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ECOLOGIA VEGETAL 
AULA 6 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Profª Letícia Estela Cavichiolo Espindola 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
A Ecologia vegetal, assim como as demais áreas de conhecimento, está 
em constante expansão. Atualmente, os pesquisadores dispõem de métodos e 
instrumentos que permitem novas compreensões acerca do funcionamento tanto 
dos indivíduos quanto dos ecossistemas, as quais, por sua vez, tem sido cada 
vez mais relacionadas ás problemáticas atuais, como a perda da biodiversidade 
e as mudanças climáticas. 
Visando compreender melhor a ecologia vegetal, o presente texto que 
encontra-se organizado nos seguintes temas e objetivos principais: 
• As espécies invasoras: buscando compreender seu impacto na 
biodiversidade brasileira; 
• A comunicação entre plantas: identificando os fatores que permitem a 
troca de substâncias e informações entre os vegetais; 
• Mudanças climáticas: buscando compreender como os vegetais são 
impactados neste contexto e como as plantas podem contribuir para 
diminuir este processo; 
• Os serviços ecossistêmicos: com o objetivo de compreender seus 
benefícios fundamentais para a sociedade e políticas para seu incentivo. 
TEMA 1 – ESPÉCIES INVASORAS 
Em etapa anterior, estudamos mecanismos para a preservação e 
acompanhamento da biodiversidade. Uma grande ameaça à biodiversidade 
vegetal são as espécies invasoras. Como nosso país tem um histórico de 
agricultura e pecuária, a problemática das espécies invasoras tem sido uma 
constante. 
São consideradas como espécies invasoras os organismos (plantas, 
animais, fungos, bactérias) que são introduzidos em um ecossistema fora de sua 
área de origem e que causam impactos negativos na biodiversidade e nos 
serviços ecossistêmicos, apresentando altas taxas de crescimento, reprodução 
e dispersão (Matos; Pivello, 2009, p. 27). Muitas vezes, além de se reproduzem 
rapidamente, as espécies invasoras têm a capacidade de se adaptar facilmente 
às novas condições ambientais, o que lhes permite competir efetivamente com 
as espécies nativas pelo espaço, luz, nutrientes e outros recursos. 
 
 
3 
As espécies invasoras podem ser introduzidas intencionalmente ou 
acidentalmente por meio de atividades humanas, tais como o transporte de carga 
e tráfego de pessoas, além de ações como a liberação de espécies exóticas em 
ambientes naturais, como parques e reservas. Elas podem causar diversos 
impactos negativos, como a redução da biodiversidade, alteração do 
funcionamento dos ecossistemas, perda de habitats, redução da qualidade da 
água e do solo, além de prejudicar atividades econômicas que dependem da 
natureza. 
Segundo a organização não governamental Instituto Hórus, mantenedora 
do Banco de Dados Nacional de Espécies Exóticas Invasoras, pelo menos 210 
espécies vegetais não nativas se espalharam por ecossistemas brasileiros, 
causando danos à flora local. Um exemplo de planta invasora é o capim-colonião 
(Megathyrsus maximus), capaz de crescer até 10 cm por dia e que se espalhou 
por ilhas do Rio de Janeiro. Ninguém sabe ao certo como essa agressiva espécie 
africana chegou até o Brasil. Após anos de muitas tentativas de erradicação, 
desde o uso do fogo controlado, cobertura do capim com lona preta, extração 
manual e uso de herbicidas, o pesquisador Massimo Bovini do Jardim Botânico 
do Rio de Janeiro obteve sucesso com o método de nucleção, que consiste no 
“replantio de mudas nativas próximas umas das outras, criando núcleos de 
vegetação que, ao gerar sombra, evitam naturalmente o crescimento do capim, 
espécie que necessita de sol pleno para se desenvolver” (Abdala, 2023, p. 1). 
Outros exemplos de plantas invasoras são a casuarina (Casuarina 
equisetifolia) e a amendoeira-da-praia (Terminalia catappa). A casuarina, 
originaria da Austrália e usada como planta ornamental nas praias de Santa 
Catarina, impacta a abundância das restingas, reduzindo a cobertura vegetal 
nativa (Arraial, 2022, p. 1-2). Já a amendoeira-da-praia, proveniente da Ásia, se 
espalhou por toda a costa brasileira, vinda provavelmente com a água de lastro 
dos navios. Preocupantemente, essa espécie está presente em 34 unidades de 
conservação brasileiras, entre elas o Parque Nacional de Fernando de Noronha 
(Sales, 2021, p. 1; Abdala, 2023, p. 1). 
Muitas são as ações adotadas para a contenção da expansão das 
espécies invasoras. Já há estudos, como os de Gonçalves (2019, p. 1), que 
incluem a captura de imagens aéreas por meio de veículos aéreos não tripulados 
(VANTs) para a identificação automática de plantas invasoras em imagens 
 
