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CURSO DE DIREITO
Direito Processual Penal III
DIREITO PENAL - CRIMES EM ESPÉCIE I
Prof. Wilian Sapito Jr.
Aula 07 e 08 – Temas abordados:
Homicídio Qualificado;
III – Com emprego de veneno, fogo, explosivo, asfixia, tortura ou outro meio
insidioso ou cruel, ou de que possa resultar perigo comum;
IV – À traição, de emboscada, ou mediante dissimulação ou outro recurso que
dificulte ou torne impossível a defesa do ofendido;
V – Para assegurar a execução, a ocultação, a impunidade ou vantagem de outro
crime;
7.1 Homicídio Qualificado pelo emprego de veneno, fogo, explosivo,
asfixia, tortura ou outro meio insidioso ou cruel, ou de que possa resultar perigo
comum;
Homicídio qualificado:
§ 2° Se o homicídio é cometido:
III – Com emprego de veneno, fogo,
explosivo, asfixia, tortura ou outro meio insidioso ou
cruel, ou de que possa resultar perigo comum;
Meio insidioso: meio insidioso é o que consiste no uso de estratagema, de
perfídia, de uma fraude para cometer um crime sem que a vítima o perceba. Exemplo:
retirar o óleo de direção do automóvel para provocar um acidente fatal contra seu
proprietário.
Meio cruel: meio cruel é o que proporciona à vítima um intenso e
desnecessário sofrimento físico ou mental, quando a morte poderia ser provocada de
forma menos dolorosa. Exemplo: matar alguém lentamente com inúmeros golpes de faca,
com produção inicial dos ferimentos em região não letal do seu corpo.
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Não incide a qualificadora quando o meio cruel é empregado após a morte da
vítima, pois a crueldade que caracteriza a qualificadora é somente aquela utilizada para
matar. O uso de meio cruel após a morte caracteriza, em regra, o crime de homicídio
(simples ou com outra qualificadora, que não a do meio cruel), em concurso com o crime
de destruição, total ou parcial, de cadáver (CP, art. 211).
Atenção Sapitetes: A reiteração de golpes isoladamente considerada não
configura a qualificadora do meio cruel. Depende da produção de intenso e
desnecessário sofrimento à vítima.
Meio de que possa resultar perigo comum: é aquele que expõe não
somente a vítima, mas também um número indeterminado de pessoas a uma situação
de probabilidade de dano. Exemplos:
(1) diversos tiros certeiros contra a vítima quando se encontrava em
movimentada via pública; e
(2) conduzir um veículo automotor em via pública a 165 km/h.
Pelo fato de a redação desse inciso ter sido formulada de forma hipotética
("meio de que possa resultar perigo comum"), entende-se que para a incidência da
qualificadora basta a possibilidade de o meio de execução utilizado pelo agente provocar
perigo a um número indeterminado de pessoas. Em suma, não se reclama prova da
situação de perigo a outras pessoas.
O legislador mais uma vez utilizou-se da interpretação analógica. Depois da
fórmula casuística ("com emprego de veneno, fogo, explosivo, asfixia, tortura") encerra
uma fórmula genérica ("ou outro meio insidioso ou cruel, ou de que possa resultar perigo
comum"). Portanto, esse "outro meio" deve ter natureza semelhante àqueles previstos na
parte exemplificativa.
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Há, portanto, três gêneros de qualificadoras: meio insidioso, meio cruel e
meio de que possa resultar perigo comum. E tais gêneros dividem-se em cinco
espécies: veneno, fogo, explosivo, asfixia e tortura.
Veneno: é a substância de origem química ou biológica capaz de provocar a
morte quando introduzida no organismo humano.
Determinadas substâncias, inócuas para as pessoas em geral, podem ser
tratadas como veneno quando, em particular no organismo da vítima individualmente
considerada, sejam aptas a levar à morte, em razão de alguma doença ou como resultado
de eventual reação alérgica. Exemplos:
(1) injetar glicose em diabético; ou
(2) ministrar anestésicos em alérgico de modo a nele provocar choque
anafilático.
Destarte, o conceito genérico de veneno pode, de acordo com o caso concreto,
ser ampliado para hipóteses específicas. Não se olvide, porém, que essa extensão
conceitual somente é possível quando o autor do homicídio conhecer a incompatibilidade
entre o organismo da vítima e a substância por ele ministrada, para afastar a
responsabilidade penal objetiva.
O homicídio praticado com emprego de veneno é denominado venefício, e
depende de prova pericial (exame toxicológico) para comprovar a existência da
qualificadora.
