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CLASSES E MOVIMENTOS SOCIAIS Prezado(a) Aluno(a)! Nesta aula, vamos explorar a relação entre leis, políticas públicas e movimentos sociais. Os movimentos sociais têm sido fundamentais na história para a conquista de direitos e transformações sociais, ao mesmo tempo, em que as leis e as políticas públicas são instrumentos importantes para promover mudanças na sociedade. É importante compreender como esses três elementos se relacionam e como os movimentos sociais podem influenciar a criação de leis e políticas públicas, bem como essas leis e políticas podem impactar a luta dos movimentos sociais. Através desta aula, vamos analisar a importância da participação dos movimentos sociais no processo de criação e implementação de políticas públicas, como ações afirmativas, direitos humanos e políticas de inclusão social. Além disso, vamos explorar o papel das leis na garantia de direitos e na proteção das minorias e como os movimentos sociais podem pressionar para a criação de novas leis que promovam mudanças sociais. Bons estudos! AULA 5 – LEIS, POLÍTICAS PÚBLICAS E MOVIMENTOS SOCIAIS 5 RELAÇÃO ENTRE LEIS, POLÍTICAS PÚBLICAS E MOVIMENTOS SOCIAIS A política pública, por sua vez, é a ação que busca resolver questões sociais por meio de decisões coletivas pautadas pela justiça social, amparada por leis que garantem direitos. Ela abrange todos os atores e grupos sociais envolvidos. O termo "política" refere-se às medidas formuladas e implementadas para atender demandas e necessidades sociais, sendo uma estratégia de ação planejada e avaliada. Nesse processo, tanto o Estado quanto a sociedade civil desempenham papéis específicos, em uma relação de reciprocidade e antagonismo. Assim, a política pública é uma intervenção estatal que conta com a participação de diversos atores sociais, tanto do setor público quanto do privado, visando atender às demandas da sociedade e alcançar os resultados desejados pela ação governamental. Portanto, a política pública não se resume apenas a uma ação intencional da autoridade pública diante de um problema ou necessidade, mas abrange um processo mais amplo. Nessa perspectiva, a função da política pública é garantir a efetivação dos direitos conquistados pela sociedade, incorporando-os nas leis e promovendo a universalização dos bens públicos (PEREIRA, 2008). As políticas públicas são categorizadas por tipo devido à sua complexidade e também para facilitar a análise. É importante destacar que essas categorias podem variar conforme com o contexto histórico e geográfico, sendo formuladas em um ambiente de conflito associado à forma de regulação. Entre as várias categorias, serão apresentados a seguir os quatro principais tipos de políticas públicas (PEREIRA, 2008). Arena regulamentadora: na qual normas e regras são estabelecidas pelo Estado de forma coercitiva. Arena redistributiva: refere-se ao acesso de vantagens a determinados sujeitos em detrimento de outros, estabelecidas pelo poder público, utilizando recursos obtidos em outros grupos específicos. Arena distributiva: quando as necessidades sociais de determinado grupo são atendidas com recursos obtidos por meio da arrecadação de impostos, contribuições sociais e econômicas e taxas (tributos), mantendo um caráter compensatório. Arena constitutiva: em que decorrem ações públicas cuja coerção afeta indiretamente o cidadão, ou seja, define regras e procedimentos sobre a formulação e implementação de políticas públicas nas demais arenas. A interação entre o Estado e a sociedade civil no contexto das políticas públicas é parte de um processo histórico complexo, no qual ambos possuem características e interesses distintos, apesar de sua interdependência e autonomia. Montaño e Duriguetto (2010) destacam que os movimentos sociais são manifestações da organização da classe trabalhadora, das lutas de classes e dos conflitos sociais que ocorrem no Brasil desde o início do século XX. No entanto, foi na década de 1970 que esses movimentos se intensificaram, principalmente em oposição ao regime militar, representando uma resistência social à ditadura e ao autoritarismo estatal. Esse período foi marcado pelo surgimento de diversos movimentos sociais, como os movimentos estudantis, os movimentos operários e os movimentos das comunidades afetadas por esse tipo de governo. Os