 
4 
aéreas, que, com a ajuda de especialistas, permitem uma eficiência melhor no 
controle de invasoras. 
O controle de espécies invasoras é uma preocupação importante em todo 
o mundo e envolve ações como prevenção da introdução de novas espécies 
invasoras, monitoramento e detecção precoce, controle de populações 
estabelecidas e restauração de ecossistemas afetados. Tanto a conservação da 
biodiversidade quanto a qualidade dos serviços ecossistêmicos são fortemente 
impactadas pela presença de espécies invasoras. 
TEMA 2 – COMUNICAÇÃO ENTRE AS PLANTAS 
Muitas são as inovações no campo da pesquisa vegetal. Entre as novas 
descobertas sobre as plantas, o trabalho pioneiro da ecologista Suzanne Simard 
merece destaque. Usando isótopos radioativos de carbono, ela comprovou que 
plantas trocam substâncias com a ajuda de fungos que vivem nas suas raízes, 
ou seja, são capazes de se comunicar. Podemos estabelecer uma analogia: a 
floresta é uma imensa rede de internet, e os fungos agem como as redes sociais. 
Simplesmente fascinante! 
Por meio dessa rede, as plantas são capazes de tocar nutrientes, 
reconhecendo e favorecendo seus próprios parentes mais vulneráveis, além de 
mensagens químicas de alerta, por exemplo, quando se sentem ameaçadas ou 
estão sendo predadas (Simard; Durall, 2004, p. 1140). A comunicação e as 
mudanças comportamentais em plantas dependem de estímulos ambientais, da 
identidade da planta vizinha e das características da rede fúngica (Figura 1). Os 
estudos sugerem que a comunicação subterrânea das árvores é um processo 
fundamental na natureza adaptativa complexa dos ecossistemas florestais 
(Gorzelak et al., 2015, p. 1). 
Outra descoberta muito interessante foi a de que as células das plantas 
se comunicam entre si de modo semelhante aos neurônios dos animais. Nos 
neurônios, existem moléculas chamadas receptores de glutamato, que, ao 
regularem a entrada de cálcio pelas membranas, formam o impulso elétrico que 
permite a transmissão das informações. Plantas não têm neurônios, mas suas 
células são recobertas por receptores semelhantes ao do glutamato (GLRs). É a 
distribuição dos GLRs que forma uma rede complexa, capaz de regular a 
concentração de cálcio e controla a sinalização celular nas plantas. Esse 
 
 
5 
mecanismo permite que tubos polínicos de Arabidopsis thaliana cresçam em 
direção aos óvulos na flor (Wudick el al., 2018, p. 553). 
Figura 1 – Esquema da comunicação via rede fúngica 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fonte: Gorzelak et al., 2015, p. 3. 
 Se você, assim como eu, já achou incrível saber que plantas se 
comunicam e possuem processos semelhantes aos dos neurônios, prepare-se 
para mais novidades. Plantas são capazes de aprender e possuem memória! 
Segundo biólogos da University of Western Australia, a planta dormideira 
(Mimosa pudica) é capaz de lembrar do que aconteceu durante um longo tempo 
(Gagliano et al., 2014, p. 63-74). Essa espécie fecha as folhas quando tocada. 
Os pesquisadores criaram um trilho, de onde as plantas caíam uma altura de 15 
cm. Esse experimento foi conduzido para observar se as plantas poderiam ser 
treinadas a ignorar o estímulo, deixando de fechar as folhas. Após repetidas 
quedas, as plantas passaram a ignorar o estímulo, sem se fechar mais. Mas, se 
recebessem um estímulo diferente, elasfechavam, indicando que não estavam 
em fadiga. 
Quando os cientistas repetiam o experimento semanas mais tarde, as 
plantas lembravam do estímulo de queda, ignorando-o novamente. Mas, como 
organismos sem neurônios podem aprender e ter memória? Tudo indica que a 
resposta está na variação da concentração de cálcio nas células, provocada 
pelos receptores semelhantes ao do glutamato (GLRs). Outras pesquisas 
Condições da doadora Condições da receptora 
Déficit nutricional 
Estresse hídrico 
Menores e jovens 
Sombreadas 
Rica em nutrientes 
Repleta de água 
Maiores/velhas 
Iluminadas 
Sob herbivoria 
Sinais de defesa 
Aleloquímicos 
Herbicidas 
Moléculas transportadas Respostas biológicas 
Germinação, sobrevivência, crescimento, 
alelopatia, nutrição foliar e respostas de 
defesa 
 
