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Autoras: Profa. Renata Christina Leandro Profa. Raquel de Fátima Ferreira Azevedo Colaboradoras: Profa. Amarilis Tudella Nanias Profa. Christiane Mazur Doi Supervisão de Formação Profissional Professoras conteudistas: Renata Christina Leandro / Raquel de Fátima Ferreira Azevedo Renata Christina Leandro Graduada em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas – PUC‑Campinas (2002), especialista em Violência Doméstica Contra Criança e Adolescente pelo Laboratório da Criança (Lacri) do Instituto de Psicologia (IP) da Universidade de São Paulo – USP (2005), especialista em Sexualidade Humana pela Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas – Unicamp (2009) e pós‑graduanda em Formação em EaD pela UNIP. Atualmente, é docente na Universidade Paulista. Possui experiência em gestão social, como gestora municipal de São Thomé das Letras/MG e na Secretaria Estadual de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos, no estado do Rio de Janeiro. Atuou em Centros de Referência de Assistência Social (Cras), em atendimento matricial com famílias e na área de criança e adolescente e suas respectivas famílias, em Campinas, no Programa Municipal de Enfrentamento à Exploração Sexual Infanto‑juvenil, de 2003 a 2007. Raquel de Fátima Ferreira Azevedo Mestra profissional em Ensino em Ciências da Saúde pelo Centro de Desenvolvimento do Ensino Superior – Unifesp (2022), pós‑graduada em Serviço Social do Trabalho pela Universidade Veiga de Almeida (2008) e graduada em Serviço Social pela Instituição Toledo de Ensino (1994). Atualmente, é professora assistente e coordenadora de estágio no curso de Serviço Social da UNIP e assistente social na Faculdade Sesi. Atuou como coordenadora do Serviço Social da Fundação Faculdade de Medicina, assistente social da Sociedade Agudense da Terceira Idade, assistente social da Duratex S. A. e Duraflora S. A. e como consultora social e previdenciária em instituições públicas e empresas de grande porte. Tem experiência na área de serviço social, com ênfase em serviço social do trabalho, atuando principalmente nos seguintes temas: serviço social, políticas privadas, processo de reabilitação, políticas sociais e assistente social. © Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletrônico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Universidade Paulista. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) L437s Leandro, Renata Cristina. Supervisão de Formação Profissional / Renata Cristina Leandro; Raquel de Fátima Ferreira Azevedo. ‑ São Paulo: Editora Sol, 2025. 174 p., il. Nota: este volume está publicado nos Cadernos de Estudos e Pesquisas da UNIP, Série Didática, ISSN 1517‑9230. 1. Ética do cuidado. 2. Competência. 3. Habilidade. I. Azevedo, Raquel de Fátima Ferreira. II. Título. CDU 364 U521.00 – 25 Prof. João Carlos Di Genio Fundador Profa. Sandra Rejane Gomes Miessa Reitora Profa. Dra. Marilia Ancona Lopez Vice-Reitora de Graduação Profa. Dra. Marina Ancona Lopez Soligo Vice-Reitora de Pós-Graduação e Pesquisa Profa. Dra. Claudia Meucci Andreatini Vice-Reitora de Administração e Finanças Prof. Dr. Paschoal Laercio Armonia Vice-Reitor de Extensão Prof. Fábio Romeu de Carvalho Vice-Reitor de Planejamento Prof. Marcus Vinícius Mathias Vice-Reitor das Unidades Universitárias Profa. Silvia Renata Gomes Miessa Vice-Reitora de Recursos Humanos e de Pessoal Profa. Laura Ancona Lee Vice-Reitora de Relações Internacionais Profa. Melânia Dalla Torre Vice-Reitora de Assuntos da Comunidade Universitária UNIP EaD Profa. Elisabete Brihy Profa. M. Isabel Cristina Satie Yoshida Tonetto Material Didático Comissão editorial: Profa. Dra. Christiane Mazur Doi Profa. Dra. Ronilda Ribeiro Apoio: Profa. Cláudia Regina Baptista Profa. M. Deise Alcantara Carreiro Profa. Ana Paula Tôrres de Novaes Menezes Projeto gráfico: Revisão: Prof. Alexandre Ponzetto Josiana Araújo Akamine Lucas Ricardi Sumário Supervisão de Formação Profissional APRESENTAÇÃO ......................................................................................................................................................9 INTRODUÇÃO ........................................................................................................................................................ 10 Unidade I 1 O ETHOS PROFISSIONAL DO SERVIÇO SOCIAL..................................................................................... 13 1.1 O que é a ética profissional? ............................................................................................................ 13 1.2 Construção do ethos profissional .................................................................................................. 13 1.3 Trajetória do ethos profissional em serviço social .................................................................. 16 1.4 Ethos conservador do serviço social ............................................................................................. 16 1.5 Ethos de ruptura ................................................................................................................................... 18 1.6 Serviço social: uma profissão liberal ............................................................................................ 20 1.7 Regulamentação do serviço social: contextualização histórica ....................................... 21 1.7.1 Conhecendo a lei de regulamentação da profissão de assistente social ......................... 22 1.7.2 Contextualização do serviço social ................................................................................................. 24 2 COMPETÊNCIA E HABILIDADE DO ASSISTENTE SOCIAL ................................................................... 25 2.1 Código de Ética de 1993: algumas considerações .................................................................. 25 2.2 Princípios fundamentais do Código de Ética de 1993 .......................................................... 26 2.3 Direitos e responsabilidades gerais do assistente social ...................................................... 31 3 COTIDIANO: ESPAÇO DE ATUAÇÃO DO ASSISTENTE SOCIAL ......................................................... 33 3.1 Práxis: categoria essencial no fazer profissional ..................................................................... 34 3.2 O que é o Projeto Ético‑Político? ................................................................................................... 35 3.3 Então, qual é o caminho? ................................................................................................................. 38 3.4 Serviço social e relação teoria/prática ......................................................................................... 39 3.5 Atitude investigativa e o serviço social ....................................................................................... 41 3.6 Atitude de mediação: desmistificando o significado ............................................................ 42 4 GESTÃO EM SERVIÇO SOCIAL ..................................................................................................................... 45 4.1 Em que consiste a gestão social? .................................................................................................. 47 4.2 Atribuições do gestor social ............................................................................................................. 51 4.2.1 O que é ser um gestor e um gestor social? .................................................................................. 52 4.3 Eminência de novos princípios para a gestão social ............................................................. 54 4.4 Ferramentas de gestão social ..........................................................................................................você compreenderá como se dá o processo punitivo àquele que viola o Código. O art. 2º estabelece os direitos do assistente social em seu trabalho, como: a) garantia e defesa de suas atribuições e prerrogativas, estabelecidas na Lei de Regulamentação da Profissão e dos princípios firmados neste Código; b) livre exercício das atividades inerentes à Profissão; c) participação na elaboração e gerenciamento das políticas sociais, e na formulação e implementação de programas sociais; d) inviolabilidade do local de trabalho e respectivos arquivos e documentação, garantindo o sigilo profissional; e) desagravo público por ofensa que atinja a sua honra profissional; f) aprimoramento profissional de forma contínua, colocando‑o a serviço dos princípios deste Código; g) pronunciamento em matéria de sua especialidade, sobretudo quando se tratar de assuntos de interesse da população; h) ampla autonomia no exercício da Profissão, não sendo obrigado a prestar serviços profissionais incompatíveis com as suas atribuições, cargos ou funções; i) liberdade na realização de seus estudos e pesquisas, resguardados os direitos de participação de indivíduos ou grupos envolvidos em seus trabalhos (CFESS, 1993, p. 26‑27). O art. 3º determina os seus deveres: a) desempenhar suas atividades profissionais, com eficiência e responsabilidade, observando a legislação em vigor; b) utilizar seu número de registro no Conselho Regional no exercício da Profissão; c) abster‑se, no exercício da Profissão, de práticas que caracterizem a censura, o cerceamento da liberdade, o policiamento dos comportamentos, denunciando sua ocorrência aos órgãos competentes; 32 Unidade I d) participar de programas de socorro à população em situação de calamidade pública, no atendimento e defesa de seus interesses e necessidades (CFESS, 1993, p. 27). O art. 4º institui o que a ele é vedado: a) transgredir qualquer preceito deste Código, bem como da Lei de Regulamentação da Profissão; b) praticar e ser conivente com condutas antiéticas, crimes ou contravenções penais na prestação de serviços profissionais, com base nos princípios deste Código, mesmo que estes sejam praticados por outros/as profissionais; c) acatar determinação institucional que fira os princípios e diretrizes deste Código; d) compactuar com o exercício ilegal da Profissão, inclusive nos casos de estagiários/as que exerçam atribuições específicas, em substituição aos/às profissionais; e) permitir ou exercer a supervisão de aluno/a de Serviço Social em Instituições Públicas ou Privadas que não tenham em seu quadro assistente social que realize acompanhamento direto ao/à aluno/a estagiário/a; f) assumir responsabilidade por atividade para as quais não esteja capacitado/a pessoal e tecnicamente; g) substituir profissional que tenha sido exonerado/a por defender os princípios da ética profissional, enquanto perdurar o motivo da exoneração, demissão ou transferência; h) pleitear para si ou para outrem emprego, cargo ou função que estejam sendo exercidos por colega; i) adulterar resultados e fazer declarações falaciosas sobre situações ou estudos de que tome conhecimento; j) assinar ou publicar em seu nome ou de outrem trabalhos de terceiros, mesmo que executados sob sua orientação (CFESS, 1993, p. 27‑28). Enfim, em seu cotidiano profissional, deve atentar‑se em estar alinhado com o Código de Ética Profissional; veremos este assunto em seguida. 33 SUPERVISÃO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL 3 COTIDIANO: ESPAÇO DE ATUAÇÃO DO ASSISTENTE SOCIAL A vida cotidiana é um campo de estudo de diversos autores na área do serviço social. Traremos algumas contribuições para a entendermos enquanto espaço do fazer profissional do assistente social. Para Carvalho e Netto (2000), ela é feita dos mesmos gestos, repetidos todos os dias, como levantar‑se nas horas certas para ir ao trabalho, à escola, realizar os afazeres domésticos etc.; está presente em todas as áreas da vida. Para os autores, são atividades repetitivas, as quais são percebidas no nível da singularidade, de forma mecânica e automatizada, despidas de qualquer consciência. A vida cotidiana, portanto, se insere na história, se modifica e modifica as relações sociais. Mas a direção destas modificações depende estritamente da consciência que os homens portam de sua “essência” e dos valores presentes ou não ao seu desenvolvimento (Carvalho; Netto, 2000, p. 29). É na vida cotidiana que se concretiza a práxis profissional. O assistente social intervém na realidade social e é um mediador entre a população usuária e o Estado. O serviço social tem sua peculiaridade e especificidade, e atua na prestação de serviços para suprir as necessidades humanas da classe excluída de bens, riquezas e serviços socialmente produzidos. Dissemos que ele é um mediador – vamos entender o que é a mediação. Essa é uma categoria da práxis do assistente social e, de acordo com Netto (2001), é a terceira categoria central citada por Marx e que permite viabilizar a dinâmica da totalidade concreta. “Na reconstrução do movimento da totalidade concreta, é a categoria mediação que assegura a alternativa da síntese das muitas determinações, ou seja, a elevação do abstrato ao concreto” (Carvalho; Netto, 2000, p. 83). Ela é utilizada para decifrar as demandas institucionais que lhe são impostas no cotidiano de sua atuação profissional. As demandas sociais aparecem de forma singular, despidas de qualquer mediação; são o fato em si, tal qual se apresenta. “Somente pela reconstrução teórico‑reflexiva das situações particulares e objetivas, podem‑se avaliar as possibilidades contidas na dinâmica institucional e no exercício profissional” (Brites; Sales, 2000, p. 75). A partir de uma reflexão teórica, por meio da mediação, ele ultrapassa a singularidade dos fatos levando‑os para a dinâmica da totalidade, isto é, relacionando‑os com os aspectos políticos, econômicos, sociais e culturais da sociedade, para alcançar a particularidade do problema, entender os fatores que contribuem para a ocorrência daquele fenômeno social, para, depois, intervir de forma propositiva, assim como contribuir com a transformação da realidade. Segundo Carvalho e Netto (2000, p. 51), esse profissional busca o seu “referencial de ação nas complexas relações sociais de reprodução e dominação, ignorando o cotidiano como palco onde estas mesmas relações se concretizam e se afirmam”. 34 Unidade I É preciso entender que a práxis dele se dá no cotidiano da instituição na qual está inserido e que, para decifrar a realidade institucional, precisa estar revestido de conhecimentos teórico‑metodológicos, técnico‑operativos e ético‑políticos, pois é por meio da práxis, no cotidiano do fazer profissional, que se deve construir uma atuação competente, com todo o respaldo teórico‑metodológico adquirido em sua formação acadêmica, voltada para o Projeto Ético‑Político da profissão. 3.1 Práxis: categoria essencial no fazer profissional A prática e a práxis são categorias que se relacionam e se interagem na atuação do assistente social, e esse tem como objeto de atuação as múltiplas expressões da questão social. Para atuar na questão social na sociedade capitalista, ele precisa conhecer a realidade para intervir sobre ela de forma propositiva, apresentando respostas criativas e inventivas, que sejam capazes de transformá‑la. Para apresentar essas respostas, ele necessita estar revestido de conhecimentos teórico‑metodológicos. Todos os aspectos anteriormente mencionados, exigidos na atuação do assistente social, compõem sua prática e contribuem para a constituição da sua práxis. É necessário entender que prática e práxis precisam estar intrinsecamente relacionadas e integradas para que sua intervenção não seja mera execução de tarefas preestabelecidas. Ao contrário, deve transformar a realidade, bem como contribuir para a construção de uma nova ordem societária, mais justa, equânime e fraterna. Segundo Iamamoto (2022), é precisocompreender os fundamentos históricos, teóricos e metodológicos do serviço social. Essa compreensão requer entender como a profissão foi socialmente determinada na sociedade e refletir como ela se desenvolve nas relações entre as classes sociais – burguesia e trabalhadores, por meio de uma intervenção especializada. Pensar a profissão é também pensá‑la como fruto dos sujeitos que a constroem e a vivenciam (Iamamoto, 2022, p. 57). A práxis desse profissional ocorre por meio do acúmulo de conhecimentos teóricos que contribuem para atuar de forma sistematizada. Os saberes teóricos são adquiridos, construídos e incorporados por ele ao longo do processo histórico de constituição da profissão e das demandas sociais que exigem a sua intervenção. Brites e Sales (2000, p. 70) discorrem que [...] a práxis aqui reivindicada decorre de uma construção coletiva expressa na direção social do Projeto Ético‑Político do Serviço Social que ganha [...] substância por meio da adesão consciente e crítica aos princípios e valores presentes no Código de Ética dos Assistentes Sociais. A práxis profissional é uma categoria relacionada a toda atividade laboral. No entanto, nem toda atividade exercida é práxis, pois essa se define pelo conjunto de atividades que objetivam a modificação de determinada realidade e que se traduz na transformação social. Ela não é dissociada da ação prática, porém, para constituí‑la, é preciso que as ações estejam articuladas e estruturadas como um todo, 35 SUPERVISÃO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL isto é, em um processo total que culmine na transformação da realidade. Para Marx, segundo afirma Vázquez (1997), a finalidade da práxis é a transformação real e objetiva do mundo natural e social, visando à satisfação das necessidades humanas. É o resultado de uma nova realidade que só é desempenhada por meio do homem, para o homem como ser social. Vázquez (1997) ainda salienta que se o homem aceitar a realidade social como lhe é imposta, e se, por outro lado, aceitar a si mesmo no estado natural, não terá vontade e necessidade de transformá‑la e nem de se transformar. Existem outros fatores que a determinam, como a investigação, um instrumento indispensável na atuação profissional para a compreensão da realidade. Ela possibilita ao assistente social exercê‑la com capacidade teórica, o que fortalece e impulsiona a sua intervenção. Segundo Lefebvre (1973 apud Iamamoto, 2015, p. 50), vivemos em uma sociedade que envolve contradições de classes, na qual a práxis do assistente social depende do conhecimento que ele tem da realidade que o cerca, da capacidade de entender a correlação de forças existentes para não incorrer no risco de propor ações que culminem em resultados neutralizados ou que venham a beneficiar os interesses das classes dominantes em detrimento dos interesses da população usuária do serviço social. O assistente social precisa organizar e sistematizar suas ações a partir de fundamentação teórica, para provocar possibilidades que visem transformar o ideal de mudanças em realidade e exercer uma práxis revolucionária, capaz de contribuir para mudar as bases econômicas, sociais e políticas onde se constitui o poder material e ideológico da classe dominante. A práxis profissional deve primar pela construção de uma nova sociedade, sem as marcas da exploração e da desigualdade. Essa construção não é algo impossível, basta que ela seja incorporada pelo assistente social a partir de uma práxis de luta dirigida ao principal agente dessa mudança – o usuário do serviço social – e que nessa luta a sua atuação seja norteada por valores e princípios do Código de Ética do Assistente Social, além de estar voltada para a concretização do Projeto Ético‑político do Serviço Social. 3.2 O que é o Projeto Ético‑Político? Para defini‑lo, nada mais lúcido que trazer o conceito dado por Reis (2003, p. 405‑406): Trata‑se de uma projeção coletiva que envolve sujeitos individuais e coletivos em torno de uma determinada valoração ética que está intimamente vinculada a determinados projetos societários presentes na sociedade que se relacionam com os diversos projetos coletivos (profissionais ou não) em disputa na mesma sociedade. Essa concepção, a priori, é complexa. Precisamos compreender com clareza o que são projetos e suas ramificações – projetos individuais, coletivos e societários. Conforme Netto (1999), projeto é uma ação teleológica (ação orientada para objetivos, metas e fins), e cada indivíduo social tem o seu. 36 Unidade I Os projetos profissionais são coletivos e apresentam a autoimagem de uma profissão. São construídos pela categoria profissional organizada. Possuem dimensão ético‑política que extrapola as particularidades da categoria, tendo em vista que estão inseridos em uma dada sociedade e se atrelam a determinados projetos nela. Os projetos societários são mais abrangentes e apresentam a imagem da sociedade a ser construída (proposta para o conjunto da sociedade). No capitalismo, são os de classe, têm uma dimensão política por envolver relações de poder e possuem propostas para o conjunto da sociedade. Num contexto ditatorial, a vontade política da classe social que exerce o poder político vale‑se, para a implementação do seu projeto societário, de mecanismos e dispositivos especialmente coercitivos e repressivos. É somente quando se conquistam e se garantem as liberdades políticas fundamentais (de expressão e manifestação do pensamento, de associação, de votar e ser votado etc.) que distintos projetos societários podem confrontar‑se e disputar a adesão dos membros da sociedade. Todavia, também a experiência histórica demonstrou que, na ordem do capital, por razões econômico‑sociais e culturais, mesmo num quadro de democracia política, os projetos societários que respondem aos interesses das classes trabalhadoras e subalternas sempre dispõem de condições menos favoráveis para enfrentar os projetos das classes proprietárias e politicamente dominantes (Netto, 1999, p. 3). O serviço social constrói seu projeto profissional em consonância com o ideário político da categoria profissional (que consiste no posicionamento claro e definido a favor das classes subalternizadas) ao mesmo tempo que traz particularidades ético‑valorativas (conjunto de princípios e fundamentos filosóficos) construídas pelos sujeitos individuais e coletivos que compõem o universo profissional. Barroco (2022, p. 66) vem corroborar essa afirmação: A coesão dos agentes profissionais, em torno de valores e finalidades comuns, dá organicidade e direção social a um projeto profissional. Esse aspecto, no entanto, diz respeito ao movimento interno da profissão, o que não existe sem mediações externas. A cultura, em geral, e a moral, em especial, são determinantes na configuração da moralidade dos agentes, influenciando sua ética profissional. Cabe aqui perguntar: afinal, o que é esse Projeto Ético‑Político do Serviço Social? Como se configura? Ele pode ser assim resumido: reflete o ideário da categoria profissional, consistindo em um posicionamento político claro e definido por um determinado projeto de transformação social. É a opção preferencial pela classe trabalhadora no jogo de poder da sociedade capitalista. Ele define aquilo que a categoria almeja como profissão comprometida com as classes subalternizadas, tendo como objetivo final uma nova ordem societária. 37 SUPERVISÃO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL Nos termos de Netto (1999, p. 104‑105), é traduzido como aquele que Tem em seu núcleo o reconhecimento da liberdade como valor ético central – a liberdade concebida historicamente, como possibilidade de escolher entre alternativas, daí um compromisso com a autonomia, a emancipação e plena expansão dos indivíduos sociais. Esses valores foram construídos historicamente. Ainda, para o autor: O projeto profissional vincula‑se a um projeto societário que propõe a construção de uma nova ordem social, sem dominação e/ou exploraçãode classe, etnia e gênero. A partir dessas escolhas que o fundam, tal projeto afirma a defesa intransigente dos direitos humanos e a recusa do arbítrio e dos preconceitos, contemplando positivamente o pluralismo – tanto na sociedade como no exercício profissional (Netto, 1999, p. 104‑105). Ele não nasceu da “noite para o dia”, é um resultado sócio‑histórico do processo de ruptura com o conservadorismo profissional, e tem como marco inicial o famoso Congresso da Virada (III CBASS – Terceiro Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais), realizado em 1979, quando a mesa do Congresso, composta por membros da ditadura, passa a ser ocupada por representantes da classe trabalhadora. A partir daí o Projeto Ético‑Político vai sendo construído. É possível dizer que ele nasce nos anos 1970, é desenvolvido nos anos 1980 e consolidado nos anos 1990. Essa legitimidade que o Projeto Ético‑Político adquire é resultado de diversos fatores internos e externos à profissão. Segundo Netto (1999), entre eles estão: • Crítica ao conservadorismo profissional. • Crise da ditadura brasileira, abertura política, conquista democrática. • Consolidação da produção de conhecimento do serviço social brasileiro: — Surgimento de massa crítica e acumulação teórica. Começam a surgir os primeiros autores dentro do serviço social. — Quebra do conservadorismo teórico e metodológico; encontro com o legado marxiano; autores do serviço social fundamentam‑se teoricamente na obra marxiana e em autores fidedignos da teoria de Marx. — O Serviço Social constitui‑se como uma área de produção do conhecimento (1981 – 1ª Turma de Doutorado A L./São Paulo). Esse momento propicia a produção do conhecimento dentro e para o serviço social. 