movimentos sociais que ocorreram nas décadas de 1970 e 1980 tiveram um papel fundamental na conquista de diversos direitos sociais, os quais foram estabelecidos por lei na Constituição Federal de 1988, conforme destacado por Gohn (2011). Esses movimentos desempenharam um papel importante na redemocratização do Brasil, caracterizada pela inclusão de novos atores sociais na esfera política. Durante os anos de 1980 e 1990, surgiram espaços públicos destinados à participação da sociedade civil, como conselhos, fóruns e comitês, que proporcionaram uma maior participação e influência da sociedade nas decisões políticas. Nesse período, os movimentos sociais também passaram por uma transformação em seu perfil de atuação, migrando de uma abordagem focada em manifestações e reivindicações para uma atuação mais propositiva, por meio de Organizações Não Governamentais (ONGs) e outras iniciativas. Segundo com Gohn (2007), os movimentos sociais desempenharam um papel fundamental na construção de espaços de participação e na colaboração com o Estado. Essa atuação mais participativa resultou na criação de canais importantes, como fóruns e conselhos, em níveis municipal, estadual e federal. Além disso, esses movimentos passaram a adotar posturas menos reivindicatórias e mais construtivas, com ênfase na participação cidadã e na dimensão estratégica. Nesse sentido, os novos modelos associativos, orientados pela participação cidadã, focam na prestação de serviços à comunidade e à população, estabelecendo parcerias com o Estado e afastando-se do tradicional campo das reivindicações. Embora enfrentem desafios para se estabelecerem na sociedade civil, devido aos valores políticos tradicionais do Brasil, os movimentos sociais desempenham um papel fundamental ao longo do tempo, trazendo para o espaço público a discussão e a construção coletiva sobre questões que antes eram consideradas assuntos privados e individuais. Isso tem resultado na sua inclusão como objetos de políticas públicas. Para promover uma democracia efetiva em nosso país, é necessário fortalecer as esferas públicas não estatais como espaços de condução de ações coletivas organizadas, nos quais as prioridades para a formulação, implementação, fiscalização e execução de políticas públicas possam ser definidas e efetivadas. Assim, os movimentos sociais, enquanto expressões dos movimentos de luta de classes e lutas sociais, desempenham o papel de atores políticos no processo de formação das políticas sociais. Eles transformam as necessidades individuais em demandas a serem reivindicadas por meio de mobilizações, pressões e lutas sociais, levando essas demandas a uma instância de negociação e consentimento. Embora as condições sejam diversas e escassas, quando possível, essas demandas se tornam políticas públicas, resultando em ações concretas por parte do Estado para atender às necessidades da sociedade (GOHN, 2007). 5.1 Efeitos políticos dos movimentos sociais As pesquisas sobre os efeitos políticos dos movimentos sociais partem do princípio de que esses movimentos são capazes de gerar mudanças políticas e sociais. No entanto, mais recentemente, há um esforço em identificar as condições específicas do contexto político em que esses resultados são alcançados, dada a heterogeneidade das circunstâncias em que os movimentos atuam. O principal desafio dessa agenda de pesquisa é analisar as condiçõesque favorecem os resultados dos movimentos e entender sua importância em comparação com outros atores políticos (AMENTA; CAREN, 2013). Na revisão da literatura especializada, podemos identificar quatro modelos que buscam explicar os efeitos dos movimentos sociais na política e nas políticas públicas. Esses modelos sugerem relações causais que envolvem tanto elementos ligados aos movimentos quanto ao contexto político, embora em diferentes graus. O primeiro modelo destaca os efeitos intencionais dos protestos e ações disruptivas, além do papel das variáveis organizacionais e de ação como fatores determinantes do sucesso dos movimentos (GAMSON, 1990). Ele avalia principalmente os resultados políticos obtidos por meio da organização dos movimentos, investigando se movimentos com uma estrutura organizacional mais formal são mais bem-sucedidos do que aqueles com uma base organizacional menos estruturada. Esse modelo reflete a influência predominante