Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

CLASSES E MOVIMENTOS 
SOCIAIS 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prezado(a) Aluno(a)! 
 
Nesta aula, vamos explorar a relação entre leis, políticas públicas e 
movimentos sociais. Os movimentos sociais têm sido fundamentais na história 
para a conquista de direitos e transformações sociais, ao mesmo tempo, em que 
as leis e as políticas públicas são instrumentos importantes para promover 
mudanças na sociedade. É importante compreender como esses três elementos 
se relacionam e como os movimentos sociais podem influenciar a criação de leis 
e políticas públicas, bem como essas leis e políticas podem impactar a luta dos 
movimentos sociais. 
Através desta aula, vamos analisar a importância da participação dos 
movimentos sociais no processo de criação e implementação de políticas 
públicas, como ações afirmativas, direitos humanos e políticas de inclusão social. 
Além disso, vamos explorar o papel das leis na garantia de direitos e na proteção 
das minorias e como os movimentos sociais podem pressionar para a criação de 
novas leis que promovam mudanças sociais. 
 
Bons estudos! 
 
AULA 5 – 
LEIS, POLÍTICAS 
PÚBLICAS E 
MOVIMENTOS SOCIAIS 
5 RELAÇÃO ENTRE LEIS, POLÍTICAS PÚBLICAS E MOVIMENTOS SOCIAIS 
A política pública, por sua vez, é a ação que busca resolver questões sociais 
por meio de decisões coletivas pautadas pela justiça social, amparada por leis que 
garantem direitos. Ela abrange todos os atores e grupos sociais envolvidos. O termo 
"política" refere-se às medidas formuladas e implementadas para atender demandas 
e necessidades sociais, sendo uma estratégia de ação planejada e avaliada. Nesse 
processo, tanto o Estado quanto a sociedade civil desempenham papéis específicos, 
em uma relação de reciprocidade e antagonismo. 
Assim, a política pública é uma intervenção estatal que conta com a 
participação de diversos atores sociais, tanto do setor público quanto do privado, 
visando atender às demandas da sociedade e alcançar os resultados desejados pela 
ação governamental. Portanto, a política pública não se resume apenas a uma ação 
intencional da autoridade pública diante de um problema ou necessidade, mas 
abrange um processo mais amplo. Nessa perspectiva, a função da política pública é 
garantir a efetivação dos direitos conquistados pela sociedade, incorporando-os nas 
leis e promovendo a universalização dos bens públicos (PEREIRA, 2008). 
As políticas públicas são categorizadas por tipo devido à sua complexidade e 
também para facilitar a análise. É importante destacar que essas categorias podem 
variar conforme com o contexto histórico e geográfico, sendo formuladas em um 
ambiente de conflito associado à forma de regulação. Entre as várias categorias, serão 
apresentados a seguir os quatro principais tipos de políticas públicas (PEREIRA, 
2008). 
 Arena regulamentadora: na qual normas e regras são estabelecidas pelo 
Estado de forma coercitiva. 
 Arena redistributiva: refere-se ao acesso de vantagens a determinados 
sujeitos em detrimento de outros, estabelecidas pelo poder público, utilizando 
recursos obtidos em outros grupos específicos. 
 Arena distributiva: quando as necessidades sociais de determinado grupo 
são atendidas com recursos obtidos por meio da arrecadação de impostos, 
contribuições sociais e econômicas e taxas (tributos), mantendo um caráter 
compensatório. 
 Arena constitutiva: em que decorrem ações públicas cuja coerção afeta 
indiretamente o cidadão, ou seja, define regras e procedimentos sobre a formulação 
e implementação de políticas públicas nas demais arenas. 
A interação entre o Estado e a sociedade civil no contexto das políticas públicas 
é parte de um processo histórico complexo, no qual ambos possuem características e 
interesses distintos, apesar de sua interdependência e autonomia. Montaño e 
Duriguetto (2010) destacam que os movimentos sociais são manifestações da 
organização da classe trabalhadora, das lutas de classes e dos conflitos sociais que 
ocorrem no Brasil desde o início do século XX. No entanto, foi na década de 1970 que 
esses movimentos se intensificaram, principalmente em oposição ao regime militar, 
representando uma resistência social à ditadura e ao autoritarismo estatal. Esse 
período foi marcado pelo surgimento de diversos movimentos sociais, como os 
movimentos estudantis, os movimentos operários e os movimentos das comunidades 
afetadas por esse tipo de governo. 
