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CAPÍTULO 34 IDOSOS AÇÕES DA TERAPIA OCUPACIONAL Rosiléia Teixeira de Oliveira Dierckx Rosibeth del Carmen Muñoz Palm Introdução objetivo deste é descrever a contribuição da Terapia Ocupacional com idosos residentes des- em instituições de longa permanência. Inicialmente, uma breve contextualização acerca do envelhecimento, crição dos serviços de atenção e proteção social e na sequência a atuação do terapeuta ocupacional. No mundo, a proporção vem aumentando consideravelmente, que tem trazido implicações im- portantes, principalmente na área da saúde, devido à maior frequência de comorbidades e maior inci- dência de declinio funcional (LOURENÇO et al., 2012). No Brasil, envelhecimento da população ocorre em todas as regiões e apresenta características peculiares marcadas por grandes desigualdades sociais. Esse processo traz demandas que requerem políticas sociais, principalmente voltadas às questões da saúde, da assistência social e da previdência social. envelhecimento ativo preconizado pela Organização Mundial de Saúde (OMS, 2005) tem como permitir que os indivíduos percebam seu potencial para o bem-estar físico, social e mental no desempenho de suas atividades cotidianas. Esse potencial é alcançado também com intervenções que criam ambientes de apoio e que promovam opções saudáveis em todas as fases da vida. Pode-se entender o Envelhecimento Ativo como um processo em que são otimizadas as "oportu- nidades para a saúde, a aprendizagem ao longo da vida, a participação e a segurança para melhorar a qualidade de vida à medida que as pessoas envelhecem" (CENTRO INTERNACIONAL DE LONGEVIDADE BRASIL, 2015, p. 44). A OMS (2015) preconiza, assim, que existem diversos determinantes que influenciam o envelheci- mento ativo a cultura e gênero; determinantes sociais e econômicos; determinantes do ambiente físico e do acesso à saúde e aos serviços sociais; e determinantes comportamentais e individuais. envelhecimento, somado ao aumento de Doenças Crônicas não Transmissíveis (DCNT), pode afetar desempenho funcional nas atividades da vida diária (AVD), fazendo com que idosos estejam sujeitos a necessitar de cuidados pessoais em tempo integral, podendo essa dependência aumentar cerca de 5% na faixa etária de anos para cerca de 50% entre OS idosos com 90 anos OU mais (BRASIL, 2006). Nesse panorama, Relatório Mundial de Envelhecimento e Saúde (OMS, 2015) destaca que a oferta de cuidados deve ser centrada nas necessidades da população, pois conforme as pessoas enve- Ihecem, suas necessidades tendem a se tornar mais crônicas e complexas. Tais fatores leva a um aumento da demanda por instituições que fazem prestação de serviços as- sistenciais sociais à população idosa (KANSO et al., 2010). O processo de institucionalização apresenta uma diversidade de fatores que repercutem de forma 431singular na estrutura de vida cotidiana do idoso e sua família, que requerem acolhimento, escuta e cui- dados dos diferentes profissionais envolvidos nesse contexto visando à atenção integral. Assim, ressalta-se a necessidade do trabalho interdisciplinar e colaborativo entre os profissionais fonoaudi- que integram a equipe: assistente social, dentista, enfermeiro, educador físico, fisioterapeuta, ólogo, nutricionista, médico, musicoterapeuta, psicólogo e terapeuta ocupacional. Assim, terapeuta ocupacional deve integrar a equipe, tendo como objetivo de promover am- a qualidade de vida do idoso, em torno do dimensionamento das condições e necessidades com valores biente, manutenção da capacidade funcional, relação com família e equipe, considerando seus e singularidade. Serviços de atenção e proteção ao idoso No cenário brasileiro, a oferta de cuidados ao idoso é respaldada pela constituição, estatuto do idoso e política nacional do idoso, e pode acontecer em diferentes modalidades de atenção. No quadro 1, são relacionados os serviços de atenção ao idoso estabelecido pela Portaria MPAS/ SEAS 73, de 10 de maio de 2001, nas modalidades de atendimento, segundo a finalidade a que se des- tinam (BRASIL, 2001). MODALIDADE DESCRIÇÃO Residência Temporária Serviço em regime de internação temporária, público privado, de atendimento ao idoso dependente que requeira cuidados biopsicossociais sistematizados, no período máximo de 60 dias. Família Natural Atendimento prestado ao idoso independente, pela sua própria família, com vistas à manutenção da autonomia, permanência no próprio domicílio preservando vínculo familiar e de vizinhança. Família