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GESTÃO EM SAÚDE Epidemiologia e Saúde Unidade I Profa. Ma. Patrícia Laguna Miorin MIORIN, Patrícia Laguna Epidemiologia e Saúde (livro-texto) / Patrícia Laguna Miorin. São Paulo: Pós-Graduação Lato Sensu UNIP, 2018. 27 p. 1. Epidemiologia. 2. Saúde. 3. Doenças. I. MIORIN, Patrícia Laguna. II. Pós-Graduação Lato Sensu UNIP. III. Título. SUMÁRIO 1. PROCESSO EVOLUTIVO ENTRE SAÚDE E DOENÇA: PADRÕES DE PROGRESSÃO E HISTÓRIA NATURAL DA DOENÇA ......................................................... 5 2. DEFINIÇÕES E CONCEITOS FUNDAMENTAIS EM EPIDEMIOLOGIA: DETERMINANTES EM SAÚDE E FATORES DE RISCO ...................................................... 7 3. USOS E ATRIBUIÇÕES DA EPIDEMIOLOGIA .............................................................. 9 4. HISTÓRIA DA EPIDEMIOLOGIA .................................................................................. 10 4.1 Primórdios da epidemiologia ......................................................................................... 10 4.2 Epidemiologia clássica – Século XIX ............................................................................ 11 5. MEDIDAS DE ASSOCIAÇÃO EM EPIDEMIOLOGIA .................................................... 13 5.1 População em risco....................................................................................................... 13 5.2 Medidas de morbidade: prevalência e incidência .......................................................... 13 5.3 Letalidade ..................................................................................................................... 14 5.4 Expectativa de vida ....................................................................................................... 15 5.5 Mortalidade ................................................................................................................... 15 6. CLASSIFICAÇÃO INTERNACIONAL DE FUNCIONALIDADE, INCAPACIDADE E SAÚDE (CIFS) ..................................................................................................................... 17 7. ESTUDOS EPIDEMIOLÓGICOS .................................................................................. 18 7.1 . Estudos descritivos: relatos de casos e séries de casos ............................................. 18 7.2 Estudo transversal ou de prevalência ........................................................................... 19 7.3 Estudo de coorte ou longitudinal ................................................................................... 19 7.4 Estudo de caso e controle ou longitudinal ..................................................................... 20 7.5 Estudos ecológicos ....................................................................................................... 22 7.6 Estudos experimentais .................................................................................................. 22 7.7 Fator de confusão e erros em estudos epidemiológicos ................................................. 23 BIBLIOGRAFIA .................................................................................................................... 24 4 INTRODUÇÃO A epidemiologia é um termo de origem grega que significa “estudo sobre a população”. Ela estuda a relação saúde-doença em sociedades, comunidades e grupos específicos, e não em indivíduos isoladamente, como acontece na clínica médica. Todos os estudos epidemiológicos são direcionados para a criação de políticas de saúde pública com o objetivo de propor medidas de controle, prevenção e erradicação de uma enfermidade ou agravo nos diferentes grupos da população. Essa ciência busca reduzir os problemas da saúde populacional causados por fatores socioambientais como moradia, alimentação saudável, ambiente de trabalho adequado, educação de qualidade, acesso a serviços de saúde, bem como tempo disponível para o lazer. Nesse contexto, serão estudadas as definições básicas em epidemiologia abordando os determinantes e fatores de risco de saúde e doença; a origem da epidemiologia e sua evolução na humanidade; os principais estudos epidemiológicos e suas medidas de associação. 5 1. PROCESSO EVOLUTIVO ENTRE SAÚDE E DOENÇA: PADRÕES DE PROGRESSÃO E HISTÓRIA NATURAL DA DOENÇA Em 1946, a Organização Mundial da Saúde (OMS) definiu que saúde não significa apenas a ausência de uma doença ou uma incapacidade, mas um estado de bem-estar físico, mental e social do ser humano. Dessa forma, podemos considerar que o estado de saúde de uma população é influenciado pelas condições sociais e econômicas do país em que vive, porque as condições socioambientais interferem diretamente no equilíbrio fisiológico e mental do indivíduo. Uma doença pode ser diagnosticada através de sintomas e sinais, juntamente com exames laboratoriais. O diagnóstico de uma patologia pode ser modificado, no decorrer dos anos, com os avanços tecnológicos, que possibilitam a realização de novas pesquisas. É importante entender o processo saúde-doença de uma população para identificar as soluções de prevenção, controle e eliminação das enfermidades, evitando assim possíveis incapacidades decorrentes de patologias. A epidemiologia possui a função de descrever o estado de saúde de grupos populacionais, específicos ou generalizados, para que as autoridades em saúde possam analisar quais são os melhores recursos e programas direcionados para a prevenção e a cura da população em foco. Na clínica médica, o processo evolutivo entre saúde e doença segue diversos cursos e resoluções, dependendo de cada paciente e do meio ambiente em que vive. Nesse sentido, é importante conhecer os padrões de progressão e a história natural das doenças para que o estado saúde-doença em uma população seja mais bem avaliado. Uma doença pode evoluir para os seguintes padrões de progressão: evolução aguda e rapidamente fatal; evolução