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Desconstruindo Marc Bloch (1886-1944) 
Julio Bentivoglio 
(DPHIS/PPGHIS/LEHPI – UFES) 
 
“Na base do nosso empreendimento está uma espécie de pequena 
revolução intelectual.” 
[Carta de Marc Bloch a Lucien Febvre de 20/07/1929] 
 
Introdução. 
Não é tarefa fácil escrever sobre aquele que é considerado um dos 
mais importantes historiadores do século XX, objeto de inúmeros 
estudos, textos biográficos e cuja fortuna crítica é altamente lisonjeira1. 
Com efeito, pode-se dizer que Marc Bloch sintetiza aquilo que 
caracteriza não somente um excelente historiador, mas, sobretudo, um 
grande intelectual: sua obra realiza o esforço de reunir todas as 
possibilidades criativas, técnicas, de erudição e de crítica documental 
disponíveis em seu tempo produzindo livros referenciais que se 
tornaram modelo para seus contemporâneos e herdeiros; sua vida 
expressou o vivo engajamento político e profissional, tanto na defesa da 
causa nacional francesa – seja nos fronts de batalha das duas grandes 
guerras, seja combatendo na Resistência à ocupação nazista – quanto 
na luta por um novo modelo da História e a criação de uma revista, cujo 
programa se transformou em um dos paradigmas historiográficos mais 
influentes no cenário contemporâneo, os Annales. O nome de Marc 
Bloch está ainda diretamente relacionado a um ponto de inflexão da 
consciência histórica e da historiografia contemporâneas, constituindo 
um índice a distinguir uma dada escrita da história que lhe antecede e 
aquela da qual se tornaria um dos principais expoentes e inspiradores2. 
O enorme conjunto de bons textos produzidos sobre este que foi 
um dos fundadores dos Annales exige um exaustivo e minucioso 
trabalho de crítica das sucessivas e densas camadas interpretativas que 
constituíram uma verdadeira mitologia em torno de Marc Bloch e de 
sua obra para se equalizar melhor sua dimensão no horizonte 
historiográfico de seu tempo e a dimensão de sua herança. Este é o 
desafio que procura realizar este pequeno estudo, cujas pretensões são 
modestas: revelar aos leitores que desejam conhecer melhor o autor de 
obras seminais como A sociedade feudal, Os reis taumaturgos e Apologia 
da história, uma fisionomia dotada de maior complexidade, que procura 
compreendê-lo dinâmica e criticamente. Pode-se, com efeito, afirmar 
que a hagiografia construída em torno do personagem – que 
evidentemente é notável tal como a de Walter Benjamin (1892-1940), 
 
1 É o que deduz DOSSE, F. O desafio biográfico. 
2 Cf. BLOCH, Étienne; CRUZ, Ramirez. Marc Bloch (1886-1944): une biographie 
impossible. 
por exemplo – acabou, em alguns casos, produzindo uma análise 
amplificada de sua obra e de efeitos, cujos méritos e realizações são, em 
certos aspectos, superestimados, querendo enxergar nele virtudes 
fundadoras ou inovações seminais, quando um exame mais apurado 
revela a pertença a uma atmosfera de inovação historiográfica 
preexistente que Bloch absorve, sintetiza e dissemina. Isso não 
significa, evidentemente, que este estudo ignore os méritos ou 
realizações alcançados por Bloch, ao contrário, pretende apenas 
oferecer um contraponto àqueles que desejam se aproximar do 
pensamento daquele que foi um dos principais historiadores franceses 
de todos os tempos. 
As apresentações de Marc Bloch costumam reproduzir uma 
avaliação semelhante: ele não foi somente autor de obras decisivas 
sobre a história medieval ou de importantes reflexões sobre o método e 
o ensino de história; ao lado de Lucien Febvre (1878-1956) ele teria 
revolucionado a historiografia recente, por meio da criação da Escola 
dos Annales, cuja herança pode ser sentida ainda hoje na historiografia 
francesa e mundial3. Bloch e Febvre abriram uma nova seara nos 
estudos históricos rumo a uma História mais social, global e 
interdisciplinar, introduzindo uma nova compreensão do tempo e da 
temporalidade histórica, aperfeiçoando métodos e abordagens e 
constituindo uma nova matriz disciplinar historiográfica ao lado do 
marxismo e do historicismo. Foram responsáveis pela criação da revista 
histórica mais influente do século passado: os Annales.4 
Esta imagem duradoura, repetida por diferentes intérpretes 
confirma, de fato, o lugar destacado da escola dos Annales, constituída 
em torno da revista homônima e dirigida pelos dois historiadores 
franceses, que teriam se insurgido contra um determinado modelo de 
pesquisa e escrita da história atribuída aos historiadores metódicos 
aglutinados em torno de professores da Sorbonne como Gabriel Monod 
(1844-1912), Charles-Victor Langlois (1863-1929) e Charles Seignobos 
(1854-1942). Ela traduz o impacto e o mérito que Bloch e Febvre 
 
3 Embora vários autores questionem a existência de uma escola dada a 
heterogeneidade do grupo e das pesquisas que realizavam, há concordância em se 
falar em um movimento Annales, como indica IGGERS, Georg. Historiography in the 
Twentieth Century; BURKE, Peter. A Escola dos Annales (1929-1989): a Revolução 
Francesa da Historiografia; DOSSE, F. A história em migalhas dos “Annales” à “Nova 
História”; REIS, José Carlos. Nouvelle Histoire e o tempo histórico: a contribuição de 
Febvre, Bloch e Braudel ou ainda MASTROGREGORI, Massi. Il genio ell storico. Le 
considerazioni sulla storia di Marc Bloch e di Lucien Febvre e la tradizione metodologica 
francese. 
4 Para Le Goff o nascimento dos Annales está diretamente relacionado à criação da 
revista. LE GOFF, J. A história nova. In: A nova história, p.29. Inicialmente a revista se 
chamava Annales d'Histoire Économique et Sociale, em 1939 passou a chamar-
seAnnales d'Histoire Sociale, em 1946 sob a direção de Braudel intitulou-se Annales. 
Économies, Sociétés, Civilisations e em 1994 alterou-se novamente sua denominação 
para Annales. Histoire, Sciences Sociales. 
tiveram na consolidação de novos objetos e abordagens de estudo, 
introduzindo novas formas de se pensar e escrever a história. Oblitera, 
contudo, intensas disputas e apropriações praticadas pelos pais 
fundadores em relação a seus contemporâneos, bem como as fissuras 
existentes entre os dois em sua condução da revista entre 1929 e 1944. 
E não considera, por fim, o quanto Bloch e Febvre estavam integrados 
ao establishment,5 mais do que deseja a maior parte de seus intérpretes, 
afinal ambos foram apadrinhados pelos metódicos, particularmente pelo 
grupo de Monod6. Tanto Jacques Revel quanto André Burguière são 
categóricos ao afirmar que eles não eram outsiders, pois foram, desde 
cedo, integrados ao teatro historiográfico em espaços e veículos cujas 
contribuições dividiam com metódicos e positivistas e eram 
apadrinhados por expoentes dentro e fora da academia, escrevendo 
tanto para a revista de Monod quanto para a de Henri Berr (1863-
1954)7. 
 
Fisionomia de Bloch, ou a canonização biográfica. 
Marc Bloch recebeu pelo menos três excelentes textos biográficos, 
de Carole Fink, de Nicole Barthèlemy e de Olivier Dumoulin. Na 
primeira obra, um estudo rigoroso e detalhado, descortina-se um 
personagem singular do qual se busca encontrar uma identidade e 
simetria, harmonizando o cidadão francês, o soldado e o historiador. A 
autora aponta que o próprio Bloch reconhecia que sua obra estava 
sujeita a reações e revisões, mas se colocava como o precursor de uma 
nova história, gestada a partir da criação de uma revista que seria 
tomada como modelo por várias outras como a Past and Present (1952) 
ou o Journal of Social History (1966), cujo triunfo generalizado de sua 
história social e das mentalidades saldou-se, “quase inevitavelmente, 
num processo de fragmentação, competição e contestação”8. Mas, a 
autora esquece-se de que a revista dos Annales reproduzia modelos 
anteriores, como os da Historische Zeitschrift (1859) ou da Revue 
Historique (1876). Para Fink 
Bloch era um judeu assimilado da Terceira República, da 
Europa ocidental capitalista e imperialista, que passouna escrita de histórias mais globais que pudesse 
ainda ampliar o leque de possibilidades dos objetos históricos. Ele traz 
para o primeiro plano uma abordagem mais sociológica e que valorizava 
elementos psicossociais das representações coletivas. Para Bloch a 
história é uma ciência da mudança que elimina, por meio da pesquisa e 
da crítica documental, os caminhos obscuros da memória para melhor 
compreender as transformações e os processos de ruptura verificados. 
Ao contrário de Febvre, Bloch era um mais receptivo às teorizações, ao 
pensamento abstrato e via com bons olhos o contato mais estreito com 
a sociologia de Durkheim e Simiand95. Emanuel Le Roy Ladurie vê em 
Marc Bloch um precursor do estruturalismo. Sua ligação com a 
sociologia é marcante, aliás, Bloch e seus colegas historiadores liam 
com entusiasmo a Année Sociologique, revista criada por Emile 
Durkheim96. O conceito de representações e de consciência coletiva, tão 
usados por Bloch, vieram de seu mestre Durkheim. 
Marc Bloch é, portanto, durkheimiano, em todo o 
processo de pensamento que o conduz, num mesmo 
movimento, em direção ao social e ao mental (que ele 
chama antes de ´fatos psicológicos´). Ainda aprecia, além 
 
92 BREISACH, Ernst. Historiography: Ancient, Medieval and Modern, p.345. 
93 Basta ver ainda as hesitações de MATROGREGORI, Massimo. Existe uma formulação 
teórica em Marc Bloch e Lucien Febvre? In: Fernando Antônio NOVAIS & Rogério 
Forastieri da SILVA. Nova história em perspectiva. 
94 DOSSE, François. A história em migalhas, p.45. 
95 NOIRIEL, Gérard. Sur la crise de l´histoire, p.345. 
96 BARTHÈLEMY, Dominique. Marc Bloch, p.101. 
da Geografia, a Psicologia, a Linguistica de seu amigo 
Meillet (ela também comparativa).97 
Para Jacques Le Goff, em Os reis taumaturgos, Bloch fundou a 
antropologia histórica98 bem como fez um estudo pioneiro das 
mentalidades medievais, recorrendo a fontes multidisciplinares e 
valendo-se de uma abordagem e metodologia únicas. Nela há a 
influência considerável de Fustel de Coulanges, quando alia erudição, 
crítica documental e imaginação. Ali se dedicou a fazer o que mais 
gostava: desconstruir as falsas notícias, afastando-se do positivismo e 
enveredando pelo universo mental dos grupos sociais. A história 
idealizada por Bloch deveria orientar-se pela integração de uma história 
viva e de uma história problema99. 
O uso do conceito de representações coletivas em Os reis 
taumaturgos tornou esta obra, para muitos intérpretes, um livro 
precursor da história das mentalidades, mas o uso das ideias e da 
chamada consciência coletiva não era novo. Ele já tinha aparecido em 
estudos de Halbwachs, Charles Blondel, Lucien Febvre e Georges 
Lefebvre, por exemplo, ou ainda em momentos da obra de Jules 
Michelet. Interessa o fato de que Bloch analisa o problema da cura das 
escrófulas por meio da cerimônia de imposição das mãos dos reis da 
França e da Inglaterra seguindo o mesmo modus operandi do livro sobre 
As falsas notícias da guerra, ou seja, perseguindo aquilo que entende 
como sendo um problema de falsificação histórica. Bloch sabia que as 
falsas notícias tinham sempre origem em representações coletivas. 
Nessa obra, empenhou-se em demonstrar o brilho enganador dos reis100 
e apresentou uma inovadora abordagem política. Em suas palavras 
Se uma instituição destinada a fins particulares definidos 
por uma vontade individual está destinada a dominar 
toda uma nação, também deve ser incorporada nas 
correntes mais profundas da consciência coletiva. O 
inverso talvez seja também verdadeiro: para que uma 
vaga crença se cristalize num rito regular, é de alguma 
importância que vontades pessoais claramente expressas 
contribuam para que tome forma101. 
Embora tivesse conhecimento do respeito sobre suas obras, Bloch 
tinha consciência de sua provisoriedade: 
Se um dia, em virtude de investigações mais profundas, 
meu esboço caducar inteiramente, estarei certo de que ao 
contrapor à verdade histórica as minhas propostas 
equivocadas ainda assim eu terei ajudado a tomar 
 