Acolhedora Oferece condições para que idoso sem família ou impossibilitado de conviver com a mesma, receba abrigo, atenção e cuidados de uma família cadastrada e capacitada para oferecer este atendimento. República Alternativa de residência para idosos independentes, organizada em grupos, conforme O número de usuários, e cofinanciada com recursos da aposentadoria, benefício de prestação continuada, renda mensal vitalícia e outras. Em alguns casos a República pode ser viabilizada em sistema de auto-gestão. Centro de Convivência Fortalecimento de atividades associativas, produtivas e promocionais, contribuindo para autonomia, envelhecimento ativo e saudável prevenção do isolamento social, socialização e aumento da renda própria. Centro Dia Atenção integral às pessoas idosas que por suas carências familiares e funcionais não podem ser atendidas em seus próprios domicílios por serviços comunitários; proporciona atendimento das necessidades básicas, mantém idoso junto à família, reforça O aspecto de segurança, autonomia, bem-estar e a própria socialização do idoso. Casa Lar Alternativa de atendimento que proporciona uma melhor convivência do idoso com a comunidade, contribuindo par a sua maior participação, interação e autonomia. Assistência Domiciliar/ Atendimento prestado à pessoa idosa com algum de dependência, com vistas à promoção da autonomia, permanência no Atendimento Domiciliar próprio domicilio, reforço dos vínculos familiares e de vizinhança. Atendimento Integral Atendimento prestado em uma instituição asilar, prioritariamente aos idosos sem famílias, em situação de vulnerabilidade, Institucional oferecendo serviços na área social, psicológica, médica, de Fisioterapia, de Terapia Ocupacional, de Enfermagem, de Odontologia e outras atividades especificas para este segmento social. QUADRO 1 MODALIDADES DE ATENDIMENTO FONTE: Brasil (2001). Esses estabelecimentos de atendimento integral para idosos também podem ser classificados em três tipos de modalidade, conforme a sua especialidade. A modalidade I, destina-se às pessoas indepen- dentes para as atividades de vida diária (AVD); já a modalidade II é destinada às pessoas dependentes 432 LILIAN DIAS BERNARDO TAIUANI MARQUINE RAYMUNDO (ORGANIZADORAS)e independentes que necessitam de auxilio e de cuidados especializados; e, por fim, a modalidade III é voltada às pessoas totalmente dependentes em pelo menos uma AVD (BRASIL, 2001). De forma complementar, a Resolução 109, de 11 de novembro de 2009, estabelecem a tipifi- cação de serviços socioassistenciais, organizados por níveis de complexidade do Sistema Único de Assis- tência Social (SUAS) em serviços de proteção social básica e proteção especial de média e alta comple- xidade (BRASIL, 2009). Os serviços socioassistenciais são definidos como aqueles que garantem o fortalecimento da con- vivência familiar e comunitária; referência para escuta e apoio sócio familiar; informação para garantir direitos; geração de trabalho e renda; orientação para outras políticas públicas; prevenção e que ga- rantam direitos violados ameaçados (BRASIL, 2009). Esses serviços socioassistenciais são organizados conforme nível de complexidade em proteção social básica e proteção social especial de média e alta complexidade, conforme estabelecidos na reso- lução (BRASIL, 2009). Serviços de proteção social básica: destinados ao atendimento de famílias e pessoas que vivem sem situação de vulnerabilidade social com vínculos familiares, comunitários e de pertencimento fragilizados e vivenciam situações de discriminação etária, étnica, de gênero por deficiências, entre outros. Serviços de proteção social especial de média complexidade: destinados ao atendimento às famílias e indivíduos com seus direitos violados, mas cujos vínculos familiares não foram rompidos. Serviços de proteção social especial de alta complexidade: destinados ao atendimento às famílias e indi- de víduos que se encontram em situação de abandono, ameaça violação de direitos, necessitando acolhimento provisório, fora de seu núcleo familiar de origem (BRASIL, 2014). Considerando a especificidade do capítulo, é importante detalhar os serviços de proteção social especial de alta complexidade destinado ao atendimento de idosos, destacando o acolhimento institu- cional e em república. [...] Serviços de acolhimento institucional (Casa Lar Instituições de Longa Permanência) previsto para idosos com anos mais, de ambos sexos, independentes e/ou com diversos graus de dependência, com vínculos