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CONSTITUIÇÃO, PROCESSO E COMPLIANCE • 1 ESTUDOS NA PERSPETIVA DE UNIFORMIZAÇÃO, COLETIVIZAÇÃO E ENFORCEMENT DO DIREITO ORGANIZADOR Eduardo Lamy CONS TIT U IÇ Ã O , PROCESSO E C O M P L I A NCE • ESTUDOS NA PERSPETIVA DE UNIFORMIZAÇÃO, COLETIVIZAÇÃO E ENFORCEMENT DO DIREITO CONS TIT U IÇ Ã O , PROCESSO E C O M P L I A NCE • ESTUDOS NA PERSPETIVA DE UNIFORMIZAÇÃO, COLETIVIZAÇÃO E ENFORCEMENT DO DIREITO ORGANIZADOR Eduardo Lamy É O SELO JURÍDICO DO GRUPO EDITORIAL LETRAMENTO LETRAMENTO EDITORA E LIVRARIA Caixa Postal 3242 — CEP 30.130-972 r. José Maria Rosemburg, n. 75, b. Ouro Preto CEP 31.340-080 — Belo Horizonte / MG Telefone 31 3327-5771 Copyright © 2023 by Editora Letramento Diretor Editorial Gustavo Abreu Diretor Administrativo Júnior Gaudereto Diretor Financeiro Cláudio Macedo Logística Daniel Abreu e Vinícius Santiago Comunicação e Marketing Carol Pires Assistente Editorial Matteos Moreno e Maria Eduarda Paixão Designer Editorial Gustavo Zeferino e Luís Otávio Ferreira Conselho Editorial Jurídico Alessandra Mara de Freitas Silva Alexandre Morais da Rosa Bruno Miragem Carlos María Cárcova Cássio Augusto de Barros Brant Cristian Kiefer da Silva Cristiane Dupret Edson Nakata Jr Georges Abboud Henderson Fürst Henrique Garbellini Carnio Henrique Júdice Magalhães Leonardo Isaac Yarochewsky Lucas Moraes Martins Luiz F. do Vale de Almeida Guilherme Marcelo Hugo da Rocha Nuno Miguel B. de Sá Viana Rebelo Onofre Alves Batista Júnior Renata de Lima Rodrigues Salah H. Khaled Jr Willis Santiago Guerra Filho Todos os direitos reservados. Não é permitida a reprodução desta obra sem aprovação do Grupo Editorial Letramento. 200 NEGÓCIOS JURÍDICOS PROCESSUAIS E PLANEJAMENTO CONTENCIOSO EM FASE NEGOCIAL Guilherme Christen Möller1 Afonso Vinício Kirschner Fröhlich2* SUMÁRIO: 1. Introdução; 2. Apontamentos iniciais sobre os negócios jurídicos processuais típicos e sobre a cláusula geral de negociação; 3. Os negócios jurídicos processuais no planejamento contratual; 4. Alguns exemplos de negócios jurídicos processuais; 4.1. Prolegômenos; 4.2. Eleição de foro; 4.3. Cláusula escalonada; 4.4. Pactum De Non Petendo; 4.5. Negócios jurídicos processuais em execução; 5. Conclusão; Referências Bibliográficas 1 Dottorando di ricerca in Scienze Giuridiche sulla l’Università degli Studi di Firenze (UniFi). Mestre e Doutorando em Direito Público pelo Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS). Bolsista do Programa de Ex- celência Acadêmica (PROEX) da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ní- vel Superior (CAPES). Bacharel em Direito pela Universidade Regional de Blumenau (FURB). Membro do Instituto Brasileiro de Direito Processual (IBDP) e da Associação Brasileira de Direito Processual (ABDPro). Membro da Escola de Processo da Unisinos (EPU). Coordenador do Instituto von Bülow. Membro do Grupo de Pesquisa “Tradições, transformações e perspectivas avançadas” (TTPA), vinculado à PUC/SP, do Grupo de Pes- quisa “Teoria Crítica do Processo”, vinculado à UNISINOS e do Grupo de Pesquisa sobre Compliance, vinculado à UFSC. Membro da Comissão de Acesso à Justiça e Membro Consultivo da Comissão de Direito Processual Civil da Seccional da Ordem dos Advo- gados do Brasil do estado de Santa Catarina (OAB/SC). Autor, organizador e coordenador de obras e artigos científicos relacionados ao Direito Processual Civil. Advogado, Con- sultor Jurídico e Professor de Direito Processual Civil em cursos de Pós-Graduação em Direito Processual Civil (lato sensu). E-mail: contato@guilhermechristenmoller.com.br. 2 * Mestre em Direito Público pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISI- NOS). Bacharel em Direito pela mesma Universidade. Membro do Instituto Brasilei- ro de Direito Processual (IBDP). Pesquisador dos Grupos de Pesquisa "Teoria Crítica do Processo: perspectivas hodiernas do Processo Civil em relação à Constituição, cultura, democracia, inteligência artificial e Poder", coordenado pelo Prof. Dr. Darci Guimarães Ribeiro; e JUSNANO, coordenado pelo Prof. Dr. Wilson Engelmann, am- bos vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Direito da UNISINOS. Advogado sócio do Escritório de Advocacia Afonso Fröhlich Advogados Associados. E-mail: afonsovinicio@afrohlich.adv.br e afonsovkf@gmail.com. CONSTITUIÇÃO, PROCESSO E COMPLIANCE • 201 1. INTRODUÇÃO O direito processual é considerado ramo do direito público. A afir- mação não causa estranheza, uma vez que o seu objeto – o processo – é concebido como o meio idôneo para dirimir um conflito de interesses jurídicos, em juízo e por um ato de autoridade.3 A jurisdição, por isso, constitui um múnus público, do qual decorre a sua inafastabilidade. É nesse sentido que o processo se desenvolve como uma relação ju- rídica pública, nos termos empregados por Oskar von Bülow. Levando em consideração que “los derechos y obligaciones procesales se dan entre los funcionarios del Estado y los ciudadanos”, que “se trata en el proceso de la función de los oficiales públicos” e que “las partes se las toma en cuenta únicamente en el aspecto de su vinculación y cooperación con la actividad judicial”, o jurista alemão conclui que a relação jurídica pro- cessual corresponde a uma “relación de derecho público, que se desen- vuelve de modo progresivo, entre el tribunal y las partes”.4 O Código de Processo Civil de 2015 está repleto de princípios que evidenciam essa função pública do direito processual. Não só o acesso à justiça5, como o devido processo legal, o contraditório e a fundamen- tação das decisões buscam assegurar que a prestação da jurisdição não se afaste do controle de exercício do poder. Afinal, ao acionar o Estado para a resolução de um conflito, o particular submete-se às regras do jogo, em suas potencialidades e em suas limitações. Por outro lado, a vigente legislação processual civil brasileira esta- beleceu uma nova tensão entre a autoridade do Estado (poderes do juiz) e a autonomia das partes.6 Sintomas da incorporação de um novo paradigma são sentidas em vários dispositivos, que buscam incentivar a autocomposição e conversar com outros meios de resolução de con- flitos. Em outros termos, a entrada em vigor do atual Código de Pro- 3 COUTURE, Eduardo J. Fundamentos del derecho procesal civil. 5. ed. Buenos Aires: La Ley, 2010. p. 8. 4 BÜLOW, Oskar Von. La Teoría de las excepciones y los presupuestos procesales. Tra- dução de Miguel Angel Rosas Lichtschein. Buenos Aires: Ed. Juridicas Europa-A- merica, 1964. p. 2/3. 5 Sobre esse tema, ver o clássico: CAPELLETTI, Mauro; GARTH, Bryant. Acesso à justiça. Porto Alegre: Sérgio Antonio Fabris Editor, 1998. 6 CAPONI, Remo. Autonomia Privada e Processo Civil: os acordos processuais. Re- vista Eletrônica de Direito Processual – REDP, Rio de Janeiro, v. 13. n. 13, 2014. 