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ESTRUTURAS DE MADEIRA AULA 2 Prof.ª Patricia Fontana 2 CONVERSA INICIAL Como observamos anteriormente, são diversos os sistemas construtivos possíveis de serem executados com madeira, incluindo o uso do material como sistema de acabamento, vedação, entre outras funções. Em nosso estudo, estamos trazendo o foco no uso da madeira como elemento estrutural e abordando os sistemas construtivos que utilizam a madeira desta forma. Nesta etapa, abordaremos informações sobre o sistema construtivo que utiliza madeiras serradas e roliças em sua composição, que consiste em um sistema com concepção semelhante a uma estrutura de concreto armado sustentada por pilar e vigas. CONTEXTUALIZANDO O sistema de pilar e vigas em madeira serrada ou roliça consiste em uma forma construtiva que apresenta limitações de comprimento e seção transversal, por ser um material resultante dos troncos, dependendo, portanto, das dimensões das árvores disponíveis para extração. A seguir, falaremos sobre as formas de associação de vigas e pilares em madeira serrada para composição da estrutura de uma edificação, abordando informações sobre dimensões para pré-dimensionamento e tipos de seções transversais. Vale destacar que as dimensões recomendadas indicadas consistem em orientações para pré-dimensionamento de elementos estruturais. As medidas obtidas não devem ser tomadas como efetivas para uma etapa de execução sem que antes sejam realizados os devidos cálculos de dimensionamento e verificação que as normas técnicas preconizam. TEMA 1 – ASSOCIAÇÃO DE VIGAS E PILARES DE MADEIRA SERRADA As estruturas executadas em madeira serrada consistem em um sistema pré-fabricado, uma vez que as peças são produzidas fora do canteiro, para posteriormente serem transportadas e montadas na obra. Ao sistema estrutural composto por vigas e pilares vinculados, damos o nome de pórtico. No caso de construções em madeira serrada, a forma mais comum de associação para obtenção de um pórtico consiste na disposição dos 3 pilares na vertical e das vigas na horizontal, com a execução da ligação, que pode ser de diversos tipos, como pregada, com uso de chapas metálicas, encaixe, entre outros. Falaremos em detalhes sobre os tipos de ligações nas próximas etapas. Saiba mais Conheça a Casa da Quitandinha, da 247 Arquitetura, nos links abaixo: • Disponível em: . Acesso em: 21 jun. 2024; • Disponível em: . Acesso em: 21 jun. 2024. Para situações que exijam grandes vãos ou alturas, pode ser feita a associação de diversas peças serradas formando um sistema de pórtico treliçado. Essa forma de associação foi mais utilizada na construção civil do país até a Segunda Guerra Mundial, sendo que após esse evento histórico ocorreu o aumento do uso do aço no país em virtude, principalmente, da criação da Companhia Siderúrgica Nacional, em 1946. Mais recentemente, ganhou espaço o uso da madeira engenheirada, que é um sistema que permite vencer grandes vãos em virtude da possibilidade de fabricação de grandes vigas, inclusive vigas curvas. Figura 1 – Exemplo de pórtico em madeira engenheirada Créditos: Myfotoprom/Shutterstock. 4 Uma obra de referência que utilizou o sistema de vigas e pilares em madeira serrada foi a residência Hélio Olga, projeto datado de 1990 e de autoria do arquiteto Marcos Acayaba. Saiba mais Conheça a residência Hélio Olga nos links abaixo: • Disponível em: . Acesso em: 21 jun. 2024; • Disponível em: . Acesso em: 21 jun. 2024. Com esse projeto, podemos observar que uma forma de se obter a seção transversal final das vigas e pilares consiste no uso de duas ou mais peças de madeira formando um mesmo elemento estrutural. O uso de duas peças para compor um mesmo elemento estrutural apresenta duas vantagens principais: facilita a execução das ligações entre vigas e pilares e possibilita a utilização de peças mais resistentes a um custo reduzido, aproveitando bitolas comerciais mais econômicas em vez de vigas ou pilares