Os movimentos sociais que ocorreram nas décadas de 1970 e 1980 tiveram 
um papel fundamental na conquista de diversos direitos sociais, os quais foram 
estabelecidos por lei na Constituição Federal de 1988, conforme destacado por Gohn 
(2011). Esses movimentos desempenharam um papel importante na 
redemocratização do Brasil, caracterizada pela inclusão de novos atores sociais na 
esfera política. Durante os anos de 1980 e 1990, surgiram espaços públicos 
destinados à participação da sociedade civil, como conselhos, fóruns e comitês, que 
proporcionaram uma maior participação e influência da sociedade nas decisões 
políticas. 
Nesse período, os movimentos sociais também passaram por uma 
transformação em seu perfil de atuação, migrando de uma abordagem focada em 
manifestações e reivindicações para uma atuação mais propositiva, por meio de 
Organizações Não Governamentais (ONGs) e outras iniciativas. 
Segundo com Gohn (2007), os movimentos sociais desempenharam um papel 
fundamental na construção de espaços de participação e na colaboração com o 
Estado. Essa atuação mais participativa resultou na criação de canais importantes, 
como fóruns e conselhos, em níveis municipal, estadual e federal. Além disso, esses 
movimentos passaram a adotar posturas menos reivindicatórias e mais construtivas, 
com ênfase na participação cidadã e na dimensão estratégica. Nesse sentido, os 
novos modelos associativos, orientados pela participação cidadã, focam na prestação 
de serviços à comunidade e à população, estabelecendo parcerias com o Estado e 
afastando-se do tradicional campo das reivindicações. 
Embora enfrentem desafios para se estabelecerem na sociedade civil, devido 
aos valores políticos tradicionais do Brasil, os movimentos sociais desempenham um 
papel fundamental ao longo do tempo, trazendo para o espaço público a discussão e 
a construção coletiva sobre questões que antes eram consideradas assuntos privados 
e individuais. Isso tem resultado na sua inclusão como objetos de políticas públicas. 
Para promover uma democracia efetiva em nosso país, é necessário fortalecer as 
esferas públicas não estatais como espaços de condução de ações coletivas 
organizadas, nos quais as prioridades para a formulação, implementação, fiscalização 
e execução de políticas públicas possam ser definidas e efetivadas. 
Assim, os movimentos sociais, enquanto expressões dos movimentos de luta 
de classes e lutas sociais, desempenham o papel de atores políticos no processo de 
formação das políticas sociais. Eles transformam as necessidades individuais em 
demandas a serem reivindicadas por meio de mobilizações, pressões e lutas sociais, 
levando essas demandas a uma instância de negociação e consentimento. Embora 
as condições sejam diversas e escassas, quando possível, essas demandas se 
tornam políticas públicas, resultando em ações concretas por parte do Estado para 
atender às necessidades da sociedade (GOHN, 2007). 
5.1 Efeitos políticos dos movimentos sociais 
As pesquisas sobre os efeitos políticos dos movimentos sociais partem do 
princípio de que esses movimentos são capazes de gerar mudanças políticas e 
sociais. No entanto, mais recentemente, há um esforço em identificar as condições 
específicas do contexto político em que esses resultados são alcançados, dada a 
heterogeneidade das circunstâncias em que os movimentos atuam. O principal 
desafio dessa agenda de pesquisa é analisar as condiçõesque favorecem os 
resultados dos movimentos e entender sua importância em comparação com outros 
atores políticos (AMENTA; CAREN, 2013). 
Na revisão da literatura especializada, podemos identificar quatro modelos que 
buscam explicar os efeitos dos movimentos sociais na política e nas políticas públicas. 
Esses modelos sugerem relações causais que envolvem tanto elementos ligados aos 
movimentos quanto ao contexto político, embora em diferentes graus. 
