. As membra- 1. Os produtos degenerados do tecido inflamado ou células nas dos lisossomas e outros grânulos do citoplasma fundem-se com bacterianas podem ser quimiotáticos (quimicamente atrativos) a vesícula e desgranulam, por meio do que enzimas digestivas e e difundem-se pelos espaços intersticiais para os capilares e agentes bactericidas são liberados na vesícula e começa a digestão vênulas. da partícula fagocitada. Um neutrófilo pode fagocitar até 20 bac- 2. As substâncias quimiotáticas aumentam a permeabilidade des- térias, antes que se torne inativado e morra. acúmulo de ses vasos e fornecem a aderência dos neutrófilos ao endotélio neutrófilos mortos e outros produtos de degradação tissular pode (marginação). dar origem a exsudatos purulentos semifluidos, amarelados, cre- 3. Os neutrófilos escorregam pelas aberturas capilares mosos conhecidos como pus. Quando o pus fica encapsulado, é (diapedese). conhecido como abscesso. 4. Os neutrófilos prosseguem para o ponto inflamatório por mo- No início da inflamação, os neutrófilos produzem pirogênios, vimento amebóide. que fazem o centro regulador da temperatura no cérebro elevar a temperatura do organismo (febre). aumento na temperatura Quando os neutrófilos chegam ao ponto inflamado, começa estimula a resposta inflamatória e a função do sistema imune, a fagocitose. bem como retarda a reprodução das bactérias e dos vírus. A fagocitose pelos neutrófilos caracteriza-se pela ligação dos No sangue aviário, a célula comparável ao neutrófilo é o neutrófilos à partícula (p. ex., bactéria), para ser fagocitada. Cria- heterófilo. Ele contém grandes grânulos, em forma de bastão se uma câmara fechada que contém a partícula fagocitada, a qual, ou de fuso, que se coram em vermelho a róseo brilhante com a38 Composição e Funções do Sangue eosina. Esses grânulos apresentam reação ácida, ao contrário dos Agranulócitos grânulos de coloração neutra do neutrófilo. Linfócitos Os linfócitos são relativamente numerosos no sangue da maior Eosinófilos parte das espécies de animais domésticos; mostram-se mais nu- São células grandes contendo inúmeros grânulos citoplasmá- merosos nos bovinos, ovinos, caprinos, suínos (com seis semanas ticos grandes que se coram com os corantes ácidos, aparecendo ou mais de idade) e frangos (Quadro 3.6). São formados no tecido em pequenos números no sangue circulante (Quadro 3.6). Seus linfóide (p. ex., linfonodos, placas de Peyer, baço, tonsilas e timo), núcleos são menos lobulados do que os dos neutrófilos. Os representando o constituinte principal desse tecido. material eosinófilos originam-se na medula óssea, são móveis e ligeira- cromatínico do núcleo de um linfócito é denso e cora-se mais escu- mente fagocíticos, podendo aumentar grandemente nas condi- ro do que o dos monócitos. Esse material parece estar em blocos ções alérgicas, no choque anafilático e em determinadas ou agregados, e tal aparência auxilia na identificação dos linfócitos parasitoses, particularmente quando se encontram presentes lar- (Figs. 3.6 e 3.7). núcleo é grande e redondo, e a célula madura vas migrantes. As formas parasitárias ficam opsonizadas possui pouco citoplasma. Os linfócitos desempenham papel muito (recobertas com anticorpos), e os eosinófilos liberam o seu con- importante na imunidade. Funcionalmente, há dois tipos: linfócitos teúdo granular sobre a superfície do parasita opsonizado, infli- T (Fig. 3.8). O aspecto microscópico das células T é idên- gindo-lhe dano letal. Os eosinófilos participam das proteínas tico. Os linfócitos se perdem em grandes números por migração detoxificantes e são atraídos aos locais de reações antígeno- para as mucosas intestinal, uterina e respiratória. São ativamente anticorpo, onde podem fagocitar complexos antígeno-anticorpo. móveis e apresentam atividade amebóide, não sendo, porém, Antígeno é qualquer substância que, como resultado de entrar fagocíticos. em contato com células apropriadas, induz a estado de sensibili- Os linfócitos relacionam-se com a imunidade humoral, por dade ou responsividade imune após um período latente (dias a isso que os anticorpos são produzidos em resposta ao estímulo semanas) e reage com anticorpos ou com células imunes no indi- pelos antígenos. Os linfócitos T relacionam-se com a imunidade víduo sensibilizado. Os anticorpos (moléculas de globulina) mediada por células, razão pela qual os linfócitos T são ativados inativam a substância antigênica. Podem produzir inativação por em resposta à estimulação antigênica. Os receptores para os causarem aglutinação, precipitação, neutralização (os anticorpos antígenos estão na superfície dos linfócitos T e B. À medida que recobrem pontos tóxicos) ou lise (ruptura da célula). Os núme- se unem os antígenos e as células B, ocorre expansão clonal, ros de eosinófilos aumentam nas condições alérgicas, porque eles processo pelo qual os linfócitos Te proliferam-se em resposta ajudam na extinção ou no término das reações inflamatórias de a antígenos específicos. Uma conseqüência desse processo é a origem alérgica. Os grânulos eosinofílicos contêm várias enzimas produção de anticorpos específicos, produzidos por células capazes de degradar mediadores químicos das reações inflama- especializadas, conhecidas como plasmócitos. Os anticorpos pro- tórias agudas (p. ex., histaminase). A eosinopenia acompanha duzidos fornecem a imunidade humoral das células B. A expan- condições de estresse nas quais a resposta hipotalâmico- são clonal após o contato do antígeno com os linfócitos T e B é adenipofisário-adrenocortical ocorre, ou quando o hormônio o meio pelo qual os animais constroem imunidade a várias doen- adrenocorticotrópico (ACTH) exógeno é administrado. ACTH ças. Após cada exposição ao mesmo antígeno, clones prévios estimula a produção do cortisol do córtex adrenal, o que causa são reativados, para produzir mais anticorpos. Assim, produz-se eosinopenia. cortisol reduz a contagem eosinofílica, por au- maior imunidade. As respostas pelo organismo podem variar de mentar a diapedese eosinofílica e diminuir a liberação dos acordo com cada antígeno, sendo alguns mais antigênicos (capa- eosinófilos da medula óssea. A eosinopenia é tão consistente que zes de maior estimulação) do que outros. Os antígenos também é utilizada como meio de testar a potência dos hormônios sensibilizam os linfócitos T a produzirem imunidade mediada por adrenocorticais e do ACTH. A adrenalina também produz células. À medida que as células T contactam os antígenos, as eosinopenia, provocando a liberação do ACTH. células se dividem e formam clones, como as células o fazem. Há quatro tipos de linfócito T: as células T citotóxicas, as células Basófilos T auxiliares, as células T supressoras e as células T de memória. Os basófilos ocorrem no sangue normal em números muito As células T citotóxicas também são chamadas de células "des- baixos (Quadro 3.6) e possuem grânulos citoplasmáticos hidros- truidoras" (killer cells), porque matam os invasores estranhos solúveis que se coram com os corantes alcalinos. poder localizados dentro de outras células pela produção de peróxido fagocitário é ligeiro ou ausente. Originam-se na medula óssea e de hidrogênio, como os macrófagos o fazem, e pela liberação estão estreitamente relacionados aos mastócitos tissulares, en- das suas enzimas lisossômicas (peroxidases, fosfatases e contrados ao redor dos capilares. Os basófilos histologicamente oxigenases). peróxido de hidrogênio é letal para os microrga- lembram os