97 BARTHÈLEMY, Dominique. Marc Bloch, p.101. 
98 LE GOFF, Jacques. A nova história, p.46. 
99MICHAUD, Francine. Marc Bloch (1886-1944). In: DAILEADER, Philip & WHALEN, 
Philip (org). New historical writing in twentieth century France, p.81. 
100 BARTHÈLEMY, Dominique. Marc Bloch, p.107. 
101 BLOCH, Marc. Os Reis Taumaturgos, p.86. 
consciência dessa verdade e me considerarei 
perfeitamente recompensado.102 
Ele via a história como a ciência da mudança e engrossando as 
fileiras do historicismo defende que ela 
sabe e ensina que dois eventos nunca se repetem de 
modo absolutamente igual, pois as condições nunca 
coincidem exatamente (...) Em suas páginas de pesquisa, 
as linhas, cujo traçado é ditado pelos fatos do passado, 
jamais serão retas; ela só encontrará linhas curvas e 
também serão curvas as que, por extrapolação, ela 
tentará prolongar na incerteza do tempo103. 
José Carlos Reis localiza em Henri Berr a maior parte das 
conquistas atribuídas aos Annales, a invenção da história problema, 
interdisciplinar, a aproximação especial com a psicologia, a defesa de 
novos objetos e campos de investigação, a exigência de uma história 
total104. Segundo Reis, 
Berr era apenas um ingênuo “embaixador das ciências 
humanas”, não tinha um projeto de poder, não visava a 
centralização institucional das ciências humanas pela 
história, apenas promovia “controvérsias corteses”105. 
Na verdade o próprio Bloch revela essa dívida em carta de 11 de 
fevereiro de 1943, quando reconhece o quanto ele e os historiadores de 
seu grupo deviam a profundidade do olhar, da audácia e da amizade de 
Berr106. A compreensão da centralidade de Henri Berr para a renovação 
historiográfica e sua importância no cenário intelectual europeu sofreu 
duro golpe com o desaparecimento de milhares de cartas que o diretor 
da Revue de Sinthèse preparava para editar107. As desavenças com 
Febvre também fizeram com que os familiares de Berr destruíssem as 
missivas entre ambos, conforme revelou Braudel108. 
Devo confessar, fazendo coro com Dosse, que “todo projeto 
científico é inseparável de um projeto de poder”109 e nesse sentido, os 
Annales se aproveitaram de um momento favorável, 
quando a economia está bloqueada nas faculdades de 
direito, a escola durkheimiana está dispersa e sempre 
dividida entre as faculdades de direito e de letras. Quanto 
à escola geográfica, ela parece ofegante: o lugar estava 
vago, os Annales o tomaram110. 
 
102 BLOCH, M. Traços característicos da história agrária francesa, p.30. 
103 BLOCH, M. A estranha derrota, p.110. 
104 REIS, José Carlos. Henri Berr. In: MALERBA, J. Lições de história, p.416. 
105 REIS, José Carlos. Henri Berr. In: MALERBA, J. Lições de história, p.420. 
106 BLOCH, M. Écrire La Société féodale, p.113. 
107 SIEGEL, Martin. Henri Berr et la Revue de Sinthèse Historique. In: CARBONELL, 
CH-O. & LIVET, G. Au berceau des Annales, p.215. 
108 BRAUDEL, F. Personal testimony. Journal of Modern History, p.460. 
109 DOSSE, F. A história em migalhas, p.45. 
110 DOSSE, F. A história me migalhas, p.46. 
Do ponto de vista político era necessário disputar os espaços com 
os tributários do historicismo alemão, com a geração de 1870 que ainda 
resistia nas estruturas de poder com cargos e honras e à emergência de 
grupos ligados a outros campos, sobretudo a economia e a sociologia. 
Ler a obra de juventude de Bloch nos coloca diante de um jovem 
estudante profundamente marcado pela historiografia tradicional. Em 
seu texto Metodologia histórica de 1906, afirma que a história não tem 
existência científica e que seu método é descritivo111. Contudo já 
percebia a necessidade do historiador interpretar os dados recolhidos. 
Em seu primeiro trabalho, L’Isle-de-France: les pays autour de Paris, de 
1913,Bloch realiza uma análise comparativa recorrendo a obras da 
França, Inglaterra e Alemanha sobre as transformações da economia 
rural de Paris e seus arredores na natureza e nas formas de servidão, 
evidenciando sua erudição e atenção as novas abordagens da ciência 
social. Ali já despontava seu interesse pela Idade Média, algo que 
patentearia logo depois, em Rois et serfs de 1925, na qual faz um 
rigoroso estudo analítico de fontes jurídicas, políticas e fiscais, 
servindo-se do método regressivo e comparativo, estudando os últimos 
reis Capetos e a emancipação dos servos do domínio real por Luis X e 
Filipe V. 
No começo de 1930 ofereceu-se para redigir um livro de 
metodologia para a editora Gallimard112, com alguns escritos sobre o 
método histórico que seria intitulado Historiadores em seu ofício.113 
Durante o ano de 1940 ele retomou esse projeto, redigindo um trabalho 
inacabado, Apologia da História ou o ofício do historiador, publicado 
postumamente, em 1949, por Lucien Febvre. Apesar de suas 
imperfeições, notadas por Duby e Le Goff, tornou-se uma das obras 
mais conhecidas de Bloch. 
Les Rois thaumaturges (1924) e Les Caractères originaux de 
l’histoire rurale française (1931) são vistos como as contribuições de 
maior durabilidade de Marc Bloch para a historiografia do início do 
século XX e XXI, por romper com as abordagens tradicionais existentes, 
realizando uma análise comparativa que se valia de fontes que 
remetiam às atitudes mentais introduzindo uma dimensão 
negligenciada pelos historiadores: a psicologia. Para isso, inspirou-se 
nos trabalhos de dois colegas da Fundação Thiers, Marcel Granet 
(1884-1940) e Louis Gernet (1882-1962), que publicaram estudos sobre 
rituais e mitos chineses e gregos. Mas, Reis taumaturgos sofreu várias 
críticas, como, por exemplo, desconsiderar Marcel Mauss e sua análise 
da teoria mágica e dos ritos religiosos, ou ainda da obra de Arnold Van 
Gennep (1873-1957) sobre os ritos de passagem. Para Peter Burke, 
 
111 BLOCH, M. história e historiadores, p.16. 
112 MICHAUD, Francine. Marc Bloch (1886-1944), p.43. 
113 MICHAUD, Francine. Marc Bloch (1886-1944), p.44. 
contudo, este livro antecipa a longa duração e o estudo de mentalidades 
e anuncia o que futuramente seria a antropologia histórica114. O método 
regressivo, que tem como uma de suas bases a inspiração na psicologia 
freudiana, é a principal marca de Les Caractères originaux de l’histoire 
rurale française, cuja investigação parte do presente para interpretar o 
passado. Esse método pode ser percebido numa expressão cunhada 
pelo próprio Bloch: explicar o presente pelo passado e explicar o 
passado pelo presente. Ou ainda fazer uma história ao inverso. Ele não 
era uma novidade, era utilizado há algum tempo por F. W. Maitland115. 
Nele Bloch combina ferramentas fundamentais do historiador como a 
erudição a crítica e a conceitualização. Também aponta a existência de 
uma mentalidade tipicamente rural ou tradicional, sem contar que se 
valeu de fontes diversificadas como mapas e até mesmo aerofotografias. 
Reconhecia o caráter preliminar deste trabalho, embora seus esforços 
tenham sido reconhecidos por diversos historiadores como Alphons 
Dopsch (1868-1953)116, Carl Brinkmann (1885-1954) e Gino Luzzatto 
(1878-1964). Pierre Toubert a considera uma das contribuições mais 
refinadas de Bloch, com sua síntese inigualável, embora reconheça que 
provavelmente a melhor obra de Bloch não seja exatamente um livro em 
particular, mas a Revista dos Annales. Em Caractères Bloch rompeu 
com “a mitologia conservadora de uma eterna ruralidade francesa, ao 
mostrar notadamente a importância das transformações agrárias e 
sociais do fim da Idade Média e do século XVIII”117. Este livro tem forte 
inspiração no estudo do inglês Frederick Seebohm (1909-1990), de 
1883, o The English Village Community Examined in its Relations to the 
Manorial and Tribal Systems and to the Common or Open Field System of 
Husbandry. 
No Que pedir à história, artigo publicado no Bulletin número 34 de 
janeiro de 1937, Bloch revela suas inspirações mais diretas: Lucien 
Febvre, Karl Marx, Henri Pirenne, Emile Durkheim, Jules Michelet e 
arremata citando Fustel de Coulanges, para o qual, a História não é 
uma “acumulação dos acontecimentos de toda a natureza que se deram 
no passado”118. Michelet, confessou, era um apaixonado pelas fontes 
originais que manuseou, procurando recuperar a consciência dos 
homens do passado, mas se deixava contaminar pelas paixões políticas 
de seu tempo, ao passo que Coulanges evitava confundir patriotismo e 
ciência, enfatizando ainda que não era “romântico nem germanista”119. 
De Coulanges retirou o modo de redigir suas histórias, com poucos 
 
114 BURKE, P. A Escola dos Annales, p.29-30. 
115 BURKE, P. A Escola dos Annales, p.35. 
116 Alfons Dopsch colaborou na Monumenta Germaniae Historica e ocupou a cadeira 
que havia sido de Ranke na Universidade de Berlim em 1921. 
117 BARTHÈLEMY, Dominique. Marc Bloch, p.110. 
118 BLOCH, M. história e historiadores, p.60. 
119 BLOCH, M. história e historiadores, p.252. 
retratos individuais, mas uma história em que o homem, longe de estar 
ausente é revelado pela sensibilidade de suas ideias e de suas 
instituições. 
Em relação à sua obra-prima, A sociedade feudal, novos estudos 
levantaram objeções a muitos aspectos, como sua definição confusa de 
feudalismo, suas incorreções geográficas, o tratamento insuficiente das 
instituições jurídicas, o recurso a amplos extratos sociais que oblitera 
diferenças internas, a excessiva esquematização da civilização feudal. O 
próprio Febvre o criticou, sentindo falta da humanidade e do homem 
medieval. Fazendo coro com François-Louis Ganshof, (1895-1980), Paul 
Ourliac sublinhou o descompasso entre a definição do feudalismo e a 
própria natureza jurídica e institucional do feudalismo, particularmente 
na relação soberania e propriedade120. Para o polonês Bronislaw 
Geremek, contudo, A sociedade feudal representa o êxito de um projeto 
de história total – cuja inspiração vem de Lamprecht, mas também da 
síntese de Berr, que alia uma fusão entre a síntese científica e a erudita 
–, ela é uma contribuição maior da coesão social e das possibilidades da 
compreensão humana a partir do comportamento social e psicológico. 
Leo Verriest, Dominique Barthèlemy e Pierre Bonassie criticam a obra 
por sua larga definição para o estatuto da servidão121. E Élisabeth 
Magnou-Nortier por sua tentativa de compreender a feudalidade 
somente através de mecanismos institucionais, dando pouca atenção às 
relações jurídicas122. Apesar disso há outros momentos problemáticos 
como a caracterização do feudalismo japonês ou o desejo de encontrar 
um sistema semelhante na África. De qualquer modo é preciso 
sublinhar, neste trabalho, o impressionante domínio da erudição e 
atualidade de Bloch: ele conhecia obras francesas, inglesas e alemãs 
antigas e contemporâneas. Há outras virtudes, como sua análise do 
regime senhorial e de vassalagem, por meio do método comparativo, na 
qual percebeu a existência da vassalagem em níveis inferiores. Como 
Bloch relacionava problemas econômicos e sociais, fica a questão se 
conhecia a obra de Max Weber, pois, são sensíveis as aproximações. 
Leitor de Marx, Bloch não opunha o feudalismo ao capitalismo como o 
alemão. A sociedade Feudal foi um livro escrito para a Bibliothèque de 
Synthèse de Henri Berr, através da indicação feita por Lucien Febvre123. 
Ela permanece, contudo, presa a padrões etnocêntricos: 
O esquema comparativo tem certamente o defeito de levar 
Marc Bloch a tratar as instituições sociais do passado 
 
120 Apud DUMOULIN, Oliver. Marc Bloch, p.69. 
121 Apud DUMOULIN, Oliver. Marc Bloch, p.127. 
122 MAGNOU-NORTIER, E. Les lois feudales e la société d´aprés Montesquieu e Marc 
Bloch ou la seigneuriebanale reconsidérée. Revue Historique, p.321-60. 
123 Ele diz que não conhecia entre os medievalistas de sua geração alguém dotado de 
um talento daquela envergadura. Apud PLUET-DESPATIN, Jacqueline. Introducion, 
p.17. 
com ares de superioridade: ele as faz desfilar sob os olhos 
do leitor, país após país, tema após tema, escolhendo os 
exemplos e enfatizando o que quer. Isso pode nos parecer 
hoje artificial ou superficial. Ele se fia, pela força das 
circunstâncias, em trabalhos de segunda mão, de que 
desconfia ás vezes, mas nem sempre: assim seus 
desenvolvimentos sobre a cavalaria e a nobreza, que ele 
próprio estudou menos que a servidão devem muito a 
Paul Gulhiermoz”124. 
Síntese ambiciosa que vai de 900 a 1300, com uma grande 
variedade de tópicos, com destaque para os modos de sentir e de pensar 
e o estudo sobre a memória coletiva; A sociedade feudal é seu trabalho 
mais durkheimiano ao se ocupar do problema da coesão social125. Não 
por acaso o último capítulo intitula-se O feudalismo como tipo social. 
Estima-se que tenham sido vendidos aproximadamente 80 mil 
exemplares desta até meados de 1994126. Entre os acertos iniciais e a 
publicação do primeiro volume, a redação levou 15 anos, de 1924 a 
1939, sendo que desde 1931 observam-se cartas de Bloch desculpando-
se pela demora. Bloch confessa seu desejo de fazer um livro de 
síntese127, tendo insistido para que o título não fosse aquele escolhido 
por Berr: O regime feudal. Outro ponto a destacar é o fato de que Bloch 
fazia cortes por amostragens em suas pesquisas empíricas, 
diferentemente da segunda geração dos Annales, que preferia a 
abordagem exaustiva e serial. Em todo caso, Bloch se equivoca ao negar 
a existência da nobreza no que ele chama da primeira idade feudal e a 
continuidade das grandes famílias. Algo que é duramente criticado por 
Karl F. Werner128. E não critica o excesso de germanidade para a Alta 
Idade Média – de meados dos anos 900 até o ano 1000, tampouco a 
influência da senhoria castelã, na sociedade francesa medieval. 
 
