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PETER GAY A EXPERIÊNCIA BURGUESA DA RAINHA VITÓRIA A FREUD A EDUCAÇÃO DOS SENTIDOS Tradução: PER SALTER reimpressão VENDA PROIBIDA CORTESIA DA EDITORA COMPANHIA DAS LETRASperança de mudanças, compromissos com instituições parlamentares ou com alguma lide- I rança carismática, opções por uma ou outra estratégia empresarial e uma infinidade de ou- tros sentimentos e atividades são em parte racionais e em parte irracionais, frutos tanto do raciocínio como de desejos não satisfeitos que OS indivíduos e OS grupos mal conhecem e que dificilmente poderão admitir. Categorias psicanalíticas que se proponham a explicar essas experiências, tão ricas em sua estratificação, não são canais pelos quais devem fluir obrigatoriamente as interpretações históricas; são apenas descrições de opções humanas, disponíveis ou inacessíveis. Abrem ao historiador inúmeras oportunidades para apreender as múltiplas dimensões do passado, bem como a participação relativa de cada uma no pre- cipitado resultante, que é a experiência. É por isso que submeto minuciosa análise que chamo de pressões da realidade, tão variadas como a implantação das ferrovias, a vulcani- zação da borracha, a vitória sobre a febre puerperal, a persistência de hierarquias sociais. Foram essas pressões que fizeram da experiência burguesa que ela veio a ser. ESFORÇOS PARA UMA DEFINIÇÃO É claro que a rigor não houve experiência burguesa no século XIX nem em qualquer outro; houve tão-somente experiências de burgueses. Conforme é do conhecimento de to- do historiador imbuído de alguma tendência psicanalítica, a experiência de um indivíduo difere, ainda que levemente, da experiência de qualquer outro. Escrever a história da expe- riência burguesa no século XIX, introduzir-me tão inquisitivamente quanto for possível na mentalidade da classe média, implica arriscar-me a generalizações bastante arrojadas. Só Um ingrediente preocupante, apesar de por vezes apenas perceptível, da indivíduo ama e odeia, aprimora seus gostos nas artes e no mobiliário, sente-se contente da burguesia do século XIX foi a ansiedade com que ela procurou definir a si própria: nos momentos de realização, ansioso em tempos de perigo, e furioso com OS agentes que hierarquias internas, seu status na sociedade, seu relacionamento com as demais classe lhe provocam alguma privação; só indivíduo se regozija com poder ou lança sobre suas características morais. "Lanço um apelo às classes médias", escrevia Thackeray e mundo sua vingança. O mais é metáfora. Vanity Fair [Feira das Porém, conquanto ele e seus leitores julgassem o sign Uma metáfora todavia necessária. Pois todos seres humanos compartilham pelo ficado desse apelo perfeitamente claro, nenhum deles podia ter certeza de que assim foss menos sua humanidade suas paixões, sua trajetória em direção à maturidade, suas neces- Havia muita coisa duvidosa: ideais, perspectivas e numa dose bem considerável sidades irreprimíveis. E cada qual estabelece seus laços sociais, pertence a culturas parciais que expõem a conjuntos previsíveis de experiências, quais constituem famílias sufi- significado dos termos. As formas das pirâmides sociais, que alicerçavam aspirações e CO: cientemente semelhantes entre si para seduzir historiador a emitir julgamentos coletivos. cessões, encontravam-se parcialmente obscurecidas por sutis distinções sociais e A filiação religiosa, a vizinhança urbana, a comunidade lingüística e, no século XIX, a clas- cias conflitantes; seus limites superiores e inferiores freqüentemente se perdiam na névo se social, moldam indivíduo de forma a torná-lo reconhecível como membro de diversas que recobria as encarniçadas lutas dos grupos que procuravam agregar-se à burguesi sociedades. atingir a idade escolar, a criança já é uma pequena antologia viva de sua desligar-se dela ou ascender dentro dela. Ademais, as lendas que pesavam sobre a histór cultura particular uma cultura parcial, de fato única, um indivíduo, sem dúvida alguma, das classes médias, unidas aos debates que de longa data se travavam sobre sua reputação mas ainda assim uma testemunha altamente informativa dos vários mundos de que faz par- contribuíram para gerar, em meio a avanços impetuosos e a um otimismo sóbrio, um vag te. É por isso que meandros da psicanálise, suas teorias e suas técnicas, podem construir sentimento de identidade, que por vezes beirava o ódio a si mesmo. Uma consciência bu justamente aquela ponte entre a experiência individual e a coletiva que a maioria dos histo- guesa ampla e opressora transtornou muita gente no século XIX, e, no século XX, viria riadores, profundamente constrangida pela orientação freudiana, insiste em considerar pro- cerbar OS esforços dos historiadores que procuram realizar um mapeamento retrospe blemática. Pois o indivíduo, visto pela ótica psicanalítica, é um indivíduo social. Até mes- tivo. mo a mais secreta das batalhas é predominantemente inconsciente, a repressão do Freqüentemente, contudo, são OS mitos, as contradições e as distorções neurótica complexo de Édipo ocorre, conforme observa Freud, sob "a influência da autoridade, da que constituem a chave para as realidades históricas. Deles é que surgirão, de fato, instrução religiosa, da educação, das leituras". Outras experiências, por mais pessoais e mentos essenciais para qualquer definição logicamente válida do que foram as classes me íntimas que sejam, tampouco deixam de ser culturais por sua natureza e por suas implica- dias do século XIX. Eu considero essas classes como uma família de anseios e de ansied: ções. Explica-se assim por que Freud não via diferença essencial entre psicologia indivi- des. Muitos outros fatores contribuíram para dar-lhes uma aparência de coesão e unidad dual e psicologia social. que era apenas em parte artificial: interesses convergentes, pressões políticas, classificaçõe Ainda assim, cada uma das minhas generalizações psicológicas e históricas precisa es- legais, percepções e sensações compartilhadas. Constituíam porém uma grande família, muit tar alicerçada no único e verdadeiro centro da experiência: a pessoa. A fim de dramatizar ramificada e briguenta. Os elos que a mantinham unida eram freqüentemente mais fracc essa abro cada tomo desta obra com uma biografia analítica à guisa de prefácio: do que as tensões que a desuniam. E os sintomas que mais claramente demonstram essa sem pretender imitá-lo, tenciono relembrar clássicos históricos de Sigmund Freud, que, na mais pura acepção do termo, são "histórias de casos". Esses retratos psicológicos e so- tensões são nomes com que as classes médias eram designadas.* ciais não são espelhos perfeitos de uma cultura, mas fornecem boas indicações para se che- gar a ela. Guiam-nos àquele mosaico amplo e emaranhado, a experiência burguesa do sécu- (*) autor utiliza aqui termo middle classes, no plural; distinção entre "as classes médias" e uma lo XIX, que me proponho a recuperar, reconstruir e narrar. média" é explicada na primeira seção deste capítulo, logo a seguir. (N.T.) 22 231. DOS NOMES ÀS COISAS sem sua "classe". Se bem que a palavra bourgeoisie já estivesse ao seu alcance desde fin do século XVII, OS ingleses se recusavam a naturalizá-la e preferiam termo nativo middl As confusões que infestavam, no século XIX, vocabulário relativo às classes não es- class, ou melhor, com seu grave e profundo respeito pelo pluralismo, "classes médias' caparam à observação de seus contemporâneos. Quando, em 1893, traduzia um panfleto Tudo indica, contudo, que autores ingleses julgavam perfeitamente aceitável chamar escrito por um médico alemão contra a legalização da prostituição, o estudioso norte- classes médias alemãs de "bourgeois"; George Eliot assim fez em 1856. Ainda em 1873 americano Charles K. Needham deparou com palavra Bürger* e fez uma pausa para refle- todavia, J. A. Symonds observava que o adjetivo bourgeois era "uma expressão moderna' tir. "O sentido preciso deste termo", ruminou numa nota de rodapé, "não pode traduzir- Somente um cosmopolita de tendências nitidamente materialistas ou alguém que procura: se pela expressão middle class [classe média], se bem que ocasionalmente eu a tenha utili- se um rótulo levemente pejorativo lançaria mão desse termo emprestado à língua frances: zado em páginas anteriores. As condições de vida na Inglaterra e na América do Norte dife- Num de seus epigramas cintilantes e ambíguos, Oscar Wilde escreveu: "A grande superior rem daquelas reinantes na Alemanha, de sorte que na língua inglesa não há um termo único dade da França sobre a Inglaterra consiste em que na França todo bourgeois aspira a que possa exprimir a Needham tinha a perspicácia necessária para perceber que um artista, passo que na Inglaterra todo artista aspira a tornar-se um bourgeois". E n essas dificuldades exprimiam dificuldades essenciais. A terminologia alemã por começo de 1890, Beatrice Potter, que em breve viria a tornar-se Beatrice Webb, anotav certo as reconhecia: diferenciava, sutil porém claramente, termo Bürgertum do modis- em seu diário que havia convidado "Sidney Webb, socialista" para jantar em sua cas: mo importado bourgeoisie. Quando Thomas Mann, ainda em 1918, elogiava Bürger e e observava que ele era "um homenzinho notável, de aparência um tanto desgrenhad: denegria bourgeois, estava trabalhando dentro de uma tradição retórica já secular. Além [com] e um sobretudo preto burguês, já reluzente de tanto uso".⁵ A maioria de seu disso, Bürger era um rótulo simultaneamente legal e social: designava cidadão de um Es- compatriotas entretanto preferia OS nomes de conotações mais domésticas: em 1834, Joh tado ou membro de uma classe, uma ambigüidade que escritores alemães não deixaram Stuart Mill distinguia as "três classes" que compunham a sociedade inglesa, "os propriet: de explorar. Mais ainda, OS alemães usavam não termo Bürgertum, como também Mit- rios, capitalistas-e OS telstand, e a curiosa história lingüística desta última denominação oferece uma prova adi- Essa relutância não pode ser desprezada como um mero chauvinismo Afin: cional de que a instabilidade no uso da linguagem no século XIX muitas vezes revela uma de contas, foram OS marxistas que, a partir de meados da década de 1840, com a public: instabilidade no âmago da sociedade, bem como uma certa ção de Condition of the Working Class in England [Condição da classe operária na Ingl: No início do século XIX, Goethe, Hegel e seus contemporâneos consideravam Mit- terra], de Engels, transformaram termo bourgeois senão em monopólio, pelo menos telstand membro de uma classe respeitável e próspera, cujos escalões superiores incluíam característica marcante e habitual do discurso socialista. Para aqueles que se engajavam er servidores públicos graduados e outros homens de instrução superior; em meados do sé- atividades políticas, tornou-se um termo bastante polêmico: William Morris relembrava culo, o termo já designava pequenos negociantes e pequenos industriais. Na década de 1870, anos de sua juventude como "uma época maçante, oprimida por atitudes burguesas e fili: com a fundação do novo Reich e em meio à turbulência de uma especulação desenfreada, Nem mesmo a escolha presumivelmente inócua do singular ou do plural nas reft muitas vezes ruinosa, termo Mittelstand foi rebaixado a sinônimo de "pequeno-burguês", rências às camadas médias, altamente estratificadas, da sociedade escapava a implicaçõe do pequeno comerciante que tentava por todos meios sobreviver à maré de falências, políticas: liberais agressivos, como Richard Cobden, empregavam o termo "classe média e dos funcionários subalternos que se amontoavam nos empregos desalentadores que OS enfaticamente no singular, como que alardeando seu apelo à unidade e suas expectativa novos impérios industriais e comerciais lhes ofereciam. A maioria dos membros desses dois de A linguagem utilizada para caracterizar aquele território de contornos vagos grupos tinha motivos mais do que suficientes para se sentirem apreensivos em relação a talvez indefiníveis ocupado pelos segmentos medianos da sociedade quase nunca era tota suas oportunidades sociais e a seu futuro econômico. Os economistas começaram a fazer mente inocente, quase nunca isenta de cargas políticas. distinções entre um Mittelstand já estabelecido um novo Mittelstand, afligindo-se pela A Babel de definições não se esgota por aqui. A profusão de rótulos abrangentemer deterioração daquele e pelo fastio deste. E assim, aproximar-se última década do sécu- te descritivos, como bourgeois, Bürger ou middle class, exibe a variedade dos tipos SC lo XIX, termo designava um segmento da sociedade em constante tumulto, um problema ciais reunidos sob estes amplos rótulos. Alguns historiadores, visivelmente embaraçado em busca de uma A história deste termo, incluindo sua irresistível decadência, com tal amplidão, extraíram da burguesia grandes capitalistas, tanto OS patrícios quant documenta as sérias tensões existentes no seio da burguesia alemã. plutocratas, que trocavam tapinhas nas costas com a aristocracia, e OS artesãos mais pc Os setores medianos da sociedade inglesa, por seu lado, demonstravam uma extraor- bres, que não viviam melhor que operários, classificando-os em classes específicas dinária relutância a se segregarem por meio de nomes distintivos e agressivos que designas- prias ou incorporando-os às classes vizinhas. Outros tentaram escapar à dificuldade por da inclusão na classe média de todos aqueles que não fossem nem operários, nem campc (*) Do termo burgus, que significava em latim vulgar "bairro" quando se referia a uma grande cidade como neses, nem aristocratas. Estes têm algum fundamento jurídico para as suas simplificaçõe Roma, ou "vila", quando centro comercial de uma região rural, derivaram-se entre outros germânico Burg e suas drásticas: Landrecht* da Prússia reunia sob nome Bürgerstand ou "estado burguês", variantes burgh (escocesa e flamenga), burgeis (gálica), e burgo todos significando na Idade Média "caste- todas as pessoas que "pelo seu nascimento não puderem ser contadas nem entre OS nobre lo" onde se concentrava comércio regional, uma espécie de vila fortificada para a defesa dos camponeses da re- Ai surgiram as corporações, de sorte que na Renascença termo burgher (escocês e ingles) designava em nem entre proprietários rurais, e que tampouco tiverem sido incorporadas posterior particular OS habitantes de um burgo que eram membros de uma corporação de Com crescimento das cidades- mente a uma dessas duas Mas a esplêndida clareza do código prussiano, conci livres hanseáticas e renanas, e com a consolidação institucional do Império prussiano, termo Bürger adquiriu e psicologicamente impreciso, não estava disponível em outros países, onde OS historia significado de "cidadão", que mantém até hoje, com certa enfase nos deveres e direitos atinentes à condição politica da "cidadania"; termo francês mais próximo é portanto surgido com a Revolução, citoyen, 20 passo que bour- geois enfatizava mais as condições sócio-econômicas e culturais do "Terceiro Estado". (N.T.) (*) código de direito agrário, integrante do Código Civil. (N.T.) Mittelstand significa, literalmente, "condição mediana" ou, particularmente no sentido sócio-econômico, autor traduz Bürgerstand por "bourgeois estate" por analogia ao troisième état esta "situação mediana". (N.T.) te"), ao qual de resto corresponde essencialmente Bürgerstand alemão da época (N.T.) 24 25dores se viram obrigados a lançar mão de critérios alternativos, econômicos ou sociais. que chamaríamos de uma linha de frente unida; e as personagens definidas por Zola CO Aumentando ainda mais toda esta confusão, em meados do século passado OS prole- mo commerçants, bourgeoisie, e grand monde tinham objetivos e valores tários parisienses utilizavam bourgeoise para designar respeitáveis e pacatas donas-de-casa temente conflitantes, ainda que em parte coincidentes. Advogados bem-relacionados e ser das classes trabalhadoras, temidas por seus Não era menos difícil classificar OS vidores públicos graduados, clérigos proeminentes e médicos ilustres, não raro se afasta proprietários de terras que não tinham títulos nobiliárquicos: estivessem eles engajados em vam de uma camada da classe média para se aproximarem de outra. Diante desses fato: negócios, servindo como magistrados na cidade ou vivendo das rendas de seus investimentos da vida social, alemães enriqueceram seu vocabulário sociológico criando nomes par: rurais, tinham um envolvimento íntimo e contínuo com OS assuntos urbanos, bem como grupos que exigissem uma consideração diferenciada com pretexto de possuírem pro acesso ao poder político. Estes proprietários particularmente numerosos e influentes na priedades ou títulos acadêmicos: falava-se em Besitzbürgertum e em Bildungsbürgertum, França e na Prússia, pelo menos até meados do século eram OS que menos se encaixa- ambas categorias bastante sugestivas, se bem que sobremodo abrangentes. Particularmen vam no estereótipo do burguês. "Ninguém quer viver em sua propriedade no campo", de- te a Bildung, ou seja, o domínio de uma cultura superior ou, por vezes, apenas a sua exibi clarou conde de Villèle, um brilhante financista e primeiro-ministro da França nos últi- ção elegante, fornecia às classes médias mais instruídas argumentos para sua mos tempos da Restauração. "Todos nossos gentilsbommes estão se transformando em a um status mais elevado e, às vezes, uma certa autoridade. O conhecimento dos clássicos bourgeois, moram na cidade durante seis ou nove meses por ano a fim de aproveitar a vida a facilidade de citar a literatura alemã, a demonstração de um interesse cultivado pelas arte social, confortos e as facilidades para educar e colocar seus Para a maioria dos e pela música permitiam ao Bürger abrandar sua antiga adoração servil aos nobres.