mastócitos. Nas áreas de inflamação, ambas as célu- nismos. As células T citotóxicas também atacam as células de las produzem heparina, histamina, bradicinina, serotonina e órgãos transplantados ou outras células estranhas ao organismo. enzimas lisossômicas. Os basófilos e mastócitos possuem re- Elas eliminam células portando antígenos que invadem o orga- ceptores para a imunoglobulina E (IgE), produzida nas reações nismo. As células cancerosas são derivadas dos tecidos do pró- alérgicas. Por isso, nas reações de hipersensibilidade os com- prio organismo, começando a gerar antígenos diferentes, quan- postos liberados ajudam a iniciar e promover as alterações do se tornam cancerosas. sistema imune do organismo iden- inflamatórias, para combater agente etiológico invasor. tifica quando uma célula se modifica de sua célula própria nor-Composição e Funções do Sangue 39 mal para neoplásica (cancerosa) estranha ao organismo. Em se- número de linfocinas importantes, como as interleucinas (p. ex., guida, as células T citotóxicas atacam as células cancerosas com interleucina 2) e os interferons. Sem as linfocinas das células T o seu mecanismo de defesa. auxiliares, o sistema imune perde a sua capacidade de proteger o Os linfócitos T desempenham um papel na resposta humoral organismo contra as doenças infecciosas. de anticorpos bem como na imunidade mediada por células. Ape- Na Fig. 3.8, um diagrama de fluxo mostra a origem, desen- sar de as células poderem produzir anticorpos na ausência das volvimento e as funções dos linfócitos, bem como os seus tem- células T, geralmente há cooperação com elas. As células T auxi- pos de vida. Os linfócitos T e possuem a sua origem em uma liares estão envolvidas na identificação de antígenos e estimulação célula-tronco comum na medula óssea. Para os mamíferos, logo dos linfócitos B, para produzirem anticorpos. As células T auxi- antes do ou após o nascimento, o ponto de processamento e liares não são capazes de secretar anticorpos por si próprias. As diferenciação inicial das células-tronco para os linfócitos Té o correspondentes das células T auxiliares são as células T timo; para os linfócitos B, os pontos são o fígado, o baço e a supressoras, denominadas células T supressoras, porque supri- medula óssea fetais. A bolsa de Fabricius nas aves realiza função mem tanto as respostas imunes humoral quanto celular. Regulam semelhante à da medula óssea nos mamíferos para o a atividade das células T auxiliares e a produção de anticorpos processamento e diferenciação dos linfócitos B. pelas células As células T e de memória são de vida longa e A origem dos linfócitos B é principalmente nos folículos permitem às células Te responderem ao mesmo antígeno, quan- linfocíticos ao redor dos centros germinativos dos linfonodos, do expostas em ocasião posterior. do baço, da medula óssea e de outros locais onde são formados. As citocinas referem-se a qualquer número das diversas pro- Representam cerca de 15% dos linfócitos circulantes nos va- teínas de baixo peso molecular, hormonóides, secretadas pe- sangüíneos. Ao contrário, os linfócitos T residem nas áreas los vários tipos celulares que regulam intensidade e duração da interfoliculares desses órgãos, representando cerca de 85% dos resposta imune, bem como medeiam a comunicação de uma linfócitos circulantes na corrente sangüínea. À medida que os célula a outra. As citocinas obtidas dos linfócitos são conheci- linfócitos são produzidos, passam para a corrente sangüínea por das como linfocinas. As células T auxiliares secretam certo meio dos linfáticos, permanecendo no sangue por algumas ho- ras, passando para dentro dos tecidos por diapedese, e retornando à corrente sangüínea pelos linfáticos e recirculando. A esse res- peito, os linfócitos são únicos porque os granulócitos e monócitos não recirculam dos tecidos. Esteróides adrenocorticais (glicocorticóides) sob a influência Saco vitelino do ACTH provocam aumento na concentração de anticorpos no (células mesenquimais do mesoderma esplâncnico) sangue por dissolução dos linfócitos no tecido linfóide. Os corticosteróides também causam o seqüestro de linfócitos nos Célula-tronco (medula óssea) tecidos linfóides. Assim, resulta linfopenia a partir da administra- ção exógena de ACTH ou cortisol, ou pela produção endógena de esteróide que ocorre após estresse prolongado. Processamento precoce e diferenciador Os interferons são um grupo de proteínas com propriedades da célula-tronco antivirais produzidas pelos linfócitos e outros tipos celulares. À imediatamente antes ou depois do nascimento do animal medida que as células do organismo são infectadas com um ví- Bolsa de Fabrício (aves) Timo rus, produzem interferons, os quais podem evitar a replicação do Fígado, baço, medula óssea, vírus. A replicação do RNA e DNA virais fica inibida, tornando, fetais etc. (mamíferos) assim, o vírus menos eficaz na extensão e severidade da doença. Linfócitos Linfócitos T À medida que o vírus elicia uma resposta linfocítica, o interferon é produzido e circulado por todo o organismo, protegendo ou- Semeadura dos linfonodos e de outros tecidos linfóides tras células corpóreas do vírus. O interferon α e o ß são glicoproteínas de peso molecular 20.000 a 160.000 produzidas pelas células B após infecções Linfócitos Linfócitos T virais. As células T, após estímulo antigênico, também produ- (diferenciar em plasmócitos) Tempo de vida, 1 a 3 anos zem um tipo de interferon, conhecido como interferon δ. A Tempo de vida, 3 a 4 dias Os linfócitos sensibilizados Antígeno ligado a células produzem imunidade celular principal função dos interferons δ é ativar os macrófagos, au- Produzem γ-globulinas (anticorpos), Mediados por produtos dos mentando, assim, a resposta celular imune. Os interferons pos- principal defesa contra as infecções linfócitos T (linfocinas) bacterianas (imunidade humoral) Eficazes contra as reações suindo atividade antiviral também podem inibir o crescimento Clonagem das células induzidas alérgicas, tecido estranho tumoral, porque fazem algumas células tumorais aumentar a sua por antígenos (transplantes), células tumorais, alguns vírus, fungos, bacilos da expressão de molécula, e, por isso, os antígenos celulares são tuberculose identificados como estranhos pelas células imunes. Uma célu- Clonagem das células induzidas por antígenos la tumoral pode não ser identificada como estranha pelo siste- ma imune, porque pode não expressar quaisquer antígenos que Fig. 3.8 Origem, desenvolvimento e funções dos linfócitos T e B. difiram das células normais do hospedeiro.40 Composição e Funções do Sangue Monócitos parecer presentes linfocitose e neutropenia. Os bovinos intoxica- São derivados de uma célula progenitora comum localizada dos com compostos que provocam depressão da medula óssea po- na medula óssea e pertencem ao sistema fagocítico mononuclear dem apresentar 96 a 98% de linfócitos na contagem diferencial. (SFM). SFM era antigamente conhecido como sistema Pode-se concluir que o animal possui linfocitose acentuada e reticuloendotelial. Os monócitos ocorrem no sangue normal ape- neutropenia marcante. A última está correta, mas a contagem nas em extensão limitada. São relativamente grandes, com nú- linfocitária pode ser normal (5.000 a 6.000/uL no sangue bovi- cleo único e citoplasma fracamente granular razoavelmente abun- no). Também os bovinos com reticulite traumática podem apre- dante (ver a Fig. 3.6). Mostram-se móveis e fagocíticos. Os sentar 70% de neutrófilos (maduros e imaturos) e 20% de linfócitos. monócitos possuem sistemas enzimáticos projetados para degra- A partir desses dados, pode-se concluir erroneamente que se en- dar restos teciduais engolfados a partir de reações inflamatórias contram presentes neutrofilia e linfopenia. Realmente, a contagem crônicas. leucocitária total pode ser de 25.000; por isso, a contagem Quando os monócitos deixam o sangue e são atraídos para os linfocitária mostra-se normal, porém há sete vezes mais neutrófilos tecidos pelas quimiocinas e linfocinas, tornam-se macrófagos. no sangue circulante do que o normal, e as porcentagens se apre- As linfocinas são produtos da ativação linfocitária. Quando os sentariam três vezes acima do normal. linfócitos T são estimulados por antígenos, sofrem alterações me- A expressão desvio para a esquerda é utilizada para descre- tabólicas e tornam-se ativados, para produzir muitos fatores com ver o aumento no número de neutrófilos imaturos (bastonetes) várias atividades biológicas. Algumas linfocinas inibem a mi- no sangue circulante, estado característico das infecções gração dos macrófagos; outras são quimiotáticas e, por isso, mo- bacterianas ou inflamação. O organismo responde mobilizando bilizam e ativam os macrófagos. Os macrófagos são pinocitóti- mais neutrófilos, mesmo antes que se encontrem completamente cos (ou pinocíticos) e fagocíticos; matam os micróbios ingeridos maduros para combater a infecção. A expressão desvio para a por seu pH ácido, por proteínas bacteriostáticas e por enzimas direita pode denotar mais maturidade das células, com número degradativas. Os fagócitos mononucleares, como os monócitos, maior de neutrófilos apresentando hipersegmentação ou lobulação produzem peróxido de hidrogênio, tal como o fazem as células do núcleo. Relata-se que a hipersegmentação do núcleo dos T citotóxicas, em quantidade até maior do que os neutrófilos. neutrófilos pode ser anomalia hereditária com falha da divisão Os macrófagos também matam as células tumorais de forma citoplásmica após a divisão nuclear. extracelular por proteases. Os macrófagos podem aumentar seu diâmetro em duas a três vezes, o que lhe confere volume celu- Contagens leucocitárias totais lar muito maior para ingerir bactérias, vírus, restos celulares e Vários fatores, como a hora do dia, uma refeição, exercício, até hematias. adrenalina (endógena ou exógena), anestesia e outras condi- ções estressantes, podem contribuir para a leucocitose fisioló- Contagens leucocitárias diferenciais gica. Por exemplo, ocorre neutrofilia após exercício. Como re- Realizadas classificando no mínimo 100 leucócitos, de acor- gra, a adrenalina provoca aumento nos neutrófilos no sangue do com o seu tipo, de um único esfregaço sangüíneo corado. circulante e, em algumas espécies, nos linfócitos. Com alguns São conhecidos os valores normais para cada espécie de animal anestésicos, os animais podem sofrer um período de excitação (Quadro 3.6). Realizam-se contagens diferenciais para determi- que causa a liberação da adrenalina, que contribui para a leuco- nar se existe alguma anormalidade dos leucócitos sugestiva de citose. Ocorre leucocitose digestiva em alguns animais; entre- doença. Os valores para cada tipo de leucócito devem ser ex- tanto, para aqueles com pastejo mais contínuo e hábitos de ali- pressos como o número por microlitro de sangue (valores abso- mentação extensiva, provavelmente seja de menor importância. lutos) no momento em que as contagens leucocitárias diferenci- Os desvios da água e das secreções corpóreas no trato digestivo ais são feitas. Deve-se preferir dar resultados absolutos em lugar durante e após as refeições podem fornecer uma explicação par- das porcentagens (valores relativos). A porcentagem é necessá- cial para este fenômeno. ria para que a contagem leucocitária total possa fornecer o nú- No período pós-natal, ocorrem mudanças acentuadas no nú- mero de cada tipo de célula por microlitro de sangue. Com base mero de leucócitos circulantes. Algumas espécies de animais no Quadro 3.6, pode-se obter o número real de cada tipo de podem nascer com o número aumentado, mas freqüentemente as leucócito por microlitro de sangue, multiplicando a contagem contagens são comparáveis com as dos adultos ou até menores. total pela porcentagem de cada célula. Se isto não for realizado, No bezerro recém-nascido, o número é semelhante ao encontra- poder-se-á ser levado a engano pelos valores relativos e chegar a do no adulto. No suíno recém-nascido (Quadro 3.6), a quantida- sérios erros nas conclusões. de por microlitro de sangue é aproximadamente metade daquela Por exemplo, os animais que recebem terapêutica com os do suíno adulto. antimetabólitos (análogos purínicos e pirimidínicos) como tera- Como foi apresentado antes, uma leucocitose apresentando pia do câncer ou cloranfenicol, um antibiótico, podem apresen- principalmente neutrofilia significa infecção bacteriana, porém tar depressão grave da medula óssea. Em tais casos, estão pre- existem muitas outras causas. Nas doenças virais, a neutropenia sentes muito poucos granulócitos no sangue circulante e exis- pode ser evidente. A linfocitose pode estar presente nas neoplasias te redução acentuada no número de hematias (anemia). Se al- do tecido linfóide e há muitas outras causas de linfocitose. É guém confiar nas porcentagens para a contagem leucocitária muito importante conhecer qual leucócito está aumentado ou diferencial nos animais com depressão da medula óssea, poderão reduzido, antes que o diagnóstico de uma doença seja feito.Composição e Funções do Sangue 41 Tempo de vida tagens plaquetárias venosas e arteriais no mesmo indivíduo tam- tempo de vida dos leucócitos não é medido tão facilmen- bém variam. Além disso, foram encontradas variações dentro dos te como o dos eritrócitos. sangue circulante transporta os sistemas arterial e venoso, dependendo do vaso sangüíneo do qual leucócitos para os locais de ação, onde funcionam com capaci- a amostra foi colhida. dade extravascular. Muitos mamíferos domésticos apresentam contagens plaquetá- tempo médio de vida dos granulócitos, incluindo o tempo rias ao redor de 450.000 ± de sangue. A contagem de desenvolvimento na medula óssea, é aproximadamente de nove nos frangos varia de 25.000 a Os eqüinos de tração dias. Quando os granulócitos entram na corrente sangüínea, en- geralmente possuem ao redor de 300.000 e os contram-se com cerca de seis dias de idade. Permanecem apenas eqüinos de corrida apresentam aproximadamente metade deste algumas horas (seis a 20) no sangue circulante. Estão constante- número. As plaquetas nos suínos geralmente chegam a 350.000 ± mente deixando a corrente sangüínea por diapedese para os teci- dos nos locais da inflamação, onde podem viver durante dois a Parece haver variação entre animais jovens e adultos em al- três dias. Também deixam a corrente sangüínea por meio dos gumas espécies. Os cordeiros e bezerros possuem mais plaquetas tratos gastrointestinal, urinário e reprodutivo, bem como por do que os ovinos e bovinos adultos. cão jovem possui menos outras áreas. À medida que revestem as membranas desses ór- plaquetas do que os adultos. As crianças possuem menos gãos, auxiliam na prevenção da entrada de organismos no corpo. plaquetas do que os humanos adultos. Geralmente aos três número de granulócitos no sangue circulante pode diminuir meses, a criança possui número de plaquetas mais compatível por causa da queda de produção ou da sua passagem aumentada com o