202 ESTUDOS NA PERSPETIVA DE UNIFORMIZAÇÃO, COLETIVIZAÇÃO E ENFORCEMENT DO DIREITO cesso Civil permitiu uma maior aproximação do processo ao direito privado7, estendendo as margens de negociabilidade. Neste caminhar, o art. 190 do Código de Processo Civil, reforçado pelo art. 200, introduziu uma cláusula geral de negócios processuais. Nessa perspectiva, além das disposições espalhadas pelos Código de Processo Civil que permitem novas definições processuais pelas partes (negócios típicos), passam elas a poder estipular mudanças no pró- prio procedimento para ajustá-lo às especificidades da causa, conven- cionando sobre seus ônus, poderes, faculdades e deveres processuais. Apesar de ainda pouco exploradas, as possibilidades daí advindas pa- recem alastrar-se, algumas sequer ainda imaginadas, outras que neces- sitam de maior aprofundamento. Levando em consideração este novo cenário, o presente artigo busca verificar em que medida os negócios jurídicos processuais podem ser- vir de instrumento para o planejamento contratual. É dizer, procura responder ao seguinte problemade pesquisa: qual a importância de pensar em (eventual) litígio ainda na fase negocial, por meio de negó- cios jurídicos processuais? Para tentar responder a este questionamento, inicia-se por um pano- rama geral dos negócios jurídicos processuais para, então, buscar com- preender sua ligação com o planejamento contratual. Por fim, serão apresentados alguns exemplos de negócios jurídicos processuais que podem ser utilizados como ferramentas para reduzir custos, tempo e desgaste na hipótese de divergências na execução contratual. 2. APONTAMENTOS INICIAIS SOBRE OS NEGÓCIOS JURÍDICOS PROCESSUAIS TÍPICOS E SOBRE A CLÁUSULA GERAL DE NEGOCIAÇÃO Com a entrada em vigor do Código de Processo Civil de 2015, um dos princípios mais exaltados por ter ganhado renovada força é o do 7 Em sentido oposto: Helder Moroni Câmara evidencia que “o fato de as partes po- derem contratar certos aspectos do procedimento não é suficiente, no nosso sentir, para conferir natureza contratual ao processo, nem mesmo para retrocedermos à postura já há muito superada acerca da natureza contratual do processo”. CÂMARA, Helder Moroni. Negócios jurídicos processuais: condições, elementos e limites. São Paulo: Almedina, 2018. p. 28. CONSTITUIÇÃO, PROCESSO E COMPLIANCE • 203 respeito ao autorregramento da vontade8. No âmbito do processo9, esse princípio busca garantir a possibilidade de a parte sozinha, com a outra ou com o Órgão Jurisdicional, disciplinar as suas condutas processuais de modo jurídico.10 Trata-se de possibilidade afeta não só os acordos direcionados à composição da lide (bem da vida), com evi- dentes reflexos processuais, mas aqueles que incidem sobre o desen- volvimento do próprio processo. Prova da força deste princípio é que, desde a entrada em vigor do atual Código de Processo Civil – e mesmo nos debates que o antece- deram – um dos temas de destaque foi (notoriamente) os negócios jurídicos processuais. Seja pela discussão teórica acerca das hipóteses em que cabível a prévia modificação do procedimento seja pela curio- sidade de como esta novidade seria vista pelo judiciário e absorvida na prática, fato é que muito se especulou sobre a temática11. As imponen- 8 DIDIER JR., Fredie. Ensaios sobre os negócios jurídicos processuais. 2. ed. rev., atual. e ampl. Salvador: JusPodivm, 2021. p. 23. 9 De acordo com Antonio do Passo Cabral: “Convención y proceso siempre fue el en- cuentro improbable de dos mundos que, para muchos, serían tan distantes como incompa- tibles. Normalmente retratado como un disenso, una disputa, ya descrita como un juego, una guerra o duelo, el proceso cargará siempre la beligerancia contraria al consenso y al encuentro de voluntades. Por otro lado, los ‘acuerdo’o convenciones’, pautados por el vo- luntarismo y la libertad, respetarían una lógica contractual privada, inconciliable con los espacios publicistas del Derecho Procesal”. CABRAL, Antonio do Passo. Convenciones procesales: desarrollo y evolución. Revista de Derecho Procesal: processo por audiên- cias. Santa Fé: Rubinzal-Culzoni Editores, 2020 (2). p. 536-561. 10 DIDIER JR., Fredie. Ensaios sobre os negócios jurídicos processuais. 2. ed. rev., atual. e ampl. Salvador: JusPodivm, 2021. p. 19/20. “No conteúdo eficacial do direito fundamental à liberdade está o direito ao autorregramento: o direito que todo su- jeito tem de regular juridicamente os seus interesses, de poder definir o que reputa melhor ou mais adequado para a sua existência; o direito de regular a própria exis- tência, de construir o próprio caminho e de fazer escolhas”. 11 José Rogério Cruz e Tucci lembra que a possibilidade de formalização de ne- gócios jurídicos processuais não adveio com o atual Código de Processo Civil, já que existia muito antes no sistema processual brasileiro. O processualista cita os seguintes exemplos: dispensa de audiência, suspensão do processo, distribuição do ônus da prova, critério para a entrega de memoriais, adiamento de julgamento em segundo grau. TUCCI, José Rogério Cruz. Proibição do pactum de non petendo na jurisprudência do STJ. CONJUR. São Paulo: 2 mar. 2021. Disponível em: https:// www.conjur.com.br/2021-mar-02/paradoxo-corte-proibicao-pactum-non-peten- do-jurisprudencia-stj. Acesso em: 29 out. 2022. 204 ESTUDOS NA PERSPETIVA DE UNIFORMIZAÇÃO, COLETIVIZAÇÃO E ENFORCEMENT DO DIREITO tes obras que surgiram sobre o tema12 permitiram um panorama geral (e também um aprofundamento teórico) sobre o instituto. Com essa intenção, vários dispositivos espalhados pelo Código de Processo Civil incentivam a composição acerca do procedimento. São exemplos os arts. 6313 (modificação da competência), 16814 (escolha do conciliador, mediador ou câmara arbitral), 373, §§ 3º e 4º15 (distri- buição do ônus probatório por convenção das partes), e 47116 (permite às partes escolherem o perito), entre outros. Esses dispositivos inse- 12 Exemplificativamente: CABRAL, Antonio de Passo. Convenções Processuais. 2. ed. Salvador: Editora JusPodivm, 2018. NOGUEIRA, Pedro. Negócios Jurídicos Pro- cessuais. 4. ed. rev. atual. e ampl. Salvador: JusPodivm, 2020. DIDIER JR., Fredie. Ensaios sobre os negócios jurídicos processuais. 2. ed. rev., atual. e ampl. Salvador: JusPodivm, 2021. 13 O referido dispositivo possui a seguinte redação: “As partes podem modificar a competência em razão do valor e do território, elegendo foro onde será proposta ação oriunda de direitos e obrigações”. BRASIL. Lei n. 13.105, de 16 de março de 2015. Código de Processo Civil. Brasília, DF: Presidência da República, 2015. Dis- ponível em: http://www.planalto.gov.br/ ccivil_03/ato 2015-2018/2015/lei/l13105. htm. Acesso em: 29 out. 2022. 14 Conforme o texto do artigo: “As partes podem escolher, de comum acordo, o conciliador, o mediador ou a câmara privada de conciliação e de mediação”. BRASIL. Lei n. 13.105, de 16 de março de 2015. Código de Processo Civil. Brasília, DF: Presi- dência da República, 2015. Disponível em: http://www. planalto.gov.br/ccivil_03/ ato 2015-2018/2015/lei/l13105.htm. Acesso em: 29 out. 2022. 15 Conforme suas redações: “§ 3º A distribuição diversa do ônus da prova também pode ocorrer por convenção das partes, salvo quando: I - recair sobre direito indis- ponível da parte; II - tornar excessivamente difícil a uma parte o exercício do direi- to” e “§ 4º A convenção de que trata o § 3º pode ser celebrada antes ou durante o processo”. BRASIL. Lei n. 13.105, de 16 de março de 2015. Código de Processo Civil. Brasília, DF: Presidência da República, 2015. Disponível em: http://www.planalto. gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm. Acesso em: 28 out. 2022. 