38 Unidade I • Debate sobre a formação curricular – Reforma curricular de 1982: — Apelo à construção de um novo perfil profissional. • Dimensão político‑organizativa da profissão: — Fórum de deliberação (o conjunto CFESS/CRESS, ABEPSS e Enesso). • Dimensão jurídico‑política da profissão: conjunto de leis e resoluções, documentos e textos políticos consagrados no seio profissional: Código de Ética; Lei de regulamentação da Profissão (Lei n. 8.662/1993); Diretrizes Curriculares – MEC; e conjunto das leis advindas do capítulo da ordem social da Constituição Federal – Loas. Corrobora‑se a discussão de que o Projeto Ético‑Político está inacabado e uma das formas de materializá‑lo é pelo Código de Ética Profissional, ferramenta primordial que orienta o exercício profissional do assistente social. O debate contemporâneo em torno da ética em serviço social percorre a discussão de como operacionalizar na prática esse projeto: quais os desafios que se apresentam para o assistente social, hoje, em operacionalizá‑lo, tendo em vista que as demandas do cotidiano tendem a ser cada vez mais multifacetadas? Demanda multifacetada é a totalidade complexa que invade as expressões da questão social, objeto de intervenção do assistente social. Ou seja, vivemos em uma realidade social em que as mudanças socioeconômicas, ideológico‑políticas e ético‑valorativas são tão aceleradas a ponto de “embaraçar a cabeça” das pessoas, fazendo com que todas percam a direção para onde estão indo e aonde vão chegar. São questões como essas que nos fazem refletir sobre qual é o papel do assistente social e como agir em consonância com um projeto que, para muitos, é utópico demais. Para essa discussão, partimos do princípio de que o assistente social não é um messias (o messianismo no serviço social significou uma corrente de pensamento defendida por profissionais que achavam que competia ao serviço social “mudar o mundo”). Mas também não se pode “cruzar os braços” e dizer que não há nada a se fazer, como ocorreu com o posicionamento fatalista de outro grupo de assistentes sociais. Ambas as correntes estão ultrapassadas e devem ser combatidas no seio da categoria. 3.3 Então, qual é o caminho? Pode ser complicado responder com precisão, diante de tamanha complexidade. Todavia, só há um caminho para os profissionais de serviço social atuarem em consonância com seu Projeto Profissional: assumir o compromisso firmado – via Projeto Ético‑Político e via Código de Ética – com os movimentos sociais das classes subalternizadas da sociedade brasileira; e utilizar os espaços sócio‑ocupacionais em que atuam, para, no exercício profissional, priorizar a qualidade dos serviços prestados à população, o que inclui a luta intransigente para que as decisões institucionais sejam abertas à participação dos usuários. 39 SUPERVISÃO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL Esse desafio traz à baila mais uma vez os termos de Netto (1999, p. 105): O projeto sinaliza claramente que o empenho ético‑político dos assistentes sociais só se potencializará se a categoria se articular com os segmentos de outras categorias profissionais que partilhem de propostas similares e, notadamente, com os movimentos que se solidarizam com a luta geral dos trabalhadores. Ante o exposto, cabe reiterar a importância do protagonismo do serviço social perante as discussões éticas contemporâneas e suas formas de enfrentamento. O verdadeiro compromisso ético da profissão consiste em contribuir com a dimensão ético‑política visando a um processo social que elimine a exploração do homem pelo homem, resgatando os princípios da igualdade, da liberdade e da justiça social (Mustafá, 2003, p. 370). A partir da abordagem do autor, percebe‑se que a ética não se configura como algo abstrato e longe da realidade. Ela, como componente crítico‑reflexivo das posições valorativas que perpassam a sociedade, é um elemento da luta social pela emancipação dos indivíduos sociais. E é aqui que se insere o assistente social na profissão, buscando‑se legitimar seu projeto profissional. 3.4 Serviço social e relação teoria/prática As dimensões imprescindíveis do serviço social para a junção da teoria com a prática são: • Referencial teórico-metodológico: construído na formação acadêmica, é pautado no saber teórico‑científico adquirido pelo acadêmico durante a formação e se estende permanentemente durante a vida profissional. • Dimensão técnico-operativa: compreende o conjunto de instrumentos de trabalho utilizado pelo assistente social para a execução de seu exercício. Esses instrumentos são: reuniões, entrevistas, entrevistas domiciliares, laudos, pareceres, relatórios etc. • Dimensão ético-política: determina a escolha do assistente social, por se pautar em uma postura ética adotada em sua prática profissional. • Dimensão investigativa: resulta da investigação da realidade, objetiva a compreensão da totalidade dos fatos, prima por romper com a imediaticidade dos fenômenos e analisa as demandas impostas, buscando soluções para os problemas dos usuários. Todas essas dimensões engendradas viabilizam a prática profissional exercida de forma totalitária, visando transformar e melhorar a qualidade dos serviços prestados pelo assistente social. 40 Unidade I Ressalta‑se que a teoria não é uma atitude contemplativa; ao contrário, dirige o pensamento e o intelecto do assistente social, em uma perspectiva que supera e transforma – a prática deve ser entendida e exercida como uma ação efetiva de transformação, superando o existente, buscando resultados concretos e materiais, como criação do profissional inscrito na divisão sociotécnica do trabalho contemporâneo. O referencial teórico é o elemento que ilumina e subsidia a sua ação. A teoria ilumina uma prática ainda não existente, permite elaborá‑la, possibilita o planejamento e atribui ao profissional conhecimentos e subsídios para desenvolver ações embrionárias. A prática é a práxis, compreendendo as atividades práticas humanas. A teoria está ligada ao conjunto do saber humano, apreendido por ele. Essas dimensões estão relacionadas e são desenvolvidas nas relações sociais, retiradas e abstraídas da história humana. A relação teoria/prática constitui um processo de reflexão complexo econtínuo, podendo passar da teoria para a prática e desta para aquela. No entanto, não se constitui de forma direta e imediata, pois é possível haver teoria sem prática e, normalmente, toda teoria tem base na prática, o que coaduna com o ensinamento de Vázquez (1997, p. 233‑234): [...] ao falar‑se da prática como fundamento e finalidade da teoria, deve‑se entender: a) que não se trata de uma relação direta e imediata, já que uma teoria pode surgir – e isso é bastante frequente na história da ciência – para satisfazer direta e imediatamente exigências teóricas, isto é, para resolver dificuldades ou contradições de outra teoria; b) que, portanto, só em última instância e como parte de um processo histórico‑social – não por meio de segmentos isolados e rigidamente paralelos a outros segmentos da prática –, a teoria corresponde a necessidades práticas e tem sua fonte na prática. A prática e a teoria implicam trabalhar o exercício profissional; além disso, permitem a viabilidade de apontar, resgatar e corrigir as deficiências, bem como entender os limites, recursos e possibilidades do assistente social. Com esse embasamento, é possível que ele socialize conteúdos, construa análises e estude as situações, exercendo o seu papel e produzindo respostas às demandas que a realidade lhe apresenta. Atitude interventiva Atitude investigativa Prática profissional Figura 1 – Práxis profissional 41 SUPERVISÃO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL A prática profissional do assistente social nunca pode estar desvinculada da teoria, pois esta sustenta aquela. A prática, quando embasada, pode criar teorias, desde que seja cultivada a atitude investigativa no cotidiano profissional. 3.5 Atitude investigativa e o serviço social A investigação no serviço social tornou‑se um caráter instrumental, tendo em vista que foi incorporada na profissão após a reformulação e o posicionamento dos assistentes sociais frente ao Movimento de Reconceituação. Ela passou a fazer parte da formação acadêmica durante o processo de aprendizagem teórico‑metodológica e do exercício profissional na divisão sociotécnica do trabalho. Segundo Battini (1994), ela tem caráter dual, pois é voltada ao exercício profissional e à produção de conhecimento, determinando uma distinção na relação sujeito/objeto. Cumpre a função de sujeito quando é um instrumento para a execução da prática do assistente social e de objeto quando é utilizada pelo serviço social como produção de conhecimento. Segundo essa autora, a prática possui duas vertentes de exercício: a da ação interventiva e a da ação investigativa. Para utilizar o instrumental da investigação, é necessário que ele tenha o suporte da unidade teoria‑prática. O referencial teórico garante que a investigação seja utilizada para uma pesquisa cujo objetivo é conhecer a realidade social em sua totalidade e possibilitar o movimento pensamento/realidade. Essa mediação só é possível pela junção dos dois elementos, os quais iluminam a investigação. Segundo Kameyama (1995), teoria e prática são aspectos inseparáveis do conhecimento e devem ser consideradas em sua unidade, levando‑se em conta que a teoria não só se nutre da prática social e histórica como também representa uma força transformadora que revela à pratica os caminhos da transformação. A investigação, como instrumento para o exercício profissional, busca compreender a sociedade, apreender as relações sociais, a fim de identificar os problemas impostos nas demandas apresentadas aos assistentes sociais. Para tal propósito, exige‑se um novo perfil profissional, que esteja atento à dinamicidade da sociedade, capaz de criar, propor e construir novos caminhos. Iamamoto (2022, p. 49) pormenoriza que o [...] novo perfil que se busca construir é um profissional afinado com a análise dos processos sociais, tanto em suas dimensões macroscópicas quanto em suas manifestações quotidianas; um profissional criativo inventivo, capaz de entender o “tempo presente, os homens presentes, a vida presente” e nela atuar, contribuindo, também, para moldar os rumos de sua história. 42 Unidade I Pela investigação é possível construir um diagnóstico, avaliar as situações e planejar as estratégias para o assistente social intervir. Podemos dizer que a atitude investigativa (investigação) está intrinsecamente ligada à atitude interventiva (intervenção). Analisar a realidade por meio da investigação faz com que se quebrem os estereótipos de que a ação profissional do serviço social é pautada e centrada na imediaticidade, na superficialidade e no assistencialismo. Para colocar em prática a atitude investigativa e mantê‑la constantemente integrada ao exercício profissional, exige‑se a unidade teoria‑prática, elemento que permite ao profissional questionar e criticar a realidade, construir e reconstruir o real. Com a utilização dessa leitura, é possível intervir na realidade social construindo caminhos que levem a soluções para as demandas e os problemas impostos. Para compreender uma situação e intervir nela com competência, Battini (1994) discorre que o assistente social precisa: • Ter clareza do referencial teórico que ilumina a leitura que faz da realidade (competência teórica para a reconstrução de conceitos). Essas referências são escolhidas por ele segundo sua visão de mundo e como se posiciona no jogo de forças da sociedade, com aqueles grupos que mais se aproximam de sua ideologia. • Ter habilidades para atuar na sociedade usando instrumental técnico e estratégias adequados para o enfrentamento da questão social, objeto da sua intervenção (competência técnica). • Inscrever‑se de modo crítico nas demandas sociais e ter consciência da repercussão de sua intervenção na defesa de um projeto de sociedade (dimensão política). Para que a mudança seja consolidada, a pesquisa é a base para essa competência. Por meio de uma atitude investigativa, pode intervir no cotidiano, bem como é capaz de criar possibilidades de explicações. Podemos reafirmar que a atitude investigativa é um instrumental ou uma categoria que permite desvelar a realidade, aprofundar‑se nas análises das situações reais, saindo do imediato para visualizar e apreender a totalidade dos fatos e construir estratégias para serem utilizadas no desempenho do trabalho. Para tal atitude, é imprescindível relacionar a teoria com a prática. 3.6 Atitude de mediação: desmistificando o significado A mediação está na base do método dialético; porém, alguns autores a tratam como sendo intermediária, meio‑termo ou algo relacionado. Sobre ela, Pontes (2017, p. 38) ensina que [...] é uso correto compreender o termo mediação como ação de atuar como mediador de conflitos de natureza política, jurídica, familiar etc., visando à conciliação de interesses entre partes. No campo particular do serviço social, a prática da mediação, tomada nesta visão, encontra‑se atualmente em expansão nas instituições de serviços sociais de várias naturezas, já sendo possível encontrar, inclusive, cursos interdisciplinares para mediadores. 43 SUPERVISÃO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL A proposta aqui é apresentar e discutir a mediação em uma perspectiva mais ampla, como “categoria objetiva, ontológica, que tem de estar presente em qualquer realidade, independente do sujeito” (Lukacs apud Pontes, 2017, p. 38). Para o materialismo histórico dialético, mediação é o processo de superação do senso comum – ela permite a criticidade. Mediar significa passar pelas fases da singularidade, da universalidade e da particularidade. A singularidade é o nível do imediato, do fato tal qual ele aparece no cotidiano, é a aparência, o fenômeno visto a olho nu. É o plano da imediaticidade. Pontes (2017, p. 85) esclarece que “[...] o plano da singularidade é a expressão dos objetos ‘em si’, ou seja, é o nível de sua existência imediata em que se vão apresentar os traços irrepetíveis das situações singulares da vida em sociedade, que se mostram como coisas fortuitas, rotineiras, casuais”.Doravante, articula‑se esse fato com a universalidade – as leis gerais. É o plano em que se colocam grandes determinações gerais de uma dada formação histórica. Feito esse processo de relação/conexão e singularidade/universalidade, particulariza‑se o objeto, ou seja, passa a compreendê‑lo a partir da relação singularidade/universalidade. A particularidade é o campo das mediações – objeto rico de reflexões, questionamentos e interpretações. É sair do imediatismo e compreender o objeto como parte de uma dinâmica social mais ampla. A noção de particularidade, aqui, é reforçada por Agnes Heller (apud Pontes, 2017, p. 87), ao expor que: [...] a relação indivíduo‑sociedade pode vir a ser analisada sem esquematismos empobrecedores; quer seja do papel do indivíduo – que na realidade exprime na sua particularidade o modo genérico da vida humana –, quer seja do papel da sociedade, que na sua dinâmica exprime em essência o modo geral da vida individual. A tríade particularidade/singularidade/universalidade compõe o caminho metodológico das aproximações sucessivas, como parte da totalidade. Pontes (2017, p. 39) corrobora com essa afirmativa: [...] a totalidade não é a soma das partes, mas um grande complexo constituído de complexos menores. Quer dizer: não existe no ser social o elemento simples, tudo é complexidade [...]. Cada complexo social ou totalidade parcial se articula em múltiplos níveis e por meio de múltiplos sistemas de mediações a outros, levando‑nos a uma sequência real e também lógica, para entender a totalidade concreta. 44 Unidade I A totalidade configura‑se, então, como categoria concreta, em que se dá a construção do real, ou seja, “é a essência constitutiva do real” (Pontes, 2017, p. 70). Por meio da figura a seguir, podemos compreender melhor a mediação em serviço social. Singularidade Universalidade Particularidade Figura 2 – Esquema das aproximações sucessivas da totalidade – tríade particularidade, universalidade e singularidade, elementos que compõem a mediação em serviço social A mediação é imprescindível para a construção teórico‑metodológica do serviço social. Pelo processo de mediação acontece a intervenção profissional e a elaboração do instrumental metodológico. A mediação fornece ao serviço social o caráter da competência teórico‑crítica e técnico‑operativa, pois ela constitui o diferencial da intervenção. Posteriormente, abordaremos de forma mais explícita a sua importância para a prática do assistente social. Cabe ressaltar que o assistente social lida diariamente com um leque de situações que se apresentam no espaço sócio‑ocupacional sob forma de fatos, problemas de cunho individual, familiar, grupal e comunitário. Essas situações imediatas não são revestidas de criticidade. Apresentam‑se de forma singular, sem uma reflexão que o faça ultrapassar a experiência factual. Como dito anteriormente: esses fatos são vistos a olho nu, sem implicações analíticas. Eis a singularidade: esses acontecimentos e situações precisam sair da facticidade, é necessário compreendê‑los e entendê‑los como parte da totalidade social que sofre interferência de leis e relações sociais mais dinâmicas. Esse é um dos problemas que o assistente social lida. Fazer essa interlocução implica capturar, no próprio cotidiano de seu fazer profissional, a interferência de forças, das leis sociais, bem como perceber essa relação concreta entre singular e universal. A mediação ocorre a partir dessa relação. Ou seja, o campo da particularidade manifesta‑se no momento em que a singularidade da situação é analisada, refletida e investigada, o que demanda do assistente social uma intervenção concreta. 45 SUPERVISÃO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL Particularizar o objeto significa fazer a mediação – o profissional vê o problema, faz a sua relação com as leis gerais da sociedade, seja nos aspectos sociais, seja nos aspectos econômicos, políticos e culturais; desse ponto, apropria‑se do objeto de intervenção, agindo com competência. Vamos exemplificar uma situação na qual ocorre a mediação. Em caso de adoção, mediar significa analisar o processo (denominado de auto) a partir das interlocuções necessárias (aqui se insere toda a dinâmica do processo: adotantes, adotado, pais biológicos, circunstâncias – toda a sistemática que envolve um processo de adoção) e não apenas o fato imediato. Significa perceber o fato como parte de um processo com implicações econômicas e socioculturais. O assistente social, nesse caso em questão, via de regra, faz um estudo social de toda a situação da criança a ser adotada: visitas domiciliares, entrevistas, estudo dos autos etc.; posteriormente, emite um laudo com parecer social. Esse procedimento envolve toda a sistemática que vai do conhecimento teórico‑metodológico que ele adquiriu ao longo de sua formação, passando pelos fundamentos ético‑políticos que norteiam a sua ação, até a apropriação das leis e referenciais que respaldarão sua decisão no processo de adoção. Isso tudo é a mediação! Na mediação, ele precisa conhecer bem a realidade, pois isso vai orientar a sua intervenção. Nos termos de Pontes (2017, p. 49), é “uma efetiva forma de resistência e de luta contra a barbárie, que também fortalece o projeto de emancipação humana”. A mediação é um caminho metodológico dinâmico a ser percorrido para viabilizar a aproximação com o que há de mais real na totalidade. É uma categoria presente no cotidiano do assistente social, que necessita desenvolver uma percepção do todo social. Seu fazer, mesmo o mais particularizado, precisa buscar elementos na prática em totalidade. Dentro do todo social, há o que é universal, como os valores e as crenças que predominam na sociedade como verdades. A mediação se dá justamente na relação concreta do que é singular com o que é universal, para daí compreender o fenômeno que lhe é apresentado e intervir na particularidade de cada situação. 4 GESTÃO EM SERVIÇO SOCIAL No final da década de 1980, o Brasil acabava de sair de uma ditadura militar. A população, representada por diferentes movimentos sociais, ansiava por direitos e exerceu papel decisivo na garantia legal de direitos, representada pela Constituição Federal de 1988. Como vimos, nesse período, antagonicamente, o País estava no início da influência do neoliberalismo, e o Estado não atendia às demandas sociais de forma universalista. Veja só que contradição! Em meio a essa tensão de forças que marcaram o final dessa década (de um lado, o Estado tenta retirar‑se da área social; de outro, é pressionado a ampliar sua intervenção), saem do meio da sociedade civil os ideais de cooperação e associativismo como formas alternativas de responder às demandas sociais, sob a alegação de que o Estado não abarcava todas as exigências. 46 Unidade I O Estado, estrategicamente, passou a defender e a incentivar a entrada do segundo e terceiro setores como forma de “dividir” a responsabilidade pelo social, mesmo que para isso fosse preciso financiar as intervenções, fazendo com que fosse interpretado como uma espécie de “terceirização dos serviços públicos”. Nessa “onda”, as grandes empresas passaram a intervir na área social para buscar um perfil mais comunitário, o que lhes rendeu melhor visibilidade e credibilidade, além de outros benefícios que veremos mais adiante. É importante perceber que, a partir do final de 1980, não é somente o Estado responsável por atender diretamente às demandas sociais, mas é de sua responsabilidade dar condições para que o segundo e o terceiro setores atuem de maneira complementar às suas ações. Vale destacar que a população, ou melhor, nós, devemos cobrar os serviços de caráter público do Estado, e isso não quer dizer negar as outras iniciativas complementares, mas compreendê‑las como mais focais e limitadas. Caso contrário, corremos o risco de subestimar o poder estatal e deixar de exigir seu caráter interventor, o que seria conveniente na perspectiva neoliberal. Com isso, colaboraríamospara a perda gradativa dos direitos que temos garantidos na Constituição Federal de 1988. Isso seria um imenso retrocesso para a construção da cidadania! É preciso entender que a partir disso passam a existir três esferas de intervenção social – Estado, iniciativa privada e terceiro setor. Essa corresponsabilidade é denominada welfare mix ou Estado‑misto. Veja o quadro a seguir e analise as distinções e as semelhanças que há entre o primeiro, segundo e terceiro setores. Preste atenção como são compostos os recursos que sustentam cada um e como são destinados. Quadro 1 – Composição dos setores de atuação na área social Origem dos recursos Destinação dos recursos Denominação Setor Recursos públicos (originados de impostos, multas e tarifas públicas) Bem‑estar coletivo (gestão e atendimento público gratuito) Estado 1º setor Recursos particulares (fontes privadas) Negócios particulares que visam ao lucro Mercado/empresas 2º setor Recursos particulares (fontes privadas, assim como repasses públicos para execução de serviço de atendimento às demandas) Bem‑estar coletivo (gestão e atendimento público gratuito) Terceiro Setor (ONGs) (OSCIPs) 3º setor Fonte: Santana (2008, p. 28). Com a entrada do segundo e do terceiro setores na intervenção social, naturalmente abre‑se um leque imenso de debates ideológicos, metodológicos, e assim por diante. O que nos interessa é perceber o quanto as intervenções na área social se diversificaram e, ao mesmo tempo, tornaram‑se tão complexas. Gerir o social é o “assunto da vez”, pois tanto o aparelho estatal como as empresas privadas e o terceiro setor buscam formas de intervir nessa área, mas esbarram em falta de domínio de conhecimentos teóricos, técnicos e políticos, além de divergentes motivações. 47 SUPERVISÃO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL Assim é fácil entender o porquê de tanta ênfase na área social, pois é somente a partir da década de 1990 que o tema gestão social passa a ser tão discutido nos três setores, principalmente na tentativa de encontrar metodologias e ferramentas adequadas para gerir o social. Para isso, recorre‑se a elementos da administração, o que gera uma série de dissensos e consensos entre a área empresarial e a social, como veremos mais adiante. 4.1 Em que consiste a gestão social? Você já parou para pensar em que consiste a relação que a gestão social estabelece conosco em nossa vida privada, social e profissional? Para buscar essa resposta, é necessário compreender o cenário econômico e social da contemporaneidade e passar a relacioná‑lo com as esferas de nossa vida em sociedade, já que somos seres/sujeitos inseridos direta e indiretamente nesse contexto. Para dar sequência, é bom ter claro que da década de 1970 até hoje passou‑se a buscar e a ser exigida uma nova postura ética e social, tanto das organizações privadas como da sociedade civil organizada e do próprio Estado. Moraes (apud Santana, 2008, p. 22) expõe que: [...] a preocupação transversal torna‑se bastante clara – a sobrevivência da humanidade e a manutenção do seu sistema econômico e social. [...] torna‑se evidente que produzir riquezas e alimentos é prioritário [...]