dos adultos. para os tecidos por diapedese. Os processos inflamatórios apres- tempo de sobrevivência das plaquetas é relativamente cur- sam a passagem de tais células para o local da infecção. Redução to. Sobrevivem de oito a 11 dias no sangue circulante. A meia- na proliferação mielóide da medula óssea ou liberação prejudica- vida das plaquetas é de dois a três dias. principal papel das da dos granulócitos da medula podem provocar redução nos plaquetas é auxiliar na prevenção da hemorragia, quando os va- granulócitos circulantes. sos sangüíneos são lesados (ver o Cap. 4). A primeira resposta Os monócitos entram na circulação a partir da medula óssea, das plaquetas à lesão aos vasos sangüíneos é a aderência permanecendo no sangue circulante apenas por 24 h ou menos. plaquetária. A plaqueta perde a sua forma discóide e forma pro- Nessa ocasião, entram nos tecidos, onde se tornam macrófagos jeções viscosas para aderência contínua ao vaso lesado e captura tissulares móveis ou fixos (p. ex., os macrófagos alveolares nos de outras plaquetas. Segue-se a ativação das plaquetas, e, por pulmões e as células de Küpffer do fígado). Como macrófagos isso, o conteúdo granular plaquetário é eliminado da plaqueta tissulares, podem viver por muitos meses. para o seu exterior. Os grânulos contêm muitos dos fatores de tempo de vida dos linfócitos é variável, dependendo da clas- coagulação, outras proteínas, cálcio, serotonina, difosfato de sificação. Geralmente, as células T são de vida longa (100 a 200 adenosina (ADP) e ATP, todos ajudando ou potencializando o dias), as células de vida curta (dois a quatro dias), e as células processo da coagulação. T e de memória de vida muito longa (anos). BAÇO PLAQUETAS 1. Como a função esplênica se relaciona à hematopoiese? 1. Qual a célula genitora das plaquetas? 2. De que modo a função esplênica se relaciona à resistência dos 2. Como as contagens de plaquetas comparam-se às dos organismos patogênicos? eritrócitos e leucócitos? 3. Qual a principal função das plaquetas? baço é o maior órgão linfóide no organismo animal. Mais complexo do que qualquer outro tecido linfóide, é histologica- As plaquetas (trombócitos) são pequenos corpúsculos arre- mente comparado com um grande nodo hemolinfático, como en- dondados ou em forma de bastão, incolores, no sangue circulante contrado nos ruminantes. Encontra-se abundantemente suprido de dos mamíferos. Medem cerca de 3 de diâmetro, porém em sangue. A polpa esplênica consiste primariamente em células alguns casos são consideravelmente maiores. Nos frangos e em linfóides, mas as células do SFM revestem os seios venosos. outras espécies inferiores aos mamíferos, são nucleadas, geral- Granulócitos e eritrócitos também se encontram presentes. No mente ovais. No frango, variam de 3 a 5 µm de largura e 7 a 10 período pós-natal, o baço geralmente produz linfócitos e monócitos, de comprimento, apresentando núcleo redondo no centro. porém pode produzir eritrócitos, granulócitos e megacariócitos. As plaquetas são formadas no fígado, baço e medula óssea fetais. As funções mais comuns do baço são as seguintes: Nos mamíferos adultos, a principal fonte é a medula óssea, onde as plaquetas se originam do megacariócito (ver o Quadro 3.2). 1. No feto, o baço é responsável pela formação de hematias e no pulmão também foi citado como fonte de plaquetas. Nas aves, os adulto também forma linfócitos, monócitos bem como possi- megacariócitos não estão presentes, mas sabe-se que os seus velmente outras células durante os períodos de demanda au- trombócitos se originam na medula óssea a partir das grandes mentada. A atividade fetal da eritropoiese pode ser reassumida células mononucleares. sob determinadas condições patológicas e é conhecida como As plaquetas são extremamente numerosas no sangue hematopoiese extramedular. baço pode produzir EPO em circulante, com considerável variação entre as espécies. As con- algumas espécies.42 Composição e Funções do Sangue 2. baço constitui importante reservatório de sangue, sendo re- Isto é observado comumente quando o sangue contendo quisitado quando o organismo possui maior necessidade de anticoagulante é deixado sedimentar por um certo período de oxigênio nos tecidos, o que pode ocorrer durante o exercício, tempo. Outros fatores, como a formação de rouleaux dos após hemorragia, na intoxicação por monóxido de carbono, eritrócitos, também influenciam o afundamento dos eritrócitos. durante a administração de determinados anestésicos e nos estados emocionais. Quando um animal está excitado, há li- TAXA DE SEDIMENTAÇÃO ERITROCITÁRIA beração de catecolaminas, como a adrenalina e a noradrenalina, o que resulta na contração esplênica. Nessas condições, veri- 1. Que fator contribui para a rápida sedimentação do sangue do ficam-se valores aumentados nas contagens eritrocitárias, VGA eqüino? e hemoglobina devido à liberação de sangue estocado no baço, 2. Que condições geralmente estão associadas a aumento na após contração. Os valores sangüíneos das contagens de velocidade de sedimentação eritrocitária? hematias, hemoglobina e VGA, obtidos após a liberação de catecolaminas, podem ser semelhantes aos verificados duran- A velocidade de sedimentação eritrocitária (VSE) é um teste te a hemoconcentração. Nas aves, o baço é muito pequeno realizado no sangue para auxiliar na determinação do estado de para funcionar como reservatório sangüíneo. saúde de um animal. A VSE geralmente é determinada em tubos 3. baço é responsável pela destruição dos eritrócitos; remove padronizados, colocados em posição vertical. É medida como a as hematias mais velhas e anormais do sangue circulante. As distância em milímetros pela qual as camadas superiores dos inúmeras células do SFM que revestem os seios venosos e as eritrócitos passam em determinado período de tempo. Um da polpa vermelha são ativas neste processo. anticoagulante, como a heparina ou o EDTA, é utilizado para 4. baço auxilia o organismo a resistir aos agentes patogênicos, manter constante o volume celular. porque os seus linfócitos T e funcionam nos processos A VSE varia grandemente entre as diferentes espécies de ani- imunitário, humoral bem como no mediado por células, e mais (Quadro 3.7). Também aumenta com determinadas doen- porque as suas células do SFM engolfam bactérias, vírus e ças. As alterações microcirculatórias que ocorrem na doença partículas estranhas circulantes no sangue. freqüentemente se manifestam por "sangue barrento" (estase 5. baço é de importância na formação do pigmento biliar, na parcial ou completa do sangue nos capilares). Não se sabe es- estocagem do ferro e possivelmente em outras fases do meta- pecificamente se o sangue barrento e aumento na VSE estão bolismo. relacionados, mas o aumento na VSE freqüentemente é encon- trado quando alterações microcirculatórias, como o sangue Os nodos hemáticos (hemolinfáticos), encontrados apenas nos barrento, estão presentes em animais doentes. ruminantes, são semelhantes em estrutura, e provavelmente em É difícil explicar a notável variação da VSE entre algumas função, ao baço. A eritropoiese geralmente ocorre nesses nodos, espécies de animais. Os eritrócitos no sangue do eqüino afun- durante o período fetal; a granulopoiese é mais prevalente no dam rapidamente, e aqueles dos ruminantes afundam muito len- período pós-natal. tamente. Freqüentemente, a VSE rápida pode ser observada nos suínos recém-nascidos; embora não esteja presente ao nasci- mento, geralmente irá desenvolver-se