da Teoria da Mobilização de Recursos na época, que enfocava o papel da estrutura de mobilização, como organização, liderança e estratégia. A profissionalização e formalização do movimento têm sido associadas aos seus efeitos, e o campo de estudos avançou ao analisar o impacto do repertório organizacional na mudança institucional, conforme conduzido por Clemens (1993). No entanto, o argumento sobre a eficácia do protesto violento e disruptivo para alcançar mudanças ainda é menos consensual. Gamson (1990) argumenta que o uso de táticas violentas e disruptivas pelos movimentos está positivamente correlacionado a dois efeitos considerados sucessos: a aceitação dos desafiantes como legítimos reivindicadores e a conquista de novas vantagens para o público que representam. No entanto, conforme Giugni (1998), outros estudiosos sugerem que, (i) Não existe relação causal entre a frequência e quantidade da exibição de violência nos protestos e a distribuição de ganhos sociais, e (ii) É necessário que se analisem as circunstâncias sob as quais a violência importa para a mudança política e social. Portanto, segundo Giugni (1998), outros estudiosos propõem que o segundo modelo de explicação introduz o contexto político como um fator necessário para promover ou restringir os resultados dos movimentos sociais. Para Giugni (1998), o foco na estrutura organizacional do movimento como fator explicativo dos resultados deslocou-se para o ambiente político externo, expresso por meio de duas categorias: o papel da opinião pública e a estrutura da oportunidade política. A opinião pública é atualmente vista como uma variável explicativa nos estudos sobre os resultados dos movimentos porque os grupos fazem suas reivindicações não apenas ao público, mas também aos que estão no poder. Nesse sentido, trata-se de obter amplo apoio e aprovação pública para a causa, o que se reflete na opinião pública positiva para o movimento. O ambiente favorável da sociedade influenciará o comportamento dos políticos responsáveis por traduzir demandas e direitos em políticas públicas que definam e/ou garantam direitos sociais. As ligações entre opinião pública, movimento e ação política podem explicar as mudanças na política e na segurança. Dentro da categoria de Estruturas de Possibilidades Políticas, Giugni (1998) destaca dois aspectos relacionados aos movimentos sociais e sua influência: (i) O sistema de alianças e opositores e (ii) As instituições do estado. Segundo Giugni (1998), a efetividade dos movimentos sociais pode ser explicada pela formação de alianças dentro e fora da esfera institucional e pela presença de fracas redes de oposição. Por um lado, as instituições impõem restrições à ação coletiva, moldam sua forma e limitam suas consequências. Por outro lado, os movimentos também oferecem oportunidades para influenciar a política, especialmente se os adversários desempenharem um papel central no sistema e contarem com o apoio de fortes aliados dentro da organização. Nesse modelo, os movimentos sociais interagem com apoiadores e oponentes, mas são as propriedades das instituições e alianças estabelecidas que explicam as consequências da ação coletiva. O impacto do movimento nos resultados políticos alcançados é, portanto, indireto. Em um terceiro modelo de explicação, a estrutura de mobilização de um movimento e sua interação com seu contexto político atuam em conjunto na explicação dos efeitos políticos, quebrando a ordem mediada proposta no modelo anterior (GIUGNI, 2008; GIUGNI; YAMASAKI, 2009). Esse modelo enfatiza que os movimentos só podem se concretizar se a opinião pública e os aliados políticos participarem da mobilização do movimento. Essa mudança de perspectiva tem duas importantes implicações analíticas. Em primeiro lugar, abandona-se a hipótese original de que as condições relacionadas com a eficácia política são as mesmas relacionadas com a mobilização do movimento. Esta proposta estabeleceu um vínculo entre a análise do impacto dos movimentos e as condições que explicam o surgimento das mobilizações, incluindo as estruturas das mobilizações (organizações, quadros, estratégias) e o contexto político (oportunidades políticas favoráveis). Em segundo lugar, combinar condições relacionadas à dinâmica do movimento e interação com o contexto político permite analisar tanto as consequências intencionais