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17 Crime impossível - Cleber Masson

Texto sobre crime impossível (art. 17 do Código Penal): definição, natureza jurídica e distinção da tentativa; analisa teorias explicativas — objetiva (pura e temperada), subjetiva e sintomática.

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Prévia do material em texto

20.1.
20.2.
CONCEITO
Crime	 impossível,	 nos	 termos	 do	art.	 17	 do	Código	 Penal,	 é	 o	 que	 se
verifica	 quando,	 por	 ineficácia	 absoluta	 do	 meio	 ou	 por	 absoluta
impropriedade	do	objeto,	jamais	ocorrerá	a	consumação.
NATUREZA	JURÍDICA
O	 crime	 impossível	 guarda	 afinidade	 com	 o	 instituto	 da	 tentativa.	 Em
ambos,	 o	 agente	 inicia,	 em	 seu	 plano	 interno,	 a	 execução	 da	 conduta
criminosa	que	não	alcança	a	consumação.
As	diferenças,	entretanto,	são	nítidas.
Na	 tentativa	é	possível	atingir	a	consumação,	pois	os	meios	empregados
pelo	agente	são	idôneos,	e	o	objeto	material	contra	o	qual	se	dirige	a	conduta
é	um	bem	jurídico	suscetível	de	sofrer	lesão	ou	perigo	de	lesão.	Há,	portanto,
exposição	do	bem	a	dano	ou	perigo.
No	crime	impossível,	também	conhecido	como	crime	oco,	o	emprego	de
meios	ineficazes	ou	o	ataque	a	objetos	impróprios	inviabilizam	a	produção	do
resultado,	inexistindo	situação	de	perigo	ao	bem	jurídico	penalmente	tutelado.
Em	suma,	na	tentativa	é,	em	tese,	possível	a	consumação,	a	qual	somente
não	ocorre	por	circunstâncias	alheias	à	vontade	do	agente,	enquanto	no	crime
impossível	 a	 consumação	 nunca	 pode	 ocorrer,	 seja	 em	 razão	 da	 ineficácia
absoluta	do	meio,	seja	por	força	da	impropriedade	absoluta	do	objeto.
Nada	 obstante,	 a	 redação	 do	 art.	 17	 do	 Código	 Penal	 causa	 confusão
acerca	da	natureza	jurídica	do	crime	impossível.
20.3.
Com	 efeito,	 consta	 do	 dispositivo	 que	 “não	 se	 pune	 a	 tentativa…”,
transmitindo	a	impressão	equivocada	de	tratar-se	de	causa	de	isenção	de	pena
no	crime	tentado.
Na	verdade,	o	 crime	 impossível	 é	causa	de	 exclusão	da	 tipicidade,	eis
que	o	fato	praticado	pelo	agente	não	se	enquadra	em	nenhum	tipo	penal.
Entretanto,	 em	 razão	 da	 aparente	 similaridade	 entre	 os	 institutos,	 a
doutrina	 convencionou	 também	 chamá-lo	 de	 tentativa	 inadequada,
tentativa	 inidônea,1	 tentativa	 impossível,	 tentativa	 irreal	 ou	 tentativa
supersticiosa.
No	regime	da	Parte	Geral	do	Código	Penal	de	1940,	antes	da	reforma	pela
Lei	7.209/1984,	falava-se	em	quase	crime,	pois	os	arts.	76,	parágrafo	único,	e
94,	 III,	 impunham	 ao	 autor	 do	 crime	 impossível	 a	medida	 de	 segurança	 de
liberdade	 vigiada.	 No	 atual	 sistema,	 convém	 não	 mais	 usar	 essa	 expressão
como	sinônima	de	crime	impossível,	embora	parcela	doutrinária	ainda	o	faça.
TEORIAS	SOBRE	O	CRIME	IMPOSSÍVEL
1.	Teoria	objetiva
Apregoa	que	a	 responsabilização	de	alguém	pela	prática	de	determinada
conduta	depende	de	elementos	objetivos	e	subjetivos	(dolo	e	culpa).
Elemento	 objetivo	 é,	 no	mínimo,	 o	 perigo	 de	 lesão	 para	 bens	 jurídicos
penalmente	tutelados.	E	quando	a	conduta	não	tem	potencialidade	para	lesar	o
bem	 jurídico,	 seja	 em	 razão	 do	 meio	 empregado	 pelo	 agente,	 seja	 pelas
condições	do	objeto	material,	não	se	configura	a	tentativa.	É	o	que	se	chama
de	inidoneidade,	que,	conforme	o	seu	grau,	pode	ser	de	natureza	absoluta	ou
relativa.