16 Nos seguintes termos: “As partes podem, de comum acordo, escolher o perito, indicando-o mediante requerimento, desde que: […]”. BRASIL. Lei n. 13.105, de 16 de março de 2015. Código de Processo Civil. Brasília, DF: Presidência da República, 2015. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/ato2015-2018/2015/lei/ l13105.htm. Acesso em: 29 out. 2022. CONSTITUIÇÃO, PROCESSO E COMPLIANCE • 205 ridos textualmente na lei processual civil encarnam os denominados negócios jurídicos processuais típicos. Já a disposição do art. 190, caput, do Código de Processo Civil17, reforçada pelo caput, do art. 20018, estabelece uma cláusula geral de negócios processuais, com uma “genérica afirmação da possibilidade de que as partes, dentro de certos limites estabelecidos pela própria lei, celebrem negócios através dos quais dispõem de suas posições proces- suais”19. Essa definição, apresentada por Alexandre Freitas Câmara, em que pese ser singela, confirma a intenção da referida disposição processual, no sentido de que equilibrar a autonomia privada dos liti- gantes com limitações que dizem respeito à ordem pública. A importância de dispositivos processuais que permitem a negocia- ção sobre as vicissitudes do próprio processo, seja com base naqueles inseridos textualmente no Código de Processo Civil, seja possibilitado pela cláusula geral,é a de possibilitar uma revolução no estudo e na prática do próprio Direito Processual, o que foi recentemente bem re- sumido por Antonio do Passo Cabral: O processo passa a poder ser projetado antes do processo, em um ins- trumento negocial, dando aos litigantes grande previsibilidade acerca do procedimento futuro para regras as controvérsias que surjam de um con- trato, por exemplo, adaptando o processo às necessidades das partes e promovendo um arranjo das relações entre direito material e processo.20 17 É conhecida a redação do art. 190, caput, do Código de Processo Civil: “Versando o processo sobre direitos que admitam autocomposição, é lícito às partes plenamente capazes estipular mudanças no procedimento para ajustá-lo às especificidades da causa e convencionar sobre os seus ônus, poderes, faculdades e deveres processuais, antes ou durante o processo”. BRASIL. Lei n. 13.105, de 16 de março de 2015. Código de Processo Civil. Brasília, DF: Presidência da República, 2015. Disponível em: http://www.planalto. gov.br/ccivil_03/ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm. Acesso em: 29 out. 2022. 18 O art. 200, caput, do Código de Processo Civil, não tão lembrado quando es- tudada a temática dos negócios jurídicos processuais, assevera que: “Os atos das partes consistentes em declarações unilaterais ou bilaterais de vontade produzem imediatamente a constituição, modificação ou extinção de direitos processuais”. BRASIL. Lei n. 13.105, de 16 de março de 2015. Código de Processo Civil. Brasília, DF: Presidência da República, 2015. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/cci- vil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm. Acesso em: 29 out. 2022. 19 CÂMARA, Alexandre Freitas. O novo processo civil brasileiro. 3. ed. rev., atual. e ampl. São Paulo: Atlas, 2017. p. 115/116. 20 CABRAL, Antonio do Passo. Autocomposição e litigância de massa: negócios ju- rídicos processuais nos incidentes de resolução de casos repetitivos. Revista de Pro- 206 ESTUDOS NA PERSPETIVA DE UNIFORMIZAÇÃO, COLETIVIZAÇÃO E ENFORCEMENT DO DIREITO Sendo assim, o negócio jurídico processual trata-se de fonte nor- mativa do (e no) processo, que vincula o órgão julgador. E vincula, independentemente de homologação judicial, tanto se típicos (como os exemplos acima mencionados) quanto se atípicos (cláusula geral). Como consequência, para Gustavo Osna21, a autorização à negociação sobre o processo, que antes era tida como a exceção, hoje pode ser tomada como regra. A despeito disso, o múnus público do exercício da jurisdição ainda mostra sua face. O parágrafo único do art. 190 do Código de Processo Civil traz alguma limitação à cláusula geral dos negócios jurídicos pro- cessuais; prevê que: “De ofício ou a requerimento, o juiz controlará a validade das convenções previstas neste artigo, recusando-lhes aplica- ção somente nos casos de nulidade ou de inserção abusiva em contrato de adesão ou em que alguma parte se encontre em manifesta situação de vulnerabilidade”22. Como se percebe, a própria lei processual civil traduz mecanismo de limitação do negócio jurídico processual pelo magistrado. Porém, é possível dizer que o parágrafo único do art. 190 possui, percepti- velmente, uma limitação “limitada” – com o perdão da redundância –, tendo em vista que a restrição ao controle de validade está restrito àqueles casos expressamente previstos (nulidade, inserção abusiva em contrato de adesão e manifesta situação de vulnerabilidade). Ao levar em consideração as possibilidades de controle do magis- trado sobre os negócios jurídicos processuais, já decidiu o Superior Tribunal de Justiça que: “as funções desempenhadas pelo juiz no pro- cesso são inerentes ao exercício da jurisdição e à garantia do devido processo legal, sendo vedado às partes sobre elas dispor”23. Ou seja, o entendimento atual da Corte é no sentido de que, mesmo em matéria cesso, São Paulo, n. 325, ano 48, março/2022. 21 OSNA, Gustavo. A ‘vulnerabilidade’ e os negócios jurídicos processuais: uma bre- ve nota objetiva. In: JOBIM, Marco Felix; PEREIRA, Rafael Caselli. (Orgs.). Fundamen- tos objetivos e o novo processo civil. Londrina: Thoth, 2021. p. 233-245. 22 BRASIL. Lei n. 13.105, de 16 de março de 2015. Código de Processo Civil. Brasília, DF: Presidência da República, 2015. Disponível em: http://www. planalto.gov.br/ ccivil_03/ato 2015-2018/2015/lei/l13105.htm. Acesso em: 29 out. 2022. 23 SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. Recurso Especial n. 1.810.444/SP, Relator Minis- tro Luis Felipe Salomão, Quarta Turma, julgado em 23/2/2021, DJe de 28/4/2021. CONSTITUIÇÃO, PROCESSO E COMPLIANCE • 207 processual, não podem as partes acordar livremente, estando limitadas à situação jurídica do magistrado. Apesar da limitação, o âmbito de negociação sobre mudanças no procedimento para que as partes os ajustem em matéria de ônus, po- deres, faculdades e deveres processuais é bastante amplo. Por isso, a sua utilização constitui em ferramenta importante para o planejamento de contratos, já que permite as partes definirem como irão conduzir eventual litígio que possa surgir após a formalização contratual. 