rapidamente, se os suí- DENSIDADE DO SANGUE 1. Por que os elementos celulares do sangue tendem a afundar no sangue colhido, quando foi evitada a coagulação? Conforme aplicada ao sangue, densidade é a relação entre o Quadro 3.7. Velocidades de sedimentação eritrocitária (tubos verticais) peso de um volume de sangue e o peso do mesmo volume de Espécie mm Tempo VGA água. É simplesmente um número e não possui dimensões. As densidades (com variações) do sangue total das várias Felina 53 1h 27 15,4 (7-27) 1h espécies de animais domésticos são as seguintes: 1,053 37,3 (34,5-41,0) 22,7 (0,5-51) 1h 38,7 (30-48,5) (1,046 a 1,059); bovino, 1,052 (1,046 a 1,061); ovino, 1,051 Bovina 2,4 7h (1,041 a 1,061); caprino, 1,042 (1,036 a 1,051); suíno, 1,045 (1,035 Frango 0,5 (0,1) 30 min 30,6 (29,8-31,6) a 1,055); canino, 1,045 a 1,052; e felino, 1,050 (1,045 a 1,057). A 1,5 (1-3) 1h densidade dos corpúsculos, especialmente dos eritrócitos, é maior 6,7 (3-10) do que a do plasma. Nos bovinos e ovinos, os eritrócitos possuem 14,4 (10-18) 6h Canina 1-5 30 min densidade de 1,084 (1,079 a 1,090), e o soro, densidade de 1,027 6-10 1h (1,021 a 1,029). A concentração de proteína plasmática é grande- Eqüina 2-12 10 min mente responsável pela densidade do plasma ou do soro. Suína 0,6 30 min Por causa das densidades mais elevadas dos elementos celula- 1-14 60 min res, os corpúsculos de uma amostra sangüínea na qual a coagula- Dados de Coffin 1953, Manual of Veterinary Clinical Pathology, 3d ed., Cornell University ção foi evitada tendem a afundar. As hematias caem para o fun- Press, Ithaca, NY, EUA; Didisheim et al. 1959, J. Lab. Clin. Med. 53:866-75; Ferguson do, os leucócitos ocupam uma zona intermediária fina, e o plas- 1937, J. Am. Vet. Med. Assoc. 91:163-75; Schalm et al. 1975, Veterinary Hematology, ma fica no alto. 3d ed., Lea & Febiger, Philadelphia; Swenson 1951, Am. J. Vet. Res. 27:1041-43.Composição e Funções do Sangue 43 nos não receberem ferro adequado. A rápida VSE desenvolve-se Geralmente, a velocidade fica aumentada nas infecções gerais simultaneamente com a anemia; entretanto, uma injeção agudas, na presença de tumores malignos, nas condições infla- intramuscular de ferro (ferro-dextrano) geralmente corrige a VSE matórias, no hipotireoidismo e, ainda, na prenhez. rápida, antes que a anemia seja corrigida. As alterações na viscosidade do plasma, as densidades dos COMPOSIÇÃO DO PLASMA SANGÜÍNEO corpúsculos ou do plasma, ou o tamanho dos eritrócitos pratica- mente nada têm a ver com a velocidade de sedimentação. úni- 1. Onde são produzidas as e como são comumente co fator de importância é o grau de aglutinação dos eritrócitos (o denominadas? tamanho das partículas sedimentantes ou formação de rouleaux), 2. Qual das imunoglobulinas é a mais abundante? sendo certo que as proteínas plasmáticas influenciam acentuada- 3. Qual das imunoglobulinas é encontrada no colostro? mente este fator. De acordo com alguns, é o aumento no teor de 4. Onde se forma a maioria das proteínas plasmáticas? 5. Como o tempo de protrombina estendido se relaciona à fibrinogênio do plasma que apressa a aglutinação e o afunda- coagulação do sangue? mento, e, segundo outros, é o aumento na globulina. 6. que significa as proteínas plasmáticas, os aminoácidos e as Os eritrócitos do eqüino sedimentam-se rapidamente mesmo proteínas tissulares estarem em equilíbrio? no plasma bovino e ovino, e os eritrócitos dos bovinos e ovinos 7. Como as proteínas plasmáticas se relacionam com a sedimentam-se lentamente no plasma eqüino. Esses achados in- prevenção do acúmulo de fluido no espaço intersticial? dicam que o plasma não é o único fator determinando a VSE 8. De que modo as proteínas plasmáticas se relacionam com a rápida dos eqüinos. função de transporte? As alterações na VSE são reações inespecíficas e não indicam necessariamente uma condição patológica. A VSE não é patog- plasma, que forma 55 a 70% do sangue, pode ser obtido nomônica para o diagnóstico de doença específica; meramente do sangue em que se evitou a coagulação. Análises físicas e auxilia a avaliação do estado de saúde do animal. Às vezes, a rápi- químicas revelam que a composição do plasma sangüíneo, do da VSE pode estar presente e ainda somos incapazes de fazer soro e do sangue total é extremamente complexa, o que é es- diagnóstico ou observar os sintomas de uma doença. A VSE rápi- perado, porque o sangue possui muitas funções. Quadro 3.8 da pode ocorrer com valores normais de hemoglobina e VGA. fornece dados dos animais domésticos que o estudante pode Quadro 3.8. Variações de alguns constituintes bioquímicos de animais domésticos adultos Unidade Constituintes de medida Fonte Eqüino Bovino Ovino Caprino Suíno Canino Felino Frango Glicose mg/dL 60-110 40-80 40-80 40-75 80-120 70-120 70-120 130-270 80-120 80-120 80-120 (bezerro) (cordeiro) (cabrito) Nitrogênio não-protéico mg/dL P,S,ST 20-40 20-40 20-38 30-44 20-45 17-38 20-35 Nitrogênio da uréia (BUN) mg/dL P,S,ST 10-24 10-30 8-20 10-28 8-24 10-30 10-30 0,4-1,0 Ácido úrico mg/dL ST 0,5-1 0,1-2 0,1-2 0,3-1 0,1-2 0,1-1,5 0,2-2,5 1-2 1-7 (galinha poedeira) Creatinina mg/dL P,S,ST 1-2 1-2 1-2 1-2 1-2,5 1-2 0,8-2 1-2 Nitrogênio do aminoácido mg/dL ST 5-7 4-8 5-8 6-8 7-8 4-10 Ácido láctico mg/dL ST 10-16 5-20 9-12 8-20 47-56 20-98 (galinha poedeira) Colesterol mg/dL P,S,ST 75-150 80-180 60-150 80-160 60-200 120-250 80-180 125-200 Bilirrubina Direta mg/dL 0-0,4 0-0,3 0-0,3 0-0,3 0,06-0,1 0,05-0,1 Indireta mg/dL 0,2-5 0,1-0,5 0-0,1 0-0,3 0,01-0,5 0,15-0,3 Total mg/dL 0,2-6 0,2-1,5 0,1-0,4 0-0,6 0,1-0,6 0,2-0,6 Sódio mEq/L P,S 132-152 132-152 139-182 142-155 135-150 141-155 142-158 151-161 Potássio mEq/L 2,5-5,0 3,9-5,8 3,9-5,4 3,5-6,7 4,4-6,7 3,7-5,8 3,4-5,4 4,6-4,7 Cálcio mEq/L P,S 4,5-6,5 4,5-6,0 4,5-6,0 4,5-6,0 4,5-6,5 4,5-6,0 4,5-6,0 4,5-6,0 8,5-19,5 (galinha poedeira) Fósforo mEq/L P,S 2-6 2-7 2-7 2-6 3-6 2-6 4-7 3-6 Magnésio mEq/L P,S 1,5-2,5 1,5-2,5 1,8-2,3 2-3 2-3 1,5-2,0 1,6-2,5 Cloro mEq/L P,S 99-109 97-111 95-105 99-110 94-106 100-115 117-123 119-130 P, plasma; S, soro; ST, sangue total. Dados compilados das edições anteriores de Dukes' Physiology of Domestic Animals; Clinical Pathology Laboratory, College of Veterinary Medicine, lowa State University, Ames, lowa, EUA; Department of Clinical Pathology, School of Veterinary Medicine, University of California, Davis, California, EUA; Schalm, Jain, and Carroll 1975, Veterinary Hematology, 3d ed., Lea & Febiger, Philadelphia, EUA; e de dados não-publicados de Swenson.44 Composição e Funções do Sangue utilizar, enquanto estuda cada elemento ou composto fisiológico. Quadro 3.9. Proteínas do plasma sangüíneo (g/dL) Estão presentes diferenças entre as espécies. Também, a idade e Animal Albumina Globulina Fibrinogênio Total atividade do animal são fatores importantes que podem alterar es- ses valores sangüíneos. Eqüino 2,8-3,8 2,8-3,8 0,2-0,4 6,0-8,0 Bovino 3,0-3,8 3,6-4,4 0,2-0,5 7,0-8,5 Proteínas plasmáticas Ovino 3,5-4,5 2,5-3,5 0,2-0,4 6,0-8,0 As três classes principais de proteínas plasmáticas foram Caprino 3,7-4,5 2,4-3,2 0,2-0,5 6,5-7,5 identificadas como albumina; globulinas e e o fi- Suíno 3,2-4,0 3,4-4,0 0,2-0,4 6,5-8,5 brinogênio. As produzidas pelos linfócitos e Canino 3,4-4,4 2,2-3,2 0,1-0,4 6,0-7,8 plasmócitos contêm anticorpos comumente denominados Felino 3,0-3,8 2,5-3,5 0,1-0,4 6,0-7,5 imunoglobulinas (Ig). Os cinco principais isótopos de Frango 1,6-2,0 2,3-3,3 4,0-5,2 imunoglobulinas são classificados como IgM, IgG, IgA, IgD e IgE. Humano 