familiares rompidos fragilizados, a fim de garantir proteção integral. Tendo como aspectos centrais: incentivar desenvolvimento do protagonismo e de capacidades para a realização de atividades da vida diária; desenvolver condições para a independência e autocuidado; promover acesso a renda; promover a convivência mista entre os residentes de diversos graus de dependência (BRASIL, 2014, p. 47). [...] Serviço de Acolhimento em República destinado aos idosos que tenham capacidade de gestão cole- tiva da moradia e condições de desenvolver, de forma independente, as atividades da vida diária, mesmo que requeiram o USO de equipamentos de autoajuda. Tendo como aspectos centrais proteger usuários, preservando suas condições de autonomia e independência; preparar usuários para alcance da auto- -sustentação; promover restabelecimento de vínculos comunitários, familiares e/ou sociais e promover o acesso à rede de políticas públicas (BRASIL, 2014, 51). Assim, do ponto de vista da Assistência Social, as Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI) são consideradas de alta complexidade. As ações dirigidas a elas são situadas no âmbito da pro- teção social especial, destinadas à famílias e/ou indivíduos que perderam seus vínculos familiares não têm mais condições de convívio familiar OU comunitário. De acordo com Resolução da Diretoria Colegiada da ANVISA RDC 283, de 26 de setembro de 2005, grau de dependência do idoso é definido pelo auxílio requerido de pessoas ou de equipamentos para a realização de suas necessidades básicas, descritas a seguir: TERAPIA OCUPACIONAL e práticas 433Grau de Dependência Independentes, mesmo que requeiram USO de equipamentos de auto- ajuda; Grau de Dependência II Dependência em até três atividades de autocuidado cognitivo OU para com a vida alteração diária tais como: alimentação, mobilidade, higiene; sem comprometimento cognitiva Grau de controlada; Dependência III Dependência que requeiram assistência (BRASIL, em todas 2005). as atividades de autocuidado para a vida diária e com comprometimento cognitivo A definição do grau de dependência do idoso permite aos profissionais identificar a assistência requerida, para o planejamento e gerenciamento dos cuidados. De acordo com as normas existentes, as ILPI devem assegurar aos seus residentes direitos ambiente hu- manos básicos, proporcionando bem-estar e as ações devem ser realizadas a fim de tornar lembrando O que acolhedor, funcionando como lar, fornecendo segurança, apoio, respeito e proteção, cada ser é único, carregando sua história de vida (IPARDES, 2008). Quanto à infraestrutura, acessibilidade, segurança ambiental, recursos físicos, humanos e mate- Qua- riais, as ILP devem respeitar as normas estabelecidas pela RDC 283 da ANVISA e o Protocolo lidade em Instituições de Longa Permanência para Idosos (BRASIL, 2005; IPARDES, 2008; FAS, 2016). Dessa forma, as ILPI devem assegurar aos seus residentes, atenção integral alicerçada nos direitos humanos, atenção e proteção social. Processos e práticas da Terapia Ocupacional A Terapia Ocupacional em gerontologia foi reconhecida e regulamentada como especialidade pelo COFFITO, por meio da Resolução n. 477 de 20 de dezembro de 2016, que define "[...] a atuação em todos os níveis de atenção, seja público, privada e filantrópica, assim como nos setores da previdência social, educação, trabalho, judiciário e presidiário, em todas as fases do desenvolvimento ontogênico, com ações de prevenção, promoção e (COFFITO, 2016). A atuação do terapeuta ocupacional em gerontologia visa à proteção, promoção, prevenção, re- cuperação, reabilitação e Cuidados Paliativos baseado na concepção da integralidade e humanização à pessoa idosa (COFFITO, 2016). De acordo com a referida resolução, "[...] a formação profissional nessa especialidade apresenta quatro âmbitos de atuação: atenção à saúde, assistência social, cultura e lazer e educação", especifi- cados a seguir: Atenção à saúde O planejamento e execução da intervenção terapêutica ocupacional, visando à pro- teção, a otimização das habilidades de desempenho, a prevenção de agravos, a promoção e recuperação da saúde, a reabilitação e gerenciamento de situações irreversiveis junto às pessoas idosas saudáveis, pré-frágeis e frágeis, seus familiares, cuidadores e/ou acompanhantes, contemplando aspectos da saúde biopsicossocial nos processos naturais ou patológicos do envelhecimento. II Assistência social Atuação do terapeuta ocupacional junto às pessoas idosas, seus familiares, em situação de