O primeiro modelo destaca os efeitos intencionais dos protestos e ações 
disruptivas, além do papel das variáveis organizacionais e de ação como fatores 
determinantes do sucesso dos movimentos (GAMSON, 1990). Ele avalia 
principalmente os resultados políticos obtidos por meio da organização dos 
movimentos, investigando se movimentos com uma estrutura organizacional mais 
formal são mais bem-sucedidos do que aqueles com uma base organizacional menos 
estruturada. Esse modelo reflete a influência predominante da Teoria da Mobilização 
de Recursos na época, que enfocava o papel da estrutura de mobilização, como 
organização, liderança e estratégia. 
A profissionalização e formalização do movimento têm sido associadas aos 
seus efeitos, e o campo de estudos avançou ao analisar o impacto do repertório 
organizacional na mudança institucional, conforme conduzido por Clemens (1993). No 
entanto, o argumento sobre a eficácia do protesto violento e disruptivo para alcançar 
mudanças ainda é menos consensual. Gamson (1990) argumenta que o uso de táticas 
violentas e disruptivas pelos movimentos está positivamente correlacionado a dois 
efeitos considerados sucessos: a aceitação dos desafiantes como legítimos 
reivindicadores e a conquista de novas vantagens para o público que representam. 
No entanto, conforme Giugni (1998), outros estudiosos sugerem que, 
(i) Não existe relação causal entre a frequência e quantidade da exibição de 
violência nos protestos e a distribuição de ganhos sociais, e 
(ii) É necessário que se analisem as circunstâncias sob as quais a violência 
importa para a mudança política e social. 
Portanto, segundo Giugni (1998), outros estudiosos propõem que o segundo 
modelo de explicação introduz o contexto político como um fator necessário para 
promover ou restringir os resultados dos movimentos sociais. Para Giugni (1998), o 
foco na estrutura organizacional do movimento como fator explicativo dos resultados 
deslocou-se para o ambiente político externo, expresso por meio de duas categorias: 
o papel da opinião pública e a estrutura da oportunidade política. 
A opinião pública é atualmente vista como uma variável explicativa nos estudos 
sobre os resultados dos movimentos porque os grupos fazem suas reivindicações não 
apenas ao público, mas também aos que estão no poder. Nesse sentido, trata-se de 
obter amplo apoio e aprovação pública para a causa, o que se reflete na opinião 
pública positiva para o movimento. O ambiente favorável da sociedade influenciará o 
comportamento dos políticos responsáveis por traduzir demandas e direitos em 
políticas públicas que definam e/ou garantam direitos sociais. As ligações entre 
opinião pública, movimento e ação política podem explicar as mudanças na política e 
na segurança. 
Dentro da categoria de Estruturas de Possibilidades Políticas, Giugni (1998) 
destaca dois aspectos relacionados aos movimentos sociais e sua influência: 
(i) O sistema de alianças e opositores e 
(ii) As instituições do estado. 
Segundo Giugni (1998), a efetividade dos movimentos sociais pode ser 
explicada pela formação de alianças dentro e fora da esfera institucional e pela 
presença de fracas redes de oposição. 
Por um lado, as instituições impõem restrições à ação coletiva, moldam sua 
forma e limitam suas consequências. Por outro lado, os movimentos também 
oferecem oportunidades para influenciar a política, especialmente se os adversários 
desempenharem um papel central no sistema e contarem com o apoio de fortes 
aliados dentro da organização. Nesse modelo, os movimentos sociais interagem com 
apoiadores e oponentes, mas são as propriedades das instituições e alianças 
estabelecidas que explicam as consequências da ação coletiva. O impacto do 
movimento nos resultados políticos alcançados é, portanto, indireto. 
Em um terceiro modelo de explicação, a estrutura de mobilização de um 
movimento e sua interação com seu contexto político atuam em conjunto na 
explicação dos efeitos políticos, quebrando a ordem mediada proposta no modelo 
anterior (GIUGNI, 2008; GIUGNI; YAMASAKI, 2009). Esse modelo enfatiza que os 
movimentos só podem se concretizar se a opinião pública e os aliados políticos 
participarem da mobilização do movimento. Essa mudança de perspectiva tem duas 
importantes implicações analíticas. Em primeiro lugar, abandona-se a hipótese 
original de que as condições relacionadas com a eficácia política são as mesmas 
relacionadas com a mobilização do movimento. 
