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A CARTA ROUBADA E SOBRE A LETRA* Éric Laurent** Na última vez em que ocupei este lugar, ao final do curso O Outro que não existe e seus comitês de ética, Jacques-Alain Miller falou da possibilidade de continuar o trabalho de seminário que fora iniciado naquele ano. É o que se realiza agora, pois considero a oferta de fala hoje, no horário de seu Curso, uma ocasião de comunicar alguns re- sultados de meu ensino deste ano que, se contarmos o ano universi- tário, está na metade. * Conferência realizada no Curso de Jacques-Alain Miller intitulado "A experiência do real no tratamento analítico" (1998-1999). N.T. Esse Curso de Miller é inédito em português, mas já foi publicado em espanhol: La experiencia de lo real en la cura psicoanalitica (Buenos Aires, Paidós, 2003). Por sua vez, a conferência de Éric Laurent foi originalmente publicada em La Cause freudienne (Paris, ECF, 43, p. 22-33, 1999). A tradução do título original La lettre volée et le vol sur la lettre, perde seu duplo jogo de palavras. Afinal, por um lado, ela se apoia na dupla acepção do termo francês lettre, tão explorada por Lacan: nunca é demais lembrar que lettre tanto pode se referir a "carta" quanto a "letra". Neste texto, seguindo a mudança no ensino de Lacan por ele enfatizada, foi necessário inverter o padrão de tradução da expressão "A carta roubada" e do conto de Edgar Allan Poe, utilizado, por exemplo, nos Escritos (LACAN, J. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. p. 935): optamos por traduzir lettre por "letra" e adotamos a tradução "carta" mais Por sua vez, a segunda ambiguidade do título, explorada por Éric Laurent, reside na homofonia francesa entre "voo" e "roubo", ambos grafados vol. N.E. Agradecemos a Éric Laurent a gentileza de autorizar-nos a publicação deste texto neste número da Correio. ** Psicanalista. Analista membro da Escola (AME) na École de la Cause freudienne. Presi- dente da Association Mondial de Psychanalyse (AMP). 61Propus estudar a função do mais-Um em Lacan (pelo menos alguns aspectos dessa função) levando em conta, ao mesmo tempo, o aspecto "furo" e o aspecto "mais-Um", que estão subentendidos pela utiliza- ção da função do mais-Um ou pela referência a ela. Furo f(x) +1 Esquema la No ano passado, foi possível vincular esta função "mais-Um" com o lugar do pai e do Nome-do-Pai. O lugar do mais-Um deve ser apro- fundado pelo psicanalista, especialmente na perspectiva do Seminário 5 de Lacan, As formações do inconsciente, segundo a apresentação atual que dele fez Jacques-Alain Miller¹. Esse seminário enfatiza um lugar êxtimo com relação ao sistema da língua e que se distingue deste sistema tendo em vista que é fora e, ainda assim, dentro. É um lugar que autoriza, admite os novos sentidos que se produzem cada vez que o efeito do chiste inscreve na língua um uso inédito ou uma maneira nova de falar ele permite acolhê-los. Na perspectiva construída com base nesse papel de admissão desempenhado pela função de mais-Um, me perguntei como conju- gar tal função com aquela do psicanalista, que consiste em editar o texto, pontuá-lo. Furo f(x) +1 Esquema Como se conjugam, portanto, aquele que admite os novos sentidos, o efeito de sentido e aquele cuja prática se articula mais com a escan- são do que com os efeitos de sentido? Isso sem desconsiderar, por um lado, o fato de que a escansão implicada na edição do texto distribui, 62decerto, a significação, produzindo efeitos de sentido e, por outro, de não se esgota nisso a definição desse lugar centrado mais na pon- tuação que que no sentido. Nessa perspectiva, retomei a leitura de "Litu- raterra", eminente texto da série datada do início da década de 1970, elaborada por Lacan para abordar o lugar da letra, de sua relação os semblantes e com o efeito de sentido². Retomei "Lituraterra" ainda com mais porque me parece que Jacques-Alain Miller, no início de Curso deste ano, forneceu o matema que faltava para uma leitura límpida seu desse texto, que não é em geral considerado como de fácil acesso. Dupla função da letra "Lituraterra" está centrado em torno de dois aspectos da função da letra, o que constitui furo e o que constitui objeto a. Furo Letra (a) Esquema 2a É um texto articulado em torno de uma reflexão sobre a história da escrita mais do que uma história da literatura uma história da escrita à qual correspondem duas abordagens, dois apólogos, dois modos de consideração. As duas abordagens da escrita correspondem a duas tradições, a ocidental e a oriental, examinadas por Lacan uma depois da outra. A cada um dos dois modos de escrita, alfabética ou ideográfica, cor- responde um apólogo. Para o primeiro, é "A carta para 0 segundo, em "Lituraterra", é, eu diria, uma história de água: do alto de seu avião, atravessando o deserto da Sibéria, Lacan vê cursos Pareceu-me que se tratava do mesmo apólogo e que, de todo modo, trata-se mesmo de apreender em que cada um designa, traz uma mensagem sobre a letra que indica o mesmo ponto. 63"Lituraterra" reescreve explicitamente, na década de "A ins- tância da letra no escrito em que Lacan também apegava, mas de outro modo, a dois modos de escrita: 0 grego e 0 chinês. A oposição entre estes dois últimos é evocada assim: será, talvez, tua figura que traça nosso destino no casco chamuscado da tartaruga, ou teu clarão [éclair] que faz surgir de uma inominável noite a lenta mutação do ser no hen panta da Essa citação refere-se à escrita chinesa, admitida por todos como proveniente de uma prática divinatória que consistia em colocar no fogo cascos de tartaruga: pelo craquelê que ali se desenhava, adivi- nhava-se 0 destino, a mensagem dos deuses, a escrita. Os caminhos da escrita na China apoiaram-se, portanto, nessas práticas, das quais se sabe 0 quanto a China ainda hoje está enredada. Por exemplo, 0 prédio do Banco da China em Hong-Kong foi construído mas somente depois da realização de algumas práticas divinatórias que visavam assegurar a boa circulação de diferentes fluidos, etc. Mas além da adivinhação dos cascos de tartaruga passados no fogo, tal citação evoca 0 "clarão", 0 "relâmpago" de Heráclito que faz aparecer na noite a lenta mutação do ser e a maneira como 0 Um, condensando-se em uma frase, vem nomear 0 inominável das coisas. Essa passagem de "A instância da letra no em que Lacan nos confia sua meditação sobre os diferentes modos pelos quais 0 ser vem à linguagem, nos conduz às figuras da metáfora e da metonímia, que lhe parecem operantes tanto na poesia chinesa, diz ele, quanto na poesia ocidental. A barra [barre] lhe parece, então, a verdadeira árvore [arbre] que [nos seus galhos]⁶ organiza a partilha entre elas. Em Lacan