Inidoneidade	absoluta	é	aquela	em	que	o	crime	jamais	poderia	chegar	à
consumação;	 relativa,	 por	 seu	 turno,	 aquela	 em	 que	 a	 conduta	 poderia	 ter
consumado	o	delito,	o	que	 somente	não	ocorreu	em	 razão	de	circunstâncias
estranhas	à	vontade	do	agente.
Essa	 teoria	 se	 subdivide	 em	 outras	 duas:	 objetiva	 pura	 e	 objetiva
temperada.
1.1.	Teoria	objetiva	pura
Para	essa	vertente,	o	Direito	Penal	somente	pode	proibir	condutas	lesivas
a	bens	jurídicos,	devendo	apenas	se	preocupar	com	os	resultados	produzidos
no	mundo	 fenomênico.	 Portanto,	 quando	 a	 conduta	 é	 incapaz,	 por	 qualquer
razão,	de	provocar	a	lesão,	o	fato	há	de	permanecer	impune.	Essa	impunidade
ocorrerá	 independentemente	 do	 grau	 da	 inidoneidade	 da	 ação,	 pois
nenhum	bem	jurídico	foi	lesado	ou	exposto	a	perigo	de	lesão.
Assim,	seja	a	inidoneidade	do	meio	ou	do	objeto	absoluta	ou	relativa,	em
nenhum	caso	estará	caracterizada	a	tentativa.
1.2.	Teoria	objetiva	temperada	ou	intermediária
Para	 a	 configuração	 do	 crime	 impossível,	 e,	 por	 corolário,	 para	 o
afastamento	da	tentativa,	os	meios	empregados	e	o	objeto	do	crime	devem	ser
absolutamente	inidôneos	a	produzir	o	resultado	idealizado	pelo	agente.	Se	a
inidoneidade	for	relativa,	haverá	tentativa.	Foi	a	teoria	consagrada	pelo	art.
17	do	Código	Penal.
2.	Teoria	subjetiva
Leva	em	conta	a	intenção	do	agente,	manifestada	por	sua	conduta,	pouco
importando	se	os	meios	por	ele	empregados	ou	o	objeto	do	crime	eram	ou	não
idôneos	para	a	produção	do	resultado.
Assim,	 seja	 a	 inidoneidade	 absoluta	 ou	 relativa,	 em	 qualquer	 hipótese
haverá	tentativa,	pois	o	que	vale	é	a	vontade	do	agente,	seu	aspecto	psíquico.
3.	Teoria	sintomática
Preocupa-se	com	a	periculosidade	do	autor,	e	não	com	o	fato	praticado.
A	 tentativa	 e	 o	 crime	 impossível	 são	 manifestações	 exteriores	 de	 uma
personalidade	temerária	do	agente,	 incapaz	de	obedecer	às	regras	jurídicas	a
todos	 impostas.	 Destarte,	 justifica-se,	 em	 qualquer	 caso,	 a	 aplicação	 de
medida	de	segurança.
20.4. ESPÉCIES	DE	CRIME	IMPOSSÍVEL
A	leitura	do	art.	17	do	Código	Penal	revela	a	existência	de	duas	espécies
de	 crime	 impossível:	 por	 ineficácia	 absoluta	 do	 meio	 e	 por	 impropriedade
absoluta	do	objeto.
1.	Crime	impossível	por	ineficácia	absoluta	do	meio
A	palavra	“meio”	se	refere	ao	meio	de	execução	do	crime.
Dá-se	 a	 ineficácia	 absoluta	 quando	 o	 meio	 de	 execução	 utilizado	 pelo
agente	é,	por	sua	natureza	ou	essência,	incapaz	de	produzir	o	resultado,	por
mais	reiterado	que	seja	seu	emprego.	É	o	caso	daquele	que	decide	matar	seu
desafeto	com	uma	arma	de	brinquedo,	ou	então	com	munição	de	festim.