3. OS NEGÓCIOS JURÍDICOS PROCESSUAIS NO PLANEJAMENTO CONTRATUAL A visualização de negócios jurídicos processuais em contratos de va- riadas naturezas já é uma realidade. Seja em capítulos próprios (“das convenções processuais”, por exemplo) ou mesmo em cláusulas es- parsas, fato é que negócios sobre o processo em caso de litígio já são diariamente debatidas e incorporadas em negociações. São fontes nor- mativas que passam a integrar os contratos e delimitar a futura atua- ção em juízo. Nesse âmbito, é dado aos contratantes a liberdade de contratarem não só o direito material (prestação e contraprestação) como aquele de cariz processual. Assim como os contratantes se debruçam sobre partes, preço e forma de pagamento, podem (e devem) reservar tempo para pensarem em disposições que facilitem a resolução de eventual conflito que surja no andar da execução contratual. Fala-se, então, da delimitação processual a partir de estratégias negociais. Os negócios jurídicos processuais não ficam de fora das regras de validade contratual, previstas no art. 104 do Código Civil24. Esse dis- positivo é reforçado e especificado pelo próprio art. 190 do Código de Processo Civil que faz referência ao agente capaz (“partes plenamente capazes”), ao objeto lícito, possível e determinado (“mudanças no pro- cedimento”) e não impõe forma, muito embora defina o momento da contratação (“antes ou durante o processo”). Além disso, o dispositivo 24 Dispõe o conhecido dispositivo do Código Civil que: “A validade do negócio jurídico requer: I - agente capaz; II - objeto lícito, possível, determinado ou deter- minável; III - forma prescrita ou não defesa em lei”. BRASIL. Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Institui o Código Civil. Brasília, DF: Presidência da República, 2002. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406compilada. htm. Acesso em: 28 out. 2022. 208 ESTUDOS NA PERSPETIVA DE UNIFORMIZAÇÃO, COLETIVIZAÇÃO E ENFORCEMENT DO DIREITO do Código de Processo Civil ainda adiciona como requisito que o ne- gócio jurídico processual deve limitar-se aos ônus, poderes, faculdades e deveres processuais. Quanto ao agente, é relevante destacar que são os negócios jurídicos processuais cabíveis naqueles contratos nos quais as relações entre as partes envolvem igualdade de condições, amparadas por advogados qualificados e com concessões mútuas e recíprocas. As hipóteses em que há manifesta situação de vulnerabilidade25 ou inserção abusiva em contrato de adesão podem ser controladas, inclusive de ofício, pelo magistrado, como ressalva o parágrafo único do art. 190. São casos que, de fato, exigem uma atenção maior aos negócios processuais, por- que sua vinculação pode lesar a parte vulnerável ou aderente. No que tange aos contratos de adesão, especialmente os de consumo, Michael César Silva, Lucas Magalhães de Oliveira Carvalho e SamuelVinícius da Silva, em artigo especificamente sobre essa temática, con- cluem que: “cogita-se das negociações processuais válidas, desde que, a parte vulnerável esteja assistida por advogado ou mesmo defensor público, que funcionarão como um plus aos requisitos do art. 104 do Código Civil”26. A despeito destes casos limítrofes, em regra, as con- venções processuais valem e vinculam, desde que oriundas de mani- festações livres de vontade. Sobre isso, interessante a advertência de 25 Para Gustavo Osna, na previsão de controle do negócio jurídico processual em razão da vulnerabilidade “há certamente uma lacuna interpretativa a ser supera- da – exigindo algum grau de objetivação”. Ao buscar preencher esta lacuna, escla- rece que “tomando-se como parâmetro a celebração do acordo, a ‘vulnerabilidade’ a que faz menção o dispositivo deve, necessariamente, ser compreendida como uma debili- dade ex ante, e não ex post. Em outros termos, o ponto central parece ser sintetizado pelo seguinte raciocínio: a vedação não deve impedir que, por força do negócio, o sujeito seja exposto a uma vulnerabilidade processual; na realidade, o que se procura obstar é que, ao aceitar o termo, seja ele materialmente vulnerável […]”. OSNA, Gus- tavo. A ‘vulnerabilidade’ e os negócios jurídicos processuais: uma breve nota obje- tiva. In: JOBIM, Marco Felix; PEREIRA, Rafael Caselli. (Orgs.) Fundamentos objetivos e o novo processo civil. Londrina: Thoth, 2021. p. 233-245. 26 SILVA, Michael César; CARVALHO, Lucas Magalhães de Oliveira; SILVA, Samuel Vinícius. Negociação processual e as relações de consumo: uma análise do instituto à luz da vulnerabilidade presumida do consumidor. Revista Jurídica Luso-Brasileira, Centro de Investigação de Direito Privado da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, Lisboa, n. 1, Ano 4, 2018. p. 1087-1121. Disponível em: https://www. cidp.pt/revistas/rjlb/2018/1/2018 _01_1087_1121.pdf. Acesso em: 28 out. 2022. CONSTITUIÇÃO, PROCESSO E COMPLIANCE • 209 Eduardo Talamini: “A voluntariedade é relevante não apenas na prática do ato em si, mas na obtenção e definição das suas consequências”27. Quanto ao momento da realização da convenção processual, o dis- positivo legal aqui estudado (art. 190 do Código de Processo Civil) prevê que a convenção sobre o procedimento pode ser realizada “antes ou durante o processo”. A prática mostra que a realização ex ante do negócio jurídico processual constitui uma ferramenta relevante para o planejamento contratual. Em que pese possa soar como “mau agouro” prever antecipadamente a ocorrência do litígio, fato é que esta disposi- ção antecipada sobre o procedimento permite reduzir custos, tempo e desgaste na hipótese de divergências na execução contratual. Os negócios jurídicos processuais podem, inclusive, ser conside- rados instrumentos ou ferramentas de compliance, já que estão inse- ridos em um contexto de cumprimento de disposições para melhor adequação negocial de empresas28-29. Nesse sentido, de acordo com Pedro Sanchez Cesa, as convenções processuais devem ser vistas como “mecanismo de conformação do procedimento que busca atender aos 27 TALAMINI, Eduardo. Um processo pra chamar de seu: nota sobre os negócios jurídicos processuais. MIGALHAS. São Paulo, 21 out. 2015. Disponível em: https:// www.migalhas.com.br/depeso/228734/um-processo-pra-chamar-de-seu--nota-so- bre-os-negocios-juridicos-processuais. Acesso em: 23 out. 2022. 28 Marcella Block lembra que a palavra compliance, em sua etimologia, deriva do la- tim complere, tendo seu significado relacionado à vontade de fazer algo que foi pedi- do ou de agir em concordância com regras, normas, disposições legais e condições. BLOCK, Marcella. Compliance e governança corporativa. 3. ed. atual. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 2020. É mais comum, porém, relacionar a origem do termo com a expressão norte-americana to comply, cuja tradução para o português associa-se a cumprir, obedecer ou consentir. 29 A evolução do compliance em sede empresarial é bem traçada por Ederson Garin Porto: “A cultura do compliance ganhou força nos últimos anos e muito se deve a relação do tema com o combate a corrupção, dentre outros ilícitos. O movimento tem início com imposições às corporações de leis que visavam coibir ilícitos e assim aprimorar os mercados. Com o passar dos anos, muitas instituições e empresas passaram a incorporar práticas pregadas pelo compliance. Parcela expressiva desses agentes adotaram tais compromissos porque a legislação impunha, sem compreen- der efetivamente qual o benefício que tais comportamentos poderiam agregar ao seu negócio”. PORTO, Éderson Garin. Compliance & Governança Corporativa: uma abordagem prática e objetiva. Porto Alegre: Lawboratory, 2020. p. 10. 