. O contexto de contradições e de busca por alternativas de equilíbrio entre o ambiental, o social e o econômico, fortalece a sociedade civil, que lentamente acorda de uma longa noite de sonhos com o fascinante mundo do consumo e se vê empoderada de um novo status, cabendo‑lhe agora a responsabilidade por renunciar a produtos oriundos de processos produtivos hostis ao homem, a sua sociedade e ao meio ambiente do qual é responsável e plenamente dependente. [...] preestabelecendo agora a necessidade de competências de gestão social a todos que pretendem ingressar ou permanecer em situação produtiva e porque não dizer, economicamente ativa. [...] Dessa forma, abre‑se um novo mercado de trabalho, no qual se concebe a figura do gestor social como aquele indivíduo que, independentemente do nível hierárquico ou da área de formação, é mediador multiqualificado, situando‑se em um contínuo que vai da capacidade de dar respostas eficazes e eficientes às situações cotidianas a de enfrentar problemas de alta complexidade [...], tornando‑se indispensável às organizações competitivas. [...] Por fim, neste cenário, conclui‑se que a gestão social é indiscutivelmente necessária às organizações [...]. Para a manutenção da sociedade, é necessário haver, urgentemente, um equilíbrio entre a economia, o meio ambiente e a vida social, pois nenhum país consegue progredir economicamente se persistir em manter a degradação do meio em que vive e a crescente pauperização da maioria da população. Você acha que é possível haver um país rico, com uma população pobre e em um local inabitável devido à 48 Unidade I degradação ambiental? Muitos já chegaram à conclusão de que é impossível. Precisa‑se investir e gerir com o mesmo grau de atenção tanto na economia como na área social e ambiental. A gestão social é tão necessária em todos os tipos de organização, bem como é determinante na tentativa de buscar esse equilíbrio entre exploração da riqueza e bem‑estar social. Depois de tudo isso, talvez você pergunte: o que é gestão? Gestão é um termo proveniente da administração, cuja finalidade é governar as organizações ou parte delas. Ela envolve o planejamento, a direção e o controle de recursos organizacionais e prioriza o alcance da eficácia e eficiência de determinados objetivos. Segundo Maximiano (2000), a gestão é considerada a função mais importante de uma organização e conta com cinco componentes indispensáveis: • Planejamento: examina‑se o futuro, traçando um plano de ação em médio e longo prazos. • Organização: consiste em montar uma estrutura humana e material para realizar o empreendimento. • Comando: caracteriza‑se por manter o pessoal em atividade em toda a empresa. • Coordenação: consiste em reunir, unificar e harmonizar toda atividade e esforço. • Controle: cuida para que tudo seja realizado de acordo com os planos e as ordens. A gestão, portanto, é o processo de planejar, organizar, liderar e controlar o trabalho dos membros da organização (do primeiro, segundo ou terceiro setores) e de usar os recursos disponíveis para alcançar os objetivos estabelecidos. Ela pode ser compreendida como uma atividade dinâmica que consiste em tomar decisões sobre objetivos e recursos. Na perspectiva da administração, ela assume um caráter de racionalização, o que não coaduna com a perspectiva social, que vai muito além de técnicas de gerenciamento de pessoal e de recursos, pois envolve a participação e o empoderamento dos sujeitos sociais, que é o nosso foco. Precisamos nos apropriar de alguns conhecimentos da administração e do planejamento para compreender e aplicar a gestão na perspectiva social. 49 SUPERVISÃO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL Observação No final do século XX, Paulo Freire usou o termo empoderamento. Notável educador e escritor, teve como obra de maior destaque Pedagogia do oprimido (1970). Defendia uma educação de interação professor‑aluno, pois nela ambos aprendem. Em suas obras, criticou a passividade dos sujeitos e utilizou outros conceitos, como conscientização e cultura do silêncio. Por valorizar a cultura popular e defender a emancipação humana da opressão dominante, empregou sabiamente o termo empoderamento dos sujeitos, no sentido de conquista, avanço, superação por parte daquele que se empodera (sujeito ativo do processo). Alguns autores dizem que o empoderamento é o mesmo que empowerment – termo em inglês. Contudo, o segundo é utilizado na língua inglesa com outra conotação, pois propõe que tal transformação ocorre de fora para dentro, o que é o oposto do que Freire defendia – de dentro para fora, fruto da conquista, da tomada de consciência social e política por parte da população. Para o serviço social, é importante saber profundamente o que significa o termo empoderamento. Faleiros e outros autores renomadosem nossa área defendem que empoderar os sujeitos é, de fato, nosso objeto de intervenção como assistentes sociais. Saiba mais Leia o artigo “Questão social: objeto do serviço social?”, de Edineia Maria Machado. Além de fantástico, questiona o objeto de trabalho do serviço social, que é, até então, tido como a questão social. Ele traz uma nova discussão que ainda não foi aderida pela hegemonia da profissão, mas ganha força e se propaga no meio profissional, que é o empoderamento dos sujeitos ou empowerment. PROTA, L. et al. Curso de serviço social. Serv. Soc. Revista, Centro de Estudos Social Aplicados, Londrina, v. 1, n. 1, jul./dez. 1999. Disponível em: https://shre.ink/DMfc. Acesso em: 18 jul. 2024. 50 Unidade I Há duas perspectivas de gestão: da administração e do social. Você pode identificar melhor por meio das definições: • Gestão empresarial competitiva: pautada na competitividade e na pressão por resultados (de produção, de lucros). Utiliza‑se de empreendedorismo empresarial, daí seu caráter de racionalização. • Gestão social: pautada na eficácia, na eficiência e na efetividade das ações. É voltada para o empoderamento dos sujeitos, direitos sociais e democracia; além disso, conta com poder de negociação e articulação (redes), direcionada ao empreendedorismo social. Ficou mais claro? Podemos, então, concluir que o serviço social segue a linha da gestão social e não da administração empresarial competitiva. O gestor social, como defendido aqui, precisa estar atento às dimensões diversas da gestão, que deve abarcar o caráter político‑institucional, técnico‑operativo, psicossocial, educacional e agente de mudanças. Ele não pode incorrer no erro de tratar a dimensão administrativa de forma semelhante ao setor privado ou setor estatal. Observação O que é o empreendedorismo social? É uma ação inovadora para o campo social que acontece à medida que se faz uma leitura dos problemas locais e a partir dela elaboram‑se alternativas de enfrentamento. Trata‑se do “negócio do social” que tem, na sociedade civil e na parceria, envolvimento da comunidade, do governo e do setor privado como o seu principal foco de atuação. O empreendedor social é aquele que tem poder de iniciativa para criar e inovar na comunidade. É fundamental que ele esteja sensibilizado com a causa, pois, assim, haverá um envolvimento efetivo e eficaz com aquilo que faz. Ele consegue mobilizar os recursos humanos e materiais existentes na localidade a fim de transformar e contribuir para uma sociedade melhor. Todo empreendimento pode fracassar, mas o bom empreendedor assume riscos e ousa, contribui de alguma forma, criando e recriando alternativas de resolução de impacto para os problemas sociais. Ele busca agir com a coletividade, sendo transparente com seus parceiros e usuários. 51 SUPERVISÃO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL A gestão social, na esfera estatal ou no terceiro setor, deve se pautar na busca da emancipação e da autorrealização na vida social, bem como na concretização das potencialidades individuais e/ou coletivas. Para Tenório (2010, p. 7), a gestão social é “[...] um conjunto de processos sociais no qual a ação gerencial se desenvolve por meio de uma ação negociada entre seus atores, perdendo seu caráter burocrático em função da relação direta entre processo administrativo e a múltipla participação social e política”. Tenório (2010, p. 10) ainda diz que a gestão social deve contrapor‑se à gestão estratégica, devido ao fato de essa última ser um tipo de ação utilitarista, embasada no [...] cálculo de meios e fins e implementada através da interação de duas ou mais pessoas na qual uma delas tem autoridade formal sobre a(as) outra(as). É uma combinação de competência técnica com atribuição hierárquica, o que produz a substância do comportamento tecnocrático. Complementando o conceito de gestão social, Maia (2005, p. 2) discorre: [...] gestão social é construção social e histórica, constitutiva da tensão entre os projetos societários de desenvolvimento em disputa no contexto atual. Assim a gestão social é concebida e viabilizada na totalidade do movimento contraditório dos projetos societários – por nós concebidos como desenvolvimento do capital e desenvolvimento da cidadania. Essas duas referências de desenvolvimento apontam para distintas perspectivas de gestão social, que se constroem também neste movimento contraditório. Interligando os conceitos dos referidos autores, falar de gestão social significa referir‑se à gestão das ações sociais de caráter público, que visam à amplitude da cidadania dos sujeitos sociais. Essas ações, em forma de programas ou projetos, são respostas às demandas e às necessidades dos cidadãos. Por meio da gestão social é possível efetivar o acesso a bens e serviços sociais; por isso, nessa perspectiva, cabe ao gestor social a seriedade, o compromisso ético‑político e a clareza. Além disso, são necessárias ferramentas adequadas para efetivá‑la. Só há gestão social se houver gestores sociais. Convido você a conhecer as atribuições, as características e o papel do gestor social. 4.2 Atribuições do gestor social Você, como futuro assistente social, possivelmente terá a oportunidade de ser um gestor de políticas sociais; por isso a importância de se apropriar das ferramentas para efetivar seu fazer profissional. Você poderá contribuir com os gestores locais ou utilizar seus conhecimentos para orientar os usuários sobre a importância de seu papel na gestão social, o que veremos mais adiante. 52 Unidade I Exemplo de aplicação Você já pensou se há diferenças entre gestor e gestor social? Não? Pois isso merece uma reflexão. Você está estudando as diferenças de lógicas da gestão. Gestão é gerir, administrar, é o conjunto de atuações constituídas de previsões, planejamentos, organizações, comandos, coordenações e controle, enquanto a gestão social é gestão das ações sociais públicas. Analise adiante o que é ser gestor, que difere de ser um gestor social, e relacione com a profissão de serviço social. Com isso, é possível decidir o tipo de gestor que seguirá na sua vida profissional. Vejamos a seguir como o perfil de um gestor se difere do gestor social. 4.2.1 O que é ser um gestor e um gestor social? Embora falar de gestor e gestor social possa parecer que estamos nos referindo à mesma coisa, eles não são! É importante que você tenha entendido as duas perspectivas de gestão trabalhadas anteriormente para que agora aprenda sobre os tipos de gestor que as concretizam. O gestor é comumente conhecido como: • responsável (em algum grau) pela gestão; • gerente; • dirigente; • aquele que tem funções gerenciais, ou seja, funções de gestão. Veremos que as atribuições e os papéis de um gestor social são bem mais amplos. Comecemos compreendendo que, para ser um gestor, é preciso desenvolver algumas habilidades fundamentais, como: • Habilidade técnica: conhecimento necessário para executar as tarefas específicas no campo de sua especialidade. • Habilidade humana: capacidade de entender e liderar pessoas e cooperar e trabalhar com elas. Não pressupõe a harmonia, pois quando trabalhamos com pessoas diferentes é normal e até produtivo ter opiniões variadas. Aqui está a habilidade: atuar entre os dissensos e buscar os consensos com os membros do grupo. 53 SUPERVISÃO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL Segundo Santana (2008), para obter a magia do consenso, é fundamental considerar cinco elementos importantes, a saber: — ter uma intenção em comum; — estar disposto a compartilhar o poder; — ter compromisso consciente e informado com o processo de consenso; — possuir agendas sólidas; — ter facilitação efetiva, ou melhor, ser um facilitador no processo. Observação Facilitador é o guardião do processo do consenso, é um dirigente‑servidor cuja intenção é a de que o grupo tome as melhores decisões. Ele guia as discussões sem interferir diretamente nelas. Esforça‑se para permanecer neutro e ser imparcialentre os membros do grupo, não age com favoritismos. O facilitador não dá respostas, mas faz perguntas com a intenção de igualar a participação do grupo para aclarar as ideias desse (Santana, 2008). • Habilidade conceitual: capacidade de compreender e lidar com a complexidade de toda a organização e de usar o intelecto para formular estratégias. Tem visão holística e lida com conceitos e raciocínios abstratos. • Competência implementadora/executora: capacidade de ser criativo com ideias inovadoras. Materializar essas ideias é outra habilidade que poucos conseguem, pois envolve todas as competências citadas anteriormente mais o poder de efetivar, captar recursos, mobilizar recursos humanos, adquirir materiais, e assim por diante. É a capacidade de sair do idealizado para o concreto, para a ação em si. Para se caracterizar como um gestor social é necessário, além das habilidades mencionadas, agregar outras funções, responsabilidades e, principalmente, ter compromisso ético. O papel do gestor social é bem diferente do gestor tradicional de empresas privadas. O primeiro prima pela participação popular, pela cidadania e pela ampliação e acesso a bens e serviços sociais, em uma sociedade multifacetada e desigual, exigindo‑se que tenha, sobretudo, poder de articulação e negociação. O segundo prima pelo caráter competitivo, que busca metas de empreendimentos e lucratividade nas organizações, o que está dentro de sua lógica organizacional. 54 Unidade I É oportuno compreender que, mesmo quando as empresas privadas promovem políticas sociais, elas estão carregadas de ações tuteladas, focais e que servem para a boa imagem empresarial. Em tempos de desigualdade, pobreza e tantas mazelas sociais, as que abraçam a cooperação, a solidariedade e o social sem dúvida têm maior mérito, conquistando mais consumidores e incentivos fiscais por parte do governo. Vale apontar que a gestão social não é a mesma coisa que o negócio do social, como é propagado na lógica mercantilista. O que pretendemos destacar é que as políticas sociais oriundas do segundo setor (empresas) merecem ser geridas sob a razão substantiva, pois são, de alguma forma, respostas à sociedade, e não devem ser entregues à tutela e ao assistencialismo, nem à tecnoburocracia de metodologias estratégicas. Além das habilidades discutidas anteriormente, para uma efetiva gestão social, o gestor precisa compreender o contexto social, econômico e político. Em se tratando da transformação social, o poder de visão do todo é importante para a gestão. É preciso ser criativo, articulador, observador, mobilizador – sujeito social atuante – exercendo a liderança de forma descentralizada, pois tem o desafio e a incumbência de levar a entidade/organização a produzir resultados para a sociedade. Não basta nomear‑se gestor social – deve efetivar‑se como tal – por meio de metodologias de gestão social. A característica fundamental que distingue as atividades do primeiro, segundo e terceiro setores na gestão social é a lógica organizacional. Essa lógica fundamenta suas ações, tendo em vista os objetivos a serem alcançados e a garantia de melhores resultados, assim como a visão de mundo das pessoas em que se baseiam seus dirigentes. Aderir ou não ao modelo estratégico de gestão não é o centro de nossas discussões. No entanto, evidencia‑se como insuficiente para lidar com a subjetividade do ser humano e com temas como cidadania, empoderamento, autonomia, e assim por diante. O planejamento estratégico está na lógica organizacional do segundo setor; por isso, não foi pensado e construído para atender a essas demandas, muito menos para estabelecer compromisso com as dimensões das relações humanas. O grande desafio é nos apropriarmos de algumas metodologias administrativas e conseguirmos aplicá‑las direcionadas para os princípios da gestão social defendidos aqui. 4.3 Eminência de novos princípios para a gestão social Compreender e intervir no social pela perspectiva crítica e comprometida nos obriga a buscar novos princípios e metodologias para embasar uma prática social e ética. Talvez você pergunte: como fazer isso na gestão social? Para Dowbor (1999), as tendências recentes de gestão social nos obrigam a repensar formas de organização social e a redefinir a relação existente entre o político, o econômico e o social. Esse processo exige transdisciplinaridade nos estudos devido à sua complexidade, fruto de vários pontos de divergência e convergência. Isso exige, entre tantas coisas, a escuta dos diferentes envolvidos: os atores estatais, empresariais e comunitários. Esse é, sem dúvida, um universo em construção! Não há modelos prontos, e sim indicativos para serem aplicados e desenvolvidos na prática de gestão social. 55 SUPERVISÃO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL Por ser um campo novo e desafiador, você precisa se situar no cenário da gestão social. Ela ainda esbarra em muitos entraves que afetam diretamente sua efetivação com caráter mais técnico e político. As políticas sociais, principalmente os programas sociais, raramente ficam a cargo de uma única instituição, geralmente há uma pluralidade de organismos e atores envolvidos (instituições públicas, privadas, funcionários, ONGs, usuários e tantos outros). A pluralidade deixa o cenário complexo e dependente de uma hábil rede de negociação permanente entre os diferentes atores, o que pode influenciar nos prazos e no conteúdo dos programas. Outro ponto de estrangulamento é a fragmentação da burocracia pública, seja pela luta por poder institucional, seja pelo poder pessoal, o que afeta diretamente o primeiro item abordado aqui. Devemos considerar a baixa capacidade institucional e gerencial das instâncias responsáveis pelas políticas sociais, o que atinge diretamente sua implementação, por falta de domínio técnico, bem como seu devido acompanhamento, monitoramento e avaliação, por falta de um sistema de informação funcional. Com base nesse contexto repleto de entraves para a efetivação da gestão social, diversos autores defendem que é necessário haver mudanças no desenho da gestão de políticas sociais, as quais devem ter como princípios inter‑relacionados: • descentralização/municipalização das políticas; • participação comunitária e popular na formulação, na decisão, no acompanhamento e na fiscalização das políticas e dos programas; • parceria entre poder público e entidades comunitárias e filantrópicas na execução de programas. Fique atento! Esses princípios mencionados permitem à gestão a adesão e a incorporação de diferentes atores de forma mais transparente. Assim, os processos decisórios se tornam mais públicos e portadores de mais informação. Os recursos e as capacidades autônomas da comunidade e da sociedade civil são potencializados. Por fim, a probabilidade de acerto das intervenções sociais (programas e projetos) é aumentada. Para trilhar esse longo e necessário caminho da gestão social, é preciso fazer uso de algumas ferramentas para viabilizar a efetivação desses novos princípios à gestão. Vamos vê‑las? 4.4 Ferramentas de gestão social Para uma efetiva gestão social com base nos princípios estudados anteriormente, é necessário utilizar alguns instrumentos (ferramentas) que auxiliam nessa função. É importante saber que existem inúmeras ferramentas e diversas formas de utilizá‑las. Não há uma receita pronta de como exercer a gestão social, pois a sociedade é dinâmica e as realidades locais são diversas. Cabe ao gestor (possivelmente você) reinventar formas de fazer uso desses instrumentais técnicos. 56 Unidade I O gestor é o principal responsável pelos resultados alcançados e pela execução das políticas. Para isso, além de desenvolver a capacidade gerencial e política, deve‑se utilizar adequadamente as ferramentas gerenciais. Eis a seguir algumas delas. Conforme Reis (1999), existem as ferramentas operacionais da gestão, ou melhor, o “como fazer” ou “por onde começar” na prática da gestão social. Você veráa seguir que é algo com lógica processual, precisando ser desencadeada no fazer da gestão social, seguindo as etapas em um processo contínuo e permanente. • Conhecimento da realidade: consiste na análise situacional do ambiente, dos atores envolvidos, do diagnóstico e prognóstico dos indicadores da situação e variáveis de influência. • Decisão sobre a realidade diagnosticada: é o momento de procurar diferentes alternativas para enfrentar a situação; buscar estratégia política para sua realização; decidir sobre os recursos disponíveis/necessários para a realização da estratégia escolhida. Nessa etapa, é importante atentar‑se para estabelecer objetivos, metas, prazos, estimativa de custos, distribuição de responsabilidades (equipe e outras instituições envolvidas), indicadores de resultados e de avaliação, e assim por diante. É a parte operativa do planejamento. • Ação: consiste em implementar o que foi planejado. Devemos sempre exercer o controle, questionando se o que foi planejado está acontecendo, de que forma, se está dentro do prazo etc. • Crítica: é o resultado final da avaliação, a qual deve estar presente durante todo o processo. É quando são analisados os resultados alcançados, as lições que podem servir para novas ações, e assim por diante. Tendo como norte essas ferramentas operacionais da gestão, não parece ser tão difícil ser um gestor, não é mesmo? E realmente não é. Basta persistir, planejar e instrumentalizar‑se técnica e politicamente para exercer a gestão social. É válido ter claro que essas ferramentas servem para compreender e gerenciar a complexidade ambiental e para solucionar conflitos que, possivelmente, aconteçam durante a implementação de uma política, um programa ou um projeto. Elas devem permitir flexibilidade, pois a atuação do gestor precisa adaptar‑se aos imprevistos. A melhor forma para lidar com os imprevistos durante a implementação de programas, projetos ou mesmo políticas sociais é fazer uso do devido monitoramento para intervir a tempo nos problemas que possam ocorrer ao longo do processo, com grandes chances de corrigir os rumos daquilo que foi inicialmente planejado. 57 SUPERVISÃO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL Além das ferramentas discutidas, há outras imprescindíveis para a gestão social, que envolvem a participação de atores internos e externos à organização (intraorganizacional e interorganizacional), sendo elas: • desenho e gestão da descentralização; • desenho e organização de redes interorganizacionais; • metodologias de participação (Ckagnazaroff, 2004). Veremos a seguir mais detalhes sobre cada uma delas. 4.4.1 Descentralização na gestão social O conceito de descentralização que enfatizaremos aqui refere‑se à transferência de poder decisório e de recursos do centro da unidade central de uma organização para suas unidades subalternas. Para avaliar o grau de descentralização, é necessário considerar três dimensões – a do processo decisório, a da política e a de serviços. O processo decisório é fundamental para propiciar autonomia ao gestor na tomada de decisões; no entanto, é uma utopia na maioria das organizações. Na prática, para avaliar o grau da descentralização no processo decisório, busque responder às perguntas a seguir: • Sobre o que o gestor pode decidir? • Com que recursos políticos e administrativos o gestor pode contar para exercer suas funções? • Que influências ele tem nos processos decisórios dos níveis superiores? (Ckagnazaroff, 2004). A descentralização política, sucintamente, pode ser entendida como a forma pela qual o poder político está influenciando as pessoas. É o momento de analisar o grau de envolvimento do cidadão dos sujeitos sociais com a comunidade, com a instituição regional, com a política social e até mesmo com os representantes políticos. Para avaliar a descentralização política, busque analisar as seguintes perguntas: • Existe algum envolvimento dos cidadãos na gestão da regional? Se positivo, como se dá? • Como é a relação entre a unidade descentralizada com a comunidade e com os políticos? 58 Unidade I A descentralização de serviços refere‑se, resumidamente, à prestação de serviços compartilhada entre os diferentes departamentos/setores que compõem a unidade descentralizada. Evite que os usuários fiquem transitando de um setor ao outro sem ter sua demanda atendida. Para ficar mais fácil perceber o nível de descentralização de serviços, busque responder: • Que serviços a administração regional pode prestar? • Como é a relação entre os diferentes departamentos da regional? Na descentralização é preciso haver o cuidado para não virem, concomitantemente, a fragmentação dos serviços, a má gestão dos recursos, a má delegação de responsabilidades, entre outras consequências. Para evitar esses danos e fazer com que prevaleçam os benefícios da descentralização, a gestão precisa articular‑se com esquemas de intersetorialidade e participação, temas que estudaremos nos tópicos subsequentes. 