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PARA QUÊ FILOSOFIA? / OQUE É FILOSOFIA? (uma “revelação” inicial). As evidências do cotidiano Em nossa vida cotidiana, afirmamos, negamos, desejamos, aceitamos ou recusamos coisas, pessoas, situações. Fazemos perguntas, dizemos coisas, avaliamos e comparamos sem termos certeza e critério de nada. A filosofia não é algo abstrato, distante e inútil, essa percepção sobre a filosofia é equivocada, na verdade a filosofia se manifesta em perguntas simples e em nosso desejo de compreender as coisas na qual não se tem uma explicação. A filosofia é a capacidade pessoal do ser humano: a capacidade de indagar, duvidar e buscar sentido, sendo assim uma atividade contínua de reflexão crítica. Assim você percebe que a realidade existe fora de si próprio, podendo percebê-la e conhecê-la do jeito que ela é, sabendo diferenciar a realidade da ilusão. Acreditamos que existem relações de causa e efeito entre as coisas, que onde houver uma coisa certamente haverá uma causa para ela, ou que essa coisa é causa de alguma outra, acreditamos assim que a realidade é feita de causalidades. Como se pode notar, a vida cotidiana é feita de crenças silenciosas, da aceitação explícita de evidências que nunca questionamos por que nos parece naturais e óbvias, como a ideia de que “o sol é maior do que o vemos” ou “onde há fumaça, há fogo”. Vejamos mais de perto o que dizemos em nosso cotidiano. Quando fazemos uma pergunta simples como “que horas são?” ou “que dia é hoje?”. Ao fazer e aceitar as respostas a essas perguntas, logo percebemos a existência do tempo (em horas e dias), a distinção entre passado, presente e futuro, e a capacidade de lembrar ou esquecer do passado, além de desejar ou temer o futuro. Assim, uma pergunta simples revela várias crenças silenciosas. Contudo, a filosofia é um contive à reflexão da realidade, o ser humano e o mundo em que vivemos, movido pelo sentimento de admiração e espanto do que é tido como normal e natural. A ATITUDE FILOSÓFICA Imaginemos, agora, alguém que começasse a fazer perguntas muito estranhas como:” O que é o tempo?”, “O que é a razão? O sonho? A loucura?”, em vez de perguntar de forma normal, essa pessoa quisesse questionar o significado das suas perguntas, em vez de afirmar algo ela preferisse analisar: “Oque é?”, “como?”, “Por quê é?”, “Para quê é?”. Alguém que tomasse essa decisão, estaria se distanciando da vida cotidiana e de sua própria pessoa para começar a indagar sobre as crenças e sentimentos que alimentam nossa existência. Assim, a resposta para a pergunta “O que é filosofia?” poderia ser: A decisão de não aceitar as coisas, ideias, os fatos, acontecimentos, situações, valores, e comportamentos da nossa vida sem antes questionar sobre. A ATITUDE CRÍTICA No cotidiano, tendemos a aceitar as coisas como são, sem questionar suas origens, razões ou significados. A filosofia, ao contrário, nos convida a "desacostumar" o olhar, a ver o mundo como se fosse a primeira vez. A primeira característica da atitude filosófica e negativa, isto significa, negar o senso comum e as experiências cotidianas, ao que “todo mundo diz e pensa”, ao estabelecido. A segunda característica da atitude filosófica é positiva, isto significa, uma interrogação sobre o que são as coisas, ideias, os fatos, situações e acontecimentos, é uma interrogação sobre o porquê de isso tudo ser assim e não de outra maneira. A face negativa e a face positiva da atitude filosófica constituem o que chamamos de “atitude crítica e pensamento crítico”. PARA QUÊ FILOSOFIA? Muitos se perguntam: Para que serve filosofia? Para o senso comum, a filosofia não serve para nada. Em nossa sociedade, consideramos que algo só tem direito de existir caso ela tenha alguma finalidade prática, por isso ninguém pergunta para que servem as ciências, pois todos veem sua aplicação na prática em seus cotidianos, porém, ninguém vê uma utilidade prática da filosofia. As ciências querem a racionalidade e a capacidade de uso correto dos conhecimentos, que se conseguem através de muitos experimentos para comprovar que algo é isso e aquilo de fato. Mas a filosofia vai além, através de verdade, pensamentos, procedimentos especiais para conhecer os fatos, relação entre teoria e prática, correção de acúmulo de saberes, ela fórmula e busca respostas para elas, diferentemente das ciências que parte delas como questões já respondidas. Com isso, a filosofia teria como finalidade ensinar-nos a virtude, que é o princípio do bem-viver através de um radical processo de autoconhecimento que chamamos de reflexão filosófica, por isso a filosofia é um pensamento sistemático, pois busca trabalhar com enunciados precisos e rigorosos. EM BUSCA DE UMA DEFINIÇÃO DA FILOSOFIA Quando começamos a estudar filosofia, somos logo levados a buscar o que ela é. Mas descobrimos que não há apenas uma definição da filosofia, mas várias. Além de várias, as definições parecem contradizer-se. Uma primeira aproximação nos mostra pelo menos quatro definições gerais do que seria filosofia: 1. Visão de mundo: Corresponde, de modo vago geral, ao conjunto de ideias, valores e práticas pelos quais uma sociedade apreende e compreende o mundo e a si mesma. Chaui, no entanto, argumenta que essa definição é genérica e não distingue a filosofia de outras áreas, como a religião 2. Sabedoria da vida: A filosofia busca conduzir à vida sábia e feliz, dedicando-se a contemplação do mundo para aprender com ele a controlar e dirigir suas vidas de modo ético e sábio. Contudo, a autora considera essa definição insuficiente para capturar a especificidade do trabalho filosófico sistemático. 