vulnerabilidade e/ou risco social, com objetivo de promover a participação social, elaborar estratégias e/ou ações voltadas para desenvolvimento dos potenciais econômicos e resolução de problemáticas sociais, fortalecendo as redes de suporte e de trocas afetivas, econômicas e de informação, e favorecendo empoderamento do idoso como cidadão III Cultura e lazer Fomento na organização e promoção da participação em eventos 434 LILIAN DIAS BERNARDOartisticos e de lazer, com a finalidade de promover e preservar a memória e identidade pessoal e cul- tural, a autonomia, a sociabilidade e favorecer a inclusão social, a fruição artistica, a superação de desafios, a otimização de projetos e melhoria da qualidade de vida das pessoas idosas, seus familiares e IV Educação Na educação formal e não formal, na capacitação e desenvolvimento de novas habili- dades de profissionais, em programas de educação permanente, na construção de espaços de criação e formação continuada, na promoção da participação nos programas de educação ao longo da vida, na constituição de práticas socioeducativas com ênfase no envelhecimento ativo e projetos de vida; na pro- moção da intergeracionalidade e nos processos de inclusão escolar e digital (COFFITO, 2016). A atuação do terapeuta ocupacional em gerontologia é realizada em hospitais, hospitais de cui- dados ambulatórios, unidade básica de saúde, atenção domiciliar, unidades de referência à saúde do idoso, centros de convivência, centros-dia, república, família acolhedora, insti- tuições de longa permanência, academias, clubes e agremiações e previdência social (COFFITO, 2016). As competências do terapeuta ocupacional nos Contextos Sociais foram reconhecidas pelo CO- FFITO, por meio da Resolução n. 383 de 22 de dezembro de 2010, a qual define "[...] terapeuta ocupa- cional, no âmbito de sua atuação no campo social é responsável pelo planejamento, avaliação, discussão e construção partilhada das propostas de atenção com as pessoas e grupos sociais no contexto dos ser- viços e programas da Assistência Social" (COFFITO, 2010; ALMEIDA et al., 2011). A Associação Brasileira de Terapeutas Ocupacionais (ABRATO), em parceria com Projeto METUIA USP/UFSCar, organizaram um documento que descreve as ações da Terapia Ocupacional na Assistência Social, adotando-se a Tipificação Nacional dos Serviços Socioassistenciais, de acordo com diferentes níveis de complexidade do Sistema Único de Assistência Social (ALMEIDA et al., 2011; ALMEIDA et al., 2012). De acordo com Almeida et al. (2011) "[...] as ações da Terapia Ocupacional têm como eixo articu- lador acompanhamento de pessoas e grupos com as quais trabalha, sobretudo no que diz respeito às atividades da vida cotidiana, de expressão cultural e econômica". Destacam-se a seguir algumas ações da Terapia Ocupacional com idosos no serviço de acolhi- mento em república na proteção social de alta complexidade. Colabora na construção do projeto de chegada do idoso na república e facilita sua inserção na dinâmica da casa, a partir da mobilização do potencial ativo e participativo do idoso; Promove atividades sociais, culturais, de convivência, expressivas, corporais e de lazer significativas aos moradores, possibilitando a expressão, identificação e compartilhamento de necessidades indivi- duais e coletivas; Mobiliza recursos para a atenção aos idosos quanto às necessidades individuais e coletivas relativas à comunicação, expressão e elaboração de conflitos entre moradores, favorecendo convívio e relações interpessoais e sociais satisfatórias; Identifica necessidades inerentes e específicas ao processo de envelhecimento biopsicossocial, favore- cendo USO de capacidades bem como redução e ajustes às limitações e restrições na participação em atividades na república; Desenvolve atividades que favoreçam a autonomia e a independência em atividades básicas e instru- mentais da vida diária requeridas para manter-se na república e em comunidade; Avalia a indicação e acompanha acesso a equipamentos de autoajuda em caso de dificuldades para a prática de atividades básicas e instrumentais da vida diária (ALMEIDA et al., 2011, p. 20). O terapeuta ocupacional é responsável pela avaliação, planejamento, gerenciamento, coorde- nação das ações terapêuticas ocupacionais desenvolvidas nos diversos serviços de atenção e proteção social para idosos. TERAPIA OCUPACIONAL E GERONTOLOGIA: Interlocuções e práticas 435Na sequência, será descrito processo terapêutico ocupacional no contexto da atenção ao idoso residente