irá reler e reinterpretar esse lugar da barra. Ele a situava como razão do inconsciente, como repetição ou isso se repete na parte de baixo, e temos, então, a metonímia: A barra Metonímia Esquema 3a 64sante ou ultrapassa deslizar a do barra, significante e temos, sobre assim, o significado: a metáfora, que pontua o inces- A barra Metáfora Metonímia Esquema 3b seguinte: Lacan reconsidera sua abordagem de maneira divertida dizendo o tar nela letra aquilo que, a ter isso apon- [Falei suficientemente da] letra como na a razão do Já não será de pleno direito quando, por força da razão, que isso insistir, se só existe Ele retoma, com esse "de pleno o algoritmo de Saussure: Esquema 4a Ele quer dar um passo a mais, uma vez que a questão foi deslocada e que seu ensino chegou a reunir metáfora e metonímia. Temos aí um primeiro mal-entendido. mal-entendido, diz Lacan, é que, em 1970, ele fala em um contexto de promoção dado ao escrito. contexto é do questionamento, diferentemente destacado à época por alguns autores, quanto ao estruturalismo de Lévi-Strauss (Derrida é o mais eminente, mas podemos também citar Barthes, uma vez que Lacan se refere a ele, e ainda evocar, de certa maneira, Michel Foucault). Tal estruturalismo é questionado por estar centrado demais, segundo esses autores, na fonologia estrutural e no privilégio da voz, da fala. De fato, o concerto filosófico, que tinha ficado pasmado pela abor- dagem de Lévi-Strauss durante uma dezena de anos, iniciava um come back do qual a conferência de Derrida sobre Freud, em 1966, no Instituto de Psicanálise, marcaria uma escansão importante. Lacan, aqui, responde 65seca, clara e vigorosamente a Derrida e é bastante vigoroso também com relação a Barthes, deixando de lado, enfim, outros autores. Desde o início podemos reduzir o mal-entendido. Lacan não quer se meter com a promoção dada ao escrito. Ele diz, sobretudo, re- gojizar-se de que nossa época se ponha a ler Rabelais para valer. Ele insiste, portanto, não sobre a promoção do escrito, mas sobre a leitu- ra, sobre ler Rabelais. que significa para a época "ler Rabelais"? É um monumento já visitado Michelet dele fez um grande homem da Renascença. Foi, porém, nossa época que focalizou a leitura do riso de Rabelais. Foram os trabalhos do formalista russo Mikhail Bakhtin que atraíram a atenção dos críticos sobre o riso de Rabelais. No fundo, Rabelais torna-se conhecido como homem de tiradas espirituosas a partir desses trabalhos produzidos na Rússia no final da década de 1920 e difundidos a seguir na crítica europeia. Temos, de um lado, essa escola russa, que faz de Rabelais o riso do povo da Renascença, respondendo à derrocada dos semblantes escolásticos, e, de outro, outras leituras, especialmente a dos ingleses, com Michael Screetch que, em vez de considerar o riso de Rabelais um riso popular, mostra que ele é o riso dos humanistas e que as brincadeiras as mais ásperas de Rabelais são derivadas, em geral, de um escrito de Erasmo, com referências bem precisas. Furo Furo S Letra F(x) (a) +1 Bakhtin Metáfora A barra Screetch Metonímia Deixemos esses combates para simplesmente destacar que nossa época põe em primeiro plano o efeito de alívio produzido pelos escri- tos de Rabelais, o que é muito importante. Os primeiros escritos de Kant foram acolhidos por torrentes de lágrimas; eram tão belos como 66efeito moral que fizeram chorar gerações de estudantes. Rabelais era, e é ainda, o riso, e isso é belo em suas obras: quando aparece, provoca paixões, tal como os Escritos de Lacan em 1966 - faz, ao mesmo tempo, rir e chorar. É necessário destacá-lo ainda mais porque foi de Rabelais que Lacan tomou emprestada a escrita do sinthoma, da qual terminou por fazer sua bandeira. Anunciar dessa forma que a letra, na literatura, deve ser apreendida a partir do efeito que nos faz e não por sua significação é propício para esclarecer o lugar que ocuparão os dois apólogos desenvolvidos por Lacan: "A carta roubada" e o aquele que intitularei "Voo sobre a letra". Lembro que "Voo sobre a letra", o sobrevoo da letra, foi escrito no solo. Evidentemente, "A carta roubada" tem algo a ver com o fato de que seja com base em uma história de roubo/voo [vol] que se constrói segundo apólogo. que a letra não é Trata-se de considerar, para começar, o que a letra não é. Lacan põe os pingos nos is: ela não é uma impressão. É o contrário do que diz Freud em bloco mágico", texto em que, com base na inscrição ou na instância da letra no inconsciente, a letra é abordada como uma impressão sobre esses pequenos engenhos, essas lousas ditas mágicas e que as crianças de hoje não conhecem mais. As crianças têm, agora, as telas de computador. Antes, tinham duas folhas sobre as quais se faziam marcas e a coisa se imprimia até que, levantando-se a folha, nada mais havia; hoje, desliga-se simplesmente o computador... Para Lacan, essa metáfora sobre a escrita é imprópria; não lhe parece que a escrita seja impressão. Ele ataca o que havia afirmado Derrida em sua conferência de 1966, voltada para o traço primeiro, fundamental, impressão primeira, fora do sentido e o sentido tentaria a seguir atin- gir, sem conseguir jamais reabsorver o fora de sentido primordial que constitui um traçado. Portanto, não é uma impressão e, em segundo lugar, não é um ins- trumento. Com efeito, sobre a letra, Lacan diz: 67Que ela seja instrumento apropriado à escrita do discurso possa escrever na discurso a graças à letra], não a torna imprópria [que designar, frase, palavra tomada por outra [ou seja, para para escrever discurso, é sempre possível escrever uma palavra que nar a metáfora, porque, uma vez que com a escrita possibilita-nos desig- vem no lugar de outra, e isso é a metáfora], Esquema 5a ou até por outra [e essa é a metonímia, $ S-S Esquema 5b cujo exemplo, na 'Instância da é o modo como a palavra testa (tête) é encontrada em ou seja, 'uma palavra tomada por outra'], para simbolizar, por conseguinte, alguns efeitos do sig- nificante, mas sem exigir que, nestes efeitos, a letra seja $ TEmpeSTAde S-S Esquema 5c É nesse contexto que o próprio Lacan questiona o lugar "primário" da barra e luta contra a tese de uma impressão primeira, ou da carac- terística de instrumento primeiro relativa à letra. Questiona, assim, o lugar primário da barra na partilha entre metáfora e metonímia. Afirma que, de fato, ela pode até ter essa função, mas que isso não é bastante. Como frequentemente ocorre, ele critica a si próprio. Se não é um instrumento, se não é traço, nem impressão, que consequência extrair disso? Parece-me que Lacan destitui como um saber não pertinente o conjunto do que foi considerado como gênese da escrita, ou como história da escrita no