4,0-5,8 1,5-3,3 0,20-0,39 6,2-7,9 A IgG é a imunoglobulina mais abundante dos animais normais. Dados de Altman e Dittmer 1961, Blood and Other Body Fluids, Fed. Am. Soc. Exp. Biol., Encontra-se presente no sangue e tecidos. Também atravessa a Washington, D.C.; Department of Clinical Pathology, School of Veterinary Medicine, barreira placentária em algumas espécies, como os roedores e University of California, Davis, California, EUA; Clinical Pathology Laboratory, College primatas. Os níveis de IgE podem estar elevados nos animais of Veterinary Medicine, lowa State University, Ames, lowa, EUA; e Sturkie 1976, Avian com diversas condições alérgicas ou parasitismo. Ela provoca a Physiology, 3d ed., Springer-Verlag, New York, EUA. liberação de histamina dos basófilos e mastócitos. A IgA é a glicoproteína encontrada nas secreções, como a saliva, as lágri- mas e o colostro. Está presente no plasma sangüíneo e não atra- vessa a barreira placentária, porém se reúne no colostro, junta- no cálcio sérico. As frangas fora de postura possuem 4,5 a 6 mEq mente com a IgG, para utilização nos animais recém-nascidos. É de cálcio por litro de soro (9 a 12 mg/dL), e a galinha poedeira, eficaz contra os microrganismos presentes na boca e trato 8,5 a 19,5 mEq/L. aumento é atribuído a aumento nos estrogênios gastrointestinal. A IgM é o anticorpo de ocorrência natural con- dos folículos do ovário ativo. tra as hematias em determinados tipos de sangue incompatíveis, o que ocorre porque o sangue deve ser tipificado ou submetido a Origem reação cruzada, para assegurar que as hematias não irão se A albumina, o fibrinogênio, algumas das globulinas e a pro- aglutinar no sangue transfundido do doador para o receptor. A trombina plasmáticos são formados no fígado. equilíbrio das IgM é o primeiro anticorpo produzido pelas células ativadas, globulinas, incluindo as deve-se aos linfonodos e sendo especialmente eficaz na ativação do sistema do comple- nos tecidos mucosos. mento, um conjunto de proteínas plasmáticas que atuam em con- A síntese das proteínas plasmáticas fica acentuadamente re- junto, para atacar as formas extracelulares de patógenos. duzida na presença de lesão hepática grave ou de deficiência patógeno fica recoberto com proteínas do complemento que faci- protéica dietética prolongada, o que pode reduzir o fibrinogênio litam a remoção dos patógenos pelos fagócitos e podem matar plasmático, resultando em tempo de protrombina aumentado e diretamente determinados patógenos. A IgD está relacionada de tempo de coagulação sangüínea prolongado (ver o Cap. 4 e adi- alguma forma com a identificação dos linfócitos a alguns ante). Neste sentido, o tempo de protrombina pode ser utilizado antígenos e a indução dessas células para proliferar e formar como teste da função hepática. O tempo de protrombina plasmá- clones. tica normal da maior parte dos animais domésticos, determinado Nos seres humanos, ovinos, caprinos e caninos, a albumina é pelo método de um estágio de Quick, varia entre 9 e 12 s; para os predominante sobre as globulinas; nos eqüinos, suínos, bovinos bovinos, ovinos e frangos, varia entre 20 e 25 S. tempo de e felinos, as proporções relativas de albumina e globulinas são protrombina dos filhotes de cães, recém-nascidos, é mais pro- aproximadamente iguais (Quadro 3.9). longado durante as primeiras 48 h de vida; o dos cordeiros re- Na maior parte dos animais recém-nascidos (exceto nos cém-nascidos, durante as primeiras 72 h; e os dos bezerros, du- roedores e primatas), a γ-globulina plasmática inexiste ou está rante a primeira semana. São encontrados valores baixos de presente em quantidades mínimas, já que a placenta é imper- fibrinogênio nessa ocasião. Os valores do adulto são atingidos meável a essas moléculas protéicas. O feto não é capaz de após um dia nos cães e três dias no cordeiro. sintetizá-las. Para equilibrar tal deficiência, grandes quantida- tempo que o sangue demora para coagular varia entre as e des de Y-globulinas ficam concentradas no colostro da mãe. dentro das espécies. método do tubo capilar necessita de me- Quando o recém-nascido ingere o colostro, a atra- nos sangue e é utilizado mais freqüentemente. Os tempos de vessa facilmente a barreira intestinal e fornece imunidade pas- coagulação do sangue normal da maior parte dos animais, con- siva na forma de anticorpos. forme a determinação pelo método do tubo capilar, situam-se soro das galinhas poedeiras contém 5,40 0,71 g de pro- entre 1 e 5 min; entretanto, nos bovinos e eqüinos, os tempos teína por decilitro. soro de frangos e galinhas fora de postura de coagulação podem ser de 10 a 12 min. Maior quantidade de contém ligeiramente menos (3,6 g/dL), e o dos pintinhos, ain- sangue é usada (1 a 5 mL) com o método de Lee e White; por da menos. Simultaneamente com o aumento nas proteínas plas- isso, os tempos de coagulação ficam 2 a 5 min mais longos do máticas da galinha poedeira, encontra-se o aumento acentuado que com método do tubo capilar.Composição e Funções do Sangue 45 cia e menor peso molecular. A pressão osmótica que cada fra- ção protéica oferece está relacionada inversamente ao peso Células tissulares Células hepáticas molecular e diretamente relacionada à sua concentração em ter- Proteínas Aminoácidos Proteínas mos do número de partículas no plasma. Os pesos moleculares Aminoácidos do fibrinogênio, da albumina e das globulinas são aproximada- mente de 300.000, 70.000 e 180.000, respectivamente. Como a concentração do fibrinogênio é baixa, a pressão osmótica exercida por esta proteína o é igualmente. Quando a concentra- Aminoácidos ção de α-globulinas e de albuminas é aproximadamente a mes- Proteínas Capilar ma, a albumina contribui mais para a pressão osmótica do que as globulinas, porque há duas ou três vezes mais moléculas (par- tículas) na albumina do que em igual peso (concentração) de globulina. As outras funções das proteínas plasmáticas são (1) ajudar a Proteínas manter a pressão sangüínea normal, contribuindo para a viscosi- plasmáticas inibidas dade do sangue; (2) influenciar a estabilidade da suspensão dos Fagócitos eritrócitos; (3) ajudar a regular o equilíbrio ácido-básico do san- mononuclear gue; (4) afetar a solubilidade dos carboidratos, lipídeos e outras substâncias mantidas em solução no plasma; e (5) transportar as substâncias ligadas por proteínas plasmáticas, como os nutrien- Fig. 3.9 Equilíbrio reversível entre as proteínas tissulares, as proteínas plasmáticas e os tes (cálcio, fósforo, ferro, cobre, lipídeos, vitaminas lipossolúveis, aminoácidos plasmáticos. aminoácidos), hormônios (tiroxina, esteróides), colesterol, bilirrubina, heme, enzimas e muitas outras. As substâncias estra- nhas, como o corante azul de Evans (T-1824) (utilizado na medi- Funções da do volume plasmático) e vários agentes terapêuticos (sulfo- As proteínas plasmáticas, aminoácidos e proteínas tissulares namidas, estreptomicina, barbitúricos, digitoxina), estão unidas mostram-se em estado de equilíbrio (Fig. 3.9). Quando a con- a proteínas plasmáticas no sangue circulante. centração dos aminoácidos nas células tissulares diminui abaixo daquela do plasma, os aminoácidos entram nas células e são uti- lizados para a síntese das proteínas citoplasmáticas e proteínas REAÇÃO DO SANGUE teciduais (estruturais). As proteínas plasmáticas, formadas prin- 1. Por que o sangue venoso é mais ácido do que o arterial? cipalmente pelas células hepáticas, também podem ser degrada- 2. Como pode o sangue manter o pH