Considerações finais: Paris, capital da História no século XX? 
Entre 16 e 18 de junho de 1986, por iniciativa de Karl F. Werner, 
diretor do Instituto Histórico Alemão de Paris, realizou-se um colóquio 
internacional na Escola Normal Superior, patrocinado pela Escola de 
Altos Estudos em Ciências Sociais, ocasião em que diferentes 
especialistas fizeram um balanço da obra de Marc Bloch. Contemplando 
a obra e as realizações de Marc Bloch e o papel da revista dos Annales 
constata-se que, se o século XIX foi o século da História, o século XX 
teria sido o século de uma Nova História, no sentido do embate entre as 
 
124 BARTHÈLEMY, Dominique. Marc Bloch, p.112. 
125 BURKE, Peter. Escola dos Annales, p.36. 
126 Os direitos do contrato para Bloch foram estipulados da seguinte maneira, 10% 
sobre os primeiros 5 mil exemplares, 11% de 5 a 10 mil exemplares e 12% acima de 
10 mil exemplares. 
127 Carta de 29 de agosto de 1924. 
128 Apud BARTHÈLEMY, Dominique. Marc Bloch, p.114. 
formas tracionais e o advento de novas formas de investigar, analisar e 
escrever a história. Tal assertiva serve de advertência para o falso 
problema, muitas vezes posto, de dizer que a história metódica 
oitocentista privilegiou a dimensão política e a narrativa, ao passo que a 
história novecentista teria sido mais analítica e social, pois, 
efetivamente, não foi este o caso. 
Provavelmente a tentativa de apresentar um novo Marc Bloch ou 
ainda o propósito de realizar uma leitura a contrapelo de sua obra, 
metas que se encontravam em nosso protocolo inicial de intenções, não 
constituam novidade, nem tenham sido plenamente atingidas. Afinal, é 
sempre tarefa espinhosa tratar de autores ou obras consagradas já 
resenhados em análises primorosas. Desse modo, é possível concordar 
com Peter Burke e dizer que, se não foi o criador das inovações que 
praticava em sua abordagem, Bloch tem o mérito de utilizá-las de 
maneira mais efetiva que seus antecessores129. Em relação ao método, 
foi um apóstolo da comparação, da interdisciplinaridade, do recurso à 
compreensão e à abordagem regressiva. Para Jacques Le Goff, Bloch 
teria aberto três campos fecundos para a historiografia contemporânea: 
a história das mentalidades, a história política renovada e a 
antropologia histórica130. E escolhido temas inovadores como as 
representações do poder, a história rural ou a história das técnicas. 
É inegável que Marc Bloch conferiu um importante legado à 
disciplina histórica, sendo responsável pelo surgimento e expansão da 
história social na historiografia francesa e mundial. Forçoso, contudo, é 
reconhecer que tais inovações não eram exatamente criações originais 
suas, mas recursos mais sistematicamente utilizados e difundidos por 
ele, empregados por outros autores, franceses, ingleses e alemães. Não 
poderia ser diferente, afinal, Bloch tinha uma biblioteca de 
aproximadamente seis mil volumes e seu cosmopolitismo, marca dos 
grandes historiadores daquele tempo, contribuiu para que realizasse o 
difícil diálogo entre tradições historiográficas e de pensamento que 
estavam em choque. Herdeiro da tradição crítica metódica, Bloch “se 
impõe como um mediador principal entre a ciência histórica alemã e a 
história francesa”.131. Era isso que não o impedia de apreciar 
historiadores, como Fustel de Coulanges, cuja ingenuidade 
epistemológica foi duramente criticada como uma expressão da velha 
história científica de caráter historicizante132. De fato, até meados de 
1914 o peso desta velha história no pensamento de Bloch é enorme e a 
ânsia pela objetividade dos fatos históricos parece-lhe real. Otto Oexle 
fala de uma atmosfera, de um ambiente intelectual que, do ponto de 
 
129 BURKE, Peter. A Escola dos Annales, p.36. 
130 LE GOFF, J. La gênese du miracle royal. In: ATSMA, Hartmut; BURGUÈRE, André 
(orgs.). Marc Bloch aujourd´hui, p.147. 
131 DUMOULIN, Oliver. Marc Bloch, p.61. 
132 DOSSE, François. A história, p.44. 
vista sociológico o faz oscilar de Durkheim a Weber133. Sua trajetória 
acadêmica, sempre acolhida pelos antigos mestres da escola metódica, 
abre a possibilidade de se pensar na permanência e sucessão aos 
metódicos, com os quais mantiveram vínculos e receberam incentivos, 
cuja herança relativiza a tão falada ruptura ou vitória sobre a velha 
história. 
Ele tinha noção da provisoriedade de suas sínteses, reconhecendo 
que algo sempre resistiria à análise, mas evitava preencher “as lacunas 
de seus textos com hipóteses analógicas”134. Para Bloch, “a sociedade 
não é uma figura geométrica e uma demonstração em história não e 
uma demonstração de teoremas”135. Ele costumava comparar o 
historiador a um juiz de instrução, que trabalha com provas no intuito 
de descobrir a verdade em meio a testemunhos diversos e às vezes 
contraditórios. Assim, 
os livros de Bloch são ricos de ideias e hipóteses. 
Entretanto ele seguia invariavelmente a lei da 
honestidade que obriga todo o historiador a não lançar 
quaisquer teses que não possam ser verificadas136. 
Para ele, o primeiro dever de um historiador é, como dizia Pirenne 
fazendo coro aos alemães e a Michelet, interessar-se pela vida. O 
segundo é refletir sobre o presente, sem o qual é impossível 
compreender o passado. “São esses mesmos hábitos de crítica, de 
observação e, espero, de honestidade que tentei aplicar ao estudo dos 
trágicos acontecimentos nos quais acabei sendo um modesto ator”137. 
Bloch vivenciou os grandes debates teóricos de seu tempo, o 
Methodenstreit alemão vivido na querela dos herdeiros de Ranke e os 
precursores de uma história mais global e social, identificados a 
Lamprecht, dentre outros, acompanhou a penetração do marxismo nas 
universidades, conferindo maior atenção a aspectos econômicos e 
psicossociais. Procurou integrá-los, entusiasmado com a perspectiva da 
síntese histórica tal como proposta por Berr138.Sua principal virtude foi 
dotar de historicidade o arsenal metodológico da sociologia 
durkheimiana, colocando o instrumental desenvolvido neste campo a 
serviço da história. Mas, quero acreditar que seu maior debate não 
tenha sido travado exatamente contra o positivismo ou contra o 
historicismo, dos quais foram apropriados em maior ou menor grau 
determinados pressupostos epistemológicos (do primeiro a reserva ante 
 
133 OEXLE, O.G. Marc Bloch et la critique de la raison historique. In: BURGUIÈRE, A 
(org). Marc Bloch aujourd´hui, p.419-32. 
134 BARTHÈLEMY, Dominique. Marc Bloch, p.108. 
135 BLOCH, Marc. A sociedade feudal, p.371. 
136 GURIEVITCH, Aaron. A síntese histórica e a Escola dos Annales, p.61. 
137 BLOCH, M. A estranha derrota, p.12. 
138 GEREMEK, Bronislaw. Marc Bloch, historien et resistant. In: BLOCH, M. L´histoire, 
la Guerre, la Résistance, p.1040. 
a teorização abstrata, do segundo o método compreensivo, o cultivo à 
erudição, a busca pelos nexos) ou certos objetos de investigação (a 
história das raízes da pátria e da sociedade), mas contra estudos 
históricos tradicionais incapazes de produzir o diálogo com a 
historiografia europeia existente ou de indicar novos caminhos de 
investigação, mais interdisciplinares, mais afinados com as 
possibilidades técnicas e intelectuais e que respondessem às 
inquietações de seu tempo. Nesse sentido Bloch, ao lado de Febvre 
colocaram Paris no centro do universo historiográfico do século XX. 
 
 
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bolchevismo, do fascismo e do anti-semitismo militante. 
 
5 Tal é a sugestão que surge em RAPHAEL, Lutz. Die Erben von Bloch und Febvre e em 
RAULFF, Ulrich. Ein Historiker im 20. Jahrhundert: Marc Bloch. 
6 Como dão a entender tanto DUMOULIN, Oliver. Marc Bloch quanto DELACROIX, 
Christian. Le moment de l´histoire-science sociale (des années 1920 aux années 1940. 
In: DELACROIX, C., GARCIA, P. e DOSSE, F. Les courants historiques em France, 
p.200s. 
7 Sobre Berr ver: SIEGEL, Martin. Henri Berr et la Revue de Sinthèse Historique. In: 
CARBONELL, CH-O. & LIVET, G. Au berceau des Annales. 
8 FINK, Carole. Marc Bloch: uma vida na história, p.343. 
O seu mundo mental abrangeu centenas de anos e vários 
continentes, paisagens e idiomas. Era um patriota que 
amava a França e um cosmopolita convicto que media a 
história e realizações de seu país em comparação com um 
mundo mais vasto9. 
Olivier Dumoulin, por seu turno, traça um olhar mais crítico 
sobre Bloch. Segundo este autor, após sua morte trágica ao ser fuzilado 
pelos nazistas em 1944, teria ocorrido um processo de beatificação 
sobre ele e sua obra, de modo que raros eram os autores que 
levantavam críticas ou objeções ao seu legado. Neste ponto acompanha 
Peter Schöttler10 para o qual o advento da Segunda Guerra Mundial 
revelou fortes diferenças entre os fundadores dos Annales, fazendo 
surgir rusgas que seriam apagadas por Febvre após a morte do amigo, 
ao construir uma mitologia positiva em torno de Bloch, como já se vê 
em seu artigo Da história ao martírio publicado na revista dos Annales 
em 1945, no seu curso Honra e Pátria que lecionou na Sorbonne entre 
1945-6 – onde leu vários trechos d´A sociedade feudal e no texto Marc 
Bloch e Estrasburgo: lembranças de uma grande história que publicaria 
em 194711. Em seu Combates pela história, Febvre dedica um capítulo 
ao amigo, revelando como se deu o encontro de ambos, em uma das 
reuniões inaugurais da Universidade de Estrasburgo em outubro de 
1920, quando apesar dos 32 anos parecia ter 40. Mas, antes disso 
Febvre já havia escrito a Henri Berr dizendo ter visto Bloch, 
confessando: “acredito que nós nos entenderemos muito bem”12. Seus 
gabinetes eram contíguos e ambos deixavam as portas sempre abertas, 
de modo que os estudantes “passavam de uma sala a outra”13. 
Além daqueles dois biógrafos, em estudo recente, Dominique 
Barthèlemy também oscila entre o tom apologético e o crítico, quando 
revela: “por admiráveis que sejam, o seu estilo e o seu pensamento 
permanecem os de um professor da Terceira República”14. No retrato 
que configura a respeito de Bloch indica que: 
A preocupação com a erudição, com as discussões 
críticas, surge notadamente como um dos valores 
partilhados por todos os historiadores da Terceira 
República [positivistas ou não]. A organização coletiva do 
trabalho, orquestrada nos Annales para o campo 
econômico e social, também é uma palavra de ordem 
 