Ocidente. Em um parágrafo admirável, ele afirma: "A questão é saber se aquilo que os manuais parecem expor 68ou seja, que a literatura é uma acomodação de restos implica co- locar no escrito o que primeiro seria canto, mito falado ou procissão Com efeito, escreve-se em toda parte, pelo menos nos manuais sérios de história da escrita, que, em um dado momento, os gregos julgaram oportuno reunir os hinos aos deuses, os cantos, os mitos que eles se contavam e as procissões dramáticas, ou seja, as tragé- dias, para passá-las para o escrito. De fato, ainda temos o registro escrito da ordem dada um dia por Péricles para que se estabelecesse a melhor versão possível dos textos de Homero, versão que foi a glória de Atenas até que, por fim, o soberano helenístico, um dos Ptolomeus, pusesse a mão nela para depositá-la na biblioteca de Alexandria. Exis- tem, portanto, essas "colocações", como diz Lacan, "no escrito", do que seria, inicialmente, "canto, mito falado, procissão Eis o que seria a escrita: um meio de tornar isso possível, transformando todos esses textos em instrumento útil. Ora, o que todos esses manuais evitam, na certa, é o efeito de gozo assim produzido. que foi, para Péricles, recolher os textos de Homero? O que isso inscreveu senão sua nostalgia de não ser um herói de Homero? Teria este primeiro tirano sofrido um pequeno efeito de apassivação? Ou, então, não seria ele, talvez, já o segundo, nostálgico, portanto, do tempo em que havia verdadeiros homens? É isso que nos reconduz à "A carta roubada", na qual há uma carta, uma carta de amor endereçada à rainha por seu amante e que sofre um desvio, com o paradoxo de que aqueles que a detêm se põem, digamos, a se preocupar com sua aparência. ministro sem escrúpu- los, homem sem meios termos, um tipo capaz de tudo, de todas as traições, do gênero de Alcibíades, para fazer o que lhe parece opor- tuno, apodera-se da carta e torna-se um dândi do século XIX; torna-se Lorde Byron; preocupa-se com sua gravata, com suas atitudes; fica no seu sofá e posa enquanto a polícia se agita em torno dele, parecendo dizer-lhes: "Faça uso e bom proveito se conseguirem Ele está na posição do dândi zombando dos homens de ação. Dupin, mais esperto, munido de seus óculos verdes, furta a carta do ministro 69e se encontra, ele também, embaraçado, de maneira diferente, também com os mesmos ele homem traços do do século dandismo XIX. à la Edgar Poe, à la mas Lacan, portanto, resume isso assim: "A carta tem um efeito de nização". termo tem um primeiro sentido freudiano, pois para Freud femi- posição feminina consiste em buscar ativamente fins passivos é a a carada feminina". Em um primeiro sentido, é a apassivação dos homens "mas- de ação. Em um segundo sentido, mais profundo, a visada é enigma disso tudo: em meio a todas essas pessoas que se agitam grande e com efeito, são todos homens, o grande enigma é, afinal de contas, que, a posição da rainha. que ela quer em tudo isso, o que quer a mulher? segundo nível permite considerar que nem o sentido ou os tidos do conto, nem os efeitos de significação ou o próprio relato, sen- tudo o que se diz no conto, nada disso dá conta da posição de gozo, do enigma da feminização induzida pela carta. Basta que esse lugar enigmático seja um lugar em reserva. A esse respeito, o lugar do gozo emerge como enigma, furo no sentido e ao mesmo tempo lugar deste gozo (cf. Esquema 2b). Para ler "A carta roubada" é preciso, então, contra todos os partidários da significação, distinguir a parte de gozo (a) e o efeito de sentido ou de significação introduzido pelo percurso do significante (cf. Esquema 3b). Lacan se opõe, portanto, à posição filosófica que simplesmente se organiza na perspectiva da oposição do sentido e do fora do sentido, e o faz com base no ser. Sentido / fora-de-sentido Esquema 6a ser como aquilo que tem sentido é o estatuto a partir do qual o filósofo interroga o não-sentido contemporâneo. Dizendo-o nos termos de Heidegger, citado por Derrida, é o "ser riscado com um "x", o ser rasurado como o status do não-sentido moderno no qual se desloca o sujeito entregue ao nada [néant] é o estatuto da subjetivi- dade moderna, o ser e o nada. 70Ser = Sentido / fora-de-sentido Ser Esquema 6b Lacan, ao contrário, mostra que não é sob essa perspectiva que é preciso distribuir a questão do sentido e do fora do sentido, mas, sim, sob a da oposição entre o efeito de significação e o lugar do gozo (cf. Esquema 2). A escrita permite denotar esse lugar do gozo; o que ela inscreve é, portanto, o que fez Péricles ao recolher os hinos, o que fez Edgar Poe nomeando o gozo de sua época (o lugar do dândi reflete o gosto de sua época). Em outras palavras, com relação a este último, certa forma de homem de ação (a ação da época era por excelência a do empresário) se verá inspirada por esse recolhimento com relação ao mundo que opera o dândi. Temos, portanto, a cada vez, inscrição e traço de alguma coisa que é primária e que ultrapassa todas as significações em jogo, e cada vez é esse recolhimento, esse acolhimento do gozo na letra, na escrita, que vem se inscrever. Quadro 2 (recapitulação) Furo (S) Furo Letra F(x) (a) +1 $ Metáfora TEmpeSTAde S-S A barra Metonímia Ser = Sentido / fora-de-sentido Mas quais são, então, as relações (e é precisamente isso que Lacan interroga neste texto) entre o efeito de significação e o gozo? Ele não pode mais se contentar com o que tinha apresentado com a me- tonímia, em que o efeito de sentido, a fuga do sentido metonímico equivalia ao objeto metonímico. Aqui, devemos recorrer ao que apre- sentou Jacques-Alain Miller em seu curso "Os signos do 71Miller abordava, naquele "Joyce-o-sinthoma" momento, os textos de Lacan na década torno de uma problemática que articulava o real e o 1970 ("O e O Seminário 22: em de Real/Sentido Esquema 7a Trata-se, portanto, de uma problemática instalada explicitamente ensino de Jacques-Alain Miller desde 1987, e que ele desenvolveu no longo de todo aquele ano para nos fazer perceber as consequências extraí- ao das desta abordagem quanto ao que se refere de perto à nossa Três reais Em 1987, portanto, no mês de junho, quando Jacques-Alain Miller concluía seu Curso, ele se referia ao tema da função e notava que é preciso distinguir, nas abordagens do real, o real da ciência, o real no sintoma e o real na operação analítica. Propunha inscrever, após toda uma série de simplificações, no lugar do furo, no furo que toda função supõe, as categorias real, simbólico e imaginário. real que a ciência conhece é matematizável, apresenta-se sob a forma simbólica: f(R) S Esquema 7b No sintoma, o simbólico torna-se real no sentido da psicanálise: Esquema 7c A ideia de Lacan é a de que