A	inidoneidade	do	meio	deve	ser	analisada	no	caso	concreto,	e	jamais	em
abstrato.	O	emprego	de	açúcar	no	 lugar	de	veneno	para	matar	alguém	pode
constituir-se	em	meio	absolutamente	ineficaz	em	relação	à	ampla	maioria	das
pessoas.	É	capaz,	todavia,	de	eliminar	a	vida	de	um	diabético,	ainda	quando
ministrado	em	pequena	dose.
Se	a	ineficácia	for	relativa,	estará	caracterizada	a	tentativa.	Exemplo:	“A”,
desejando	 matar	 seu	 desafeto,	 nele	 efetua	 disparos	 de	 arma	 de	 fogo.	 O
resultado	naturalístico	(morte)	somente	não	se	produz	porque	a	vítima	trajava
um	colete	de	proteção	eficaz.
2.	Crime	impossível	por	impropriedade	absoluta	do	objeto
Objeto,	para	o	Código	Penal,	é	o	objeto	material,	compreendido	como	a
pessoa	ou	a	coisa	sobre	a	qual	recai	a	conduta	do	agente.
O	objeto	material	é	absolutamente	impróprio	quando	inexistente	antes	do
início	da	prática	da	conduta	ou	ainda	quando,	nas	circunstâncias	em	que	se
encontra,	torna	impossível	a	sua	consumação,	como	nas	situações	em	que	se
20.5.
tenta	matar	pessoa	já	falecida,	ou	se	procura	abortar	o	feto	de	mulher	que	não
está	grávida.
A	 mera	 existência	 do	 objeto	 material	 é	 suficiente,	 por	 si	 só,	 para
configurar	 a	 tentativa.	 O	 conatus	 estará	 ainda	 presente	 no	 caso	 de
impropriedade	 relativa	 do	 objeto.	 Exemplo:	 o	 larápio,	 mediante	 destreza,
coloca	a	mão	no	bolso	direito	da	calça	da	vítima,	com	o	propósito	de	furtar	o
aparelho	de	telefonia	celular.	Não	obtém	êxito,	uma	vez	que	o	bem	estava	no
bolso	esquerdo.	Em	caso	de	roubo,	assim	já	entendeu	o	Superior	Tribunal	de
Justiça:
O	Código	Penal	adotou	em	seu	art.	17	a	teoria	objetiva-temperada	para
fins	 de	 reconhecimento	 do	 crime	 impossível.	 Necessário	 para	 fins	 de
reconhecimento	da	impropriedade	absoluta	do	objeto	que	o	bem	jurídico
não	exista	ou	pelas	circunstâncias	do	caso	seja	impossível	ser	atingido.	A
existência	de	qualquer	bem	com	a	vítima	 impede	o	 reconhecimento	da
impropriedade	 absoluta	 do	 objeto.	 Nos	 termos	 da	 jurisprudência	 desta
Corte,	ainda	que	não	exista	nenhum	bem	com	a	vítima,	o	crime	de	roubo,
por	 ser	 delito	 complexo,	 tem	 iniciada	 sua	 execução	 quando	 o	 agente,
visando	a	subtração	de	coisa	alheia	móvel,	 realiza	o	núcleo	da	conduta
meio	(constrangimento	 ilegal/lesão	corporal	ou	vias	de	fato),	ainda	que
não	consiga	atingir	o	crime	fim	(subtração	da	coisa	almejada).2
MOMENTO	ADEQUADO	PARA	AFERIÇÃO	DAINIDONEIDADE	ABSOLUTA
A	ineficácia	absoluta	do	meio	e	a	impropriedade	absoluta	do	objeto	devem
ser	analisadas	depois	da	prática	da	conduta	com	a	qual	se	deseja	consumar	o
crime.
Uma	vez	realizada	a	conduta,	e	só	então,	deve	ser	diferenciada	a	situação
em	que	tal	conduta	caracteriza	tentativa	punível	ou	crime	impossível.	A	regra
não	pode	ser	estabelecida	em	abstrato,	previamente,	e	sim	no	caso	concreto,
após	a	realização	da	conduta.	Nas	palavras	de	Marcelo	Semer:
Deve-se	 privilegiar	 a	 aferição	 ex	 post	 desde	 que	 se	 pretenda	 a
incorporação,	 na	 aferição	 da	 idoneidade	 dos	 meios	 ou	 do	 objeto,	 das
20.6.