de dimensões maiores, que podem ser mais caros. Meirelles (2010) apresenta exemplos de vinculações entre peças de madeira serrada, como o esquema apresentado na Figura 2, com a indicação de bitolas comerciais utilizadas para construções em madeira com vãos da ordem de 4 metros, que consiste em um vão convencional e econômico para esse tipo de sistema construtivo. Figura 2 – À esquerda, pilar com seção simples e viga principal com seção composta por duas peças; à direita, pilar com seção composta por duas peças de madeira e vigas com seção simples 5 Crédito: Jefferson Schnaider. É possível utilizar duas ou mais peças para formar um mesmo elemento estrutural. Na Figura 3, é apresentado um exemplo de detalhe de pilar composto por 4 peças em madeira. Figura 3 – Pilar composto por 4 peças em madeira Crédito: Jefferson Schnaider. TEMA 2 – SOLUÇÕES ESTRUTURAIS DE PAVIMENTOS A concepção de uma construção em madeira deve sempre considerar as soluções de piso disponíveis para o sistema adotado. No caso de edificações em madeira serrada, o tipo mais comum de piso consiste nos assoalhos de madeira, podendo também ser utilizados painéis de placas cimentícias (por exemplo, painel wall) ou OSB. Devido aos tipos de pisos utilizados, que vencem pequenos 6 vãos, é comum que o sistema estrutural do piso dessas construções seja composto por vigas principais e secundárias biapoiadas. Chamamos de vigas secundárias aquelas sobre as quais o piso (assoalho ou painel) se apoia, enquanto as vigas principais recebem as cargas das vigas secundárias. As vigas secundárias são dispostas paralelamente entre si com um determinado afastamento, dependendo do tipo de piso adotado. Além de suportarem as cargas do piso, as vigas secundárias também melhoram o funcionamento da estrutura ao aumentar sua rigidez transversal. Elas funcionam como contraventamentos entre as vigas principais, permitindo uma melhor distribuição de carga e reduzindo o efeito das vibrações. As vigas principais são responsáveis por encaminhar as cargas até os pilares e, portanto, devem possuir geometria de seção transversal adequada para vencer os vãos entre os pilares. No caso do uso de assoalhos de madeira, as vigas secundárias devem ser espaçadas de 40 a 60 cm de eixo a eixo, dependendo da madeira utilizada no piso e de sua resistência. Rebello (2007) apresenta em seu livro recomendações para as dimensões das vigas principais e secundárias (esta última também chamada de nervuras pelo autor), conforme pode ser observado na Figura 4. Figura 4 – Sistema estrutural de um pavimento com piso de assoalho Fonte: Rebello, 2007. 7 A distância entre as vigas secundárias, quando se utilizam painéis, é determinada pelo vão resistente do painel, informação que deve ser obtida diretamente do fabricante. Por exemplo, os painéis wall podem vencer vãos de até 125 cm. Essa solução permite utilizar distâncias maiores entre as vigas secundárias, reduzindo o consumo de madeira na estrutura e os custos com mão de obra. Figura 5 – Sistema estrutural de um pavimento com piso em painel Fonte: Rebello, 2007. Como pode ser observado nas imagens anteriores, a solução mais eficiente consiste em posicionar as vigas secundárias no sentido do menor vão e as vigas principais no sentido do maior vão. Quanto à disposição das vigas principais e secundárias no pavimento, há duas abordagens principais: vigas principais e secundárias no mesmo nível; vigas secundárias apoiadas nas vigas principais por cima destas. A solução comvigas principais e secundárias dispostas no mesmo nível permite uma redução na altura estrutural, pois ambos os elementos estão no mesmo plano, como ilustrado no esquema da Figura 6. No entanto, esse método possui um processo de execução mais complexo, exigindo um ajuste preciso das peças. 8 Figura 6 – Solução de piso com vigas secundárias e principais no mesmo nível Fonte: Meirelles, 2010. Figura 7 – Detalhe de piso com vigas secundárias e principais no mesmo nível Crédito: Jefferson Schnaider. 