 
6 
indicam que até mesmo os hormônios vegetais podem estar relacionados ao 
aprendizado em plantas. Os cientistas concluíram que os neurônios dos animais 
não são a única estrutura viável para permitir o aprendizado. 
 Com base nesses estudos, podemos imaginar que a interação das plantas 
com microrganismos e com outros vegetais deve desempenhar um papel 
importante nos processos de germinação e sucessão ecológica, impactando 
positivamente a biodiversidade de um ecossistema. Estes são ramos recentes 
da ecologia vegetal que devem se ampliar consideravelmente no futuro. 
TEMA 3 – MUDANÇAS CLIMÁTICAS: COMO AS PLANTAS SÃO AFETADAS 
Muitas pessoas não imaginam que o aquecimento global pode trazer 
consequências ao seu cotidiano. No entanto, isso está longe de ser verdade. O 
aquecimento anormal das águas oceânicas brasileiras, por exemplo, forneceu 
grande quantidade de umidade para formação das nuvens em São Paulo, que 
associadas a uma frente fria e o reforço de um sistema de baixa pressão 
atmosférica, marcaram o mês de fevereiro de 2023 com recordes de precipitação 
e 64 mortes. Segundo o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de 
Desastres Naturais (Cemaden), o volume de chuva surpreendeu tanto pela 
quantidade quanto pela abrangência. Os volumes de chuva chegaram a 683 mm 
em Bertioga, 627 mm em São Sebastião, ou seja, em apenas 24h choveu mais 
que o dobro de toda a chuva que normalmente ocorre durante o mês de fevereiro 
(que geralmente gira ao redor de 200mm a 300mm). 
Nesse cenário, é importante compreender tanto como as plantas são 
afetadas quanto como elas podem abrandar as mudanças climáticas que temos 
enfrentado. Isto impacta fortemente a vida humana, a biodiversidade e a 
segurança alimentar: “Essas alterações já estão afetando tanto os ecossistemas 
naturais, quanto os ecossistemas manejados, visto que as plantas são 
intimamente dependentes das condições edafoclimáticas para seu crescimento 
e sobrevivência” (Habermann et al., 2020, p. 109). 
O Painel Intergovernamental de Mudanças climáticas (IPCC –
Intergovernmental Panel of Climatic Change), em seus relatórios, tem apontado 
para mudanças significativas até meados deste século, indicando um aumento 
na concentração de CO2 na atmosfera podendo chegar a 720 μmol e uma 
elevação da temperatura de até +3 °C. Essas mudanças ocorrerão em conjunto 
com mudanças no padrão de precipitação. O mesmo relatório sugere que, na 
 
 
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parte oriental da Amazônia, poderá ocorrer um processo de savanização, ou 
seja, a substituição gradual da floresta tropical por vegetação similar a uma 
savana (Grandis; Godoi; Buckeridge, 2019, p. 1). 
Habermann et al. (2020, p. 109-120) realizaram um levantamento dos 
efeitos das mudanças climáticas em pesquisas de várias espécies de interesse 
econômico. As principais respostas frente às mudanças climáticas estão 
contempladas no Quadro 1. 
Quadro 1 – Principias respostas das plantas frente às mudanças climáticas 
Mudança Resposta 
Temperaturas 
elevadas 
 