9 FINK, Carole. Marc Bloch, p.347. 
10 SCHÖTTLER, P. Lucien Febvre: Mythes et histoire. 
11 DUMOULIN, Oliver. Marc Bloch, p.113s. 
12 Carta de Febre a Bloch, outono de 1919. In: MÜLLER, Bertrand (org). Marc Bloch – 
Lucien Febvre. Correspondance, v.1, p.XIX. 
13 FEBVRE, Lucien. Combats pour l´Histoire, p.393. 
14 BARTHÈLEMY, Dominique. Marc Bloch, p.98. 
herdada da geração precedente, a da grande 
profissionalização15. 
Carole Fink analisa minuciosamente a trajetória biográfica e 
intelectual de Marc Bloch. Revela que descendia de judeus da França 
oriental e que seu avô – Marc (1816-1880) – e pai – Gustave (1848-
1923) também foram professores. O primeiro lecionou e dirigiu na 
Escola Israelita de Estrasburgo, tendo vivido o drama da guerra, da 
destruição da biblioteca municipal e da ocupação alemã após 1871, 
quando foi obrigado a lecionar em alemão e teve suas faculdades 
afetadas16. Gustave Bloch, seu pai, também viveu a experiência do 
cerco da Guerra Franco-Prussiana e a derrota francesa, foi um 
renomado professor de História Antiga, tendo lecionado nas Escolas 
Francesas de Atenas e de Roma, dez anos em Lyon, depois na Escola 
Normal Superior em 1888 e na Sorbonne a partir de 1894. Discípulo de 
Fustel de Coulanges (1830-1889), Gustave fazia parte do círculo de 
judeus assimilados, que, no ambiente liberal e reformista da Terceira 
República francesa, fez-se dreyfusard17 e membro da Liga dos Direitos 
do Homem, ao lado de figuras eminentes como o filósofo Henri Bergson 
(1859-1941). Durante a Primeira Guerra Mundial integrou o comitê da 
Liga Cívica e representou a Sorbonne na cerimônia de reabertura da 
Universidade de Estrasburgo, para a qual, seu filho, Marc Bloch, foi 
nomeado professor. 
O jovem Marc Bloch acompanhou de perto o drama em torno do 
caso Dreyfus, que envolvia questões relacionadas com o nacionalismo, o 
antissemitismo e a divulgação de falsas notícias sobre o episódio, por 
uma imprensa que jogava com a opinião francesa. O caso Dreyfus o fez 
perceber como falsas notícias distorcem a verdade dos fatos, algo que se 
repetiu na Primeira Guerra Mundial18. Segundo Fink isso teria 
despertado no jovem historiador uma preocupação com as falsificações 
na história19. Bloch estudou no Liceu Louis-Le-Grand, tendo se formado 
em instrução clássica (Letras e Filosofia) passou no baccalauréat em 
1903, e depois ingressou na Escola Normal Superior, em 1904, mesmo 
ano em que ela foi anexada à Universidade de Paris (Sorbonne). Naquele 
momento, a disciplina de História era obrigatória e lecionada por Emile 
 
15 BARTHÈLEMY, Dominique. Marc Bloch, p.102. 
16 FINK, Carole. Marc Bloch, p.2. 
17 Defensor da causa do capitão Alfred Dreyfus (1859-1935), judeu acusado de traição 
e condenado injustamente de ter colaborado com os alemães. O Caso Dreyfus ficou 
famoso por revelar a presença do antissemitismo na sociedade francesa. Ele ficou 
preso de 1894 a 1906 na Ilha do Diabo na Guiana Francesa, quando sua condenação 
foi revista pelo Tribunal de Apelação. Auxiliou em sua defesa o historiador Gabriel 
Monod (1844-1912). 
18 Para Bloch, “uma falsa notícia nasce sempre de representações coletivas que 
preexistem ao seu nascimento. Ela é o espelho, uma consciência coletiva”. BLOCH, M. 
Écrits de guerre, 1914-1918, p.23. 
19 FINK, Carole. Marc Bloch, p.22-3. 
Durkheim (1858-1917). Bloch adquiriu sua licença em 1905, mediante 
um estudo sobre os termos vassi e vassali nas capitulares de Carlos 
Magno. No segundo ano passou à orientação de Christian Pfister, um 
dos diretores da Revue Historique ao lado de Monod, quando obteve seu 
diploma de estudos superiores com uma pesquisa “sobre a história 
econômica e social da região sul de Paris”20. 
Naqueles seus anos de formação os dois jovens foram 
influenciados por uma série de correntes intelectuais e 
científicas, algumas contraditórias, outras às quais se 
sentiam ligados de modo diferente, mas que marcaram 
seus trabalhos e suas orientações nos Annales. 
Resumidas a número de três: a escola geográfica de Vidal 
de La Blache, o movimento criado em torno da Revue de 
Synthèse por Henri Berr, enfim a sociologia 
durkheimiana.21 
A estas eu acrescentaria a influência dos historiadores metódicos. Em 
1905, a maioria dos normalistas era protestante, situação que foi 
mudando bastante a partir de então com o ingresso de judeus e 
católicos22. No Collège de France ocorria o inverso: a maioria dos 
docentes era católica, tal situação teria peso enorme no seu destino 
acadêmico futuro. Em 1908, Bloch ganhou uma bolsa da Fundação 
Thiers e foi passar uma temporada de estudos na Alemanha. Foi lá que 
começou sua pesquisa de conclusão de curso, concluída sob a 
orientação de Christian Pfister, tratando do desaparecimento da 
servidão nos arredores de Paris entre os séculos XII e XIII. Nela fez um 
exaustivo estudo dos registroseclesiásticos disponíveis realizando uma 
análise detalhada de aspectos sócioeconômicos da manumissão. Ou 
seja, dedicou-se a estudar transformações da economia rural, sobretudo 
nas relações senhor-camponês, tema que era bastante estudado na 
Alemanha, mas pouco na França. Pfister era amigo próximo de Langlois 
e ambos tinham relações estreitas com Bloch. As inspirações para a 
tese vieram dos estudos de Karl Bücher (1847-1930), amigo de Jacob 
Burckhardt (1818-1897) e professor em Leipzig, um dos difusores da 
estatística e da história econômica na Alemanha e, também, do 
sociólogo Emile Durkheim (1858-1917). O primeiro, em sua obra, Die 
Entstehung der Volkwirtschaft (A ascensão da economia nacional) trouxe 
um novo olhar sobre a análise da economia pré-capitalista. O segundo 
generalizou o recurso aos estudos comparativos e dirigiu a revista de 
sociologia que era lida sistematicamente historiadores: a Année 
Sociologique. Ali se aproximou de temas que o acompanhariam por toda 
a vida: 
 
20 FINK, Carole. Marc Bloch, p.27. 
21 MÜLLER, Bertrand (org). Marc Bloch – Lucien Febvre, v.1., p.XIV. 
22 FINK, Carole. Marc Bloch, p.39. 
as formas e práticas de justiça feudal; o fim da antiga 
escravatura; as primeiras origens do feudalismo; o 
desenvolvimento dos dízimos; as características da 
nobreza; o papel do clero na sociedade e na economia; o 
desenvolvimento do comércio, da moeda e do crédito; a 
história da sociedade urbana de Roma à Idade Média; e 
os aspectos sociais e políticos da arte, literatura e 
arquitetura medievais23. 
Esse primeiro trabalho foi publicado na Revue de Synthèse 
Historique de Henri Berr, em partes, de 1903 a 1913, dentro da coleção 
intitulada Les régions de la France. Ao concluir a bolsa da Fundação 
Thiers, em 1912, obteve seu primeiro emprego, no Liceu de Montpellier. 
Naquele momento começou a interessar-se pela formação do povo e da 
monarquia francesa. Outra leitura alemã teria motivado-lhe alguma 
inspiração para esta pesquisa: Die rechtlichen Grundgedanken der 
franzöischen Königskröning mit besonderer Rücksicht auf die deutschen 
Verhältnisse (O conceito jurídico de Reino da França com especial 
referência às particularidades alemãs) de Hans Schreuer (1866-1931), 
publicada em 191124, em que os ritos de coroação franceses e alemães 
eram investigados à luz do desenvolvimento do poder real. Bloch leu e 
discutiu esta obra em Montpellier, cujos apontamentos ficaram 
guardados em uma pasta institulada Notas sobre os reinados 
sagrados25. Dela surgiu o interesse de redigir Os reis taumaturgos, de 
1924, onde apontou suas divergências com Schreuer em relação ao 
surgimento e às características da monarquia francesa e introduziu 
uma abordagem inovadora nos estudos históricos então vigentes, a 
respeito das representações coletivas, conceito extraído da sociologia 
durkheimiana. No começo do ano seguinte lecionou também em 
Amiens26, onde deu a aula sobre o texto que circulou entre os alunos, 
Crítica histórica e crítica de testemunho, um breve ensaio de metodologia 
da história, que realiza a tentativa de estabelecer a diferença entre o 
falso, o provável e o verdadeiro, assunto, diga-se de passagem, que 
remete à questão da crítica do perspectivismo realizada séculos antes 
por Johann Martin Chladenius (1710-1759) em seu Algemeine 
Geschicthswissenchaften de 1752, o qual havia dedicado vários 
capítulos à discussão do conceito de Sehepunkt (ponto de vista). Deve-
se ainda registrar que o debate sobre os testemunhos havia conhecido 
enormes avanços na França, em particular na Escola de Chartres desde 
 
23 FINK, Carole. Marc Bloch, p.43. 
24 SCHREUER, Hans. Die rechtlichen Grundgedanken der franzöischen Königskröning 
mit besonderer Rücksicht auf die deutschen Verhältnisse. 
25 Arquivo Nacional Francês, AB XIX, 3845. Apud: FINK, Carole. Marc Bloch, p.87. 
26 GURIEVITCH, Aaron. A síntese histórica e a Escola dos Annales, p.40. 
a publicação da obra de Jean Mabilon (1632-1707) De res diplomatica 
em 1681, como reconhece o próprio Bloch27. 
Em 1914 Bloch resenhou o livro daquele que no futuro viria a ser 
seu grande amigo e parceiro, Lucien Febvre, que versava sobre sua 
terra natal, a Histoire de Franche-Comté. Criticou seu estilo e linguagens 
exuberantes, sua abordagem superficial durante o medievo e a 
desconsideração da identidade social na região28. O troco de Febvre viria 
no futuro, em sua ácida resenha sobre A sociedade feudal. 
A atmosfera acadêmica francesa passava por um rico momento de 
transformação, com a emergência de novos campos e abordagens. Com 
destaque tanto para a sociologia, para a filosofia, quanto para a 
geografia que, passaram a desenvolver inovadoras propostas que se 
firmaram no ambiente intelectual. De um lado Comte (1798-1857), 
Durkheim, François Simiand (1873-1935) e Marcel Mauss (1872-1950) 
se destacaram nos estudos sociológicos que tiveram forte impacto sobre 
toda uma geração de historiadores. Bloch e Febvre, igualmente, tiveram 
como leitura obrigatória o livro de economia política de Simiand. 29 Esse 
grupo conseguiu desvencilhar-se da forte hegemonia teutônica exercida 
sobre o campo. Estrasburgo sintetizava esse espírito de renovação do 
pensamento francês e da influência científica exercida pelos alemães. 
Naquele momento, Simiand desferiu um ataque mortal à historiografia 
tradicional, condenando os chamados ídolos dos historiadores 
(cronológico, individual e político)30. O debate acalorou-se e contou 
inclusive com intervenções de Gustave Bloch que condenou tanto a 
contingência na história quanto a existência de uma objetividade 
absoluta. Para Carole Fink, “Bloch assumiu uma posição intermédia 
entre Seignobos e Durkheim, objectando contra a ‘falsa’ distinção entre 
o indivíduo e a sociedade, visto esta ser, simplesmente, um grupo de 
‘indivíduos’”31. Ele valorizava o estilo de Coulanges, cuja fotografia 
ficava sobre a mesa do gabinete de estudos do pai. De outro, Vidal de La 
Blache (1845-1918) e a nova escola de geografia humana, co-fundador 
da revista Annales de Géographie, rejeitavam o determinismo geográfico 
alemão. Por fim, no campo da filosofia, o pensamento do amigo de seu 
pai, Henri Bergson, inaugurou um forte debate com o positivismo 
filosófico, propondo categorias de duração, movimento, simultaneidade, 
 
27 BLOCH, Marc. Apologia da história ou o ofício do historiador, p.90s. 
28 Revue de Synthèse Historique, n.28, p.354-6, 1914. 
29 DOSSE, François. A história, p.73. 
30 SIMIAND, François. Método histórico e ciência social. A estes Bloch introduziria um 
quarto: o ídolo das fontes. Para ele “um documento é uma testemunha e, como a 
maior parte das testemunhas, só fala se interrogado. O difícil é elaborar o 
questionário. É aí que a comparação proporciona a esse perpétuo juiz de instrução 
que é o historiador um precioso auxílio. BLOCH, M. Para uma história comparada. In: 
BLOCH, MARC. História e historiadores, p.123. 
31 FINK, Carole. Marc Bloch, p.36. 
percepção e memória que teve influência em vários estudiosos e 
discípulos32. 
Com o início da Primeira Guerra Mundial, Bloch deixou Paris a 4 
de agosto, sendo destacado como sargento no 272º Regimento, 18ª 
Companhia, 4º Pelotão. Embora tenha passado a maior parte do tempo 
longe do front viveu alguns momentos de grande risco em Montmédy, 
em Larzincourt no Marne, nas trincheiras de Gurerie, estando adoentado 
várias vezes, tendo contraído disenteria e depois tifo, quando 
hospitalizou-se por mais de 5 meses em 1915. Deslocou-se para 
Argonne onde permaneceu até 1916. A 14 de dezembro seu 
destacamento foi transferido para a Argélia, quando percorreu 
Philippeville, Biskra, Constantine e Argel, tendo regressado à França 
somente em março de 191733. Em 24 de novembro retornou para sua 
terra natal, na Alsácia agora libertada em meio a calorosa e patrióticarecepção, indo depois para Paris encontrar-se com sua família. 
 