3. Esforço racional para conceber o Universo como uma totalidade ordenada e dotada de sentido: Aqui, começamos distinguindo filosofia de religião e até mesmo opondo uma à outra, pois ambas buscam compreender o universo, mas a primeira faz isso através do esforço racional, enquanto a segunda faz isso através de uma revelação divina que conhecemos de uma forma geral como fé. 4. Fundamentação teórica e crítica dos conhecimentos e das práticas: A filosofia, cada vez mais, preocupa-se com as condições e os princípios do conhecimento que pretenda ser racional e verdadeiro. A FILOSOSIA É INÚTIL OU ÚTIL? O senso comum só considera útil aquilo que lhe dá algum tipo de vantagem, como a fama, riqueza, poder e prestígios, julgando o útil pelos resultados que são visíveis. Através desse ponto de vista, a filosofia é realmente inútil, e ela defende esse cargo de inútil se as coisas realmente forem assim. Mas, olhando através de outro ponto, como por exemplo o de Espinosa que afirma: “A Filosofia é um caminho árduo e difícil, mas pode ser percorrido por todos que desejarem a liberdade e a felicidade”, a filosofia não é inútil. Sua utilidade reside em abandonar a simplicidade do senso comum, questionar grandes ideias, compreender os significados culturais e históricos, e buscar a liberdade e a felicidade. Ela nos faz refletir sobre o conhecimento, desafiando o estabelecido e promovendo a consciência de si mesmo e do mundo. Questões discursivas com respostas Questão 1) Marilena Chaui diferencia entre uma atitude filosófica “negativa” e uma “positiva”. Explique cada uma dessas atitudes e como elas se relacionam na construção do pensamento filosófico. Resposta: Segundo Marilena Chaui, a atitude filosófica começa com a superação do senso comum e dos preconceitos. A atitude negativa é um movimento de negação e questionamento do que conhecemos como certo. Ela se manifesta ao dizermos “não” ao senso comum, preconceitos, fatos, ideias do cotidiano e tudo aquilo que é aceito sem reflexão e questionamento. Um exemplo do texto é quando a filosofia “começa dizendo não às crenças e aos preconceitos do senso comum e, portanto, começa dizendo não ao que sabíamos e o que imaginávamos saber”. Ao indagar por exemplo, a filosofia já está negando o que já é estabelecido. A atitude positiva é a interrogação que busca o“o que é?” e o “porquê?” das coisas. Ao invés de só negar, ela investiga a razão de tudo. É a partir do “não” que a filosofia pode construir um novo saber, buscando as causas, finalidades, valores e o significado da vida. A relação entre essas duas atitudes é complementar: a atitude negativa abre o caminho, desmistificando oque é aceitamos como certo, enquanto a atitude positiva preenche esse espaço buscando um conhecimento mais profundo. Questão 2) O capítulo aborda a pergunta “para que filosofia?”, que muitas vezes cita que a filosofia é algo inútil. com base no texto de Marilena Chaui, discuta os argumentos que refutam essa ideia de inutilidade. Resposta: A percepção que a filosofia é algo inútil aparece com frequência no pensamento do senso comum, que compara a filosofia com a utilidade pratica das ciências, da técnica e das artes. No entanto essa ideia é refutada por Marilena Chaui ao argumentar que a verdadeira utilidade da filosofia não é prática, mas sim fundamental e transformadora. A filosofia é útil pois ela nos leva a abandonar a ingenuidade do senso comum e começarmos a questionar ideia estabelecidas, questionar os próprios fundamentos diferentemente das ciências que responde perguntas já prontas, ela indaga sobre o “porquê?” e “o que é?” das coisas, ideias e dos valores, uma coisa que nenhuma outra área das ciências faz, possui a utilidade de nos libertar de poderes estabelecidos, nos permite compreender o sentido das coisas, a nos tornar conscientes de si mesmos e de nosso desejo de liberdade e felicidade. A verdadeira utilidade da filosofia reside em sua capacidade de reflexão crítica e busca por um conhecimento mais profundo. Questão 3) A reflexão filosófica é descrita por Marilena Chaui como um “movimento de volta do pensamento sobre si mesmo” e um processo “radical”. Explique p significado dessas duas características para a compreensão da atitude filosófica. Resposta: A característica da reflexão filosófica como um “movimento de volta do pensamento sobre si mesmo” significa que a filosofia não se volta apenas para o mundo exterior, mas principalmente para a sua própria capacidade de agir, conhecer e pensar. É um processo de autoconhecimento e autoconsciência. Quando a filosofia começa a indagar, o sujeito se torna objeto de sua própria investigação. Isso se manifesta na prática de filosofar, que é quando, invés de aceitar uma ideia já estabelecida, ele começa a questionar sobre tal ideia. A afirmação que a reflexão filosófica é “radical” aponta para a natureza própria da filosofia que busca ir à raiz, ao fundamento, à essência das coisas, não apenas identificando-os, mas investigando suas naturezas e origens.