4.4.2 A pertinência da intersetorialidade e das redes na gestão social Ainda estamos falando de ferramentas de gestão, por isso, é necessário que você tenha compreendido como a descentralização é importante em seus diferentes desdobramentos para uma melhor gestão social. Dando sequência, veremos a intersetorialidade na gestão social, uma ferramenta também importante! Tanto a descentralização como a intersetorialidade têm como foco a territorialização. Implementar políticas, programas e projetos na perspectiva da intersetorialidade significa buscar uma articulação de saberes e experiências nos diferentes setores a fim de atender aos cidadãos de forma mais abrangente, totalitária, tanto nas necessidades individuais como nas coletivas. Saiba mais A territorialização é compreendida aqui como reconhecimento da particularidade do território e, por consequência, da identificação de heterogeneidade regional. Passou a ser enfocada a partir da década de 1980 e 1990 devido à sua possibilidade democratizadora. Leia mais sobre esse assunto em: SPOSATI, A. Gestão pública intersetorial: sim ou não? Comentários de experiência. Revista Serviço Social e Sociedade, n. 85, mar. 2006. É interessante fazer a assinatura da Revista Serviço Social e Sociedade, pois será de grande valia para seus estudos, uma vez que nela são publicados artigos diversificados! Para isso, acesse: Disponível em: http://www.cortezeditora.com.br. Acesso em: 22 jul. 2024. 59 SUPERVISÃO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL Sobre a gestão intersetorial, Sposati (2006, p. 25) afirma: A gestão intersetorial da ação pública não é algo absoluto ou por si só positivo. [...] tem limites e possibilidades em sua aplicação. [...] A intersetorialidade não pode ser considerada antagônica ou substitutiva da setorialidade. A sabedoria reside em combinar setorialidade com intersetorialidade [...]. É preciso haver uma combinação e uma complementaridade entre a setorialidade, a intersetorialidade, a territorialização, a democratização e a participação. Se esses elementos forem utilizados separadamente, não produzirão um círculo virtuoso, pois cada um deles, se utilizado separadamente e de forma fragmentada, não contribuirá para a prática efetiva da gestão social. Só haverá êxito se eles forem buscados conjuntamente e inter‑relacionados. Observação Aqui, setor é compreendido como organização pública de um campo de intervenção: saúde, educação, habitação etc. Esses campos têm profissionais que utilizam de seus conhecimentos para atender a um problema. Ckagnazaroff (2004, p. 51) vai além ao afirmar: O esforço de intersetorialidade leva a uma articulação tanto interna à organização, entre diferentes departamentos ou setores, quanto externa, com outras organizações, sejam do mesmo nível ou de níveis governamentais diferentes, ou organizações privadas ou da sociedade civil. Este aspecto leva a noção de rede. Fica evidente que a intersetorialidade não pode ser considerada como contrária à setorialidade,pois ambas são necessárias e se complementam. Essa intersetorialidade pode ser compreendida entre um setor e outro (saúde, assistência, justiça etc.), como também de uma organização à outra. Analise um exemplo prático: para trabalhar na área da criança e adolescência, você precisa estar interligado à área da justiça (fóruns, delegacias especializadas e outras), da assistência (programas, creches, serviços emergenciais) e tantas outras, já que as demandas que possivelmente aparecem exigem essa intersetorialidade e comunicação permanente. Isso pode significar parcerias com outras organizações que também atendem à criança e ao adolescente, que podem ser do primeiro, segundo e terceiro setores. Por isso, a intersetorialidade nos remete às redes. A concepção de rede com a qual estamos trabalhando aqui é a da perspectiva de intersetorialidade, a qual abarca a inter‑relação entre as diferentes instituições por meio de parcerias em que articulam pessoas físicas e/ou jurídicas e organizações públicas e/ou privadas, ocorrendo a promoção de relações 60 Unidade I interpessoais, intra ou interorganizacionais, intra ou intergovernamentais e intra e intersetoriais com a finalidade de canalizar interesses para resolver questões em comum (Bogason apud Ckagnazaroff, 2004). Mesmo idealizando as redes como forma de efetivar e otimizar a gestão social, temos muito a avançar. Devemos reconhecer que ainda não perpassamos pela cultura da coletividade, haja vista que estamos presos aos interesses individuais e/ou isolados tão impregnados em nós e reforçados pelo liberalismo. É um desafio necessário para que os serviços sociais sejam mais bem geridos e complementares entre um setor e outro. Falando em redes como alternativa para alcançar a defesa de interesses coletivos e superar o individualismo, não poderíamos deixar de abordar outra ferramenta da gestão social, que coaduna com as redes e que merece atenção especial – participação cidadã –, a qual estudaremos a seguir. 4.4.3 Participação cidadã como aliada da gestão social Uma das habilidades exigidas para um bom gestor é a humana. Desenvolver e cultivar uma boa relação interpessoal com usuários, equipe técnica e superiores na hierarquia institucional e interorganizacional é fundamental para o bom andamento das ações. Cultivar uma boa relação interpessoal, em nenhum momento quer dizer que você não irá se contrapor ou não se posicionar diante dos demais sobre o que pensa de determinado assunto polêmico pertinente ao desenvolvimento do trabalho. Ouvir as pessoas e ser ouvido com respeito é o primeiro passo. Em toda relação interpessoal há divergências que podem ser canalizadas para o bem e não para minar as relações. Quanto mais pensamentos diferentes na hora de analisar uma questão para ser tomada uma decisão, menor a chance de errar, pois a visão da totalidade é ampliada, mesmo que imbuída de ambiguidades. O bom relacionamento vai muito além da relação pessoal do gestor, já que envolve os principais interessados no produto da ação, que são os usuários ou beneficiários, enfim, os cidadãos. A gestão social precisa ser participativa, bem como deve dividir o poder entre todos os grupos envolvidos e proporcionar a possibilidade concreta de todos influenciarem na decisão, a qual deve ser coletiva. A descentralização é uma forma de aproximar o governo e a instituição/organização dos cidadãos, isto é, deixar com que o Estado e a sociedade civil atuem juntamente para definir prioridades nas políticas públicas, visando ao direito do cidadão. A incorporação dos diferentes atores e dos usuários nas diversas etapas dos projetos requer metodologias e técnicas de trabalho, além de organização e apresentação de informações adequadas às atividades participativas em comunidades e em grupos populares. Segundo Gandin (2013), cada vez mais se aproxima o tempo em que governar é coordenar o processo de definição conjunta de rumos sociais e, conjuntamente, administrar os meios para seguir a caminhada nos rumos estabelecidos. A participação ainda oscila entre “manipulação das pessoas pelas 61 SUPERVISÃO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL ‘autoridades’, por meio de um simulacro de participação; a utilização de metodologias inadequadas, com o consequente desgaste da ideia, e a falta de compreensão do que seja realmente a participação” (Gandin, 2013, p. 56). Não basta o discurso ou o “faz de conta” da participação, ela precisa ser efetiva e funcional. O seu uso inadequado e manipulador já fez cair em descrédito esse termo; no entanto, precisamos buscar seu resgate por meio de metodologias de participação. Para conhecer e diagnosticar os níveis de participação que há em determinado ambiente, analise‑os com base nas definições de Gandin (2013): • Nível da colaboração: é a metodologia mais usual, em que as pessoas são convocadas para contribuir, trabalhar, dar apoio ou mesmo silenciar‑se para que as decisões tenham bons resultados. Quando esse tipo de ação colhe sugestões e ideias que são acatadas ou desprezadas de acordo com os chefes, torna‑se pior, o que ocasiona, naturalmente, a descrença das pessoas nessa participação. Essa prática tem sua utilidade, mas não deve ser compreendida como única forma participativa, pois, dessa forma, sequer poderia ser chamada de participação. • Nível de decisão: se dá quando o chefe leva a proposta à plenária para que todos decidam. Até aqui, tudo certo. No entanto, normalmente são levadas para a decisão coisas menores e desconectadas da proposta mais ampla, o que é um engodo, pois vão para a decisão com respostas traçadas. • Nível de construção em conjunto: é o momento mais avançado da participação efetiva, em que todos opinam e decidem conjuntamente, sem sobreposição de ideias. Busca‑se o consenso da maioria, democraticamente. É o nível mais difícil de ser atingido, mesmo quando as pessoas o desejam, devido às imposições estruturais. Em geral, as pessoas não acreditam na igualdade fundamental que existe em si, com a tendência de delegar ao mais sábio, ao mais forte, e assim por diante. Todos os níveis de participação expostos são iniciativas democráticas e têm seu valor. Mesmo as que se apresentam inicialmente precárias, podem ser consideradas como passos valiosos em rumo da participação no nível de construção e decisão em conjunto, que é o ideal almejado. Para isso, os passos precisam ser dados gradativamente. Talvez você pergunte: como utilizar a participação como ferramenta de gestão social? Para iniciar uma metodologia de participação efetiva, o primeiro passo é acreditar nas pessoas. Esse crédito deve manifestar‑se em plano construído coletivamente sobre os anseios de todos. O plano, que é a parte inicial do processo de planejamento, deve ter base na missão da organização. 62 Unidade I Segundo Gandin (2013), as reuniões são instrumentos indispensáveis. Nelas, colhem‑se e compilam‑se as ideias em conjunto, podendo ser eleita uma comissão para esse fim. Na organização das informações para a construção do plano coletivo é possível utilizar apenas três critérios para possível exclusão de algo, como: • Falta de clareza: só se deve incluir no plano o que se entende efetivamente. • Que não pertence à parte do plano que se está redigindo: aquilo que não cabe para o momento deve ser retirado ou guardado para outro momento mais adequado. • Repetição: aquilo que já foi dito, mesmo que em outras palavras, não precisa ser repetido, ou seja, é aceitável e justificável sua supressão. Para o plano ser construído coletivamente entre os interessados, é fundamental respeitar o outro e a diferença de opiniões. É necessário ter respeito, e não somente entender, ceder e compreender, mas também aderir à decisão coletiva, mesmo que não seja aquela a qual julga como a melhor. No processo de planejamento participativo, convém distinguir os momentos de participação, já que há etapas bem técnicas que podem dispensar a participação direta, como aquelas cujas decisões foram tomadas em conjunto55 4.4.1 Descentralização na gestão social ................................................................................................... 57 4.4.2 A pertinência da intersetorialidade e das redes na gestão social ....................................... 58 4.4.3 Participação cidadã como aliada da gestão social .................................................................... 60 4.5 Metodologia ZOPP (planejamento de projetos orientado por objetivos) ..................... 63 4.6 Por que planejar? .................................................................................................................................. 65 4.6.1 Programas e projetos: do planejamento à avaliação ............................................................... 66 4.7 Financiamento ....................................................................................................................................... 69 4.7.1 Fatores que impulsionam a doação ................................................................................................ 69 4.7.2 Quesitos para captação de recursos ................................................................................................ 70 4.7.3 Formas frequentes de concessão de financiamento ................................................................ 76 4.8 Monitoramento e avaliação ............................................................................................................. 77 4.8.1 Monitoramento ....................................................................................................................................... 77 4.8.2 Avaliação .................................................................................................................................................... 79 4.8.3 Monitoramento e avaliação ............................................................................................................... 80 Unidade II 5 AVALIAÇÃO DE PROGRAMAS: DIFERENTES CONCEPÇÕES ............................................................. 89 5.1 Avaliação de programas: diferentes abordagens .................................................................... 90 5.2 Avaliações em função do momento de realização ................................................................. 92 5.3 Avaliação em função de quem a realiza ..................................................................................... 93 5.4 Avaliação em função da escala ou da dimensão dos projetos .......................................... 95 5.5 Avaliação em função dos destinatários ...................................................................................... 96 5.6 Outros enfoques ................................................................................................................................... 96 5.6.1 Critério do conteúdo ou objeto da avaliação ............................................................................. 97 5.6.2 Critério do mérito, razões ou justificativas .................................................................................. 98 6 AVALIAÇÃO DE PROGRAMAS E PROJETOS............................................................................................ 98 6.1 Metodologia de avaliação de programa e projetos ................................................................ 98 6.1.1 Definição de limites e análise do contexto da avaliação ....................................................... 98 6.1.2 Identificação de perguntas e critérios de avaliação ................................................................. 99 6.1.3 Planejamento e condução da avaliação ......................................................................................100 6.1.4 Aspectos políticos, éticos e interpessoais da avaliação .........................................................101 6.1.5 Coleta, análise e interpretação de informações quantitativas e qualitativas ..............103 6.1.6 Apresentação do relatório da avaliação ......................................................................................104 6.1.7 Aspectos metodológicos da avaliação .........................................................................................104 6.1.8 Métodos e técnicas ..............................................................................................................................106 6.2 Avaliação de programas e projetos: elementos fundamentais .......................................108 6.2.1 Objetivos ...................................................................................................................................................108 6.2.2 Metas .........................................................................................................................................................109 6.2.3 Atividades.................................................................................................................................................109 6.2.4 Indicadores .............................................................................................................................................. 110 6.2.5 Elementos em ação ...............................................................................................................................111 6.2.6 Análise custo‑eficácia (ACE) .............................................................................................................112 6.2.7 Análise custo‑utilidade (ACU) .........................................................................................................114 6.3 Avaliação econômica de programas e de projetos ...............................................................115 6.3.1 Análise custo‑benefício (ACB) .........................................................................................................115 6.3.2 Premissas importantes ........................................................................................................................119 6.3.3 Marco lógico .......................................................................................................................................... 120 6.3.4 Avaliação e monitoramento de programas e projetos sociais: um encontro com o serviço social ....................................................................................................................................... 122 Unidade III 7 TRABALHO E INFORMALIDADE: A DESESTABILIZAÇÃO DOS ESTÁVEIS ....................................130 7.1 O mundo do trabalho mudou .......................................................................................................130 7.2 Flexibilização e trabalho ..................................................................................................................131 7.3 O perfil demandado ao assistente social diante das múltiplas expressões da questão social .......................................................................................................................................135 7.3.1 Novas demandas profissionais ....................................................................................................... 136 7.3.2 Principais demandas do serviço social ........................................................................................ 137 7.3.3 Demanda profissional: aumento da seletividade no âmbito das políticas sociais .... 139 7.3.4 Desafios na atuação profissional ................................................................................................... 140 7.3.5 Reordenamento dos serviços sociais ........................................................................................... 144 7.3.6 Terceirização da gestão da questão social ................................................................................ 145 7.3.7 Novas formas de enfrentamento para o assistente social .................................................. 146 7.4 Matrizes do processo de trabalho do assistente social .......................................................146no plano. Veja, a seguir, o que compete a todos, obrigatoriamente, no processo de participação e o que pode ser conduzido somente pela equipe técnica. • Todos: na participação, o que realmente importa são as ideias e as opções que se constroem em conjunto. O acompanhamento dos resultados também precisa ser por parte de todos, já que é o retorno das ações para a retomada de decisões, de forma cíclica. • Equipe técnica: a definição de técnicas, de instrumentos e de modelos a serem utilizados pode ser feita pela equipe coordenadora ou por um coordenador, no caso de instituições pequenas. Ressaltamos a você que, depois de obter o plano pronto, é necessário haver o feedback sistemático dos encaminhamentos e dos resultados a todos os envolvidos. Dessa maneira, o grupo pode acompanhar e decidir os rumos, ou novos rumos, de acordo com as necessidades. O sucesso das intervenções, a divisão de responsabilidades e o envolvimento de todos somam forças e legitimam as ações, pois reduzem a possibilidade de erros e, mesmo que haja, se forem monitorados e avaliados em conjunto poderão ser redirecionados, engrandecendo o processo e os resultados. Todos esses elementos são determinantes para a efetiva participação e, se utilizarmos a metodologia ZOPP, estaremos imbuídos de mais uma ferramenta importante para a gestão participativa. Vejamos a seguir essa metodologia. 63 SUPERVISÃO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL 4.5 Metodologia ZOPP (planejamento de projetos orientado por objetivos) A metodologia ZOPP foi criada na década de 1980 e veio para atender à necessidade de encontrar formas para efetivar a participação social nos processos de planejamento e gestão de projetos. O ZOPP é considerado um método contínuo, enquanto perdurarem as ações de determinado programa ou projeto. Sua metodologia divide‑se em três grandes etapas, a saber: • De análises: você já viu parte da análise no começo desta unidade, no item “Conhecimento da realidade”. Agora, vamos aprimorar esse tema, conhecendo os detalhes e os enfoques a serem considerados para análise da realidade. Veja a seguir: — Análise dos envolvidos: identificação de todos os envolvidos, grupos, pessoas, instituições e demais, que podem influenciar de alguma forma o programa ou projeto. Os instrumentos mais utilizados são a matriz de envolvimento, os mapas de relação, a matriz de forças e poder, a análise organizacional etc. — Análise dos problemas: o instrumento mais usado é a árvore dos problemas, que contém as razões que determinam o desejo de mudança da situação presente para uma nova situação futura. Com essa árvore, é possível ordenar, hierarquizar as causas e os efeitos de um problema e representar o foco das preocupações de um grupo ou uma instituição. Nela, em forma de diagrama, elege‑se o problema central, o que fica no centro; suas causas, na parte inferior; e os efeitos, na parte superior. — Análise dos objetivos: análise de onde se quer chegar, o futuro desejado em relação à situação atual. Você pode utilizar o esquema da árvore em forma de diagrama, denominada de árvore dos objetivos. — Análise de alternativas: são muitas as possibilidades de soluções. Aqui elegemos a considerada com maior chance de sucesso, em relação ao tempo e aos recursos dos quais dispomos, de sua abrangência, entre outros fatores. • Da concepção do plano: é a parte de sistematização do programa ou projeto. Para iniciar, é preciso construir uma matriz do plano do projeto (MPP), com os seguintes elementos: — Elaboração do plano do projeto: deve conter o objetivo global, o objetivo do projeto, os insumos, os custos e os resultados esperados, bem como as atividades ou as ações a serem utilizados. Para medir os resultados, é necessário explicitar quais serão os indicadores de impacto, as fontes de verificação (documento no qual são encontrados os dados da avaliação) e os pressupostos ou as suposições que, normalmente, estão fora da governabilidade do projeto, porém, são essenciais para seu êxito. — Implementação do projeto: fase de execução do planejamento e operacionalização das ações previstas. Aqui, são detalhados as subatividades, as tarefas, as rotinas, as metas, os responsáveis e os executores de cada meta e pressupostos. Todas essas informações compõem o plano de trabalho do projeto, na parte operacional do planejamento, além dos planos de recursos humanos, materiais e financeiros necessários para desenvolver o que se propõe. 