¹⁴ observadores, burguês era um animal urbano. Proprietários rurais sem título, porém, fre- das demonstrações mais impressionantes do prestígio alcançado pela Bildung é fato de qüentemente apresentavam tantas das características que normalmente se associam à bur- que muitos aristocratas alemães, tanto na Prússia como em outros Estados, guesia que às vezes eram classificados no mesmo grupo dos pequenos industriais e profis- equipassem seus filhos de uma educação superior, ou pelo menos de sinais dela como sionais liberais. se, invés de nobres, fossem bons burgueses. Em vista de todo esse emaranhado, OS contemporâneos passaram a fazer uso de adje- Outro problema agudo era que representavam membros do governo tanto par: tivos descritivos para demarcar subdivisões e acompanhar movimentos no interior da bur- si mesmos quanto para efeito de uma definição. Em primeiro lugar, a posição dos servido guesia: baute, bonne, petite bourgeoisie [alta, boa, pequena burguesia], classe média alta res públicos ou Beamten, especialmente nos escalões superiores, era curiosamente ambí e classe média baixa. Mas nem todos esses qualificativos, ainda que úteis, foram suficientes gua. Além disso, como nos Estados alemães OS professores universitários e os regentes da para formar uma malha bastante fina para capturar todas as sutis distinções e OS efervescen- orquestras das cortes eram igualmente funcionários, também eles ocupavam uma posição tes conflitos que em toda parte impregnavam as classes médias, originando sucessivas on- bastante peculiar. No século XIX sua incômoda situação tinha se tornado de certo modo das de agitação e mudanças. Por volta de 1835, viajante e cronista Michel Chevalier, um uma tradição percebida até mesmo pelos próprios burocratas. Em suas memórias pequeno Tocqueville que mais tarde viria a ser um eminente administrador público na França, o aristocrata Rudolf von Delbrück, que ocupava um cargo público em Berlim, relembrav: publicou um livro de reflexões sobre os Estados Unidos, no qual comparava as instituições que "os círculos burocráticos, espremidos entre a fechadíssima sociedade da corte, po norte-americanas às de seu próprio país. Na América do Norte, observou ele, a classe média um lado, e a comunidade burguesa por outro, tinham uma vida própria". Em outros pai era uma entidade coesa e abrangente que compreendia "industriais, comerciantes, advoga- ses, como na Bélgica ou na França, esse tipo de isolamento parece ter sido menos acentua dos, médicos", bem como "alguns poucos agricultores e pessoas dedicadas às letras e às do; a alienação dos funcionários em relação à vida da classe média parece ter sido meno artes". Já na França, a "numerosa classe média" estava nitidamente dividida entre "a classe completa do que nos Estados alemães. No entanto existia, e era desagradável. ativa", engajada no "comércio, na indústria, na agricultura e nas profissões liberais", e a A mesma fluidez e a mesma controvérsia assinalam a burguesia "ociosa", formada por "homens sem emprego ativo, proprietários que auferem dos argumentos com OS quais pirâmides burguesas rivais buscavam proeminência. di rendimentos de 500 ou 1500 libras pelo aluguel de suas propriedades ou através da divisão nheiro trazia poder, e a linhagem também; mas dinheiro e linhagem não necessaria da produção com OS agricultores, sem todavia tentarem aumentar a produtividade". Essas mente coincidentes. Não obstante, possível fazer com que coincidissem, e freqüente duas "divisões" da classe média "diferem essencialmente entre si", prossegue Chevalier, mente era isso que ocorria: as negociações matrimoniais entre famílias abastadas e fami embora na página seguinte, com solene desprezo por qualquer coerência, acrescente que lias de estirpe nobre podiam assumir a importância de verdadeiras negociações diplomáti "elas não estão totalmente nem nitidamente separadas entre Obviamente, a defini- cas entre Estados. Havia certo grau de mobilidade no interior das elites das classes médias ção e a classificação das classes médias era uma tarefa que desencorajaria qualquer comen- como também em suas fronteiras. O dinheiro podia ser purificado através do matrimônio tarista, por mais sagaz e confiante que ele fosse. com uma boa linhagem, passo que a nobreza podia reabastecer seus cofres unindo-se Lá pelos fins da década de 1860, Émile Zola, usando sua habitual imaginação e malí- a uma família rica. Tais alianças contudo estavam longe de ser fáceis ou casuais: repúdio cia, resolveu tentar refinar as caracterizações vagas e grosseiras, então comuns, da burgue- a famílias de comerciantes freqüentemente frustrava casamentos que o amor, ou mero sia subdividindo a sociedade francesa em cinco mundos: le peuple [o povo], que incluía interesse pessoal, parecia impor. OS operários e soldados; les commerçants [os comerciantes], que abrangiam OS "especu- Essas observações gerais devem ser complementadas pelos poucos estudos confiá ladores das demolições" em Paris, industriais e OS negociantes mais prósperos, "mulhe- veis que se aventuraram a examinar mais detidamente as estruturas sociais de determinadas res intrigantes" e donos das grandes lojas; a bourgeoisie, que ele definia concisamente cidades. As lutas longo das margens das classes medianas, bem como as lutas intestina: como "filhos de novos-ricos"; le grand monde, constituído de políticos e de funcionários públicos influentes; e un monde à part [um mundo à parte], que compreendia meretrizes, que se travavam em seu meio, eram árduas e desgastantes. Na cidade industria assassinos, clero e artistas.¹³ Embora não lhe falte humor e argúcia, essa classificação apenas revela embaraço geral que envolvia a definição das classes médias. Em primeiro (*) Respectivamente "burguesia de posses" "burguesia da cultura", de Besitz ("posses") e Bildung ("edu lugar, a classe média alta jamais se mostrou totalmente coerente, raramente apresentando cação", "cultura"). (N.T.) 26 27de Barmen, na Alemanha, o Bürgertum perfazia, em 1861, 9 por cento da população, abran- suas divisões hierárquicas eram muito mais poderosas do que qualquer solidariedade de clas- gendo desde homens economicamente poderosos, num extremo, até ameaçado Mittels- se exceto no caso de pressões externas exercidas por uma população rural radicalizada tand, no outro; 46 anos mais tarde, em 1907, esta porcentagem já ascendia a mais de 23 ou um movimento operário militante. pontos, se bem que OS acréscimos mais impressionantes tivessem ocorrido, compreensi- Todos burgueses, antigos ou novos, OS grands bourgeois ou OS petits bourgeois, pro- velmente, nos escalões inferiores da sociedade. E mesmo este aumento relativamente mo- curavam viver decentemente, educar seus filhos, decorar suas casas e deixar posses a seus desto do número de integrantes das classes médias não era de modo algum generalizado: herdeiros. Mas suas fontes de renda, assim como OS montantes que percebiam, variavam acen- em Bochum, uma das principais cidades da região "siderúrgica" do Ruhr, a proporção dos tuadamente. A distância entre mais alto e mais baixo degrau da "escada" burguesa Bürger apresentou incrementos mínimos entre 1858 e 1907, passando de pouco mais de imensa, e a escada era por si só muito de difícil ascensão. Na Bochum de 1895, 93 13 para cerca de 16,5 por cento, sendo que verdadeiro salto ocorreu, tal como em Bar- men, entre OS escalões mais baixos dos funcionários públicos e dos trabalhadores de cola- por cento da população se amontoavam no sopé da pirâmide econômica, ganhando até 3 000 rinho branco. No entanto, tais lutas compensavam imenso dispêndio de energia e pa- marcos por ano (e às vezes muito menos); em conjunto, porém, sua renda não passava de ciência, despeito de reveses arrasadores e freqüentes. Na Grã-Bretanha, número de con- dois terços dos rendimentos da cidade. Contrastando de modo gritante com esta realidade, tribuintes com renda anual de 200 libras esterlinas praticamente duplicou em duas déca- a elite abastada da cidade, cerca de um por cento da população, respondia por 15 por cento das, passando de pouco menos de 9 mil em 1851 para aproximadamente 17 500 em 1871. da renda total. Disso decorre que muitos burgueses daquela cidade se achavam aglomerados Este crescimento acelerado se manteve relativamente constante até atingir o nível de 800 na linha que separa OS meramente desprovidos dos verdadeiramente miseráveis, e alguns de- libras, quando passou a apresentar um declínio acentuado; no mesmo intervalo de vinte les chegaram a atravessá-la. Também em Barmen pelo menos dois terços dos integrantes ób- anos, número de contribuintes que percebiam 2 mil libras anuais ou mais cresceu de 235 vios das classes médias eram e trabalhadores assalariados que lutavam ar- para 356, ou seja, ligeiramente acima de 50 por cento. Na Grã-Bretanha de meados do sé- duamente para vencer na vida, enquanto somente um terço podia denominar-se "capitalista" culo, enquanto as camadas inferiores e sobretudo as classes médias razoavelmente próspe- ou "comerciante". E a maioria dos comerciantes tinha rendas de fato bem modestas. ras iam diminuindo ligeiramente a distância que as separava dos burgueses mais abastados, Os funcionários, esse exército cada vez maior de burgueses respeitáveis e muito mal OS verdadeiramente ricos permaneciam inacessíveis, uma fonte de fantasias e invejas. pagos, que labutavam nos escritórios de exportação, nas grandes lojas, nas empresas ferro- Alguns segmentos das classes médias gozavam de bastante prestígio, independente- viárias ou nas repartições públicas, se encontravam de modo geral ainda mais próximos mente das rendas auferidas. As profissões liberais, notadamente no campo da medicina, do destino da miséria absoluta do que comerciantes independentes. Na Inglaterra, a par- do direito, da Igreja e da educação, elevavam seus integrantes acima dos patamares que tir de meados do século, um funcionário de uma empresa privada teria um ordenado ini- mera posse pecuniária lhes teria conferido. Seu número relativamente pequeno, bem cial de, digamos, 70 libras esterlinas por ano, chegando a perceber mais tarde talvez umas mo a consciência de constituírem uma elite coesa, evitavam a perda de prestígio: de 1851 200 libras ou, se fosse capaz ou tivesse bons contatos, dobro dessa quantia. Quando, a 1881, a proporção de advogados na Inglaterra e em Gales declinou de quatro para três em setembro de 1900, P. G. Wodehouse, filho de "pais razoavelmente prósperos mas não em cada mil pessoas, enquanto a proporção de médicos e de clérigos se manteve constan- ricos", começou a trabalhar para um banco londrino, seu salário inicial era de 80 libras te, ao redor, respectivamente, de sete e de quatro em cada mil pessoas; somente OS educa- por ano, uma magra quantia que seu pai complementava com outro tanto, sem entretanto dores, tirando partido da recente expansão das oportunidades educacionais, cresceram de tornar jovem Wodehouse sequer remotamente Funcionários públicos geral- cerca de um para 1,6 por cento da população. O dinheiro estava longe de ser irrelevante mente começavam ganhando cerca de 125 libras e poderiam a longo prazo a para esses profissionais: um advogado em busca de afirmação, um prelado ou um profes- mo prazo alcançar rendimentos de mil libras anuais ou mais; tais burocratas eram no sor sem um tostão, decerto teriam dificuldades para encontrar uma parceira para casa- entanto raros, e seus salários, excepcionais. Sabemos que número de contribuintes en- mento. No entanto, seus caminhos para uma melhor condição social não se encontravam quadrados na faixa de renda superior a 2 mil libras totalizava apenas 356 cidadãos britâni- totalmente bloqueados. Na Inglaterra, na Alemanha, ou em qualquer outra parte, um jo- COS em 1871, ao passo que aqueles que se encontravam na faixa estratosférica das 5 mil vem esforçado e atento às oportunidades podia transformar um doutorado ou um diploma libras não passavam de oitenta indivíduos naquele mesmo ano. Essa imensa discrepância universitário num passaporte para uma posição social. entre 70 e 5 mil libras anuais constituía uma realidade prenhe de pressões, freqüentemente Os números deixam dolorosamente claro que as populações burguesas altas, mé- opressiva, na cultura das classes médias, do século XIX, tanto na Grã-Bretanha como em dias ou baixas, ativas ou ociosas, do comércio ou das profissões liberais viviam na mais outros países. Na Paris de 1817, mais de metade da população pagava aluguéis abaixo de completa miséria. Um fato decisivo da vida da classe média do século XIX, que fomentou 150 francos, e uma quarta parte entre 150 e 400 francos. A grande camada mediana (consti- suas ansiedades e formou sua consciência, é que OS burgueses sempre e em toda parte fo- tuída, sobretudo em seus estratos inferiores, de prósperos artesãos), que pagava aluguéis ram uma minoria, mesmo nos centros comerciais urbanos. As classes médias compensa- na faixa de 400 a francos, perfazia uma quinta parte da população total, ao passo vam em poder, conhecimentos e, por vezes, pretensões o que faltava em número. No que apenas 0,8 por cento podia dar-se ao luxo de pagar mais de 2 500 francos de aluguel. século XIX, apenas 10 ou 12 por cento da população de cidades como Bochum ou Barmen Dentre esse punhado de gente rica, ápice da pirâmide burguesa, alguns eram de fato abas- podiam atribuir-se status de burgueses; já em Paris, onde pelo menos dois terços da po- tadissimos. Assim como OS Krupp, eram capazes de implantar dinastias e de construir cas- pulação eram paupérrimos segundo qualquer padrão, talvez 15 por cento, se tanto, po- telos; como inglês James Morrison, podiam deixar a seus herdei- diam chamar-se de burgueses com propriedade. Se de fato "a burguesia era a nação", ros 4 milhões de libras esterlinas. Esses industriais e comerciantes, financistas e fabricantes mo alguns oradores mais arrebatados gostavam de dizer, era-o apenas num sentido alta- mente figurado. Mas aspecto social mais dramático da experiência burguesa no século XIX era a de- (*) Merchant bankers, indivíduos que, com capitais próprios, fundaram empreendimentos que hoje sigualdade econômica, social e política que predominava no interior da própria burguesia; de bancos de investimento, financiando grandes projetos como por exemplo Canal de Suez ou as ferrovias da Rússia. (N.T.) 28 29brilhantes capitais musicais da Europa: prósperos Bürger contentavam-se perfeitamente de armamentos, se transformaram em lendas; chamar de "burgueses" a esses magnatas pa- em assistir a "saraus musicais e declamatórios" que se constituíam de duetos populares rece tirar do termo todo e qualquer volos, peças puramente exibicionistas para instrumentos solo e récitas Henry Tampouco é possível recuperar um sentido para termo "burguês" examinando-se James não foi único literato a deplorar a trivialidade dos romances contemporâneos e modos de comportamento, notadamente no que tange à busca das amenidades mais re- baixo nível das críticas e resenhas literárias que dificilmente poderiam estimular qual- finadas da vida, pois também esta se caracterizava pelas mais gritantes variações. Os burg- quer pessoa a elevar-se acima do gosto popularesco por narrativas meramente divertidas, bers que viviam nas cortes norteavam-se pelos gostos e pela munificência das casas reinan- com sua intrigas melodramáticas, sua grosseria psicológica e seus previsíveis finais felizes. tes. Por outro lado, que viviam nas cidades-livres ou em capitais comerciais E James falava não das massas que, recentemente alfabetizadas, eram responsáveis pelo cres- mostravam-se tão ativos no campo cultural quanto na política, alcançando seus objetivos cimento do público leitor, mas sim dos leitores das classes médias que seriam presumivel- quase exclusivamente através de associações voluntárias, às quais dedicavam a mesma energia mente OS consumidores mais intruídos da palavra Não percebia, nem tinha CO- perseverante que de ordinário empenhavam em ganhar dinheiro. Na Munique do século mo perceber, que grande parcela dessa vulgaridade constituía uma defesa angustiada con- XIX, teatro, a ópera, a orquestra sinfônica, museus, a universidade, tudo foi criado e tra as exigências ferrenhas que a verdadeira cultura erudita vinha impondo às classes mé- se manteve graças mecenato dos Wittelsbach. Os Bürger de classe média se reuniam dias. Exclusivistas por opção, OS grupos de admiradores da pintura de vanguarda ou da em círculos informais para ler dramas e comédias, exibir pinturas, executar peças para quar- poesia esotérica surgidos no final do século certamente achariam quase impossível recrutar tetos de cordas. E, quando queriam, podiam também pressionar funcionários públicos novos adeptos para seus círculos, em vista de sua dedicação à perseguição apaixonada do encarregados da alta cultura na Baviera, formando um lobby em favor de suas preferências difícil. artísticas, que demonstravam lotando certas casas de espetáculos e afastando-se de outras. Essencialmente, contudo, era a casa real que dava o tom e fornecia OS recursos para tudo mesmo tempo, à parte a inescapável pretensão das classes médias à respeitabilida- de, a pretensão à erudição é provavelmente mais característica de maior número de bur- O que de melhor havia em Munique na música, no teatro, nas artes plásticas e na universi- gueses do que quaisquer outros de seus hábitos culturais. Críticos da cultura, eles mesmos dade. Uma história diferente é a de Manchester. Sua famosa Orquestra Hallé, suas bibliote- um fenômeno tão típico do século quanto OS filisteus que dissecavam, não tiveram dificul- cas requintadas, sua universidade, seu conservatório e sua galeria de arte são todos em- dades em desprezar patético espírito de imitação das classes médias inferiores, confor- preendimentos particulares fundados e mantidos por doações privadas. Os benefícios soli- mismo ansioso dos mais bem situados, orgulhoso patronato dos ricos. Além disso, con- citados à realeza viriam muito mais tarde e seriam puramente decorativos. A conduta dos forme já observei, muitos burgueses não acumulavam atributos culturais para deleitar cidadãos de classe média em busca de cultura não era entretanto inteiramente previsível: olhos, agradar OS ouvidos ou comover as almas, mas sim para exibir a condição social e embora Berlim fosse a capital do Reino da Prússia e, a partir de 1871, do Império unificado a riqueza recentemente adquirida, na melhor tradição dos Os notáveis Veneerings* da Alemanha, embora todos OS seus magníficos museus tenham sido construídos às custas de Charles Dickens, onde tudo na casa cintilante e opulenta era "novinho em folha" e não e sob as ordens dos Hohenzollern, a esplêndida Orquestra Filarmônica de Berlim foi fun- passava de aparência, fornecem caricaturas bastante adequadas. dada em 1882 como um empreendimento Havia bávaros dotados de arrojos dignos de um inglês, assim como ingleses que teriam preferido ver as artes dirigidas pela Não obstante a presença