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A economia da atenção virou, nas últimas décadas, o eixo invisível que organiza a produção cultural, as estratégias comerciais e as práticas políticas. Num país em que o tempo livre é disputado por notificações, vídeos curtos e rádios de algoritmo, a atenção passou a ser moeda de troca: empresas medem, monetizam e moldam comportamentos para transformá-la em receita publicitária, dados e poder simbólico. Este editorial investiga como chegamos aqui, quais são as consequências e que alternativas se abrem para uma sociedade que deseja recuperar o controle sobre seu tempo mental. Na manhã em que conheci Luana — uma professora de 34 anos que confessou ter interrompido a leitura do próprio romance para checar o feed de uma rede social — ficou evidente o caráter pessoal e coletivo do fenômeno. Ela descreveu a sensação: primeiro, o impulso; depois, a culpa; por fim, a resignação. A história dela é a história de milhões: a economia da atenção não apenas capta momentos isolados, mas redesenha rotinas inteiras. Plataformas digitais, armadas com engenharia de engajamento, utilizam notificações, recomendações e interfaces projetadas para maximizar o tempo de olho e de dedo. O produto vendido não é conteúdo, é duração da atenção. Jornalisticamente, é possível mapear um ecossistema. De um lado, gigantes tecnológicos que refinam modelos preditivos e leilões em tempo real para vender microsegundos de foco a anunciantes. De outro, criadores de conteúdo que, em busca de visibilidade e renda, adaptam formatos para obedecer aos imperativos do algoritmo: viralizar, polarizar, provocar emoção imediata. Entre esses pólos, o público não é um receptor passivo: reage, participa, produz contracorrentes — mas com custos cognitivos e sociais mensuráveis. Pesquisas apontam aumento da ansiedade, queda da capacidade de atenção sustentada e prejuízo ao sono. Instituições democráticas também sofrem: bolhas informacionais e incentivos à polarização alinham-se com modelos de monetização baseados em cliques e compartilhamentos. A narrativa se tensiona quando observamos que a atenção, além de recurso escasso, é também um bem público. Quando as plataformas tratam a predisposição humana para a novidade e a emoção como um terreno a ser explorado, não apenas moldam preferências individuais: moldam o debate coletivo. Eleições, saúde pública e solidariedade enfrentam distorções quando a exposição é regulada por mecanismos que privilegiem conteúdos mais “pegajosos” — muitas vezes simplistas ou extremos. A resposta regulatória, porém, é complexa. Políticas públicas que ameaçam a inovação perdem apoio; regulações mal calibradas podem sufocar expressão legítima. Ainda assim, medidas pontuais — transparência algorítmica, limites a técnicas de persuasão automatizada, educação de mídia e rotinas de design ético — começam a emergir em agendas governamentais e acadêmicas. Como editorial, defendo uma atitude proativa: a economia da atenção exige tanto reformas institucionais quanto práticas individuais renovadas. No campo público, é preciso repensar estrutura de incentivos: modelos de financiamento de mídia que não dependam exclusivamente de cliques; regras que responsabilizem plataformas por técnicas que provoquem vícios comportamentais; investimento em educação digital crítica. No plano privado, empresas produtivas e criativas devem assumir compromisso com princípios de “atenção sustentável”: transparência sobre por que um conteúdo surge, opções para limitar recomendações e configurações que priorizem relevância em vez de tempo gasto. Luana, no final, adotou estratégias práticas: silenciar notificações, reservar horários sem tela para leitura e usar ferramentas que monitoram o uso do aplicativo. Essas medidas ajudaram, mas ela admite que o problema não é individual. A transformação necessária exige mudanças nas arquiteturas digitais. Há sinais positivos: aplicativos que oferecem modos de concentração, notícias que priorizam profundidade sobre clicks e movimentos de designers que valorizam delegar menos estímulos. Contudo, a tensão entre lucro e bem comum persiste. A economia da atenção é, portanto, um espelho de nossas prioridades sociais. Se continuarmos a aceitar que o tempo mental seja convertido em produto sem questionamento, corremos o risco de sacrificar capacidades coletivas essenciais: foco crítico, empatia e debate público qualificado. Alternativamente, podemos promover uma cultura em que a atenção é reconhecida como bem finito e regulada por regras que ampliem a qualidade da vida social. O desafio é político, técnico e ético — e exige que jornalistas, legisladores, educadores e cidadãos disputem, agora, a arquitetura daquilo que nos ocupa. PERGUNTAS E RESPOSTAS 1) O que é economia da atenção? R: É um modelo onde a atenção humana, por ser escassa, é capturada e monetizada por empresas que vendem exposição e dados a anunciantes. 2) Por que isso é problemático? R: Porque incentiva conteúdos sensacionalistas e viciantes, prejudica saúde mental, atenção sustentada e empobrece o debate público. 3) Quem lucra e quem perde? R: Lucra plataformas e anunciantes; perdem consumidores, democracia deliberativa e, muitas vezes, criadores que se adaptam a formatos prejudiciais. 4) Que políticas podem mitigar danos? R: Transparência algorítmica, limites a técnicas de persuasão automatizada, financiamento público de mídia de qualidade e educação midiática. 5) O que posso fazer individualmente? R: Silenciar notificações, usar modos de concentração, estabelecer horários offline e escolher fontes que priorizem profundidade sobre virulência.