Esta proposta estabeleceu um vínculo entre a análise do impacto dos 
movimentos e as condições que explicam o surgimento das mobilizações, incluindo 
as estruturas das mobilizações (organizações, quadros, estratégias) e o contexto 
político (oportunidades políticas favoráveis). Em segundo lugar, combinar condições 
relacionadas à dinâmica do movimento e interação com o contexto político permite 
analisar tanto as consequências intencionais quanto as não intencionais. 
Apesar dos avanços nesse modelo analítico, permanecem desafios para 
explicar como a estrutura da mobilização interage com as características formais e 
informais dos métodos políticos que explicam o impacto dos movimentos. O "modelo 
explicativo acoplado" não dá conta explicitamente das formas de interação entre as 
condições que influenciam o resultado político de um movimento. Além desse desafio 
metodológico analítico, o terceiro modelo ainda não aprimorou suficientemente o uso 
do conceito de oportunidade política, frequentemente criticado por sua imprecisão e 
ambiguidade (GOODWIN; JASPER, 2004). 
Um quarto modelo proposto por Amenta et al. (2010) visa estabelecer relações 
causais entre condições que possam explicar o impacto político dos movimentos 
sociais. Esse modelo, chamado de “modelo de mediação política”, reconhece que o 
melhor das capacidades de organização e mobilização do movimento não pode ser 
eficaz a menos que combinado com oportunidades políticas favoráveis, enfatiza a 
interação com o contexto político. 
Em vez de identificar tipos específicos de organização, planos de ação ou 
situações políticas de curto, ou longo prazo como determinantes da eficácia dos 
movimentos, a proposta é identificar certas formas de organização e estratégias que 
seriam mais eficazes em alguns contextos políticos do que em outros (AMENTA et al., 
2010). Portanto, não há uma forma organizacional, estratégia ou contexto político 
específico que sempre produza resultados políticos, mas sim a estrutura de 
mobilização do movimento produz resultados apenas sob certas condições políticas, 
ou seja, influenciada por fatores do contexto político. 
Embora a questão da conexão causal entre as condições e os efeitos políticos 
ainda não tenha sido resolvida, o quarto modelo avança ao mudar da noção imprecisa 
de oportunidade política para a categoria de estado. Edwin Amenta, principal defensor 
do modelo de mediação política, sustenta que o conceito de oportunidades políticas 
ou contextos políticos é definido de maneira ambígua, sendo analiticamente frágil no 
estudo dos movimentos sociais, pois não explora adequadamente o conceito de 
estado, intrinsecamente ligado a outros aspectos do contexto político e a diferentes 
atores políticos. 
O autor e seus colaboradores questionam que a literatura sobre movimentos 
sociais raramente faz referência direta ao estado, enquanto as "oportunidades 
políticas" são consideradas determinantes-chave para o surgimento e os resultadosdos movimentos. Essa abordagem dificulta a análise dos movimentos sociais, 
especialmente aqueles engajados em sistemas políticos relativamente democráticos, 
embora sirva para explicar movimentos revolucionários e revoluções, conforme 
argumentam os autores. 
Afirma-se que, apesar da ampla discussão sobre categorias como "sistemas 
políticos", "autoridades" e "elites", há uma falta de ênfase nas categorias de governo, 
administrações públicas e partidos políticos nas teorias dos movimentos sociais. 