circunstâncias	 que	 concretamente	 atuaram	 no	 desenrolar	 dos	 fatos	 –	 o
que,	aliás,	é	mais	consentâneo	com	a	própria	noção	de	 tipicidade.	Bem
ainda	 analisar-se	 a	 idoneidade	 dos	 meios	 ou	 objeto	 de	 acordo	 com	 o
plano	concreto	do	agente	–	vale	dizer,	em	relação	ao	propósito	a	que	se
lançara	na	empreitada	delituosa.3
Se	o	agente	está	em	um	supermercado	repleto	de	instrumentos	eletrônicos
de	filmagem,	com	diversos	seguranças	monitorando	seus	passos	e,	depois	de
colocar	suas	compras	em	um	carrinho,	esconde	uma	garrafa	de	vinho	sob	suas
vestes	para	passar	pelo	caixa	sem	pagar	por	ela,	pode-se	desde	já	falar-se	em
crime	impossível?
É	 evidente	 que	 não.	 De	 fato,	 é	 possível	 que	 ele	 consiga	 fugir	 dos
seguranças,	 ou	 entregar	 o	 bem	 disfarçadamente	 para	 outra	 pessoa	 levá-lo
embora,	ou	então	se	valer	de	qualquer	outro	meio	capaz	de	consumar	o	furto.
Só	depois	do	momento	em	que	o	agente	estiver	efetivamente	preso,	portanto,
seria	autorizado	discutir	a	caracterização	ou	não	do	crime	impossível.	Como
estabelece	 a	 Súmula	 567	 do	 Superior	 Tribunal	 de	 Justiça:	 “Sistema	 de
vigilância	 realizado	 por	 monitoramento	 eletrônico	 ou	 por	 existência	 de
segurança	 no	 interior	 de	 estabelecimento	 comercial,	 por	 si	 só,	 não	 torna
impossível	a	configuração	do	crime	de	furto”.	É	também	o	entendimento	do
Supremo	 Tribunal	 Federal:	 “A	 existência	 de	 sistema	 de	 vigilância	 em
estabelecimento	comercial	não	constitui	óbice	para	a	tipificação	do	crime	de
furto”.4
ASPECTOS	PROCESSUAIS	INERENTES	AO	CRIME
IMPOSSÍVEL
A	comprovação	do	crime	impossível	acarreta	na	ausência	de	tipicidade	do
fato.	 Em	 verdade,	 não	 há	 crime.	 Consequentemente,	 o	 Ministério	 Público
deve	requerer	o	arquivamento	do	inquérito	policial.	Se	não	o	fizer,	oferecendo
denúncia,	 deve	 esta	 ser	 rejeitada,	 com	 fulcro	no	 art.	 395,	 III,	 do	Código	de
Processo	 Penal	 (com	 a	 redação	 alterada	 pela	 Lei	 11.719/2008),	 pois	 o	 fato
evidentemente	não	constitui	crime,	faltando	condição	para	o	exercício	da	ação
penal.
Se	a	denúncia	 for	 recebida,	 com	a	 instauração	do	processo	penal,	o	 juiz
20.7.
20.7.1.
20.7.2.
deve	 ao	 final	 absolver	 o	 réu,	 nos	 termos	 do	 art.	 386,	 III,	 do	 Código	 de
Processo	Penal,	pelo	motivo	de	o	fato	não	constituir	infração	penal.
Em	se	tratando	de	crime	da	competência	do	Tribunal	do	Júri,	ao	final	da
primeira	 fase	 (judicium	 accusationis),	 deverá	 o	 acusado	 ser	 absolvido
sumariamente,	 em	 conformidade	 com	 o	 art.	 415,	 inciso	 III,	 do	 Código	 de
Processo	Penal	(com	a	redação	alterada	pela	Lei	11.689/2008),	em	face	de	o
fato	não	constituir	infração	penal.
O	habeas	corpus	não	é	 instrumento	adequado	para	 trancamento	de	ação
penal	 que	 tenha	 como	 objeto	 um	 crime	 impossível,	 pois	 nessa	 ação
constitucional	 não	 é	 cabível	 a	 produção	 de	 provas	 para	 demonstrar	 a
ineficácia	absoluta	do	meio	ou	a	impropriedade	absoluta	do	objeto.
Excetua-se	 essa	 regra	 em	hipóteses	 teratológicas.	Exemplo:	 denúncia	 de
homicídio	pelo	fato	de	alguém	ter	matado	um	macaco.