9 Já a solução com vigas principais e secundárias dispostas uma sobre a outra, como mostrado na Figura 8, criando dois níveis estruturais no pavimento, oferece uma execução mais rápida, porém consome mais altura na construção. Figura 8 – Solução de piso com vigas secundárias e principais em dois níveis de apoio Fonte: Meirelles, 2010. Figura 9 – Solução de piso com vigas secundárias e principais em dois níveis de apoio Fonte: Martins, 2010. Em geral, as estruturas de pavimento com madeira serrada têm um vão máximo de 4 a 5 metros, devido às limitações de dimensões dos troncos das árvores. Em casos excepcionais, podem ser observadas peças com vãos maiores, chegando a 7 a 8 metros, o que geralmente aumenta o custo da construção. Para vãos maiores, recomenda-se o uso de sistemas construtivos com madeiras engenheiradas. 10 TEMA 3 – COORDENAÇÃO MODULAR Sistemas construtivos pré-fabricados exigem que a concepção do projeto arquitetônico ocorra de modo modular. A coordenação modular consiste em definir e racionalizar as dimensões dos componentes de uma construção por meio de medidas modulares, relacionando as dimensões dos materiais da construção com as dimensões dos ambientes arquitetônicos, visando obter uma construção econômica e com menor desperdício de materiais. Atualmente, o tipo de sistema estrutural mais utilizado em nosso país é o concreto armado, por ser um material barato e não exigir mão de obra especializada. No entanto, já começamos a observar sinais de escassez das matérias-primas do concreto armado, além de estudos que indicam um possível aumento do custo desse material ao longo dos anos, principalmente devido à necessidade de redução das emissões de CO2 na construção civil. Portanto, é essencial que durante o estudo de viabilidade de um empreendimento sejam avaliadas alternativas de sistemas construtivos e estruturais que visem economia para o cliente, além de soluções mais sustentáveis. Os sistemas construtivos em madeira só conseguem se tornar competitivos do ponto de vista econômico, em comparação ao concreto armado, se forem bem projetados, levando em consideração as características e vantagens da madeira. Para isso, a concepção deve considerar, sempre que possível, o estudo da coordenação modular, com definição de geometrias compatíveis com o material disponível no mercado. O estudo e aplicação da coordenação modular nas construções não são técnicas novas. Berriel (2009) afirma que no Japão, por muitos séculos, a composição arquitetônica obedeceu às regras determinadas pelas dimensões do “tatami”, uma esteira retangular de palha que revestia o piso das casas tradicionais. A coordenação modular permite reduzir o desperdício ao minimizar os cortes dos componentes de uma construção. Com isso, é possível também reduzir as despesas com destinação de resíduos da construção civil, além de aumentar o rendimento da mão de obra e consequentemente reduzir os prazos de execução, o que diminui os custos de um empreendimento. Erros de projeto e retrabalhos também são mitigados quando são aplicados os conceitos da coordenação modular na etapa de projeto. 11 Na concepção com aplicação dos conceitos da coordenação modular, tanto as dimensões no plano horizontal quanto vertical devem ser escolhidas de maneira que pertençam a um sistema de medida comum, o que influencia tanto as distâncias entre pilares quanto as entre vigas e as medidas de pé-direito. Abaixo, é apresentado o exemplo de uma planta de uma residência tradicional japonesa, onde é possível observar a disposição dos ambientes com base em uma grade definida a partir de uma medida base da coordenação modular. Figura 10 – Grelha em planta de uma casa japonesa Fonte: Berriel, 2009. Segundo o que foi apresentado por Berriel (2009), o grande difusor da ideia de coordenação modular e do módulo decimétrico (10 cm) foi A. F. Bemis, um industrial de Boston. De acordo com a autora, A. F. Bemis afirma que na coordenação modular todos os objetos de uma