Aumentar a demanda evaporativa das plantas e intensifica efeitos de 
déficit hídrico, limitando a produtividade vegetal. 
Aumento da 
concentração de 
CO2 
Reduz a abertura estomática, resultando em menor taxa transpiratória, 
mas varia de acordo com o metabolismo fotossintético da espécie (C3, 
C4 ou CAM) 
Fonte: Habermann et al., 2020, p. 109-120. 
Dentre os estudos de Habermann et al. (2020, p. 109-120), destacaremos 
aqui parte dos resultados obtidos com cafeeiros e pés de cacau. Cafeeiros, por 
exemplo, são plantas C3 e precisam de temperaturas entre 18 ºC e 22 ºC para 
produção ótima. Em cenários de aquecimento, essas plantas perdem as folhas 
(acima de 28 ºC) e até mesmo as flores (acima de 34 ºC) impactando fortemente 
a produção. Um aquecimento entre 4 ºC e 8 ºC ocasionará perda de 25% da 
produção de grãos de café. Já em experimentos com maior concentração de 
CO2, apesar de os cafeeiros apresentarem maior taxa fotossintética e mais 
frutos, tiveram uma redução no conteúdo de nitrogênio em suas folhas, 
requerendo, portanto, maior adubação. Habermann et al. (2020, p 119) 
destacam outro estudo, que acompanhou o efeito da seca na Bahia entre 2015-
2016, relacionada ao El Niño, na produtividade do cacau (Theobroma cacao). Na 
ocasião, foi observado um aumento na mortalidade das plantas de cacau, além 
de significativa perda na produtividade. 
Não serão somente as plantas cultivadas ou de interesse econômico que 
sofrerão, ou já sofrem, com as mudanças climáticas. Em estudos de longo prazo 
realizado na Amazônia, as plantas aparentemente não demonstravam 
alterações nos primeiros anos de acompanhamento. Contudo, após 13 anos de 
 
 
8 
experimento, foi observado uma morte súbita das maiores árvores da área 
experimental devido a um colapso no sistema hidráulico das plantas. 
Esses estudos indicam uma forte necessidade de pesquisas de longo 
prazo para acompanhar e compreender o impacto das mudanças climáticas em 
ecossistemas nativos. Simulações indicam que até 2050, o aquecimento global 
de origem antrópica irá amplificar as queimadas no sul da Amazônia, liberando 
mais de 17 bilhões de toneladas de CO2 para a atmosfera, agravando as 
mudanças climáticas (Habermann et al., 2020, p. 109-120). 
As espécies latifoliadas, isto é, de folhas grandes, tendem a ser mais 
impactadas com aumento da temperatura e/ou seca. Como o resfriamento foliar 
ocorre em função da perda de água via transpiração, as plantas de folhas 
grandes possuem maior risco de danos frente a altas temperaturas do ar, 
especialmente quando a umidade do solo é limitada (Wright et al., 2017, p. 917-
992). 
Esse cenário nos leva a perguntar como as plantas podem auxiliar na 
estabilidade relativa do clima, foco do próximo tópico. 
TEMA 4 – MUDANÇAS CLIMÁTICAS: COMO AS PLANTAS CONTRIBUEM 
PARA A ESTABILIDADE RELATIVA DO CLIMA 
Parar evitar o aumento na temperatura global, o Painel 
Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (Intergovernmental Panel on 
Climate Change) destaca a necessidade de sequestrar carbono atmosférico, um 
dos principais elementos causadores da elevação da temperatura. Ao realizar a 
fotossíntese, as plantas sequestram carbono para seu metabolismo e o fixam na 
forma de matéria orgânica de seus corpos. 
Segundo Fauset et al. (2015, p. 1-9), somente a Amazônia, sozinha, 
responde por cerca de 14% do carbono assimilado por fotossíntese e abriga 17% 
de todo o carbono estocado na forma de vegetação em todo o planeta. Isso 
demonstra que este bioma é crucial no ciclo de carbono mundial e tem grande 
importância para o sequestro de carbono e diminuição do aquecimento global. 
Entretanto, apenas 1% de suas espécies são responsáveis por fixar 50% do 
carbono sequestrado em toda a Amazônia. Espécies de grande porte e alta 
densidade de madeira, como o angelim-vemelho (Dinizia excelsa), mesmo 
apresentando um número reduzido de indivíduos, contribuem expressivamente 
para a fixação de carbono. Embora o estudo sugira que concentrar os estudos 
 