constante, quando são das em aminoácidos pelas células do SFM e tornadas disponíveis adicionados ácido ou álcali? para a formação das proteínas celulares, especialmente quando o suprimento de aminoácidos, a partir dos processos digestivos, não A expressão reação do sangue geralmente refere-se ao pH do for adequado. sangue no animal intacto. equilíbrio de todos os cátions con- As proteínas plasmáticas ajudam a manter a pressão osmótica tra todos os ânions reflete-se na concentração do íon hidrogê- coloidal do sangue. A pressão osmótica coloidal plasmática é a nio. logaritmo negativo da concentração do íon hidrogênio é pressão osmótica efetiva do plasma, a qual ocorre por causa da o pH. Para as medidas exatas do pH, o sangue deve ser exami- presença de moléculas protéicas e cátions retidos pela carga di- nado sob condições que evitem a perda dos seus gases, particu- ferencial* negativa da proteína. Também pode ser chamada de larmente do dióxido de carbono. pressão oncótica. Mede cerca de 28 mm Hg. As proteínas são A reação média no estado de saúde tende ligeiramente para a coloidais e não-difusíveis. A pressão osmótica produzida por alcalinidade e é de cerca de 7,4. pH flutua apenas dentro de elas opõe-se à pressão sangüínea hidrostática nos capilares, sen- estreitos limites. Os valores médios do pH sangüíneo e as vari- do responsável pela reabsorção de fluido nos terminais venosos ações para as diversas espécies estão apresentados no Quadro dos capilares, evitando dessa forma o acúmulo de fluido no es- paço intersticial. A capacidade de manutenção da água do san- gue depende da concentração das proteínas plasmáticas. A quan- Quadro 3.10. Valores médios do pH sangüíneo e variações para diversas espécies tidade anormalmente pequena de proteína total no sangue é co- Animal nhecida como hipoproteinemia e, quando grave, pode formar Amostra sangüínea Média do pH sangüíneo (limites) edema. As albuminas são responsáveis por cerca de 80% da Bovino Arterial 7,38 (7,27-7,49) pressão osmótica coloidal do plasma por causa da sua abundân- Ovino Venosa 7,44 (7,32-7,54) Eqüino Arterial 7,38 (7,32-7,44) Canino Arterial 7,36 (7,31-7,42) Felino Arterial 7,35 (7,24-7,40) *N.R.T.: Na realidade, a palavra seria "líquida" (do inglês net), porém, em nosso Frango Venosa 7,54 (7,45-7,63) idioma, pode causar confusão, pois o termo líquido no texto significa "diferen- Humano Arterial 7,39 (7,33-7,45) ça", ou seja, a subtração de um valor de outro, como peso bruto e peso líquido.46 Composição e Funções do Sangue 3.10. sangue arterial é ligeiramente mais alcalino do que o veno- quantidade injetada devido à maior abundância de íons hidrogênio formados pela concentração por mililitro de plasma hidratação do dióxido de carbono no sangue venoso. plasma é mais alcalino do que os corpúsculos. Os limites do pH do sangue volume eritrocitário pode ser determinado de forma seme- compatíveis com a vida são aproximadamente de 7,8. lhante pela injeção do fósforo (³²P), ferro (⁵⁹Fe) ou cromo Grande quantidade de ácido ou de álcali pode ser acrescen- radioativos, os quais se combinam com os eritrócitos, ou pela tada ao sangue, in vitro ou in vivo, sem alteração considerável injeção de eritrócitos previamente marcados com ³²P, ou na reação. Alguns dos ácidos adicionados ao sangue in vivo in vitro ou no animal doador, seguida pela medida da diluição como resultado do metabolismo normal são os ácidos que os eritrócitos marcados sofreram com o tempo. Depois de carbônico, láctico, pirúvico, fosfórico, sulfúrico e úrico. san- obtidos os volumes plasmáticos e dos eritrócitos, o volume gue pode manter reação constante mesmo com esse metabo- sangüíneo pode ser calculado a partir da seguinte fórmula: lismo ácido primariamente por causa dos seus sistemas de tam- 100 pão químicos e secundariamente devido aos seus mecanismos volume plasmático X 100 VGA respiratório e renal na eliminação do dióxido de carbono, amô- nia e íons hidrogênio (ver os Caps. 5 e 9). ou 100 volume de hematias X VOLUME SANGÜÍNEO VGA 1. Quais os métodos utilizados para determinar o volume As variações no volume sangüíneo dos animais domésticos sangüíneo nos animais? estão demonstradas no Quadro 3.11. Pode-se esperar conside- 2. Definir hipervolemia e hipovolemia. rável variação nos valores do volume sangüíneo como resulta- do dos métodos utilizados, variações entre as espécies, varia- volume sangüíneo de um animal é uma consideração im- ções dentro das espécies (p. ex., idade, nutrição, saúde do ani- portante na compreensão e interpretação do VGA, da hemoglo- mal, grau de atividade física, lactação, sexo) e fatores bina, das contagens de hematias, da concentração das proteínas ambientais, como a temperatura e altitude. Maiores volumes plasmáticas e dos outros valores hematológicos, os quais ficam sangüíneos são apresentados pelos eqüinos leves (de sangue alterados, quando volume sangüíneo se modifica; poderão até quente) do que nos eqüinos de tração (de sangue frio). Os ani- ser confundidos, se ocorrerem hemoconcentração ou hemodilui- mais mais excitáveis e ativos geralmente apresentam maiores ção. aumento no volume sangüíneo é denominado hipervole- volumes sangüíneos. mia, e a redução, hipovolemia. estado do volume sangüíneo Os volumes plasmático, eritrocitário e sangüíneo total va- em um animal é especialmente importante quando se está consi- riam grandemente, de acordo com a idade, nos suínos. vo- derando uma transfusão sangüínea, no diagnóstico da anemia ou lume plasmático dos suínos recém-nascidos é de 53 a 55 mL/ na diferenciação dos vários tipos de anemia. As alterações nos kg de peso e aumenta para 81 mL/kg de peso corpóreo após a volumes de hematias e do plasma sangüíneo no sangue circulante amamentação. Verifica-se redução progressiva nesses valo- irão alterar o VGA, quando aumentos ou reduções nas hematias res, à medida que os suínos e outros animais crescem e en- e no plasma não forem proporcionais. gordam. A porcentagem de água corpórea total fica igualmen- É impossível determinar o volume do sangue no organismo te reduzida, à proporção que aumenta a gordura corpórea. meramente sangrando o animal até a morte. Considerável quan- tidade de sangue permanece nos vasos mesmo após o animal morrer de hemorragia. A coagulação e mecanismos vasoconstri- tores retêm grande quantidade de sangue nos vasos. Tentativas de recolher o sangue retido nesses vasos, após o sangramento, Quadro 3.11. Variações do volume sangüíneo entre animais domésticos foram utilizadas no passado, porém o animal deve estar morto. No trabalho analítico, o termo exatidão refere-se à proximidade Animal Volume sangüíneo (mL/kg do peso corpóreo) do valor real, e precisão, à repetibilidade dos valores obtidos de Felino 65-75 amostra específica. Por isso, pode-se ter precisão sem exatidão. Canino 85-90 Os métodos com base nos procedimentos de diluição possuem Bovino 52-60 maior exatidão e precisão, podendo ser repetidos no mesmo Eqüino Tração 60-70 animal consciente. Puro-sangue (de corrida) 100-110 Existem diversos métodos indiretos de estimativa do volu- Ovino 60-65 me sangüíneo no animal vivo. Com estes, pode-se determinar o Caprino 70-72 volume plasmático injetando uma substância estranha no san- Suíno 35-45 gue, como o corante azul de Evans ou iodo radioativo os Frango 65-70 quais se combinam com as proteínas plasmáticas. Em seguida, Dados compilados da edição de Dukes' Physiology of Domestic Animals e de Feldman, calcula-se a diluição que a substância estranha sofreu no plas- Zinkl e Jain 2000, Schalm's Veterinary Hematology, 5th ed., Lippincott Williams & Wilkins, ma por certo período de tempo, utilizando a seguinte fórmula: Baltimore, EUA.Composição e Funções do Sangue 47 AUTO-AVALIAÇÃO A contagem leucocitária total na primeira semana para Elsie (a vaca 1. Ocorreu hemólise intravascular. A hemoglobinemia é aparente. Borden) foi de e a distribição dos neutrófilos e linfócitos, a. Hemoglobinúria nunca estará presente. de 30 e 60%, respectivamente. Na segunda semana, a contagem b. Hemoglobinúria sempre acompanhará. leucocitária de Elsie foi de e a distribuição porcentual, A presença da hemoglobinúria dependerá da quantidade de de 70 para os neutrófilos e 20 para os linfócitos. hemólise. a. Quando a distribuição de neutrófilos e linfócitos estava normal Explicar a sua escolha para a resposta correta. (semana 1, semana 2)? 