aguda clinicamente evidente com recuperação; evolução subclínica; evolução crônica progressiva com óbito em longo ou curto prazo; evolução crônica com períodos assintomáticos e sintomáticos. Na evolução aguda e rapidamente fatal, temos como exemplo uma meningite ou tromboembolismo pulmonar; já na evolução aguda clinicamente evidente com recuperação, encontramos as infecções respiratórias virais e pneumonia pneumocócica. Uma evolução subclínica acontece sem alcançar o limiar clínico, ou seja, o paciente apenas toma conhecimento do processo patológico por exames laboratoriais, pois não ocorre o aparecimento de sintomas. Exemplo: a primoinfecção tuberculosa e a toxoplasmose. Uma fibrose pulmonar idiopática pode evoluir para óbito em curto prazo e a doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), uma patologia muitas vezes relacionada com o vício do tabagismo, evolui para óbito em longo prazo. Asma e bronquite apresentam uma evolução crônica com períodos assintomáticos e sintomáticos, deixando sequelas e incapacidades no indivíduo afetado. Na epidemiologia é preciso conhecer a história natural da doença para que seja possível modificar seu curso por meio da realização de ações preventivas em saúde com o objetivo de prevenir incapacidades que, 6 eventualmente, podem aparecer após as alterações patológicas em um indivíduo. A história natural da doença mostra a evolução das patologias sem nenhuma interferência médica. Essa evolução é dividida em quatro fases: fase inicial ou de suscetibilidade; fase patológica pré-clínica; fase clínica; fase de incapacidade residual. A fase inicial ou de suscetibilidade corresponde ao período em que ainda não há a doença, mas o indivíduo está exposto a fatores sociais, ambientais ou de suscetibilidade imunológica ou genética do hospedeiro, que favorecem o desenvolvimento de uma patologia. Na fase patológica pré-clínica, o indivíduojá apresenta sinais e sintomas, porém, não perceptíveis, portanto, a doença não está em evidência. Exemplo: movimentos ciliares reduzidos da doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC). Já na fase clínica, há a manifestação da doença, com a evidência de seus sintomas. Exemplo: um enfisema pulmonar manifesta como sintomas a falta de ar, tosse crônica e um quadro de bronquite; uma infecção alimentar bacteriana pode revelar diarreia ou disenteria com febre e dores abdominais. Caso a doença manifestada não apresente cura ou não evolua para óbito, predomina a fase de incapacidade residual, ou seja, há uma recuperação parcial da saúde, com as possíveis sequelas de uma patologia. Exemplo: em uma DPOC ocorre limitação funcional respiratória. 7 2. DEFINIÇÕES E CONCEITOS FUNDAMENTAIS EM EPIDEMIOLOGIA: DETERMINANTES EM SAÚDE E FATORES DE RISCO A doença ou a falta de saúde em uma população não é um estado aleatório. Cada indivíduo apresenta uma soma de características que o predispõe, ou não, a adquirir diversos agravos à saúde. A partir deste conhecimento, é permitido investigar fatores etiológicos e fatores de riscos relacionados com as patologias, bem como a distribuição das doenças em populações. O estudo da distribuição e frequência de uma doença em uma população exige entender e estudar os fatores que determinam e condicionam o processo saúde-doença em populações humanas. Os determinantes em saúde indicam as condições de vida a que uma população é submetida, enquanto os fatores condicionantes de saúde relacionam o estilo de vida da população. Portanto, os determinantes econômicos, culturais, ecológicos e psicossociais são fatores ou agentes que afetam o estado de saúde e influenciam no estilo de vida. Miséria, desnutrição, privações, falta de saneamento básico e educação inadequada são identificados como determinantes econômicos. Os determinantes culturais demonstram hábitos alimentares equivocados, vícios, uso abusivo de medicamentos, desmame precoce, falta de higiene pessoal e doméstica, caracterizando o estilo de vida da população. Desequilíbrios ambientais, como poluição da água, atmosférica e lixo não tratado indicam os determinantes ecológicos. Agressividade, desemprego e estresse são determinantes psicossociais ou comportamentais, que influenciam na imunidade do indivíduo e no aumento de homicídios. Programas educativos alimentares e criação de áreas públicas para a prática de exercícios físicos, bem como proibição do uso de tabaco e álcool podem ser eficazes para a mudança comportamental da população. As investigações epidemiológicas podem apresentar fatores de risco importantes para desencadear o aparecimento de um agravo ou doença. O risco epidemiológico pode ser definido como: “A probabilidade de um membro de uma população definida desenvolver uma dada doença em um período de tempo” (ALMEIDA FILHO, 1989, p. 24). Portanto, a presença de fatores de risco em uma população em estudo aponta uma maior probabilidade do desenvolvimento de patologias em um determinado local e momento, dependendo também da suscetibilidade do hospedeiro e das características do agente patogênico envolvido. A saúde populacional pode ser visualizada através da presença ou ausência de um fator de risco. Os fatores de risco são divididos em: físicos (ruídos, temperaturas, radiações ionizantes e não ionizantes), químicos (poeira, fumo, gases tóxicos como dióxido de carbono em grandes quantidades e produtos químicos em geral presentes no meio ambiente, como mercúrio e amianto), biológicos (micro-organismos patogênicos, como bactérias, vírus, fungos e parasitas), nutricionais (hábitos alimentares inadequados que levam à obesidade e doenças cardiovasculares) e genéticos (predisposição genética em desenvolver o agravo). Pela complexidade do processo saúde-doença, os fatores de risco são mais bem compreendidos através de modelos explicativos, como o biomédico, o sistêmico e o ecológico. 