construção devem satisfazer à condição de possuírem dimensões múltiplas de uma medida comum, chamada módulo, que são comensuráveis entre si e, portanto, também em relação ao edifício que formam quando integrados. Trata-se de uma questão fundamental, ao se escolher um sistema construtivo — seja ele constituído por elementos de madeira ou não — , a definição ou concepção do funcionamento da estrutura e de sua relação — de dependência ou independência — com os elementos de vedação. (Berriel, 2009) Saiba mais O site do Programa de Tecnologia de Habitação (HABITARE) disponibiliza a publicação “Introdução à coordenação modular da construção no Brasil”, que aborda conceitos da coordenação. Disponível em: 12 . Acesso em: 20 jun. 2024. TEMA 4 – DIMENSÕES MÍNIMAS E PRÉ-DIMENSIONAMENTO As peças em madeira serrada comercializadas no país possuem diversas dimensões em seção transversal. Popularmente, as medidas de seção transversal, ou seja, altura x largura de uma peça de madeira, são conhecidas como bitolas. Zenid (2009) apresenta na publicação “Madeira, uso sustentável na construção civil” uma tabela com as dimensões dos principais produtos da madeira serrada, que é transcrita abaixo. Produtos Espessura (mm) Largura (mm) Comprimento (m) Pranchão Maior que 70 Maior que 200 Variável Prancha 40 - 70 Maior que 200 Variável Viga Maior que 40 110 - 200 Variável Vigota 40 - 80 80 - 110 Variável Caibro 40 - 80 50 - 80 Variável Tábua 10 - 40 Maior que 100 Variável Sarrafo 20 - 40 20 - 100 Variável Ripa Menor que 20 Menor que 100 Variável Dormente 160 - 170 220 - 240 2,00 - 5,60/ 2,80 - 5,60 Pontalete 75 75 Variável Bloco Variável Variável Variável Fonte: Zenid, 2009. Os produtos listados acima podem ser encontrados com diferentes dimensões nas diversas regiões do país. Alguns exemplos de dimensões comerciais são apresentados a seguir: Produto Dimensões (cm) Vigotas ou terças 6 x 12 e 6 x 16 Sarrafos 2,5 x 10 ; 2,5 x 10 e 2,5 x 15 ; 3,8 x 7,5 ; 2,2 x 7,5 Pranchas 8 x 20 Caibros 5 x 6 ; 5 x 7 ; 6 x 6 ; 6 x 8 ; 6 x 12 ; 6 x 16 ; 6 x 20 ; 6 x 24 ; 7,5 x 5 ; 7,5 x 7,5 Tábuas 2,5 x 11,5 ; 2,5 x 15 ; 2,5 x 20 ; 2,5 x 25 e 2,5 x 30 Ripas 1,2 x 5 e 1,5 x 5 Pontaletes 8 x 8 Vigas 12 x 20 ; 12 x 24 ; 12 x 30 ; 12 x 36 ; 7,5 x 15 ; 15 x 15 ; 6 x 12 ; 6 x 16 ; 5 x 20 Pilares 12 x 12 e 17 x 17 As peças roliças podem ser encontradas com seção transversal circular com diversos diâmetros. Por exemplo, para as peças em eucalipto é comum que sejam encontrados diâmetros que variam entre 15 cm e 28 cm. 13 Do ponto de vista de comportamento estrutural e critérios relacionados ao desempenho e durabilidade, a norma de Projeto de estruturas de madeira, ABNT NBR 7190, estabelece que “nas peças principais isoladas, como vigas e barras longitudinais de treliças, a área mínima das seções transversais é de 50 cm² e espessura mínima de 5 cm”. Segundo a norma, para as peças secundárias esses limites se reduzem para 18 cm² e 2,5 cm. Quando forem utilizadas peças múltiplas, como vigas ou pilares compostos, a área mínima da seção transversal de cada peça deve ser de 35 cm² com espessura mínima de 2,5 cm. Figura 11 – Representação das dimensõesmínimas das peças estruturais em madeira segundo a ABNT NBR 7190 Fonte: Szücs, 2015. As dimensões dos elementos estruturais em madeira serrada podem ser estimadas na etapa de concepção arquitetônica através do uso dos ábacos traduzidos pelo arquiteto Yopanan C. P. Rebello ou por formulações simples de pré-dimensionamento. Para vigas principais, para definição da altura da peça em uma etapa de pré-dimensionamento, pode ser utilizada a seguinte relação: 14 h = ℓ/17 a ℓ/20 Onde: • ℓ = vão (em cm); • h = altura da viga (em cm). A largura pode ser definida para uma estimativa pela expressão b = h/6 a h/3 ou ser definida de acordo com a disponibilidade comercial da região. Figura 12 – Representação do vão de uma viga e a altura pré-dimensionada Fonte: Rebello, 2007. Vale relembrar que as vigas de madeira serrada são econômicas para vãos de até 4 ou 5 metros. Para vãos maiores, uma alternativa de solução de piso com uso de madeiras serradas são as vigas vagão ou as vigas treliçadas de banzos paralelos. Para o uso de vigas treliçadas para o piso, a relação de vão para pré- dimensionamento é indicada na imagem abaixo. 