Fogo: é o resultado da combustão de produtos inflamáveis, da qual decorrem
calor e luz. Trata-se, em geral, de meio cruel. Exemplo: queimar a vítima até a morte.
Todavia, se do seu emprego um número indeterminado de pessoas puder ser
exposto a perigo de dano, o crime será qualificado pelo meio de que possa resultar perigo
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comum. Exemplo: matar uma pessoa mediante o incêndio de seu imóvel, situado ao lado
de diversas outras moradias.
Explosivo: é o produto com capacidade de destruir objetos em geral,
mediante detonação e estrondo. Caracteriza, normalmente, meio de que possa resultar
perigo comum. Exemplo: explodir o automóvel da vítima que trafegava em movimentada
via pública. Nada impede, porém, a configuração do meio cruel. Exemplo: amarrar a
vítima em uma árvore e prender uma bomba ao seu corpo, de forma a matá-la com a
força da explosão.
Asfixia: é a supressão da função respiratória, com origem mecânica ou tóxica.
A asfixia mecânica pode ocorrer pelos seguintes meios:
a) estrangulamento: constrição do pescoço da vítima por meio de
instrumento conduzido pela força, do agente ou de outra fonte qualquer, desde que não
seja o próprio peso do ofendido (exemplos: utilização de corda ou arame apertado pelo
homicida). Se for utilizado o peso da vítima, será caso de enforcamento;
b) esganadura: aperto do pescoço da vítima provocado diretamente pelo
agressor, que se vale do seu próprio corpo (exemplos: mãos, pés, antebraços etc.);
c) sufocação: emprego de objetos que vedam o ingresso de ar pelo nariz ou
pela boca da vítima (exemplo: colocação de um saco plástico na garganta do ofendido);
d) enforcamento: constrição do pescoço da vítima provocada pelo seu
próprio peso, em razão de estar envolvido por uma corda ou outro aparato de natureza
similar (exemplo: forca);
e) afogamento: inspiração excessiva de líquidos, não se exigindo a imersão
da vítima (exemplos: afundar alguém em uma piscina ou fazê-la ingerir água até a morte);
f) soterramento: submersão em meio sólido (exemplo: enterrar uma pessoa
com vida);
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g) imprensamento: impedimento da função respiratória pela colocação de
peso sobre o diafragma da vítima, de modo que, em decorrência desse peso ou da
exaustão por ele provocada, ela não mais seja capaz de efetuar o movimento respiratório.
Esse meio é também conhecido como sufocação indireta.
Por sua vez, a asfixia tóxica pode verificar-se pelas seguintes formas:
a) uso de gás asfixiante ou inalação. Exemplo: prender a vítima em um
ambiente fechado e abrir a torneira do gás de cozinha; e
b) confinamento: colocação da vítima em recinto fechado em que não há
renovação do oxigênio por ela consumido. E, atenção, se a vítima for colocada em um
caixão e enterrada viva, a causa da morte será a asfixia tóxica por confinamento, e não
a asfixia mecânica por soterramento.
A asfixia pode constituir meio cruel (exemplos: afogamento ou
soterramento, entre outros) ou insidioso (exemplo: uso de gás tóxico, inalado pela vítima
sem notá-lo).
Tortura é qualquer ato pelo qual dores ou sofrimentos agudos, físicos ou
mentais, são infligidos intencionalmente a uma pessoa a fim de obter, dela ou de terceira
pessoa, informações ou confissões; de castigá-la por ato que ela ou uma terceira pessoa
tenhacometido ou seja suspeita de ter cometido; de intimidar ou coagir esta pessoa ou
outras pessoas; ou por qualquer motivo baseado em discriminação de qualquer natureza;
quando tais dores ou sofrimentos são infligidos por um funcionário público ou outra
pessoa no exercício de funções públicas, ou por sua instigação, ou com seu
consentimento ou aquiescência. Não se considerará como tortura as dores ou
sofrimentos que sejam consequência unicamente de sanções legítimas, ou que sejam
inerentes a tais sanções ou delas decorram.
A tortura constitui-se nitidamente em meio cruel. O homicídio qualificado pela
tortura (CP, art. 121, § 2.°, inc. III) caracteriza-se pela morte dolosa. O agente utiliza a
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tortura (meio cruel) para provocar a morte da vítima, causando-lhe intenso e
desnecessário sofrimento físico ou mental. Depende de dolo (direto ou eventual) no
tocante ao resultado morte. Esse crime é de competência do Tribunal do Júri, e
apenado com 12 (doze) a 30 (trinta) anos de reclusão.