Nesse sentido, Amenta e seus colaboradores defendem a importância da categoria 
de governo na explicação dos resultados políticos dos movimentos e exploram os 
processos pelos quais os governos influenciam os movimentos sociais e, 
reciprocamente, como essas coletividades influenciam o governo. Essa abordagem 
está em linha com a perspectiva neoinstitucionalista, que destaca a interdependência 
entre o governo e a sociedade civil. São destacadas as dimensões institucionais do 
governo, como a estrutura de autoridade política, os processos de democratização, 
os direitos garantidos, as regras e procedimentos eleitorais, as políticas públicas e as 
administrações públicas, bem como as capacidades repressoras. Esses elementos 
são vistos como condicionantes dos efeitos políticos dos movimentos sociais, ou seja, 
eles influenciam o alcance e o impacto das demandas e ações dos movimentos na 
esfera política. Portanto, compreender as interações entre os movimentos sociais e o 
governo é fundamental para uma análise mais abrangente dos resultados políticos 
alcançados (AMENTA et al., 2010; AMENTA et al., 2002). 
Pesquisadores destacam a importância do conceito de Estado na teoria e 
pesquisa sobre movimentos sociais. Eles partem do princípio de que tais movimentos 
buscam exercer influência sobre o Estado, questionando suas políticas, burocracias, 
regras e instituições, visando alcançar benefícios coletivos para os grupos que 
representam. Os estudiosos afirmam que: 
(i) Examinar quais os aspectos do estado considerados relevantes e, então, 
explicitar conexões entre tais aspectos e os benefícios almejados pelos 
movimentos sociais; e 
(ii) Desenvolver estudos cujo arco analítico gravite da noção imprecisa de 
oportunidade política para os aspectos específicos do estado e das instituições 
políticas (AMENTA et al., 2010; AMENTA, 2005; AMENTA et al., 2002). 
Os autores defendem que os movimentos sociais adquirem influência política 
ao ajustar suas estratégias e formas organizacionais ao contexto político específico, 
considerando o grau de democratização do Estado, o sistema partidário no poder e o 
nível de desenvolvimento da burocracia relacionada à política pública em questão. 
Além de ter reivindicações plausíveis, os desafiantes precisam conquistar o apoio de 
atores estatais, especialmente quando buscam mudanças de longo prazo que vão 
além da simples inclusão na agenda política, como a ampliação de direitos e práticas 
democráticas. Nessa abordagem, a dicotomia entre estratégias disruptivas e 
assimilativas (institucionalizadas) é descartada em favor de uma visão que enfatiza a 
assertividade das ações dos movimentos, indo além dos protestos em si. 
5.2 Dos modelos às categorias de análise do estado 
Os dois últimos modelos, em contraposição às duas primeiras explicações, 
argumentam que é necessário combinar os elementos relacionados aos movimentos 
sociais com aqueles relacionados ao estado para explicar os efeitos dos movimentos 
sociais nas políticas públicas. Além disso, esses modelos propõem uma ampliação do 
conceito de repertório, abrangendo não apenas estratégias disruptivas e protestos. 
Portanto, se considerarmos que o movimento social é uma forma específica de 
ação coletiva que pode ocorrer tanto dentro quanto fora das instituições, a observação 
empírica requer: 
(i) Abranger um processo de interações socioestatais nas quais a fronteira 
entre sociedade e estado fica menos nítida; e 
(ii) O estado deixa de se configurar nas análises apenas como uma 
oportunidade política e aparece como um conjunto heterogêneo de instituições 
e burocracias marcado pelo legado institucional e pela agência de seus atores. 
Essas duas ramificações apresentam desafios analíticos que serão debatidos 
adiante. A chance política se apresentou como um termo cujo intuito é incorporar a 
política institucionalizada na análise dos movimentos sociais, sendo empregado como 
um aspecto elucidativo para o surgimento de mobilizações. Nesse âmbito, um período 
de manifestações pode ser deflagrado por uma mudança ou uma sequência de 
mudanças nos seguintes aspectos: 
i) Grau de abertura ou fechamento do sistema político; 
ii) Estabilidade ou instabilidade dos alinhamentos das elites no interior do 
estado; 
iii) Presença ou ausência de aliados no interior da elite; e 
iv) Capacidade e propensão do estado para a repressão (MCADAM, 2006, p. 
27; TILLY, 2006, p. 44). 