em Ações da Terapia Ocupacional em Instituições de Longa Permanência para Idosos A atuação do terapeuta ocupacional em ILPI envolve a unidade de cuidado: idoso, a família/cui- dador promovendo qualidade de vida, manutenção da capacidade funcional, construção e continuidade de projetos de vida, preservação das relações afetivas, sociais e ocupacionais. processo terapêutico ocupacional envolve diversos procedimentos, tais como: consulta ava- liação, intervenção, atendimento individual e grupal; grupo de atividades, oficinas terapêuticas; pres- crição de dispositivos e adaptações; planejamento e adequação ambiental; orientação a familiares e cui- dadores; educação em saúde; ações de humanização e ambientação; consultoria; projetos de natureza multi e interdisciplinar com profissionais da equipe. Mello (2007) refere que a atuação do terapeuta ocupacional nas ILPI visa a verificar a dependência funcional do idoso, a fim de promover e restaurar as habilidades residuais e funcionais em trabalho com a equipe, planejar atividades em grupos, promover adaptações ambientais, orientação a familiares e equipe. Avaliação A avaliação é o "[...] procedimento que identifica habilidades e limitações do indivíduo, para a re- alização das atividades da vida diária, atividades instrumentais de vida diária, atividades escolares e de trabalho e atividades de lazer, com utilização de testes padronizados, estruturados adaptados para se obter dados quantitativos e/ou qualitativos, referentes ao desempenho ocupacional. Favorece diag- nóstico terapêutico-ocupacional e elaboração do plano terapêutico" (ABRATO, 2007). Mello (2007, 368) ainda acrescenta que a "avaliação deve ser multidimensional considerando que a pessoa idosa apresenta múltiplos problemas inter-relacionados que afetam a esfera física, psicoa- fetiva, cognitiva, social". A avaliação deve considerar o idoso na sua singularidade durante processo de coleta dados, de- lineamento do plano e definição das metas a serem alcançadas. Avaliação Funcional A funcionalidade, segundo a Classificação Internacional de Funcionalidade, engloba todas as funções do corpo e a capacidade de o indivíduo realizar suas atividades diárias, de acordo com suas con- dições de saúde e fatores contextuais, que são fatores ambientais e pessoais (OMS, 2011). De acordo com Pereira e Besse (2011, p. 67) "[...] a capacidade funcional sofre influência de fatores externos, ambientais, físicos e culturais, que interfere na independência funcional de um indivíduo". A capacidade funcional pode ser definida como a manutenção da capacidade de realizar atividades básicas da vida diária (ABVD), atividades instrumentais da vida diária (AIVD), atividades avançadas da vida diária (AAVD) necessárias e suficientes para uma vida independente e autônoma, definidas a seguir: Atividades básicas da vida diária atividades orientadas para autocuidado e a mobilidade funcional; Atividades instrumentais de vida diária atividades relacionadas ao gerenciamento da vida, do ambiente doméstico e à mobilidade na comunidade; Atividades avançadas da vida diária associadas a papéis sociais e ao funcionamento independente na vida prática, no lazer e nas atividades produtivas (DIAS et al., 2011). 436 LILIAN DIAS BERNARDO TAIUANI MARQUINE RAYMUNDO (ORGANIZADORAS)Referente ao processo de avaliação da funcionalidade da pessoa idosa, é necessário diferenciar desempenho e capacidade funcional, entendendo que o desempenho avalia que idoso realmente faz no seu cotidiano e a capacidade funcional avalia potencial que idoso tem para realizar a atividade (BRASIL, 2006). Mello e Mancini (2007) referem que a seleção de instrumentos de avaliação das atividades da vida diária e atividades instrumentais da vida diária devem basear-se no perfil da clientela, objetivos da inter- venção a ser ofertada, filosofia institucional e informações disponíveis. No quadro 2, são apresentados alguns instrumentos de avaliação validados no Brasil, utilizados pelos terapeutas ocupacionais com idosos residentes em ILPI, conforme levantamento na literatura. INSTRUMENTOS DE AVALIAÇÃO Escala Instrumento de Independência para avaliar em desempenho Atividades nas da atividades Vida Diária da (Escala vida diária. de Katz) Ela foi desenvolvida para a avaliação dos resultados de de autocuidado, tratamentos em quais idosos obedecem e predizer itens medem desempenho do indivíduo nas atividades vestir e tomar a uma prognóstico hierarquia nos de doentes complexidade, crônicos. da A escala seguinte consta forma: de