210 ESTUDOS NA PERSPETIVA DE UNIFORMIZAÇÃO, COLETIVIZAÇÃO E ENFORCEMENT DO DIREITO interesses comuns dos agentes de mercado, pode[ndo] ou não servir de incentivo às trocas e de limitador de fatores que as impedem”30. Marcos Paulo Röder e Kirstin Elise Richter Vieira defendem a visão dos negócios jurídicos processuais como instrumentos de redução de custos de transação em contratos empresariais, utilizando instrumen- tos da análise econômica do direito31. Para os autores, a disseminação dos negócios jurídicos processuais tende a acarretar a otimização do processo, impactando no sentimento de segurança das partes em con- tratar, o que é indispensável para o desenvolvimento econômico de uma sociedade.32 No mesmo sentido, Didier Jr., Lipiani e Aragão lem- bram que os negócios jurídicos processuais devem ser pensados como ferramentas que podem ser utilizadas para garantir mais segurança e previsibilidade para os contratantes33. Em suma, podendo as partes estabelecer qual o caminho a ser trilhado em caso de surgir um litígio envolvendo o contrato que firmaram, podem evitar surpresas e diminuir as consabidas agruras do processo judicial. No limite, podem alcançar maior segurança, prevendo quando o proces- so irá iniciar e terminar, como irá se portar a parte adversa, os custos que irão ser despendidos e, inclusive, se vale a pena ingressar em juízo. Além disso, as convenções processuais podem servir como um impor- tante ativo no momento da negociação. O exemplo é dado por Didier Jr., Lipiani e Aragão nos seguintes termos: “para se pleitear um negócio mate- rial mais vantajoso, em troca de concessões nos negócios jurídicos proces- 30 CESA, Pedro Sanchez. Negócios jurídicos processuais na perspectiva da aná- lise econômica do Direito. Revista Jurídica Luso-Brasileira, Centro de Inves- tigação de Direito Privado da Faculdade de Direito da Universidade de Lis- boa, Lisboa, n. 3, Ano 6, 2020. Disponível em: https://www.cidp.pt/revistas/ rjlb/2020/3/2020_03_1611_1647.pdf. Acesso em: 28 out. 2022. 31 RODER, Marcus Paulo; RICHTER VIEIRA, Kirstin Elise. Negócios processuais em contratos empresariais: uma forma de redução de custos de transação. Revista Ele- trônica do CEJUR, Curitiba, v. 2, n. 5, set/dez 2020. Disponível em: https://revistas. ufpr.br/cejur/article/view/77771. Acesso em: 29 out. 2022. 32 RODER, Marcus Paulo; RICHTER VIEIRA, Kirstin Elise. Negócios processuais em contratos empresariais: uma forma de redução de custos de transação. Revista Ele- trônica do CEJUR, Curitiba, v. 2, n. 5, set/dez 2020. Disponível em: https://revistas. ufpr.br/cejur/article/view/77771. Acesso em: 29 out. 2022. 33 DIDIER JR. Fredie; LIPIANI, Júlia; ARAGÃO, Leandro Santos. Negócios jurídicos processuais em negócios processuais. Revista dos Tribunais Online, São Paulo, v. 279, maio/2018, p. 41–66. CONSTITUIÇÃO, PROCESSO E COMPLIANCE • 211 suais e vice-versa”34. Quer dizer, é possível utilizar-se do negócio jurídico processual não apenas como forma de garantir maior segurança, porém como moeda de troca em negociações sobre o próprio direito material. Para isso, o que se propõe é que seja utilizado o momento em que ainda há consenso entre as partes, que é rompido, ao menos em parte, na hipóteseda judicialização. Quando há negociação sobre o direi- to material, como delimitação dos elementos essenciais do contrato e estabelecimento de preço e forma de pagamento, convém que sejam juntamente elaboradas cláusulas que buscam moldar o rito processual de litígio que poderá, ou não vir a ocorrer no futuro, estabelecendo condições que melhor atendem às necessidades dos litigantes. Isto é, os contratantes (por seus advogados), já devem começar a pensar no processo ao iniciar as negociações contratuais. Um acordo entabulado sobre o eventual processual futuro pode ter diversos ânimos, como diminuir o tempo de tramitação do processo, equilibrar custos, diminuir assimetria informacional e facilitar comuni- cações processuais. Isso é necessário porque o processo ordinário, rígido e inflexível pode não oferecer, com eficiência e celeridade, o que as par- tes desejam para a solução do conflito (se ele ocorrer)35. Nesta hipótese, Fredie Didier Jr.36 lembra que o negócio jurídico processual pode servir tanto para a redefinição das situações jurídicas processuais (ônus, direi- tos, deveres processuais) quanto para a restruturação do procedimento. Tanto típicos quanto atípicos, os exemplos de negócios jurídicos processuais já utilizados são muitos, seja para estipulação antes do processo ou mesmo no seu curso. Alguns especialmente chamam a atenção em matéria de planejamento contratual, já estando incorpora- dos ao mercado e sendo reiteradamente visualizados em instrumentos contratuais de diversas naturezas. Aqui, sem pretender esgotar a maté- ria, são algumas hipóteses brevemente analisadas, como exemplos da necessidade de pensar em eventual litígio ainda na fase negocial. 34 DIDIER JR. Fredie; LIPIANI, Júlia; ARAGÃO, Leandro Santos. Negócios jurídicos processuais em negócios processuais. Revista dos Tribunais Online, São Paulo, v. 279, maio/2018, p. 41–66. 35 CABRAL, Antonio do Passo. Convenciones procesales: desarrollo y evolución. Revista de Derecho Procesal: processo por audiencias, Santa Fé: Rubinzal-Culzoni Editores, 2020 (2). p. 536-561. 36 DIDIER JR., Fredie. Ensaios sobre os negócios jurídicos processuais. 2. ed. rev., atual. e ampl. Salvador: JusPodivm, 2021. p. 28. 212 ESTUDOS NA PERSPETIVA DE UNIFORMIZAÇÃO, COLETIVIZAÇÃO E ENFORCEMENT DO DIREITO 4. ALGUNS EXEMPLOS DE NEGÓCIOS JURÍDICOS PROCESSUAIS 4.1. PROLEGÔMENOS Os negócios jurídicos processuais, mesmo que timidamente em um primeiro momento, vêm cada vez mais sendo utilizados em âmbitos contratual, servindo de instrumento para moldar eventual processo judicial que venha a surgir. Algumas hipóteses foram, inclusive, pro- postas no Fórum Permanente de Processualistas Civis, ocorrido em 2017, no Enunciado nº 21 (com redação dada na III edição), que dis- põe que: “são admissíveis os seguintes negócios, dentre outros: acordo para realização de sustentação oral, acordo para ampliação do tempo de sustentação oral, julgamento antecipado do mérito convencional, convenção sobre prova, redução de prazos processuais”37. Já Fredie Didier Jr menciona outros exemplos que se inserem na cláusula geral como negócios processuais atípicos: […] acordo de impenhorabilidade, acordo de instância única, acordo de ampliação ou de redução de prazos, acordo para superação de preclusão, acordo de substituição de bem penhorado, acordo de rateio de despesas processuais, dispensa consensual de assistente técnico, acordo para retirar o efeito suspensivo da apelação, acordo para não promover execução pro- visória, acordo para dispensa de caução em execução provisória, acordo para limitar número de testemunhas, acordo para autorizar intervenção de terceiro fora das hipóteses legais, acordo para decisão por equidade ou baseada em direito estrangeiro ou consuetudinário, acordo para tornar ilícita uma prova etc.38 São estes apenas alguns exemplos, levando em consideração a atipi- cidade que advém da cláusula geral dos negócios jurídicos processuais. Outros comuns na prática contratual são (a) a eleição de foro, (b) a cláusula escalonada; (c) o pactum de non petendo; e (d) os negócios jurídicos processuais em sede de execução. Cada uma dessas hipóte- ses será brevemente comentada abaixo, evidentemente sem pretender esgotar todas as suas potencialidades. 