Contudo, a chance política não se encontra objetivamente; é necessário que os 
envolvidos, munidos de diferentes recursos, interpretem-na como tal e iniciem sua 
ação coletiva (MCADAM; TILLY; TARROW, 2001). O conceito de chances políticas 
tem uma clara capacidade explicativa no início das mobilizações coletivas. Nesta fase 
inicial, as oportunidades políticas surgem independentemente da ação do movimento 
e por um tempo limitado, representando uma mudança no contexto político que 
oferece a possibilidade de emergência da mobilização, que se manifesta por meio de 
protestos. 
No entanto, quando a mobilização começa, as características gerais do sistema 
político não são mais adequadas para descrever e explicar o progresso da ação 
coletiva. Isso ocorre porque o movimento em si cria novas oportunidades. O que difere 
a fase inicial do surgimento da fase de desenvolvimento dos movimentos sociais é 
que, nesta última, as oportunidades e restrições não são mais independentes das 
ações dos movimentos, mas sim um resultado de sua interação com o ambiente 
(MCADAM; MCCARTHY; ZALD, 2006). 
Nesta etapa, o conceito de ocasião política perde sua parte fundamental, sendo 
a alteração no contexto político em grande escala. O movimento se concentra em uma 
série de ações voltadas para instituições específicas, podendo influenciá-las, seja 
criando "oportunidades", provocando reações do Estado ou simplesmente observando 
as decisões político-administrativas. É dentro deste processo de interações que o 
conceito de ocasião política se torna inadequado para abranger a totalidade do 
estado. 
A abordagem de polis de Cheda Soco, uma das pioneiras do 
neoinstitucionalismo histórico, oferece valiosas contribuições para a análise das 
teorias do estado. Ela enfoca o estado como uma instituição e um agente que 
influencia os processos políticos, juntamente com outros atores econômicos e sociais, 
em vez de ser apenas um cenário passivo da ação de grupos. Essa perspectiva 
permite a identificação de diversos fatores que explicam as mudanças nas políticas 
públicas. É importante ressaltar: 
(i) A heterogeneidade do estado, 
(ii) A importância do legado institucional, 
(iii) O papel das burocracias e dos políticos eleitos, ambos dotados da 
possibilidade de ação autônoma e, 
(iv) a relevância do sistema de partidos políticos e das regras eleitorais, como 
fatores que afetam os processos políticos, a consciência e orientações políticas 
dos vários grupos sociais (SKOCPOL, 1992). 
Estes quatro fatores contribuem para uma reconstrução analítica do estado, 
indo além da oportunidade política, fornecendo informações importantes para o 
entendimento dos impactos dos movimentos sociais. Ao realizar uma análise inicial, 
observamos os movimentos que buscam mudanças nas políticas públicas, 
direcionando suas reivindicações a instituições específicas, como os setores de 
políticas públicas, poderes legislativo, executivo ou judiciário, partidos políticos,entre 
outros. Estas instituições operam em um conjunto específico de normas 
(heterogeneidade do estado), moldadas por uma burocracia e atravessadas por 
alianças eleitorais. Estes elementos analíticos formam o ponto de partida para 
investigar os possíveis efeitos dos movimentos sociais nas políticas públicas, 
representando uma descrição estática do processo (MCADAM; TARROW; TILLY, 
2001). 
É possível afirmar que, assim como os movimentos sociais possuem uma 
estrutura organizacional e recursos prévios em sua mobilização, as instituições 
estatais que eles procuram confrontar também possuem arranjos institucionais que 
refletem interações passadas entre a sociedade e o estado, bem como configurações 
de agentes políticos e burocracias. Para compreender o subsequente processo de 
interação entre o movimento e o estado, que se confrontam, e analisar seus 
resultados, é necessário ter um conhecimento detalhado de ambos. A segunda etapa 
de análise corresponde a uma descrição dinâmica desse processo, que envolve as 
interações entre as esferas da sociedade e do estado na produção das políticas 
públicas (MCADAM; TARROW; TILLY, 2001). 