Cicatrizes formadoras: a originalidade e seus dilemas. Ou o 
apagamento da influência germânica em Estrasburgo. 
A atmosfera em que estudou era favoravelmente reformista, 
marcada pelo clima de revanchismo devido à derrota para os alemães 
na Guerra Franco-Prussiana (1870-1), que fez emergir um forte 
sentimento nacionalista francês. De todo modo, as relações francesas e 
alemãs na dimensão do pensamento continuavam marcadas por um 
diálogo constante e uma intensa atração34. Peter Schöttler, historiador 
do CNRS, alude à existência recalcada de uma clara inspiração alemã35 
e analisa o modo como nos seus períodos formativos Bloch e Febvre 
dialogaram diretamente com as ciências históricas alemãs. Febvre 
chega ao ponto de afirmar que era preciso “desaprender dos alemães”, e 
visitou aquele país em 191836. 
No caso dos estudos históricos, havia uma disseminação do 
modelo de seminário nas universidades, com a adoção de um enfoque 
científico, inspirado na escola rankeana. Esse modelo foi adotado após 
um processo de reforma capitaneada, sobretudo, por Ernest Lavisse 
 
32 FINK, Carole. Marc Bloch, p.32. 
33 FINK, Carole. Marc Bloch, p.80s. 
34 A respeito ver RINGER, Fritz. Fields of Knowledge: French Academic Culture in 
Comparative Perspective, 1890-1920 e também a recente dissertação de mestrado 
defendida por ROCHA, Sabrina M. Lucien Febvre, Marc Bloch e as ciências históricas 
alemãs (1928-1944). 
35 Ver SCHÖTTLER, Peter. “Desappendre de l’Allemagne”: les Annales et l’histoire 
pendant l’entre deux-guerres. In: CLARK, Stuart (ed.) The Annales critical 
assessments. 
36 SCHÖTTLER, Peter. French and German historians´ Networks: the case of de Early 
Annales. In: CHARLE, Christophe, SCHRIEWER, Jürgen & WAGNER, Peter (org.). 
Transnational Intellectual Networks. Forms of Academic Knowledge and the Search for 
Cultural Identities. 
(1842-1922) e Gabriel Monod (1844-1912). Curiosamente, ambos 
vivenciaram temporadas de estudos na Alemanha; o primeiro em Berlim 
no ano de 1875 – o que marcou sua produção acadêmica com cinco 
obras dedicadas à história daquele país – e o segundo, após ter sido 
aluno de Michelet (1798-1874) seguiu para o país vizinho onde foi aluno 
de Georg Waitz (1813-1886) – um dos pupilos de Leopold von Ranke 
(1795-1886) – em Göttingen em 1866 e, em seguida, estudou com o 
próprio Ranke na Universidade de Berlim no ano de 1867. Tais 
referências demonstram a mudança da orientação dos estudos 
históricos de uma esfera mais literária e romântica para outra mais 
cientificamente orientada, nos moldes preconizados por Ernest Renan 
(1823-1892)37 e por Fustel de Coulanges (1830-1889)38. É com esse 
espírito – ao mesmo tempo influenciado pelo pensamento alemão, mas 
sob acentuada afirmação nacionalista – que foi oferecido, entre 1896 e 
1897, na Sorbonne o famoso curso de historiografia de Charles 
Seignobos (que entre 1876 e 1877 fez cursos em Göttingen, Berlim, 
Munique e Leipzig) e Charles-Victor Langlois, quando se firmaram 
princípios e técnicas mais rigorosos de pesquisa e de crítica documental 
históricas que ficariam celebrizadas em seu famoso manual39 cujo 
modelo foi o Lehrbuch der historischen Methode, publicado em 1889 por 
Ernst Bernheim (1850-1942). Vale dizer que Bloch foi aluno de Langlois 
e Seignobos, assim como de Gabriel Monod, que havia fundado a Revue 
Historique, tendo como modelo a Historische Zeitschrift alemã. Para 
Michel de Certeau aquele período marca um momento de repolitização 
da ciência, que não seria um retorno da ideologia à pesquisa, mas, de 
postura crítica da presença de ideologias no universo científico40. Na 
análise de André Burguière, a geração de 1870 tinha fascínio pelo 
pensamento social alemão, ao mesmo tempo em que deplorava, 
paradoxalmente, seu nacionalismo. Salienta ainda a influência pessoal 
e intelectual exercida por Henri Berr sobre aquela geração41. 
A ênfase sobre a história política, muito disseminada pelos 
alemães, começava a ser combatida até mesmo por Gabriel Monod que 
em um artigo publicado na Revue Historique defendia uma história que 
se ocupasse mais do lento desenvolvimento das instituições e das 
condições econômicas e sociais42. Ao lado dele também estavam Henri 
Hauser (1866-1946) que introduziu o estudo da história econômica na 
Sorbonne e Ferdinand Lot (1866-1952) um dos criadores da La Revue 
 
37 Em sua Reforma intelectual e moral de 1871. 
38 Ver, seus textos programáticos sobre a história científica em HARTOG, François. O 
século XIX e a história: o caso Fustel de Coulanges. 
39 LANGLOIS, Charles V. & SEIGNOBOS, Victor. Introdução aos estudos históricos. 
(primeira edição francesa 1898). 
40 CERTEAU, Michel de. A operação historiográfica. In: A escrita da história, p.72s. 
41 BURGUIÈRE, André. L´École des Annales – une histoire intelectuelle, p.27. 
42 Revue Historique, n.61, 1898, p.325. 
d´Histoire des Doctrines Economiques et Sociales (1908), que depois de 
1914 passou a se intitular La Revue d´Histoire Economique. Do outro 
lado do Reno, na Universidade de Leipzig, Karl Lamprecht (1856-1915) 
vinha defendendo desde o início do século XX uma história total e 
voltada para as questões sócioculturais, que pudesse englobar a 
totalidade das ações humanas43. Ele se inseria no famoso debate 
alemão sobre o método (Methodenstreit) que teve forte repercussão na 
historiografia francesa na primeira década do século XX44. Seu aluno e 
discípulo, o belga Henri Pirenne (1862-1935) em seus estudos sobre as 
cidades e sobre a Bélgica, também escreveria um novo tipo de história 
seguindo estes pressupostos, mais global e integrava aspectos, 
culturais, demográficos e econômicos. Pirenne também exerceu forte 
influência sobre Marc Bloch e sobre os Annales. Forçoso é lembrar que 
ele também realizou estudos na Alemanha, entre 1883 e 1884, junto à 
Universidade de Leipzig, assistindo aos seminários de Harry Bresslau 
(1848-1926), Georg Waitz e Gustav Schmoller (1838-1917). Erudito, 
apreciador de uma história total, sócioeconômica e comparativa, 
presidiu o 5º Congresso Internacional de Ciências Históricas em 1923 
na cidade de Bruxelas, que havia sido criado em 1898 em Haia e que 
tinha mais de mil filiados. Apesar de ser um dos editores da Revista 
Quadrimestral de Economia Alemã, Pirenne impediu a participação de 
pesquisadores alemães naquele congresso, e, também dos russos, por 
conta de divergências ideológicas. Foi lá que Bloch estabeleceu vários 
contatos e falou sobre o caráter sagrado da realeza. A partir de então 
começou a corresponder-se com vários especialistas estrangeiros. 
De modo semelhante aos alemães, Bloch aproximou-se das 
ciências sociais, também entendidas como ciências auxiliares. 
Especialista em história comparada conseguia enxergar com clareza 
peculiaridades e aspectos pontuais da sociedade medieval, revendo as 
aporias do realismo existente nas fontes. Valorizava a pesquisa de 
arquivo e a erudição, “seu mundo mental abrangeu centenas de anos e 
vários continentes, paisagens e idiomas”45. Conhecia e lia em grego, 
latim, espanhol, russo, sueco, inglês e alemão. Seu recurso ao método 
comparativo inspirava-se, sobretudo, nos trabalhos do amigo Antoine 
Meillet (1866-1936)46, que inspirou também Henri Sée (1864-1936), 
mas ele era utilizado frequentemente em muitos artigos da Année 
Sociologique e na obra de Henri Pirenne. Bloch o considerava uma 
excelente ferramenta para pesquisa histórica e o defendia para 
 
43 MICHAUD, Francine. Marc Bloch (1886-1944). In: DAILEADER, Philip & WHALEN, 
Philip (org). New historical writing in twentieth century France, p.78. 
44 Ver, especialmente, LAMPRECHT, Karl. What is history? Five lectures on the modern 
science of history. 
45 FINK, Carole. Marc Bloch, p.346. 
46 Que segundo ele insistiu vivamentenesse ponto ao estudar as línguas. BLOCH, M. 
Comparaison. Revue de Synthèse, 49, junho, p.31-39, 1930. 
distinguir nas sociedades europeias aquilo que fosse genuíno do mais 
comum. Para ele, o “método comparativo pode muito; considero a sua 
generalização e o seu aperfeiçoamento uma das necessidades mais 
prementes que hoje se impõem aos estudos históricos”47. 
Sua perspectiva era a da compreensão histórica, evitando 
sistemas gerais como os de Oswald Spengler (1880-1936) ou H. G. Wells 
(1866-1946), rejeitando o marxismo mais ortodoxo, mantendo, contudo, 
sua fidelidade a Coulanges e Durkheim. A atração pela história 
econômica, do mesmo modo, desenvolveu-se no contato com a 
historiografia alemã. Contudo, seu interesse maior, ou predileção, era o 
estudo dos sistemas fundiários e da economia rural, campo dominado 
por historiadores como Georg Hanssen (1904-1944), Georg F. Knapp 
(1842-1926), August Meitzen (1822-1910) ou Frederick Maitland (1850-
1906). Os caracteres originais da história rural francesa, obra que 
sintetiza esse interesse, publicam-se em 1931. Com sete capítulos, o 
primeiro dedicado a elucidar os procedimentos da pesquisa e nos outros 
as fases de ocupação do solo, os vários tipos de campos, o 
desenvolvimento do regime feudal, a relação entre senhores e servos, 
tipos de vida, avanço das técnicas de recuperação e exploração dos 
solos e os padrões de continuidade entre o passado e o presente. 
Henri Berr, outra figura exponencial naquele contexto, professor 
de retórica no Liceu Henri IV e fundador da Revue de Synthèse 
Historique (1900), já era um ardoroso defensor da interdisciplinaridade 
e fundador de um fecundo debate sobre os usos da metodologia e a 
importância da história para os estudos sociais48. Berr também nutria 
grande interesse e combatia com vigor o pensamento alemão em seu 
tempo. Não por acaso devotou duas obras para analisar a história e o 
pensamento germânico49. Nas páginas de sua revista, publicou 
inúmeros artigos sobre historiadores e teóricos alemães como Karl 
Lamprecht, Friedrich Meinecke (1862-1954) e Heinrich Rickert (1863-
1936) dentre outros. Tinha boas relações com Lamprecht, que, como 
ele, era um crítico do ambiente intelectual germânico em seu tempo. 
Em 1923, Berr criou o Centro Internacional de Síntese, mas, ao 
contrário de Febvre e Bloch, jamais quis criar uma escola ou disciplinar 
seguidores à moda de Durkheim50. Sua revista, contudo, seria modelar 
para Febvre que a considerava o “cavalo de Tróia da nova história”51. 
É nesse ambiente que se amalgama o pensamento e a consciência 
histórica de Marc Bloch. Testemunha desse debate e imerso naquela 
 