palpável de muitos filisteus e burgueses ambiciosos realeza, mas de modo geral a distinção é válida. Quando da inauguração da Alte Pinakothek no mutável e agitado século XIX, havia também muitas famílias de classe média que esti- em Munique, a placa de cobre comemorativa enumerava as mais importantes coleções que mavam sinceramente sua cultura, seu refinamento. Poucos lares burgueses estariam com- ali se encontravam e concluía, agradecida: "A Baviera deve este prédio e os tesouros artísti- pletos se não tivessem quadros nas paredes, música na sala de estar, clássicos nas estantes cos nele contidos à nobre disposição de seus governantes, a Casa de Alguns de portas envidraçadas. Os burgueses, homens e mulheres, cantavam, desenhavam, fre- anos mais tarde, fundadores da Galeria de Arte de Birmingham colocaram um memorial qüentavam assiduamente concertos e apresentações literárias, recitavam e até mesmo es- comemorativo no saguão da entrada principal de seu museu, lançando um estilo burguês creviam poesias. Os esplêndidos saraus musicais que ilustre cirurgião alemão Theodor inteiramente diverso, mais lacônico e mais eloqüente: "Com ganhos da Indústria", dizia Billroth ele mesmo um pianista de primeira grandeza oferecia em sua acolhedora casa a inscrição, "promovemos a Arte". em Viena, em cujos salões inúmeras obras de câmara de Brahms tiveram sua estréia, eram As classes médias, assim, não se mostravam unânimes nem mesmo em suas atitudes extraordinários apenas pela sua qualidade. a acusação bastante difun- com relação à cultura mais refinada. É bem verdade que movimento de filisteus burgue- dida, e apenas em parte jocosa, de que tais talentos fossem tão-somente iscas lançadas por ses, que críticos furiosos desde Heinrich Heine a William Morris não se cansavam de de- jovens casadoiras a fim de atrair pretendentes elegíveis e qualificados era em boa parte es- nunciar, não se infiltrara tão completamente na sociedade como eles gostariam de pensar. púria. "Para que se tenha uma idéia da extensão do diletantismo por aqui", escrevia cor- Mas estava suficientemente visível. Os diretores dos teatros de ópera se queixavam de que respondente de Viena da Leipziger Musikzeitung** em 1808, "toda moça culta, seja ela grande parte de seu público incluindo público mais esclarecido obviamente prefe- talentosa ou não, tem que aprender a tocar piano ou a cantar; em primeiro lugar, porque ria a dieta leve de Johann Strauss cardápio mais pesado de um Richard Wagner. Tudo é moda, e em segundo, por ser meio mais conveniente de exibir-se em sociedade, de isso era verdade mesmo em Munique, que no século XIX pontificava como uma das mais modo a, se a fortuna lhe sorrir, fazer um casamento notável" Algumas décadas mais tar- de, esta anedota misógina estava um tanto gasta. As "mocinhas casadoiras" da classe média A Filarmônica de Viena foi formada em 1842 por músicos da Ópera Imperial; suas origens como "orques- tra" remontam 20 século XIII, e a característica de "filarmônica" (e não "sinfônica") provém sobretudo do fato de (*) Literalmente, "Aparência". Esboços ou vinhetas da que também se agregam formando todos os instrumentos de cordas terem sido construídos e até hoje serem mantidos por membros de uma só "murais" dos grandes romances. (N.T.) A de Berlim, ao ser fundada, em 1882, emulava não só a de Viena como também a de Nova York (cujo (**) "Revista Musical de Leipzig." Leipzig, onde a casa de Schumann era ponto de encontro de poetas e escri- primeiro concerto data de dezembro de 1842, menos de um ano após primeiro concerto "oficial" da Filarmônica tores, além de músicos, era outro grande pólo cultural à época. (N.T.) de Viena) no que diz respeito à organização dos seus patronos sob forma de um conselho curador. (N.T.) 31 30eram freqüentemente muito talentosas, por vezes eméritas Em 1884, a revista dêmicos apegados aos currículos clássicos lutavam com cientistas inovadores pela obten- inglesa Musical Opinion relatava que a Alemanha podia orgulhar-se de ter cerca de 424 ção de escassos recursos. Mercadores e comerciantes pelejavam pelo livre comércio contra fábricas produzindo cerca de 73 mil pianos por ano, sendo que estes pianos eram efetiva- industriais que buscavam formas de protecionismo. O dinheiro tradicional desprezava pro mente bem As pretensões das classes médias à erudição constituem pois um in- fundamente o dinheiro recentemente adquirido, nobres empobrecidos olhavam com des grediente marcante e útil para uma possível definição da burguesia. Por mais problemáticas dém prósperos novos-ricos. Os mercadores ingleses proclamavam fidelidade que fossem, por mais ambíguos que fossem OS seus motivos, tais pretensões eram de qual- ao seu monarca com fervor igual ao dos mercadores russos, porém, ao passo que entre quer modo bastante difundidas e em boa dose autênticas. E ainda assim as maneiras por OS russos esta atitude fazia parte de seu repertório de bajulação, entre OS ingleses era um que se realizavam eram distintas e variadas. tributo espontaneamente oferecido por homens dignos. Esses conflitos, assim como ou Em meio a essa atmosfera de incerteza e de um crescente e incontido pluralismo que tros mais, freqüentemente eclipsavam colaborações e alianças burguesas. favorecia choques de interesses políticos e conflitos sociais irreconciliáveis, tornou-se Para facilitar nossos esforços para a obtenção de uma definição utilizável do que mum, significativamente, rotular elementos importantes das classes médias de modo bas- a burguesia, tampouco podemos contar com esse antigo e infalível recurso tante inventivo, pitoresco e a rigor ilógico. Nos primórdios da Monarquia de Julho, foi Stend- burguês". Para a implacável avant-garde, assunto era de fácil solução. Elogiando as hal quem estabeleceu o padrão dessa rotulação: "Os bancos", escreveu, "são OS donos do beis e maliciosas caricaturas com que Henry Monnier, conhecido ator e cartunista, satiriza- Estado. burguês substituiu Faubourg Saint-Germain, e os banqueiros são OS aristocra- va desafortunados tipos da classe média francesa, Théophile Gautier achava-os impres- tas da classe burguesa". Analogamente, em 1843 burocrata prussiano Otto Camphausen sionantemente verossímeis: "Seus personagens burgueses e ninguém pinta com mais observava que seu Estado governado por servidores públicos de carreira, "um certo veracidade são tão enfadonhos como OS burgueses da realidade cotidiana, com suas in- tipo de aristocracia de O epíteto "aristocracia financeira", em parte invejoso findáveis torrentes de chavões e suas solenes besteiras: Não se trata mais de comédia; já e em parte carregado de desprezo, se espalhou pela Europa; OS termos Geldaristokratie é estenografia". Perseverante, ordeiro, prudente psicanalistas de salão mais tarde cha- na Alemanha e aristocratie financière na França se tornaram coloquiais. E alemães se mariam de o "tipo anal por excelência" burguês era antes de mais nada um chato. referiam a funcionários pobres que em geral ganhavam menos do que operários qualifica- Era, ou aspirava ser, alguém que vivia de rendas. Outros observadores das classes médias, dos, como "proletários de colarinho duro" - Stebkragenproletarier. Mais tarde, o termo no entanto, davam-lhe um caráter bem diverso. Em 1889, influente crítico literário e bió- "aristocracia dos trabalhadores", essa engenhosa invenção marxista aplicada a artesãos ge- grafo dinamarquês Georg Brandes denunciava a burguesia de seu tempo como um "Calibã ralmente bem pagos e de inclinações políticas moderadas, sublinhava as intenções tenden- no governo", "que havia herdado defeito característico da antiga aristocracia, a arrogân- ciosas inerentes a uma tal nomenclatura imaginativa e ilustrava bem a dificuldade de se de- O seu burguês era explorador materialista e hipócrita. E de fato não havia um bur- finir as classes médias com alguma precisão. É sintomático que tal confusão deli- guês típico: empresário inescrupuloso e engenheiro criativo serviam de modelo berada haja sobrevivido ainda no século XX, mesmo no discurso de historiadores tanto quanto quitandeiro pacato e o burocrata pedante. arrojo e a prudência eram ca- "Quer estejamos nas nuvens ou na sarjeta", escreveu Johan Huizinga em 1935, "nós, ho- racterísticas burguesas de peso igual. O que burgueses do século XIX tinham em comum landeses, somos todos burgueses advogado como o poeta, barão como operário. era a qualidade negativa de não serem nem aristocratas nem operários, e de se sentirem Nossa cultura nacional é burguesa em qualquer sentido que se queira dar à palavra". Tam- mal em suas próprias peles. que os dividia, entretanto, era quase igualmente importante, pouco deve surpreender que um jornal inglês chamasse rei Luís Filipe em 1849, ou seja, e constituía uma fonte de tensões reais. Aqueles que se propuseram, no século XIX, a ca- no ano seguinte ao de sua renúncia ao trono, de "o gigante dos monarcas mercantis, racterizar o e quase todo mundo tentou sabiam menos do que acreditavam grande negociante e Desafiando qualquer lógica ou ordenamento de idéias, saber. a palavra "burguesia" parecia ser simultaneamente estreita e abrangente demais para carac- terizar de modo adequado as classes médias. Todos esses epítetos capturam grupos de autopercepções ambíguas e de fantasias can- 2. SIMPLIFICAÇÕES TENTADORAS dentes e geralmente frustradas. Artesãos independentes, ainda que se encontrassem à beira da penúria, em verdadeiras feras defenderem o seu De ou- A necessidade de viver segundo classificações nitidamente delineadas está profunda- tro lado, ricos industriais tinham de enfrentar a humilhante resistência de aristocratas, fre- mente arraigada na mente humana e constitui uma de suas primeiras exigências; a simplici- qüentemente muito mais pobres que eles, em seus esforços para ingressar em regimentos dade alivia ansiedades por meio da eliminação das discriminações. Situações reais raramen- exclusivos ou para obter condecorações ou títulos honoríficos. Mesmo assim, muitos deles te são nitidamente definidas, e sentimentos reais freqüentemente são verdadeiros vespei- (ainda que não todos), tão desesperados à sua maneira quanto OS humildes funcionários ros de ambivalência. Isto é algo que o adulto aprende a reconhecer e a tolerar, se tiver sor- ou OS artesãos semifamintos, de algum jeito conseguiam galgar OS degraus da pirâmide social. te; trata-se no entanto de uma percepção penosa da qual regredirá na primeira oportunida- Esses grupos, precariamente colocados nas fronteiras de sua classe, eram excepcio- de que se lhe ofereça. É por isso que temperamento liberal, que ensinou as pessoas a nalmente suscetíveis a destinos ambíguos. No entanto, o próprio núcleo central da burgue- conviverem com incertezas e ambigüidades, a conquista mais triunfante da cultura do sé- sia o burgber solidamente estabelecido, quer fosse industrial bem-sucedido, dona-de- culo XIX, era tão vulnerável aos ataques de visões mais cruas do mundo, ao fanatismo dog- casa instruída, burocrata médico ou professor ilustre tampouco se encontra- mático, ao chauvinismo e a outras classificações grosseiras e simplistas. "Toda sociedade", va Clínicos gerais tinham suas desavenças com cirurgiões e especialistas. Aca- escreveu Friedrich Nietzsche num de seus aforismas mais brilhantes, "tende a se degradar e, por assim dizer, a deixar morrer de inanição seus adversários pelo menos que per- cebe como tais". Os criminosos eram, no seu entender, vítimas de um tal processo regres- (*) Uma das primeiras grandes concertistas foi Clara Wieck, depois Clara Schumann, cujas tournées chegaram sivo; o mesmo se aplicava aos judeus. E "entre OS artistas, os 'filisteus e burgueses' se a sustentar a família quando marido faleceu. (N.T.) transformam em mera caricatura". Nietzsche poderia bem ter acrescentado que as van- 32 33guardas artísticas, apenas estabeleciam OS padrões que seriam seguidos pela cultura mais essa explicação particularmente sedutora é fato de que ela é de todo falsa. No entanto, ampla. A consciência de classe, que emergiu aos trancos inicialmente, e de modo cada vez por ser muito versátil e lindamente vaga, foi posta a serviço da necessidade de explicar mais agressivo no fim do século XVIII e ao início do século XIX, venerava tal caricatura: uma um período de mais de seis séculos de história ocidental: a emergência das cidades medie- mistura de realidades sociais e necessidades inconscientes. vais, nascimento do capitalismo, a Reforma protestante, a expansão européia para além- Deixando simplesmente à margem qualquer evidência complicadora, eliminando su- mar, a consolidação dos Estados absolutistas, a Guerra Civil inglesa, a vertiginosa carreira mariamente quaisquer dúvidas e empregando o que supunham ser indicadores objetivos do pensamento científico, e, naturalmente, Iluminismo do século XVIII. Quanto 20 sécu- e impressões subjetivas, tudo igualmente problemático, jornalistas, políticos e romancistas lo XIX (para prosseguirmos acompanhando esse acrobata das explicações até seus saltos- do século XIX falavam e escreviam como se a burguesia fosse uma entidade social sólida, mortais mais recentes), à burguesia costuma-se atribuir crédito, ou a culpa, pela Revolu- única, definível e imensamente importante. Suas definições desafiavam fatos inconvenien- ção Industrial, pelas revoluções políticas que varreram a Europa a partir de 1789, pela as- tes tais como de que a consciência não-conformista na Inglaterra tendia a produzir um censão do gosto mediocre e pelo moderno imperialismo. Todas as vultosas realizações do tipo de burguês diferente daquele originado da consciência católico-romana na Toscana; século XIX: urbanização, industrialização, mecanização revoluções menos dramáticas po- ou que as famílias da classe média superior de Lille arranjavam OS casamentos de suas fi- rém também menos efêmeras do que as barricadas construídas por operários e trabalhado- enquanto famílias igualmente respeitáveis de Washington permitiam que elas se casas- res e as constituições rascunhadas por políticos são, conforme nos vem sendo dito, sem por amor; ou que alguns burgueses viam nos industriais seu ideal moderno, enquanto resultado de obras da burguesia, que naturalmente também melhoraram a sua situação. Não outros desprezavam por considerá-los arrivistas grosseirões. é por acaso que o conhecido relato de Charles Morazé sobre século leva título Todos, porém, ou quase todos, se utilizavam da linguagem de classes com naturali- de triunfo da burguesia. Dificilmente poderia ter escolhido outro título. dade. Em seu estudo fidedigno da burguesia parisiense da primeira metade do século XIX, Conforme sugere a lenda popular, tal triunfo não se restringia às esferas política ou Adeline Daumard narra um episódio divertido que demonstra a maneira pela qual tal lin- econômica. Os burgueses conquistadores pareciam tão irresistíveis no âmbito do gosto e guagem se impôs mesmo àqueles que com maior ferocidade negavam sua utilidade. das idéias quanto eram na legislatura ou na bolsa de valores. Impunham seus pensamen- Dirigindo-se à Câmara dos Deputados em 1847, Garnier-Pagès argumentava que "em nos- tos e sentimentos às classes superiores e inferiores de igual modo. Por isso, fato de que so país não existem mais classes" e denunciava as "detestáveis" teorias de Guizot, segundo uma monarca, a rainha Vitória, tenha dado ao século seu nome enquanto ainda reinava, as quais havia "classes diferentes, a burguesia e a pobreza". E prosseguia, com toda a ino- apenas comprova a forma decisiva pela qual a burguesia havia estabelecido sua suprema- cência: "Vejo aqui presentes muitos burgueses". O plenário recebeu discurso com garga- cia; afinal de contas, como diziam com afeto ou com desdém alguns de seus contemporâ- Ao que parece, a força desse vocabulário era irresistível. neos, ela era a mais burguesa entre todos. Até ser desafiada pelos movimentos radicais que Poetas e romancistas não eram menos inequívocos ao escolherem suas palavras. No surgiram no final do século XIX, a burguesia não tinha obstáculos a estorvar-lhe cami- ensaio "Lutezia", escrito já em sua maturidade, Heinrich Heine gracejava sobre "novo nho. Segundo nos foi ensinado, a Revolução Francesa e suas ramificações em outras partes mundo dos filisteus" que via à sua volta "numa era industrial e burguesa"; Henry James proporcionaram benefícios imensos e aparentemente irreversíveis às forças burguesas, num se referia livremente "gordos sofás burgueses"; Marcel Proust fez com que seu perso- país após outro; a Revolução de 1830 levou ao trono o paradigma da burguesia, Louis Phi- nagem janota, Bloch, renunciasse ao relógio de bolso e ao guarda-chuva por serem lippe, que nem o guarda-chuva dispensava; a grande Lei de Reforma de 1832 assegurou dos implementos Pode ser inconveniente que todas essas utilizações do ad- a primazia política à classe média inglesa. Mais tarde, prosseguem relatos, a burguesia jetivo "burguês", assim tomadas em conjunto, não resultem num retrato coerente; elas não completou alhures sua ascensão a posições de influência decisiva, apesar de todos OS reve- caracterizam nem satirizam mesmos aspectos. Mas isso não pareceu incomodar ninguém. ses temporários que sofreu após as tímidas e mal-organizadas revoluções de 1848. Mas não Henry James, como sabemos, escolhia suas palavras com máximo cuidado, assim como seriam as derrotas de 1848 uma prova das incríveis distâncias já percorridas pelas classes Heinrich Heine, Marcel Proust ou Alexis de Tocqueville. Outros, menos fastidiosos, lança- médias? Seu precipitado e ansioso recuo de fins de 1848 e de 1849 não terá sido um CO- vam mão de epítetos menos limitados. E nenhum deles, apesar disso, teve qualquer dificul- mentário sardônico à sua participação na sociedade? Tendo sido apenas meio século antes dade em fazer-se compreender. Os burgueses podiam ser vistos na Câmara dos Deputados um partido de mudanças, não se transformava a burguesia agora no partido da ordem? E, da França, nos gordos sofás burgueses, com insípidos guarda-chuvas burgueses: assim era pouco depois, não seria retomada sua ascensão rumo ao poder? Com estas avaliações, ob- possível ter-se um significado claro, com limites nitidamente definidos, do que era servadores no século XIX não apenas antecipavam como também fomentavam o veredicto "burguês". de historiadores futuros, de que a burguesia sempre avançava até atingir, em última