alimentação, seis que controle de esfíncteres, transferência, higiene pessoal, capacidade para se banho (LINO et al., 2008). Escala Instrumento de Lawton avaliar e Brody a capacidade de Atividades funcional Instrumentais do idoso de na Vida realização Diária das atividades instrumentais de vida diária (AIVD). doméstico, Áreas contempladas USO de medicamentos na avaliação e são 7 questões para relacionadas com AIVD (uso de telefone, viagens, realização compras, preparo de refeições, trabalho manuseio de dinheiro (SANTOS, VIRTUOSO JÚNIOR, 2008). Questionário Instrumento que de avalia Atividades a capacidade Funcionais funcional de Pfeffer de pessoas com diferentes tipos e graus de comprometimento cognitivo. Tem LOURENÇO, grande importância 2011). clínica em razão da sua capacidade de identificar perdas funcionais em indivíduos com suspeita de demência (SANCHEZ, CORREA; Mini Instrumento Exame do de Estado rastreio Mental de comprometimento (MEEM) cognitivo. Não pode ser usado para diagnosticar demência. Examina orientação itens contendo temporal questões e espacial, agrupadas memória de prazo delas planejada com objetivo de avaliar "funções" cognitivas como a orientação temporal (5 pontos) curto (imediata atenção), evocação, cálculo, praxia, e habilidades de linguagem e viso-espaciais. Avalia 11 pontos), orientação em espacial sete categorias, (5 pontos), registro cada uma de três palavras (3 pontos), atenção e cálculo (5 pontos), recordação das três palavras (3 pontos), linguagem (8 e capacidade construtiva visual (1 ponto) (BERTOLUCCI et al., 1994). Escala de Depressão utilizado Geriátrica para rastreamento (GSD-15) de depressão em idosos. Foi desenvolvida especialmente para rastreamento dos transtornos de tem humor em idosos, Instrumento evitam a esfera das queixas somáticas. Entre as suas vantagens destacam-se por perguntas fáceis de serem entendidas; pequena variação com perguntas nas possibilidades que de respostas; pode ser autoaplicada aplicada por um entrevistador treinado (ALMEIDA; ALMEIDA, 1999). Dynamic consiste de 25 subtestes divididos em oito áreas cognitivas: orientação, consciência, percepção visual, percepção espacial, práxis, construção Loewenstein Occupational Therapy Cognitive Assessment for Geriatric Population (DLOTCA-G) Instrumento que operações de pensamento e memória. Por ser uma avaliação dinâmica, para cada subteste há uma pontuação dinâmica, estruturada em quatro visuomotora, cinco níveis de mediação para auxiliar no desempenho, além da pontuação estática que define desempenho cognitivo do idoso variando de 1 a 4 pontos, sendo 1 déficit severo e 4 desempenho normal (NOVELLI et al., 2015). Medida Canadense de Desempenho Ocupacional (Canadian Occupational Performance Measure COPM) Instrumento de medida individualizada utilizada para detectar mudanças na autopercepção do indivíduo sobre seu desempenho ocupacional e sua satisfação com este desempenho, com passar do tempo. As áreas de desempenho ocupacional avaliadas são autocuidado, produtividade e lazer. Identifica áreas problemáticas, avalia desempenho e satisfação nessas áreas e mede alterações na percepção da pessoa sobre seu desempenho (LAW et al., 2009). Escala de Avaliação de Incapacidade na Demência (DAD) Instrumento que inclui a avaliação de atividades básicas, instrumentais e de lazer, quantifica habilidades funcionais em AVD para indivíduos com déficits cognitivos, como demência; qualifica as dimensões cognitivas das incapacidades nas AVD, examinando atividades básicas e instrumentais da vida diária em relação a funções executivas, que permite a identificação de áreas problemáticas: iniciação, planejamento, organização e desempenho efetivo. A escala foi baseada no modelo de saúde proposto pela organização mundial de saúde, que define incapacidade funcional como qualquer restrição na habilidade de executar uma atividade, tarefa comportamento da vida diária (CARTHERY-GOULART et al., 2007). Medida de independência Funcional MIF (Functional Independence Measure FIM) Instrumento utilizado para avaliar desempenho do indivíduo em 18 atividades distribuídas em dois domínios: motor e cognitivo/social. Entre as atividades avaliadas estão autocuidados, transferências, locomoção, controle esfincteriano, comunicação e cognição social, que inclui memória, interação social e resolução de problemas. Cada uma dessas atividades é avaliada e recebe uma pontuação que parte de 1 (dependência total) a7 (independência completa), assim a pontuação total varia de 18 a 126 (RIBERTO