47 BLOCH, Marc. Para uma história comparada das sociedades europeias. In: História 
e historiadores, p.119. Este texto é o que ele apresentou em sua comunicação em Oslo. 
48 PLUET-DESPATIN, Jacqueline. Introducion. In: BLOCH, M. Écrire La Société féodale. 
Paris, Imec Éditions, 1992, p.13. 
49 BERR, H. Les allemagnes e Le germanisme contre l´esprit française. 
50 DOSSE, François. A história em migalhas: dos Annales à nova História, p.45. 
51 Apud PLUET-DESPATIN, Jacqueline. Introducion, p.14. 
atmosfera de inovação, inicialmente ele se preocupa com a cientificidade 
e a objetividade da história, que poderiam ser alcançadas por meio da 
crítica documental, acompanhando seus mestres Monod, Langlois e 
Seignobos. Mas, embora se servisse da sociologia positivista, percebia 
que certos fenômenos históricos eram mais complexos e escapavam a 
generalizações mais rígidas. Nesse sentido, alertava para uma dimensão 
psicossocial – que ligavam o objeto investigado e o historiador – que 
poderiam receber infinitas interpretações. Precisamente aqui expunha 
sua cicatriz formadora de origem: a estadia na Alemanha, entre 1908 e 
1909, que o fizera aproximar-se da história econômica, dos estudos 
medievais e do método compreensivo. Aluno em Berlim e depois em 
Leipzig, Bloch assistiu às aulas de Max Sering (1857-1939) que 
estudava sistemas fundiários e de preços na Alemanha, Rudolf 
Kötzschke (1867-1949) especialista em História econômica medieval 
discípulo de Lamprecht e professor em Leipzig; Adolf von Harnack 
(1851-1930), teólogo e historiador do cristianismo e da igreja medieval; 
Rudolf Eberstadt (1856-1922) com pesquisas sobre o desenvolvimento 
fundiário e habitacional urbano e Karl Bücher (1847-1930) importante 
historiador econômico e estudioso da imprensa. Foi na Alemanha que 
conheceu os louros obtidos com a Monumenta Germaniae Historica, que 
acompanhou o debate em torno da escola de Lamprecht, os 
desenvolvimentos dos estudos econômicos com a escola de Schmoller e 
a inovação sociológica com a obra de Max Weber (1864-1920)52. Ali 
conheceu a maturidade de uma história científica, autônoma e 
triunfante, cujos expoentes encontravam-se articulados em diferentes 
centros de ensino ligados a importantes universidades e projetos 
editoriais que passavam por um processo de grande renovação. 
Em 1919 Marc Bloch foi convidado a lecionar na reinaugurada 
Universidade de Estrasburgo como professor assistente de História 
Medieval53, sua escolha havia sido motivada por seu novo reitor, 
Christian Pfister. Criada em 1538 pelos protestantes, ela acabava de ser 
novamente aberta pelos franceses depois do controle alemão de quase 
meio século, entre 1871 e 1918. Sua biblioteca era a maior acadêmica 
do mundo, ela seria superada por Harvard somente em 1920. Isso dá a 
dimensão dos esforços germânicos que inclusive tinham-na batizado de 
Kaiser Wilhelms-Universität Strassburg, para que fosse um importante 
centro difusor do pensamento alemão encravado em território 
anteriormente francês e bem no coração da Europa. Todos os 
professores alemães foram demitidos, por lá haviam passado nomes 
como Wilhelm Windelband (1848-1915) entre 1882 e 1912 e Georg 
 
52 Pelo menos é o que creem OEXLE, O. G. Marc Bloch et la critique de la raison 
historique. In: ATSMA, Hartmut; BURGUÈRE, André (orgs.). Marc Bloch aujourd´hui, 
p.85 e GURIEVITCH, Aaron. A síntese histórica e a Escola dos Annales, p.57. 
53 A Faculdade de Letras e Ciências Humanas, Estrasburgo II, leva hoje o nome de 
Marc Bloch. 
Simmel (1858-1918) em 1914. Entre os alunos, mais de 800, muitos 
não falavam francês, de modo que além de História Medieval, Bloch 
ensinou também francês elementar. Entre os livros, Bloch percebeu a 
inexistência de obras de história francesa bem como nenhum livro de 
Fustel de Coulanges54.Em julho de 1919, regressou a Paris para se 
casar com Simonne Vidal. Juntos tiveram seis filhos, Alice (1920), 
Etienne (1921), Louis (1923), Daniel (1926), Jean-Paul (1929) e 
Suzanne (1930). 
Em Estrasburgo Bloch substituiu o antigo coordenador do 
Seminar alemão e passou a dirigir o Instituto de História da Idade 
Média. Lá encontrou o livro de Johann Joachim Zentgraf (1643-1707) 
sobre os ritos curativos dos reis franceses, o Tractatus de foederibus 
sive pactis, quae cum humano genere Deus iniit et de Testamentis divinis 
de 1706. A universidade criou também um convênio com o Centro de 
Estudos Germânicos na Universidade de Mainz, onde havia soldados e 
cidadãos franceses, onde Bloch deu várias aulas e foi examinador 
convidado para bancas de conclusão de curso. Em Estrasburgo, reinava 
um clima interdisciplinar e de síntese, no qual todos os professores da 
Faculdade se encontravam aos sábados para apresentar suas pesquisas 
e trabalhos, discutindo ainda temas relacionados com literatura, 
metodologia e teoria. Participaram como convidados desses encontros 
Gustave Bloch e Henri Pirenne. Eram frequentadores assíduos os 
estrasburguenses: Febvre, que havia deixado uma cadeira na 
Universidade de Dijon, Bloch e o amigo Maurice Halbwachs (1877-
1945), dentre outros. 
Devido a uma dispensa especial oficial do governo para aqueles 
que tinham lutado na guerra, Bloch defendeu um trabalho sintético 
paraobter o doutorado, cuja banca de seis membros foi presidida por 
Charles Seignobos, obtendo a nota máxima, très honorable. Ele havia 
entregue o que chamou de uma segunda edição de um trabalho de 1912 
já publicado: Les formes de la rupture de l´hommage dans l´ancien droit 
féodal, com a inclusão do indicativo de novas fontes e uma discussão 
abreviada da metodologia empregada. Sua tese principal foi publicada 
em seguida Rois et serfs, no qual estudou duas cartas de alforria, uma 
de Luís X, de 1315 e outra de Filipe V, de 1318 em torno das quais 
tinham sido produzidas várias falsificações históricas. 
O estilo e o método de Bloch manifestaram-se em Rois et 
serfs. Não havia narrativa. Em vez disso, como um 
investigador judicial, Bloch procedia a um exame aos 
documentos, colocando rigorosas questões (que 
invariavelmente conduziam a outras) e inserindo 
ocasionalmente um comentário sucinto a respeito da 
própria prova55. 
 
54 Carta a Ferdinand Lot, 11 de janeiro de 1920. Apud: FINK, Carole. Marc Bloch, p.86. 
55 FINK, Carole. Marc Bloch, p.86. 
Suas virtudes incluíam o recurso a aspectos jurídicos, sociais, 
políticos, econômicos e psicológicos a fim de construir uma imagem 
mais próxima do passado. Destacavam-se suas preocupações 
sócioeconômicas e o apelo à compreensão (Verstehen) à moda dos 
alemães. Apreciador da erudição e da crítica era um professor severo, 
frio, elegante, irônico, cáustico e corrosivo, nos dizeres de alguns ex-
alunos56. Não seria ocioso dizer ainda, que Bloch havia lido Marx e 
apreciava a obra e a atuação política de Jean Jaurès (1859-1914). 
Valorizava a síntese, a objetividade e a abertura às novas ideias. 
“Extremamente orgulhoso de seu cosmopolitismo, Bloch tinha horror 
pelas compartimentalizações”57 e encorajava seus alunos a aprenderem 
alemão, cuja historiografia admirava, embora criticasse o germe do 
nacionalismo excessivo que se ocultava sob a superfície científica de 
muitos trabalhos. Apesar de alsaciano, Bloch nunca estudou assuntos 
locais. Enquanto o grupo do reitor Pfister, intitulado jacobino, era mais 
atuante, Bloch manteve-se ao lado dos non-engagés, afinal, diz: 
Nós saímos da última guerra desesperadamente 
cansados e, após quatro anos não só de combates mas de 
preguiça mental, estávamos mais que ansiosos por voltar 
aos nossos empregos habituais e por pegar nas 
ferramentas que estavam enferrujando nas nossas 
bancadas.58 
De qualquer modo, apesar do interesse crescente dos leitores pela 
vida cotidiana, sobre as condições de vida nas sociedades humanas do 
passado e do flagelo da guerra que deslocou o interesse para a história 
dos grupos, sociedades e indivíduos, a história política e nacional não 
desapareceram. 
 
Ambições acadêmicas e máquinas de guerra: será que a história 
nos enganou? 
A necessidade de constituir um veículo próprio para disseminar 
seus estudos e sua compreensão da história leva Bloch e Febvre a 
criarem sua própria revista de história. A ideia inicial partiu de Lucien 
Febvre, que manifestou o interesse de criar uma revista internacional 
de história em 1921. Ele levou essa proposta à Seção de História 
Econômica no Congresso Internacional de Bruxelas em 192359, quando 
após um impasse sobre a inclusão ou não dos alemães acabou sendo 
esquecida60. No começo de 1928, Bloch reviveu a ideia, mas propondo a 
criação de uma revista nacional de excelência com colaboradores 
 
56 BRUNSCHWIG, Henri. Vingt ans aprés (1964). Souvenirs sur Marc Bloch. In: 
BLOCH, M. L´histoire, la Guerre, la Résistance, p.1022. 
57 FINK, Carole. Marc Bloch, p.98. 
58 BLOCH, Marc. A estranha derrota, p.215. 
59 MÜLLER, Bertrand (org). Marc Bloch – Lucien Febvre, v.1, p.XXII. 
60 Como revela LYON, Brice & LYON, Mary. The birth of Annales History: the letters of 
Lucien Febvre and Marc Bloch to Henri Pirenne (1921-1935). 
internacionais. Henri Pirenne havia sido convidado para ser um dos 
diretores dessa nova revista, mas declinou. Foi então que se 
empenharam, ao longo do ano de 1928, tocando intensa 
correspondência. Instalados na Universidade de Estrasburgo, 
alimentavam o desejo de ocupar uma cadeira de história nas 
prestigiosas instituições da capital, o Collège de France ou então a 
Sorbonne. E a revista, bem o sabiam, poderia ser a ferramenta 
indispensável para isso. No verão de 1928, Bloch foi para o 6º 
Congresso Internacional de Ciências Históricas, em Oslo, onde 
anunciou a criação dos Annales de Histoire Economique et Sociale e lá 
fez os contatos necessários para angariar os primeiros colaboradores e 
artigos61. No panfleto que levou a esse respeito indicava que o novo 
periódico seria orientado para os problemas e não para antiquários. 
Não queremos uma revista de erudição pura e seca, de 
uma nomenclatura usada de fabricantes de fichas em 
série, nós queremos uma revista bem informada, que 
possa se ler e que sustente seu contingente de 
informações não somente nos especialistas, no sentido 
estreito do termo, de história “econômica” – mas a todos 
os historiadores e mais geralmente a todos aqueles que 
se interessam pela vida intelectual, que se intitulam 
sociólogos, filósofos, juristas ou economistas.62 
A ideia de uma história problema não era nova, já havia sido 
proposta por historiadores como Lord Acton, na Inglaterra ou Michelet, 
na França. Ela se opunha à história relato, na qual os acontecimentos 
eram encadeados numa sequencia causal. Estabeleceram contatos com 
alguns editores, como Émile Bréhier da Livraria Universitária J. 
Gamber, Pierre Caron das Edições Rieder, e com E. Schneider, da 
editora Alcan; este último revela que sua editora já publicava o Journal 
des Économistes. Depois de negociações com as editoras Alcan e 
Armand Colin, firmaram contrato com esta última. Os Annales 
deveriam ser um manual atualizado de combate, escrito em linguagem 
acessível e para difundir as principais realizações no campo da história 
econômica e social realizados na França e em outros países. 
Ambiciosos, antes mesmo de sair o primeiro número da revista, 
no final de 1928, Febvre e Bloch anunciaram sua candidatura a uma 
cadeira no Collège de France. Diga-se de passagem, que o desejo de 
lecionar em Paris era natural. Lá estavam as melhores universidades, 
alunos, arquivos organizados, atividade cultural, editoras, revistas e 
bibliotecas. Como a revista ainda não lhes havia auferido certa 
preeminência no cenário historiográfico francês, embora já tivessem 
produzido trabalhos com certa repercussão, não deixou de ser uma 
 