2. A icterícia é muito visível em um cão. Qual das seguintes alternati- b. Qual o número absoluto de linfócitos e neutrófilos para cada semana? vas indicaria icterícia obstrutiva como parte do problema? Quando ocorreu leucocitose (semana 1, semana 2)? a. Urina amarelo-escura. d. Demonstrou-se neutropenia em uma das semanas? b. Sem urobilinogênio na urina. e. Houve leucocitose neutrofílica (neutrofilia) em uma das se- Episódio recente de doença hemolítica. manas? Explicar a sua escolha para a resposta correta. f. Verificou-se linfopenia demonstrada em uma das semanas? 3. A eritropoiese associada à deficiência de ferro resulta em: g. Houve linfocitose demonstrada em uma das semanas? a. Anemia microcítica hipocrômica. 8. Qual das alternativas seguintes se aproxima mais estreitamente do b. Anemia microcítica hipercrômica. número de eritrócitos nos animais domésticos? Explicar a sua escolha para a resposta correta. a. 7.000.000/animal 4. Qual dos seguintes leucócitos freqüentemente se encontra aumen- b. 7.000.000/mL tado em números na presença de reações inflamatórias locais de origem alérgica ou determinados tipos de parasita? d. 7.000.000/uL a. Neutrófilos 9. Um novilho pardo suíço que pesa 820 kg possui volume sangüíneo b. Eosinófilos de cerca de 8% do seu peso? Qual o volume aproximado em litros? Monócitos 10. sangue arterial modifica-se de vermelho-brilhante para roxo-es- d. Linfócitos curo, quando se torna venoso. Qual das seguintes causas provoca Explicar a sua escolha para a resposta correta. este fenômeno? 5. Dados hematológicos de dois bezerros: a. Perda de oxigênio b. Ganho de dióxido de carbono Bezerro 1 Bezerro 2 Respostas Hematias 6,8 9,0 1. Na hemólise intravascular, a hemoglobina torna-se livre no VGA (%) 23,0 33,0 plama. Se não for excessiva, a hemoglobina livre irá ligar-se à haptoglobina, e a combinação forma um complexo molecular muito Hb (g/dL) 7,0 11,5 grande para ser filtrado no glomérulo. Na hemólise excessiva, existe haptoglobina insuficiente, e a hemoglobina não-combinada co- Qual dos bezerros possui anemia hipocrômica? outro bezerro meça a ser filtrada. Há capacidade limitada para a endocitose da está normal.) hemoglobina pelo epitélio tubular, e a hemoglobina pode continu- a. Bezerro 1 ar pelos túbulos bem como aparecer na urina (hemoglobinúria). b. Bezerro 2 À medida que a água é reabsorvida pelos túbulos, a concentração Explicar a sua escolha para a resposta correta. da hemoglobina pode aumentar até o ponto em que a hemoglobi- 6. Qual das seguintes células pode tornar-se mais prevalente no san- na se precipita, provocando insuficiência renal aguda. gue circulante durante período prolongado de secreção de eritro- 2. b. A bilirrubina é conjugada (torna-se solúvel) no fígado e trans- poietina? portada para o intestino delgado via ducto biliar. No intestino del- a. Plaqueta gado, a ação bacteriana converte a bilirrubina em urobilinogênio e b. Monócito finalmente em estercobilina. Parte do urobilinogênio é reabsorvi- Reticulócito da na circulação portal e não recirculada para o intestino, poden- d. Eosinófilo do ser filtrada no glomérulo e aparecer na urina. A obstrução do Explicar a sua escolha para a resposta correta. ducto biliar evitaria a entrada da bilirrubina conjugada no intesti- 7. As variações das porcentagens de cada leucócito (relativas) e nú- no e seria responsável pela ausência do urobilinogênio na urina. A meros absolutos de cada leucócito para os bovinos, com base na doença hemolítica aumentaria a concentração da bilirrubina livre, contagem leucocitária total que varia de 7.000 a são as e o fluxo biliar não-obstruído permitiria que a sua forma conjugada seguintes: entrasse no intestino delgado com a conversão para urobilinogê- nio. A bilirrubina ou os seus produtos de degradação podem con- ferir cor mais escura à urina do que a normal; também se identifi- cou que outros fatores (p. ex., urina concentrada) contribuem para Relativas Absolutas uma coloração mais escura. 3. a. A deficiência de ferro provoca retardo na síntese da hemoglobina. Neutrófilo 25-30 1.750-3.000 Quando 20% da hemoglobina são formados, a síntese do DNA Linfócito 60-65 4.200-6.500 cessa, e a replicação celular é interrompida. Por causa do retardo Monócito 5 350-500 na síntese da hemoglobina, a síntese do DNA e a divisão mitótica Eosinófilo 2-5 140-500 continuam, resultando em células menores (microcíticas) que con- Basófilo48 Composição e Funções do Sangue 4. b. Os eosinófilos ajudam a apressar a resposta inflamatória associa- f. Não; o valor baixo de 4.800/uL ainda se encontra dentro da da a reações de hipersensibilidade do tipo imediato, liberando variação. histaminase, para inativar a histamina liberada pelos mastócitos. g. Não; o valor elevado de ainda se encontra dentro da Também aderem aos parasitas opsonizados e liberam as suas prote- variação. ases sobre a superfície do parasita, infligindo-lhes dano letal. 8. d 5. a. bezerro 1 possui anemia microcítica hipocrômica de acordo 9. 8% de 820 kg = 65,6 L de sangue. com os seguintes índices eritrocitários: 10. a Bezerro 1 Bezerro 2 VCM (fL) 33,8 36,0 LEITURA SUGERIDA HCM (pg) 10,3 12,8 CHCM (%) 31,4 34,8 Cormack. D.C. 1987. Ham's Histology. 9th ed. J.B. Lippincott. Philadelphia. 6. Os números de reticulócitos freqüentemente se encontram K.W., and E.A. 1994. Veterinary aumentados, quando há necessidade aguda de reposição dos eri- Laboratory Medicine: Clinical Pathology. 3d ed. Iowa State trócitos (p. ex., agressões traumáticas a partir das quais o baço se University Ames. rompe). A secreção contínua de eritropoietina produz contínua li- B.F., Zinkl. J.G., and Jain. N.C. 2000. Schalm's Veteri- beração precoce de reticulócitos no sangue circulante. nary Hematology. 5th ed. Lippincott Williams & Wilkins, Baltimore. 7. a. número absoluto dos neutrófilos e linfócitos é, respectivamente, 2.400 e 4.800/uL para a primeira semana bem como 17.500 e 5.000/uL Harmening. D.M. 1997. Clinical Hematology and Fundamentals of Hemostasis. 3d ed. F.A. Philadelphia. para a segunda semana. Ambos os valores para a primeira semana Jain. N.C. 1993. Essentials of Veterinary Hematology. Lea & estão dentro da variação aceita. Febiger. Philadelphia. b. Linfócitos: semana 1 = semana 2 = Kaneko, J.J., J.W., and M.L. 1997. Clinical semana 1 = semana 2 = Biochemistry of Domestic Animals. 5th ed. Academic Press. Semana 2, quando a contagem de leucócitos foi de New York. d. Não; o valor baixo de ainda está dentro da variação. P.D. 1986. Body fluids: Blood. In P.D. ed., Avian e. Sim; semana 2, porque se encontra além da variação. Physiology. 4th ed. Springer-Verlag. New York.