instân- E não era verdade que burguês já era visível havia séculos? Um dos caminhos usa- cia, sen triunfo. Resumindo isso tudo em fins da década de 1830, Michel Chevalier dizia dos pelos estudiosos do burguês na tentativa de defini-lo foi de trilhar a sua história. Pa- que "hoje é fato universalmente aceito que a classe média reina na Em suma, rece ser um procedimento bastante razoável, particularmente tendo-se em vista que as evo- durante últimos 150 anos vêm-nos sendo dito que o século XIX foi "Século da Bur- cações e caracterizações dos burgueses no século XIX pouco tinham em comum, além do guesia". Ninguém poderia ter dúvidas a esse respeito. fato de que todas asseguravam haverem eles formado uma classe. Mas esse caminho tinha Ou quase ninguém. Alguns historiadores céticos vêm labutando, sobretudo em mo- também seus problemas. Pois que OS historiógrafos fizeram com passado dos bur- nografias especializadas, para tentar modificar esse veredicto exagerado, e uns poucos têm gueses, tanto com remoto quanto com mais recente, foi simplesmente desenvolver a lenda popular mais durável, persuasiva, e pertinaz, a da burguesia em ascensão. espetá- feito tentativas de erradicá-lo por completo. Argumentam que ele explica demais e, por culo de uma classe de burghers que se afirmavam, sem qualquer altruísmo e sem qualquer conseguinte, explica muito pouco. Questionam a idéia de que a burguesia era politicamen- vergonha do seu mercantilismo, abrindo caminho a cotoveladas e galgando as escadas do te dominante na Inglaterra a partir de 1832, e afirmam que na Alemanha ela jamais foi, quer na política quer na sociedade. Até mesmo lançam dúvidas sobre a atraente e divertida poder e da riqueza através dos séculos, deve ser a explicação histórica mais popular já in- ventada. Ela abreviou inúmeras investigações e simplificou muitas respostas. que tornou descrição de Louis Philippe como um "rei burguês". Na verdade, Friedrich Engels, que, assim como seu amigo Karl Marx, foi dos primeiros a rotular sua era como o "século bur- 34 35guês", no fim da vida pôde distanciar-se de uma de suas formulações prediletas. Em 1845, me que na vida real senhor não passa de um completo burgues" A intenção da missi- ele havia assegurado sem rodeios que "a classe dominante na Inglaterra, como em todos va era a de insultar Zola, e certamente como tal foi interpretada. OS outros países civilizados, é a burguesia". Em 1892, entretanto, escrevia: "Na Inglaterra, Uma forte razão pela qual a fobia de Flaubert persistiu durante todo século XIX, a burguesia nunca manteve sozinha poder. Mesmo a vitória de 1832 deixou à aristocracia e ainda ressoaria entre historiadores posteriores, foi a aparentemente irrefutável afirmação rural a posse quase exclusiva de todos OS cargos governamentais de peso. A docilidade com da avant-garde de que as classes médias eram incapazes de sentir ou de dar amor com sin- que as classes médias abastadas se submeteram a esse estado de coisas", confessava Engels, ceridade. Esta acusação equivale a outra: a de que, por sua grosseria e por seu racionalismo "é algo que não consigo compreender". Sua reviravolta tardia vem sendo confirmada mecânico, burgueses convertiam tudo em mercadorias, toda e qualquer experiência nas por pesquisas históricas mais recentes. Nem por isso a noção de que século XIX foi sé- frias operações de soma e subtração. É certo que, sendo humanos, OS burgueses pelo culo da burguesia, e de que isso lhe foi muito prejudicial, deixa de ser ainda hoje parte menos OS machos dessa desafortunada espécie ansiavam por satisfação sexual, porém do estoque de conhecimentos geralmente aceitos, indispensáveis aos nossos sentimentos não conseguiam fundir sua sensualidade com afeição. Os pródigos elogios do amor que de compaixão para com nosso passado recente. permeavam a poesia que burgueses tanto gostavam de ler, bem como as cartas que tanto gostavam de escrever, eram considerados como mero sentimentalismo, como uma másca- ra para a incapacidade emocional e mais depravada lascívia. Vistas sob este ângulo, a idéia 3. UMA BATALHA DE PERCEPÇÕES do amor romântico do século XIX e as tão alardeadas vidas irregulares de seus ar- tistas não passam de censuras àquele monumento à insinceridade, àquela fachada suave Todos esses esforços para se definir a burguesia nada mais são que uma batalha de e enganosa, casamento burguês. Aquilo que Sigmund Freud mais tarde descobriria ser percepções. Mas nem todos OS pontos de vista tiveram idêntico modo de expressão. A julgar- um sintoma patológico comum entre homens com fixação em suas mães, tornou-se diag- se pela reputação que gozam as classes médias do século XIX, parece que as descrições con- nóstico que burguesófobos faziam das atitudes prevalentes na burguesia: "quando amam temporâneas e as avaliações posteriores mais eficazes foram escritas pelos seus críticos. Suas não desejam, quando desejam não podem amar" 39 Segundo uma de suas colocações pre- caricaturas freqüentemente malévolas, apesar de altamente persuasivas, se tornaram prati- feridas, OS maridos de classe média viam suas esposas como donas-de-casa competentes, camente canônicas mas não totalmente, pois retratos burgueses auto-elogiosos tampou- mães extremosas, e desastres eróticos. Gavarni, célebre caricaturista e comentarista CO constituíam raridades à época, nem deixam de ter ainda hoje algum apoio. cial francês, entretinha seus amigos incluindo OS irmãos Goncourt, romancistas e me- Heinrich Heine, esse incomparável inventor de metáforas, demonstra quão imagina- morialistas infatigáveis com histórias horripilantes das pedantes mulheres burguesas que tivas, engraçadas e podiam ser as caricaturas antiburguesas. Passeando pelo Sa- ele havia seduzido: segundo ele, eram mulheres obcecadas por regulamentos e mártires lão de Paris de 1843, observou um tanto desgostoso que, qualquer que fosse objeto re- da pontualidade. Repreendiam-no por atrasos de cinco minutos e, numa ocasião, uma bur- tratado pelos quadros expostos, todos eles estavam dominados pelo moderno espírito bur- guesa marcou um encontro com ele para dali "a cinco meses e uma semana". Num de guês, espírito do egoísmo e da ganância. A maior parte dos retratos, escreveu, "têm uma seus primeiros cadernos de apontamentos, escrever a respeito do amor, Leopold von expressão tão pecuniária, tão egoísta, tão mal-humorada!" Até mesmo uma pintura que mos- Ranke expôs assunto de maneira menos frívola: "Todo relacionamento que não surja trava a flagelação de Cristo despertou desagradáveis associações comerciais em Heine; o da compreensão ou do amor é pecaminoso: pois, exceto essas duas idéias, ele só pode se Cristo representado lembrava-lhe "o diretor de um banco falido". E OS grandes quadros basear num objetivo mundano comum, o das vantagens burguesas As clás- históricos, a despeito dos temas grandiosos que pretensamente retratavam, lhe traziam à sicas denúncias formuladas por Marx e Engels ecoaram portanto favoravelmente entre muitas mente "pequena lojas de varejo, especulações na bolsa de valores, qualidades mercantis, pessoas que não eram marxistas: "O burguês vê em sua mulher um mero instrumento de um filistinismo produção", escreveram eles no Manifesto comunista; de fato, "nossos burgueses, não sa- Como outros comentaristas hostis ao que chamavam de a nublada era burguesa, Hei- tisfeitos por terem à sua disposição as esposas e filhas de seus proletários, sem mencionar ne considerava aqueles a quem glosava como OS donos do mundo moderno uma fonte de as meretrizes, têm imenso prazer em seduzir as mulheres uns dos outros". A burguesia, tédio infinito, um termo que, aparentemente inócuo, ocultava por trás de seu sentido ób- em suma, além de não ser amada, não sabia amar. vio uma boa dose de incontida ira. Cada crítico tinha seu modelo favorito de burgueses historiador precisa tratar tais julgamentos com o maior cuidado. Alguns deles eram chatos: Stendhal escarnecia todos OS provincianos; Flaubert, praticamente todos OS france- a projeção das neuroses dos próprios críticos sobre um alvo público reconhecidamente ses. Heine, por seu turno, detestava as classes médias inglesas, que, segundo ele, consti- vulnerável; nada mais tentador do que desdenhar que não se pode alcançar e lançar tuíam a própria encarnação do materialismo vulgar e da devoção egocêntrica. Um autênti- bre burguês OS desejos e as qualidades que se receia encontrar em si mesmo. Outros cons- CO discípulo de Stendhal tanto nesse como em vários outros aspectos, Heine lamentava tituíam tributos paradoxais a uma cultura liberal, que abria suas portas a seus detratores que, com a morte de Napoleão, se tivesse extinguido a era dos verdadeiros heróis; OS mo- mais apaixonados e ferrenhos como nenhuma outra cultura havia feito antes. E outros dernos burgueses, escreveu ele, admiravam "um tipo bem diferente de herói, como o vir- simplesmente repetiam antigas invectivas, cuja plausibilidade originava-se justamente da tuoso Lafayette ou James Watt, fiandeiro de Mais veemente ainda do que Hei- mera repetição. A gélida intensidade e o vocabulário que Heine, Marx e seus ne, Gustave Flaubert sentia um desprezo tão profundo pela burguesia que chegava às raias companheiros puseram a serviço de sua ira, de seu desprezo, da náusea que sentiam só de uma aversão neurótica: considerando burgueses literalmente nauseantes, de uma fei- em pensar na burguesia, jamais foram ultrapassados e raramente igualados. No entanto, não ta assinou uma carta como "o burguesófobo". Queria ele que sua fobia fosse levada a sé- constituíam novidade. Tratava-se de uma tradição muito antiga e, pelos meados do século rio. Outros alegremente se aliaram a Flaubert em sua luta pela boa causa, incluindo a arroja- XIX, muito rica em expressões depreciativas. Remontava pelo menos à época de Jesus, que, da e talentosa jovem russa Marie Bashkirtseff, autora de diários, que, irritada pela indiferen- segundo relatam as Escrituras, expulsou os vendilhões do templo e demonstrou bastante ça silenciosa com que Zola recebia suas propostas e prevendo corretamente que ele conti- pessimismo quanto às chances que teriam os ricos de ingressar no céu. Tal pessimismo não nuaria a ignorá-la, lhe escreveu: "Não suponho que senhor dará resposta à presente: dizem- se amorteceu nem na Roma pagã nem na Idade Média cristã, e foi resgatado para a moder- 36 37nidade através da ambivalência dos reformadores protestantes. O surgimento do Estado Contudo, apesar de toda a sua verve e de toda a sua influência, esses cruzados anti- moderno e da sociedade moderna ofereceu aos burgueses primorosas oportunidades de burgueses não detinham o monopólio da opinião pública acerca das classes médias. Não obter riqueza e poder, porém, tal como acontecia antigamente, desdenhosas sátiras e de- faltaram à era vitoriana observadores geniais, que se regozijavam com o que se lhes afigura- núncias iradas, freqüentemente mescladas de inveja, perseguiam incontinenti. vam contribuições impressionantes das classes médias para progresso da civilização. Con- Em fins do século XVIII, detratores da burguesia adicionaram novas acusações ao forme disse com bastante firmeza influente sociólogo e historiador da cultura alemã, seu repertório, e se expressaram com maior ênfase. Os poetas rebeldes do Sturm und Drang, conservador Wilhelm Heinrich Riedl, em meados do século, "é a ordem burguesa que, desde liderados pelo jovem Goethe do defendiam energicamente a idéia de que a bur- antigamente, estabelece as trilhas de movimentos sociais justificados, das reformas sociais". guesia não ignóbil apenas quanto ao status que ocupava, mas também no tocante ao E acrescentou solenemente, referindo-se a sua própria época, que Bürgertum "detinha seu estilo. E, em muitos países, românticos de várias orientações levaram esta mensagem a maior parte do poder material e moral. Toda a nossa época está imbuída do caráter bur- para século XIX. E. T. A. Hoffmann a dramatizou com sua famosa e irônica inversão: da- E não dizia isto sem satisfação, pois se considerava um Bürger. va a entender a seus leitores que seu personagem predileto, maestro louco Johannes Kreis- Tal noção auto-elogiosa fazia parte de uma antiga tradição. Havia séculos, todas as ler, era de fato muitíssimo mais são do que seus mundanos e concidadãos, cujo cidades se orgulhavam de que seus magnatas de classe média, que presidiam empresas estimado equilíbrio mental na realidade não passava de falta de requinte espiritual, da fatal merciais, corporações de ofícios ou clãs familiares, apoiassem as artes e fomentassem as ausência de senso estético. As artes a pintura, a poesia, mas sobretudo a música ciências. Grandes príncipes-mercadores como OS Medici, cuja generosidade para com sá- tornaram-se uma espécie de doença sagrada, por vezes até mortal; a boa saúde e a cons- bios e poetas, pintores e escultores, músicos e arquitetos era proverbial, haviam sido mer- ciência limpa do respeitável Bürger eram estigma de uma obtusidade invencível. Nos pri- cadores antes de se tornarem príncipes. E que a alta cultura florentina devia aos seus bur- mórdios do século XIX, Estados alemães, assim como a França e outros países civiliza- gueses mais ricos, a alta cultura de outras cidades desenvolvidas Bruges, Edinburgh, Ams- dos, se viram abarrotados de jovens Kreislers pálidos de tédio, que na verdade era ira, de- terdã, Nürnberg deviam aos seus patriciados de classe média. Os patrícios que domina- safiando mundo filisteu com suas pinturas, suas composições musicais, seus versos e seus vam grandes centros comercias da incipiente idade moderna, homens que recusavam manifestos. Boa parte disso não era mais do que uma encenação da revolta que OS jovens títulos nobiliárquicos e consideravam sua vocação mercantil não apenas lucrativa mas tam- sentiam contra seus pais, que haviam acumulado poder político e influência artística. Mas bém digna, não viam motivo algum para se envergonharem de sua posição no mundo. Nós quaisquer que fossem suas origens, essas manifestações eram eletrizantes; a burguesia se OS vemos nos retratos pintados por excelentes artistas como Hans Holbein, Jovem, com viu forçada à defensiva justamente naquelas décadas em que se saudavam, ou se deplora- todos OS atributos característicos do comerciante folhas de caixa, balanças de pesar ou- vam, seus mais retumbantes triunfos. Heine e Flaubert somente não se tornaram represen- ro, até mesmo dinheiro , retratos que imortalizam um status social que não precisa se tativos de todo esse movimento de revolta por terem se deixado levar a excessos de pura justificar, que é forte e pleno de respeito próprio. E essa camadas médias da sociedade tam- Outros, menos extravagantes e menos dotados de imaginação, aprenderam com bém encontraram apologistas persuasivos e espirituosos: Addison em seu Spectator, e Vol- eles. Disso tudo decorre que, em 1857, quando Flaubert publicou Madame Bovary tais taire em suas famosas cartas sobre ingleses, elogiavam comerciante pacífico e toleran- opiniões não eram nada raras; e quando ele faleceu, em 1880, sua pequena vingança parti- te precisamente porque ele permanecia intocado pelos ideais grandiloqüentes, destrutivos cular contra filisteus reinantes havia se transformado num movimento de massas. Aque- e essencialmente infantis da aristocracia. Talvez até com uma pequena dose de perversida- les poucos afortunados, a elite cultural sonhada por Stendhal nos idos de 1830, meio sécu- de, Addison e Voltaire achavam que mesmo especuladores da Bolsa tinham algo de ad- lo depois se haviam tornado muitos, ainda que dificilmente pudessem ser chamados de mirável. afortunados. E, embora mais hábeis combatentes dessa cruzada fossem em geral france- De modo mais sóbrio, em sociedades onde OS comerciantes adquiriam igualmente ses, os pioneiros do movimento foram os alemães; e não se deve esquecer que Culture grandes fortunas e grande fama, ideólogos da classe média tomavam sua própria classe and Anarchy [Cultura e anarquia], um texto de Matthew Arnold que de modo algum foi por verdadeiro repositório de virtude cívica, destinada a exercer poder no Estado e a negligenciado, deixa claro que na década 1860 desprezo pelos filisteus da classe média liderança na cultura. Em princípios do século XVIII, Daniel Defoe proclamava que o comér- havia alcançado a Inglaterra. cio, na Inglaterra, estava longe de ser com um uma visão po- À medida que as invectivas contra OS detestáveis filisteus se disseminavam, o epíteto sitiva que teve repercussões favoráveis no século XIX. "O valor das classes médias neste "burguês" perdia muito de sua especificidade. Os adversários da luz e da beleza contavam país", escreveu James Mill em 1826, "e seu crescimento, tanto em número quanto em im- em suas fileiras com praticamente todo mundo, excetuando-se somente meia dúzia de es- portância, são reconhecidos por todo mundo. Há muito tempo se fala dessas classes, e mesmo colhidos. "Quando falo da burguesia", alertava Friedrich Engels aos leitores de The Condi- seus superiores se referem a elas, sem ressentimentos, como a glória da Inglaterra". Quatro tion of the Working Class in England in 1844, [A condição da classe operária na Inglaterra anos mais tarde, num daqueles imprecisos porém impressionantes desvios de linguagem em 1844], "incluo nela a assim chamada Duas décadas mais tarde, em 1862, que já mencionei, radical lorde Brougham confundia as classes médias inglesas com a pouco após haver concluído Salammbô, seu estranho e sanguinário romance sobre Carta- própria nação. "Quando falo do povo", disse ele, "falo das classes médias, a riqueza e a go, Flaubert escrevia a um amigo que tinha esperanças de, com esse romance, "irritar inteligência do país, a glória do nome da É significativo que Brougham, burgueses, ou seja, irritar todo Por mais polêmica e tendenciosa que fosse a um lorde recentemente nomeado, invés de procurar ocultar suas origens de classe mé- retórica dessa cruzada, seus sentimentos eram OS mais autênticos possíveis. Os cruzados dia, enfaticamente proclamasse suas virtudes. E mesmo burgueses inclinados a auto-elogios se viam como desesperançados paladinos de uma cultura em extinção, que, temiam eles, menos extravagantes ainda assim exigiam, em termos bastante fortes e nada ambíguos, estava sendo varrida por uma invasão maciça de banqueiros, comerciantes e burocratas respeito que era devido. Em 1885, refletindo sobre