seria formidável postular para a psicanálise que determinada função do significado, e não do significante, nos for- nece um real. Em outras palavras, operando sobre os efeitos de sentido, poderíamos ter uma função em que o efeito de sentido toca no real. 72= Esquema 7d No leque da problemática da década de 1970, eminentemente nessa perspectiva, tentando fisgar os laços do sentido e do real, situa- se "Lituraterra". Quadro 3 (recapitulativo) Real / Sentido f(R) = S = Como dar conta de que, com o efeito de sentido, algo real seja apresentado? É preciso, portanto, distinguir o registro da alienação (pela qual um sujeito se inscreve no Outro, onde os efeitos de sentido se produzem pela identificação primordial) e a separação (pela qual se inscreve o lugar do gozo, marcando o lugar do objeto perdido por meio dos efeitos de sentido por exemplo, a nostalgia de Péricles circulando entre as linhas do poema de Homero). $ S S₂ Esquema 8a $ a Esquema 8b 73Com base na aparelhagem desses esquemas, estabelecidos vamos nos aproximar do segundo apólogo. Jacques-Alain Miller quando transcreveu para nós o Seminário por 11, "Acabo de chegar de uma viagem ao Japão...", diz A história é a de um sobre um deserto, a Sibéria, rota que ele diz desbravar pela primeira vez isso é uma provocação com relação às rotas im- precisas de Derrida. Ele passa, portanto, pela primeira vez, por uma rota polar que tinha acabado de ser aberta, os russos tinham aceitado que houvesse um percurso aéreo por ali para voltar de Tóquio ao Oci- dente, o que permitiria ganhar quarto ou cinco horas de Mas era uma rota desértica, pois os soviéticos queriam se assegurar de que nenhum avião espião fotografasse suas instalações. Aliás, isso tinha até alguma razão de ser assim, pois descobrimos mais tarde que todos os aviões comerciais, na época, eram munidos de pequenos aparelhos de espionagem. Eis, então, uma rota impossível por um completo deserto, a planície da Sibéria. Mais deserto, impossível, e, além disso, trata-se de uma planície totalmente plana: montanha alguma, mas, sim, água, cursos d'água. Então, no final das contas, a gente concorda: vê-se a montagem entre "A carta roubada [volée]", o [vol] e, a seguir, na montagem, é formidável, Lacan vê os cursos d'água como uma espécie de traço no qual se abole o imaginário e ele diz isso como um Mallarmé: Assim se me apareceu, invencivelmente e essa circunstância não é de se jogar fora -, por entre as nuvens, o escoamento das águas, único traço a aparecer, por operar ali ainda mais do que indicando o relevo nessa latitude, naquilo que da Sibéria é planície, planície desolada de qualquer vegetação, a não ser por reflexos, que em- purram para a sombra aquilo que não reluz¹². Com efeito, isso é Mallarmé, é escrito, é um francês sobre o qual é preciso realmente quebrar a cabeça para compreender a construção exata: onde estão as conjunções relativas? O sujeito está em aposto? Onde? Como? É uma língua que trabalha. 74Vê-se, portanto, esta abolição do imaginário: os reflexos "em- purram para a sombra aquilo que não Não é o signo como aquilo que indica, mas um traçado que sequer vem sublinhar um as- pecto preexistente do mundo. Não é nem mesmo a oposição entre o rio e a montanha, não há engano aí nada de riscar, passagem [frayage] alguma puro traço que opera. Lacan nos diz que está voltando do Japão, mas, como ele mesmo diz, está voltando de certa relação com a escrita. E ele está voltando também, bastante, da China. Naqueles anos, refletiu bem profunda- mente sobre o chinês. Sabemos por meio de François Cheng e de sua entrevista publicada na revista L'Âne: magazine freudien n. 48 que, entre 1969 e 1973, ele teve com Lacan conversas bem intensas, uma vez por semana, sobre os clássicos chineses, particularmente sobre três deles: LaoTsé, Mencius e Shih-t'ao, pois Cheng havia reeditado tratado sobre a pintura deste último como anexo de seu próprio ensaio sobre a pintura chinesa vazio e pleno, publicado pela Seuil em 1977. Em chinês, a associação entre os caracteres "montanha" e "água" significa paisagem em geral. Claramente, não é sem referência à pintura chinesa a leitura de Lacan da Sibéria como a de uma caligra- fia, como um puro traço que opera sem indicar, sem significar o que há ali: nada de humano, nem um produto humano no horizonte, ou seja, nem uma lixeira (o humano é, aqui, por excelência a lixeira, os dejetos, o que a China industrial produzirá como dejetos radioativos e que não deixam de ser uma marca). Isso evoca o início de Fim de partida, de Beckett: "nenhum traço de vida veloz, ponha um pouco de pó". É a pura operação da letra efetuando-se. "E ali", diz ele, instala- se "a dimensão, a diz-mansão do nãomaiskium [papeludun], aquela pela qual se evoca o que instauro do sujeito no Hum-de-plus [Hun-de- peluce], para que ele preencha a angústia da Um de plus [Une en plus], o Um a mais com o qual se mobilia a angústia da Acoisa é o objeto a, e sob que outra forma senão a do urso de pelúcia [peluce]? (a) Esquema 9a 75É o urso de pelúcia como reservatório da libido fundamental que se acrescenta ao Outro, que cada um acrescenta ao Outro quando Outro se foi, deixando-nos a sós, entregues à nossa própria angústia, à nossa desolada angústia da Acoisa -, para se agarrar a isso como um infeliz agarra a seu carretel, a seu urso de pelúcia. Depois, quando crescemos, agarramo-nos a outros objetos que tentam substituir isso sem, evidentemente, conseguir. Aproximamo-nos, portanto, como podemos, daquilo que nos per- mite resistir e ali onde havia o furo, onde apareceu o furo de Acoisa, o vazio opa! -, colocamos o Um de pelúcia [Un en peluce], do qual é muito importante não haver mais do que um. Furo a Esquema 9b Sabemos que, se há uma mãe que passa seu tempo tirando da gente nosso urso de pelúcia para lavá-lo, para que ele esteja limpo, porque "meu queridinho babou nele", isso não dá certo. Na década de 1970, esse culto ao urso de pelúcia acabou produzindo coisas fedorentas, horríveis: não se devia lavá-lo por isso e aquilo; não se devia, tam- pouco, cair no excesso... mas, enfim, como acontece com frequência, os bons cuidados maternos são uma questão de tato; deve-se lidar com isso sem extremos, sem ser dogmático, nem fanático demais com alguma coisa... Afinal, nos conselhos às mães, quando elas se tornam fanáticas por uma solução, o doutor Spock disse que não era preciso de modo algum dar um tapa no menino; isso não é algo que acaba bem e que, de todo modo, quando se trata da bofetada em questão, o dogmatismo da não violência também pode acabar em muita de- vastação, porque a coisa vira no sentido contrário não há, portanto, método, exceto o suficientemente ruim... 76Litoral Tudo