15 Figura 13 – Pré-dimensionamento de vigas treliçadas para pisos Fonte: Rebello, 2007. Existem autores, como Ching (2010), que recomendam uma relação de pré-dimensionamento de L/18 para as treliças. Este autor indica vãos de 5 a 18 metros para o uso desse tipo de sistema estrutural em madeira para pisos. As vigas vagão são obtidas da associação de uma viga de alma cheia e um cabo. Segundo Rebelo (2005), consiste em uma viga cujo vão é diminuído pela colocação de montantes, que apoiam o cabo. Segundo o autor, a viga vagão pode ter um ou mais montantes e, para o correto comportamento deste tipo de estrutura, o cabo deverá ter a forma funicular. Figura 14 – Representação do formato do cabo para uma viga vagão Fonte: Rebello, 2007. O pré-dimensionamento de uma viga vagão pode ser realizada conforme orientado na Figura 15. Figura 15 – Relação de pré-dimensionamento de uma viga vagão Fonte: Rebello, 2007. Em alguns casos, pode ser aplicado o uso de vigas treliçadas com duas águas invertidas, como no exemplo da Figura 16. 16 Figura 16 – Treliça com duas águas invertidas para uso como sistema de piso Fonte: Rebello, 2007. Outra forma de pré-dimensionamento consiste no uso dos ábacos de pré- dimensionamento, que são gráficos que apresentam nas abscissas (eixo x) valores correspondentes a uma das variáveis, como vão ou número de pavimentos. Nas ordenadas (eixo y), é apresentado o valor da medida que se busca com o pré-dimensionamento (altura de laje, viga ou dimensão mínima de um dos lados de um pilar). Você irá observar que os gráficos são compostos pelos eixos citados e por uma área hachurada, que varia de acordo com o tipo de gráfico. Essa área hachurada é delimitada por uma linha superior, que indica os valores máximos para pré-dimensionamento, e por uma linha inferior, que representa os valores mínimos para pré-dimensionamento. 17 Não há uma regra para o uso desses ábacos, devendo o usuário utilizar bom senso e seu conhecimento em relação aos tipos de cargas nas estruturas, assim como ao comportamento esperado do elemento (por exemplo: vigas acima de janelas devem ter deslocamentos muito controlados para evitar problemas no uso, sendo interessante considerar o uso do limite superior no pré- dimensionamento). A seguir, são apresentados os ábacos de pré-dimensionamento para vigas e pilares. Fonte: Rebello, 2007. 18 Fonte: Rebello, 2007. 19 TEMA 5 – ESTABILIDADE DAS CONSTRUÇÕES EM MADEIRA SERRADA Por utilizar um sistema pré-fabricado, as edificações em madeira exigem a execução de ligações entre os elementos estruturais. Quanto mais simples essas ligações forem de executar, menos rigidez conferem à estrutura. Assim, geralmente, a estrutura de madeira deve ser contraventada e estabilizada contra ventos. A estabilização pode ocorrer pela rigidez intrínseca da estrutura, utilizando ligações rígidas e peças mais robustas, ou através de sistemas complementares de estabilização. Um desses sistemas é o uso de contraventamentos com cabos de aço, como ilustrado no esquema da Figura 17. Figura 17 – Contraventamento com uso de cabo de aço em X Crédito: Jefferson Schnaider. Este sistema de travamento foi empregado na residência do arquiteto Marcos Acayaba, uma edificação realizada com pilares hexagonais de madeira jatobá, apoiados em pilares de concreto armado por meio de uma vinculação simples e articulada, utilizando aparelhos de apoio de aço. Toda a sustentação da casa é feita em apenas três pilares de concreto, o que confere à residência uma maior flexibilidade, exigindo o uso dos travamentos em aço. 20 Figura 18 – Residência Marcos Acayaba Crédito: Nelson Kon. O travamento da estrutura também é assegurado pela grelha de piso utilizada, que associada aos cabos de aço proporciona a estabilidade desejada. Segundo Nakanishi (2007), “o triângulo é uma forma geometricamente indeformável. Já o quadrado é deformável quando não são utilizados travamentos nas diagonais internas”. Essa situação é ilustrada pela autora e representada na Figura 19. Figura 19 – Comportamento à deformação de formas triangulares e retangulares 21 Figura 20 – Vista dos pilares árvore da Residência Marcos Acayaba Crédito: Acayaba, 2021. Figura 21 – Aparelho de apoio em aço dos pilares árvore da Casa Marcos Acayaba Crédito: Jefferson Schnaider. 