 
9 
no pequeno número de espécies que possuam essas características possa 
facilitar sua compreensão,ele também destaca a necessidade de investigar 
todos os papéis ecológicos da floresta que está ameaçada devido ao 
desmatamento, à fragmentação e às mudanças climáticas. 
Além de fixar carbono e diminuir o aquecimento global, as plantas têm 
importante papel no regime de chuvas. As florestas latifoliadas como a 
Amazônia, isto é, que possuem espécies com folhas grandes, bombeiam 
enormes quantidades de água para atmosfera, contribuindo efetivamente para a 
formação de chuvas abundantes e benignas. Segundo o Ministério do Meio 
Ambiente (MMA, 2007, p. 29), a substituição das florestas amazônicas por 
pastagens e plantio de soja podem ter um forte impacto sobre a ciclagem da 
água na região. Uma vez que a área foliar da vegetação é reduzida, a 
evapotranspiração cai drasticamente, o que pode ter efeitos desastrosos no 
regime de chuvas, uma vez que metade das chuvas da Amazônia são atribuídas 
à água reciclada através da floresta: 
A alteração no regime de chuvas deverá ser uma das principais 
responsáveis pela savanização de grande parte do bioma, prevista nas 
simulações dos efeitos do aquecimento global. Estima-se que para a 
manutenção do atual regime de chuvas seja necessário manter cerca 
de 70% da cobertura florestal original. (MMA, 2007, p. 29) 
Observe as áreas áridas em um mapa mundi (Figura 2). Você já observou 
que há muitos desertos próximos ás latitudes 30° a 50°? 
Figura 2 – Mapa Mundi 
 
Crédito: Maiquel Jantsch/Shutterstock. 
 
 
10 
Curiosamente, na América do Sul não temos um deserto nessas mesmas 
latitudes. Por serem exceções à regra, o Sudeste, o Centro Oeste e o Sul do 
Brasil são chamadas pelos cientistas de quadrilátero afortunado. Esta área 
delimitada por Cuiabá, São Paulo, Buenos Aires e Santa Cruz de la Sierra, 
recebe grandes quantidades de chuvas formadas pelos chamados rios 
voadores, formados pela Floresta Amazônica (Costa, 2021, p. 1119-1134). 
Primeiramente, ocorre a emissão de compostos voláteis orgânicos 
(VOCs), que são percursores de condensação de vapor de água. Isso resulta em 
uma eficiente nucleação de nuvens. Na sequência, a fortíssima condensação 
causa rebaixamento da pressão atmosférica da floresta, sugando ar úmido do 
oceano para o continente. Por fim, há a exportação da água na forma de “rios 
aéreos de vapor” para áreas distantes no território brasileiro, em quantidades tão 
grandes que justificam a ausência de desertos na porção meridional da América 
do Sul (leste da cordilheira dos Andes) (Nobre, 2014, p. 2). Costa, em seu estudo 
apresentado em 2021 na revista Ciência Geográfica, comprovou que a evolução 
dos desmatamentos na Amazônia brasileira resultou na redução do período 
chuvoso de seis meses para três meses na cidade de Tupã (SP), além de 
contribuir para a elevação da temperatura local. 
Apesar de (por questões didáticas) focarmos na Amazônia até aqui, todas 
as plantas e os diferentes ecossistemas contribuem com diversos benefícios que 
permitem a vida e o desenvolvimento das atividades necessárias a humanidade. 
Esses benefícios serão o foco do próximo tópico. 
TEMA 5 – SERVIÇOS ECOSSISTÊMICOS 
Os ecossistemas trazem benefícios fundamentais para a sociedade em 
termos de manutenção, recuperação ou melhoria das condições ambientais, 
refletindo diretamente na qualidade de vida das pessoas e na economia em 
diversas escalas. O conjunto desses benefícios é designado como serviços 
ecossistêmicos, os quais, identificados e discutidos na Avaliação Ecossistêmica 
do Milênio (Millennium Ecosystem Assessment, 2005), incluem desde a 
regulação do clima até a produção de alimentos, água potável e medicamentos. 
Os serviços ecossistêmicos podem ser divididos em quatro categorias 
principais: 
 