caráter dos "estratos inferiores recentemente politicamente poderosos e esteticamente ignorantes, e por um da burguesia alemã", o publicista literário Robert Prölss punha em evidência sua "honesti- séquito de mascates e funcionários subalternos, ainda mais vulgares do que seus senhores, dade, perseverança, firmeza e personalidade sólida". Oito anos depois, Charles Needham que formavam a retaguarda da burguesia. definia Bürger como um homem dotado de "algum orgulho de seus ancestrais, sem os sen- 38 39timentos exclusivistas da nobreza". Quer a sua renda seja grande ou não, "ele vive de acor- em massa de bens culturais, impulsionada por avanços técnicos nas artes gráficas, na foto- do com que tem ao seu dispor" e tem a intenção de manter, e se possível de estender, grafia e, já ao final do século, pela invenção do fonógrafo, levantaram questões alarmantes "quaisquer demonstrações de confiança e de estima que lhe sejam indiretamente concedi- sobre as conseqüências de uma expansão da cultura através de camadas cada vez mais am- das" por sua comunidade. E isto é verdade tanto para "profissional" quanto para "co- plas da população. A conquista de novas posições de poder por parte dos burgueses foi merciante", para "o artista ou artesão, banqueiro ou industrial, empregado ou de fato menos extensa e muito mais cheia de nuances do que em geral se imagina, porém gerou, como não podia deixar de ser, uma postura defensiva (social e política) entre OS recém- Talvez fosse inevitável que, nas décadas que se seguiram à Revolução Francesa, al- chegados, postura essa em que se destacava uma rejeição obtusa, por vezes frenética e em guns burgueses satisfeitos consigo mesmos, quisessem arrogar para si o século. O que tan- geral egoísta, das realidades sociais, conjugada a uma igualmente obtusa e igualmente fre- tos críticos culturais consideravam vícios burgueses, eles saudavam como virtudes burgue- nética recusa de aceitar qualquer experimentação estética. sas: ao esgotamento do veio poético, chamavam de realismo; à ausência de princípios ele- Por tudo isso, burgueses do século XIX fizeram por merecer as críticas que vados, de espírito prático; à devoção obsessiva ao trabalho, de energia; conservadoris- foram prodigalizadas. E, conforme já mencionei, muitos burgueses transformaram a auto- mo bovino dos prósperos, de solidez. Até mesmo Marx e Engels, que não morriam de amo- crítica em flagelação. Atraíam denúncias coletivas e virtualmente montavam pano de res por uma classe cuja missão histórica a seu ver já se aproximava rapidamente do fim, fundo para elas com uma avidez que honraria qualquer tribo de masoquistas. Não resta acharam palavras expressivas para louvá-la. "A burguesia sujeitou campo às leis da cida- dúvida de que a burguesia do século XIX produziu alguns superegos de primeira grandeza. de", escreveram num famoso parágrafo do Manifesto comunista. "Criou cidades enormes, Apesar de sinceramente dedicada à privacidade, vez por outra dava-se ao luxo de divulgar arrastou para dentro da civilização todas as nações, até mesmo as mais e assim amplamente um ou outro ataque de sentimentos de culpa. "Nós refiro-me às classes mé- "salvou uma parcela considerável da população da estupidez da vida dias, e não somente aos ricos nós abandonamos vocês; ao invés de justiça, oferecemos Mesmo essa valorização limitada não obteve apoio geral. Um motivo para tanto a vocês caridade, e ao invés de simpatia, conselhos duros e irreais." Assim Arnold Toynbee foi a paixão que a burguesia tinha pela autocrítica, fomentando um verdadeiro batalhão se dirigiu a um público de operários em 1883. Prossegue ainda: "Vocês têm que nos per- de inclementes críticos sociais, praticamente todos oriundos de suas próprias fileiras. Em doar, pois nós OS prejudicamos profundamente". Ele dizia isso numa época em que con- um diagnóstico mordaz, Henry James observou que "Balzac e seus companheiros" odia- forme Beatrice Webb relembraria mais tarde "homens de intelecto e homens de pos- vam a burguesia "porque eles mesmos são quase sempre fugitivos da burguesia. Consegui- ses" adquiriam "uma nova consciência do pecado", uma consciência confusa e inquietan- ram escapar com vida, e uma vez estabelecidos no acampamento adversário, erguem alto te que ela descreveu como "consciência coletiva ou consciência de George Ber- seus punhos e bradam seus Arthur Symons, crítico e poeta simbolista, con- nard Shaw, que tinha seus próprios motivos para estimular tais sentimentos, observava em cordava. Falando da rebeldia estética da década de 1890, observou desdenhosamente "Nada, 1912 que "as grandes conversões do século XIX não resultaram da convicção de pecados nem mesmo a virtude convencional, é tão provinciano como o vício convencional: e individuais, mas sim de um pecado social. A primeira metade do século XIX se considerava desejo de deplorar a classe média faz parte da própria classe Todavia, histo- o maior de todos OS séculos; a segunda descobriu que era mais perverso de riador em busca de uma definição para a cultura da classe média do século XIX não pode Em seu estilo característico, Shaw exagerou na conceituação de ambas as metades de sua deixar de perceber que tal hostilidade furiosa tinha muitos pontos de contato com a reali- proposição e deliberadamente minimizou a coexistência de sentimentos contraditórios tanto dade da época. Sob vários aspectos importantes, havia algo de opressivo na civilização dos na primeira quanto na segunda metade do século. Entretanto, por mais simplista e superfi- negócios, sobretudo quando impregnada de fervor evangélico, algo incompatível com cial que seja, sua generalização deve recordar-nos de que OS problemas de se encontrar gosto mais requintado, com as distinções mais sutis, com a liberdade moral e artística, e uma definição para a burguesia eram mais que uma questão de nomenclatura, mais que mais ainda com as percepções críticas. A arte oficial que continuava a ser premiada nos uma tarefa a ser resolvida por meio de comparações sociológicas: envolvia a problemática salões em toda a Europa, interior pretensioso de abastadas casas alemãs nas primeiras natureza moral da própria vida burguesa. O maior de todos os obstáculos que se opõem décadas do Império, a interferência insensível dos censores na pintura ou na poesia que à definição da burguesia do século XIX talvez seja suas várias e tumultuadas tentativas de julgavam blasfema ou obscena estes e outros sintomas culturais correlatos sugerem for- definir-se a si mesma. temente que as dificuldades dos espíritos inovadores na literatura, nas artes e no pensa- Não obstante todos esses obstáculos para se chegar a uma definição ao mesmo tem- mento não eram de modo algum auto-impostos. A dor e a ira que autores e artistas de van- po bastante abrangente e bastante diferenciada, não pretendo sugerir que nada haja para guarda extravasavam em suas cartas particulares, em seus cafés preferidos, em suas efême- ser definido. Unindo-se sob OS efeitos de pressões externas, a burguesia do século XIX ge- ras revistas e jornais, mereciam maior credibilidade do que a idéia de que eles fossem este- rou estilos comuns de pensamento acerca do amor e da agressão. Sem nenhuma implica- tas que mordiam a mão que lhes estendia alimento, enfurecidos tão-somente pela gula ção metafisica, foi simultaneamente uma e muitas. Já em 1820 essa característica foi arguta- por mais alimentos. Tampouco era adequada a idéia de que por trás de toda aquela dor mente percebida pelo príncipe Metternich: "Essa classe intermediária", escreveu ele, e ira se encontrasse a necessidade primitiva de dividir nitidamente mundo em amigos referindo-se à classe média em carta dirigida czar Alexandre I, "assume toda a sorte de e inimigos. A amplitude e a rapidez das mudanças sociais trouxeram à tona um verdadeiro disfarces, unindo-se e subdividindo-se conforme soprem ventos, ajudando-se uns aos exército de novos-ricos, a maioria deles tremendo de ansiedade social. Sentindo-se perdi- outros nas horas de perigo, e já no dia seguinte despojando-se uns aos outros de todas suas dos ao se encontrarem repentinamente no terreno da alta cultura, esses novos-ricos, com conquistas".55 Talvez caiba aos autores ingleses do século XIX melhor quinhão de tudo umas poucas e notáveis exceções, agarravam-se ao gosto das gerações antecedentes e de- isso: exceto em momentos polêmicos ou irônicos, ativeram-se, conforme já mencionei, ao fendiam ferrenhamente padrões tradicionais que OS consumidores de cultura mais seguros termo "classes médias" que revela habilidosamente invencível pluralismo implícito de si já havia muito tempo questionavam e estavam prestes a abandonar. A arte destinada na cultura burguesa, e que coexiste com a unicidade que nela se encontra subjacente. unicamente à autopromoção e ao consolo reconfortante predominava tanto nas exposi- ções públicas quanto nas casas particulares. E, que ainda é mais importante, a produção 40 41a capacidade de cogitar, esses homens, suficientemente instruídos ou bem situados para II poderem participar dos enormes benefícios do capitalismo, conseguiram passar da passivi- dade à ação, estabelecendo, e efetivamente exercendo, domínio sobre seu mundo; e es- ses meios se mostraram altamente gratificantes. "Ninguém que tenha prestado atenção às características peculiares da época atual", disse príncipe Albert discursando no ban- quete oferecido ao prefeito de Londres em 1850, "duvidará por um instante de que vive- mos um período de transições maravilhosas, que tende célere à realização do grande fim para qual, de fato, toda a história aponta a unificação da humanidade". Com a vista voltada para a Grande Exposição que então se preparava, declarou que "os conhecimentos adquiridos se tornam imediatamente de domínio público", de sorte que "o homem se apro- xima do completo cumprimento da grandiosa e sagrada missão que foi atribuída neste tom do príncipe consorte é um tanto complacente, talvez exageradamente ARQUITETOS E MÁRTIRES DAS MUDANÇAS entusiástico em sua radiante simplicidade. Sua mensagem não era contudo novidade para OS que ouviam: tratava-se de um chavão conhecido, um ponto de vista representativo do tema que predominava na época. E. B. Tylor, o evolucionista cultural que abriu muitas sendas novas, assim expressou em 1867: "A história da humanidade" é "a história de um desenvolvimento Feiras como Grande Exposição londrina de 1851, a matriz de todas as seguintes, eram ao mesmo tempo documentos e 1. A INFLUÊNCIA DO NOVO instrumentos do O progresso não era apenas um mito para as pessoas respeitáveis. Políticos radicais, As incertezas que assolavam burgueses do século XIX, e que eles legaram aos his- fossem eles de inclinação "utópica" ou "científica", divisavam claramente fim da escas- toriadores, não se restringiam às questões angustiantes relativas às suas obrigações para com sez, que havia sido a origem da mais acirrada luta social no passado. Como escreveu Hein- seus inferiores ou à sua reputação entre poetas e pintores. Mais do que qualquer século rich Heine, animado pela desenvoltura persuasiva de Saint-Simon, em meados da década anterior, essa foi uma época de esperança sem precedentes e de ansiedades desconhecidas. de 1830: "Medimos as terras, pesamos as forças da natureza, avaliamos recursos da in- Nos termos de Gladstone, "uma era de agitações e de expectativas". Para pobres, ob- dústria; isso tudo fizemos, e eis que descobrimos: que esta terra pode alimentar-nos a viamente, trazia mais agitações do que expectativas; camponeses e operários, soldados e todos decentemente, se todos trabalharmos e não desejarmos viver às custas dos marinheiros eram testemunhas de que a crueldade e a indiferença não haviam desapareci- Se havia bastante para todos, futuro não podia deixar de sorrir, e todas as perspectivas do do mundo. Milhares de pessoas continuavam a viver em condições de miséria e imundí- estavam implícitas no presente. Para muita gente, as mudanças não constituíam uma amea- cie extremas nos países mais adiantados do Ocidente. Os contemporâneos discerniam bem ça, e sim uma promessa. que se-passava; demonstram-no bem horripilantes Desastres de la Guerra de Goya, Parece-me desnecessário demonstrar que mudanças são a lei da vida, e que a maioria aterradores relatos que Florence Nightingale enviava da linha de frente na Criméia, os das épocas são épocas de transição. O que ocorreu no século XIX, porém, é que a própria fiéis documentos oficiais sobre as condições das classes trabalhadoras, ou um passeio atra- natureza das mudanças se modificou; elas tornaram-se muito mais rápidas e irresistíveis do vés desse horror opressivo e caracteristicamente moderno que são OS bairros miseráveis que haviam sido no passado. Foram também acentuadamente irregulares: avanços nas ciên- das cidades industriais. cias naturais não geravam aperfeiçoamentos nos tratamentos médicos; É claro que de modo geral a experiência burguesa foi muitíssimo mais gratificante, levantamento de informações sociais não se refletia rapidamente em reformas sociais. pelo menos na Não é por mero acaso que foram justamente bons burgueses, E tradicionais arranjos sociais, tais como a vida familiar, foram conturbados pelo choque beneficiários evidentes da expansão econômica e das turbulências políticas ocorridas entre as novas necessidades e OS antigos hábitos. As mudanças no século XIX foram pois início do século XIX, que exerceram as maiores pressões no sentido de mais expansão e mais freqüentemente perturbadoras do que estimulantes. mais turbulência. A linguagem utilizada pelo príncipe Metternich, aflito guardião das tradi- Precisamos frisar que a era vitoriana foi extremamente sensível a suas experiências su- ções européias, na famosa avaliação secreta da sua época, que submeteu em dezembro de premas: os historiadores, que de modo geral haviam sido poetas das mudanças, tornaram- 1820 czar Alexandre I, demonstra sobejamente que energias se entrechocavam no âma- se OS cientistas que as estudavam. E, mesmo aqueles que lamentavam pessimismo de Carly- go da burguesia: queixava-se de que "classes agitadas" subvertiam a ordem pública em to- le concordavam amplamente com sua afirmação, proferida em 1829: "É indubitável para quem do o continente. rápido "progresso da mente humana", não tendo sido acompanhado quer que seja que grandes mudanças exteriores estão se processando. A época está doente pelo progresso igualmente rápido da "sabedoria", havia levado a juízos particulares, e, se- e Por isso, testemunhas inteligentes do século chamavam de "tempo de gundo pensava ele, era "principalmente a classe média da sociedade que havia sido afetada transição", sem se darem conta de que estavam emitindo um chavão, e convictas de estarem por essa gangrena". Observava ademais que os subversivos eram liderados por burgueses constatando uma verdade de peso na medida em que distinguiam sua era das precedentes. ativos, tais como "funcionários públicos, literatos, advogados e homens encarregados da John Stuart Mill falava de sua época, em 1831, como de "uma era de mudanças", e, mais adian- educação pública", todos eles infelizmente subjugados pela Durante todo te, como de "uma era de transições". Três décadas depois, em 1860, Émile Zola informava século burguês, esta "presunção" tornar-se-ia um instrumento potente para manter as a um amigo íntimo que "nosso século é um século de classes médias em movimento. Somente os inovadores teriam feito uso de outro termo, Ao se aproximar fim do século XIX, a psicanálise, apesar de sua reputação em con- menos ofensivo: autoconfiança. Por meios de que seus ancestrais não teriam tido sequer trário e apesar de comprometida com o postulado de uma natureza humana fundamental- 42 43mente imutável, demonstrou ser também acessível às percepções e à análise de mudanças. partiram em busca de uma vida melhor. Comerciantes falidos, políticos dissidentes, judeus O complexo de Édipo, conforme Sigmund Freud constatou no processo de sua formulação, de classe média vítimas da intolerância, toda essa gente fugia do Velho para Novo Mun- tinha uma história própria, e esta história era uma história social. Comparando Oedipus do. E a vida econômica e social das sociedades burguesas foi afetada pela chegada dos imi- Rex [Édipo Rei] de Sófocles e o Hamlet de Shakespeare, Freud chamou a atenção para grantes, nem sempre de modo agradável para OS anfitriões. A migração era uma aventura, "tratamento diverso dado 20 mesmo material" nas duas tragédias, o que sublinhava "a enorme um caminho para a liberdade, para solvência econômica ou para a segurança pessoal, po- diferença de mentalidade dessas duas épocas tão espaçadas entre si", uma diferença por ele rém era mesmo tempo, principalmente para OS próprios migrantes, um trauma que fre- interpretada como sendo avanço, através dos séculos, da repressão na vida emocional qüentemente tinha efeitos permanentes. da Com este reconhecimento das mudanças, a psicanálise, que de tantas ou- mesmo pode ser dito sobre um segundo e não menos drástico tipo de migração: tras maneiras era subversiva, neste particular se mostrava de acordo com sua época. a migração do campo para a fábrica, a oficina ou escritório. Esse deslocamento, sazonal Anteriormente, nos séculos XVII e XVIII, OS modos tradicionais de pensamento haviam ou (como era mais freqüente) permanente, aumentava a tendência natural de crescimento sido esticados e torcidos para acomodar inovadoras aos padrões herdados O que, dos gigantescos centros metropolitanos do século XIX. Nas palavras do falecido Richard embora com alguma dificuldade, foi feito. Ainda no século XVIII alguém podia ser simulta- Hofstadter, em sua Age of Reform [Era das reformas], "os Estados Unidos nasceram no campo neamente um cientista solidamente embasado e um bom cristão, e, se bem que ainda fosse e se deslocaram para a cidade".