isso, enfim, para dizer como se instaura o sujeito. Quando ele não pode mais ser representado, quando não é mais representado no Outro, quando o Outro não é mais o lugar em que ele se aliena, onde ele se inscreve, mas se torna o deserto de Acoisa, então o sujeito que se encontra nessa situação agarra-se àquilo que é seu ponto de amar- ração, ao objeto a, e a letra, então, diz Lacan, torna-se litoral: "Entre saber e gozo há litoral que só vira literal quando, essa virada, vocês podem tomá-la, a mesma, a todo que é, portanto, o litoral? Ele parece enigmático a ponto de alguns terem feito dele o título de uma revista, um pouco como se fosse Ornicar? com ponto de exclamação, como se fosse um enigma. Mas "litoral" designa exatamente o seguinte: a borda que separa a letra (a) do saber, tomando, para simplificar, o par como $ a S₁ S₂ Esquema 9c Litoral é o saber representado e, com efeito, a letra que vem se inscrever neste lugar é distinta dele em sua função de outra borda. a S₂ Esquema 10a Não há dois significantes; há duas coisas que são duas espécies distintas. efeito de sentido (notado S₂) e o lugar de gozo fazem com 77que entre os dois não haja uma É fronteira, mas uma linha que é erogênea em todos os pontos. isto: essa linha, que Lacan, no het- nário 20 (Mais, ainda) abordará pela compacidade. Recriminaram- Semi- no por importar para a psicanálise esse conceito matemático, mas enfatizaria, porém, que essa é uma maneira extremamente precisa eu fazer aparecer uma separação que não seja fronteira e, sobretudo, que de não seja fronteira entre um interior e um exterior. É nesse ponto que aparece, no texto, a crítica de uma perspectiva induzida pela biologia, onde se separariam facilmente interior do exterior, o sujeito e o objeto. Assim, como nas operações de alienação e separação, se a gente toma essas fórmulas das quais Jacques-Alain Miller estabeleceu os esquemas, vê-se que, no fundo, a fronteira, 0 litoral, passa no interior da realidade psíquica, não é uma fronteira entre o interior e o exterior; ela está no sujeito. a S₂ Esquema 10b Este é interesse do apólogo que Lacan acrescenta àquele que temos carta Neste último, ele fazia aparecer lugar da consciência, mais ainda por demais no exterior. Aqui, ele faz valer que a partilha entre o saber inconsciente e o gozo se faz do lado do sujeito e, como notava Jacques-Alain Miller em seu seminário sobre "As vias da formação do em 1997, em Barcelona, Lacan dá um salto radical ao recusar a oposição freudiana entre o princípio do prazer e o princípio da realidade considerando-os como distribuídos em torno de uma topologia do interior e do exterior. 78S a 2 Esquema 10c traço de pincel unário Lacan só aceita tal oposição na medida em que ela se desenrola no interior do sujeito, tal como neste apólogo do traço que opera no deserto, sem indicar que ele, Lacan, vê secretamente aí o traço do calígrafo. Aqui, a referência é menos o Japão e mais Shih-t'ao e ao que ele tinha lido daquilo que é a grande lição do capítulo 5 de Shih- t'ao, traduzido por François Cheng em seu livro vazio e pleno¹⁵. Shih-t'ao, que escreveu no século XVII, tinha a teoria particular- mente original segundo a qual o procedimento do pintor, do calígrafo, se dá por meio do que chamou de traço de pincel unário. Trata-se de uma palavra chinesa traduzida como "único" por François Cheng em seu livro, mas que traduziríamos melhor por "unário". Foi o que fez Lacan em seu Seminário 14 (A lógica da fantasia), referindo-se a este achado de Shih-t'ao. Cheng diz o seguinte: A fusão indistinta do Yin-Yun é o caos, não é o Yin e o Yang constitui o Caos original. E se não é por meio do traço de pincel unário, como poderíamos apagar o caos original? [...]. Realizar a união da Tinta e do Pincel é resolver a distinção do Yin e do Yun e empreender o destrinchamento do Caos [...]. No meio do oceano da Tinta, estabelecer firmemente o espírito; na ponta do Pincel, que a vida se afirme e surja; sobre a da pintura, operar a meta- morfose; que no coração do Caos, instale-se e brote a luz! [...]. A partir do Um, o Múltiplo se divide; a partir do Múltiplo, o Um se conquista, a metamorfose do Um produz o Yin e o Yun - é assim que todas as virtualidades do mundo se veem realizadas...¹⁶. 79É, como muito bem observa Cheng, uma concepção onde não há nenhuma oposição entre o sujeito um e o mundo que ele representa. A criação, para o pintor chinês, não se opõe a ele, ele a persegue e se acrescenta a ela. Longe de ser uma descrição do espetáculo da cria- ção, a pintura é um acréscimo, um retoque que permite destrinchar, abrir o caminho, acréscimo não a um mundo concebido como exte- rior, mas a um mundo concebido como objeto. É esta abordagem da pintura chinesa, dominante durante mil e duzentos anos, que é muito específica. Esta pintura de calígrafo, onde não se trata, como na pintura do Renascimento, de descrever mundo, de ordenar o caos interno, mas de ordenar por meio de um traço de pincel, de atuar traçando. É nisso que o gesto do pintor, gesto de Shih-t'ao se encontra com o da criança que lança o carretel para fazer fort-da, para modelar a angústia de Acoisa. Não é apenas a oposição fonemática o-a, fort-da, mas o próprio gesto que conta, uma vez que é portador da inscrição desse traço. Com base nessa distinção em que o real não é oposição, não é ex- terior, deduz-se um litoral, todo interior, entre o sentido, o efeito de sentido e o lugar do gozo. $ S₁ S₂ a S₂ $ S₁ S₂ Furo a (a) 80Tao do psicanalista A última parte do texto de Lacan pode ser concebida, então, após esses dois apólogos (um sobre a letra ocidental e outro sobre a orien- tal), mediante considerações que podemos centrar em torno de uma reflexão sobre as condições "de um discurso que não fosse semblan- te". Em que condições poderia um discurso, propriamente falando, tocar, a partir do significante, o gozo e seu litoral, na perspectiva ins- talada por Jacques-Alain Miller? Lacan aborda vários discursos. Considera, de um lado, a ciência e, de outro, uma psicanálise eventualmente possível, a literatura de van- guarda e o sujeito japonês. De maneira aparentemente disparatada, aborda essa questão para articular o que bem poderia ser chamado de o Tao do psicanalista, sua via. Como poderia o analista se situar com relação a esses efeitos de sentido? Podemos nos referir à transcrição que fez François Cheng de seus diálogos com Lacan e àquilo que ele (de um modo bastante preciso, parece-me, a ponto de transmiti-lo em l'Âne n. 48), notava ser, justamente, o que mais Lacan buscava com ele: a via chinesa por onde o sentido, e não Acoisa, mas o que tem um nome e o que não tem acabam por se articular. Há uma belíssima passagem na transcrição feita