et al., 2004). QUADRO 2 INSTRUMENTOS DE AVALIAÇÃO UTILIZADOS POR TERAPEUTAS OCUPACIONAIS EMILPI FONTE: As autoras (2017). TERAPIA OCUPACIONAL E GERONTOLOGIA: Interlocuções práticas 437Avaliação ambiental A avaliação ambiental pode ser feita por entrevistas e observação direta à acessibilidade do idoso no no ambiente, contexto análise do desempenho ocupacional, além de outros aspectos relacionados 2008). institucional (CAVALCANTI, GALVÃO, 2007; TIRADO; DRUMMOND, De acordo com Abreu et al. (2009), ambiente para idosos deve garantir segurança, do facilidade ambiente, de circulação, acessibilidade de uso, conservação de energia, comunicação, personalização proteção, privacidade e adequação do mobiliário, entre outros. checklist ambiental elaborado por Martinez e Emell (2013) é um instrumento utilizado ambiental para avaliar (área as barreiras OU facilitadores existentes no ambiente domiciliar, integrado pela avaliação de de circulação do idoso, transição e passagem, presença de facilitadores), mobiliário (frequência possibilidade de ajustes, ângulo assento-encosto), e medidas antropométricas. As autoras referem que, para realizar a avaliação ambiental, é necessário estabelecer dos parâmetros dados. para análise e interpretação dos resultados visando à descrição, a comparação e correlação Destacam-se a seguir dois procedimentos que podem ser utilizados pelo terapeuta ocupacional para a adequação ambiental: Adequação do ambiente inclui a realização de modificações e/ou adaptações no ambiente institucio- da vida nal visando facilitar a realização das atividades da vida diária (AVD) e atividades instrumentais Adequação de unidades de controle ambiental inclui a educação para USO de dispositivos tecnológicos 14). diária (AIVD). visando desempenho ocupacional com segurança, autonomia e independência (ABRATO, 2007, p. A adequação ambiental tem como objetivo reduzir OU eliminar barreiras para que idoso possa rea- lizar suas atividades com segurança e conforto, tendo como parâmetros a funcionalidade e acessibilidade. A avaliação realizada pelo terapeuta ocupacional deve considerar cada idoso na sua singularidade, seu processo histórico e sociocultural, assim como as interações com ambiente e as suas relações afe- tivas e familiares. Intervenção A organização das informações obtidas na avaliação permite definir perfil e ocupacional e análise de desempenho ocupacional do idoso, elementos necessários para o delineamento do plano de intervenção. plano de intervenção deve conter a descrição dos procedimentos terapêuticos ocupacionais pro- postos com especificação dos recursos, métodos e técnicas utilizados, seus objetivos e as metas traçadas. Mello (2007) refere que a atuação do terapeuta ocupacional nas ILPI visa a verificar a dependência funcional do idoso, a fim de promover e restaurar as habilidades residuais e funcionais em trabalho com a equipe, planejar atividades em grupos, promover adaptações ambientais, orientação a familiares e equipe. Tirado e Drummond (2008) referem que as intervenções no âmbito das ILPI podem ser de caráter individual e intervenção sociocultural. A intervenção individual é destinada a idosos classificados com maior dependência e questões clínicas graves. Já a intervenção sociocultural é voltada para promover a interação dos idosos residentes na instituição, entre si e com a comunidade. Na perspectiva da intervenção grupal e constituição de grupos em Terapia Ocupacional, Ballarin (2007) destaca vários aspectos que devem ser levados em consideração: referencial teórico-metodo- lógico, população alvo, objetivos, número de participantes, contrato grupal, dinâmica de funcionamento, duração, preparação do ambiente e dos materiais, entre outros. 438 LILIAN DIAS BERNARDO TAIUANI MARQUINE RAYMUNDO (ORGANIZADORAS)em ILPI: Mello (2007) refere-se às ações principais do terapeuta ocupacional com a pessoa idosa residente [...] dades identificação do nível de dependência funcional do idoso; planejamento de programação de ativi- segundo perfil funcional, sociocultural, interesse e desejo dos idosos; estabelecimento de grupos terapêuticos e/ou oficinas segundo as demandas dos moradores (memória, sexualidade, culinária, remi- niscências entre outros); planejamento e adequação ambiental (MELLO, 2007, 370). As ações realizadas pelo terapeuta ocupacional estão relacionadas a estratégias de promoção, prevenção, manutenção e/ou reabilitação com objetivos de estimular funções cognitivas (memória, atenção, concentração, linguagem, orientação