8 O modelo biomédico foca somente em patógenos desencadeadores da doença, não envolvendo relações psicossociais ou ambientais. Possui uma abordagem única causal relacionada ao agente etiológico; já o modelo sistêmico vincula as causas de uma doença a questões orgânicas, individuais, familiares e sociais, ou seja, a doença não é apenas causada por agentes patológicos. O modelo ecológico explica que o aparecimento de uma doença está relacionado ao desequilíbrio entre o ambiente e o indivíduo. O ambiente influencia o hospedeiro e agente etiológico, que, ao mesmo tempo, pode ser modificado pelos dois. 9 3. USOS E ATRIBUIÇÕES DA EPIDEMIOLOGIA Por ser considerada uma ciência pública, pois trabalha com a coletividade, o objetivo principal da epidemiologia consiste em melhorar o estado de saúde das populações. Ela é realizada por meio da prevenção e do controle de qualquer agravo à saúde, identificando as causas e estudando a melhor maneira de solução coletiva. Portanto, os objetivos da epidemiologia são divididos em três passos: observação, identificação e aplicação. A observação é imprescindível para que seja possível descrever a distribuição e intensidade dos problemas de saúde nas populações. Características das pessoas atingidas pelo agravo, lugar e tempo são o primeiro passo para entendimento de algum problema relacionado à saúde. O segundo passo consiste em identificar os agentes etiológicos e os fatores de risco para a doença ou agravo, determinando as causas dos problemas de saúde nas populações e buscando explicações etiológicas para o acometimento e desigualdades da doença. Para identificar o estado de saúde- doença em uma população, é essencial conhecer os determinantes da doença para que as ações sejam direcionadas às medidas curativas e preventivas, visando a erradicação. Após observar e identificar, é preciso aplicar, ou seja, gerar um conhecimento para solucionar o problema. São criadas medidas de planejamento, execução e posterior avaliação da eficácia das medidas adotadas para alterar a situação do agravo. As informações epidemiológicas são de grande importância para otimizar o estado de saúde da população, pois permitem a melhoria dos sistemas de gestão. Portanto, a divulgação das informações obtidas permite implementar ou corrigir eventuais falhas das ações coletivas realizadas, bem como avaliar as medidas de controle que foram adotadas. A vigilância epidemiológica é a responsável por fornecer orientações técnicas atualizadas aos profissionais da saúde sobre doenças ou agravos, além de constituir importante instrumento para subsidiar o planejamento, a organização, a operacionalização e a normatização das atividades técnicas. 10 4. HISTÓRIA DA EPIDEMIOLOGIA É importante estudar a história da epidemiologia para compreender sua evolução como uma disciplina articulada, sendo um instrumento de grande importância para a saúde pública. Podemos dividir a história dos pensamentos epidemiológicos em três fases: primórdios da epidemiologia, iniciada na Grécia e Roma antigas; epidemiologia clássica; e a atual epidemiologia moderna. O termo epidemiologia tem origem grega: epi (sobre), demos (povo), logos (conhecimento), e teve sua origem nas observações de Hipócrates, na Grécia antiga, que relacionou os fatores ambientais à ocorrência de doenças. Considerado o pai da medicina, mostrou a importância de medidas de prevenção e cura das doenças. A epidemiologia clássica começa no século XIX com a revolução industrial, época em que John Snow (1854) relacionou a água contaminada por fezes com a ocorrência da cólera por ocasião de uma epidemia em Londres, passando então a ser considerado o pai da epidemiologia. A epidemiologia moderna se destaca com o aumento das doenças não transmissíveis.4.1 Primórdios da epidemiologia Na antiguidade, as enfermidades eram vistas do ponto de vista religioso. A doença era resultado de castigo e a cura era realizada por meio de rituais religiosos, evocando feiticeiros e sacerdotes. Havia muitos mitos e superstições. A medicina científica teve início na Grécia antiga, quando Hipócrates (460- 377 a.C.) iniciou os pensamentos epidemiológicos descrevendo o aparecimento das doenças como algo racional, abandonando os argumentos sobrenaturais da época. Hipócrates relacionou o meio ambiente com o processo saúde-doença nas populações. Em seu trabalho “Ares, Água e Lugares” concluiu essa interação, especulando sobre as relações da água, do clima e do solo com as enfermidades. Apresentou descrições de doenças ligadas à água parada, mesmo não conhecendo a existência dos micro-organismos patogênicos liberados através de secreções humanas e que contaminavam a água, conhecimento que só teve sustentação científica milhares de anos depois. Observou epidemias sazonais e chamou a atenção dos médicos para atitudes comportamentais dos indivíduos, como o ato de comer e beber. As manifestações clínicas das doenças eram, então, tratadas com mudanças na alimentação e com a realização de sangrias, na tentativa de ajudar a estabelecer um organismo saudável novamente. Na Roma antiga, entre os séculos XIV e XVII, a teoria de Hipócrates foi seguida pelo médico Galeno, mas perdeu forças para a teoria miasmática, em que as doenças teriam origem nos miasmas, que eram os odores venenosos, gases ou resíduos nocivos oriundos do solo. Novos pensamentos científicos iniciaram entre os séculos XVII e XVIII com os trabalhos de Galileu e Newton. Em Londres, no século XVII, entre 1620 e 1674, o pesquisador John Graunt estipulou padrões de fertilidade, morbidade 11 e mortalidade. Estimou o número de habitantes, a taxa de crescimento populacional e a estrutura etária da população de Londres realizando cálculos de mortalidade. Por meio das mensurações, definia o risco das ocorrências patológicas. Ainda em Londres, no século XVII, Thomas Sydenham estudou a febre e a varíola. Descreveu e distinguiu várias doenças, incluindo as psicológicas, propondo alguns tratamentos, como exercícios e dietas saudáveis. Em meados do século XVIII, James Lind, um cirurgião escocês, observou que o clima, o tempo e a alimentação influenciavam na disseminação das doenças. 