por François Cheng em que, após ter situado o caminho em Lao-Tsé, ele isola a passagem que tinha capturado Lacan: "A via como o que é sem nome e pode, mesmo assim, nomear-se". Então, eu a apresento porque corresponde exatamente ao resumo que Lacan faz dessa problemática no final da página 10 de "Litura- terra". Trata-se do capítulo 1 do Livro da via e de sua virtude: A via que pode ser enunciada Não é a via para sempre nome que pode ser nomeado Não é o nome para sempre Sem nome: Céu-e-Terra dele procede nome: 81sequência, É a via/voz¹⁷, efeito no de nomeação que ela é, que antes convoca de mais algo, nada, mas nomeação e, na nisso certo que uso. é diferente chinês do não grego: é não se trata mais de fazer o vir quê? a Pois é de uma língua indo-europeia, não ser, mas o verbo ser: no lugar da cópula, há esta invenção própria do conhece É a uma palavra das Tao significa, ao mesmo tempo, fazer e dizer, chinês mais extraordinárias histórias do pensamento na China: pensamento chinês conseguiu acolher o ser transmitido pelo budismo 0 sob o modo do vazio, porque ele falava sânscrito, uma língua europeia, portanto, implicando o ser e o não ser, mas, ainda assim, indo- chineses levaram oitocentos anos para reunir o Tao e o vazio Levou muito tempo e causou muitos atritos em diferentes escolas chinesas ajustar duas noções que nada tinham a ver entre si para delas fazer uma criação de discurso que, esta, sim, será transmitida para Japão com o budismo e que se chama zen. A seita Chan aperfeiçoou, precisamente, uma versão um pouco sofisticada dessa combinação entre o vazio hindu e o Tao chinês. Temos, assim, a Via/voz no que ela é anterior à nomeação, e Cheng conta que, ao ler esse texto, Lacan disse: "Maravilhoso!" ele inter- rompeu Cheng e lhe fez o pequeno esquema abaixo: fazer Sem nome não tendo desejo Tao falar o nome tendo desejo Esquema 11 Lacan disse a Cheng: "Veja, há o Tao, façamos então dois regis- tros, o fazer, o falar, o que é sem nome, e o nome, aquilo que é não tendo desejo e aquilo que é tendo desejo". Lacan lhe faz, portanto, esse pequeno esquema, mas diz logo em seguida: "Trata-se agora de saber como fazer para segurar as duas pontas, para fazer o que Lao Tsé propõe para viver com este dilema". Que uso fazer disso? Eis a questão que coloca Lacan. Como fazer de essas coisas se manterem reunidas? Quando lemos a entrevista que Cheng na perspectiva traçada por Jacques-Alain Miller, uma vez 82isolamos o real, o simbólico e o imaginário, o real, o sentido e o fora do sentido, muito bem, eles são dimensões, mas como viver com eles, como viver com esse dilema? E o que interessava a Lacan ao falar com Cheng era a solução proposta e, no testemunho de Cheng, lemos seguinte: "Sem refletir muito, lhe respondi 'pelo Uma vez pronunciado termo Vazio-mediano, não fizemos mais nada a não ser elucidar a realidade dessa noção que é a mais fundamental de todas". Após ter vasculhado as fontes, verificado as interpretações, eles puderam estabelecer, portanto, que o três, em Lao-Tsé, nada mais era que Vazio-mediano. Ora, se seguimos Cheng, que é aqui especialista, o três não tinha retido muito a atenção dos especialistas do pensamento chinês, que paravam no dois, na oposição do Yin e do Yang, essa interpretação será, dali por diante, adotada por todos os sinólogos, assim como pelos próprios sábios chineses¹⁸. Lacan e Cheng se dedi- caram a observar os múltiplos usos do Vazio-mediano no campo con- creto do interior de uma pessoa é bem precioso, o Vazio-mediano no interior de uma pessoa em um casal, entre duas tribos (referindo-se a Lévi-Strauss), entre ator e espectador e espectador no teatro, etc. Eis então, concretamente, onde se situa o vazio. Como articular vazio é o que interessava a Lacan. uso correto do vazio, desse Vazio-mediano que é uma espécie de versão do litoral, ou seja, o que separa duas coisas que não têm, entre elas, nenhum meio de se man- terem unidas, tampouco meio para passar de uma a outra. Prosseguindo com Cheng essa investigação sobre o Vazio-medi- ano, Lacan julga que, em suma, a poesia chinesa, o modo chinês da razão é inteiramente invadido pela metáfora, que tudo é metaforiza- do. Diz a Cheng espantar-se que, no pensamento chinês, a metáfora e a metonímia não se opõem verdadeiramente. "Em suma", diz Lacan, "quanto mais metáfora houver, mais rica é a metonímia; dito de outro modo, metáfora e metonímia se originam uma da outra, elas se en- gendram mutuamente o homem é a metáfora por Ele nos remete à sua definição clássica, proveniente de "Booz adorme- cido": "seu feixe não era nem avaro, nem odiento" "uma vez que o 83homem é a metáfora por excelência, sua relação com mundo dizia Lacan a Cheng¹⁹. metáfora) só poderia ser, suponho, a de uma metonímia (outra Feixe Outro homem Esquema 12 Prossegue, então, Lacan: Shih-t'ao não falou de Circulação Universal? Isso explica, talvez, porque os chineses privilegiaram a noção de sujeito/sujeito em de- trimento daquela de sujeito/objeto, porque, por mais metaforizado que seja o sujeito, o que importa aos olhos deles, é o que se passa entre os sujeitos, mais do que o sujeito em si mesmo, como enti- dade separada ou isolada. Nisso [conclui Lacan] intervém ainda, sem dúvida, o Vazio-mediano. Esse é o resumo de uma longa troca que situa bem a problemática em questão, pois diz que não é com a ajuda da oposição entre metá- fora e metonímia, nem com a ajuda do velho sistema da barra que podemos melhor situar o lugar metaforizado do sujeito, mas, sim, na relação, no interior de si mesmo, na relação sujeito/sujeito que é, ao mesmo tempo, a relação com outro sujeito, ou a relação consigo mesmo enquanto se endereçando ao Outro. Compreendemos, então, nessa perspectiva, por que no final de "Lituraterra" Lacan aborda o modo de endereçamento do sujeito japonês. Considerando-se a maneira como o sujeito japonês chega a dizer "tu", como ele pode apoiar-se no "tu", como ele pode separar o que lhe cabe, ou seja, seu lugar de sujeito, do Outro, uma vez que ele é depositário de seu gozo, ele é o parceiro, o "tu" ao qual o sujeito se endereça? 