espacial e temporal), sensoriais e motoras no âmbito do desempenho ocupacional da pessoa idosa (COFFITO, 2016). As atividades realizadas pelo terapeuta ocupacional devem ser planejadas em parceria e parti- cipação efetiva dos idosos, respeitando as demandas individuais e do grupo, e aspectos socioculturais (TIRADO; DRUMMOND, 2008). Destacam-se, no quadro 3, a descrição de algumas ações e os objetivos de intervenção propostos pelo terapeuta ocupacional na atenção ao idoso residente em ILPI. AÇÃO OBJETIVO Acolhimento institucional Colaborar no processo de acolhimento institucional considerando a singularidade do idoso, identificando e cuidando dos impactos gerados pela mudança de moradia e O estabelecimento de novas rotinas, relações atividades e papéis ocupacionais. Incentivar a participação ativa do idoso no processo de adaptação e tomada de decisões no contexto institucional. Grupo de atividades Oportunizar a realização de atividades que possam facilitar a expressão, desenvolvimento de potencialidades e interação no contexto grupal. Atividades externas no Território Participar de atividades culturais externas a instituição envolvendo visitas programadas a museus, exposições, teatro cinema, feiras, passeios, recitais. Segurança e Adaptação ambiental Identificar barreiras facilitadores existentes no ambiente institucional. Reduzir eliminar barreiras para que idoso possa realizar suas atividades da vida diária, atividades instrumentais da vida diária, e lazer com segurança, conforto, tendo como parâmetros a funcionalidade acessibilidade. Tecnologia Assistiva Prescrever dispositivos adaptações que favoreçam O desempenho de suas atividades da vida diária, atividades instrumentais da vida diária e de lazer. Orientação familiar Orientar de forma individual em grupo quanto à importância da continuidade e fortalecimento dos afetivos e familiares. Desenvolver ações de orientação, de suporte e apoio e natureza social com a do Incentivar envolvimento e participação da família nas atividades de integração realizadas no contexto institucional e na comunidade. Estimular a participação da família em datas comemorativas significativas para idoso. Orientação a funcionários Orientar de forma individual em grupo medidas que possam facilitar cuidado com os idosos no contexto institucional. Educação em saúde Desenvolver ações educativas em parceria e colaboração com a equipe multiprofissional sobre temas referentes ao envelhecimento, alimentação, atividade cuidados e higiene oral, estresse, sexualidade, autogestão do cuidado, qualidade de vida, papéis ocupacionais, direitos do idoso, depressão, doenças comuns na terceira idade, expressão e comunicação. Oportunizar ao idoso a continuidade do aprendizado ao longo da vida. Desenvolver programa de capacitação e atualização da equipe sobre sobre envelhecimento e cuidados com idoso. Registro e Documentação Registrar procedimentos, objetivos, recursos, métodos e técnicas utilizados no Elaborar relatórios de acompanhamento e seguimento das ações realizadas com e QUADRO 3 AÇÕES DO TERAPEUTA OCUPACIONAL FONTE: As autoras (2017). TERAPIA OCUPACIONAL e práticasno delineamento das ações, a importância da participação ativa a sua do biografia idoso no com plane- sua Salienta-se, realização das atividades, assim como conhecer ocupacional, necessi- jamento, história de desenvolvimento vida, relações afetivas e e familiares, valores socioculturais, desempenho dades, preferência e potencialidades. Considerações finais Neste capitulo, buscou-se apresentar algumas características dos serviços de atenção e proteção social do idoso no brasileiro, com ênfase na descrição das instituições de longa permanência, com base na legislação vigente. crescente aumento da população idosa e a preocupação com a qualidade de vida trouxeram aumento de demandas por ILPI e por serviços especializados capazes de oferecer ao idoso as condições necessárias para a garantia do seu bem-estar. idoso residente em uma ILPI deve ser considerado na sua singularidade, trajetória de vida com seus valores, crenças e significados, papéis ocupacionais, relações sociais e familiares e as suas interações com o ambiente. terapeuta ocupacional, no contexto das ILPI, busca potencializar a qualidade de vida do idoso por meio da ressignificação de seu cotidiano. Referências Bibliográficas ABRATO. Associação Brasileira dos Terapeutas Ocupacionais. Procedimentos de Terapia Ocupacional. Goiânia, Goiás: ABRATO. 2007. 21 p. 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