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PERFIL E AVALIAÇÃO: Marketing de trade em xeque — eficácia, limites e o que mudou O marketing de trade, prática que organiza e incentiva a presença de produtos nos pontos de venda, passou nas últimas décadas de uma função tática a um campo estratégico disputado entre fabricantes, varejistas e plataformas digitais. Em uma paisagem em rápida transformação — marcada por convergência omni‑channel, pressões por margem e consumidores mais informados — a atividade exige equilíbrio entre execução local e visão analítica. Esta resenha jornalística examina como o trade marketing tem sido praticado, onde tem dado certo e quais obstáculos precisam ser superados. No núcleo da disciplina estão ações clássicas: negociação de espaço (gondola), materiais de ponto de venda (PDV), promoções, gestão de sortimento e pricing. Mas a agenda contemporânea incorpora também gestão do “shelf digital” em marketplaces, inteligência sobre o shopper e integração com ações de marca. Executivos ouvidos para esta reportagem destacam que a transição é menos tecnológica do que cultural: “Mais do que ferramentas, precisamos de processos que permitam decisões em tempo real com base em dados do varejo”, resume um gerente sênior de trade de uma grande indústria de bens de consumo. As evidências de sucesso aparecem quando a execução alia análise de dados e relacionamento. Casos recentes de fabricantes que personalizaram sortimentos por região e coordenaram promoções com campanhas digitais dos varejistas mostram aumentos de tráfego e de conversão superiores ao esperado, segundo relatos. Do outro lado, projetos meramente promocionais, mal articulados com o fluxo do consumidor no PDV, frequentemente geram canibalização de vendas, erosão de margem e desgaste nas relações com o varejo. Do ponto de vista prático, três alavancas concentram a maior parte dos ganhos: 1) Category management orientado por shopper insights, que define espaços e sortimentos segundo comportamento real de compra; 2) visibilidade de disponibilidade (out‑of‑stock minimizado) e otimização do mix entre loja física e e‑commerce; 3) execução local com métricas claras e modelos de remuneração que alinhem incentivos entre indústria e varejo. Ferramentas digitais — desde sistemas de gestão de trade até analytics de imagens de prateleira e integração de PDV com plataformas de logística — potencializam essas alavancas, mas não as substituem. A mensuração, porém, permanece um nó crítico. Atribuir ganhos ao trade exige controlar efeitos de marca, sazonalidade, preço e ações concorrentes. Analistas de mercado sugerem painéis integrados e testes A/B em lojas pares como métodos para isolar impactos. Ainda assim, muitas companhias dependem de indicadores tradicionais (sell‑in, sell‑out, share de gôndola), que dão pistas mas não contam a história completa da jornada do shopper. Riscos regulatórios e éticos também merecem atenção. Promoções agressivas que pressionam margens do varejo podem criar tensões contratuais; práticas de posicionamento preferencial, se não transparentes, levantam questionamentos sobre concorrência. Além disso, a coleta e o uso de dados do consumidor no PDV e online exigem conformidade com normas de privacidade e padrões de consentimento. Do ponto de vista financeiro, o trade marketing tende a ser avaliado pela equação custo versus retorno em curto prazo. Isso explica a preferência por promoções e ações táticas. Entretanto, especialistas argumentam que investimentos em execução permanente (melhor display, formação de vendedor, sortimentos otimizados) entregam retorno sustentado e reduzem a necessidade de promoções destrutivas. A decisão entre tática e estratégico é, portanto, também uma decisão cultural da empresa. A integração com o varejo moderno — especialmente marketplaces — impõe novas demandas: controle de conteúdo digital, precificação dinâmica, logística de fulfillment e políticas de promoção coordenadas. Marcas que negligenciam o “shelf digital” perdem relevância e visibilidade mesmo em categorias tradicionalmente dominadas pela loja física. Uma supervisora de e‑commerce consultada ressalta: “Ter um produto na prateleira virtual sem fotos otimizadas, descrição adequada e reviews é o mesmo que não existir”. Em conclusão, esta resenha aponta que o marketing de trade continua sendo peça-chave na cadeia de valor do varejo, porém sua eficácia depende de um tripé: dados reais do shopper, execução local disciplinada e integração estratégica com canais digitais e parceiros varejistas. Empresas que tratam o trade apenas como custo ou execução tática tendem a ver resultados limitados; aquelas que o elevam a disciplina estratégica colhem ganhos de penetração e rentabilidade. O desafio é operacional e político: alinhar incentivos, investir em capacidades analíticas e manter diálogo transparente com o varejo. Para quem busca receita prática, a recomendação é priorizar testes controlados, métricas de sell‑out e governança clara de trade spend — passos simples que, quando bem executados, traduzem-se em vantagens competitivas duradouras. PERGUNTAS E RESPOSTAS 1) O que diferencia marketing de trade do marketing de consumo? Resposta: Trade foca na ativação no ponto de venda e na relação com varejistas; marketing de consumo foca em construir marca e demanda junto ao consumidor final. 2) Quais KPIs são essenciais para avaliar trade marketing? Resposta: Sell‑out, participação de gôndola, taxa de ruptura (out‑of‑stock), ROI de promoção e uplift em lojas‑teste. 3) Como o digital alterou práticas de trade? Resposta: Introduziu gestão do shelf digital, controle de conteúdo, precificação dinâmica e necessidade de integração com logística e marketplaces. 4) Que erros comuns comprometem resultados? Resposta: Promoções mal direcionadas, falta de dados do shopper, execução inconsistente no PDV e desalinhamento com o varejista. 5) Onde concentrar investimentos inicialmente? Resposta: Em analytics de sell‑out, otimização de sortimento regional e execução local (treinamento e materiais de PDV) para ganhos sustentáveis.