64 Unidade I • Dos resultados: é importante dar atenção à monitoria e à avaliação, etapas que podem compor um plano a parte, com metodologia adequada. Os resultados e demais objetivos do projeto, assim como os pressupostos, precisam ser monitorados durante todo o desenvolvimento do projeto, desde a fase de seu planejamento inicial. A avaliação e o monitoramento permitem corrigir os rumos para que as ações tenham melhores resultados. Estudaremos adiante detalhadamente sobre eles. Saiba mais Para conhecer mais detalhes da metodologia ZOPP, leia o artigo: MEDEIROS, N. N. Método ZOPP‑PCM: planejamento participativo. Lisboa: Europa‑América. UFRGS, 2018. Disponível em: https://shre.ink/DgpR. Acesso em: 13 maio 2024. Segundo a metodologia ZOPP, é importante formar um comitê gestor participativo para discutir sistematicamente e tomar decisões. Ele deve ser composto por representantes de todos os interessados/ envolvidos no processo, sendo ideal a participação do coordenador do programa ou projeto, da equipe técnica, do gestor local, de representantes das instituições parceiras (se for o caso) e, fundamentalmente, de pessoas da comunidade, dos usuários e/ou beneficiários dos serviços sociais em questão. Como você pôde perceber, a participação deve fazer parte da gestão social. Há várias metodologias, ferramentas e instrumentos que viabilizam isso, como é o caso da ZOPP. Todas são flexíveis e comportam a criatividade e a adaptabilidade. Depois de aprender sobre algumas ferramentas da gestão, no subtópico 4.6 vamos ver outra ferramenta valiosa para o gestor social: aprender as técnicas para a elaboração de projetos destinados à captação de recursos. Para um gestor, além de saber elaborar um bom projeto, há alguns pré‑requisitos que fazem a diferença na hora de buscar recursos para executá‑los. Dominá‑los é fundamental para a gestão social. Há muitas dicas e técnicas, aproveite‑as! Lembrete O método ZOPP traz três grandes etapas: de análises, de concepção do plano do projeto e de resultados. É válido aprofundar‑se nos estudos sobre ele. 65 SUPERVISÃO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL 4.6 Por que planejar? Ao discutir os porquês do planejamento, Menegolla e Sant’Anna (2014, p. 18) afirmam que “a história do homem é um reflexo do seu pensar sobre o presente, passado e futuro. O homem pensa sobre o que fez; o que deixou de fazer; sobre o que está fazendo e o que pretende fazer”. Isso significa dizer que, no uso de sua inteligência, ele sempre pensa e imagina o seu “o que fazer”. É fácil entender que o ato de pensar não deixa de ser um verdadeiro ato de planejar. Todos, desde o momento que acordam até o momento de dormir, estão pensando e/ou planejando o seu cotidiano. Alguns planejam de forma sofisticada e/ou científica, outros, de forma simples, sem muitos esquemas e elaborações técnicas. Justificar a importância e a necessidade do planejar não é tarefa difícil, pois “o homem hoje e sempre fez e faz planejamento de suas ações” (Menegolla; Sant’Anna, 2014, p. 18). Martinez e Lahone (apud Menegolla; Sant’Anna, 2014, p. 18) definem o planejamento [...] como um processo de previsão de necessidades e racionalização de emprego dos meios e dos recursos humanos disponíveis, a fim de alcançar objetivos concretos, em prazos determinados e em etapas definidas, a partir do conhecimento e avaliação científica da situação original. Ao analisar essa definição, Menegolla e Sant’Anna (2014) destacam quatro elementos inerentes a essa ideia: do planejamento como um processo de prever necessidades;do planejamento como um processo de racionalização dos meios e dos recursos humanos e materiais; do processo de planejamento com vistas ao alcance de objetivos em prazos e etapas definidas; e do processo de planejamento que requer conhecimento e avaliação científica da situação. Sob o olhar de Baptista (2013, p. 4), o termo planejamento, na perspectiva lógico‑racional, é entendido como um “processo permanente e metódico da abordagem racional e científica de questões que se colocam no mundo social”. Ainda para a autora em questão, o planejamento, como processo permanente, supõe ação contínua sobre um conjunto dinâmico de situações em determinado momento histórico. E, como processo metódico, supõe uma sequência de atos decisórios, ordenados em momentos definidos e baseados em conhecimentos teóricos, científicos e técnicos. O planejamento refere‑se, ao mesmo tempo, à seleção das atividades necessárias para entender questões determinadas e à otimização de seu inter‑relacionamento, levando‑se em conta os condicionamentos impostos a cada caso. A dimensão de racionalidade do planejamento está fincada em uma lógica que norteia naturalmente as ações das pessoas, levando‑as a planejar, mesmo sem perceber. Esse exercício, na concepção de Baptista (2013), decorre do uso da inteligência em um processo de racionalização dialética da ação. Nessa mesma perspectiva, Matus (apud Baptista, 2013) reforça que o planejamento é a tentativa de viabilizar a intenção que o homem tem de governar a si próprio e o futuro, ou seja, é um mecanismo 66 Unidade I de impor às circunstâncias a força da razão humana. Conforme Baptista (2013), conclui‑se que o planejamento é a ferramenta para pensar e agir dentro de uma sistemática analítica própria, estudando as situações, prevendo seus limites e suas possibilidades, propondo‑se objetivos e definindo estratégias. 4.6.1 Programas e projetos: do planejamento à avaliação A política, os planos, os programas e os projetos sociais são canais e respostas às necessidades dos cidadãos (Brant de Carvalho, 2001, p. 16). No entanto, antes de qualquer indagação, é preciso conhecer e/ou diferenciar programas e projetos. Consoante as observações de Cury (2001), a política, o plano, o programa e o projeto têm uma relação muito estreita. A política, definida como um processo de tomada de decisões, que inicia com a adoção de postulados gerais que posteriormente serão desagregados e especificados, dá origem ao plano, à medida que a primeira relaciona meios e fins, concatenando‑os temporalmente. O plano, por conseguinte, “[...] fornece um referencial teórico e político, as grandes estratégias e diretrizes que permitirão a elaboração de programas e projetos específicos, dentro de um todo sistêmico articulado e externamente coerente ao contexto no qual se insere” (Cury, 2001, p. 41). O programa é um conjunto de projetos que buscam os mesmos objetivos, ou melhor, é o aprofundamento do plano, detalhamento por setor das políticas e diretrizes do plano. “Ele estabelece as prioridades nas intervenções, ordena os projetos e aloca os recursos setorialmente” (Cury, 2001, p. 41). O projeto “É um empreendimento planejado que consiste num conjunto de atividades inter‑relacionadas e coordenadas para alcançar objetivos específicos dentro dos limites de um orçamento e de um período de tempo dados” (ONU, 1984 apud Cury, 2001, p. 41). Concluindo, o projeto “é a unidade mais específica e delimitada dentro da lógica do planejamento”, afirma Cury (2001, p. 41). Plano Programas Projetos Figura 3 67 SUPERVISÃO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL Ao observar essa inter‑relação, podemos perceber que o planejamento perpassa e fundamenta todo o processo. Tendo o planejamento como foco, inevitavelmente algumas questões surgem, como: • Por que é tão importante planejar nossa ação? • Que relação é possível estabelecer entre o planejamento e a elaboração de programas e projetos? • O mérito de um programa ou projeto depende do planejamento? Essas indagações podem ser desmistificadas se compreendermos que todo projeto deve passar, necessariamente, por três momentos: de planejamento, da implementação e da avaliação. Cury (2001, p. 40) afirma que “essas etapas estão intimamente relacionadas, possuindo o mesmo grau de importância. São momentos que se imbricam, se inter‑relacionam, vão e voltam em um momento dinâmico, não linear”. Nota‑se, a partir do que observa a autora, que para a compreensão do processo de planejamento de programas ou projetos sociais é fundamental que ele seja entendido como: • Processo lógico: caracterizado por conteúdos e passos precisos, sistematizados, em um encadeamento racional de seus elementos e ações. • Processo comunicativo: o documento do projeto expressa o resultado de uma construção coletiva, criando um consenso quanto a objetivos, estratégias e resultados. • Processo de cooperação e articulação: na busca por novas parcerias e nas articulações com as redes sociais. Cury (2001) salienta que essas três dimensões são perpassadas por uma dimensão pedagógica, caracterizada pela possibilidade de descrever, analisar e sintetizar fatos e informações, reconhecer e aceitar as diferenças, saber trabalhar em grupo de maneira participativa etc. Ainda sobre os três momentos vitais na elaboração e no desenvolvimento de projetos sociais, Cury (2001) é categórica ao relatar que o reconhecimento dessa interdependência é absolutamente necessário à eficiência, à eficácia e à efetividade da ação. 68 Unidade I Observação Conforme aponta Cury (2001), o planejamento, no âmbito dos projetos sociais, pode seguir uma sequência lógica: • da análise de contexto; • da elaboração de objetivos; • do estabelecimento de atividades; • da explicitação dos recursos físicos, financeiros e humanos; • da análise de possibilidade. Esse movimento dinâmico não linear que representa os três momentos vitais na elaboração de programas e projetos permite a identificação de cada um? Podemos afirmar que: sim. Cury (2001) descreve em sua obra que a avaliação tem início logo que uma proposta de projeto é esboçada – avaliação ex‑ante. No momento da implementação do projeto, o monitoramento sistemático das atividades e dos custos fornece dados necessários não só para a avaliação final, mas para todos os níveis gerenciais. Isso possibilita, além do controle efetivo das ações em sua relação com os objetivos, prazos e resultados, bem como a correção dos rumos, exigindo de quem planeja o replanejamento que, não raro, afetará custos, prazos e o desenvolvimento do projeto. A verificação da viabilidade do projeto que se desenhou também se define como o momento da avaliação ex‑ante, que, antecipando a própria ação, analisa diante dos objetivos propostos os impactos projetados sobre cada uma das alternativas de ação quanto a estratégias, recursos, processos e resultados pretendidos. Para concluir, podemos afirmar que, na prática, não é correto separar o planejamento da implementação e da avaliação de um programa ou projeto. Isso equivale a destacar que esses três elementos estão inseridos em um processo altamente dinâmico e coletivo. 69 SUPERVISÃO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL Lembrete A política é o compromisso público de atuação em longo prazo em uma determinada área social, com objetivos gerais bem enunciados e acompanhados de instrumentos de implantação. O programa é conjunto harmônico de ações e projetos de intervenção em uma determinada área ou setor social. É o instrumento de implantação de uma política pública. Os projetos são a intervenção ou o conjunto de intervenções em determinada área ou setor social, com finalidades, objetivos, prazos, meios, forma e área de atuação bem determinados e especificados. 4.7 Financiamento 4.7.1 Fatores que impulsionam a doação “Quem doa, espera algo em troca” – essa afirmação é constante no meio de captação de recursos e em outras instâncias que atuam na área social. O termo “doação” é visto com resistênciapor muitos segmentos, principalmente os que buscam a emancipação política e econômica dos sujeitos sociais. Segundo Falconer e Vilela (2001), no Brasil, o termo “doação” está associado à ideia de caridade, que não se distancia da esmola, ou da doação feita para o pedinte, que perpetua uma relação de dependência. O “algo em troca” pode ter quesitos mais variados, que perpassam desde a realização pessoal, busca de aproximação e remissão com o divino, alívio de consciência, luta por uma causa social, ambiental, e assim por diante. Esses elementos impulsionam principalmente o voluntariado, no âmbito mais reduzido. Na esfera do segundo setor, o “algo em troca” pode significar melhoria ou construção da imagem “social” da empresa, aumento de produtividade ou de mercado etc. Para captar recursos, não podemos agir com ingenuidade e acreditar no “amor altruísta” da maioria das organizações provedoras, já que elas defendem, primeiramente, os interesses individuais para financiar ações para terceiros. Vejamos, a seguir, alguns quesitos que merecem atenção especial para a captação de recursos das fontes financiadoras. 70 Unidade I 4.7.2 Quesitos para captação de recursos Para captar recursos a fim de intervir na área social, não basta apenas um bom projeto, mesmo que esteja com sistema de avaliação e monitoramento adequado e sistematizado. É preciso mais, devendo conquistar parceiros que queiram financiar sua ideia. Segundo Falcão (2012), captar recursos não é vender um projeto, mas conquistar um parceiro. Se tivermos um projeto consistente e bem elaborado e apresentarmos para a pessoa certa, na hora certa, a chance de sucesso é bem maior. Falcão (2012, p. 3) ainda aconselha a [...] buscar recursos através de todas as fontes disponíveis. As agências internacionais, governamentais ou não, disponibilizam para o Brasil milhões de dólares; as fontes de recursos governamentais nacionais são as mais conhecidas de todos, mas são muito mais burocráticas nos seus trâmites. Por isso, [...] a iniciativa privada que disponibiliza mais de um bilhão de dólares e é mais simples e objetiva tanto na solicitação de recursos como na prestação de contas. Como podemos deduzir, há recursos para financiar projetos, seja do primeiro, do segundo ou do terceiro setor; por isso, é necessário conhecer essas fontes e buscá‑las tanto no Brasil como no exterior. Entre as instituições que fazem doações para a área social, há as denominadas grantmakers brasileiras – organizações que pertencem ao terceiro setor. Para Falconer e Vilela (2001), as grantmakers no Brasil têm quatro características centrais: • são privadas e sem fins lucrativos, ou seja, fazem parte do terceiro setor; • oferecem doações para outras organizações sem fins lucrativos ou mesmo para pessoa física; • são autônomas, formalmente independentes na tomada de decisões, mesmo que sejam financiadas por outros setores; • têm conselho ou diretoria constituídos legalmente; • são controladas e operadas no país, mesmo que captem recursos no exterior. As grantmarkers brasileiras fazem parte do próprio terceiro setor e têm uma sustentação financeira que permite financiar outras ações, sejam de organizações/instituições, sejam de iniciativas particulares. Conheceremos, a seguir, algumas dessas grantmakers brasileiras, em que você poderá recorrer para obter recursos a fim de desenvolver projetos na área social. 71 SUPERVISÃO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL Lembrete Identifique um especialista em captação de recursos, que deve ser uma pessoa qualificada, mas se ele não dispuser de tempo e compromisso necessários ao trabalho, trará poucos resultados. Atualize a missão da organização e sua respectiva declaração. Assegure‑se de que a sua missão realmente corresponde ao que sua organização se propõe. Avalie o que o mundo exterior pensa de sua organização. Quais os aspectos positivos e negativos? Essas informações serão extremamente valiosas para o seu esforço de captação de recursos. Avalie o que a família organizacional pensa da sua organização. Os doadores sempre querem saber os pontos fortes e fracos, e toda organização tem ambos. Avalie os programas e serviços da organização. Mantenha uma lista atualizada de todos os seus programas, projetos e serviços. Torne a organização mais visível. As pessoas e as organizações gostam de apoiar iniciativas das quais já ouviram falar. Reúna materiais descritivos. Essa técnica é fortalecida quando se coloca algo da sua organização nas mãos do patrocinador em perspectiva – uma bonita brochura, cópias de artigos de jornal, um relatório anual, um vídeo etc. Comece a arrecadar fundos para a captação de recursos. Liste cada fonte de recursos da organização e reveja esforços anteriores: o último evento especial ou esforço de captação atingiu seu objetivo? Exigiu muito da equipe e voluntários e não valeu a pena? Lembre‑se de que tentativa e erro são parte de qualquer esforço de captação de recursos, mas não devem ser a estratégia de longo prazo para o sucesso. 4.7.2.1 Fontes financiadoras São muitas as fontes financiadoras a que você poderá recorrer para submeter seus projetos de atuação na área social. Começaremos com grantmakers brasileiras. De muitas delas, talvez, você já tenha ouvido falar. 72 Unidade I Das grantmakers brasileiras, expomos aqui as que se caracterizam como doadoras financiadoras na área social. Destaque • Associação de Apoio ao Programa Capacitação Solidária; • Cáritas Brasileira; • Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais (Ceris); • Coordenadoria Ecumênica de Serviço (Cese); • Fase – Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional; • Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança; • Fundação BankBoston; • Fundação Belgo‑Mineira; • Fundação Beneficente Heydenreich; • Fundação Brasil Cidadão para a Educação, Cultura e Tecnologia; • Fundação Clemente Mariani; • Fundação CSN para o Desenvolvimento Social e a Construção da Cidadania; • Fundação Educar DPaschoal de Benemerência e Preservação da Cultura e Meio Ambiente; • Fundação Feac – Federação das Entidades Assistenciais de Campinas; • Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho; • Fundação O Boticário de Proteção à Natureza; • Fundação Odebrecht; • Fundação Orsa; • Fundação Otacílio Coser; • Fundação Telefônica; • Fundação Vale do Rio Doce de Habitação e Desenvolvimento Social; 73 SUPERVISÃO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL • Fundo Cristão para Crianças; • Instituto Ayrton Senna; • Instituto C&A de Desenvolvimento Social; • Instituto Credicard; • Instituto General Motors; • Instituto Itaú Cultural; • Instituto Ronald McDonald de Apoio à Criança; • Instituto WCF‑Brasil; • Instituto Xerox; • Vitae, Apoio à Cultura, Educação e Promoção Social. Fonte: Falconer e Vilela (2001, p. 43). Saiba mais Para compreender como as organizações citadas devem atuar, uma vez que recebem financiamento público, leia a obra: SPECK, B. W. (org.). Caminhos da transparência. São Paulo: Editora da Universidade Estadual de Campinas, [s.d]. Disponível em: https://shre.ink/D8qY. Acesso em: 23 jul. 2024. É importante saber que as grantmakers frequentemente têm relação estreita com a elite econômica nacional e internacional, como empresas, governos, religiões organizadas e outros atores sociais. Para serem realmente autônomas, precisam desenvolver a capacidade própria de geração de recursos, independentes dos outros dois setores – Estado e mercado. As grantmakers são a organização e a profissionalização da filantropia na tentativa de substituir o assistencialismo das doações focais por meio de práticas voltadas para a realidade social mediante o financiamento de projetos sociais. 74 Unidade I Falconer e Vilela (2001, p. 17) acrescentam que, “até hoje, as instituições financiadoras foram estudadas apenas como fontes de recursos para o terceiro setor e não como componentes em si desse setor”. Há muitas organizações que se situam em umalinha tênue entre financiadora e captadora de recursos, pois têm perfis mistos. Seguem algumas das agências internacionais multilaterais que financiam diversas áreas, como saúde, educação, entre outras: • Organização dos Estados Americanos (OEA); • Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID); • União Europeia (EU) (ou Comunidade Europeia); • Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD); • Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO); • Organização Internacional do Trabalho (OIT); • Programa das Nações Unidas para a Aids (Unaids); • Programa das Nações Unidas para o Controle de Drogas (UNDCP); • Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco); • Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef); • Fundo das Nações Unidas para o Desenvolvimento da Mulher (Unifem). Além dessas instituições, há muitas outras. Vale a pena você se debruçar e estudá‑las exaustivamente. Estude missão, perfis de projetos aprovados, histórico institucional, público‑alvo, e assim por diante. Desse modo, você poderá escolher qual se adapta melhor à sua demanda procurada. 75 SUPERVISÃO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL Saiba mais Para obter mais informações sobre as instituições que financiam projetos, sugiro que consulte os seguintes sites: ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ORGANIZAÇÕES NÃO GOVERNAMENTAIS (ABONG). Disponível em: http://www.abong.org.br. Acesso em: 23 jul. 2024. CATÁLOGOS DE FONTES DE FINANCIAMENTO. Conselho Nacional do Ministério Público. 2019. Disponível em: https://shre.ink/DHwc. Acesso em: 19 ago. 2024. GRUPO DE INSTITUTOS FUNDAÇÕES E EMPRESAS (GIFE). Disponível em: http://www.gife.org.br. Acesso em: 23 jul. 2024. INSTITUTO BRASILEIRO DO TERCEIRO SETOR (IBTS). Disponível em: http://www.ibts.org.br. Acesso em: 23 jul. 2024. INSTITUTO ETHOS. Disponível em: http://www.ethos.org.br. Acesso em: 23 jul. 2024. REDE DE INFORMAÇÕES PARA O TERCEIRO SETOR (RITS). Disponível em: http://www.rits.org.br. Acesso em: 23 jul. 2024. SERVIÇO DE APOIO ÀS MICRO E PEQUENAS EMPRESAS (SEBRAE). Disponível em: http://www.sebrae.com.br. Acesso em: 23 jul. 2024. O livro seguinte traz o detalhamento de todas as organizações expostas anteriormente, que compõem as grantmakers brasileiras, um verdadeiro “resumão” das organizações com as quais são possíveis parcerias financiadoras de seu projeto social. Mãos à obra! Consulte‑o: FALCONER, A. P.; VILELA, R. Recursos privados para fins públicos: as grantmakers brasileiras. São Paulo: Petrópolis, 2001. Segundo Falcão (2012), para captar recursos, ao apresentar um projeto, é necessário ter atitude profissional. Pesquisas são fundamentais para isso a fim de determinar o que será apresentado, para quem e quando, e, claro, deve ser apresentado pela pessoa certa. Há três atitudes fundamentais que precisam ser consideradas ao se buscar parceiros: 76 Unidade I • Não mendigar um “dinheirinho” ao procurar recursos, pois quem assim faz recebe trocados. Quem procura recursos deve propor um investimento para o investidor; para isso, é preciso saber que tipo de retorno ele está buscando (financeiro, imagem, satisfação pessoal, reconhecimento, resultados, entre outros). • Não utilize argumentos que interessam somente a você, pois a outra pessoa pode ter interesses e motivações diferentes. • Não venda miséria sob a argumentação de que a instituição está quebrada ou mesmo que pessoas de determinada região estão passando necessidade. Mesmo que isso seja verdade, não é necessário explicitar e superdimensionar. Quem investe, opta pelo sucesso e não pelo fracasso, principalmente sendo do segundo setor. Além das dicas anteriores, lembre‑se de buscar informações fidedignas sobre o possível financiador, pois não há técnica ou dica que substitua o conhecimento de causa, tanto da proposta que defende no projeto quanto do perfil da fonte. Busque saber os critérios de seleção, normalmente os preestabelecidos e de fácil acesso nos sites. Caso não estejam disponíveis, contate a organização e informe‑se, pois isso ajudará a elaborar ou adaptar sua proposta/projeto para melhor atender aos critérios da fonte financiadora e, consequentemente, ter maiores chances para obter os recursos. Também são exigidos alguns documentos da instituição proponente para que o convênio ou contrato seja celebrado, por isso a eminência em buscar essas informações logo no início, para ver se a proponente se enquadra nos pré‑requisitos exigidos, os quais variam de uma fonte para outra. Veja a seguir as especificidades dos recursos disponibilizados para financiamento de projetos. 4.7.3 Formas frequentes de concessão de financiamento Conforme Falcão (2023), quando se pleitea um financiamento, é importante atentar‑se para as várias formas de concessão; as mais comuns são: • Fundo perdido: não é reembolsável, ou seja, o valor disponibilizado não precisará ser devolvido total ou parcialmente. • Crédito ou empréstimo: o valor deve ser devolvido à fonte financiadora, de acordo com o contrato preestabelecido. Frequentemente incide juros. • Microcrédito: prevê a devolução à fonte financiadora e difere‑se do crédito por financiar pequenas quantidades, com foco em iniciativas e empreendimentos de pequeno porte e, em geral, de base comunitária. 77 SUPERVISÃO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL Saiba mais Para saber mais sobre Projetos e Captação de Recursos, recomendamos que você acesse, a seguir, o podcast “Dádiva e Gratidão” que estreou em 3 de abril de 2023. No EP. Especial #5, Falcão debate sobre vários aspectos que envolvem a captação de recursos, desde a construção do projeto, passando pela busca por recursos financeiros até a aplicabilidade. Ricardo Falcão é economista e consultor internacional, com ampla experiência em gerenciamento, elaboração, avaliação de projetos, captação de recursos e financiamento na iniciativa privada, na Organização das Nações Unidas (ONU), como senior program officer da United States Agency for International Development do Governo americano e em organizações da sociedade civil no Brasil, África e América Latina. Ainda, é autor do livro Elaboração de projetos e sua captação de recursos, da Editora Nova. PROJETOS E CAPTAÇÃO DE RECURSOS (RICARDO FALCÃO) DÁDIVA E GRATIDÃO PODCAST ‑ EP. ESPECIAL #005. 2023. 1 vídeo (70 min). Publicado pelo canal Dádiva e Gratidão ‑ Podcast. Disponível em: https://shre.ink/DHJn. Acesso em: 23 ago. 2024. Mesmo com o recurso do fundo perdido, normalmente exige‑se a prestação de contas de todo o valor disponibilizado; portanto, é importante ter organização e responsabilidade no uso desses recursos. Deve‑se solicitar nota fiscal de tudo que adquirir e manter a fonte financiadora informada da gestão (aplicação dos recursos, resultados etc.) de acordo com os critérios preestabelecidos por ela, sempre com transparência e idoneidade. Por exemplo, quando a organização é uma fundação, o Ministério Público exige prestação de contas severa, já as associações têm relativa autonomia. Enfatizamos que a prestação de contas faz parte do processo, que precisa estar organizado, sistematizado e transparente, passível de ser apresentado a quem possa interessar ou a quem de direito for. Você pôde perceber que há uma diversidade de fontes financiadoras e formas de financiamento para a área social. Explorá‑las detalhadamente aqui é inviável, mas é importante que você busque mais informações sobre cada fonte. Ressaltamos que, além das citadas, há muitas outras que você poderá mapear e buscá‑las como parceiras para o desenvolvimento de projetos sociais. 