CRIME	PUTATIVO	E	CRIME	IMPOSSÍVEL
Conceito	de	crime	putativo
Putativo	deriva	do	latim	putativus,	isto	é,	imaginário.	Trata-se	de	algo	que
aparenta	ser	real,	mas	que	na	verdade	não	existe.
Crime	 putativo,	 também	 chamado	 de	 imaginário	 ou	 erroneamente
suposto,	é	o	que	existe	apenas	na	mente	do	agente,	que	acredita	violar	a	 lei
penal,	quando	na	verdade	o	 fato	por	ele	concretizado	não	possui	 adequação
típica,	ou	seja,	não	encontra	correspondência	em	um	tipo	penal.
Espécies	de	crime	putativo
São	três	as	espécies	de	crime	putativo:	(1)	por	erro	de	tipo;	(2)	por	erro	de
proibição	(delito	de	alucinação	ou	crime	de	loucura);	e	(3)	por	obra	do	agente
provocador.
1.	Crime	putativo	por	erro	de	tipo
É	o	crime	imaginário	que	se	verifica	quando	o	autor	acredita	ofender	uma
lei	 penal	 incriminadora	 efetivamente	 existente,	 mas	 à	 sua	 conduta	 faltam
elementos	 da	 definição	 típica.	 Exemplo:	 “A”	 acredita	 praticar	 tráfico	 de
drogas	 (art.	 33,	 caput,	 da	 Lei	 11.343/2006)	 ao	 vender	 um	 pó	 branco,	 que
reputa	ser	cocaína,	mas,	na	verdade,	é	farinha.
2.	 Crime	 putativo	 por	 erro	 de	 proibição	 (delito	 de	 alucinação	 ou
crime	de	loucura)
A	equivocada	crença	do	agente	recai	sobre	a	ilicitude	do	fato,	pois	supõe
violar	uma	lei	penal	que	não	existe.	Exemplo:	“B”,	cidadão	comum,	perde	o
controle	 de	 seu	 automóvel,	 vindo	 a	 se	 chocar	 com	outro	 veículo	 automotor
que	estava	estacionado	em	via	pública.	Foge	em	seguida,	com	receio	de	ser
preso	em	flagrante	pela	prática	de	dano	culposo,	não	tipificado	como	infração
penal	pela	legislação	comum.5
3.	Crime	putativo	por	obra	do	agente	provocador
Também	 denominado	 de	 crime	 de	 ensaio,	 crime	 de	 experiência	 ou
flagrante	provocado,	verifica-se	quando	alguém,	insidiosamente,	induz	outra
pessoa	a	cometer	uma	conduta	criminosa,	e,	simultaneamente,	adota	medidas
para	impedir	a	consumação.
A	 consumação	 deve	 ser	 absolutamente	 impossível,	 sob	 pena	 de
configuração	da	tentativa.
Compõe-se,	pois,	de	dois	atos:	um	de	indução,	pois	o	agente	é	provocado
por	outrem	a	cometer	o	delito,	 e	outro	de	 impedimento,	 eis	 que	 a	 pretensa
vítima	adota	providências	aptas	a	obstar	a	consumação.