4.2 Epidemiologia clássica – Século XIX A revolução industrial foi destaque no século XIX. Em Londres, foram realizados censos, reformas sanitárias e estatísticas vitais que deram início à identificação da distribuição das doenças através de medidas realizadas em grandes grupos populacionais. Edwin Chadwick fundou a saúde pública e William Farr desenvolveu a estatística e defendeu a existência de doenças multifatoriais. A teoria miasmática declinou com os novos estudos sobre transmissão e prevenção das doenças, como a constatação de transmissões por contato direto e indireto, através de instrumentos e mãos contaminadas por micro-organismos patogênicos. Em Londres (1954), o médico John Snow foi considerado o pai da epidemiologia ao investigar um surto de cólera, pois desconsiderou a hipótese de sua transmissão pelo ar ou por contato entre pessoas e estabeleceu uma relação entre a água contaminada com fezes de doentes e a própria doença. O agente etiológico Vibrio cholerae, causador da cólera, ainda não era conhecido. Logo depois, no mesmo século, se destacou o químico Louis Pasteur, que identificou a existência de micro-organismos e concluiu que o calor seria capaz de matá-los, desenvolvendo o processo de pasteurização. Criou formas atenuadas de micro-organismos, possibilitando a vacinação contra a cólera em galinhas. Pasteur e Robert Koch, um importante bacteriologista alemão, descobriram a existência de micro-organismos patogênicos, como a bactéria da cólera, confirmando os estudos de Snow. Robert Koch descobriu o bacilo de Koch, agente etiológico da tuberculose. 4.3 Epidemiologia moderna Com as mudanças sociais e demográficas, que passaram a influenciar o perfil epidemiológico das doenças, surgiu a epidemiologia moderna. Houve um decréscimo das doenças infecciosas e um aumento das doenças crônicas. 12 Na metade do século XX, a epidemiologia demonstra preocupações com as doenças crônicas não transmissíveis, como neoplasias, doenças do sistema cardiovascular e doenças pulmonares, que apresentam uma grande relevância, principalmente nas sociedades industrializadas. Estudos observacionais dos médicos Richard Doll e Andrew Hill mostraram a relação entre o hábito de fumar e o câncer de pulmão entre médicos britânicos, o que contribuiu para compreender os fatores de risco nocivos do tabagismo. Também de grande valia para a expansão do campo epidemiológico foi o Framingham Heart Study, um estudo longitudinal em Framingham, uma cidade dos Estados Unidos, sobre os fatores de risco para doenças cardiovasculares, como dieta inadequada e falta de exercícios físicos. A relação entre fatores de risco e aparecimento de doenças em populações está relacionada com questões sociodemográficas e comportamentais, gerando uma ligação da epidemiologia com outras ciências, como a social, demográfica, política, econômica e antropológica. Segundo Carvalho et al. (2017), as mudanças epidemiológicas no mundo decorrem do controle das doenças transmissíveis nos países de primeiro mundo, com ênfase para as não-transmissíveis, bem como acidentes e violência, identificados como causas externas. Há um perfil patológico com o aumento da morbidade e controle da mortalidade: predomina a morbimortalidade em grupos sociais de faixa etária mais elevada. No Brasil, os problemas de saúde estão direcionados ao predomínio das doenças crônico-degenerativas e causas externas e também ao aumento das doenças transmissíveis, antes controladas ou erradicadas e agora reemergindo. As doenças infecciosas, como dengue e cólera, estão sendo reintroduzidas. Há a persistência de doenças relacionadas aos processos socioeconômicos, como tuberculose e leishmanioses. Quando comparado aos países desenvolvidos, o Brasil apresenta coeficiente de mortalidade muito elevado, com predomínio das endemias e envelhecimento rápido da população. Há uma grande disparidade nos padrões de mortalidade e morbidade nas diferentes regiões brasileiras. 13 5. MEDIDAS DE ASSOCIAÇÃO EM EPIDEMIOLOGIA As medidas de associação são usadas para medir a ocorrência de doenças em populações e permitem quantificar a força de associação entre a doença e o fator de risco. São os indicadores que esclarecem as condições de saúde de uma população, podendo ser expressos numericamente. Os indicadores de saúde demonstram o perfil do estado saúde-doença, podendo beneficiar políticas de monitoramento e controle das doenças em geral. Permitem verificar desigualdades dentro da mesma população, identificando diferenças econômicas e sociais. O estado saúde-doença em uma população pode ser mensurado por meio da mortalidade e da morbidade, ou seja, verificando a quantidade de pessoas que morrem e adoecem em uma determinada população, em um determinado período. A morbidade e suas medidas de incidência e prevalência, a mortalidade, a letalidade e expectativa de vida são alguns indicadores utilizados em epidemiologia e saúde pública. 5.1 População em risco Para calcular uma medida de ocorrência da doença, é importante considerar a população em risco, ou seja, o total de indivíduos expostos a um fator de risco, aqueles suscetíveis a adquirir uma doença. Portanto, a população em risco é o denominador do cálculo de uma medida de associação ou indicador de saúde. 5.2 Medidas de morbidade: prevalência e incidência Em epidemiologia, morbidade é o conjunto de casos de uma determinada doença que atinge um grupo deindivíduos. A morbidade, e também a mortalidade, referem-se sempre a uma população e a um período de tempo determinados. Segundo Bonita et al. (2010), informações de morbidade são úteis quando investigadas doenças que apresentam baixa letalidade, como as doenças mentais. Para mensurar a morbidade, são utilizadas as medidas padronizadas de prevalência e incidência, indicadores que mostram uma doença específica e permitem comparações entre diferentes populações estudadas. A prevalência representa a quantidade de pessoas doentes em uma população específica e em um determinado ponto do tempo. Os casos de doentes podem ser novos, em que a doença teve início dentro do período de tempo específico em estudo, ou velhos, em que a doença foi iniciada antes do início do período especificado para estudo, em casos pré-existentes. 