4.8 Monitoramento e avaliação 4.8.1 Monitoramento O monitoramento é, segundo Brant de Carvalho (2001, p. 76), uma “fase de avaliação que se faz durante a execução do projeto, buscando apresentar seus processos de implementação e execução”. Ele deve acompanhar os processos e as atividades, com o objetivo de identificar problemas e realizar 78 Unidade I ajustes, aprimoramento e/oucorreções no seu desempenho. “A palavra monitoramento vem da palavra latina monere, que significa alerta. [...] Em português tem se traduzido como monitoria e utilizado como sinônimo de vigilância, acompanhamento, seguimento ou supervisão” (Buvinich, 1999, p. 20). Albuquerque (apud Brant de Carvalho, 2001, p. 77) observa: [...] sem dúvida as tarefas do acompanhamento não devem conceber‑se como um objetivo em si mesmo, senão como uma ferramenta útil para descrever o que se está fazendo e como. A importância do monitoramento está em: • obter toda aquela informação que, ao início, a meio caminho e uma vez finalizado o programa, será necessária para avaliar seu impacto, sua eficácia e eficiência. • descrever a evolução das atividades do programa e desenvolvimento da intervenção estabelecendo critérios sobre índices e relações de acordo com um esquema e sequência pré‑determinados. • identificar os pontos críticos na gestão e execução, permitindo detectar problemas. • alertar, aos responsáveis, sobre os riscos de implantar um programa distinto do desenhado. Por fim: • facilitar a tomada de decisões sobre as ações corretivas a empreender. • facilitar para a organização o cumprimento de seus objetivos e a medição dos programas realizados para sua consecução. A avaliação do sistema de acompanhamento deve examinar seu conteúdo, viabilidade e oportunidade, determinando o grau que ele contribui para a gestão diária do programa e a sua ótima execução. É importante considerar que não é possível realizar o monitoramento de um projeto ou programa sem que ele ofereça de forma clara alguns elementos: objetivos, metas e ações/atividades propostas, haja vista que “o projeto é o instrumento que fornece as condições necessárias para o acompanhamento”, afirma Brant de Carvalho (2000, p. 76). Sob determinado ponto de vista, ele é entendido como uma ação que envolve a coleta de informações sobre insumos, produtos, atividades e circunstâncias que são relevantes para a efetiva implementação do programa ou projeto. 79 SUPERVISÃO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL Em outras palavras, segundo Buvinich (1999, p. 20), o monitoramento “fornece a informação e as sugestões necessárias para que a gerência do programa verifique o progresso da implementação a fim de tomar as decisões cabíveis”. Visando à efetivação do monitoramento, vale estabelecer, desde o início do projeto, um sistema de informação operativo e gerencial permitindo o acompanhamento processual. Para essa efetivação, Brant de Carvalho (2001) salienta que algumas condições são necessárias, como: • A especialização de objetivos e resultados, bem como a sequência de passos/ações indicando os processos por meio dos quais o resultado é obtido. • A definição de um sistema de informação permitindo captar o seguimento do projeto. • A utilização de indicadores que sejam estratégicos. Nessa perspectiva, Brant de Carvalho (2001, p. 78) ressalta que: [...] a observação, o registro de fatos significativos, as reuniões com a equipe de gestores e operadores do projeto, as reuniões com usuários ou beneficiários do projeto, as reuniões com os parceiros (organizações complementares, agentes comunitários e organizações que produzem projetos similares) são meios usuais de pesquisa avaliativa nessa fase. Roteiro de entrevistas e de reuniões guia para monitoramento e acompanhamento, diário de campo, fichas, quadros, mapas são instrumentos básicos para a coleta e o registro das informações. 4.8.2 Avaliação Muitas vezes, a avaliação é percebida como uma etapa do processo de planejamento que se expressa por um simples procedimento burocrático de prestação de contas, de fiscalização ou de pesquisa acadêmica. No campo social, essa concepção precisa ser superada, pois a avaliação deve ser reconhecida como um “dos processos indispensáveis na melhoria das decisões e ações”, afirma Brant de Carvalho (2001, p. 63). Não é difícil definir a avaliação. Uma definição típica de dicionário diz que “avaliar é determinar ou estabelecer o valor de algo” (Worthen et al., 2004, p. 77). Os autores ainda afirmam que, entre os avaliadores profissionais, não há uma definição de concordância unânime de um sentido exato para o termo. Entre as inúmeras definições mencionadas neste livro‑texto, adotaremos um conceito proposto por Scriven (apud Worthen et al., 2004, p. 35), cuja avaliação é entendida como “julgar o valor ou mérito de alguma coisa”. Para atribuir esses juízos de valor ou mérito, é importante estabelecer critérios ou padrões, por parte dos atores envolvidos na efetivação do processo. 80 Unidade I Buvinich (1999) observa a existência de um consenso quanto à avaliação de programas e projetos sociais e destaca que os critérios devem orientar‑se pela verificação e análise da pertinência ou relevância da intervenção; pela eficácia do alcance dos objetivos e metas; pela eficiência econômica e financeira; pelo impacto gerado; e pela sustentabilidade. O autor ressalta, ainda, que para cada um dos focos apresentados existe uma metodologia e uma forma de coleta das informações. É possível verificar que a avaliação é um processo conduzido antes (fala‑se de avaliação ex‑ante), durante e/ou depois da implementação do projeto ou programa, sendo efetuado um juízo sobre seu valor ou mérito considerando a relevância dos objetivos e das estratégias, a eficácia (ou efetividade) no alcance das metas e dos objetivos esperados, a eficiência no uso de recursos e o impacto e a sustentabilidade da intervenção. A avaliação compreende: • Examinar novamente, com juízo crítico, devido às mudanças subsequentes. — Justificação lógica do programa em termos de adequação dos seus objetivos e estratégias. • Comparar a consecução das metas reais com as estabelecidas. • Verificar a eficiência dos procedimentos utilizados na execução do programa e da qualidade do desempenho gerencial. • Determinar a eficiência econômica do programa. • Determinar e traçar a causalidade dos efeitos e o impacto do programa. • Identificar as lições apreendidas e propor recomendações para reforçar os acertos e/ou, se necessário, ajustar, reorientar e modificar objetivos, metas, arranjos organizacionais e recursos. 4.8.3 Monitoramento e avaliação Respeitadas as suas especificidades, não podemos deixar de abordar e refletir sobre a ação inter‑relacionada do monitoramento e da avaliação. Em linhas gerais, tanto o monitoramento como a avaliação, com relação ao programa ou projeto social, devem, segundo Brant de Carvalho (2001, p. 77), abarcar: • os objetivos e o público‑alvo a que se destina a ação; • o processo decisório sobre o projeto; • a densidade do projeto, isto é, sua capacidade de inovação e adequação às demandas; 81 SUPERVISÃO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL • sua flexibilidade e sagacidade para introduzir alternativas de maior eficácia no alcance dos resultados e impactos; • a coerência entre os objetivos, as estratégias e os resultados propostos pelo projeto; • sua competência para garantir o avanço dos padrões de qualidade almejados pelos usuários das ações das organizações; • os sistemas gerenciais adotados e a capacidade de otimizar recursos e competências organizacionais; • sensibilidade para perceber disfunções geradas pela presença de fatores novos ou imprevistos e a consequente capacidade de reação ou adequação às novas situações impostas pela dinâmica da realidade; • os produtos ofertados. Nota‑se que a principal articulação da avaliação com o monitoramento é que a primeira (avaliação) utiliza os dados gerados pelo sistema da segunda (monitoramento). Com isso, conclui‑se que sem um bom monitoramento é muito difícil efetuar uma boa avaliação. Finalizando esta unidade, apresentamos um quadro destacando a complementaridade entre o monitoramento e a avaliação, reforçando a tese da interdependência entre as suas ações. Quadro 2 – Comparativo entre as principais características do monitoramento e da avaliação Categoria Monitoramento AvaliaçãoFrequência Regular Episódico Propósito principal Melhoria da eficiência do projeto Melhoria da efetividade do projeto Foco Insumos, produtos, processos, efeitos, planos de trabalho Efetividade, relevância, impacto, custo‑efetividade Adaptado de: Bunivich (1999, p. 26). Lembrete Monitorar e avaliar são ações que visam ao acompanhamento do impacto de ações que foram devidamente planejadas. Logo, são ações dinâmicas e de fundamental importância para medir a evolução dessas ações e para ajudá‑lo a perceber qual foi o seu aprendizado nesse processo. 82 Unidade I Resumo Nesta unidade, apresentamos os princípios fundamentais, as responsabilidades e os direitos preconizados pelo Código de Ética do Assistente Social. Retomamos brevemente a origem do serviço social e seu posicionamento na defesa dos direitos humanos, bem como na luta pela construção de uma nova ordem societária, onde devem prevalecer a igualdade, a justiça e a equidade social. Essa luta é assumida pela categoria profissional e está explícita nos 11 princípios elencados no Código de Ética de 1993. Trabalhamos o cotidiano como espaço de atuação do assistente social, apresentando considerações de alguns autores sobre a vida no dia a dia. Vimos que é no cotidiano institucional que se concretiza a práxis profissional. A práxis é uma categoria do fazer profissional que, por meio do acúmulo de conhecimentos teórico‑metodológicos, contribui para que esse profissional atue de forma sistematizada com foco na transformação social. Abordamos algumas questões éticas contemporâneas e, mais precisamente, o posicionamento do serviço social frente a essa discussão. A questão da ética no interior da profissão está em sintonia com os diversos movimentos sociais em prol da vida e da emancipação humana. Isso se configura mediante a proposta de efetivar o Projeto Ético‑Político do assistente social. Sem entender o significado desse projeto no seio da categoria, é difícil perceber o protagonismo da profissão no cenário contemporâneo. Tratamos da mediação como instrumento profissional e suas implicações no serviço social, compreendendo‑a como categoria da dialética que passa por três fases: da singularidade, da universalidade e da particularidade. Ela é uma temática de cunho imprescindível para a prática interventiva do assistente social que, ao se apropriar da realidade dos usuários de seus serviços, atuará de forma compromissada. É essa a grande contribuição da mediação para o serviço social: fornecer elementos para que a profissão faça o diferencial na qualidade dos serviços prestados à população. Estudamos as concepções contraditórias sobre a gestão, que vai da lógica econômica administrativa à social. A gestão, na perspectiva organizacional, é voltada para a racionalidade, a competitividade e a pressão por resultados (de produção, de lucros). A gestão social é pautada na eficácia, na eficiência e na efetividade das ações. A gestão é utilizada para fortalecer a cidadania dos sujeitos sociais, bem como o empoderamento. Há diferenças entre os 83 SUPERVISÃO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL tipos de gestor de acordo com as diferentes lógicas. Para os gestores sociais, há muitas habilidades e competências a serem desenvolvidas e efetivadas no fazer profissional, que incluem domínio técnico, teórico, político, administrativo e, principalmente, ético. Os novos princípios da gestão social são: descentralização/municipalização das políticas; participação comunitária e popular na formulação, decisão, acompanhamento e fiscalização das políticas e programas; e parceria entre o poder público, entidades comunitárias e filantrópicas na execução de programas. Todos precisam estar inter‑relacionados, pois se somente um ou outro for implementado, a gestão social não terá êxito. As ferramentas utilizadas para a gestão social variam de acordo com o contexto e a metodologia. Todas têm em comum algumas fases importantes, como: conhecimento da realidade, planejamento das ações com base na realidade intra e interorganizacional, operacionalização das ações planejadas e monitoramento e avaliação. Todo o processo precisa ser participativo. É indispensável fornecer feedback aos atores envolvidos, desde a fase que antecede as ações, durante e após elas. Conhecemos o método ZOPP, que traz grandes etapas de análises (de concepção do plano do projeto e de resultados), devendo este ser estudado mais profundamente. Entendemos o planejamento como sendo um processo dinâmico, permanente e presente em nossas ações e rotinas. Aprendemos que ele é uma ferramenta para pensar e agir dentro de uma sistemática analítica própria. No campo de programas e projetos sociais, é fundamental na garantia do sucesso das ações. Vimos que, ao lado do planejamento, o monitoramento e a avaliação são etapas de um mesmo processo. Os fatores que motivam a doação no âmbito social variam de interesses individuais até interesses organizacionais; portanto, não podemos nos iludir com a “bondade” dos agentes financiadores. Estudamos as fontes financiadoras, que são muitas. Tanto no Brasil como no exterior, ninguém dá algo sem esperar um retorno. Esse retorno pode ser realização pessoal, aproximação e remissão com o espiritual. Essas motivações impulsionam as doações/financiamentos da área social, além do voluntariado. Para as organizações, o retorno vem por meio de melhoria da imagem no mercado, marketing, e assim por diante. Entre as fontes financiadoras, há as nacionais e as internacionais como possíveis parceiras em projetos sociais que buscam a captação de recursos. Há que se considerar algumas dicas para a captação de recursos, como: não mendigar “um dinheiro”, não utilizar argumentos que interessam somente a você, 84 Unidade I não tentar vender miséria, pois a lógica de quem investe, principalmente quando é do segundo setor, é investir no sucesso e não no fracasso, e expor as motivações do projeto de acordo com os objetivos do financiador (é preciso conhecê‑lo com profundidade – missão, áreas de atuação, público‑alvo etc.). Vimos, por fim, as diferenças entre o monitoramento e a avaliação. O monitoramento pode ser compreendido como um fornecedor de informações sistematizadas durante a implementação dos projetos para o sistema de avaliação. A avaliação é mais ampla, pois inicia juntamente ao planejamento das ações, permanece durante a implementação e se mantém até o final da execução, podendo persistir após o final das atividades previstas. Ambos estão inter‑relacionados, porque um interdepende do outro. 85 SUPERVISÃO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL Exercícios Questão 1. Vimos, no livro‑texto, que a ética profissional implica, a priori, o direcionamento filosófico e ético‑valorativo que determinada profissão escolhe para nortear sua conduta profissional. Também vimos que o debate da ética profissional faz reflexões em dois níveis: na dimensão técnico‑normativa e na prático‑operativa. Em relação à essa temática, avalie as afirmativas. I – A dimensão prático‑operativa do debate da ética profissional é voltada para os aportes teórico‑filosófico‑ideológicos da profissão. II – A dimensão técnico‑normativa do debate da ética profissional implica o direcionamento ético‑político das respostas profissionais. III – As dimensões prático‑operativa e técnico‑normativa do debate da ética profissional estão interligadas. É correto o que se afirma em: A) III, apenas. B) II, apenas. C) I, apenas. D) I e II, apenas. E) I, II e III. Resposta correta: alternativa A. Análise das afirmativas I – Afirmativa incorreta. Justificativa: a dimensão técnico‑normativa do debate da ética profissional é voltada para os aportes teórico‑filosófico‑ideológicos da profissão. II – Afirmativa incorreta. Justificativa: a dimensão prático‑operativa do debate da ética profissional implica o direcionamento ético‑político das respostas profissionais. 86 Unidade I III – Afirmativa correta. Justificativa: as dimensões prático‑operativae técnico‑normativa do debate da ética profissional estão interligadas. O elo que as sustenta é tanto de natureza teórica (fundamentos que orientam a profissão) quanto de natureza ideocultural (visão de mundo dos profissionais). Essa abordagem é mais bem esclarecida por Motta (2003, p. 11): Assim, enquanto a dimensão política da prática encontra‑se imbricada nos objetivos e finalidades das ações, principalmente nas possibilidades de interferir nas relações e situações geradoras das desigualdades e nos mecanismos institucionais para elas voltadas, a dimensão ética reclama por princípios e valores humanos, políticos e civilizatórios; e a dimensão prático‑operativa consiste na capacidade de articular objetivamente os meios disponíveis e os instrumentos de trabalho para materializar os objetivos com base nos valores. Questão 2. A Lei n. 8.662, de 7 de junho de 1993, dispõe sobre a profissão de assistente social e assegura que “é livre o exercício da profissão de Assistente Social em todo o território nacional, observadas as condições estabelecidas nesta lei” (art. 1º). No art. 5º dessa lei estão estabelecidas as atribuições privativas do assistente social. Com base no exposto, avalie as atribuições a seguir. I – Prestar assessoria e consultoria a órgãos da Administração Pública direta e indireta, a empresas privadas e a outras entidades em matéria de serviço social. II – Realizar vistorias, perícias técnicas, laudos periciais, informações e pareceres sobre a matéria de serviço social. III – Dirigir e coordenar unidades de ensino e cursos de serviço social, de graduação e pós‑graduação. IV – Elaborar provas, presidir e compor bancas de exames e comissões julgadoras de concursos ou de outras formas de seleção para assistentes sociais ou onde sejam aferidos conhecimentos inerentes ao serviço social. V – Coordenar seminários, encontros, congressos e eventos assemelhados sobre assuntos de serviço social. 87 SUPERVISÃO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL São atribuições do assistente social as expostas em: A) I, II, III e IV, apenas. B) I, III e V, apenas. C) II e IV, apenas. D) III, IV e V, apenas. E) I, II, III, IV e V. Resposta correta: alternativa E. Análise da questão No art. 5º da Lei n. 8.662/93 estão estabelecidas as atribuições privativas do assistente social: • coordenar, elaborar, executar, supervisionar e avaliar estudos, pesquisas, planos, programas e projetos na área de serviço social; • planejar, organizar e administrar programas e projetos em unidade de serviço social; • prestar assessoria e consultoria a órgãos da Administração Pública direta e indireta, a empresas privadas e a outras entidades em matéria de serviço social; • realizar vistorias, perícias técnicas, laudos periciais, informações e pareceres sobre a matéria de serviço social; • assumir, no magistério de serviço social, tanto na graduação quanto na pós‑graduação, disciplinas e funções que exijam conhecimentos próprios e adquiridos em curso de formação regular; • realizar treinamento, avaliação e supervisão direta de estagiários de serviço social; • dirigir e coordenar unidades de ensino e cursos de serviço social, de graduação e pós‑graduação; • dirigir e coordenar associações, núcleos, centros de estudo e de pesquisa em serviço social; • elaborar provas, presidir e compor bancas de exames e comissões julgadoras de concursos ou de outras formas de seleção para Assistentes Sociais ou onde sejam aferidos conhecimentos inerentes ao serviço social; • coordenar seminários, encontros, congressos e eventos assemelhados sobre assuntos de serviço social; 88 Unidade I • fiscalizar o exercício profissional através dos Conselhos Federal e Regionais; • dirigir serviços técnicos de serviço social em entidades públicas ou privadas; • ocupar cargos e funções de direção e fiscalização da gestão financeira em órgãos e entidades representativas da categoria profissional. Vale destacar que somente o assistente social pode exercer essas funções sob pena de medidas judiciais cabíveis ao exercício ilegal da profissão. O art. 15 da Lei de Regulamentação da Profissão de Assistente Social determina que “é vedado o uso da expressão serviço social por quaisquer pessoas de direito público ou privado que não desenvolvam atividades previstas nos art. 4º e 5º” da Lei n. 8.662/1993”.7.4.1 Formação profissional: exigências e perspectivas .................................................................. 148 7.4.2 Resgate da assistência social como espaço do exercício profissional............................ 149 7.4.3 Demandas profissionais e espaços sócio‑ocupacionais ........................................................151 8 INTERDISCIPLINARIDADE ...........................................................................................................................153 8.1 Interdisciplinaridade e prática do serviço social ...................................................................154 8.2 Diálogo sobre a interdisciplinaridade entre o psicólogo social e o assistente social ......................................................................................................................................158 9 APRESENTAÇÃO Caro(a) aluno(a), Você está recebendo este livro‑texto referente à disciplina de Supervisão de Formação Profissional. Gostaríamos de convidá‑lo(a) para uma reflexão sobre a importância do estágio supervisionado na formação profissional do assistente social. O estágio permite apreender o cotidiano do profissional inserido no espaço sócio‑ocupacional de trabalho, conhecendo e compreendendo as estratégias e as técnicas da ação profissional, os instrumentais técnicos operativos e as técnicas imprescindíveis pertinentes a esse exercício. Analisaremos como a reflexão faz parte do campo de estágio e subsidia a ruptura com o estigma de que teoria e prática são elementos divergentes. Apresentaremos os diversos campos de estágio, algumas características das políticas implementadas nas diversas áreas em que o assistente social se insere e as legislações pertinentes aos direitos sociais que se materializam por meio dessas políticas. Você conhecerá as mudanças ocorridas no mundo do trabalho em virtude da reestruturação produtiva e como essas alterações afetam os trabalhadores. Aqui, há a oportunidade de conhecer os precedentes da gestão social, as diferentes concepções de avaliação e os monitoramentos de programas e projetos, que são de intervenção do estágio supervisionado, voltados para diversas políticas públicas e sociais. Discutiremos as mudanças no mundo do trabalho, as novas e as principais demandas profissionais e os desafios para a sua atuação. Veremos, por fim, a interdisciplinaridade e a prática profissional do serviço social, objetivando a busca de soluções para as demandas coletivas. Esperamos que você tenha um bom aproveitamento dos assuntos distribuídos, assim como uma ótima apreensão do exercício profissional no campo de estágio. 10 INTRODUÇÃO Neste livro‑texto, trataremos de temas relevantes para o serviço social, desde o seu surgimento com a implantação do sistema capitalista no Brasil, sua inserção na divisão social e técnica do mercado de trabalho até seu posicionamento na defesa dos direitos da classe trabalhadora. Para se inserir na divisão social e técnica do mercado de trabalho, toda profissão precisa ser regulamentada por lei específica. O serviço social como profissão institucionalizada surge no Brasil na década de 1930, com a criação das primeiras escolas em São Paulo e no Rio de Janeiro. Diante disso, abordaremos o serviço social como profissão liberal, apontando algumas fragilidades e possibilidades para o exercício autônomo do assistente social. Também apresentaremos as leis brasileiras que o regulamentaram e a Lei de Regulamentação da Profissão de Assistente Social vigente no país (Lei n. 8.662/1993). Os princípios fundamentais do Código de Ética do Assistente Social com seus valores ético‑políticos direcionam a identidade do profissional na luta pela defesa dos direitos humanos e suas responsabilidades, presentes no Código de Ética. Pensar a ética profissional consiste em fazer uma retomada da discussão sobre Ética Geral. O assistente social precisa conhecer a realidade social e, por meio de uma práxis transformadora, contribuir para a emancipação dos usuários. Conhecer a realidade requer conhecer o espaço de atuação, isto é, o cotidiano das instituições. A vida no dia a dia se constitui como espaço de trabalho do assistente social, por isso, é alvo de estudos na categoria. Neste livro‑texto, vamos discutir o cotidiano como espaço de atuação e a práxis como categoria do fazer profissional. O desempenho do exercício pede a utilização de estratégias e técnicas que estejam subsidiadas pela bagagem teórico‑metodológica acumulada pelo acadêmico durante sua formação na universidade. É importante que essa formação inicial seja realimentada continuamente pela busca incessante de novos conhecimentos. O assistente social deve ser capaz de estabelecer objetivos e finalidades profissionais, e, para isso, é fundamental a relação teoria/prática. Esses dois elementos, conectados, permitem a mediação que resulta na construção de atividades que criam respostas para as demandas impostas a ele. O amadurecimento teórico‑metodológico do serviço social tem em seu bojo a contribuição hegemônica do materialismo dialético. Essa contribuição é percebida no esforço de vários autores que se arvoram a trazer para o debate diversas categorias da dialética. E a mediação, como categoria teórica que tem papel teórico‑metodológico imprescindível para a intervenção desse profissional, faz parte do instrumental de trabalho. 