Como	 exemplo,	 podemos	 ilustrar	 com	 a	 situação	 da	 patroa	 que,
desconfiada	de	furtos	supostamente	praticados	por	sua	empregada	doméstica,
simula	sua	saída	de	casa	e	o	esquecimento	de	cédulas	de	dinheiro	sobre	um
móvel,	 atraindo	 a	 suspeita	 a	 subtraí-los.	 Ao	 mesmo	 tempo,	 instala	 uma
câmera	de	filmagem	no	local	e	solicita	a	presença	de	policiais	militares	para
acompanharem	a	atuação	da	serviçal.	Quando	ela	se	apodera	do	dinheiro	e	o
coloca	 em	 sua	 bolsa,	 os	 milicianos	 prontamente	 ingressam	 na	 residência	 e
efetuam	a	prisão	em	flagrante.	Na	clássica	lição	de	Nélson	Hungria:
Somente	na	aparência	é	que	ocorre	um	crime	exteriormente	perfeito.	Na
realidade,	 o	 seu	 autor	 é	 apenas	 o	 protagonista	 inconsciente	 de	 uma
comédia.	 O	 elemento	 subjetivo	 do	 crime	 existe,	 é	 certo,	 em	 violação
toda	a	sua	plenitude;	mas,	sob	o	aspecto	objetivo,	não	há	violação	da	lei
penal,	 senão	 uma	 inciente	 cooperação	 para	 a	 ardilosa	 averiguação	 da
autoria	 dos	 crimes	 anteriores,	 ou	 uma	 simulação,	 embora	 ignorada	 do
agente,	da	exterioridade	de	um	crime.	O	desprevenido	sujeito	ativo	opera
dentro	 de	 uma	 pura	 ilusão,	 pois,	 ab	 initio,	 a	 vigilância	 da	 autoridade
policial	ou	do	suposto	paciente	torna	impraticável	a	real	consumação	do
crime.	Um	 crime	 que,	 além	 de	 astuciosamente	 sugerido	 e	 ensejado	 ao
agente,	 tem	 suas	 consequências	 frustradas	 por	 medidas	 tomadas	 de
antemão,	não	passa	de	um	crime	imaginário.	Não	há	lesão,	nem	efetiva
exposição	a	perigo,	de	qualquer	interesse	público	ou	privado.6	(grifamos)
Caracterizado	o	crime	putativo	por	obra	do	agente	provocador,	o	fato	resta
impune,	 pois	 o	 seu	 autor	 por	 nada	 responde,	 nem	 mesmo	 pela	 tentativa.
Aplica-se	analogicamente	a	regra	prevista	no	art.	17	do	Código	Penal,	pois	a
situação	em	muito	se	assemelha	ao	crime	impossível.
Sobre	 o	 assunto,	 o	 Supremo	 Tribunal	 Federal	 editou	 a	 Súmula	 145:
“Não	há	crime	quando	a	preparação	do	flagrante	pela	polícia	torna	impossível
a	sua	consumação”.
Deve	 ser	 feita	 a	 distinção,	 todavia,	 entre	 essa	 modalidade	 de	 crime
putativo,	 também	 conhecidocomo	 flagrante	 preparado,	 e	 o	 flagrante
esperado.
No	flagrante	preparado,	a	 iniciativa	do	delito	é	do	agente	provocador.	A
vontade	do	provocado	é	viciada,	o	que	contamina	de	nulidade	toda	a	conduta.
Nesta	situação	sequer	existe	tentativa.
No	flagrante	esperado,	por	sua	vez,	a	deflagração	do	processo	executório
do	 crime	 é	 responsabilidade	 do	 agente,	 razão	 pela	 qual	 é	 lícito.	 É	 válido
quando	 a	 polícia,	 informada	 sobre	 a	 possibilidade	 de	 ocorrer	 um	 delito,
dirige-se	 ao	 local,	 aguardando	 a	 sua	 execução.	 Iniciada	 esta,	 a	 pronta
intervenção	dos	agentes	policiais,	prendendo	o	autor,	configura	o	flagrante.7
É	 regular,	 por	 exemplo,	 a	 atuação	 da	 polícia	 que	 resulta	 na	 prisão	 de
pessoas,	além	da	apreensão	de	drogas	e	armas,	depois	de	aguardar	o	pouso	de
uma	 aeronave	 utilizada	 para	 a	 prática	 de	 crimes	 objeto	 de	 prévia	 denúncia
20.7.3.
anônima.