22 Os sistemas de vedação da construção e a composição da grelha do piso (incluindo vigas e tipo de piso) também podem contribuir para a estabilização de uma construção. Por isso, edificações com sistemas mais leves tendem a exigir mais frequentemente o uso de contraventamentos, tanto no piso quanto nos sistemas verticais. Edificações com elementos estruturais maiores e mais robustos, e com sistemas de vedação mais rígidos, como é o caso das alvenarias, podem dispensar um sistema de estabilização adicional. Isso é observado na Residência Schuster, do arquiteto Severiano Mário Porto, reconhecido por suas contribuições nas construções em Manaus. Segundo Simões (2017), os trabalhos de Severiano contribuíram para a desmistificação de alguns preconceitos da elite manauara em relação à utilização da madeira em construções urbanas, “que anteriormente era malvista, sendo associada apenas a casas populares”. Na Residência Schuster, que pode ser visualizada nos links adicionais, não são necessários travamentos, uma vez que a estabilidade da construção é garantida pelo próprio sistema de vigas e pilares da casa, aliado ao uso de alvenarias de vedação. Saiba mais Conheça a Residência Schuster e a obra do arquiteto Severiano Porto: • Disponível em: . Acesso em: 21 jun. 2024; • Disponível em: . Acesso em: 21 jun. 2024. TROCANDO IDEIAS No site ArchDaily, foi publicada uma matéria em abril de 2020 com uma lista de 20 residências brasileiras construídas em madeira. Na seleção feita pelo autor, podemos encontrar tanto casas feitas com madeira serrada quanto roliça, além das construídas com madeira engenheirada, este último tópico de nosso material. Convido você a ler a matéria mencionada, que está disponível em: . Acesso em: 20 jun. 2024. Após a leitura, responda: quais casas são feitas em madeira serrada e/ou roliça? E quais casas são construídascom madeira engenheirada? Com base na análise dos projetos e imagens das residências, quais são as principais diferenças observadas nas concepções quando comparamos o sistema de madeira engenheirada com o sistema de viga e pórtico executado com madeiras serradas ou roliças? NA PRÁTICA Para definir a melhor forma de associar os elementos em madeira serrada, devem-se avaliar as dimensões dos cômodos, estudar o programa de necessidades, considerar a altura disponível, a disponibilidade de materiais na região e avaliar os vãos recomendados para as peças em madeira. Para orientar nesse último aspecto, Ching (2010) apresenta um gráfico com informações sobre os vãos convencionais para diferentes elementos horizontais utilizados em estruturas de madeira. O autor também oferece outras orientações que complementam o exposto ao longo desta publicação e são aqui transpostas para ajudar na prática dos cuidados necessários durante a concepção de uma edificação em madeira: • Nas estruturas de madeira, os pilares externos geralmente são menores do que os internos, uma vez que recebem áreas contribuintes menores. • Se houver balanços, os pilares de quina podem transferir cargas equivalentes aos pilares internos, podendo ser projetados com dimensões similares aos pilares internos. 