37 ENUNCIADOS do Fórum Permanente de Processualistas civis: Florianópolis, 24, 25 e 25 de março de 2017. In: INSTITUTO Direito Contemporâneo. [São Paulo, 2017?]. Disponível em: https://institutodc.com.br/wp-content/uploads/2017/06/ FPPC-Carta-de-Florianopolis.pdf. Acesso em 29 out. 2022. 38 DIDIER JR., Fredie. Ensaios sobre os negócios jurídicos processuais. 2. ed. rev., atual. e ampl. Salvador: JusPodivm, 2021. p. 28. CONSTITUIÇÃO, PROCESSO E COMPLIANCE • 213 4.2. ELEIÇÃO DE FORO Sem dúvidas, a cláusula de eleição de foro é o mais comum negócio jurídico processual (típico), sendo há muito conhecida e utiliza em qualquer tipo de contratação. Por esta cláusula, as partes convencio- nam a competência territorial para o caso de futura discussão envol- vendo o contrato em questão. Essa possibilidade, aliás, decorre não só do art. 190 do Código de Processo Civil como do seu art. 63, que permite que as partes elejam o foro “onde será proposta ação oriunda de direitos e obrigações”39. Porém, conforme o Enunciado n. 20 proposto no Fórum Permanen- te de Processualistas Civis40, não é admissível o negócio jurídico pro- cessual para modificação de competência absoluta. Além disso, outra distinção importante é que o que pode ser objeto de eleição é o foro e não o fórum; isto quer dizer que os fóruns regionais (que existem den- tro de um mesmo foro) não podem ser escolhidos pelas partes, porque sua divisão decorre de lei estadual de organização judiciária, que cria competência absoluta41. Além disso, caso o magistrado entenda ser abusiva a cláusula de elei- ção de foro, pode ser reputada ineficaz pelo juiz, de ofício, antes da ci- tação, determinando a remessa dos autos ao juízo do foro de domicílio do réu; nos exatos termos do § 3º, do art. 63 do Código de Processo Civil42. De qualquer forma, mesmo que delimitada à competência terri- torial (ou mesmo quanto ao valor da causa), a eleição de foro pode ser uma importante estratégia negocial, delimitando o local que melhor 39 BRASIL. Lei n. 13.105, de 16 de março de 2015. Código de Processo Civil. Brasília, DF: Presidência da República, 2015. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/cci- vil_03/_ato 2015-2018/2015/lei/l13105.htm. Acesso em: 29 out. 2022. 40 ENUNCIADOS do Fórum Permanente de Processualistas civis: Florianópolis, 24, 25 e 25 de março de 2017. INSTITUTO Direito Contemporâneo. [São Paulo, 2017?]. Disponível em: https://institutodc.com.br/wp-content/uploads/2017/06/FPPC-Car- ta-de-Florianopolis.pdf. Acesso em: 29 out. 2022. 41 Esse tema é abordado por Alexandre Freitas Câmara em aula inaugural da Pós-Graduação em Direito Imobiliário da PUC-São Paulo, coordenada pelo Prof. Dr. William Santos Ferreira. DIREITO Imobiliário. São Paulo, 22 jun. 2022. 1 vídeo (2 h 6 min 59 s). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=RhSK9y7u_lA&- t=6830s. Acesso em: 30 out. 2022. 42 BRASIL. Lei n. 13.105, de 16 de março de 2015. Código de Processo Civil. Brasília, DF: Presidência da República, 2015. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ cci- vil_03/ato 2015-2018/2015/lei/l13105.htm. Acesso em: 29 out. 2022. 214 ESTUDOS NA PERSPETIVA DE UNIFORMIZAÇÃO, COLETIVIZAÇÃO E ENFORCEMENT DO DIREITO poderá resolver os litígios que surgirem da relação contratual. É o caso da eleição de uma cidade de perfil industrial, que reiteradamente julga matérias envolvendo esse tipo conflitos, em contrato de fornecimento para indústria automotiva. 4.3. CLÁUSULA ESCALONADA Bastante comum nos contratos, a cláusula escalonada ou “cláusula de paz”43, é uma faculdade que possibilita que as partes delimitem a resolução da sua demanda por forma de conflito diversa do que o processo judicial, ou seja, consiste em um acordode buscar a solução de eventual conflito primeiramente em outros meios que não o pro- cesso judicial. Existem pontos de suma importância para o estabelecimento des- sa cláusula. Exemplificativamente, elenca-se dois: (1) disponibilidade do direito; e (2) viabilidade/conhecimento da forma de resolução de conflito optada. Sequencialmente. Embora não seja algo desconhecido hodiernamente na comunidade jurídica, para que seja possível estabe- lecer uma cláusula escalonada em sede de negociação procedimental das partes, é necessário, antes de tudo, verificar a disponibilidade do direito que versa o objeto da relação entre as partes. Em matéria civil e comercial, são poucas as situações em que não será possível o estabe- lecimento dessa cláusula por conta desse primeiro ponto. Agora, sobre o segundo ponto, este possui maior sensibilidade do que o anterior. Ao estabelecerem uma cláusula escalonada, as partes devem ter ciên- cia do método de resolução de conflitos optado, especificamente, sua finalidade a fim de dimensionar a compatibilidade e eficiência entre o método escolhido com o eventual litígio. Quando bem utilizada, é de extrema serventia para as partes, haja vista que poderá implicar na diminuição de despesas que um even- tual processo judicial apresentaria, assim como, em paralelo (e den- tre outras vantagens), optado pelo método compatível com o objeto litigioso, seria possível apontar para a diminuição do lapso temporal para a resolução da situação litigiosa. Um esclarecimento final sobre a 43 CABRAL, Antonio do Passo Cabral. Pactum de non petendo: a promessa de não processar no direito brasileiro. Revista do Ministério Público do Estado do Rio de Ja- neiro, Rio de Janeiro, n. 78, out./dez. 2020. p. 19-44. Disponível em: https://www. mprj.mp.br/documents/20184/2026467/Antonio_do_ Passo_Cabral.pdf. Acesso em 29 out. 2022. CONSTITUIÇÃO, PROCESSO E COMPLIANCE • 215 cláusula escalonada: conforme dispõe o art. 5º, inc. XXXV, da Consti- tuição Federal, assim como o caput, do art. 3º, do Código de Processo Civil, inexistindo êxito pelo método de resolução de conflito optado, o processo judicial é (e será) disponível para dirimir o conflito. 