quanto as não intencionais. Apesar dos avanços nesse modelo analítico, permanecem desafios para explicar como a estrutura da mobilização interage com as características formais e informais dos métodos políticos que explicam o impacto dos movimentos. O "modelo explicativo acoplado" não dá conta explicitamente das formas de interação entre as condições que influenciam o resultado político de um movimento. Além desse desafio metodológico analítico, o terceiro modelo ainda não aprimorou suficientemente o uso do conceito de oportunidade política, frequentemente criticado por sua imprecisão e ambiguidade (GOODWIN; JASPER, 2004). Um quarto modelo proposto por Amenta et al. (2010) visa estabelecer relações causais entre condições que possam explicar o impacto político dos movimentos sociais. Esse modelo, chamado de “modelo de mediação política”, reconhece que o melhor das capacidades de organização e mobilização do movimento não pode ser eficaz a menos que combinado com oportunidades políticas favoráveis, enfatiza a interação com o contexto político. Em vez de identificar tipos específicos de organização, planos de ação ou situações políticas de curto, ou longo prazo como determinantes da eficácia dos movimentos, a proposta é identificar certas formas de organização e estratégias que seriam mais eficazes em alguns contextos políticos do que em outros (AMENTA et al., 2010). Portanto, não há uma forma organizacional, estratégia ou contexto político específico que sempre produza resultados políticos, mas sim a estrutura de mobilização do movimento produz resultados apenas sob certas condições políticas, ou seja, influenciada por fatores do contexto político. Embora a questão da conexão causal entre as condições e os efeitos políticos ainda não tenha sido resolvida, o quarto modelo avança ao mudar da noção imprecisa de oportunidade política para a categoria de estado. Edwin Amenta, principal defensor do modelo de mediação política, sustenta que o conceito de oportunidades políticas ou contextos políticos é definido de maneira ambígua, sendo analiticamente frágil no estudo dos movimentos sociais, pois não explora adequadamente o conceito de estado, intrinsecamente ligado a outros aspectos do contexto político e a diferentes atores políticos. O autor e seus colaboradores questionam que a literatura sobre movimentos sociais raramente faz referência direta ao estado, enquanto as "oportunidades políticas" são consideradas determinantes-chave para o surgimento e os resultadosdos movimentos. Essa abordagem dificulta a análise dos movimentos sociais, especialmente aqueles engajados em sistemas políticos relativamente democráticos, embora sirva para explicar movimentos revolucionários e revoluções, conforme argumentam os autores. Afirma-se que, apesar da ampla discussão sobre categorias como "sistemas políticos", "autoridades" e "elites", há uma falta de ênfase nas categorias de governo, administrações públicas e partidos políticos nas teorias dos movimentos sociais. Nesse sentido, Amenta e seus colaboradores defendem a importância da categoria de governo na explicação dos resultados políticos dos movimentos e exploram os processos pelos quais os governos influenciam os movimentos sociais e, reciprocamente, como essas coletividades influenciam o governo. Essa abordagem está em linha com a perspectiva neoinstitucionalista, que destaca a interdependência entre o governo e a sociedade civil. São destacadas as dimensões institucionais do governo, como a estrutura de autoridade política, os processos de democratização, os direitos garantidos, as regras e procedimentos eleitorais, as políticas públicas e as administrações públicas, bem como as capacidades repressoras. Esses elementos são vistos como condicionantes dos efeitos políticos dos movimentos sociais, ou seja, eles influenciam o alcance e o impacto das demandas e ações dos movimentos na esfera política. Portanto, compreender as interações entre os movimentos sociais e o governo é fundamental para uma análise mais abrangente dos resultados políticos alcançados (AMENTA et al., 2010; AMENTA et al., 2002). Pesquisadores destacam a importância do conceito de Estado na teoria e pesquisa sobre movimentos sociais. Eles partem do princípio de que tais movimentos buscam exercer influência sobre o Estado, questionando suas políticas, burocracias, regras e