 
11 
• Serviços de suporte: serviços que mantêm o funcionamento dos 
ecossistemas, como a formação do solo, a fotossíntese e a polinização; 
• Serviços de provisão: serviços que fornecem recursos diretos para os 
seres humanos, como alimentos, água, madeira, fibras e combustíveis; 
• Serviços de regulação: serviços que regulam os processos 
ecossistêmicos, como a regulação do clima, a purificação do ar e da água, 
o controle de doenças e a prevenção de desastres naturais; 
• Serviços culturais: serviços que fornecem benefícios culturais, como o 
valor estético, o recreativo e o espiritual. 
Segundo Ferraz et al. (2019, p. 58), a humanidade tem observado uma 
degradação rápida e profunda dos serviços ecossistêmicos nos últimos 50 anos, 
jamais vista em qualquer outro período análogo da história da humanidade. Esse 
declínio tem ocorrido devido ao crescimento populacional e uso desordenado 
dos ecossistemas, à lenta adaptação para uma econômica circular e devido às 
alterações climáticas globais. 
Dada a sua importância, cada vez mais estudos vêm sendo conduzidos 
mundialmente para a avaliação, o monitoramento, a modelagem e a valoração 
econômica dos serviços ecossistêmicos. Nesse contexto, o Pagamento por 
Serviços Ambientais (PSA) surge enquanto implementação de políticas voltadas 
à conservação ambiental por meio dos serviços ambientais. Este instrumento 
vem ocupando cada vez mais espaço na agenda ambiental brasileira. A 
compreensão e a valorização dos serviços ecossistêmicos são importantes para 
a conservação da biodiversidade e para a promoção do desenvolvimento 
sustentável. 
O PSA baseia-se no princípio da compensação por serviços 
ecossistêmicos. Consiste em reconhecer aqueles que proveem os serviços, 
chamados de protetores-recebedores, e recompensá-los por isso. O pagamento 
deve vir daqueles que se beneficiam do serviço (a sociedade local, regional ou 
global): “No Brasil, os mecanismos do princípio poluidor-pagador, que visavam 
punir os responsáveis pela degradação ambiental vêm sendo substituídos ou 
complementados por instrumentos de incentivos econômicos ou financeiros 
fundados no princípio do protetor-recebedor”, permitindo que no mecanismo de 
PSA “a participação de vários atores sociais interessados na gestão pública e 
privada ambiental, de forma democrática e valorizando o papel do conservador, 
 
 
12 
ou seja, daqueles que adotam práticas conservacionistas em suas atividades” 
(Ferraz et al., 2019, p. 61). 
 Os mangues são exemplos de ecossistemas tanto ameaçados quanto 
incompreendidos. Estima-se que 20% do total da área de mangue tenha sido 
perdida apenas nos últimos 25 anos, principalmente devido à exploração 
madeireira, à expansão urbana e à produção de camarão. Mundialmente, muitos 
esforços de PSA têm mostrado êxito na proteção do mangue, como o Blue 
carbon, integrante do projeto Reducing Emissions from Deforestation and 
Forest Degradation (mais conhecido como REDD+). Neste projeto, as 
comunidades recebem PSA pela quantidade de carbono sequestrado nos 
mangues. No entanto, muitos países apresentam dificuldades para 
implementação do programa devido ao direito de propriedade dos mangues, 
conforme explica Gasparinetti et al. (2018, p. 58): 
Os manguezais são bens públicos e controlados pelo governo. No 
entanto, para que o sistema de pagamentos funcione é preciso 
conceder direitos às comunidades locais, que devem ser responsáveis 
também pelo monitoramento e análise das mudanças no mangue ao 
longo do tempo. 
 Portanto, para que o sistema de PSA funcione adequadamente, faz-se 
necessário ir para além da definição clara e consensual dos serviços ambientais, 
aprimorando as políticas públicas que facilitem sua implementação. Essa é uma 
necessidade urgente para a manutenção da biodiversidade e diminuição das 
mudanças climáticas. 
NA PRÁTICA 
Elabore uma breve resenha do vídeo Rios Voadores da Amazônia – sem 
floresta não tem água, de Bettina Ehrhardt, relacionando-o aos estudos 
presentes nesta etapa. 
Saiba mais 
Rios Voadores da Amazônia – sem floresta não tem água. GIZ Azul, 2019. 
Disponível em: . Acesso 
em: 5 maio 2023.13 
FINALIZANDO 
 Nesta etapa, aprendemos que a conservação da biodiversidade depende 
de muitos fatores, desde o monitoramento de espécies invasoras até a 
implantação de sistemas de pagamento por serviços ambientais. Também 
observamos que a ecologia vegetal tem expandido para várias áreas, que vão 
desde a compreensão de como as plantas se comunicam e aprendem até suas 
complexas relações com as mudanças climáticas. Espero que este estudo 
auxilie na formação de agentes transformadores da sociedade, cuja educação 
tem papel de destaque na formação de cidadãos preocupados e atuantes no 
presente e no futuro. 
 
 
 
 
14 
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