11 Veremos como o assistente social deve distinguir as perspectivas profissionais, o que é mais que um desafio, haja vista que a realidade é dinâmica e, consequentemente, seu exercício também é. Destacaremos alguns desses desafios frente à questão social, a fim de despertar em você a reflexão sobre sua atuação futura, baseando‑se na construção de investigações quanto às complexas realidades apresentadas. Após compreender a questão social, é necessário que você escolha e utilize corretamente os instrumentais na proposição de ações de enfrentamento das expressões da questão social; para isso, é fundamental posicionar‑se sempre com ética, pois a realidade atual está permeada de transformações que lesam as classes subalternas, imputam os direitos sociais e reestruturam as condições de trabalho de todos. Com esses conteúdos a serem estudados, você vai conhecer os espaços sócio‑ocupacionais em que pode atuar e vai compreender a atuação exercida neles. Ainda, realizará uma leitura sobre a supervisão da formação profissional, conhecendo como deve ser o perfil do assistente social diante do processo de reprodução das relações sociais e das novas necessidades do mercado. Tais fatos demandam de formação profissional que propicie subsídios teóricos, éticos, políticos e técnicos, auxiliando o desenvolvimento das competências e habilidades desse profissional, o que vai possibilitar uma ação crítica, criativa e comprometida. Para tanto, é necessário estar familiarizado com as exigências para a sua atuação, que pressupõe conhecer a realidade fazendo uso de uma visão de mundo crítica e ao mesmo tempo compreensiva. Para analisá‑las, deve‑se considerar as mudanças que ocorrem em velocidade acelerada em nossa sociedade e algumas situações com que o assistente social se depara, pois há de se levar em conta o contexto inserido. Essas situações não representam o todo profissional, são tendências no cenário da categoria, vinculadas pela burocracia, pelo próprio profissional e pela realidade. Abordaremos, por fim, a interdisciplinaridade no serviço social e sua importância para a articulação das ações profissionais. Ela é necessária para atuar em diferentes áreas e espaços sócio‑ocupacionais, exercer suas atividades com outros profissionais e desenvolver a reciprocidade e a interação com variadas áreas, além de estudar a articulação entre os saberes para estabelecer um planejamento na sua atuação. Assim sendo, essa ação tem como meta buscar efetividade nas propostas de trabalho pretendidas por profissões que atuam conjuntamente. Dessa maneira, com as temáticas aqui explanadas,esperamos que você, futuro assistente social, esteja preparado para atuar com domínio, ética e responsabilidade nessa profissão. Para tal exercício, busque sempre conhecer a realidade do meio em que estará inserido, a fim de oferecer um serviço eficaz e direcionado às pessoas que buscam no serviço social suprir suas necessidades. 13 SUPERVISÃO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL Unidade I 1 O ETHOS PROFISSIONAL DO SERVIÇO SOCIAL Quando se faz uma discussão sobre ética profissional, por mais que não se tenha uma noção sistematizada de seu significado, todos têm algo a dizer: via de regra, as respostas se voltam para a discussão como determinado profissional deve comportar‑se em seu exercício. Logo vem à tona a noção do que é certo ou errado, do conjunto de normas, princípios, direitos e deveres que orientam determinada profissão. 1.1 O que é a ética profissional? A ética profissional implica, a priori, o direcionamento filosófico e ético‑valorativo que determinada profissão escolhe para nortear sua conduta. Esclarecemos de antemão que são vários os elementos constitutivos de um ethos profissional. O debate dela faz uma reflexão em dois níveis: na dimensão técnico‑normativa, voltada para os aportes teórico‑filosófico‑ideológicos; e na dimensão prático‑operativa, que implica o direcionamento ético‑político das respostas profissionais. Ambas dimensões estão interligadas e o elo que as sustenta é tanto de natureza teórica (fundamentos que orientam a profissão) quanto ideocultural (visão de mundo dos profissionais). Essa abordagem é melhor esclarecida por Motta (2003, p. 11): Assim, enquanto a dimensão política da prática encontra‑se imbricada nos objetivos e finalidades das ações, principalmente nas possibilidades de interferir nas relações e situações geradoras das desigualdades e nos mecanismos institucionais para elas voltadas, a dimensão ética reclama por princípios e valores humanos, políticos e civilizatórios; e a dimensão prático‑operativa consiste na capacidade de articular objetivamente os meios disponíveis e os instrumentos de trabalho para materializar os objetivos com base nos valores. Ela nos instiga a refletir que, apesar de se pautar em um conjunto de princípios éticos e políticos presentes no ideário da profissão, vai muito além. No item posterior, essa discussão será melhor aprofundada. 1.2 Construção do ethos profissional A ética profissional faz parte de um contexto sociocultural e remete sempre a um debate filosófico. Não existe separação entre ética profissional e social, tendo em vista que o homem, como ser que vive a sociabilidade, constrói valores que norteiam as relações com si próprio e com os outros, sendo sujeito ético, cuja consciência é construída coletivamente. 14 Unidade I Sobre isso, Brites e Sales (2000, p. 8) enfatizam: “Não há, portanto, um hiato entre a ética profissional e a ética social, pois seria cindir a própria vida do homem na sua totalidade, isto é, em seus diversos pertencimentos: trabalho, gênero, família, ideologia, cultura, desejos etc.” Isso implica dizer que o homem, como ser social, com consciência, que fornece valor, que projeta sua ação, constrói‑se como ser na relação que estabelece com seus pares. Essa noção de indivíduo social só pode ser produzida na relação com o coletivo. Caso contrário, ele não passaria de meramente biológico. Nessa perspectiva, “é a existência ética que qualifica, enriquece e torna complexo o processo de (re)produção da coletividade humana” (Brites; Sales, 2000, p. 8). A ética profissional tende a receber determinações que antecedem a escolha pela profissão, pois, como parte de uma socialização primária, produz valores dominantes que são reproduzidos cotidianamente por intermédio das relações sociais mais amplas. Essas determinações que interferem na construção do ethos profissional são permeadas pelo conhecimento e, mais precisamente, pela base filosófica que orienta a profissão. Ao adquirir um conhecimento filosófico capaz de orientar suas escolhas éticas, a profissão assume o posicionamento e o compromisso políticos fundamentados em determinados valores e princípios que se referenciam no posicionamento teórico, “que expressam uma dada concepção de homem e de sociedade, que se traduzem em normas e diretrizes para a atuação profissional presentes no código de ética” (Brites; Sales, 2000, p. 9). Seguindo essa linha de raciocínio, compreende‑se que a ética profissional é resultado histórico do “rumo” que determinada categoria segue na construção de seus fundamentos valorativos, que vão repercutir na qualidade do exercício profissional. Ela configura‑se em um cenário social a partir do direcionamento que a ela é dado, por profissionais que dela fazem parte. O que, nos termos de Brites e Sales (2000, p. 9), é: A profissão constrói, historicamente, uma identidade e adquire uma legitimidade social tanto a partir da explicação da função social da profissão quanto dos contornos éticos que assume o trabalho profissional. Esse processo é atravessado por contradições e tensões que envolvem disputas políticas e ideológicas na sociedade. Não esqueçamos que o nosso exercício profissional realiza‑se numa sociedade capitalista, logo há demandas diferenciadas ou entendimentos diversos do que seja função social da profissão, no que concerne aos interesses das classes em relação. Desse modo, há vários projetos societários em confronto e o posicionamento da categoria, ao qual nos referimos, expressa exatamente a opção por um determinado projeto social. 15 SUPERVISÃO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL Barroco (2022) corrobora com essa reflexão, ao afirmar que ela é permeada por conflitos e contradições e suas determinações fundadoras extrapolam a profissão, remetendo às condições mais gerais da vida social. E prossegue: A natureza da ética profissional não é algo estático; suas transformações, porém, só podem ser avaliadas nessa dinâmica, ou seja, em sua relativa autonomia em face das condições objetivas que constituem as referências ético‑morais da sociedade e rebatem na profissão de modo específicos (Barroco, 2022, p. 69). O ethos profissional se configura por ser construído na relação que ocorre entre as necessidades ideoculturais e socioeconômicas e as possibilidades de escolhas que permeiam as ações ético‑morais nos aspectos diversos, mutáveis e contraditórios das relações sociais estabelecidas na sociedade. Para respaldar essa discussão, citamos mais uma vez Barroco (2022, p. 69), que brilhantemente compreende o ethos profissional Como um modo de ser construído a partir das necessidades sociais inscritas nas demandas postas historicamente à profissão e nas respostas ético‑morais dadas por ela nas várias dimensões que compõem a ética profissional. Isso implica dizer que a construção desse ethos extrapola o caráter normativo da profissão, e sua composição se dá no campo de diversas esferas, ora assinaladas por Barroco (1999, p. 129): Esfera teórica: trata‑se das orientações filosóficas e teórico‑metodológicas que servem de base às concepções éticas e profissionais, com valores, princípios, visão de homem e de sociedade. Esfera moral prática: diz respeito: a) ao comportamento prático individual dos profissionais relativo às ações orientadas pelo que se considera bom/mau, aos juízos de valor, à responsabilidade e compromisso social, à autonomia e consciência em face das escolhas e das situações de conflito; b) ao conjunto das ações profissionais em sua organização coletiva, direcionada para a realização de determinados projetos com seus valores e princípios éticos. Esfera normativa: expressa‑se no Código de Ética Profissional, exigido, por determinação estatutária, de todas as profissões liberais. Trata‑se de um código moral que prescreve normas, direitos, deveres e sansões determinadas pela profissão, orientando o comportamento individual dos profissionais e buscando consolidar um determinado projeto profissional com uma direção social explícita.Diante do exposto, reitera‑se a discussão de que um ethos profissional não se restringe meramente ao conjunto de normas e princípios. Essa visão que relaciona a ética profissional exclusivamente ao código de ética e ao conjunto de obrigações formais é equivocada e possui caráter ético meramente legalista. 16 Unidade I A dimensão da ética profissional extrapola o caráter endógeno da profissão: ela é o retrato daquilo que determinada atividade escolheu para adquirir legitimidade social, que implica o direcionamento teórico‑filosófico, posicionamento ético‑político e o modo de ser e viver, sujeitos individuais e coletivos que participam ativamente na construção desse ethos. 1.3 Trajetória do ethos profissional em serviço social Falar da trajetória histórica da ética profissional em serviço social implica fazer uma breve abordagem do processo de sua construção. O serviço social é construído no seio de relações sociais e, mais especificamente, no bojo do processo de consolidação do capitalismo monopolista, cujo caráter contraditório da divisão capital‑trabalho gera uma série de “mazelas sociais”. Para apaziguar as situações de “caos social” e paralelamente conter os avanços da classe operária que reivindicava seus direitos, a Igreja, a burguesia e o estado se aliaram. O serviço social configura‑se como fruto de múltiplas determinações que lhe conferem significado histórico e social. A construção de seu ethos não poderia estar descolada da forma como vem se configurando no cenário capitalista. Seguindo essa linha de raciocínio, a ética do serviço social se divide em duas etapas: um ethos conservador ou tradicional, que vai até meados dos anos 1970; e um ethos de ruptura, que tem seu marco inicial nessa mesma década. 1.4 Ethos conservador do serviço social O ethos conservador ou tradicional do serviço social expressa a moral burguesa articulada com a cristã e a positivista. Podemos afirmar que essa ética em questão preconiza a defesa da autoridade, da ordem e da tradição. Ela traz uma visão de homem e de sociedade expressa na tríade: neotomismo, pensamento conservador e positivismo. Não compete aqui fazer uma explanação dessas três teorias, tendo em vista que implicaria acirrada discussão; no entanto, é necessário retomar, brevemente, cada uma delas. O neotomismo significou uma retomada da filosofia de Santo Tomás de Aquino (teólogo/filósofo do século XIII) a partir das primeiras décadas do século XX. Essa filosofia restauradora teve repercussão (aliás, ainda tem) nas doutrinas da Igreja. Seus pressupostos se referenciam no princípio de que Deus é a fonte de todos os seres e que a pessoa humana, sendo a imagem e a semelhança de Deus, é caracterizada como um ser de dignidade, perfectibilidade e sociabilidade humana. O foco central dessa corrente teve forte repercussão na formação moral dos primeiros assistentes sociais, com a ideia primordial de bem comum e harmonia da sociedade. Sobre o pensamento conservador, afirma‑se que ele se constitui em um conjunto de ideias que trazem a herança do pensamento intelectual europeu do século XIX, que, reinterpretado, transforma‑se em uma ética de explicação e em projetos de ação favoráveis à manutenção da ordem capitalista. Suas principais características implicam a defesa da tradição social, com origem medieval. 17 SUPERVISÃO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL Brites e Sales (2000, p. 25) ponderam sobre esse pensamento: “Daí a valorização dos seguintes elementos: status, hierarquia, tradição, autoridade, corporativismo, ritualismo, simbologismo religioso e de pequenos grupos, como família, vizinhança, comunidade, entre outros”. O conservadorismo no serviço social significou o período que vai desde a gênese profissional, na década de 1930, até meados da década de 1960, sendo contestado a partir do Movimento de Reconceituação. O positivismo, por fim, configura‑se como uma corrente filosófica de pensamento, sistematizada por Auguste Comte (século XIX), que parte do princípio de que a vida social é regida por leis que são similares às da natureza. A filosofia positivista inspira‑se no método de investigação das ciências da natureza para explicar a vida social. Aqui, a sociedade é um todo orgânico, constituída por partes integradas e coesas que funcionam harmonicamente, seguindo um modelo físico ou mecânico. Durante anos, a prática do serviço social ficou sob esse entendimento, seja na visão de homem e de sociedade, seja nas práticas cotidianas dos primeiros assistentes sociais. O caráter ajustador e a visão clientelista da profissão são duas dessas características que durante muito tempo orientaram os assistentes sociais. Entre os objetivos da profissão, está presente o papel de eliminar as disfuncionalidades do indivíduo. Os problemas sociais eram considerados como anormalidades e competia ao profissional tratar as condutas desviadas. A tríade pensamento conservador/neotomismo/positivismo elimina do âmbito da formação e do exercício profissional a compreensão sobre: • A substância profundamente desigual da sociedade capitalista, considerada como natural, harmônica e capaz de realizar as necessidades individuais e sociais. • As condições da exploração capitalista e as relações sociais que sustentam o trabalho alienado, inerentes ao processo de dominação e manutenção da ordem burguesa. • O caráter contraditório da prática profissional e sua participação no processo de reprodução social dos interesses de classes contrapostas que convivem em tensão (Iamamoto; Carvalho, 2020, p. 54). • A dimensão ético‑política da prática profissional, em nome de uma neutralidade axiológica, afinada com a necessidade de legitimar a suposta “face humanitária do Estado e do empresariado” (Brites; Sales, 2000, p. 27). Diante dessa breve contextualização, podemos indagar: como tudo isso repercute na ética profissional dos assistentes sociais? Qual a relação dessa tríade com os códigos de ética? A história da ética nessa área traz em seu bojo cinco códigos de ética: a primeira formulação em 1947; a reformulação em 1965; a reelaboração em 1975 (esses três primeiros códigos são o que denominamos de ethos tradicional); a reformulação em 1986; e o código de 1993 (ethos de ruptura). 18 Unidade I Compreendendo código de ética como “uma dimensão da ética profissional que remete para o caráter normativo e jurídico que regulamenta a profissão no que concerne as implicações éticas de sua ação” (Bonetti, 1996, p. 171), os três primeiros códigos, ao longo de seus artigos e alíneas, vêm corroborar essa proposta de ética valorativa voltada para as ideias de bem comum, pessoa humana, integração social etc. Para exemplificar, vejamos os arts. 7º e 8º do Código de 1965: Artigo 7º – Ao assistente social cumpre contribuir para o bem comum esforçando‑se para que o maior número de criaturas humanas dele se beneficiem, capacitando indivíduos, grupos e comunidades para sua melhor integração social. Artigo 8º – O assistente social deve colaborar com os poderes públicos na preservação do bem comum e dos direitos individuais, dentro dos princípios democráticos, lutando inclusive para o estabelecimento de uma ordem social justa (CFESS, 1965, p. 2). O Código não foge dessa fundamentação. Vejamos seu art. 5º, II, “b”, dos deveres do assistente social: “Esclarecer o usuário quando a diagnóstico, prognóstico, plano e objetivos do tratamento, prestando à família ou aos responsáveis os esclarecimentos que se fizerem necessários” (CFESS, 1975, p. 5). Ainda no art. 5º, VI, “a” e “b”: a) zelar pela família, defendendo a prioridade dos seus direitos e encorajando as medidas que favoreçam sua estabilidade e integridade; b) participar de programas nacionais e internacionais destinados à elevação das condições de vida e correção dos desníveis sociais (CFESS, 1975, p. 6). Em suma, o ethos conservador, observado nos códigos de ética, perpassou toda a constituição histórica da profissão que, até meados dos anos 1970, trazia um perfillegitimador da ordem capitalista. O processo de ruptura ocorreu pouco depois do Movimento de Reconceituação. 1.5 Ethos de ruptura A construção de uma nova moralidade profissional do serviço social volta‑se para o “novo” direcionamento interventivo que essa profissão assume no cenário brasileiro nos anos 1980 e 1990. 19 SUPERVISÃO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL Lembrete A ética de uma profissão não se restringe a um código de ética – sua construção se configura na própria concepção de profissão inserida na sociedade. O novo ethos profissional do serviço social é mediado por um comprometimento político com a classe trabalhadora e com as lutas populares, buscando garantir uma ética voltada para uma nova moralidade profissional, que implica valores emancipatórios, como a defesa da democracia, da liberdade e dos direitos. Com respaldo teórico na vertente marxiana, o serviço social adentra os anos 1980 com certa maturidade teórico‑metodológica e ideológico‑política, consolidando‑se nos anos 1990 com o novo Projeto Ético‑Político Profissional. Sobre esse projeto, aprofundaremos a discussão em módulos posteriores. O Código de Ética de 1986 implica a ruptura com os códigos anteriores, trazendo uma nova abordagem dos fundamentos ético‑filosóficos ao negar definitivamente as ideias abstratas, metafísicas e idealistas do real (da sociedade e do homem). A nova ética é resultado da luta da classe trabalhadora e, consequentemente, de uma nova visão da sociedade brasileira. A categoria, por meio de suas organizações, faz uma opção clara por uma prática profissional vinculada aos interesses dela (CFESS, 1986, p. 1). O Código de 1986 trouxe avanços significativos, principalmente em relação aos aspectos políticos e educativos. Todavia, apresentou fragilidade quanto à sua operacionalização no cotidiano profissional, ou seja, era preciso valorizar os aspectos educativos e políticos, sem deixar de dar a mesma importância aos normativos e jurídicos, que praticamente não foram enfatizados nele, sendo necessária uma nova revisão, que culminou com o novo Código de 1993. Paiva e Sales (2000, p. 176) embasam essa discussão: O código precisa tematizar, na verdade, o dever ser: como a prática pode ser realizada de acordo com os princípios éticos definidos pelo projeto político‑profissional, recusar o que não é aceitável dentro do exercício do serviço social, ou seja, o que é proibido e vedado ao assistente social fazer. Tais parâmetros não ficavam, porém, suficientemente claros no texto anterior, em termos de possibilidades de respostas e situações e dilemas profissionais, demonstrando a presença mais de uma entonação teórico‑metodológica do que de uma configuração normativa. 20 Unidade I Apesar das críticas levantadas em torno do Código de 1986, houve reconhecimento de que ele representou um extraordinário avanço ao expressar, no plano da reflexão ética, boa parte do conjunto de conquistas que a categoria vinha acumulando desde o Movimento de Reconceituação. A reformulação no Código de 1993 se apropria desse conjunto de conquistas já assinaladas no de 1986, como a luta pela democracia e pela cidadania, o que culminou com o reconhecimento pelo serviço social dos usuários e de seus direitos. Sobre isso, Terra (2000, p. 2) afirma que “O novo Código de Ética desponta como instrumento de defesa não só para a categoria como, também, para o usuário”. O novo código configura uma acirrada postura profissional respaldada por princípios e valores que preconizam uma defesa intransigente “da democracia, da equidade, da liberdade, da defesa do trabalho, dos direitos sociais e humanos, contestando discriminações de todas as ordens” (Netto, 1999, p. 12), em uma perspectiva de fortalecer cada vez mais a identidade profissional articulada com um projeto de sociedade mais justa e democrática, cuja emancipação humana está acima de tudo. 1.6 Serviço social: uma profissão liberal Iniciemos com a seguinte pergunta: o que é uma profissão liberal? Conforme preconiza o Estatuto da Confederação Nacional das Profissões Liberais (CNPL) no seu art. 1º, § 2º, “profissional liberal é aquele legalmente habilitado a prestar serviços de natureza técnico‑científica de cunho profissional com a liberdade de execução que lhe é assegurada pelos princípios normativos de sua profissão, independente de vínculo da prestação de serviço” (Estatuto..., 2024, p. 3). Conforme a CNPL, ela se constitui como uma profissão legalmente reconhecida e regulamentada por lei específica. O profissional deve ter formação técnica ou superior, e essa deve propiciar a aquisição de conhecimentos teóricos, técnicos e metodológicos, todos de cunho científico. Quando o Estatuto da CNPL se refere à liberdade do profissional na execução de suas atribuições, está garantindo a autonomia dele; no entanto, é cada vez menor o número de profissionais que exercem suas atividades autonomamente. No caso do serviço social, a maioria dos assistentes sociais atua no âmbito do serviço público (União, estado e município), na condição de assalariado‑vendedor. Ao se referir aos princípios normativos, a CNPL preconiza que o exercício deve ser orientado pelas normativas estabelecidas em lei. O serviço social é regulamentado pela Lei n. 8.662/1993 (Brasil, 1993) e o fazer profissional do assistente social é norteado pelo Código de Ética do Assistente Social. É, ainda, fiscalizado pelas entidades representativas da categoria: Conselho Federal de Serviço Social (CFESS) e Conselhos Regionais de Serviço Social (CRESS). O serviço social foi enquadrado como profissão liberal em todo o território nacional pela Lei n. 3.252, de 1957, cujo Regulamento foi aprovado pelo Decreto n. 994, de 1962, ambos revogados pela Lei n. 8.662/1993 (Brasil, 1993). Apesar de ele ser considerado uma profissão liberal, autores dessa área discutem sobre a fragilidade da autonomia do assistente social no exercício. Vamos pontuar as observações feitas por Marilda Vilella Iamamoto e Raul de Carvalho, no livro Relações sociais e serviço social no Brasil. 