instituições, visando alcançar benefícios coletivos para os grupos que representam. Os estudiosos afirmam que: (i) Examinar quais os aspectos do estado considerados relevantes e, então, explicitar conexões entre tais aspectos e os benefícios almejados pelos movimentos sociais; e (ii) Desenvolver estudos cujo arco analítico gravite da noção imprecisa de oportunidade política para os aspectos específicos do estado e das instituições políticas (AMENTA et al., 2010; AMENTA, 2005; AMENTA et al., 2002). Os autores defendem que os movimentos sociais adquirem influência política ao ajustar suas estratégias e formas organizacionais ao contexto político específico, considerando o grau de democratização do Estado, o sistema partidário no poder e o nível de desenvolvimento da burocracia relacionada à política pública em questão. Além de ter reivindicações plausíveis, os desafiantes precisam conquistar o apoio de atores estatais, especialmente quando buscam mudanças de longo prazo que vão além da simples inclusão na agenda política, como a ampliação de direitos e práticas democráticas. Nessa abordagem, a dicotomia entre estratégias disruptivas e assimilativas (institucionalizadas) é descartada em favor de uma visão que enfatiza a assertividade das ações dos movimentos, indo além dos protestos em si. 5.2 Dos modelos às categorias de análise do estado Os dois últimos modelos, em contraposição às duas primeiras explicações, argumentam que é necessário combinar os elementos relacionados aos movimentos sociais com aqueles relacionados ao estado para explicar os efeitos dos movimentos sociais nas políticas públicas. Além disso, esses modelos propõem uma ampliação do conceito de repertório, abrangendo não apenas estratégias disruptivas e protestos. Portanto, se considerarmos que o movimento social é uma forma específica de ação coletiva que pode ocorrer tanto dentro quanto fora das instituições, a observação empírica requer: (i) Abranger um processo de interações socioestatais nas quais a fronteira entre sociedade e estado fica menos nítida; e (ii) O estado deixa de se configurar nas análises apenas como uma oportunidade política e aparece como um conjunto heterogêneo de instituições e burocracias marcado pelo legado institucional e pela agência de seus atores. Essas duas ramificações apresentam desafios analíticos que serão debatidos adiante. A chance política se apresentou como um termo cujo intuito é incorporar a política institucionalizada na análise dos movimentos sociais, sendo empregado como um aspecto elucidativo para o surgimento de mobilizações. Nesse âmbito, um período de manifestações pode ser deflagrado por uma mudança ou uma sequência de mudanças nos seguintes aspectos: i) Grau de abertura ou fechamento do sistema político; ii) Estabilidade ou instabilidade dos alinhamentos das elites no interior do estado; iii) Presença ou ausência de aliados no interior da elite; e iv) Capacidade e propensão do estado para a repressão (MCADAM, 2006, p. 27; TILLY, 2006, p. 44). Contudo, a chance política não se encontra objetivamente; é necessário que os envolvidos, munidos de diferentes recursos, interpretem-na como tal e iniciem sua ação coletiva (MCADAM; TILLY; TARROW, 2001). O conceito de chances políticas tem uma clara capacidade explicativa no início das mobilizações coletivas. Nesta fase inicial, as oportunidades políticas surgem independentemente da ação do movimento e por um tempo limitado, representando uma mudança no contexto político que oferece a possibilidade de emergência da mobilização, que se manifesta por meio de protestos. No entanto, quando a mobilização começa, as características gerais do sistema político não são mais adequadas para descrever e explicar o progresso da ação coletiva. Isso ocorre porque o movimento em si cria novas oportunidades. O que difere a fase inicial do surgimento da fase de desenvolvimento dos movimentos sociais é que, nesta última, as oportunidades e restrições não são mais independentes das ações dos movimentos, mas sim um resultado de sua interação com o ambiente (MCADAM; MCCARTHY; ZALD, 2006). Nesta etapa, o conceito de ocasião política perde sua parte fundamental, sendo a alteração no contexto político em grande escala. O movimento se concentra em uma série de ações voltadas para instituições específicas, podendo influenciá-las, seja criando "oportunidades", provocando reações do Estado ou simplesmente observando as decisões político-administrativas. É dentro deste processo de interações que o conceito de ocasião política se torna inadequado para abranger a totalidade do estado. A abordagem de polis de Cheda Soco, uma das pioneiras do neoinstitucionalismo histórico, oferece valiosas contribuições para a análise das teorias do estado. Ela enfoca o estado como uma instituição e um agente que influencia os processos políticos, juntamente com outros atores econômicos e sociais, em vez de ser apenas um cenário passivo da ação de grupos. Essa perspectiva permite a identificação de diversos fatores que explicam as mudanças nas políticas públicas. É importante ressaltar: (i) A heterogeneidade do estado, (ii) A importância do legado institucional, (iii) O papel das burocracias e dos políticos eleitos, ambos dotados da possibilidade de ação autônoma e, (iv) a relevância do sistema de partidos políticos e das regras eleitorais, como fatores que afetam os processos políticos, a consciência e orientações políticas dos vários grupos sociais (SKOCPOL, 1992). Estes quatro fatores contribuem para uma reconstrução analítica do estado, indo além da oportunidade política, fornecendo informações importantes para o entendimento dos impactos dos movimentos sociais. Ao realizar uma análise inicial, observamos os movimentos que buscam mudanças nas políticas públicas, direcionando suas reivindicações a instituições específicas, como os setores de políticas públicas, poderes legislativo, executivo ou judiciário, partidos políticos,entre outros. Estas instituições operam em um conjunto específico de normas (heterogeneidade do estado), moldadas por uma burocracia e atravessadas por alianças eleitorais. Estes elementos analíticos formam o ponto de partida para investigar os possíveis efeitos dos movimentos sociais nas políticas públicas, representando uma descrição estática do processo (MCADAM; TARROW; TILLY, 2001). É possível afirmar que, assim como os movimentos sociais possuem uma estrutura organizacional e recursos prévios em sua mobilização, as instituições estatais que eles procuram confrontar também possuem arranjos institucionais que refletem interações passadas entre a sociedade e o estado, bem como configurações de agentes políticos e burocracias. Para compreender o subsequente processo de interação entre o movimento e o estado, que se confrontam, e analisar seus resultados, é necessário ter um conhecimento detalhado de ambos. A segunda etapa de análise corresponde a uma descrição dinâmica desse processo, que envolve as interações entre as esferas da sociedade e do estado na produção das políticas públicas (MCADAM; TARROW; TILLY, 2001). Nesta dinâmica, o movimento emprega estratégias para influenciar o processo decisório em prol de suas causas, tendo como alvo o estado. Novamente, a abordagem de polis nos ajuda a identificar dois aspectos do estado. O primeiro aspecto refere-se à autonomia relativa dos políticos e dos gestores públicos, que possuem interesses próprios e uma certa independência em relação aos atores sociais. Do ponto de vista do movimento social envolvido em uma mobilização específica, essa autonomia significa que o estado, como instituição e atores, pode agir independentemente do movimento. No entanto, esse potencial de ação independente é condicionado pela existência de capacidades estatais, sem as quais os atores estatais não se envolveriam na produção de inovações em políticas públicas, como a criação e consolidação de agências estatais e burocracias profissionalizadas (SKOCPOL, 1992). Em contrapartida, o segundo fator diz respeito à capacidade de penetração do estado, ou seja, aos momentos ou circunstâncias em que os agentes sociais conseguem obter um acesso mais prolongado ao estado, ampliando sua habilidade de influenciar o processo decisório. Essas ocasiões são conhecidas como encaixes institucionais, conforme com a abordagem de política (MARQUES, 2006). REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AMENTA, E.; CAREN, N., CHIARELLO, E.; SU, Y. The political consequences of social movements. Annual Review of Sociology, v. 36, p. 287-307, 2010. AMENTA, E.; CAREN, N. Outcomes political. In: David Snow; Donatella Della Porta; Bert Klandermans; Doug McAdam (Org.). 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