14 A taxa (ou coeficiente) de prevalência (TP) é determinada pela relação entre o número de casos novos e casos velhos de uma doença específica e o número de indivíduos da população em um ponto específico do tempo, como dia, semana, mês ou ano. Esse coeficiente pode ser multiplicado por uma constante, como cem, mil ou dez mil. O coeficiente de prevalência corresponde à quantidade de pessoas afetadas pela doença no momento do período estudado. (Taxa de prevalência especificada na tabela 1) A incidência mostra a frequência do surgimento de novos casos de uma determinada doença em um intervalo de tempo específico. Uma alta incidência representa um alto risco de uma comunidade adoecer. A taxa (ou coeficiente) de incidência (TI) é calculada pela razão entre o número de casos novos de uma doença específica em uma população, em um intervalo de tempo definido, e a população exposta ao risco de pegar a doença no mesmo período. Multiplica-se a TI por uma constante. O coeficiente de incidência corresponde ao número de casos novos de um agravo durante um período definido. (Taxa de incidência especificada na tabela 1) Tabela 1. Coeficientes ou taxas de prevalência e incidência Taxa de prevalência (TP) Número de casos novos e velhos em determinado período ---------------------------------------- x constante Número de pessoas expostas ao risco no mesmo período Taxa de incidência (TI) Número de casos novos em um determinado período ---------------------------------------- x constante Número de pessoas expostas ao risco no mesmo período Fonte: Carvalho et al., 2017. Há o aumento da prevalência quando ocorre maior duração da doença, aumento da incidência, imigração de pessoas doentes ou emigração de indivíduos sadios e aumento da sobrevida. A prevalência diminui com a menor duração da doença e diminuição da incidência, aumento da cura e maior letalidade, imigração de indivíduos sadios e emigração de pessoas doentes. Doenças de curta duração, agudas, apresentam baixa prevalência, e doenças de longa duração, crônicas, apresentam alta prevalência. Considera-se, portanto, a incidência como indicadora do risco de tornar- se doente e a prevalência como a probabilidade de a população estar doente no período de tempo em estudo. 5.3 Letalidade A letalidade representa a quantidade de mortes de doentes, por uma causa específica, em certo período de tempo. Portanto, a morte está vinculada a uma condição clínica específica. De acordo com a característica própria de cada patologia, a letalidade pode ser alta ou baixa. 15 A taxa de letalidade pode ser calculada pela razão do número total de mortes por uma doença em determinado período e o número de doentes de uma doença no mesmo período. Multiplica-se esse resultado por cem. A tabela 2 mostra o coeficiente de letalidade (CL). Tabela 2: coeficiente de letalidade Coeficiente de letalidade Total de óbitos por determinada doença ----------------------------------------------------- X constante Total de casos da mesma doença Fonte: Gusmão e Silva Filho, 2014. 5.4 Expectativa de vida A expectativa de vida é considerada outro indicador de saúde das populações. Considerando manter as taxas de morbimortalidade, a expectativa de vida é o número médio de anos que se espera viver. A esperança de vida ao nascer é o número médio de anos de vida esperados para um recém- nascido. Segundo dados do IBGE-2017, a expectativa de vida ao nascer está aumentando em todas as regiões do Brasil e em todos os sexos. No ano de 2017, a expectativa de vida ao nascer foi de 76,0 anos e significou um aumento de 30,5 anos para ambos os sexos frente ao indicador observado em 1940. 5.5 Mortalidade Outra forma de avaliar as condições de saúde de uma população é determinar o número de óbitos, o que é realizado através de coeficientes ou taxas de mortalidade. Os principais coeficientes ou medidas de mortalidade são: taxa de mortalidade geral; taxa de mortalidade infantil; taxa de mortalidade neonatal precoce e tardia; taxa de mortalidade materna e taxa de mortalidade específica. A taxa de mortalidade geral representa o número total de óbitos, incluindo todas as faixas etárias em uma população de um determinado espaço geográfico e ano. Pode ser calculada pela razão entre número de óbitos no período e a população no meio do período, multiplicado por mil. A tabela 3 mostra o coeficiente ou taxa de mortalidade geral. O coeficiente de mortalidade infantil representa o número de óbitos de crianças no primeiro ano de vida por mil nascidos vivos, em uma população de um local e ano determinados. Compreende, portanto, a razão entre o número de óbitos de menores de um ano de idade pelo número de nascidos vivos no mesmo ano, multiplicado por mil. A taxa de mortalidade infantil compreende o período neonatal precoce, que representa o número de óbitos de 0 a 6 dias de vida, por mil nascidos vivos; o período neonatal tardio, que representa o número de óbitos de 7 a 27 dias de vida, por mil nascidos vivos; e pós-neonatal, que representa os óbitos de 28 dias ou mais, por mil nascidos vivos, dentro de uma população específica e ano determinado. 