21 SUPERVISÃO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL Para Iamamoto e Carvalho (2020), ele não tem uma prática peculiar às profissões liberais. O assistente social não tem exercido a profissão de forma independente, não dispondo de condições materiais e técnicas para seu trabalho. Ele se constituiu como vendedor de sua força de trabalho, em uma relação de assalariamento. Esse profissional não tem o completo controle sobre o seu trabalho, especialmente quanto às questões de caráter administrativo, como a jornada de trabalho a ser cumprida, o valor de sua remuneração e o público a ser atendido. Na maioria das vezes, quando ele se insere na instituição empregadora, essas questões já estão predefinidas. A fragilidade da autonomia não implica a eliminação do caráter liberal do serviço social. Outra característica a ser ressaltada é a existência de uma relação singular no contato direto com os usuários, o que reforça um certo espaço para a atuação técnica, abrindo a possibilidade de se reorientar a forma de intervenção conforme a maneira de se interpretar o papel profissional (Iamamoto; Carvalho, 2020, p. 87). É preciso ter claro que há uma definição jurídico‑legal que assegura o caráter de profissão liberal ao serviço social e que possibilita e garante o exercício independente de sua profissão. Essa tem uma Lei de Regulamentação que estabelece atribuições que são privativas. A seguir, faremos uma contextualização histórica do processo de regulamentação do serviço social. 1.7 Regulamentação do serviço social: contextualização histórica As primeiras escolas de serviço social surgiram, no Brasil, na década de 1930, fundamentadas na doutrina cristã da Igreja Católica e na filantropia e caridade, praticadas por agentes leigos da Igreja. Nessa época, o serviço social tinha caráter conservador e atuava para legitimar a ordem estabelecida pelas classes dominantes em detrimento da defesa dos direitos das classestrabalhadoras. Somente na década de 1950, especificamente em 13 de junho de 1953, foi criada a Lei n. 1.889, regulamentada pelo Decreto n. 35.311, de 1954. A referida lei dispunha sobre os objetivos do ensino do serviço social, sobre sua estruturação e sobre as prerrogativas dos portadores de diploma de assistente social e agente social. Observação Em 1957 foi instituída a Lei n. 3.252, regulamentada pelo Decreto n. 994, de 15 de maio de 1962. Ela estabeleceu o exercício da profissão de assistente social e criou o Conselho Federal de Assistentes Sociais (CFAS) e os Conselhos Regionais (Cras). 22 Unidade I De acordo com o art. 3° da Lei n. 3.252, são atribuições do assistente social: • direção de escolas de serviço social; • ensino das cadeiras ou disciplinas de serviço social; • direção e execução do serviço social em estabelecimentos públicos e particulares; • aplicação dos métodos e técnicas específicos do serviço social na solução de problemas sociais. A Lei 8.662/93 estabelece atribuições privativas ao assistente social. Altera as denominações de Conselho Regional de Assistentes Sociais (Cras) para Conselho Regional de Serviço Social (CRESS) e de Conselho Federal de Assistentes Sociais (CFAS) para Conselho Federal de Serviço Social (CFESS). A seguir, vamos conhecer os aspectos introdutórios da lei atual. 1.7.1 Conhecendo a lei de regulamentação da profissão de assistente social A Lei n. 8.662/1993 dispõe sobre a profissão de assistente social e assegura que “é livre o exercício da profissão de Assistente Social em todo o território nacional, observadas as condições estabelecidas nesta lei” (art. 1º). No art. 2º, a lei preconiza que somente poderão exercer a profissão de assistente social os possuidores de diploma em curso de graduação em serviço social, oficialmente reconhecido e expedido por estabelecimento de ensino superior, devidamente registrado no órgão competente. O parágrafo único do referido artigo dispõe que “o exercício da profissão de assistente social requer prévio registro nos Conselhos Regionais que tenham jurisdição sobre a área de atuação do interessado nos termos desta lei”. O art. 3º deixa explícito que a designação profissional é privativa aos habilitados na forma da legislação vigente, não devendo ser usada para indicar práticas assistenciais. No art. 5º estão estabelecidas as atribuições privativas do assistente social: • coordenar, elaborar, executar, supervisionar e avaliar estudos, pesquisas, planos, programas e projetos na área; • planejar, organizar e administrar programas e projetos em unidade de serviço social; • prestar assessoria e consultoria em órgãos da Administração Pública direta e indireta, empresas privadas e outras entidades; • realizar vistorias, perícias técnicas, laudos periciais, informações e pareceres; • assumir, no magistério de serviço social, tanto a nível de graduação como pós‑graduação, disciplinas e funções que exijam conhecimentos próprios e adquiridos em curso de formação regular; 23 SUPERVISÃO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL • realizar treinamento, avaliação e supervisão direta de estagiários; • dirigir e coordenar unidades de ensino e cursos de serviço social, de graduação e de pós‑graduação; • dirigir e coordenar associações, núcleos e centros de estudo e de pesquisa; • elaborar provas, presidir e compor bancas de exames e comissões julgadoras de concursos ou outras formas de seleção, ou onde sejam aferidos conhecimentos inerentes ao serviço social; • coordenar seminários, encontros, congressos e eventos; • fiscalizar o exercício profissional por intermédio dos Conselhos Federal e Regionais; • dirigir serviços técnicos em entidades públicas ou privadas; • ocupar cargos e funções de direção e fiscalização da gestão financeira em órgãos e entidades representativas da categoria profissional. Somente o assistente social pode exercer essas funções sob pena de medidas judiciais cabíveis ao exercício ilegal da profissão. O art. 15 da Lei de Regulamentação da profissão de assistente social determina que “é vedado o uso da expressão serviço social por quaisquer pessoas de direito público ou privado que não desenvolvam atividades previstas nos arts. 4º e 5º” da Lei n. 8.662/1993. O parágrafo único do mesmo artigo atesta que: As pessoas de direito público ou privado que se encontrem na situação mencionada neste artigo terão o prazo de noventa dias, a contar da data de vigência desta lei, para processarem as modificações que se fizerem necessárias a seu integral cumprimento, sob pena das medidas judiciais cabíveis (Brasil, 1993). A Lei n. 3.252/1957 só se referia às atribuições em termos de prática da docência, direção, secretaria e supervisão nas escolas de serviço social, bem como somente à função de direção; assim, a lei de 1993 trouxe avanços, acrescentando o magistério tanto em nível de graduação como de pós‑graduação e supervisão direta de estagiários. Saiba mais Você pode ter mais informações sobre a Lei de Regulamentação em: BRASIL. Lei n. 8.662, de 7 de junho de 1933. Dispõe sobre a profissão de Assistente Social e dá outras providências. Disponível em: https://shre.ink/DxCT. Acesso em: 16 jul. 2024. 24 Unidade I 1.7.2 Contextualização do serviço social O serviço social surge durante a implantação do sistema capitalista, quando da instauração da Revolução Industrial, no século XIX. Nesse contexto histórico, emerge na sociedade a luta entre burguesia e proletariado. Com a consolidação do sistema capitalista surge a chamada questão social, que exige a intervenção do Estado nas relações entre empresariado e operários, visando minimizar os problemas sociais advindos da exploração da força de trabalho para acumulação de lucros. O serviço social teve, inicialmente, a missão de contribuir com a legitimação do capitalismo, desenvolvendo uma prática pautada pelos ditames da burguesia industrial, atendendo aos interesses das classes dominantes. Com essa missão, inseriu‑se na divisão social e técnica do mercado de trabalho, na organização e na prestação de serviços sociais, por meio de políticas públicas e sociais para o enfrentamento da questão social como resposta do Estado às condições de miséria pelas quais passava a classe operária. Na atualidade, atua sob novas perspectivas, na defesa intransigente dos direitos humanos e na recusa do autoritarismo. Assume o compromisso profissional em favor da ampliação e consolidação da cidadania, da democracia, da equidade e da justiça social, com vistas à construção de uma nova ordem societária, sem dominação‑exploração de classe, etnia e gênero. O serviço social vem traçando um fazer profissional na formulação de propostas criativas frente às expressões sociais. Sobre ele, Iamamoto (2022, p. 175) afirma que o desafio é redescobrir alternativas e possibilidades para o trabalho profissional no cenário atual, bem como traçar horizontes para a formulação de propostas que façam frente à questão social e que sejam solidárias com o modo de vida daqueles que as vivenciam, não só como vítimas, mas como sujeitos que lutam pela preservação e por conquistas da sua vida, da sua humanidade. Essa discussão é parte dos rumos perseguidos pelo trabalho profissional contemporâneo. O assistente social necessita estar revestido de conhecimento teórico e metodológico para decifrar a realidade em que está inserido para, assim, intervir de forma propositiva e criativa, em uma perspectiva emancipatória dos usuários da profissão, visando à transformação social. Para contribuir com a construção de uma nova ordem societária, mais justa e equânime, a atuação dele é norteada pelo Código de Ética do Assistente Social. O desafio é materializar os princípios fundamentais desse Código no cotidiano da prática laboral. 25 SUPERVISÃO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL 2 COMPETÊNCIA E HABILIDADE DO ASSISTENTE SOCIAL Pensar a ética profissional consiste em fazer uma retomada da discussão sobre ética geral. A ética “comofilosofia crítica interfere diretamente na realidade, contribui para a ampliação das capacidades ético‑morais” (Barroco, 1999, p. 55). Sob essa perspectiva, a ética perpassa todas as dimensões da vida social, daí a “fragmentação” em diversas éticas: social, religiosa, familiar e profissional. Você, naturalmente, pode pensar que a ética é uma coisa bem presente no dia a dia, e realmente é, pois nossos comportamentos são recheados de valores morais que foram construídos historicamente e que são alvo de reflexão ética. Nesse tópico, abordaremos a ética, e mais precisamente a sua relação com a ética profissional, levando‑o(a) a compreender que não há um hiato entre elas. Por isso, queremos convidá‑lo(a) a refletir sobre essa relação. 2.1 Código de Ética de 1993: algumas considerações O Código de Ética de 1993, com seus valores ético‑políticos, direciona a identidade do assistente social na luta pela defesa dos direitos humanos. Essa se dá na relação entre o público e o privado, isto é, entre as instituições públicas e privadas, e o “desafio é transformar espaços de trabalho, especialmente estatais, em espaços de fato públicos, alargando as possibilidades de apropriação da coisa pública por parte da coletividade” (Iamamoto, 2022, p. 69). Esse Código fornece respaldo jurídico à profissão e se constitui como referência ético‑política, além de estabelecer um conjunto de regras jurídico‑legais para a atuação profissional, traduzido em forma de artigos. Os artigos são, portanto, dotados da capacidade seja de orientar as melhores escolhas, seja de detectar e combater as infrações à ética profissional. A partir daí, tais infrações tornam‑se passíveis de denúncia por qualquer pessoa que se sinta lesada em seus direitos, decorrente da atuação profissional do assistente social e, portanto, de ser alvo da apreciação e ação dos órgãos fiscalizadores da categoria, os Conselhos Regionais de Serviço Social – CRESS (Paiva; Sales, 2000, p. 180). O Código cita 11 princípios fundamentais que materializam o Projeto Ético‑Político do serviço social e os compromissos ético‑profissionais do assistente social com os usuários da profissão. Os princípios perpassam os artigos e as alíneas do código e se configuram ao longo dos títulos e capítulos. Sua estrutura é composta por quatro títulos. O primeiro trata das disposições gerais sobre a competência do Conselho Federal de Serviço Social (CFESS). O título II se reporta aos direitos e às responsabilidades gerais. No título III, são abordadas as relações profissionais com os usuários, instituições empregadoras, outros profissionais, entidades da categoria e demais organizações da sociedade civil; além disso, refere‑se ao sigilo profissional e às relações com a justiça. O título IV trata da observância, das penalidades, da aplicação e do cumprimento do Código de Ética. 26 Unidade I O título III é composto por seis capítulos, e todo ele apresenta 36 artigos que asseguram os direitos do assistente social, bem como estabelecem os seus deveres. Além disso, defende muito mais os interesses dos usuários do serviço social que os interesses do assistente social; por isso, constitui‑se como um código peculiar na história das profissões liberais. 2.2 Princípios fundamentais do Código de Ética de 1993 Os princípios fundamentais do Código de Ética articulam‑se e complementam‑se entre si para nortear os caminhos a serem percorridos pelo assistente social, a partir dos compromissos assumidos pela categoria com os usuários do serviço social. Apresentaremos, agora, os princípios desse Código, trazendo algumas considerações sobre cada um deles. 1º Princípio Traz o “Reconhecimento da liberdade como valor ético central e das demandas políticas a ela inerentes – autonomia, emancipação e plena expansão dos indivíduos sociais” (CFESS, 1993, p. 23). Para Paiva e Sales (2000), o conceito de liberdade defendido pelo Código refere‑se ao indivíduo como sujeito com direito à liberdade, contrário à que é defendida pelo sistema capitalista, o qual diz respeito ao livre arbítrio ou individualismo. Na produção capitalista, o indivíduo é livre para usufruir de todas as oportunidades e possibilidades oferecidas pelo Estado. O sucesso e o fracasso no trabalho são atribuídos a ele, pois o sistema abstém‑se de qualquer responsabilidade. A liberdade referenciada faz menção ao “indivíduo como fonte de valor, mas dentro da perspectiva de que a plena realização da liberdade de cada um requer a plena realização de todos” (Paiva; Sales, 2000, p. 182). Ela deve ser regida pela autonomia dos indivíduos sociais, conforme estabelece o Código. 2º Princípio Faz menção à “Defesa intransigente dos direitos humanos e recusa do arbítrio e do autoritarismo” (CFESS, 1993, p. 23). Nele está explícito o posicionamento da categoria profissional na luta em prol da defesa dos direitos humanos e da recusa de toda forma de dominação, autoritarismo, violência, exploração, opressão e crueldade contra a pessoa humana. Trata‑se de empreender uma recusa e um combate nos espaços institucionais e nas relações cotidianas, diante de toda as situações que ferem a integridade e que submetem ao sofrimento, à dor física e à humilhação. Como contraponto à essa lógica da perversidade e da omissão, deve‑se imbuir pelo Código, que sinaliza um espírito e uma postura assentados na cultura humanística e essencialmente democrática (Paiva; Sales, 2000, p. 185). 27 SUPERVISÃO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL O assistente social deve orientar os usuários sobre seus direitos, bem como buscar alternativas e possibilidades de atendimento para que esses direitos sejam garantidos e efetivados, pois estão assegurados em leis; no entanto, precisam alcançar os cidadãos, como forma de proteção e promoção social. 3º Princípio Discorre sobre a “ampliação e consolidação da cidadania, considerada tarefa primordial de toda sociedade, com vistas à garantia dos direitos civis sociais e políticos das classes trabalhadoras” (CFESS, 1993, p. 23). O assistente social atua no espaço de viabilização de direitos, intervindo nas políticas públicas sociais, em programas institucionais e na prestação de benefícios aos usuários da profissão. Ele deve primar pela ampliação e consolidação da cidadania. Para Paiva e Sales (2000, p. 187), comprometer‑se [...] com a cidadania implica apreendê‑la na sua real significação, o que seguramente exige a ultrapassagem da orientação civil e política imposta pelo pensamento liberal e, como tal, a superação dos limites engendrados pela reprodução das relações sociais no capitalismo. A cidadania, de acordo com a nova acepção ético‑política proposta, consiste na universalização dos direitos sociais, políticos e civis, pré‑requisito este fundamental à sua realização. Sendo criativo e propositivo, precisa constantemente buscar estratégias teórico‑metodológicas e políticas para viabilizar o acesso do cidadão aos bens e serviços oferecidos pelas instituições públicas. Como forma de contribuir com a universalização dos direitos civis, sociais e políticos das classes trabalhadoras, ele tem de ultrapassar os entraves e os limites impostos pela burocracia existente nas instituições públicas, promovendo uma prestação de serviços que possibilite aos usuários a garantia de direitos assegurados em leis vigentes. Acredita‑se que somente pela efetivação dos direitos é que os indivíduos poderão usufruir da plena cidadania. 4º Princípio Menciona a “defesa do aprofundamento da democracia, enquanto socialização da participação política e da riqueza socialmente produzida” (CFESS, 1993, p. 23). Diz respeito à necessidade de socialização da riqueza produzida e da participação política dos trabalhadores nas decisões institucionais. Importa relembrar que vivemos em uma sociedade regida por um modo de produção que tem como interesse maior a acumulação de lucro e riquezas em benefício de uma classe que, apesar de ser minoria, detém os meios de produção. Há uma classe que, apesar deser maioria, só tem a sua força de trabalho para garantir o seu próprio sustento. 28 Unidade I A categoria profissional dos assistentes sociais, por meio do Código de Ética, posiciona‑se radicalmente em favor dos interesses da classe trabalhadora, contra os ditames do capitalismo, repudiando toda forma de exploração e exclusão social. É mediante o processo de trabalho que o ser social se constitui, se instaura como distinto do ser natural, dispondo de capacidade teleológica, projetiva, consciente; é por esta socialização que ele se põe como ser capaz de liberdade. Esta concepção já contém, em si mesma, uma projeção de sociedade ‑ aquela em que se propicie aos/às trabalhadores/as um pleno desenvolvimento para a invenção e vivência de novos valores, o que, evidentemente, supõe a erradicação de todos os processos de exploração, opressão e alienação (CFESS, 1993, p. 22). O assistente social assume, junto à classe trabalhadora, o compromisso de defender a democracia por meio da viabilização da participação política dos usuários, nos espaços de debate e decisões institucionais. Dessa forma, [...] no âmbito da relação que se estabelece entre o assistente social e o usuário, ser democrático significa romper com práticas tradicionais de controle, tutela e subalternização. E, mais, contribuir para o alargamento dos canais de participação dos usuários nas decisões institucionais, entre outras coisas, por meio da ampla socialização de informações sobre os direitos sociais e serviços (Paiva; Sales, 2000, p. 190). 5º Princípio Faz menção sobre o “posicionamento em favor da equidade e justiça social, que assegure universalidade de acesso aos bens e serviços relativos aos programas e políticas sociais, bem como sua gestão democrática” (CFESS, 1993, p. 23). O assistente social assume o compromisso de lutar por uma sociedade na qual a equidade e a justiça social prevaleçam. Por meio das políticas sociais, ele contribui com a distribuição das riquezas produzidas na sociedade capitalista. O papel dele é democratizar o acesso dos usuários aos serviços oferecidos; assim, “a ação profissional se põe por inteiro a serviço do compromisso com a universalidade de direitos e de alcance das conquistas e riquezas sociais” (Paiva; Sales, 2000, p. 191). 6º Princípio Faz menção ao “empenho na eliminação de todas as formas de preconceito, incentivando o respeito à diversidade, à participação de grupos socialmente discriminados e à discussão das diferenças” (CFESS, 1993, p. 23). 29 SUPERVISÃO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL O assistente social assume uma postura crítica de repúdio contra toda forma de preconceito na construção de uma cultura social, primando pelo respeito às diversidades e às diferenças na defesa e valorização das preferências individuais. Segundo Paiva e Sales (2000, p. 196), isso significa que [...] não se deve, portanto, no fazer profissional, atuar com parâmetros e crivos meramente pessoais, muitas vezes balizados por valores religiosos, morais e pré‑noções conflitantes com o universo ético‑profissional. Ele deve atuar visando construir uma sociedade mais humana e democrática, na qual o respeito às diferenças seja uma realidade, bem como seja garantida a participação dos grupos nos espaços de discussão e debate. 7º Princípio Reza sobre a “garantia do pluralismo, através do respeito às correntes profissionais democráticas existentes e suas expressões teóricas, e compromisso com o constante aprimoramento intelectual” (CFESS, 1993, p. 24). Concerne ao respeito às correntes teóricas e às diferentes linhas de pensamento. A categoria opta pela corrente teórica que, a seu ver, consegue explicar a realidade social com demandas e desafios. Paiva e Sales (2000, p. 197) sublinham que [...] todos têm direito a uma expressão teórica e política, onde se lhes deve garantir o máximo de condições de liberdade de crítica e de discussão. No entanto, essas concepções terão repercussão e influência diferenciadas na própria categoria. O assistente social assume o compromisso de se revestir constantemente de aprimoramento teórico, técnico e metodológico para intervir assertivamente e contribuir com a transformação social e emancipação dos usuários. 8º Princípio Discorre sobre a “opção por um projeto profissional vinculado ao processo de construção de uma nova ordem societária, sem dominação, exploração de classe, etnia e gênero” (CFESS, 1993, p. 24). A categoria dos assistentes sociais se posiciona contundentemente a favor da construção de uma nova ordem societária a partir do enfrentamento da desigualdade social, que marca a vida em sociedade. O assistente social assume uma postura de luta por igualdade e justiça, bem como por uma sociedade pautada em princípios democráticos sem dominação e exploração de uma classe sobre a outra. Assume o compromisso “por uma concepção de sociedade que preconiza o fim da dominação ou exploração de classe, etnia e gênero” (Paiva; Sales, 2000, p. 201). 30 Unidade I 9º Princípio Faz “articulação com os movimentos de outras categorias profissionais que partilhem dos princípios deste Código e com a luta geral dos/as trabalhadores/as” (CFESS, 1993, p. 24). Afirma o posicionamento da categoria profissional em favor da luta geral dos trabalhadores assumida na década de 1980, quando no 8º Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais (CBAS) os presentes se posicionaram contra todas as formas de exploração impostas, defendendo a articulação dos assistentes sociais com os movimentos sociais e outras categorias pela causa dos trabalhadores. 10º Princípio Faz menção ao “compromisso com a qualidade dos serviços prestados à população e com o aprimoramento intelectual, na perspectiva da competência profissional” (CFESS, 1993, p. 24). Trata do compromisso assumido com a população, proporcionando qualidade nos serviços prestados, o que requer atuação revestida de competência teórico‑metodológica, técnico‑operativa e ético‑política. O assistente social assume a postura de constantemente buscar o aprimoramento intelectual para contribuir com a proposição de alternativas criativas que possibilitem uma intervenção profissional competente. A competência depende das condições de trabalho que lhe são oferecidas e que limitam ou favorecem seu bom desempenho profissional. No entanto, é preciso ter consciência de que “a competência não é algo pronto e acabado, nem se adquire de forma mágica e instantânea. Também não é produto do espontaneísmo ou de modelos fixos e redefinidos nem da empreitada solitária do indivíduo” (Paiva; Sales, 2000, p. 204). Ela precisa ser construída gradualmente no seu fazer profissional e nas relações com outros profissionais. 11º Princípio Faz menção ao “exercício do Serviço Social sem ser discriminado/a, nem discriminar, por questões de inserção de classe social, gênero, etnia, religião, nacionalidade, orientação sexual, identidade de gênero, idade e condição física” (CFESS, 1993, p. 24). Refere‑se aos direitos assegurados aos assistentes sociais e ao respeito às causas que envolvem questões de cunho social e individual. A categoria profissional defende e respeita as diferenças de cada um e repudia toda forma de discriminação. Paiva e Sales (2000, p. 206) acreditam que seja necessário “[...] aceitar os indivíduos com suas manias, atributos, características que os particularizam exclusivamente, mas que em nada justificam qualquer tipo de exclusão ou privilégio, que extrapolem o âmbito estrito da competência profissional”. Todo ser humano tem suas particularidades e preferências que devem ser respeitadas. Os assistentes sociais, então, posicionam‑se a favor dessa causa. 31 SUPERVISÃO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL 2.3 Direitos e responsabilidades gerais do assistente social O título II do Código de Ética de 1993 trata dos direitos e das responsabilidades do assistente social em seu exercício profissional. Nesse momento, você somente conhecerá os direitos e os deveres do assistente social. Mais adiante,