¹ A Europa inteira passou por idêntica transformação. Con- possível manter esta dupla fidelidade no século XIX, tornou-se cada vez mais difícil sustentá- forme observou Maxime du Camp, historiador da Paris moderna e amigo de Flaubert, la. Pois nesse interim a Revolução Francesa e a Revolução Industrial, acompanhadas e segui- em fins do século XIX: "A Inglaterra vai para a India, a Alemanha para a América, e a Fran- das de turbulências igualmente profundas nas ciências humanas, abalaram a maior parte das ça para Paris". Bem poderia ter acrescentado que a Inglaterra também ia para Londres estruturas de crença e de autoridade, chegando mesmo a demolir algumas delas para sempre. e a Alemanha para Berlim. Enquanto em 1800 apenas 21 por cento da população da Ingla- Essas grandes turbulências constituíam uma presença constante nas mentes do século terra e de Gales viviam em cidades de 10 mil habitantes ou mais, em 1850 essa proporção XIX, gerando sonhos plenos de esperança ou verdadeiros pesadelos, que levava OS otimis- se avizinhava dos 40 por cento, e em 1890 excedia OS 61 por cento. Outros países, que tas a predizer triunfo da ciência, a liberação feminina ou a renovação da cultura, enquanto mantinham com maior tenacidade suas raízes no campo, ainda assim apresentaram incre- pessimistas eram levados a prever a ruína das religiões, a subversão da vida familiar ou a mentos só um pouco menos dramáticos: na Bélgica a proporção passou de 13 a 35 por corrupção da ordem. Por séculos a fio, as inovações haviam sido temidas, fornecendo um cento entre 1800 e 1890; nos Estados Unidos, no mesmo período, de menos de 4 por cen- referencial para sanções violentas; no século XIX, este referencial foi institucionalizado. épo- to para mais de 27 por cento. As vorazes metrópoles constituíam OS alvos mais evidentes ca da Reforma, católicos romanos irritavam OS rebeldes protestantes com a zombaria retórica: dessa mobilidade. Em 1800, Paris, que já então era centro absoluto da vida francesa, con- "Onde estava a vossa Igreja antes de Lutero?" Mais adiante, no século XVI, OS puritanos ingle- tava menos de 600 mil habitantes; em 1850 ultrapassara a casa de um milhão, e em 1900 ses se viram numa postura defensiva por buscarem "inovações no Estado", e um século de- abrigava bem mais do que 2,5 milhões. Berlim saltou de 420 mil habitantes em 1850, quan- pois Cotton Mather vociferava contra OS fundadores da nova igreja de Brattle Street, em Bos- do era apenas a capital da Prússia, para 2 milhões de habitantes em 1900, quando já era ton, denunciando-os como agentes de "Satanás iniciando um terremoto" e como a capital da Alemanha imperial. No intervalo da vida de uma pessoa estas cidades mudaram pecaminosos que promoviam um "Dia de Tentações" entre OS fiéis de Massa- a ponto de se tornarem chusetts. Foi só depois que OS homens do Iluminismo, com Locke na vanguarda, começaram Tal fuga dos campos, que desde tempos imemoriais haviam sido o lar de praticamen- a questionar que direitos O antigo possuía sobre as pressões do novo que a inovação se tor- te toda a humanidade, não tinha como único objetivo a meia dúzia de capitais. Centros nou, pouco a pouco, uma idéia aceitável. A era dos pais cedia à era dos filhos. Já se podia industriais e comerciais como Manchester e Birmingham, que meio século antes haviam cogitar em mudanças, e este pensamento se tornou comum. sido meros vilarejos, tornaram-se, em poucas décadas, extensos, prósperos, miseráveis e De fato, "movimento", na sua acepção mais comum, foi espetacular no século XIX. agitados aglomerados urbanos. Alguns desse vilarejos foram virtualmente pisoteados até Os migrantes cruzavam fronteiras, e freqüentemente atravessavam OS oceanos. Na década de desaparecerem no solo: em 1801, Middlesbrough tinha 581 habitantes, e Crewe, 121; no- 1820, OS Estados Unidos receberam 150 mil imigrantes; na de 1840, este número aumentou venta anos mais tarde, ostentavam respectivamente populações de 76 135 e de 761 ha- dramaticamente para 1,5 milhão. E, na década de 1880, a América absorveu total impressio- Mais do que o crescimento das cidades em números absolutos, era ritmo ace- nante e para muita gente aterrorizante de mais de 5,2 milhões de pessoas.* E Estados lerado da urbanização que OS homens da época achavam tão impressionante e alguns ob- Unidos não foram único país a receber migrantes: a América do Sul, as províncias orientais servadores preocupados tão detestável. Na Alemanha, número das defini- da Rússia, a África do Sul e a Australásia se transformaram devido à enxurrada de recém- das como cidades com mais do que 100 mil habitantes, simplesmente sextuplicou entre chegados. Estima-se que do início da década de 1820 até o início da década de 1920, quando 1871 e 1910, passando de oito para 48. E que as cidades alemãs ganhavam, OS campos severas restrições reduziram a corrente migratória para OS Estados Unidos e para a maioria alemães perdiam. Em 1882, mais de 42 por cento dos alemães ainda viviam no campo, en- dos outros países a um mero filete, algo em torno de 62 milhões de pessoas deixaram a Euro- quanto cerca de 35 por cento trabalhavam na indústria, na construção e na mineração; em pa em busca de outros lugares onde se fixar. Se bem que esta imensa Völkerwanderung** apenas treze anos a população urbana empregada ultrapassou a população rural, e em 1907 fosse constituída sobretudo por camponeses, artesãos e operários, muitos burgueses também setor agrícola estava reduzido a 28 por cento, ao passo que setor industrial compreen- dia cerca de 43 por cento da população. Na França as cidades também funcionavam como A cada ano mais de 100 mil franceses abandonavam campo para buscar trabalho nas cidades; entre OS anos de 1875 e 1881, esse número subiu para cerca de 840 mil. (*) Principalmente gente humilde, expulsa do Leste europeu pelos "decretos de maio" do czar, que tornaram sua sobrevivência impossivel (N.T.) (**) Em alemão no original. termo designa especificamente as "Grandes Migrações" ocorridas a partir do século sobretudo com referência às invasões do hunos, e depois de povos germânicos e eslavos. (N.T.). (*) Em alemão no original. Literalmente, "cidade grande", ou seja "metrópole". (N. T.) 44 45Em 1891, mesmo a França, país dos sítios e dos vilarejos, tinha apenas 45 por cento de A influência das mudanças foi expressa adequadamente pelo emprego encantatório sua população trabalhando na terra. do termo "novo". Jacob Burckhardt, eminente historiador e por princípio um conserva- Todas estas cifras são grosseiras, em vários sentidos. A experiência do século XIX exige dor, detectou bem cedo este costume. "Todo mundo quer ser novo", escreveu em 1843, distinções mais refinadas do que estatísticas nuas e cruas. Foi a era do subúrbio, do fau- "mas nada além disso". Tal desejo poderia ser popular, mas não exigia, na opinião_de Burck- bourg, do Vorort, cuja composição pendia cada vez mais para a classe operária à medida hardt, nenhum esforço mental: "Nada mais fácil do que ser um liberal", escreveu ele em que século avançava, embora continuasse a abrigar as classes médias. Cada subúrbio, fos- 1841.15 Mais de meio século depois, Holbrook Jackson descreveu a década de 1890 como se vizinho Berlim, a Roma ou a Nova York, tinha sua própria história, e suas origens re- uma época caracterizada por livros que levavam títulos como The New Hedonism [O novo montam freqüentemente aos primórdios dos tempos modernos. Foi no entanto século hedonismo] e The New Fiction [A nova ficção], assim como por movimentos que se deno- XIX, especialmente depois do surgimento das ferrovias, que mais profunda e continuamente minavam Novo Paganismo, Nova Volúpia e (numa reação evidente a estes) Novo Remorso, estimulou esses refúgios contra ruído e as multidões das cidades modernas, gerando além de outros como Novo Espírito, Novo Humor, Novo Realismo ou o Novo Tea- desenvolvimento dessas pequenas e despretensiosas (e às vezes pretensiosas) propriedades. tro, isso para não falar do Novo Sindicalismo e da Nova Com efeito, pouco de- Este surpreendente desabrochar de aglomerações de classe média deu margem a algu- pois de 1890 crítico e austríaco Hermann Bahr observou surgimento repetido ma inveja e boa dose de zombarias. Ninguém era um alvo mais fácil para sátiras do que de "jovens" escolas de arte e literatura, até mesmo das "mais jovens" escolas. "A cada dia", habitante dos subúrbios; o modo com que se via sua vida, seu gosto e suas aspirações era escreveu ele, "aparece uma nova estética do futuro. Cada pessoa oferece ao mundo sua distorcido e produziu uma torrente de críticas satíricas. O pequeno clássico de George e Wee- fórmula particular de novidade". E sem a mínima dúvida: "As antigas fórmulas já presta- don Grossmith, The Diary of a Nobody [Diário de um ninguém], publicado em 1892 e cons- ram seus serviços e agora reina uma sede irresistível do novo" 17 Samuel Johnson já de- tantemente reimpresso, que retrata a vida suburbana quase afetuosamente, é menos con- plorara, em 1783, a "fúria das inovações" amplamente difundidas, não obstante seu tempo descendente de tais pasquins. Entretanto, apesar de constituírem um objeto de desdém, OS ter sido plácido, e tranqüilo se comparado aos que sobreviriam vertiginosamente um sécu- subúrbios se mostraram invencíveis em toda parte; H.J. Dyos, historiador de Camberwell, lo mais tarde. É indubitável que na década de 1880 um observador social perspicaz como subúrbio localizado ao sul de Londres, de certa feita observou argutamente que OS comenta- Émile Durkheim tinha toda a certeza de estar vivendo uma nova época, uma nova era. ristas utilizavam uma linguagem militar quando se referiam a esse desenvolvimento eston- Anteriormente, Walter Bagehot já havia resumido, de modo impressivo, esta convic- teante: "Os exércitos de Alexandre eram grandes produtores de conquistas", escreveu Wilkie ção, no parágrafo de abertura de sua obra Physics and Politics [Física e política]: "Uma Collins em 1861, quando mais acentuadamente se acelerava ritmo da suburbanização, "e peculiaridade dessa nossa era é a súbita aquisição de grandes conhecimentos em física. Ho- OS exércitos de Napoleão eram grandes produtores de conquistas, porém OS modernos regi- je dificilmente uma área das ciências será idêntica, ou quase idêntica, que era mentos guerrilheiros, armados de baldes, colheres de pedreiro e fornos de cozer tijolos, são anos atrás. Um novo mundo de inventos de telégrafos e de ferrovias surgiu a nossa OS maiores conquistadores de todos; pois são eles que mais longamente mantêm as terras volta, e não temos como evitar percebê-lo; espalha-se pelos ares um novo mundo de idéias ocupadas", inclusive apondo nelas "as do conquistador: arrendado para que nos afeta, apesar de não podermos vê-lo". 18 E poder-se-ia argumentar que novo mun- fins de Camberwell, pouco mais que uma cidadezinha esparsamente habita- do de idéias, ainda que invisível, estava transformando a sociedade do século XIX de ma- da 20 início do século XIX, cresceu de 39868 habitantes em 1841 para atingir 259339 em neira pelo menos tão irreversível quanto as invenções perceptíveis, como as ferrovias, OS 1901 um crescimento atordoante que septuplicou a população em apenas sessenta anos.¹⁴ telégrafos, ou a rede bancária Não resta dúvida de que ritmo das mudanças E, se bem que uma parcela cada vez maior desses quase 260 mil habitantes compreendesse já vinha se mantendo em um nível desgastante havia algumas décadas quando Bagehot pu- trabalhadores respeitáveis que viajavam diariamente para Londres em trens rápidos e bara- blicou sua avaliação da época em que vivia. Ainda assim, esse ritmo foi-se acelerando à me- tos, e a despeito de Camberwell haver criado sua própria favela, elemento constituído pe- dida que a era de Vitória se movia em direção à era de Freud. Relembrando a agitação fre- las classes médias manteve lá a sua base. As fantasias que OS londrinos de classe média realiza- nética que animava a vida de sua cidade, Munique, ao início da última década do século vam em Camberwell, berlinenses de classe média realizavam em Wilmersdorf. À medida XIX, historiador de arte Hermann Uhde-Bernays lançou mão novamente do já conhecido que as fábricas e OS conjuntos habitacionais operários faziam inchar um subúrbio após ou- encantamento: "Lutava-se por uma nova arte, por um novo teatro, por uma nova ópera, tro Argenteuil nos arredores de Paris, La Guillotière próximo a Lyon porém, alguns por novos concertos dados em novas salas recentemente construídas, pelo rejuvenescime- desses sonhos burgueses se transformavam em pesadelos. Neste caso, como em tantos ou- to das instituições educacionais, enfim, por uma vida nova e refrescante em meio a uma tros, a experiência burguesa foi marcada pela ambivalência. atmosfera ressequida e Em 1912 o dr. Hermann Rohleder houve por bem pre- Os subúrbios, criaturas e criadores das mudanças, se agigantavam não só como defe- faciar um livro sobre higiene e educação sexuais com outra invocação dessa realidade avas- sas contra a ansiedade, mas também como meios de realizar anseios. E as próprias cidades saladora dos seus dias: "Decerto todos sabem que cataclismas colossais são característicos forneciam material suficiente tanto para a gratificação quanto para a inquietação. Com a mul- de toda e qualquer área da nossa cultura atual, da geração de nossos dias, dos modernos. tiplicação das fábricas, a invasão das estradas de ferro e estações ferroviárias, a expansão de No campo da tecnologia, vivenciamos hoje inovações com que não havíamos sequer so- edifícios da administração pública, a ascensão e queda de bairros considerados "nobres", nhado há quinze ou mesmo há dez anos; o mesmo pode ser dito com relação ao comércio, século XIX produziu um caleidoscópio de mudanças habitacionais no interior das próprias à indústria, e que talvez seja mais importante com relação às ciências". antigo cidades. As cifras que relatam essas mudanças apenas as resumem, sem contudo considerar dito grego, de que tudo no mundo está sujeito a modificações abruptas, "certamente nun- as intensas experiências que cada uma dessas migrações provocava. As implicações dessas ca foi tão verdadeiro nem tão justificado como nos dias Uma era como essa, tonta experiências, exploradas tanto em obras de ficção como nas de crítica social, não eram total- com tantas mudanças, sugeria Rohleder, precisa olhar de um modo novo a sexualidade, mente compreendidas à época, mas diziam respeito às preocupações fundamentais da exis- que evidentemente está em transformação, assim como todo o resto. tência humana: moralidade sexual, disciplina no trabalho, coesão familiar, percepção do tempo, Charles Péguy com toda a certeza estava exagerando, mas capturou bem espírito do espaço e das oportunidades oferecidas pela vida. dessas transformações quando disse, um ano depois de Rohleder, que "o mundo se modi- 46 47ficou menos desde Jesus Cristo do que nos últimos trinta Essa difusa paixão pelo século depois, gastou uma quantia dez vezes maior, 77,9 milhões de libras. Em 1797, em- novo não escapou à observação atenta de estudiosos da cultura contemporânea como Auguste pregava perto de 16 mil pessoas, das quais cerca de 1500, menos de 10 por cento, eram Escoffier, possivelmente mais ilustre chef-de-cuisine do século burguês. No prefácio seu funcionários administrativos; em 1869, OS números atingiram a cifra de 108 mil funcioná- clássico livro de receitas exclamava: "O brado universal clama pela novidade a qualquer rios, dos quais quase 17 mil, ou seja, mais de 15 por cento, ocupavam cargos administrati- custo, por bem ou à força!". Falava de receitas e de pratos finos, mas poderia estar com igual A partir de meados do século, OS funcionários administrativos se tornaram alvo de propriedade caracterizando mundo inteiro: "Novidade! Este é clamor predominante; todos comentários zombeteiros em jornais e revistas, e até mesmo em romances. Observadores a exigem Não obstante, a época tinha suas compensações. Émile Zola, caridosos achavam-nos ao mesmo tempo engraçados e comoventes. Outros mais morda- que encarava OS terrores de seu mundo de maneira exaltada e por vezes melodramática, pôde zes, tendiam a ver neles ditadorezinhos mesquinhos, bajuladores submissos, ou ambas as ainda assim descobrir, como muitos outros, "o prazer da novidade, algo pelo que as pessoas coisas patéticos ninguéns agindo como se fossem alguém.