16 Registros demonstram uma diminuição na taxa de mortalidade infantil no Brasil, entre os anos 2000 e 2017. O ano 2000 apontou uma taxa de 29 óbitos por mil nascidos vivos; em 2010, a taxa passou a ser 17,2, enquanto em 2017 a taxa foi de 12,8 óbitos por mil nascidos vivos (IBGE-2017). O coeficiente de mortalidade materna indica o número de óbitos maternos, por mil nascidos vivos, de mães residentes em determinado local e ano. Estima a frequência de óbitos por motivos gestacionais ocorridos até 42 dias após o final da gravidez e é calculado pela razão entre o número de óbitos maternos por motivos gestacionais e o total de nascidos vivos durante o mesmo ano, multiplicado por cem mil. A taxa de mortalidade específica é a distribuição de óbitos por grupos de causas definidas em uma população e no ano considerado. A taxa de mortalidade específica por doenças do sistema circulatório na cidade de São Paulo, em 2010, foi de 66 óbitos para cada cem mil habitantes (RIPSA, 2012). Tabela 3: coeficiente de mortalidade geral Coeficiente de mortalidade geral Número de óbitos por período --------------------------------------------- X constante População no meio do período Fonte: Gusmão e Silva Filho, 2014. 17 6. CLASSIFICAÇÃO INTERNACIONAL DE FUNCIONALIDADE, INCAPACIDADE E SAÚDE (CIFS) A Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde, conhecida como CIFS, foi desenvolvida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) com o intuito de melhorar a qualidade de vida das pessoas que ficaram com sequelas de alguma doença, identificando quais os fatores ambientais e pessoais irão influenciar na qualidade de vida dessas pessoas. Limitações, incapacidades e deficiências podem ser as sequelas de uma patologia. Segundo Bonita et al. (2010), a limitação pode ser definida como perda de função psicológica,fisiológica ou anatômica; a incapacidade é consequência da limitação, como a restrição para a realização de uma atividade cotidiana; a deficiência impede o indivíduo de ter uma vida normal. A poliomielite, por exemplo, pode levar a uma limitação, como a paralisia das pernas, gerando uma incapacidade, como a impossibilidade de caminhar, resultando em desemprego, que seria uma deficiência. A incapacidade é uma interação das condições ambientais, pessoais e de saúde do indivíduo, portanto, é possível diminuir suas limitações melhorando as condições ambientais e pessoais do indivíduo. A incapacidade decorrente de uma doença vem aumentando com o passar dos anos devido ao envelhecimento populacional e ao aumento das doenças crônicas não-transmissíveis. 18 7. ESTUDOS EPIDEMIOLÓGICOS Os estudos epidemiológicos possibilitam a descrição e caracterização do estado de saúde de populações, pois fornecem medidas de ocorrência das doenças e outros agravos. São divididos em estudos observacionais e experimentais. Nos estudos não experimentais ou observacionais, o investigador mede, mas não interfere no decorrer da pesquisa, que segue seu curso natural. São estudos descritivos e analíticos. Nos estudos observacionais descritivos ocorre a descrição da ocorrência de uma patologia ou agravo na população em estudo abrangendo pessoa, tempo e lugar. Há o relato de casos e a série de casos. Nos estudos observacionais analíticos é realizada uma relação entre o estado de saúde da população e suas variáveis. São os mais utilizados em estudos epidemiológicos e incluem: os estudos transversais, de coorte, caso- controle e ecológicos. Os estudos experimentais tentam alterar os determinantes de uma doença ou evitar o seu avanço através de algum tratamento. Incluem: os ensaios clínicos randomizados, ensaios de campo e ensaios comunitários. Nos estudos epidemiológicos existem variáveis que se relacionam e são classificadas em: variável independente (VI) e variável dependente (VD). Em uma VI, a ação está sendo investigada, sendo a exposição aos fatores considerados patogênicos. A Variável Dependente (VD) é o resultado dessa ação, ou seja, a patologia. O fator de risco, que mostra uma frequência maior da doença quando presente, e o fator de proteção, no qual a doença é menos frequente, são os fatores considerados nos estudos epidemiológicos. 7.1 . Estudos descritivos: relatos de casos e séries de casos No estudo observacional descritivo, a descrição se baseia em uma patologia ou um agravo de uma população estudada. As pessoas em estudo são selecionadas de acordo com a faixa etária ou exposição aos fatores de risco. Este estudo informa incidência e prevalência de um agravo. A descrição do estado de saúde da população definida é feita por meio da coleta de dados primários, que consistem na realização de questionários específicos aplicados aos indivíduos do estudo, ou dados secundários, realizados por meio das estatísticas de mortalidade específica como sexo, idade e etnia durante um tempo definido. Segundo Menezes (2001), os estudos descritivos somente descrevem a ocorrência de uma doença em uma população, não sendo úteis para estudos da etiologia de um agravo ou definição de tratamento. Pelo fato de não terem um grupo-controle, os estudos descritivos impedem a comparação com os estudos de outras populações, mas apresentam como vantagens a rapidez e o baixo custo. O estudo descritivo apresenta o relato de casos em que o pesquisador descreve uma patologia rara ou incomum e os sintomas apresentados em um indivíduo com o objetivo de conhecer a doença; e a série de casos, em que 19 ocorre a descrição das características de um grupo de pacientes com novos casos apresentados em uma região durante um período específico. 7.2 Estudo transversal ou de prevalência Estudo transversal ou de prevalência é o estudo dos indivíduos em um determinado momento, normalmente que apresentam uma patologia crônica. É bastante utilizado para pesquisar fatores de risco relacionados a doenças comuns e de longa duração. É o estudo que fornece informações da prevalência de uma patologia, pois mede a prevalência de uma doença em uma população definida e em um determinado momento do tempo. As VD e VI são observadas em um único momento. O estudo é realizado com a divisão em dois grupos de pessoas: as que estão expostas a um determinado fator de risco e as que não estão expostas a esse fator de risco. A prevalência da doença é maior entre os expostos. Os estudos transversais são rápidos de serem realizados e possuem um baixo custo, mas seus resultados dependem da duração da doença. A tabela 3 mostra as medidas de associações epidemiológicas, na qual a prevalência (P) é igual ao número de casos de doentes e não doentes (A+C), dividida pelo número total de indivíduos expostos e não expostos ao fator de risco (N): (P = (A+C) / N) (Menezes, 2001). Tabela 3: tipos de estudos epidemiológicos Doentes Não doentes Total Expostos A B A+B Não expostos C D C+D Total A+C B+D N (A+B+C+D) Fonte: Menezes, 2001. 