61 Vide carta de Bloch a Febvre de 22 de agosto de 1928. In: MÜLLER, Bertrand (org). 
Marc Bloch – Lucien Febvre, v.1, p.48. 
62 Carta de Febvre de 1º de março de 1922. In: The birth of Annales History, p.32. 
estratégia eficiente de disputa da hegemonia exercida pelos periódicos 
fundados em Paris. Febvre era oito anos mais velho que Bloch, filho 
único, estudioso, que havia passado pela Escola Normal Superior pouco 
antes de sua reforma e incorporação à Sorbonne. Escolheu abraçar a 
carreira de historiador para rever “a história vista pelos vencidos de 
1879”63 e por meio do estímulo de três normaliens: Gustave Bloch, 
Gabriel Monod e Christian Pfister. Pode-se dizer que suas influências 
foram o pensamento dos amigos e psicólogos Henri Wallon (1879-1962) 
e Charles Blondel (1876-1939), do germanista Ernst Tonnelat (1877-
1948), mas também de Vidal de La Blache, Durkheim, Meillet, Lucien 
Levy-Bruhl (1857-1939), Henri Pirenne e, sobretudo, pelo espírito de 
síntese de Henri Berr. Admirado pelos pares, professor imaginativo e 
brilhante criou em Estrasburgo o Instituto de História Moderna. 
As relações de Febvre com os intelectuais mais velhos e suas 
qualificações acadêmicas e profissionais eram tão consideráveis quanto 
as de Bloch em 1928, embora este tivesse o apoio do próprio pai, 
professor famosoda Sorbonne, e pelo notável Henri Pirenne. Mas, 
Febvre tinha acabado de publicar um estudo muito comentado sobre 
Martinho Lutero. Seu perfil humanista e cosmopolita o projetava para 
além de Estrasburgo. Personalidades semelhantes, ambos eram 
patriotas e procuravam manter-se longe das disputas políticas. Bloch 
acabou declinando de sua candidatura ao Collège de France em prol do 
amigo. Naquele ano, Febvre havia completado 50 anos. Dois anos antes, 
em 1926, sua candidatura para a cadeira que havia sido de Charles 
Seignobos foi rejeitada na Sorbonne; em março de 1932 ele também 
havia tentado sem sucesso. Sua sorte mudou quando o ministro da 
Educação criou uma nova cadeira de História Moderna no Collège e 
escolheu Febvre para dirigir a prestigiosa Encyclopèdie Française, onde 
liderou mais de 300 colaboradores. Assim, Febvre foi escolhido por 
unanimidade para a cadeira recém-criada. Em carta para Bloch afirma: 
“agora será a sua vez”. 
De fato, naquela altura Bloch destacava-se internacionalmente, 
graças ao reconhecimento da revista dos Annales, tendo recebido a 
incumbência de escrever um livro sobre a Idade Média para a coleção de 
Henri Berr na sua coleção Evolução da Humanidade, deu aulas em 
Gand, em Madri, e na London School of Economics. Em 1933 surgiu 
uma nova vaga no Collège com a morte do germanista Charles Andler e 
Bloch passou a escrever cartas para angariar simpatizantes à sua 
candidatura, mas, naquela conjuntura, sua condição judaica foi um 
fator que pesou na sua recusa. Neste mesmo ano a artrite deixou suas 
mãos quase paralisadas e ele teve que ser substituído nas aulas por 
Charles-Edmond Perrin64. Não foi escolhido. Com a morte de Camille 
 
63 Apud: FINK, Carole. Marc Bloch, p.140. 
64 MÜLLER, Bertrand (org). Marc Bloch – Lucien Febvre, v.2, p.XIX. 
Jullian, nova vaga se abriu em 1934. Febvre que havia levado a revista 
dos Annales para Paris vinha sendo criticado pelo amigo, que chamou 
de “muito parisiense”, de muito devotado à sua nau enciclopédica (a 
Enciclopédia Francesa) e de dar pouca atenção ao periódico65. Durante 
a campanha, novos reveses surpreenderam Bloch e, por fim a própria 
suspensão da seleção, devido a cortes orçamentários do governo em 
virtude da guerra. A crise na relação entre ambos, que havia piorado 
com a transferência da revista, para Bloch “era, com nossa separação, 
inevitável, por todo tipo de razões”66. Passam a discordar inclusive do 
volume dos artigos, alguns longos demais para Febvre, que diz que não 
poderiam mais “dar lugar a artigos de erudição, que são intermináveis, 
nós não somos a Revista Belga de Filologia”67; outros vagos demais para 
Bloch que afirma que deviam aceitar “apenas os [artigos] sérios e 
instrutivos. Isso que tenho horror, o artigo vago, sobretudo sobre fatos 
contemporâneos”68. Ainda em 1934, Bloch foi convidado para redigir 
um texto sobre a economia medieval para a Cambridge Economic 
History. 
Em 1935 é aberta uma nova cadeira, a de História do Trabalho de 
François Simiand, e Bloch se apresenta com mais quatro candidatos. A 
psicologia acabou triunfando sobre a sua proposta de história 
comparada das sociedades europeias. Febvre confessou-lhe que o 
antissemitismo poderia ser o fator que vinha atrapalhando sua 
escolha69. A relação entre ambos vivia momentos difíceis. Febvre havia 
inclusive se empenhado na candidatura de Émile Dolléans (1878-1954), 
algo que Bloch não conseguiu compreender. Ele protesta, inclusive, 
outras vezes, quando vê Febvre publicar resenhas elogiosas a trabalhos 
de seus concorrentes70. As relações entre Berr e Febvre também não 
eram mais as mesmas. Berr organizou para a Biblioteca Nacional uma 
exposição sobre a Enciclopédia e os enciclopedistas e ali lançou um 
jornal de natureza enciclopédica que, de certo modo, concorria com o 
projeto de Febvre: o Science. Colaboradores nos projetos de ambos entre 
si, a aparição do primeiro número de Science “surpreende 
desagradavelmente Febvre”, em particular seu subtítulo: A Enciclopédia 
anual71 que reagiu violentamente, deixando todos os postos de direção 
que ocupava na Revue e no Centre de Berr, embora tenha revisto tal 
 
65 MÜLLER, Bertrand (org). Marc Bloch – Lucien Febvre, v.2, p.XXVIII. 
66 Carta de 22 de janeiro de 1934, MÜLLER, Bertrand (org). Marc Bloch – Lucien 
Febvre, v.2, p.13. 
67 Carta para Bloch de 23 de janeiro de 1935, In: MÜLLER, Bertrand (org). Marc Bloch 
– Lucien Febvre, v.2, p.204-205. 
68 Apud MÜLLER, Bertrand (org). Marc Bloch – Lucien Febvre, v.2 p.XXXI. 
69 A recusa do nome de Bloch é, segundo Febvre, atribuída a dimensões institucionais 
– com as mudanças verificadas no Còllege – e confessionais. Os católicos eram 
maioria, face aos quatro judeus e aos dois protestantes. 
70 MULLER, B., v.2, p.XX. 
71 MULLER, B., v.2, p.XXIX. 
decisão depois, falando que se tratara de um gesto impulsivo. Mas, a 
partir de então suas colaborações se resumiram a meras notas 
críticas72 nas páginas da revista do antigo amigo e, a partir de 1936, 
Febvre não publicou mais73. 
O exaustivo trabalho de seleção, de produção de resenhas e textos 
para os Annales tomou o tempo de seus diretores principais que 
voltaram a publicar obras fundamentais anos depois: A sociedade 
feudal (1939-1940), por Bloch e O problema da descrença ou a religião 
de Rabelais no século XVI (1942) por Febvre. O grande problema da 
Revista dos Annales era a difícil captação de assinantes e redução 
sensível das vendas. A disputa com a Revue Historique era desigual: 
estes podiam contar com os artigos dos melhores nomes existentes no 
cenário historiográfico francês 
Com a morte de François Simiand, Bloch mais uma vez se anima 
a candidatar-se ao Collège, mas, com a vaga da cadeira de Henri Hauser 
na Sorbonne, a única cátedra de história econômica que existia, ele 
resolveu optar pelo caminho mais seguro. Neste ano, 1935, havia 
morrido Pirenne, que também vinha tendo atritos com Febvre. Isso 
motivou mudanças na revista, cujo conselho diretor raramente se 
reunia. Ficava claro que Febvre estava a construir um caminho próprio 
de preeminência, gerando turbulências com seus antigos colegas e 
parceiros. Eleito, Bloch seguiu para a Sorbonne em 1936, mesmo ano 
em que foi criado o Centre Nacional de la Recherche Scientifique (CNRS). 
Na Sorbonne foi um professor admirado e popular. Seu primeiro curso 
foi sobre “A paisagem rural e a instituição senhorial na França e na 
Inglaterra, das origens até o século XIX”74. Criou com Maurice 
Halbwachs o Instituto de História Econômica e Social. Sua obra 
idealizada em 1931, sobre o feudalismo, começou finalmente a ganhar 
corpo. Depois de esboços publicados esparsamente ele pode sintetizá-
los na esperada A sociedade feudal, com o primeiro volume publicado 
em 1939 e o segundo em 1940 na prestigiada coleção de Henri Berr. 
Nela transcendeu os esquematismos jurídicos ou os textos localizados, 
para realizar uma grande síntese sobre o feudalismo europeu, inclusive 
tecendo comparações com outros lugares, como o Japão. De certo 
modo, sua abordagem de uma história global remete à História da 
Europa redigida por Pirenne na prisão entre 1914 e 191875. Essa obra 
coroa sua longa e difícil colocação no universo historiográfico de então. 
 
72 As críticas feitas a Berr, categóricas, podem ser vistas na carta que remete a Bloch 
em 21 de janeiro de 1934: “Berr veio em casa hoje à noite. Ele me irrita, me incomoda, 
ele se revela mais e mais um intransigente, fechado e incompreensivo e um tipo de 
messianismo beato sai de seus olhos, que o impede de ver a realidade”. IN: MÜLLER, 
Bertrand (org). Marc Bloch – Lucien Febvre, v.2, p. XXX. 
73 MÜLLER, Bertrand (org). Marc Bloch – Lucien Febvre, v.3, p.XI. 
74 BARTHÈLEMY, Dominique. Marc Bloch. In: SALES, Véronique (org.). Os 
historiadores, p.111. 
75 PIRENNE, H. Histoire de la Belgique.Paris: Alcan, 1936. 
Contudo, A sociedade feudal tem suas restrições, sua Europa era 
o mundo carolíngio, ignorava praticamente o clero e a burguesia, e 
sugeria o surgimento do nacionalismo no século XIII. Mas a crítica mais 
contundente veio do próprio amigo: Febvre reputou o livro como muito 
esquemático, desprovido de pessoas concretas e com um enfoque 
estreito de civilização. Antes mesmo da publicação do segundo volume, 
Bloch teve que regressar ao exército, juntando-se a milhares de 
reservistas para combater a ameaça nazista. Em relação à revista, 
Febvre se impôs, mudou seu nome, trocou membros do corpo editorial. 
Naquele momento, 1940, Bloch perguntou a Febvre o que achava de 
sua possível candidatura à direção da Escola Normal Superior, o amigo 
respondeu que tinha uma personalidade muito inflexível e que do ponto 
de vista profissional tal pleito poderia ser compreendido pelos rivais 
como ambição desmedida. Aponta por fim, o antissemitismo como um 
obstáculo ao seu pleito. Em 1939 Bloch deu aulas na EHESS, em 
Bruxelas, em Cambridge e em Estrasburgo. Em meados de agosto 
viajou à Genebra. Aflito com o futuro dos filhos, que estavam perto de 
ingressar na faculdade, com a sorte da família, que era judia, ele redigiu 
A estranha derrota. Obra em três partes, com uma abordagem típica de 
uma acusação judicial: o depoimento de um vencido, o exame de 
consciência de um francês e uma avaliação militar e política da derrota. 
Ali narra também suas experiências na guerra, redigidas “febrilmente 
de julho a setembro de 1940”76. E indicou o despreparo e a inatividade 
dos franceses para o conflito. Havia falta de equipamentos, problemas 
de avaliação e liderança das operações, dificuldades de comunicação 
com os aliados belgas e ingleses. 
Em 1939 a revista dos Annales foi reduzida a quatro números e 
passou a ser publicado pelos próprios diretores, recebendo o título de 
Annales d´Histoire Sociale. No editorial justificaram a mudança do 
nome, devido aos direitos do antigo editor, Armand Colin e a 
tranquilidade sobre a continuação da revista. O pomo da discórdia 
havia sido o número especial sobre a Alemanha de novembro de 1937. 
A partir de então “surgiram desacordos graves acerca de determinados 
artigos e recensões e verificaram-se debates processuais acerca do 
controle e tomada de decisões”77. Bloch reclamava da falta de reuniões 
entre os editores e dos atrasos na publicação. A grande divergência, 
contudo, vinha do fato de que Febvre buscava novos talentos e desejava 
constituir uma revista mais voltada para a história social, assumindo 
uma postura mais combativa e política, passando a atacar diretamente 
o poder representado pela geração de historiadores metódicos em 
Paris78. Bloch queria uma revista mais econômica, pedia mais 
 