²⁷ se dispõem a pagar caro em E, ao que parece, em algumas das províncias também. Entretanto a vida dessa nova classe média não deixava de ter algumas esperanças. Conforme já observei, é provável que a mais direta contribuição para a vitória do mito e, em escala substancialmente menor, fato da mobilidade social animavam muita novo haja sido a da própria classe média. As exigências do capitalismo industrial forjaram gente. Não obstante, a maioria não conseguia escapar a seu destino: anos de empregos pro- que veio a ser uma nova classe média, alterando permanentemente OS tradicionais con- visórios seguidos de anos ainda mais longos tentando sobreviver com meios insuficientes. tornos da burguesia. Aperfeiçoamentos técnicos e administrativos em empresas manufatu- Era notório, sobretudo na França e na Alemanha, que personagens respeitáveis como mestres- reiras e financeiras, nos transportes, na comercialização dos produtos e no governo exigi- escolas ou empregados postais casavam-se tarde e tinham poucos filhos; raramente tinham ram e obtiveram batalhões de datilógrafos, secretários, supervisores, guarda-livros, vende- como sustentar mais do que dois filhos, e muitas vezes nem isso. E para tornar a situação dores homens e, mais e mais, mulheres que se dedicavam não à criação ou produção ainda mais exasperadora, muitos empregos civis estavarh infectados por mais do que um de coisas, mas sim à prestação de serviços. A ferrovia e a máquina de escrever, navio toque de militarismo. Funcionários públicos eram exortados a cultivar as virtudes da disci- a vapor e telégrafo, a facilitação do crédito e da formação de capitais tornaram a poupan- plina e da submissão, do trabalho sem tréguas e da lealdade inquestionável. Se bem que ça acumulada pelas grandes organizações praticamente irresistível: as fábricas, OS grandes em muitos estabelecimentos as relações entre chefe e subordinados fossem moldadas de escritórios de advocacia, as lojas de departamentos, todos estavam ávidos pelo concurso acordo com as relações características da vida familiar, era a família autoritária que lhes ser- de trabalhadores. Em 1870-1, um cotonifício médio na Inglaterra empregava 177 pessoas, via de modelo. entre operários, gerentes e pessoal de escritório. E nesses mesmos anos um escritório de Esse autoritarismo e essa claudicante mobilidade social, com seu ordenamento infle- contabilidade mediano tinha quatro Vistos sob prisma do século XX, em- xível das camadas e hierarquias sociais, evocam memórias da sociedade tradicional, do an- preendimentos desta escala nos parecem bem modestos, porém a partir de meados do sé- tigo regime. E apesar de tudo também havia muita coisa estritamente moderna: as massas culo números indicavam claramente advento de uma nova era. A nova classe média que constituíam novo Mittelstand, associadas à miséria que assolava antigo, demons- se expandia de modo incontrolado, e incontrolável. Em 1851, censo na Inglaterra reve- tram que a burguesia da era de Freud havia passado por mudanças significativas desde a lou que 91 mil pessoas estavam empregadas em atividades comerciais; uma década depois era de Vitória. este número já era 130 mil, e em 1911, 739 mil, tendo-se multiplicado por oito em apenas sessenta anos. E a participação das mulheres nessa explosão era cada vez mais flagrante: em 1851 quase não se encontravam mulheres fazendo serviços de escritório; em 1861, eram 2. A ERA DOS TRENS EXPRESSOS cerca de 2 mil, ou seja, 1,5 por cento do total. Porém em 1911 havia 157 mil mulheres exercendo essas atividades, que significa uma proporção respeitável de 21 por cento do Toda essa movimentação teve seu preço. Os arquitetos das mudanças freqüente- total do pessoal de escritório na Inglaterra. mente se tornaram também OS seus mártires: a vertiginosa mobilidade do século, precipita- Esse desenvolvimento não foi de modo algum exclusivo da Inglaterra, a primeira das da e não de todo previsível, colhia muitos de seus sacrifícios na soleira de sua própria casa. nações industrializadas. Na França, entre 1856 e 1906, OS setores comercial e administrati- Por vezes, tal vitimização resultava da mobilidade na acepção mais literal do termo: no prin- da economia cresceram de 21 para 28 por cento, enquanto no mesmo período a indús- cípio da década de 1860, OS anteriormente prósperos comerciantes de Orléans viam, im- tria se expandiu em apenas 2 por cento, ou seja, com uma rapidez três vezes menor. E na potentes, seus ex-fregueses da região passarem defronte de suas portas, a caminho de Paris Alemanha as transições mais palpáveis se deram de forma concentrada ao final do século. pela Ocorrências palpáveis do mundo real e estados mentais eram como sem- Entre 1882 e 1907 o número de empregadores e proprietários decresceu em 7 por cento, pre inseparáveis. E velho chavão de que tudo, mesmo progresso, tem seu preço, se ao passo que de trabalhadores aumentou em 110 por cento, e de empregados, em 592 manteve de pé no caso dessa época progressista, o século XIX, e dessa classe progressista, por cento; no intervalo de um quarto de século, a força de trabalho industrial duplicou, a burguesia mas a de secretários, escriturários e vendedores cresceu com rapidez três vezes O período final do século XIX trouxe a surpreendente descoberta de que até mesmo mundo moderno estava se tornando mundo do pessoal de escritório; a base da pirâmi- mudanças para melhor poderiam gerar doenças mentais profundas, como de resto freqüen- de burguesa se alargava de tal modo que já se tornava irreconhecível. temente acontecia. O reconhecimento desse fato foi primeiro vislumbrado por três dos mais Entre mais insaciáveis promotores da nova classe média encontravam-se OS gover- perspicazes observadores da época Nietzsche, Freud e Durkheim e depois foi se fil- nos. As quantias que eles se viam obrigados a despender, e a quantidade de funcionários trando até atingir o público em geral. Em suas reflexões aforísticas dos anos 80, Nietzsche que precisavam admitir a fim de satisfazer suas novas e multifacetadas funções de supervi- postulou que "na economia mental interior do homem primitivo, predomina medo do são e controle, bem como a proporção de pessoal administrativo em relação ao total dessa mal. Que é mal? Três coisas: aleatório, incerto, Freud generalizou este tribo de funcionários públicos, tudo isso cresceu a uma razão impressionante. Em 1792, diagnóstico informal de ansiedade, aplicando-o a todos seres humanos com base no sim- governo central da Inglaterra gastara 7,7 milhões de libras; em 1897, pouco mais de um ples argumento de que no fundo todos são primitivos. A ansiedade, nos termos em que 48 49Freud adotou posteriormente em sua teoria, constitui um sinal de alarme disparado pelo Em épocas anteriores, a ansiedade havia sido endêmica, cíclica, e esperada. Mudan- aparecimento de perigos, reais ou imaginados, que dá 20 homem a oportunidade de ças haviam significado raras e inesperadas boas fortunas ou desgraças perfeitamente previ- locar em campo suas defesas: luta, fuga, negação e outras mais. A descoberta do fenômeno síveis: ciclos de boas e más colheitas, a derrubada de uma dinastia, ocaso dos antigos da anomia, feita por Durkheim, é inteiramente apropriada à sua época, século burguês deuses. Já as mudanças que ocorriam no século XIX eram mais difíceis de serem decifra- já amadurecido. A anomia ocorre, segundo Durkheim, pela inexistência de limitações níti- das, porém suas necessidades mais elementares eram dirigidas à racionalização da vida e das e de regras reconhecíveis de comportamento, uma desorientação social angustiante que levavam à perda do conforto de uma crença sem questionamentos e da livre satisfação de tanto pode emergir após um surto de prosperidade como após um súbito desastre, e com impulsos irresistíveis. A rejeição da expressão franca e da satisfação pública das necessida- a mesma intensidade irresistível. des corporais, que se havia iniciado na Renascença por meio de invenções culturais como Todas essas revelações foram importantes, e chocantes em boa parte porque ofen- garfo e lenço, teve continuidade e se intensificou. Os patamares que davam acesso a diam OS códigos do senso comum: uma boa nova um lance espetacular na bolsa de valo- sentimentos de vergonha e de nojo foram sendo continuamente rebaixados. A cultura res- res, uma promoção no emprego, a conclusão de uma tarefa difícil ou a conquista de uma peitável do século XIX tinha a imaginação em conta de uma companheira perigosa, e cele- namorada caprichosa supostamente não deveria trazer outra conseqüência, além da eu- brava, ao invés dela, as delongas, as sutilezas, controle. Sendo uma postura cultural, tal foria. Na realidade, a conseqüência era muitas vezes o pânico. Sigmund Freud analisou esse contenção era difícil de ser mantida e freqüentemente precisava ser evitada; como Freud fenômeno surpreendente muito tempo depois que Durkheim introduziu termo "anomia" observou cedo e repetiu muitas vezes, a moralidade burguesa, especialmente no tocante no vocabulário das ciências sociais: impulsos instintivos do homem são conservadores. à sexualidade, fazia duras exigências e impunha tensões sem precedentes às classes médias. Mudanças, por mais positivas que sejam, exigem dispêndio de energias mentais, ações E as formas de adiamento e de controle eram instáveis, submetidas como estavam a cons- adaptativas. A menos que sejam cercadas de precauções e acompanhadas de um encoraja- tantes ataques das novidades e das paixões por um lado e, pelo outro, da necessidade ínti- mento afetuoso, a menos que sejam assimiladas passo a passo, contêm todos OS riscos de ma de reprimir desejos inadmissíveis e ilícitos. Para complicar ainda mais impacto desses uma aventura frente ao desconhecido, um terreno onde respostas automáticas e procedi- abalos, as mudanças ocorriam freqüentemente de surpresa, num ritmo constantemente ace- mentos habituais perdem toda a sua eficácia. De onde se conclui que as mudanças assim lerado, eram sempre abrangentes e, conforme já mencionei, totalmente irreversíveis. É por deduz Freud por mais desejáveis e desejadas que sejam, são ao mesmo tempo árduas este motivo que tantos reacionários poderosos envidaram todos esforços para revertê- e perigosas. O que Proust mais tarde chamaria, numa linda frase de Du côté de chez Swann las. A vida de Metternich, um brilhante agente do retrocesso, constitui um verdadeiro tri- [No caminho de Swann], "le bon ange de la certitude" só em raras ocasiões emprestou buto às mudanças que ele tentou deter, senão aniquilar, antes que elas finalmente aniqui- sua presença consoladora ao século burguês. lassem. E Metternich teve muitos seguidores dedicados. É claro que a ansiedade burguesa não era nova quando foi diagnosticada por Nietzs- Um dos sintomas mais evidentes desse mal-estar generalizado foi a sensação de estar- che, Freud e Durkheim. Em décadas anteriores do século XIX, justamente naquelas em que se à deriva e sem rumo, confuso, atropelado por impulsos demasiadamente ricos e varia- a burguesia celebrava suas vitórias políticas e econômicas mais espetaculares, ela deixara dos para serem absorvidos com facilidade. Em 1897, o biógrafo alemão Karl Storck emitiu marcas indeléveis na mentalidade da classe média. Sabemos que na década de 1880 ela já um chavão cultural comum à época quando deplorou "nosso tempo ruidoso, dedicado tinha sido moldada por influência de enérgicos oponentes: as exigências do operariado or- à propaganda e dela dependente, cujos comportamentos mercantis, antes restritos aos ne- ganizado, surgimento de partidos radicais, o desdém manifestado por intelectuais da avant- gócios, já invadiram também nossos círculos artísticos" Já em 1848 o conde Duchâtel, garde. Houve ainda outros, particularmente movimentos feministas ou dissidências artísti- que havia sido ministro do Interior no governo do rei Louis Philippe, caracterizara sua época cas e literárias, eloqüentes, irados, nem sempre justos, e não mais satisfeitos com pequenas como uma época "em que as coisas se movem mais rapidamente do que faziam sessenta Implacavelmente hostis para com a burguesia, todos esses críticos exploraram anos atrás. Os eventos, assim como viajantes, estão se movendo a vapor". que, em 1891, George Bernard Shaw chamou de "a consciência culpada da classe mé- assim se expressava ainda sob impacto de uma revolução política imprevista. Mas duran- dia".30 Ao mesmo tempo, a ansiedade burguesa, sinal e sintoma de perigo, não era sim- te todo século, testemunhas diversas relatavam sua sensação de que altos escalões se plesmente medo de inimigos específicos; era difusa e endêmica. Em visita à corte imperial achavam em desordem, filósofos sem rumo, e OS estadistas paralisados. Relembrando em Compiègne, em 1861, Théophile Gautier observou uma tensão generalizada entre OS em 1844 OS anos que se seguiram às guerras napoleônicas, Disraeli OS retratou como uma convidados; somente velhos aristocratas lhe pareciam à vontade. "O próprio bourgeois época de suprema impotência: "O povo se viu sem ter quem guiasse. A gente ia aos mi- não sabe muito bem como deve comportar-se. É óbvio que não tem certeza do papel que nistérios; pedia para ser guiado, para ser governado". Mas enquanto povo em geral* cla- lhe E ele bem poderia ter relacionado esse constrangimento da classe média a ou- mava pelo voto e OS trabalhadores pelos seus direitos, "o que faziam ministros? Entra- tras situações menos penosas. Generalizado, esse mal-estar foi pontilhado por esforços es- vam em pânico". Em dias idos haviam se contentado em administrar; agora lhes era solici- porádicos das pessoas para dominar ambiente ou a si mesmas, por reiteradas fugas para tado que governassem. E isso era algo que, na opinião de Disraeli, os apavorava. "Como uma nostalgia melancólica e, à medida que as oportunidades se apresentavam com maior todos homens fracos", prossegue com muita sensibilidade, "recorreram ao que chama- e que cresciam OS perigos, por traições ao liberalismo. A causa principal disso ram de medidas de força". Não eram portanto apenas governados, mas também pró- tudo foram as mudanças. Impulsionadas por elas, as dimensões inconscientes da prios governantes que sofriam de ataques de ansiedade naquele território desconhecido cia assumiram um destaque inegável, pois embora resolvam alguns conflitos, as mudanças do século XIX. Alguns anos depois de Disraeli haver feito este seu esboço, Alphonse de geram e exacerbam outros pela remoção dos marcos orientadores de conduta que são OS hábitos sociais. (*) termo utilizado pelo autor, the unenfranchised, significa precisamente conjunto de todas as pessoas que não têm direito de votar à época um contingente considerável na Europa como na América sob quaisquer (*) Em no original. "O anjo-da-guarda da certeza." (N. T.) pretextos legalmente (N. T.) 50 51Lamartine, poeta e político, expressou sua impressão sobre a França numa linguagem bem religião jovem e viva. Eis como mundo se lança na rota do futuro, ávido por ver que parecida: "Vivemos tempos caóticos; as opiniões estão embaralhadas; OS partidos, em total espera ao fim da corrida."36 A religião jovem e vivaz que Zola reclamava era a religião do pro confusão. A linguagem das novas idéias ainda não foi criada" A procura intensiva e apai- gresso, a organização enérgica dos recursos naturais e econômicos em prol do bem-estar ge xonada de uma ciência da sociedade que explicasse e resolvesse tudo, humilde retorno ral. Entretanto, mesmo na pulsante e vigorosa lista de Zola ouvimos ecos de ansiedade, de de rebeldes aventureiros à religião de seus ancestrais, e a emergência de cultos modernos um temor apenas perceptível de que as coisas estivessem fugindo a qualquer tais como a Ciência Cristã e a Teosofia são indicações claras da necessidade de guias para As tensões desse mal-estar vinham à tona mesmo nas memórias mais plácidas. No atravessar a selva da modernidade. A mistura de generosidade e racionalismo que caracteri- primórdios da década de 1860, lady Knightley, que à época ainda era a gentil espírito liberal foi adquirida por poucos e sob pressões constantes. descomprometida* srta. Louise Bowater, capturou com muita sensibilidade essa De fato, as vitórias do novo, do secular e das ciências não foram completas nem in- do mundo moderno em seu diário um tanto sofisticado, mas nem por isso menos inteli contestadas. Os antigos hábitos, mesmo sendo persistentemente atacados, demonstraram gente. Estabelecendo um contraste marcante entre "a agitação e turbilhão da cidade' uma vitalidade surpreendente. A religião reconquistou muito terreno perdido, especialmente e um "glorioso" passeio de charrete pela ensolarada manhã campestre inglesa, onde po entre as pessoas respeitáveis, especialmente na Inglaterra. A era de Auguste Comte e de diam ser vistos cervos e pica-paus e lindos lagos placidamente calmos, ela observou Charles Darwin foi também a era do cardeal Newman e de William James. Anteriormente, "a cada dia que se passa" mais sentia "o ritmo em que vivem a maioria das pessoas na épo algumas décadas antes da ascensão da rainha Vitória ao trono, em 1837, tornara-se não só ca atual. É de se admirar que haja tanta loucura? Nos olhos da metade dos homens que possível como também entrara em voga rejeitar tanto deísmo como ateísmo do Ilumi- encontro no trem há algo selvagem", um olhar que, acrescenta ela, "me dá calafrios. No nismo em favor do retorno à fé dos avós. A famosa observação de Marx de que a religião dias de hoje não existe descanso nem repouso para ninguém; todos estão sempre em movi é o ópio das massas constituiu um sério erro de avaliação certamente no que tange ao mento, seja no lazer ou no trabalho. Será isto preferível à estagnação dos dias passados século XIX: a religião continuou sendo, ou melhor, voltou a ser ópio das classes médias, Não sei; é muito quase impossível, chegar a uma notadamente na Alemanha, na Inglaterra e nos Estados Unidos. Nestes e em outros países Até mesmo John Stuart Mill encontrou enormes dificuldades para vencer sua ambi havia grupos influentes e ostensivos de descrentes, de agnósticos moderados, de teístas valência a respeito do progresso. Durante toda sua vida, Mill envidou sinceros esforços no filosóficos, de positivistas dogmáticos; especialmente na França, as convicções anticleri- sentido de promover desenvolvimento e de salvar que achava de valioso em meio cais e antiteológicas herdadas do Iluminismo e da Revolução conservaram uma força im- profusão de novidades que cercavam. Entretanto, apesar de receptivo às mudanças, pressionante e uma grande atratividade entre a burguesia instruída. Ainda assim, em 1895 reconhecia que a rapidez com que elas ocorriam trazia problemas dificílimos para seu Émile Durkheim deplorava "esses tempos de um misticismo renascente", e incluía a Fran- tempo. "A inferioridade da época atual", escreveu Mill em seu diário ao início de 1854 ça no âmbito de suas num paradoxo bem apropriado, "talvez seja uma conseqüência de sua superioridade. Apa Nem mesmo a religião, contudo, era uma defesa invulnerável contra o desespero. rentemente quase ninguém, nas classes mais educadas, tem opiniões formadas, ou, se a: Raramente era uma fé isenta de angústias. Os avanços dramáticos e cumulativos das ciên- tem, não parece confiar nelas". De modo muito semelhante ao de Disraeli uma década an cias naturais, verdadeiro escândalo para OS fiéis, se para muitos constituíam uma fonte de tes, ele acrescenta: "Aqueles que deveriam servir de guias aos demais vêem cada questão prognósticos animadores, para outros eram causa de temerosas reafirmações. As ciências através de demasiadas facetas O que faltava era firmeza de caráter, mas isso provocaram mais engenhosos sofismas em defesa dos credos de antanho, o que por si era difícil de encontrar. Os líderes "ouvem tanta coisa, acerca de todas as coisas, que j: só já era um sintoma de ansiedade. que não surpreende ninguém é que foram justamente não sentem confiança quanto à verdade do que quer que Essa não era uma recei OS desenvolvimentos de maior impacto da época, em particular a industrialização e a urba- ta para um governo seguro. nização, que evocaram as apreciações mais sombrias e as previsões mais portentosas da No ceticismo premente com que Mill se refere aos líderes e liderados de sua époc: parte dos modernos Jeremias. Blake estava em boa companhia ao denunciar as "fábricas reconhecemos ecos da Democracy in America [Democracia na América] de Alexis de satanicamente escuras", e Metternich não era nenhum excêntrico ao deplorar a perda ge- Tocqueville, uma obra que Mill havia estudado com atenção e da qual fizera uma resenh: neralizada de fé e de estabilidade. com admiração. Tocqueville foi um fenômeno raro: um profeta ouvido em seus próprio: Década após década, um país após outro, vozes progressistas e conservadoras lamen- dias. Em 1831, ele visitara os Estados Unidos, e relatou as conclusões de suas