7.3 Estudo de coorte ou longitudinal No estudo de coorte ou longitudinal, um grupo de pessoas, com exposição a um determinado agente, é acompanhado por um longo período para a observação do aparecimento de um desfecho. No início do estudo, os indivíduos não apresentam a doença, ou seja, a população é escolhida com base na VI. Nos estudos de coorte, todos os indivíduos de uma população estão em exposição e são acompanhados para verificação da incidência da doença. O estudo não é utilizado para doenças raras. A vantagem desse estudo está em analisar a exposição e a doença ao mesmo tempo, porém, são estudos demorados e caros, com risco de perda de acompanhamento entre os participantes do estudo. Ele permite identificar a influência de um fator de risco em uma doença. São identificadas pessoas saudáveis que estão expostas ao fator de risco e pessoas saudáveis que não estão expostas a eles. Estes dois grupos são acompanhados por um período grande de tempo até o aparecimento da doença, verificando-se a incidência da doença entre os indivíduos dos dois grupos. Esse estudo representa a coorte prospectiva. 20 Os estudos de coorte são medidos por meio da incidência e do risco relativo (RR). O RR mostra um risco maior em adquirir a doença entre os expostos, comparado ao risco dos não expostos, ou seja, a probabilidade de ocorrer um agravo. O RR maior que 1 indica 50% mais chance de os expostos contraírem a doença em relação aos não expostos. O RR menor que 1 é considerado um fator de proteção. O RR igual a 1 demonstra que o fator em exposição não interferiu no aparecimento da doença (Menezes, 2001). O RR é calculado pela fórmula: RR= a/ (a+b) ÷ c/(c+d), em que, de acordo com a tabela 3, a letra A indica o número de pessoas que tem a exposição e também o desenvolvimento da doença; B representa o número de pessoas que tem a exposição, mas não desenvolveu a doença; C mostra o número de pessoas que não estavam expostas, mas desenvolveram a doença; D indica o número de pessoas sem exposição e sem desenvolvimento da doença (Wagner e Callegari-Jacques, 1998). Nos estudos de coorte são utilizados, além do RR, o risco atribuível (RA) e o risco atribuível populacional (RAP). O RA é um risco adicional em adquirir a doença, devido à presença do fator em exposição. É calculado pela diferença da incidência entre os expostos e incidência dos não expostos. Pela tabela 3, é possível definir o RA como: RA = a/ (a+b) – c/ (c+d) (Bonita, et al., 2010). O RAP indica o risco adicional em desenvolver a doença em uma população total, e não somente a população de expostos. Pela tabela 3, é calculado da seguinte forma: RAP = ((a+c) / N) - (c/(c+d)) (Bonita, et al., 2010). 7.4 Estudo de caso e controle ou longitudinal O estudode caso e controle é utilizado para a investigação da causa de doenças raras. O grupo, no estudo de casos, é representado por indivíduos doentes, ou seja, a pesquisa já começa com o desfecho ou VD para, então, chegar à exposição ou VI. O controle é o grupo de indivíduos saudáveis (que, se estivessem doentes, estariam no grupo de casos). A doença é estudada em um determinado tempo e em sua relação com exposições do passado, tratando-se, portanto, de um estudo retrospectivo, já que é investigado o passado do doente para determinar a causa da doença, ou seja, o fator de exposição ou de risco. Dados retrospectivos podem ser coletados através do questionamento ao doente ou pessoa próxima. O estudo de caso e controle também poderá ser prospectivo, que é quando os dados são coletados no decorrer do tempo. Para a escolha do grupo controle, é importante selecionar as pessoas hospitalizadas no mesmo local dos casos, mas com outro diagnóstico, ou indivíduos da mesma comunidade. Esses indivíduos envolvidos podem ser estudados por meio de registros de mortalidade e morbidade, hospitais e centros médicos. O estudo traz a vantagem de ser rápido e barato e poder ser utilizado para o estudo de doenças raras (de baixa incidência) e com período de incubação longo. Permite detectar o risco de sofrer um agravo, associado a uma ou várias exposições. As medidas de associação utilizadas nos estudos de caso e controle são: as de prevalência e a razão de chances ou odds ratio (OR). 21 A prevalência em caso e controle pode ser calculada seguindo a tabela 3, em que a prevalência da exposição é: (A/A+C) (B/B+D) (Menezes, 2001). A OR é a relação entre uma exposição e uma doença (risco relativo), em um estudo de caso e controle. É a probabilidade de um evento, dividida pela probabilidade da ausência do mesmo evento. Mostra a chance de desenvolver uma doença de acordo com a exposição a um determinado fator ou não. Utilizando a tabela 3, é possível calcular OR como: OR= AxD/CxB (Menezes, 2001). A interpretação da OR pode ser feita da mesma forma que a RR, na qual uma OR com valor acima de 1 indica que os casos tiveram uma maior probabilidade de adquirirem a doença, quando expostos ao risco, do que os controles. Não é utilizada RR em estudos de caso e controle, pois é trabalhado o fato de ter ou não a doença. O RAP, para estudos de caso e controle, significa a quantidade de chance adicional de desenvolver a doença em presença da exposição. Calculamos o RAP como: RAP=OR-1/OR (Bonita, et al., 2010). Para um melhor entendimento do assunto, a tabela 4 demonstra a