Em	relação	ao	tráfico	de	drogas,	já	decidiu	o	Superior	Tribunal	de	Justiça:
O	flagrante	preparado	apresenta-se	quando	existe	a	figura	do	provocador
da	ação	dita	por	criminosa,	que	se	realiza	a	partir	da	indução	do	fato,	e
não	 quando	 já	 estando	 o	 sujeito	 compreendido	 na	 descrição	 típica,	 a
conduta	 se	 desenvolve	 para	 o	 fim	 de	 efetuar	 o	 flagrante.	 Na	 espécie,
inexiste	patente	violação	da	lei,	pois	o	crime	de	tráfico	de	drogas	estava
consumado	desde	 a	 realização	dos	verbos	nucleares	 “ter	 em	depósito”,
“guardar”	 ou	 “transportar”	 entorpecentes,	 condutas	 que	 não	 foram
estimuladas	 pelos	 policiais,	 sendo	 despicienda	 eventual	 indução	 da
mercancia	pelos	agentes.8
No	 tocante	 aos	 crimes	 em	 geral,	 o	 Supremo	 Tribunal	 Federal	 assim	 se
pronunciou:
Não	 configura	 situação	 de	 flagrante	 preparado	 o	 contexto	 em	 que	 a
Polícia,	tendo	conhecimento	prévio	do	fato	delituoso,	vem	a	surpreender,
em	 sua	 prática,	 o	 agente	 que,	 espontaneamente,	 iniciara	 o	 processo	 de
execução	 do	 iter	 criminis.	 A	 ausência,	 por	 parte	 dos	 organismos
policiais,	 de	 qualquer	 medida	 que	 traduza,	 direta	 ou	 indiretamente,
induzimento	 ou	 instigação	 à	 prática	 criminosa	 executada	 pelo	 agente
descaracteriza	 a	 alegação	 de	 flagrante	 preparado,	 não	 obstante
sobrevenha	 a	 intervenção	 ulterior	 da	 Polícia	 –	 lícita	 e	 necessária	 –
destinada	a	impedir	a	consumação	do	delito.9
Diferença	entre	crime	impossível	e	crime	putativo
Diante	do	que	foi	abordado,	fica	clara	a	distinção	entre	as	figuras	do	crime
impossível	e	do	crime	putativo.
Crime	impossível	é	a	situação	em	que	o	autor,	com	a	intenção	de	cometer
o	 delito,	 não	 consegue	 fazê-lo	 por	 ter	 se	 utilizado	 de	 meio	 de	 execução
absolutamente	 ineficaz	 (impotente	 para	 lesar	 o	 bem	 jurídico),	 ou	 então	 em
decorrência	de	ter	direcionado	a	sua	conduta	a	objeto	material	absolutamente
impróprio	 (inexistente	 antes	 do	 início	 da	 execução,	 ou,	 no	 caso	 concreto,
inadequado	 à	 consumação).	 Portanto,	 o	 erro	 do	 agente	 recai	 sobre	 a
idoneidade	do	meio	ou	do	objeto	material.
De	seu	turno,	crime	putativo	é	aquele	em	que	o	agente,	embora	acredite
praticar	 um	 fato	 típico,	 realiza	 um	 indiferente	 penal,	 seja	 pelo	 fato	 de	 a
conduta	 não	 encontrar	 previsão	 legal	 (crime	 putativo	 por	 erro	 de
proibição),	 seja	 pela	 ausência	 de	 um	 ou	 mais	 elementos	 da	 figura	 típica
(crime	putativo	por	erro	de	tipo),	ou,	ainda,	por	ter	sido	induzido	à	prática
do	crime,	ao	mesmo	tempo	em	que	foram	adotadas	providências	eficazes	para
impedir	sua	consumação	(crime	putativo	por	obra	do	agente	provocador).
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SAUER,	GUILLERMO.	Derecho	 Penal	 (Parte	General).	 Trad.	 de	 Juan
del	Rosal.	Barcelona:	Bosch	Casa	Editorial,	1956.	p.	173.
REsp	1.340.747/RJ,	rel.	Min.	Maria	Thereza	de	Assis	Moura,	6.ª	Turma,	j.
13.05.2014.
SEMER,	Marcelo.	Crime	impossível	e	a	proteção	de	bens	 jurídicos.	São
Paulo:	Malheiros,	2002.	p.	89.
STF:	HC	111.278/MG,	 rel.	orig.	Min.	Marco	Aurélio,	 red.	p/	o	ac.	Min.
Luís	Roberto	Barroso,	1ª	Turma,	j.	10.04.2018,	noticiado	no	Informativo
897.
O	 dano	 culposo	 é	 crime	 perante	 o	 Código	 Penal	 Militar	 (Decreto-lei
1.001/1969,	art.	259	c/c	o	art.	266).
HUNGRIA,	 Nélson.	 Comentários	 ao	 código	 penal.	 Rio	 de	 Janeiro:
Forense,	1949.	v.	I,	p.	279.
BONFIM,	 Edilson	 Mougenot.	 Curso	 de	 processo	 penal.	 São	 Paulo:
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HC	 214.235/SP,	 rel.	Min.	Maria	 Thereza	 de	Assis	Moura,	 6.ª	 Turma,	 j.
15.05.2014.
HC	70.076/SP,	rel.	Min.	Celso	de	Mello	1“	Turma,	j.	30.03.1993.

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