4.4. PACTUM DE NON PETENDO Diferentemente da cláusula arbitral, pelo pactum de non petendo, os contratantes comprometem-se a não baterem as portas do Poder Judi- ciário mesmo que surja algum litígio entre elas, envolvendo a execu- ção contratual. Trata-se de previsão que não afeta os efeitos no plano do direito material, porém gera uma obrigação de não agir perante o Poder Judiciário.44 José Rogério Cruz e Tucci45, em sentido inverso, entende que é nula e ineficaz a referida cláusula, diante dos preceitos dos arts. 5º, inc. XXXV, da Constituição Federal e 3º do Código de Processo Civil. Para o processualista, a vedação reside no argumento de que a ninguém é dado renunciar à defesa de seus direitos diante de potencial lesão futu- ra. Por outro lado, Antonio do Passo Cabral afasta essa visão restritiva de Cruz e Tucci ao afirmar nos seguintes termos: Ressalte-se ainda que a promessa de não processar não fere a inafastabi- lidade do controle jurisdicional (art. 5º, XXXV, da Constituição) porque significa uma autorrestrição voluntária, que os próprios titulares do direito ao acesso à justiça se impõem, em nome de outros objetivos negociais.46 44 CABRAL, Antonio do Passo Cabral. Pactum de non petendo: a promessa de não processar no direito brasileiro. Revista do Ministério Público do Estado do Rio de Ja- neiro, Rio de Janeiro, n. 78, out./dez. 2020. p. 19-44. Disponível em: https://www. mprj.mp.br/documents/20184/2026467/Antonio_do_ Passo_Cabral.pdf. Acesso em 29 out. 2022. 45 TUCCI, José Rogério Cruz. Proibição do pactum de non petendo na jurisprudên- cia do STJ. In: CONJUR. São Paulo: 2 mar. 2021. Disponível em: https://www.conjur. com.br/2021-mar-02/paradoxo-corte-proibicao-pactum-non-petendo-jurispruden- cia-stj. Acesso em 29 out. 2022. 46 CABRAL, Antonio do Passo Cabral. Pactum de non petendo: a promessa de não processar no direito brasileiro. Revista do Ministério Público do Estado do Rio de Ja- neiro, Rio de Janeiro, n. 78, out./dez. 2020. p. 19-44. Disponível em: https://www. mprj.mp.br/documents/20184/2026467/Antonio_do_ Passo_Cabral.pdf. Acesso em 29 out. 2022. 216 ESTUDOS NA PERSPETIVA DE UNIFORMIZAÇÃO, COLETIVIZAÇÃO E ENFORCEMENT DO DIREITO Sobre essa mesma cláusula, Fernando da Fonseca Gajardoni47 vai além, aventando a possibilidade de um pacto de non exequendo, isto é, o pacto de não executar. Esta previsão impediria que o credor pudesse dar inícios à execução de título extrajudicial, seja determinando um prazo certo seja indeterminadamente. Nessa hipótese, todavia, não es- taria proibido o exercício de medidas extrajudiciais para recebimento do crédito, como o protesto do título ou inclusão do nome do devedor em órgãos de restrição ao crédito; ou de ingressar com o processo de conhecimento. Ainda, Antonio do Passo Cabral48 lembra das “cláusulas de não con- testação” que embora ainda não sejam ventiladas no ordenamento brasileiro, são comuns em países como a França, principalmente em contratos envolvendo propriedade intelectual ou direito de imagem. Também faz referência a convenções objetivando impedir a interposi- ção de recursos49, diretamente relacionado a esta cláusula de non pe- tendo. Por outro lado, o Fórum Permanente de Processualistas Civis50, em seu Enunciado n. 20, observa que não seria admissível negócio jurídico processual para a supressão da primeira instância. 4.5. NEGÓCIOS JURÍDICOS PROCESSUAIS EM EXECUÇÃO No planejamento contratual, os negócios jurídicos processuais não estão adstritos apenas ao processo de conhecimento. Em sede de exe- cução, seja de título executivo judicial seja de título executivo extraju- dicial, as convenções processuais podem servir como meio de efetiva- 47 GAJARDONI, Fernando da Fonseca. Convenções processuais atípicas na execu- ção civil. Revista Eletrônica de Direito Processual – REDP, Rio de Janeiro, v. 22, n. 1, ano 15, janeiro a abril de 2021. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/ index.php/redp/article/view/ 56700/36321. Acesso em 29 out. 2022. 48 CABRAL, Antonio do Passo Cabral. Pactum de non petendo: a promessa de não processar no direito brasileiro. Revista do Ministério Público do Estado do Rio de Janei- ro, Rio de Janeiro, n. 78, out./dez. 2020. p. 19-44. 49 CABRAL, Antonio do Passo. Convenciones procesales: desarrollo y evolución. Revista de Derecho Procesal: processo por audiências. Santa Fé: Rubinzal-Culzoni Editores, 2020 (2). p. 536-561. 50 ENUNCIADOS do Fórum Permanente de Processualistas civis: Florianópolis, 24, 25 e 25 de março de 2017. In: INSTITUTO Direito Contemporâneo. [São Paulo, 2017?]. Disponível em: https://institutodc.com.br/wp-content/uploads/2017/06/ FPPC-Carta-de-Florianopolis.pdf. Acesso em: 29 out. 2022. CONSTITUIÇÃO, PROCESSO E COMPLIANCE • 217 ção do crédito ou mesmo de redução de tempo. Assim como as partes podem adaptar o processo de conhecimento aos seus interesses, tam- bém podem adaptar a execução, o que parece ser ainda mais impor- tante diante da notícia de que, em 2021, mais da metade dos processos pendentes de baixa estavam em fase de execução.51 A conclusão não poderia ser diversa, uma vez que a atividade execu- tiva é permeada pela autonomia das partes, existindo uma variedade de atos negociais, como oferta de bens, concorrências públicas e lei- lões e avaliações.52 Essa liberdade dos litigantes em matéria executiva, porém, deve lidar com o poder de império que tem o Estado de impor o cumprimento das decisões e títulos executivos em geral53. Nessa re- lação entre caráter privatista e publicista da execução, Fredie Didier Jr. e Antonio do Passo Cabral concluem que “a execução pode não ser ‘forçada’, mas negociada, pelo menos em alguns aspectos”54. Apesar da discussão sobre em que medida se pode conceber uma execução negociada, fato é que já se tem cogitado, redigidoe nego- ciado disposições convencionadas entre as partes em matéria de exe- cução. Exemplo importante é com relação à penhorabilidade, em que as partes podem estabelecer determinados bens que não podem ser objeto de execução (tornando-os impenhoráveis) ou, por outro lado, acordar que determinados bens devem preceder a outros na penhora. Há, ainda, a discussão, que não cabe nestas estreitas linhas, sobre a 51 De acordo com o relatório Justiça em Números 2022 (ano-base 2021), disponi- bilizado pelo Conselho Nacional de Justiça: “O Poder Judiciário contava com um acervo de 77 milhões de processos pendentes de baixa no final do ano de 2021, sendo que mais da metade desses processos (53,3%) se referia à fase de execução”. CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA. Justiça em Números. Brasília: CNJ, 2022. Dispo- nível em: https://www.cnj.jus.br/pesquisas-judiciarias/justica-em-numeros/. Acesso em: 29 out. 2022. 52 DIDIER JR., Fredie; CABRAL, Antonio do Passo. Negócios jurídicos processuais atípicos e execução. In: . Ensaios sobre os negócios jurídicos processuais. 2. ed. rev., atual. e ampl. Salvador: JusPodivm, 2021. p. 67-98. 53 DIDIER JR., Fredie; CABRAL, Antonio do Passo. Negócios jurídicos processuais atípicos e execução. In: . Ensaios sobre os negócios jurídicos processuais. 2. ed. rev., atual. e ampl. Salvador: JusPodivm, 2021. p. 67-98. 54 DIDIER JR., Fredie; CABRAL, Antonio do Passo. Negócios jurídicos processuais atípicos e execução. In: . Ensaios sobre os negócios jurídicos processuais. 2. ed. rev., atual. e ampl. Salvador: JusPodivm, 2021. p. 67-98. 