comparação entre os estudos epidemiológicos de coorte e caso-controle. Tabela 4: comparação entre os estudos epidemiológicos de coorte e caso-controle Coorte Caso-controle Ponto de partida: o fator de exposição (VI). Seleciona a população a partir de um determinado fator ou não. Ex: escolhe a população a partir dos que fumam ou não fumam. Ponto de partida: o desfecho da doença (VD). Escolhe a população baseado no fato de ter ou não uma determinada doença. Ex: Câncer de pulmão. A+B (expostos) e C+D (não expostos) Doentes e não doentes Cronologia - marco zero do estudo de coorte: em um ponto determinado, selecionou a população de acordo com um fator, como os fumantes e os não fumantes. Cronologia - marco zero do caso- controle: seleciona a população baseado no fato de ter ou não a doença; o câncer de pulmão. Acompanha essa população por um tempo até o surgimento do desfecho final - doença: câncer de pulmão. Estuda o passado dessa população: indivíduos fumaram ou não fumaram e estabelece esse fator com o desfecho final - câncer de pulmão. Fonte: Bonita et al., 2010. 22 7.5 Estudos ecológicos No estudo ecológico, a observação é feita em grupos de pessoas, e não apenas em um indivíduo. Em uma população exposta frequentemente a um fator de risco, a incidência de doenças e a mortalidade é maior. A incidência e a mortalidade são as medidas utilizadas nesse estudo. São necessários dados secundários para a realização da pesquisa nos estudos ecológicos. As fontes de dados para doenças incluem os registros de mortalidade e morbidade, e as fontes obtidas para exposição são os censos demográficos e econômicos. O Risco atribuível populacional (RAP) é utilizado para avaliar o quanto uma doença é causada por determinado fator de risco e o quanto essa mesma doença seria prevenida com a retirada desse fator de risco. A fração prevenível (FP) é usada para demonstrar o quanto uma doença é prevenida na presença de um fator protetor, como, por exemplo, a vacinação. O cálculo do RAP e da FP é demonstrado na tabela 5. Tabela 5: medidas de associação utilizadas em estudos ecológicos Frequência da exposição x (RR -1) Risco atribuível populacional (RAP) = ------------------------------------------------- 1+ frequência da exposição x (RR-1) Frequência da exposição x (1-RR) Fração prevenível (FP) = --------------------------------------------------- RR+ frequência da exposição x (1-RR) Fonte: Menezes, 2001. 7.6 Estudos experimentais Os estudos experimentais realizam a intervenção de um fator ou variável relacionado a uma determinada patologia para testar hipóteses ou descobrir algo desconhecido. Nos estudos de ensaios clínicos, a VI possui um efeito positivo no grupo de indivíduos em estudo. Os participantes são os pacientes definidos na pesquisa, que tem por objetivo estudar os efeitos de uma intervenção. Nos ensaios clínicos, é necessária a definição dos indivíduos que seriam beneficiados com a intervenção. Neste estudo, é definido um grupo que recebe a intervenção, ou seja, a substância ativa que estaria em estudo, e um grupo-controle que recebe um placebo ou outra substância de efeito conhecido. Nos ensaios de campo, os participantes da pesquisa são saudáveis, com risco de desenvolver uma doença. Há uma intervenção preventiva, com o estudo de uma grande quantidade de indivíduos, e metade deles são expostos 23 à prevenção. Esse tipo de estudo pode ser utilizado para o teste de novas vacinas. Nos ensaios comunitários, é a comunidade quem participa da pesquisa, e não os indivíduos. É um estudo direcionado às doenças de origens sociais que possam sofrer alguma intervenção relacionada ao comportamento do grupo. 7.7 Fator de confusão e erros em estudos epidemiológicos Para evitar vieses em medidas epidemiológicas, é preciso conhecer os possíveis desajustes que podem afetar os estudos. Os tipos de erros dos estudos epidemiológicos são: os aleatórios e os sistemáticos. Os erros aleatórios são os encontrados em divergências aleatórias no valor da amostra. Para a redução desse tipo de erro é importante aumentar a quantidade de indivíduos dentro da pesquisa para uma segurança estatística. Os erros sistemáticos são os vieses de seleção. A seleção das características dos pacientes para a pesquisa em caso e controle pode sofrer erros, portanto, ocorre quando há diferenças sistemáticas entre os indivíduos selecionados para o estudo. Exemplo: tabagistas que fumam uma grande quantidade de cigarro geralmente não aceitam participar de estudos epidemiológicos. Os estudos de coorte são menos susceptíveis ao viés de seleção do que os estudos de caso e controle, que também estão sujeitos ao viés de informação. Nos estudos experimentais, o número de amostras é aumentado e os indivíduos em estudo restringidos com o intuito de evitar o viés. O fator de confusão ocorre quando duas variáveis estão associadas com uma terceira variável, consideradao fator de confusão. Quando presente em estudos epidemiológicos, é importante a eliminação deste fator. Exemplos de fator de confusão: o consumo de café (VI), doença cardíaca (VD) e hábito de fumar (fator de confusão). O hábito de fumar está associado com doenças cardíacas e estimula as pessoas a tomarem café. Para estudar o consumo de café como um fator de risco para doenças cardíacas é importante selecionar pessoas que consomem café e não fumam; ou a queda de pessoas idosas, que está associada ao uso de diuréticos, e pessoas idosas com doenças cardíacas. Estas últimas consomem diuréticos, portanto, doença cardíaca é fator de confusão, pois interfere nas duas variáveis. 24 BIBLIOGRAFIA ALMEIDA FILHO, N. Epidemiologia sem números. Rio de Janeiro: Campus, 1989, p. 24. ________________. O que é Saúde. Rio de Janeiro: FIOCRUZ, 2011. ALMEIDA FILHO, N.; BARRETO, M. L. Epidemiologia & Saúde: fundamentos, métodos e aplicações. São Paulo: Guanabara Koogan, 2012. ARAGÃO, J. 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