24 • Sempre que o sistema de piso com viga principal e vigas secundárias (barrotes) ficar exposto, o que é comum neste tipo de sistema, é preciso ter cuidado na escolha da espécie e na qualidade da madeira utilizada, assim como nos detalhes das conexões. • O uso de balanços é possível, apesar de não ser comum devido à limitação de comprimento das vigas serradas disponíveis no mercado. Para utilizar balanços, as vigas devem ter apoio e continuar além deste apoio na extremidade, conforme esquematizado na figura a seguir. O limite recomendado para a dimensão do balanço é de ¼ do vão entre apoios. Figura 22 – Esquema de estrutura de madeira com vigas principais e secundárias, balanços e contraventamentos em X para estabilização Crédito: Jefferson Schnaider. 25 • Para estabilizar uma estrutura, é necessário utilizar contraventamentos diagonais ou um conjunto de paredes. • Se houver necessidade de abertura ou cargas concentradas no pavimento, deve-se estudar uma estrutura independente adicional, conforme indicado na figura a seguir. Figura 23 – Esquema de estrutura de madeira com vigas principais e secundárias, balanços, paredes para estabilização e a indicação de uma região com abertura, que exige uma concepção particular Crédito: Jefferson Schnaider. • O autor recomenda que as dimensões da seção transversal dos pilares de madeira podem ser obtidas a partir das seguintes relações. 26 Figura 24 – Pré-dimensionamento de pilares Fonte: Ching, 2010. Na Figura 25, é apresentada uma imagem com algumas regras gerais para o pré-dimensionamento de pilares. Figura 25 – Recomendações gerais para pré-dimensionamento de pilares Fonte: Ching, 2010. 27 FINALIZANDO Nesta etapa, abordamos o uso de madeiras serradas na construção de edificações. Foram discutidas informações sobre os tipos de sistemas estruturais para os pavimentos, seções mais convencionais, a importância de contraventamentos e recomendações para o pré-dimensionamento. É importante mencionar que as madeiras serradas também são amplamente utilizadas para as coberturas das edificações, seja no caso de coberturas apoiadas em lajes, com uso de pontaletes, ou em coberturas executadas com grandes vãos livres e elementos em arco ou treliças. Nas próximas etapas, serão apresentadas informações sobre a aplicação desse material também nas coberturas. Parte do estudo do sistema construtivo abordado neste material inclui a análise das ligações, que serão o foco de um capítulo específico sobre o assunto. Observa-se, ainda, que o uso da madeira serrada é justificado e aplicável em construções onde os vãos variam entre 4 e 6 metros. Vãos maiores eventualmente podem ser viabilizados, dependendo da disponibilidade de madeira na região, mas geralmente envolvem custos elevados. Quando necessário projetar ambientes com vãos mais amplos e alturas elevadas, o uso de madeiras engenheiradas se torna a melhor alternativa. Portanto, na próxima etapa abordaremos este sistema construtivo. 28 REFERÊNCIAS ACAYABA, M. Marcos Acayaba. 2. ed. São Paulo: Romano Guerra, 2021. AFLALO, M. et al. Madeira como estrutura: a história da Ita. São Paulo: Paralaxe, 2005. BERRIEL, A. Arquitetura de madeira: reflexões e diretrizes de projeto para concepção de sistemas e elementos construtivos. Tese (Doutorado em Engenharia Florestal) – Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2009. CHING, F. D. K. Sistemas estruturais ilustrados. Porto Alegre: Bookman, 2010. MEIRELLES, C. R.; PALA, A. Apostila: processo construtivo em madeira. Faculdade de Arquitetura e Urbanismo – Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2010. NAKANISHI, T. M. Arquitetura e domínio técnico: a prática de Marcos Acayaba. Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) – Escola de Engenharia de São Carlos, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007. REBELLO, Y. C. P. Bases para projeto estrutural na arquitetura. São Paulo: Zigurate Editora, 2007. SIMÕES, I. B. S. As residências de Severiano Porto em Manaus: acervo, documentação e sistematização. 2017. Disponível em: . Acesso em: 20 jun. 2024. SZÜCS, C. A. et al. Apostila estruturas de madeira. Versão 3. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, Departamento de Engenharia Civil, 2015.