76 BOURDÉ, G., MARTIN, H. As escolas históricas, p.124. 
77 FINK, Carole. Marc Bloch, p.163. 
78 Como no duro ataque a Charles Seignobos. Un essai d´histoire européenne. Annales 
d´Histoire Sociale, p.294, 1939. 
“seriedade e inteligência” e menos panfletismo. Com a intensificação da 
guerra e sua chegada ao território francês Bloch decide se mobilizar 
novamente e Febvre ficou sozinho na condução dos Annales. Naquele 
momento a grande ameaça da revista não era somente a indiferença da 
Sorbonne, mas o afastamento de seus diretores. Detalhe importante a 
considerar é que nos seus 17 anos de permanência em Estrasburgo, 
Bloch só concluiu uma orientação de mestrado, realizada pelo 
americano William Mendel Newman (1902-1977), cujo diário revela uma 
relação turbulenta, marcada por desentendimentos constantes e várias 
referências negativas às aulas e à personalidade de seu tutor79. Naquele 
momento, definiram-se algumas características que marcaram a 
imagem da Revista dos Annales: predomínio dos artigos em história 
econômica, praticamente nada sobre biografias, história eclesiástica, 
política diplomática ou militar, ou de história das ideias. Poucos artigos 
também sobre história social ou cultural. Era antimarxista, valorizava a 
interdisciplinaridade, rejeitava o historicismo alemão e todas as formas 
de determinismo. Segundo Fink, “com recursos e ambições limitados 
não criou séquitos nem escolas, mas fez irradiar um espírito de 
abertura próprio”80. Mas isso já existia na Revue de Synthèse, por 
exemplo. 
Durante o início das operações de guerra Bloch leu romances 
policiais, em especial de Agatha Christie, fez duas viagens à Paris, ouviu 
Bethoven e Mozart, comeu sanduíche em um café e assistiu a alguns 
filmes81. E confessa: “a ideia dominante dos alemães na condução desta 
guerra era a velocidade. Nós, pelo contrário, pensávamos em termos de 
ontem e de anteontem (...) fomos totalmente incapazes de compreender 
o ritmo acelerado dos tempos”82. Se a defesa da França havia sido uma 
lástima assim como os pífios contra-ataques, a retirada foi exemplar, 
embora os ingleses tenham embarcado antes das tropas francesas que 
abandonaram Dunquerque por último no dia 5 de junho de 1940. Em 
Rennes, Bloch adotou, em suas próprias palavras, uma “solução de 
professor”, vestindo-se de civil, hospedando-se em um hotel e evitando 
ser capturado pelos alemães. 
A ocupação alemã pôs fim à Terceira República e criou, 
virtualmente, três Franças: uma exilada com De Gaulle em Londres, 
outra ocupada e administrada pelos alemães e uma terceira, a zona 
livre administrada a partir da cidade de Vichy, que se tornou 
colaboracionista e autoritária. Sobre Bloch o risco de ser judeu. Foi a 
Vichy obter licença para lecionar, sendo deslocado para Clemont-
Ferrand, onde estava parte da sua antiga Universidade de Estrasburgo 
 
79 FINK, Carole. Marc Bloch, p.173. 
80 FINK, Carole. Marc Bloch, p.167. 
81 FINK, Carole. Marc Bloch, p.218. 
82 BLOCH, Marc. A estranha derrota, p.69. 
evacuada. A política antissemita adotou leis excluindo os judeus do 
serviço público. Para lá levou toda sua família e começou a avaliar as 
possibilidades de exílio. Com dificuldades obteve uma bolsa da 
Fundação Rockfeller para lecionar nos Estados Unidos, mas não teria 
como levar toda a família (mãe, filha e filho de 17 anos não poderia 
deixar a França), bem como teria dificuldades para obter passaportes. 
Mas, graças ao reitor Jérome Carcopino (1881-1970), pode se manter 
empregado, apesar de ser judeu, bem como teve permissão para levar 
toda a família para os Estados Unidos. Foi duas vezes à Marselha para 
obter vistos e preparar a viagem. Mas seus recursos não seriam 
suficientes. Aos 54 anos redigiu seu testamento no ano 1941, pouco 
depois sua mãe morreu e sua esposa adoeceu. Passou a ler e a lecionar 
e redigiu o esboço para projetos futuros: uma história da França, outra 
sobre a moeda francesa, estudos sobre o Império Germânico, sobre os 
Estados Unidos, um romance policial e uma obra sobre o ofício do 
historiador83. 
Para que a revista dos Annales não fosse encerrada pelos 
nazistas, travou uma enorme discussão com seu amigo, pedindo que 
interrompesse a publicação. Mas Febvre insistiu em mantê-la e retirou 
o nome do amigo da direção, que enviou a partir daí somente quatro 
colaborações sob o pseudônimo de Fougères. Antes Febvre havia 
sugerido a Bloch que desistisse da sociedade e lhe concedesse a direção 
exclusiva da revista. No meio de tantas crises, Bloch conseguiu os 
vistos, mas não viajou. Continuou redigindo seu Apologia da história, 
teve que ir lecionar em Montpellier e apreensivo com a perseguição aos 
judeus, resolveu proteger sua família e também seus livros, que 
chegaram a ser confiscados, com o decreto de liquidação de todos os 
bens judeus em Paris. No verão de 1942 sintetizou suas notas e 
apontamentos no livro Estranha derrota. Naquele ano a revista passou a 
se chamar Mélanges d´Histoire Sociale. As provas da revista ou as 
indicações dos textos a serem publicados não eram mais comunicadas 
a Bloch que se queixava ao amigo84.Apologia da história é uma obra nitidamente inspirada na 
abordagem compreensiva e erudita alemã combinada ao espírito prático 
e de síntese de Bloch. Buscar as causas, encontrar os nexos, a busca 
pela imparcialidade, a necessidade da crítica documental, entre outros 
aspectos, conferiram-lhe um lugar de destaque nos estudos históricos, 
embora seus méritos sejam bastante modestos. Não há ali, nenhuma 
novidade. Inclusive seria incorreto pensar que esta obra, e não os textos 
combativos na revista que dirigia, foi responsável pela fundação da 
Escola dos Annales. Redigida entre 1941 e 1942 a obra procura discutir 
o ofício do historiador. Segundo Bloch 
 
83 BLOCH, Étienne. Souvenirs d´um fils. In: BURGUIÈRE, A. ASTMA, p.35. 
84 Carta de Marc Bloch a Lucien Febvre de 17 de outubro de 1942. Apud: MÜLLER, B. 
Marc Bloch – Lucien Febvre , v.3, p.219-24. 
A história não apenas é uma ciência em marcha. É 
também uma ciência na infância: como todas aquelas 
que têm por objeto o espírito humano, esse temporão no 
campo do conhecimento racional. Ou, para dizer melhor, 
velha sob a forma embrionária da narrativa, de há muito 
apinhada de ficções, há mais tempo ainda colada aos 
acontecimentos mais imediatamente apreensíveis, ela 
permanece, como empreendimento racional de análise, 
jovem. Tem dificuldades para penetrar, enfim, no 
subterrâneo dos fatos de superfície, para rejeitar, depois 
das seduções da lenda ou da retórica, os venenos, 
atualmente mais perigosos, da rotina erudita e do 
empirismo, disfarçados de senso comum. Ela ainda não 
ultrapassou, quanto a alguns dos problemas essenciais 
de seu método, os primeiros passos85. 
Para Otto Oexle, Bloch faz, a seu modo, empresa semelhante à de 
Dilthey: a crítica da razão histórica, afinal “os fatos históricos são, por 
essência, fatos psicológicos e as condições sociais, em sua natureza 
profunda, mentais86. Alude também à influência certamente sofrida de 
Georg Simmel e de Max Weber, pois ambos remetem os fatos sociais à 
dinâmicas mentais. 
A intensificação das perseguições o fez, aos 56 anos, ingressar na 
Resistência Francesa, entre o fim de 1942 e o início de 1943, com a 
qual ele havia tido contatos em Montpellier. Adotou o codinome de 
Nardonne e passou a colaborar com o Le Franc-Tireur, jornal de combate 
aos nazistas. Na Páscoa de 1943 encontrou-se, pela última vez com o 
amigo Febvre em Le Souget. Esteve mais seis vezes em Paris para se 
encontrar com a esposa e filhos. Capturado na Pont de la Boucle, em 
Lyon no dia 9 de março de 1944, foi preso e submetido a duas sessões 
de tortura. Depois disso, ficou quase um mês na enfermaria devido a 
uma pneumonia. Recuperado, sofreu mais dois interrogatórios e foi 
novamente torturado. Transferido para uma nova cela, em Montluc, no 
dia 16 de junho de 1944, por volta das nove horas, ele e mais 28 presos 
foram conduzidos a um caminhão e, em Saint-Didier-de-Formans, de 
quatro em quatro eram obrigados a descer do caminham, recebiam 
rajadas de metralhadora e depois tiros na cabeça ou na nuca. 
Milagrosamente dois sobreviveram, mas não Marc Bloch. Após sua 
morte, sua esposa, menos de um mês depois faleceria em Lyon. 
 
Legado: renovação em que termos? 
Poucos professores universitários franceses se sacrificaram pela 
pátria. Não foi à toa, portanto, que Bloch recebeu várias homenagens de 
Febvre, de amigos e dos franceses. Sozinho na revista, Febvre também 
 
85 BLOCH, M. Apologia da história, p.47. 
86 OEXLE, O. G. Marc Bloch et la critique de la raison historique. In: ATSMA, 
Hartmut; BURGUÈRE, André (orgs.). Marc Bloch aujourd´hui, p.419. 
ocupou cargos destacados que auxiliaram na consolidação do grupo dos 
Annales: dirigia a Sexta Seção, os Annales, era presidente da comissão 
científica do CNRS, vice-presidente da Fundação Nacional de Ciências 
Científicas, diretor da Enciclopédia Francesa e também da coleção 
Destinos do Mundo87. Quando Braudel assumiu a direção da revista, 
empenhou-se em inserir Bloch e Febvre numa aura de inovação do 
pensamento historiográfico francês, como expoentes do movimento de 
criação de uma nova História88. Quando deixou, em 1968, a direção da 
Maison des Sciences de l´Homme e dos Annales, uma nova geração 
composta, por Jacques Le Goff, André Burguière e Emmanuel Le Roy 
Ladurie assumiram o periódico e se destacaram no cenário 
historiográfico, agora mais multifacetado. As ambições dos pais 
fundadores são abandonadas, da história total, do recurso ao método 
comparativo, da abordagem social, em função da aproximação com 
novos campos do saber como a linguística, a hermenêutica, a 
antropologia e as mentalidades89. A consolidação da revista e a 
notabilização de Bloch e Febvre coincidiu com o momento em que suas 
abordagens foram decisivamente preteridas pelos novos annalistes. 
Embora a obra de Bloch tenha passado por muitas revisões críticas, seu 
lugar de herói nacional e de modelo para os aspirantes a historiadores é 
inconteste. 
Conhecer o conteúdo da correspondência trocada entre Bloch e 
Febvre e entre estes e Pirenne ou Berr, por exemplo, permite conhecer o 
clima intelectual que envolveu o surgimento dos Annales. Nas cartas, 
embora a revista dos Annales não seja o principal motivo, ela é 
onipresente90. Aliás, a correspondência anterior a 1928 entre os 
fundadores dos Annales não existe ou não foi preservada. Além dos 
Annales, Bloch publicava também na Revue Historique e na Le Moyen 
Âge e Febvre e era do comitê diretor da Revue d´Histoire Moderne 
(1925), com Febvre publicava regularmente resenhas para a Revue 
Critique d´Histoire et de Littérature e artigos para a Revue de Synthèse 
Historique.91 
A respeito de seu contributo teórico, Ernst Breisach assinala que, 
embora expressivos em seus temas e campos e 
 
87 FINK, Carole. Marc Bloch, p.334. 
88 Basta ver BRAUDEL, Fernand. “1944-1964: Marc Bloch”, p. 833-834 ou BRAUDEL, 
Fernand. “Marc Bloch à l‟honneur”, p.91-92. 
89 Ver, sobretudo DOSSE, François. A história em migalhas, VAINFAS, R. História das 
mentalidades e história cultural. In: CARDOSO, C.F. & VAINFAS, R. Domínios da história; 
REVEL, J. Mentalidades: uma particularidade francesa? História de uma noção e de 
seus usos. In: ——. História e historiografia: ensaios críticos; BURGUIÈRE, A. La notion 
de mentalité chez Marc Bloch et Lucien Febvre: deux conceptions, deux filiations e 
CHARTIER, R. História intelectual e história das mentalidades: uma dupla reavaliação. 
In: ——. História Cultural entre práticas e representações. 
90 MÜLLER, B. Marc Bloch – Lucien Febvre , v.1, p.VII. 
91 MÜLLER, B. Marc Bloch – Lucien Febvre, v.1, p.X. 
a despeito de seu inabalável revisionismo, Febvre e Bloch 
não foram particularmente ativos no campo da teoria da 
história (...) No fim das contas, existem algum ingrediente 
teórico na historiografia dos Annales, mas poucos livros 
de teoria.92 
Tal constatação não é isolada93. François Dosse já duvidava da 
revolução historiográfica dos Annales desde os anos 1980. Para ele, o 
grupo era mais original pela afirmação de um programa do que pelo 
programa metodológico em si94. André Burguière acompanha tal leitura, 
valorizando a importância política do grupo, mais que sua originalidade 
epistemológica (1999). Ele enfatiza a análise do que identifica como 
sendo um projeto político e um projeto de poder que construiu uma 
imagem de grupo marginal e polêmico, antidogmático. E reconhece o 
quanto essa imagem não corresponde à realidade. Muito identificados 
ao seu tempo, Bloch e Febvre estavam enraizados no cenário 
historiográfico e mantinham boas relações com a geração que ocupava 
os espaços mais prestigiados. 
De qualquer modo, forçoso é reconhecer que Marc Bloch 
contribuiu decisivamente para o desenvolvimento da erudição nos 
estudos históricos franceses, aproximando a História das ciências 
sociais e insistindo