observações tavam igualmente estado desordenado e desorganizador da época. Detectavam a ausên- e reflexões em quatro volumes de muito impacto, publicados 1835 e em 1840. Na América cia alarmante de referenciais seguros, uma anarquia universal no pensamento, uma veloci- do Norte, Tocqueville vira futuro, e de lá voltara com sentimentos ambivalentes. Confor dade doentia na existência, mal-estar e vacilações generalizadas, e isso em meio aos mais me já mencionei, OS Estados Unidos tornavam fácil a profecia: constituíam destino visí irresistíveis avanços científicos. Émile Zola, campeão do progresso e partidário declarado vel de uma viagem na qual Europa já se encontrava havia muito tempo. da modernidade, foi porta-voz de todas essas vozes numa de suas cartas, escrita ainda em que a sociedade do futuro seria governada por burocracias sob signo da igualdade, in sua juventude. "Emergindo de um passado repugnante", escreveu em 1860 a um amigo cluindo toda a vulgaridade, toda a mediocridade e todo desprezo pelo intelecto e pela íntimo, "marchamos rumo a um futuro desconhecido. Uma vez que somos franceses, quer excelência que isso implica. Porém Tocqueville também enxergou muita coisa merecedora dizer, impacientes por excelência, caminhamos Ele acreditava que seu de crédito na sociedade norte-americana. Seus derradeiros anos de vida foram marcados tempo caracterizava-se pela "impetuosidade, a atividade devoradora; atividade nas ciên- por um crescente desencanto com a política e por profundas depressões pessoais, porém cias, atividade no comércio, nas artes, em toda parte: ferrovias, eletricidade utilizada no mais em do que se passava na política francesa, da qual participou ativamente telégrafo, vapor movendo navios, balões lançando-se aos ares". Zola não restringiu seu catálogo de "atividades vorazes" uma metáfora apropriadamente brutal e oral às ino- vações tecnológicas. "Na política é pior: nações se erguem, impérios tendem à unidade. Na (*) Eligible no original, ou seja, senhorita ainda não noiva; para rapazes, além de não comprometidos religião tudo está desordenado; este novo mundo que está prestes a emergir precisa de uma (não noivos), eligible implicava também a condição econômica a uma noivado. (N.T.) 52 53do que de suas reflexões acerca das mudanças. De qualquer forma, ele não era dado a lutar contra o inevitável. igualmente apreciada no século XIX, havia o sério perigo de sobrecarga dos circuitos men tais. "A vida está se tornando cada vez mais complicada", escreveu Theodor Billroth en Os leitores e admiradores de Tocqueville eram freqüentemente menos criteriosos e 1876 a seu amigo, o crítico musical austríaco Eduard Hanslick. A vida, prossegue ele, "no menos resignados do que seu mestre. Em 1851, após haver lido seus livros, absorve cada vez mais; a competição cada vez mais intensa nas áreas econômicas, artísti Amiel, professor, crítico e filósofo que vivia em Genebra, hoje lembrado mais em função cas, literárias e sociais pode ser uma prova de que há em nossa geração um excessivo em de seus diários íntimos do que de seus trabalhos publicados, observou que "as obras de penho de energia; porém, com tanto esforço e tanta afobação para cumprir sempre nova Tocqueville proporcionam à mente muita calma, mas deixam também um certo desgosto. tarefas, muita coisa se perde. Quem mais sofre com tudo isso são as artes; O público moder Percebe-se a inevitabilidade do que está por vir". Eis uma postura olímpica que provavel- no não dispõe mais de tempo para ver e ouvir, pois tanto pensamentos quanto senti mente não teria desagradado Tocqueville; mas Amiel era por demais agitado para contentar-se mentos vão sendo arrastados ao longo de uma trajetória predeterminada pela grande rod com ela: "Não há dúvida de que a da mediocridade está próxima e a mediocridade do congela qualquer desejo. A igualdade gera a uniformidade"; sacrifica "o excelente, notá- A velocidade irresistível da roda do tempo gerou uma nostalgia pungente e patétic vel, extraordinário". Amiel temia que a "melancolia" spleen* viesse a "tornar-se dos dias que antecederam advento da ferrovia. "Nós, que vivemos antes da construção a enfermidade do século igualitário", um temor compartilhado por alguns partidários da das estradas de ferro", escreveu Thackeray, "pertencemos a um mundo diferente". Quan igualdade. Inevitavelmente, "o belo será substituído pelo útil; as artes, pela indústria; a re- do as pessoas andavam em carruagens, "então sim é que mundo era mundo". Ele ligião, pela economia política; e a poesia, pela Nessa era vindoura de indivi- tia que "a pólvora e a imprensa tendiam modernizar" a civilização; entretanto, insistia dualismo e de uma subdivisão cada vez maior do trabalho, "indivíduos ideais" desapa- é a ferrovia "que cria uma nova era". E comparava aqueles que "viviam antes da ferrovia receriam; "tempo dos grandes homens está chegando ao fim, a época das multidões" e que sobreviveram 20 velho mundo" a "Noé e sua família saídos diretamente de sua Arca está próxima. "A sociedade será tudo; indivíduo, nada. As estatísticas registrarão grandes As criancinhas farão uma roda à nossa volta e nos dirão: vovô, como era o mundo progressos, e OS moralistas, um declínio gradual." Em suma, "bem-estar universal" que de antigamente'. E nós murmuraremos as nossas velhas histórias, e um a um nos iremos século XIX prometia atingir estava "custando caro demais". progresso, por mais dra- e seremos cada vez menos, e que sobrarem estarão muito velhos e debilitados". Não mático que fosse, simplesmente não valia o seu preço. Conforme observaram OS irmãos havia dúvida: "Nós, que vivemos antes das ferrovias, somos antediluvianos devemo Goncourt, estava tudo de ponta-cabeça. prazer estava morto; OS negócios imperavam; Se aceitarmos as hipérboles e as sutilezas do humor travesso de Thackeray, uma grande purgação estava a caminho, pois tempos em que viviam conforme OS pequena cena que ele criou materializa uma sensação de perda bastante real. Goncourt confiaram a seus diários eram tempos Thackeray evocava ambientes e humores, não escrevia história social. As ferrovias Os pessimistas receberam com agrado essa doutrina. Lançando sobre século um com toda sua potente capacidade de revolucionar a localização das indústrias, transport olhar de indisfarçado desprezo, Jacob Burckhardt pontilhava sua correspondência com ex- de mercadorias, a configuração das cidades, OS padrões de férias e lazer, eram ao mesmo clamações ofensivas referentes à época vertiginosa, afobada e vulgar em que havia sido des- tempo causa e da revolução econômico-social subjacente. Constituíam un pejado por um destino cruel. Os anciãos, escreveu ele a um amigo, são necessariamente símbolo espetacular, um tema perfeitamente apropriado à pintura e à poesia do século XIX pessoas conservadoras, e "dificilmente poderão encontrar algum prazer nesses dias de rá- Menos próprias a uma representação artística, porém ainda mais influentes, foram as nova pidas mudanças". O espantoso dessa declaração é que ela haja sido feita em 1873, quando forças que varreram século nas finanças, na construção das fábricas, na organização do Burckhardt tinha apenas 55 anos de idade. Era a rapidez das mudanças, tanto quanto a di- trabalhadores em suma, amadurecimento do capitalismo comercial e industrial. reção em que apontavam, que o fazia sentir-se velho e conservador, totalmente desafinado banqueiros foram tão úteis como instrumentos de mudanças do século XIX quanto em relação ao século. homem moderno, escreveu Burckhardt com matizes sombrios, genheiros e industriais. Juntos, eles construíram um mundo que seria tão precário par renunciara alegre e estupidamente aos valores solidamente estabelecidos do refinamento seus beneficiários quanto devastador para suas vítimas. e da diversidade em favor das dúbias benesses oferecidas pela novidade: "A gente de hoje Não obstante toda a sua inquietação com relação a status, poder e moral, de mode sacrifica, se necessário, toda a sua literatura e toda a sua cultura para tomar um 'trem notur- geral a burguesia era a força dinâmica que impulsionava uma era já em si Par no muitos, era uma época que revelava o tipo de confiança a que se referira o Os trens, que atingiam velocidades cada vez maiores à medida que as locomotivas, Alberto, uma confiança tanto alicerçada solidamente na consciência quanto descomplica as ferrovias e sistemas de sinalização se aperfeiçoavam, tornaram-se uma possante metá- damente no inconsciente deles. Os burgueses podiam absorver muitas mudanças, aind fora para a velocidade estonteante e geradora de ansiedades do século XIX. Hans von Bü- que abruptas e imprevistas, consolando-se nos momentos mais difíceis por meio de um: low, brilhante regente e pianista, expressou o que já começava a tornar-se um clichê en- olhada em seus saldos bancários, em sua ascendência política ou em seus benefícios tre pessoas cultas quando chamou sua época, em 1874, de "a era dos trens expressos". ciais. O século burguês foi uma era de melhoramentos, mais para burgueses, talvez, do Os desejos e temores eróticos estimulados pela experiência rítmica de uma viagem de que para qualquer outro grupo de pessoas. Sua ideologia carregada de esperanças não trem transpareciam sob a superfície de tais epítetos. E nervosismo oriundo da sensação apenas uma máscara para encobrir o desespero, mas uma crença sincera no progresso. de que a velocidade corria sempre à frente da razão e se exacerbava ainda mais com as mito que dominava a época, pelo menos entre aqueles que dela se beneficiavam, teria ine sutis indicações de que novas sensações se acumulavam. Nos termos de outra metáfora, vitavelmente que ser da mobilidade. Muitos pronunciamentos, mesmo precipitados, bre as carreiras abertas a gente talentosa e sobre bastão de marechal que se encontrav: dentro de cada mochila de soldado raso, expressavam a generalizada de que (*) Spleen, em ingles, significa, literalmente, baço; daí, em sentido figurado, "mau humor", "azedume", mundo social dos burgueses cultos e ativos era um mundo quase sem barreiras, no qua que antigamente se supunha sediado no baço, como "amor" no coração. Em no entanto, termo spleen trabalho duro, a inteligência, a perspicácia e a árdua persistência trariam benefícios que passou a ter, no século XIX, sentido específico de "melancolia, apatia". (N. T.) a sociedade mais antiga, com sua carga de estratificações rígidas, negara a todos, 54 55a um punhado de afortunados. É claro que a rápida ascensão social era já uma história original, também às reflexões sobre indivíduo e sobre a sociedade; geraram-se assim ex- nhecida; nas biografias de estadistas, bispos e magnatas do comércio abundavam exemplos pectativas de que a roda-viva da existência humana cederia à aplicação da inteligência, de de origens humildes superadas por meio de coragem, energia e inteligência. E nem todas que eterno ciclo das epidemias, das grandes fomes, da miséria generalizada e das guerras essas histórias eram imaginárias: afinal de contas, OS homens biografados existiam. Mas en- devastadoras finalmente seria rompido. Na esfera das realizações humanas, nova atmosfera tão, na areia movediça do século XIX, nessa "época tempestuosa e instável", como foi de- foi bem simbolizada pelo que Alfred North Whitehead denominou "a invenção da nominada por um jornal francês em 1878, mito da mobilidade se Uma Os homens do Iluminismo sublinharam a passagem da passividade à ação revivendo literatura de amplo sucesso popular espalhou mito por um vasto e receptivo público: um antigo provérbio romano, que estivera adormecido através dos séculos cristãos, cuja as histórias de Horatio Alger e as biografias de Samuel Smiles ilustravam, para todos que síntese é a de que o homem é dono de seu destino. Bacon já havia dito, assim como soubessem ler, as variadas e brilhantes possibilidades de se ascender da miséria à riqueza. Descartes e Locke, antes que ele se tornasse uma das expressões favoritas dos philosophes Não é portanto casual que no século XIX antigos nomes estáticos das divisões so- no século XVIII. No século XIX, já era amplamente aceito como verdade. "O homem", dis- ciais em inglês estates ou orders, ou ainda Stände, em alemão cederam lugar a deno- se John Davies numa reunião do Instituto dos Mecânicos de Manchester em 1827, "tem minações mais apropriadas a uma sociedade que, mesmo segmentada, abria perspectivas que ser o arquiteto de sua própria fama". Esta imagem agradável não perdeu tão cedo sua de progresso: "classes", "partidos" ou, já em fins do século, "grupos de interesse". De popularidade. Em David Copperfield, Dickens põe na expressão da sra. Micawber a forte modo análogo, e com efeitos semelhantes, os nomes anteriormente utilizados para desig- esperança de que, embarcando com sua família para iniciar uma nova vida na Austrália, nar grupos que compartilhavam as mesmas convicções políticas, religiosas ou artísticas fo- Micawber pudesse tornar-se "o César de sua própria sorte". E em 1878, em Newbury- ram geralmente suplantados por uma linguagem dinâmica: "escola", que sugere a depen- port, Massachusetts, editor do Herald elogiava dois ricos notáveis locais, ambos homens dência de um professor ou mestre, e "seita", que sugere a fidelidade inflexível durante to- "de origem humilde" que a vida cedo "tornara dependentes de seus próprios recursos", da a vida, foram abandonados e substituídos por "movimento". Na língua inglesa, termo "homens aplicados, e de uma perseverança indomável", que OS levara ao sucesso parece ter sido usado pela primeira vez nesta acepção moderna em 1828, significativamen- "naturalmente". Ambos haviam sido "arquitetos de sua própria sorte" 46 Para tais te na locução "o movimento trabalhista". Pouco depois, era generalizado, aplicando-se a homens, e numa tal época, a anomia era algo improvável, e a ansiedade, se é que alguma outros grupos, todos eles prontos a produzir mudanças e a desfrutá-las. O século XIX foi vez chegassem a experimentá-la, subterrânea. Visto coletivamente, portanto, espírito burguês no século XIX era uma mistura de uma era do movimento, e de movimentos. Não se trata de um jogo de palavras. que a nova utilização da linguagem revela impotência e autoconfiança; a excitação endêmica era controlada por dispositivos sociais é que as oportunidades que se ampliavam eram de fato muitas, que era válido aceitar as e por defesas individuais. Refletindo com uma nostalgia quase mórbida sobre a paz celes- tial concedida aos mortos, William Gladstone ponderou que para vivos "o elemento promessas nelas contidas, e, mais ainda, que era chegada a hora de mobilizar, organizar principal" da "vida terrena" é um "conflito perpétuo". Referia-se a incertezas ligadas à e guiar as forças geradoras de mudanças para uma direção desejada. Se as mudanças eram turbilhonantes, homem podia aprender a dominá-las. Modernas disciplinas acadêmicas condição humana em todas as épocas, em todos níveis sociais. Porém poderia ter aplica- do essa observação, com perfeita justeza, à sua própria época e à sua própria classe. como a sociologia viam-se como agentes de melhoras sociais, incluindo-se entre estas, e com destaque, a mobilidade social ascendente. "Com uma ação que simultaneamente apóia Pois tudo estava sendo questionado: ensinamentos religiosos, princípios políticos, ideais sociais, e, com ênfase particular, a moralidade sexual. E tudo isso deixava até mesmo progresso e remove obstáculos, a ciência da cultura é essencialmente uma ciência de re- OS exploradores, uma tribo numerosa e resoluta, excessivamente nervosos. Quando, ac Com estas palavras ressonantes E. B. Tylor conclui famoso tratado Pri- aproximar-se fim do século XIX, médicos, psicólogos e sociólogos denominaram sua épo- mitive Culture [Cultura primitiva]. Karl Marx estava em boa companhia, incluindo pessoas famosas ao seu tempo, quando argumentava que a verdadeira tarefa da discussão filosófica ca de a "Era do Nervosismo", estavam apenas formalizando uma queixa generalizada e evi- é modificar mundo, não apenas contemplá-lo; é conduzir da passividade à ação. dente, amplamente ventilada na imprensa popular e meticulosamente documentada na li- teratura médica. Durante muitos séculos, é claro, OS homens haviam extraído do solo sua subsistên- haviam construído pontes, estradas e grandes cidades, haviam filosofado acerca de seu Apesar de tudo isso, e com exceção de três ou quatro observadores brilhantes, críticos culturais se concentraram no impacto da realidade material sobre estado mental: destino e aplicado as descobertas científicas à tecnologia. Na Renascença, humanistas na rapidez das viagens, na superpopulação das cidades, na quantidade e na rapidez com elogiavam profusamente aqueles em que diziam ver encarnadas as qualidades da energia em luta contra a má sorte. pensamento prático de sir Francis Bacon, voltado mais a obras que se sucediam as invenções. Muitos dentre os contemporâneos de Gladstone tinham uma do que a palavras, constituía mais uma profecia do que uma descrição de procedimentos vaga noção de que perenes conflitos de que ele falava tinham origens misteriosas e re- comprovados, mas a revolução científica ocorrida nas últimas décadas do século XVII e a motas, porém não tinham disposição ou capacidade para persegui-los além de suas mani- expansão da criatividade tecnológica que teve início no século XVIII transformaram alguns festações evidentes até que Sigmund Freud postulou a suprema influência das forças elementares, em sua maior parte inconscientes, na formação da experiência humana. E é dos prognósticos mais arrojados de Bacon em fria realidade. Foi a era do Iluminismo, em particular, que forneceu aos europeus e norte-americanos por este caminho, que leva aos domínios inacessíveis da sexualidade e da agressão, que instruídos e influentes uma nova perspectiva, uma ampla percepção das possibilidades de pretendo seguir seus passos. domínio sobre mundo. É bem verdade que a pobreza continuava a produzir efeitos de- vastadores, que doenças e epidemias continuavam a exigir seus tributos, que fanatismo e as injustiças floresciam quase como antes. Com gradual da proteção e do patrocínio, a exploração se agravou à medida que exploradores descobriam novas oportunidades. Contudo, à medida que procediam à erosão da metafísica e da teologia, os tentaram aplicar os métodos críticos das ciências, tão férteis em sua esfera 56 57