7.2 Homicídio qualificado pela traição, de emboscada, ou mediante
dissimulação ou outro recurso que dificulte ou torne impossível a defesa do
ofendido:
Nessa hipótese, o homicídio é qualificado pelo modo de execução. E mais
uma vez o legislador valeu-se da interpretação analógica. Depois de descrever uma
fórmula casuística ("traição, emboscada ou dissimulação"), encerra uma fórmula
genérica ("ou outro recurso que dificulte ou torne impossível a defesa do
ofendido"). Dessa forma, não apenas a traição, a emboscada e a dissimulação
qualificam o crime, por dificultarem ou impossibilitarem a defesa da vítima, mas qualquer
outro modo também pode acarretar na elevação da pena em abstrato, desde que sejam
semelhantes àqueles e dificultem ou impossibilitem a defesa do ofendido.
A traição pode ser física (exemplo: atirar pelas costas) ou moral (atrair a
vítima para um precipício). Nessa qualificadora, o agente se vale da confiança que o
ofendido nele previamente depositava para o fim de matá-lo em momento em que ele se
encontrava desprevenido e sem vigilância. Por esse motivo, não será aplicada se, no
caso concreto, a vítima teve tempo para fugir. E, também não será cabível essa
qualificadora na hipótese de ataque frontal e de repentino, que poderá caracterizar a
surpresa (meio genérico que dificulta a defesa do ofendido).
Ressalte-se que na traição a relação de confiança preexiste ao crime e o
sujeito dela se aproveita para executar o delito. O homicídio qualificado pela traição é
doutrinariamente conhecido como homicidium proditorium. Cuida-se,
excepcionalmente, de crime próprio ou especial, pois somente pode ser cometido pela
pessoa em que a vítima depositava uma especial confiança.
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Emboscada é a tocaia. O agente aguarda escondido, em determinado local,
a passagem da vítima, para matá-la quando ali passar. A emboscada pode ser praticada
tanto em área urbana como em área rural.
Dissimulação é a atuação disfarçada, hipócrita, que oculta a real intenção do
agente. O agente aproxima-se da vítima para posteriormente matá-la, valendo-se das
facilidades proporcionadas pelo seu modo de agir. A dissimulação pode ser material
(emprego de algum aparato, tal como uma farda policial) ou moral (demonstração de
falsa amizade ou simpatia pela vítima, para, exemplificativamente, levá-la a um local
ermo e matá-la).
Finalmente, temos a qualificadora do outro recurso que dificulte ou torne
impossível a defesa da vítima. É uma fórmula genérica indicativa de meio análogo à
traição, à emboscada e à dissimulação. Como exemplos destacam-se a conduta de matar
a vítima com surpresa, enquanto dorme, quando se encontra em estado de embriaguez,
em manifesta superioridade numérica de agentes (linchamentos) etc.
Cumpre destacar que a atitude inesperada é inerente ao crime de homicídio,
pois do contrário estaria configurado o duelo. Destarte, a qualificadora depende de uma
dose especial de imprevisão, necessária e suficiente para dificultar ou impossibilitar a
defesa do ofendido.
Para Guilherme de Souza Nucci: "É indispensável a prova de que o agente
teve por propósito efetivamente surpreender a pessoa visada, enganando-a, impedindo-
a de se defender ou, ao menos, dificultando-lhe a reação. É a presença do elemento
subjetivo abrangente.
A surpresa é incompatível com o dolo eventual, pois o sujeito deve dirigir sua
vontade em uma única direção: matar a vítima de modo imprevisível.
Exemplificativamente, não incide a qualificadora se o crime foi precedido de
desavença (vias de fato ou calorosa discussão).
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Atenção: A superioridade de armas, ou então o emprego de arma contra
vítima desarmada, por si só, não qualifica o homicídio. Exige-se também a surpresa no
ataque.
7.3 Homicídio Qualificado por assegurar a execução, a ocultação, a
impunidade ou vantagem de outro crime;
Cuida-se de qualificadora de natureza subjetiva, relacionada à motivação do
agente, que pratica um homicídio para assegurar a execução, a ocultação, a impunidade
ou a vantagem de outro delito. A doutrina convencionou chamá-la qualificadora de
conexão, em face da ligação entre dois ou mais crimes.
O inciso V do § 2º do art. 121 do Código Penal admite duas espécies de
conexão: teleológica e consequencial.