84fazer - Sem nome não tendo desejo $ s₁ Tao o falar nome tendo desejo Feixe Outro a S₂ homem S₂ a X É preciso, aliás, ler não o farei aqui em detalhe em "o en- dereçamento do sujeito japonês" o que concerne ao modo japonês da língua, à maneira como essa língua fixa um modo de litoral sepa- rando gozo e articulação significante. É preciso, ainda, considerar o discurso da ciência Lacan diminui o tom desse discurso uma vez que ele viria reabsorver inteiramente um real sem sintoma, um real matematizável. Uma ecologia lacaniana Temos aí a indicação de uma ecologia lacaniana que não encon- trou ainda todo seu desenvolvimento e que se engendra a partir desta frase, escrita em 1971: "A ciência física vê-se, ver-se-á levada à con- sideração do sintoma na realidade, pela poluição daquilo que do... meio ambiente²⁰. Não devemos nos esquecer de que, à medida que 0 discurso da ciência (que parece ser sem resto, sem nenhum litoral entre a articulação significante e o gozo) avança, o que vamos encon- trar, diz Lacan, é a poluição, o enorme monte de dejetos fabricados pela ciência e que se torna cada vez mais difícil de eliminar da super- ficie do planeta, provocando, de fato, uma interrogação. Passamos ao largo das interrogações sobre os laços da ciência e da consciência, para além dos estados de espírito dos inventores da bomba atômica em suas distintas versões. 85Os cientistas de hoje não se manifestam mais como grandes cons- ciências aliás, não lhes pedimos mais isso, ninguém mais acredita nisso. Os tormentos que ocupavam o pós-guerra, quando as grandes consciências científicas conseguiam fazer efeito de sentido, os estados de espírito de Oppenheimer, Einstein ou Sakharov contaram muito, mas, hoje, todos sabem muito bem que, para cada biólogo tomado de escrúpulos capazes de interromper essa ou aquela experiência por entrever consequências terríveis, haverá sempre dez ou cem para continuá-la sem qualquer problema, é um competidor a menos, todo mundo fica radiante, e é assim mesmo. Temos, aí, outro assunto, mas, em compensação, o que conta são, com efeito, os problemas de res- ponsabilidade, de poluição que estão no âmago de nossa relação com a ciência, assim como a história do sangue contaminado, tendo em vista que se trata muito precisamente de uma relação com o sintoma. Uma vez que hoje temos de conhecê-los, não podemos mais dizer que o discurso da ciência não produz certo número de restos. A literatura de vanguarda Lacan considera ainda esta outra figura: a literatura de vanguarda. Então, é preciso ver que, abordando o laço social com base na lite- ratura de vanguarda, dessas comunidades que foram o surrealismo, o Colégio de Filosofia, Acéphale e, a seguir, Les temps modernes, Tel quel, etc. comunidades fundadas justamente sobre certa relação com o fora do sentido, com o afeto de pânico, com o gozo e não com o útil -, Lacan evocava à época uma problemática bastante atual para espíritos que estavam bem vivos naqueles anos. Na década de 1970, Philippe Sollers ainda podia escrever seu Paraíso de uma única frase sem pontuação; havia, aqui e ali, uma literatura que procurava constituir uma comunidade dos leitores no fora do sentido e que se transmitia segundo determinados canais é isso que Lacan questiona, pedindo a essa literatura a razão quanto àquilo que a caracteriza: "Seria possível, do litoral, constituir tal dis- curso que se caracterizasse por não emitir semblante?" Para Lacan, 86não é por ser literatura de vanguarda, feita de litoral, que ela poderia pretender provar outra coisa a não ser a fratura da qual ela própria é um efeito. E, quanto à fratura, essa literatura não pode produzi-la; somente um discurso pode fazê-lo. discurso psicanalítico Passemos, agora, à quarta figura ordenada pelas relações do sem- blante e do sentido. Ela surge do discurso psicanalítico no qual a escrita é tomada nos efeitos de leitura permitidos por ela quanto a um signifi- cante. É o que ilustra o exemplo de Michel Leiris e de sua jaculação "lizmente" [reusement]. Ela é que vem marcar sua primeira lembrança encobridora de sua vida e que marca sua relação com a felicidade ou, mais exatamente, sua relação com a infelicidade, assim como sua rela- ção com a mulher que o corrige. Ele escolhe o soldadinho adorado, um soldadinho vai cair, ele o agarra e diz "lizmente", e sua mãe lhe diz: "Não, a gente não diz 'lizmente', mas Há, então, essa lembrança que ele insere na abertura dos seus escritos, na abertura de seu livro e, a partir daí, sabemos que ele viveu na infelicidade, e ponto. Ele fez uma análise após uma tentativa de suicídio extremamente severa durante uma noite com Bataille. Eles tinham ido um pouco longe demais quanto à dor de viver etc. Além disso, ele construiu uma literatura de extremo purismo, ou seja, ele jamais permitiu a alguém lhe dizer: "Não, não se diz 'lizmente', a gente diz Ele nunca mais permitiu isso. Era ele que distribuía as deformações, que podia inventar os códigos, deformar os usos, e isso é maravilhoso: "Não se faz assim? Qual o quê! Vemos que a gente faz é assim mesmo!" Lizmente Esquema 13a A gente vê assim, portanto, o que Leiris alojou de gozo em segre- do. Vê, também, que a escrita não é primeira; o que vem primeiro é a jaculação significante de quem diz "lizmente" e deixa de lado um 87pouco o "fe" e, depois, aliás, ele sempre estará um pouco grudado ao "fe" em geral. Lizmente Feliz Felizmente Fe Esquema 13b Mas, sem dúvida, de maneira motivada, ele solta um significante. Em seguida, a letra permite, com efeito, ler que houve "feliz", "felizmente". etc., e que houve uma parte, o "fe", que caiu. Mas o que isso inscreve a partir do momento em que se lê o significante que surgiu é a parte de gozo perdido, a felicidade para sempre perdida (cf. Esquema 10b), de onde se deduz a posição subjetiva ligada a essa companhia da infelicidade haverá sempre, por meio de todas as significações, de todos os efeitos de sentido, uma relação fundamental com a infelicidade do ser que acompanhará sujeito. Não está ligado ao efeito de significação. Se as coisas, no mesmo contexto, tivessem sido diferentes, se ele tivesse tido uma mãe mais alegre e, sem dúvida um pouco mais divertida (ela fazia o que podia), uma mãe que não fosse depressiva e que, em vez de lhe dizer, enfim, em vez de lhe "encher saco" com este purismo, lhe tivesse feito uma carícia, pronto, as coisas teriam retomado seu caminho, eles teriam dado risadas e, depois, quando ele dissesse "tudo é possível", ela diria "essa é boa, vou contar a seu pai quando ele chegar, vou lhe dizer: 'Sabia que ele fez uma coisa formidável? Disse lizmente", e isso com todo mundo dando gargalhadas. Certamente, se tivesse sido assim, não teria o mesmo efeito, não deixaria o mesmo traçado da infelicidade, não é? Portanto, não é a significação, pois isso pode ser lido de várias maneiras e sobretudo o litoral pode se inscrever entre o efeito de sentido e o lugar, o efeito, o afeto de gozo pode se inscrever de muitas maneiras. Então, Lacan dirá que, no discurso analítico, é a letra que opera, uma vez que ela dissolve aquilo que dá forma. E o que dá forma é o significante, é o semblante, é o "lizmente" que, a seguir, a letra permitirá ler, articular e produzir um efeito, transformando o que "choveu do semblante", uma vez que o semblante se faz significante, 