Nesta dinâmica, o movimento emprega estratégias para influenciar o processo 
decisório em prol de suas causas, tendo como alvo o estado. Novamente, a 
abordagem de polis nos ajuda a identificar dois aspectos do estado. O primeiro 
aspecto refere-se à autonomia relativa dos políticos e dos gestores públicos, que 
possuem interesses próprios e uma certa independência em relação aos atores 
sociais. Do ponto de vista do movimento social envolvido em uma mobilização 
específica, essa autonomia significa que o estado, como instituição e atores, pode agir 
independentemente do movimento. No entanto, esse potencial de ação independente 
é condicionado pela existência de capacidades estatais, sem as quais os atores 
estatais não se envolveriam na produção de inovações em políticas públicas, como a 
criação e consolidação de agências estatais e burocracias profissionalizadas 
(SKOCPOL, 1992). 
Em contrapartida, o segundo fator diz respeito à capacidade de penetração do 
estado, ou seja, aos momentos ou circunstâncias em que os agentes sociais 
conseguem obter um acesso mais prolongado ao estado, ampliando sua habilidade 
de influenciar o processo decisório. Essas ocasiões são conhecidas como encaixes 
institucionais, conforme com a abordagem de política (MARQUES, 2006). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 
AMENTA, E.; CAREN, N., CHIARELLO, E.; SU, Y. The political consequences of 
social movements. Annual Review of Sociology, v. 36, p. 287-307, 2010. 
AMENTA, E.; CAREN, N. Outcomes political. In: David Snow; Donatella Della Porta; 
Bert Klandermans; Doug McAdam (Org.). The Wiley-Blackwell encyclopedia of 
social and political movements. Malden: Wiley, 2013, p. 1-6. 
AMENTA, E.; CAREN, N.; FETNER, T.; YOUNG, M. Challengers and states: toward a 
political sociology of social movements. Sociological Views on Political 
Participation, v. 10, p. 47-83, 2002. 
CLEMENS, E. Organizational repertoires and institutional change: women's groups 
and the transformation of U.S. politics, 1890-1920. American Journal of Sociology, 
v. 98, n.4, p. 755-798, 1993. 
GAMSON, W. The strategy of social protest. Belmont: Wadsworth, 1990. 
GIUGNI, M. Was it worth the effort? The outcomes and consequences of social 
movements. Annual Review of Sociology, p. 371-393, 1998. 
GIUGNI, M.; YAMASAKI, S. The policy impact of social movements: a replication 
through qualitative comparative analysis. Mobilization, v. 14, n. 4, p. 467-484, 2009. 
GOHN, M. G. (org.) Movimentos sociais no início do século XXI: antigos e novos 
atores sociais. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 2007. 
GOHN, M. G. Movimentos sociais na contemporaneidade. Revista Brasileira de 
Educação, Rio de Janeiro, v. 16, n. 47, p. 333-361, maio-ago. 2011. 
GOODWIN, J.; JASPER, J. Caught in a winding, snarling vine: the structural bias of 
political process theory. In: Jeff Goodwin; James Jasper (Org.). Rethinking social 
movements: structure, meaning, and emotion. Lanham: Rowman & Littlefield 
Publishers, 2004. p. 3-30. 
MARQUES, E. Redes sociais e poder no estado brasileiro: aprendizados a partir de 
políticas urbanas. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 21, n. 60, p. 15-
41,2006 
McADAM, D.; McCARTHY, J.; ZALD, M. (Org.). Comparative perspectives on 
social movements: political opportunities, mobilizing structure, and cultural 
framings. Cambridge: Cambridge University Press, 2006. 
McADAM, D.; TARROW, S.; TILLY, C. Dynamics of contention. Cambridge: 
Cambridge University Press, 2001. 
MONTAÑO, C.; DURIGUETTO, M. L. Estado, classe e movimento social. São 
Paulo: Cortez, 2010. 384 p. 
 PEREIRA, P. A. P. Discussões conceituais sobre política social como política pública 
e direito de cidadania. In: BOSCHETTI, I. et al. (Orgs.). Política social no 
capitalismo: tendências contemporâneas. São Paulo: Cortez, 2008. p. 87-108. 
SKOCPOL, T. Protecting soldiers and mothers: the political origins of social 
policy in the United States. Cambridge: Belknap Press, 1992. 
TARROW, S. El poder en movimiento: los movimientos sociales, la acción 
colectiva y la política. Madrid: Alianza Editorial, 1997.

Mais conteúdos dessa disciplina