Na conexão teleológica o homicídio é praticado para assegurar a execução
de outro crime. O sujeito primeiro mata alguém e depois prática outro delito. Exemplo:
Matar o segurança de um empresário para em seguida sequestrá-lo.
Veja-se que, pela redação legal, não é obrigatório que o sujeito realmente
assegure a execução de outro delito. Basta essa intenção.
O agente deve responder por dois crimes: pelo homicídio qualificado e pelo
crime cuja execução se buscava assegurar, em concurso material.
Se o sujeito cometer o homicídio com o propósito de assegurar a execução de
outro delito, e depois desistir de praticar este último, ainda assim terá incidência a
qualificadora. Considera-se, em consonância com a teoria da atividade adotada pelo art.
4° do Código Penal, o tempo do crime.
Entretanto, não tem cabimento a qualificadora quando o homicida desejava
assegurar a execução de uma contravenção penal, pois o dispositivo legal fala apenas
em crime (princípio da taxatividade e vedação da analogia in malam partem). Na mesma
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linha de raciocínio, não incide a qualificadora quando o agente buscava assegurar a
execução de um crime impossível, ou de um crime putativo, pois nos dois casos não há
falar propriamente em crime, mas em fato atípico. Em ambos os casos, porém, é possível
a configuração das qualificadoras do motivo torpe ou do motivo fútil.
Em situações expressamente previstas em lei, há crimes específicos e que
afastam a qualificadora do homicídio quando o sujeito elimina a vida de alguém para
assegurar a execução de outro crime. E o que ocorre, exemplificativamente, no latrocínio,
em que o agente mata para roubar a vítima (CP, art. 157, § 3°, II): responderá por esse
delito, e não por roubo em concurso com homicídio. Resolve-se o conflito aparente de
normas penais com o princípio da especialidade.
Conexão consequencial, por sua vez, é a qualificadora em que o homicídio
é cometido para assegurar a ocultação, a impunidade ou a vantagem de outro crime. O
sujeito comete um crime e só depois o homicídio.
Na ocultação o agente pretende impedir que se descubra a prática de outro
crime. Exemplo: depois de furtar um estabelecimento comercial, o larápio, que estava
encapuzado, mata uma testemunha que presenciara a prática do crime.
Na impunidade, por sua vez, o agente deseja evitar a punibilidade do crime
anterior. Exemplo: estuprar uma mulher e depoismatá-la para não ser reconhecido como
o autor do crime contra a liberdade sexual.
Fica nítida, portanto, a diferença entre ocultação e impunidade. De fato,
aquela diz respeito ao crime, pois o agente almeja impedir a ciência acerca da sua prática.
Essa última, por sua vez, relaciona-se ao sujeito, já que o crime é conhecido, mas busca-
se evitar a identificação do seu responsável.
Em ambos os casos (ocultação e impunidade) não é necessário tenha sido
o homicida o responsável pelo outro crime, que pode ter sido praticado por terceiro
(um parente ou amigo, por exemplo).
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Finalmente, a vantagem é tudo o que se auferiu com o outro crime, aí se
compreendendo seu produto, seu preço e também seu proveito, que pode ser material
ou moral. Exemplo: matar o coautor de extorsão mediante sequestro para ficar com todo
o valor recebido a título de resgate.
Nessa qualificadora, em todas as suas hipóteses, é irrelevante o tempo
decorrido entre o homicídio e o outro crime. Dessa forma, incide a conexão se um delito
tiver sido cometido há muito tempo e, anos depois, o agente matar uma testemunha até
então desconhecida e que iria contra ele depor.
E, como se extrai do art. 108, 2.ª parte, do Código Penal, "nos crimes conexos,
a extinção da punibilidade de um deles não impede, quanto aos outros, a agravação da
pena resultante da conexão". Assim, mesmo se o crime anterior já tiver sido atingido pela
prescrição, a título de exemplo, ainda assim a pena do homicídio será aumentada.
Além das situações expressamente previstas em lei (conexão teleológica e
consequencial), a doutrina criou a figura da conexão ocasional, que estaria configurada
quando um crime é cometido em face da ocasião proporcionada pela prática de outro
delito. Exemplo: depois de furtar uma loja, o agente decide matar seu proprietário, em
razão de desavenças que tiveram no passado.
Explicar aos alunos o fato de o animus (dolo) ser diferente na conexão
ocasional.
A conexão ocasional não qualifica o homicídio, pois não foi prevista em lei.
Raciocínio contrário ofenderia o princípio da reserva legal. Opera-se unicamente o
concurso material entre o homicídio e o outro crime.