88com um jogo de palavras: um vem com a chuva e o outro é 0 que molha no sentido de dar prazer²¹. A leitura Assim, o que choveu no significante é a seguir questionado na lei- tura do inconsciente operada pelo discurso analítico. Lacan encami- nha essa leitura respeitando a fratura que se produziu, e ao mesmo tempo causando ou destacando o efeito de produção, ou seja, aquilo que o discurso analítico inscreve com base no discurso do mestre. a $ S 2 // S₁ Esquema 14 Uma vez que se opera esse tipo de distinção, é possível produzir iden- tificação: você se identificou com essa criança infeliz, você está destinado à infelicidade, já que sua felicidade, seu "lizmente" não foi acolhido por sua mãe, essa é sua identificação e isso se separa de tudo o que é saber inconsciente ligado a esse "lizmente" que fica como uma lembrança. É preciso, ainda, arrancar, fazer o sujeito produzir sua identificação, e isso em nome da infelicidade, do traço, diria, para sempre inscrito, da voz ante- rior a qualquer nomeação, do Tao da infelicidade que foi traçada. E aí isso opera, com a condição de que, em suma, algum vazio se introduza entre a identificação com o significante mestre e a cadeia inconsciente. $ S 2 Lizmente Feliz Felizmente a Fe // S $ a 89Vazio-mediano... atuante [agissant] Concluo com o manejo do Tao do psicanalista e com exemplo que dele fornece François Cheng, m 1977, ao contar um dia passado com Lacan. Cheng havia escrito seu livro sobre a poesia chinesa e Lacan convi- dara para passar uma tarde com ele em Guitrancourt. E Lacan, ao longo de toda essa jornada descrita maravilhosamente por Cheng, o interroga sobre um único problema, dizendo-lhe: "Explique-me, a partir deste poema, a concepção chinesa do tempo". Após ter falado disso dia inteiro, levando-o de volta, à noite, o doutor Lacan lhe disse o seguinte: "Caro Cheng, você teve várias rupturas na vida. Saberá transformá-las em Vazio-mediano atuante, reunindo para você seu presente com seu passado, e estará, enfim, no seu tempo". É uma interpretação que o doutor Lacan se permitiu em nome da amizade. Como é Cheng quem conta, não cometo nenhuma indiscrição dividindo-a com vocês. Com a ajuda do que é uma língua em elaboração, vemos como o Vazio-media- no significava alguma coisa tanto para Lacan quanto para Cheng: eles sabiam do que falavam. Lacan diz a Cheng: "Você viveu rompimentos, conheceu fronteiras, viveu certo número de coisas sem continuidade, o exílio, a reapropriação de outra cultura, etc., mas saberá transformar estas rupturas em Vazio-mediano atuante" atuante significa, neste caso, o que lhe permite circular em sua história. Então, no fundo, o Tao do psicanalista, se seguirmos essas indica- ções de Lacan, é conseguir poder permanecer no lugar onde houve ruptura, onde houve fratura, onde a letra veio inscrever 0 litoral, a borda de todo saber possível; é transformar isso em Vazio-mediano atuante. Transformar isso em uma possibilidade de manter unido o que não se reúne, o real e o sentido, o fazer e o falar, esses regis- tros que são enunciados de maneira distinta por Lacan, mas que se mantêm unidos pelo lugar do psicanalista, uma vez que, neste lugar, agir na rubrica do não-agir, na rubrica do Vazio atuante (outra ma- neira de formular o não-agir do psicanalista) é chegar a se manter neste ponto onde enfim alguém pode circular no que para ele retorna [a fait retour]. 90Tradução: Marcus André Vieira Revisão da tradução: Sérgio Laia REFERÊNCIAS BECKETT, S. Fin de partie. Paris: Les Éditions de Minuit, 1957. CHENG, F. Le vide et le plein: le langage pictural chinois. Paris: Seuil, 1977. CHENG, F. L'écriture poétique chinoise. Paris: Seuil, 1977. CHENG, F. Entretien. Paris, n. 48, 1991. CHENG, F. L'espace du rêve: mille ans de peinture chinoise. Paris: Phébus, 1980. CHENG, F. Shitao (1642-1707): la saveur du monde. Paris: Phébus, 1998. LACAN, J. Écrits. Paris: Seuil, 1966. 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Trata-se de um anagrama destacado por Lacan, em "A instância da letra...", para sustentar que, no modo como Saussure figura o "signo a barra entre significante e significado é, ao contrário do que pretendia esse linguista em Curso de linguística geral, literalmente um obs- táculo entre significante e significado. Lacan sublinha o anagrama barre-arbre para mostrar- nos o quanto um significante não é, quanto ao significado, o outro lado dessa "moeda" con- cebida por Saussure como o signo linguístico: se, tal como encontramos em um anagrama, uma palavra pode conter outra e ambas comportam conceitos bem diferentes, há primazia do significante sobre o significado e não uma inter-relação. Como tal anagrama em francês não se mantém na tradução para o português, foram incluídas, na passagem acima, as palavras "em seus galhos", visando, também, à melhor apreensão quanto ao modo como a "árvore" organiza a partilha entre a poesia chinesa e a poesia ocidental. 7 LACAN, J. Lituraterra. In: Outros escritos, p. 18. 928 NRT: A palavra tête ("cabeça") foi traduzida acima por "testa" para que se mantivesse, em português, a inclusão destacada por Lacan no francês, idioma no qual encontramos, em tempête, o termo tête ou, em português, há "testa" em "TEmpeSTAde". 9 LACAN, J. Lituraterra. In: Outros escritos, p. 18. 10 LACAN, J. Lituraterra. In: Outros escritos, p. 16. 11 N.T.: No original, Éric Laurent cita o título francês deste curso Ce qui fait insigne (O que faz insígnia) -, sustentado por Jacques-Alain Miller em 1986-1987. Inédito em francês e em português, este curso já se encontra publicado em espanhol como Los signos del goce (Buenos Aires: Paidós, 1998). 12 LACAN, J. Lituraterra. In: Outros escritos, p. 21. 13 LACAN, J. Lituraterra. In: Outros escritos, p. 21. 14 LACAN, J. Lituraterra. In: Outros escritos, p. 21-22. 15 CHENG, F. Le vide et le plein: le langage pictural chinois, p. 84-85. 16 CHENG, F. Le vide et le plein: le langage pictural chinois, p. 84-85. 17 N.R.T.: No original, voie/voix, ou seja, dois termos "via" e "voz" cuja homofonia se perde na tradução para o português 18 Cf.: CHENG, F. Entretien. L'Âne, Paris, n. 48, p. 53. 19 Cf.: CHENG, F. Entretien. L'Âne, Paris, n. 48, p. 53. 20 Cf.: CHENG, F. Entretien. L'Âne, Paris, n. 48, p. 23. 21 N.R.T. Nessa frase, Éric Laurent joga com a ressonância entre os termos pluie (chuva), a plu (agradou, deu prazer) e plaire (agradar). Na tradução, essa ressonância se perde, e a solução, então, foi jogar, com as associações possíveis entre "chuva", "o que molha" e "prazer". 9365 ISSN 1981-9986 REVISTA DA ESCOLA BRASILEIRA DE PSICANÁLISE 15 ANOS DA EBP nunca pensado e o delírio Letra & Sinthoma O Passe

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