218 ESTUDOS NA PERSPETIVA DE UNIFORMIZAÇÃO, COLETIVIZAÇÃO E ENFORCEMENT DO DIREITO possibilidade ou não de afastamento da impenhorabilidade prevista na Lei 8.009/199055. Outra possibilidade são os negócios jurídicos processuais sobre os meios executivos. Quer dizer, podem as partes convencionar que será utilizada primeiramente alguma determinada medida para a execução ou mesmo que imediatamente se opte por determinada medida atípica para buscar a satisfação do crédito exequendo. Por outro lado, Fredie Didier Jr. e Antonio do Passo Cabral lembram que “as partes não po- dem deliberar, por convenção, que o juiz não utilizará alguns meios de coerção para pressionar o litigante a cumprir uma obrigação”. Além das mencionadas, exemplos de negócios jurídicos processuais em execução são a calendarização, o estabelecimento de ordens de pe- nhora, a determinação de formas de comunicação processual, entre várias outras. Fernando Gajardoni56 lembra ainda de outras hipóteses: pacto para dispensa de caução para fins de cumprimento provisório de sentença, acordo para vedar o cumprimento provisório de sentença, convenção processual para dispensa, ampliação ou redução da multa de 10% pelo não pagamento da condenação por quantia no prazo de 15 dias, convenção para condicionar o ajuizamento da execução de título extrajudicial à notificação extrajudicial ou protesto prévios e convenção processual para redução de prazo de desocupação. Como se percebe, também em sede de execução as hipóteses de negócios jurídicos proces- suais como forma de planejamento contratual não são diminutas. 55 Este tema é enfrentado por Juliano Colombo: “Haverá possibilidade de celebra- ção de negócios jurídicos processuais que dispensem a impenhorabilidade prevista legalmente. A perspectiva da autonomia privada e do princípio dispositivo no pro- cesso de execução autorizam pensar na existência da disponibilidade em matéria de impenhorabilidade legal. A proporcionalidade e a análise dos direitos fundamentais à liberdade, à tutela jurisdicional executiva, em ponderação com a dignidade da pessoa humana e a proteção ao patrimônio mínimo poderão demonstrar a adequa- ção ou não da disposição realizada”. COLOMBO, Juliano. Negócios jurídicos pro- cessuais na perspectiva dos direitos fundamentais das partes: principiologia, funda- mentos e aplicação na tutela executiva stricto sensu. 2018. Dissertação (Mestrado em Direito) - Programa de Pós-Graduação em Direito, na Área de Concentração em Teoria Geral da Jurisdição e Processo, da Escola de Direito da Pontifícia Universida- de Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS. Disponível em: https://tede2.pucrs.br/ tede2/bitstream/tede/ 8165/2/Juliano_Colombo_dis.pdf. Acesso em: 29 out. 2022. 56 GAJARDONI, Fernando da Fonseca. Convenções processuais atípicas na execu- ção civil. Revista Eletrônica de Direito Processual – REDP, Rio de Janeiro, v. 22, n. 1, ano 15, janeiro a abril de 2021. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/ index.php/redp/article/view/56700 /36321. Acesso em 29 out. 2022. CONSTITUIÇÃO, PROCESSO E COMPLIANCE • 219 5. CONCLUSÃO Como delimitado no prólogo deste ensaio, a presente proposta bus- cou verificar em que medida os negócios jurídicos processuais podem servir de instrumento para o planejamento contratual, a fim de forne- cer elementos para responder o questionamento de qual seria a im- portância de pensar em (eventual) litígio ainda na fase negocial, por meio de negócios jurídicos processuais. Nesse sentido, este escrito foi dividido em três momentos. Iniciou-se estabelecendo panorama geral dos negócios jurídicos processuais, depois, buscou-se compreender a sua ligação com o planejamento contratual e, por fim, apresentou-se alguns exemplos de negócios jurídicos processuais que podem ser uti- lizados como ferramentas para reduzir custos, tempo e desgaste na hipótese de divergências na execução contratual. No primeiro capítulo, delineou-se que com a entrada em vigor do Código de Processo Civil de 2015, um dos princípios mais exaltados por ter ganhado renovada força foi o do respeito ao autorregramento da vontade, afetando (positivamente) condutas direcionadas à composição da lide, com evidentes reflexos processuais, assim como aqueles que incidem sobre o desenvolvimento do próprio processo. Como aponta- do, são vários os dispositivos espalhados pelo Código de Processo Civil que incentivam a composição acerca do procedimento, mas, com maior relevância, o art. 190, caput, do Código de Processo Civil, diante do estabelecimento de uma cláusula geral de negócios processuais, fonte normativa do (e no) processo, que vincula o órgão julgador (indepen- dentemente de homologação judicial, seja típicos ou atípico). No capítulo subsequente, buscou-se demonstrar a harmonização dos negócios jurídicos processuais em sede de planejamento contratual. O capítulo iniciou abordando que a existência de negócios jurídicos pro- cessuais já é uma realidade em contratos de várias naturezas (seja de forma esparsa ou em capítulo contratual próprio). Viu-se que os con- tratantes possuem a liberdade de contratarem não só o direito material (prestação e contraprestação) como aquele de cariz processual (delimi- tação processual a partir de estratégias negociais), antes ou durante o processo, destacando que são cabíveis naqueles contratos nos quais as relações entre as partes envolvem igualdade de condições, amparadas por advogados qualificados e com concessões mútuas e recíprocas. Nes- te momento, enfatizou-se que os negócios jurídicos processuais podem, inclusive, ser considerados instrumentos ou ferramentas de compliance, 220 ESTUDOS NA PERSPETIVA DE UNIFORMIZAÇÃO, COLETIVIZAÇÃO E ENFORCEMENT DO DIREITO já que estão inseridos em um contexto de cumprimento de disposições para melhor adequação negocial de empresas. Em sede de planejamento contratual, a convenção processual, na medida em que surgir eventual litígio, pode evitar surpresas e diminuir as consabidas agruras do proces- so judicial, proporcionando maior segurança, prevendo quando o pro- cesso irá iniciar e terminar, como irá se portar a parte adversa, os custos que irão ser despendidos e, inclusive, se vale a pena ingressar em juízo. Por fim, no último capítulo, a fim de responder ao problema delimitado para este ensaio, apresentou-se alguns exemplos de negócios jurídicos pro- cessuais. Em sede de prolegômenos docapítulo, afirmou-se que, embora de maneira tímida, a utilização dos negócios jurídicos no âmbito contra- tual é crescente. A título de exemplo desse apontamento, além da menção aos negócios jurídicos típicos, como, por exemplo, acordo para realização de sustentação oral, acordo para ampliação do tempo de sustentação oral, julgamento antecipado do mérito convencional, convenção sobre prova, redução de prazos processuais etc., abordou-se algumas espécies de negó- cios jurídicos, como o (1) da eleição de foro, o (2) da cláusula escalonada, o (3) do pactum de non petendo e (4) dos negócios jurídicos processuais em sede de execução. Em todo este artigo, principalmente no último capítulo, a partir da exposição dessas hipóteses de negócios jurídicos processuais, buscou-se demonstrar que o bom planejamento contencioso em fase ne- gocial é fundamental para o melhor desenvolvimento do próprio negócio pactuado entre as partes, evitando surpresas, custos e tempo. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BLOCK, Marcella. Compliance e governança corporativa. 3. ed. atual. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 2020. BRASIL. 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