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lícitos. Trata-se da autorização conferida pelo ordenamento jurídico para o sacrifício de um bem jurídico para preservar outro. A doutrina diverge sobre a essência do estado de necessidade, sendo que para alguns é uma faculdade, enquanto para outros é um direito exercido frente ao Estado, que deve reconhecer a exclusão da ilicitude. O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para VINICIUS - 02406393240, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título, a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal. 4 de 9faculdade.grancursosonline.com.br Professor(a): Leo Castro No que diz respeito à natureza jurídica do estado de necessidade, há várias teorias. A teoria unitária, adotada pelo Código Penal, considera que se o bem sacrificado for de igual ou inferior valor ao bem preservado, há exclusão da ilicitude. Já a teoria diferenciadora, originária do direito penal alemão, distingue entre estado de necessidade justificante (excludente da ilicitude) e exculpante (excludente da culpabilidade), dependendo do valor dos bens em conflito. Outras teorias, como a da equidade e a da escola positiva, mantêm a ilicitude, mas defendem a impunidade por razões de equidade ou ausência de perigo social. Os requisitos para a configuração do estado de necessidade são cumulativos e estão elencados no artigo 24 do Código Penal. Eles incluem a existência de um perigo atual, não provocado voluntariamente pelo agente, ameaçando um direito próprio ou alheio, e a ausência de um dever legal de enfrentar o perigo. Além disso, o fato necessitado deve ser inevitável por outro meio e proporcional, ou seja, razoável em relação ao bem jurídico sacrificado. O perigo atual deve estar ocorrendo no momento da ação e pode se originar de diversas fontes, como fatos da natureza, seres irracionais ou atividades humanas. A provocação do perigo não pode ser voluntária, e há divergências sobre a inclusão de perigos culposamente criados. No Brasil, qualquer bem jurídico pode ser protegido e não se exige relação de parentesco ou intimidade para a defesa de bens jurídicos de terceiros. A expressão dever legal de enfrentar o perigo é interpretada extensivamente, compreendendo deveres legais e contratuais, e a sua aplicação deve ser feita com bom senso. O fato necessitado, para ser considerado justificado, deve ser absolutamente imprescindível para evitar a lesão ao bem jurídico e deve proporcionar o menor dano possível. A proporcionalidade, ou razoabilidade, refere-se à relação de importância entre o bem sacrificado e o preservado, e deve ser avaliada caso a caso pelo magistrado. Em situações em que o sacrifício de um bem maior é razoável, a pena pode ser reduzida. O estado de necessidade pode ser classificado de diversas formas, dependendo do bem sacrificado, da titularidade do bem jurídico preservado, da origem da situação de perigo e do aspecto subjetivo do agente. A comunicabilidade do estado de necessidade ocorre quando a ilicitude do fato típico é excluída para todos os coautores e partícipes. Em crimes permanentes e habituais, a justificativa do estado de necessidade é geralmente inaplicável, mas há exceções reconhecidas pela jurisprudência. Finalmente, o estado de necessidade deve ser distinguido da dificuldade econômica, pois a prática de um ato ilícito devido a dificuldades financeiras não é justificada. Contudo, em casos excepcionais, como no furto famélico, em que a ação é inevitável para a satisfação de necessidades vitais, o estado de necessidade pode ser considerado. Em suma, o estado de necessidade é um conceito complexo e essencial no direito penal, exigindo uma análise minuciosa para determinar sua aplicação adequada. O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para VINICIUS - 02406393240, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título, a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal. 5 de 9faculdade.grancursosonline.com.br Professor(a): Leo Castro Além disso, o estado de necessidade pode ser classificado em defensivo, quando o agente sacrifica um bem jurídico do próprio causador do perigo, e agressivo, quando o bem sacrificado pertence a um terceiro alheio à criação do perigo. O estado de necessidade também pode ser real, quando a situação de perigo efetivamente existe, ou putativo, quando o agente acredita erroneamente na existência do perigo. No caso de estado de necessidade putativo, se o erro for inevitável, o agente é isento de pena; se evitável, responde por crime culposo. A complexidade do estado de necessidade e suas diversas classificações e nuances exigem uma compreensão detalhada e uma aplicação cuidadosa por parte dos operadores do direito para garantir a justiça nas decisões judiciais. 3. Legítima Defesa No caso de um ataque de animais, como cães, a situação não se enquadra em legítima defesa, mas sim em estado de necessidade. Isso ocorre porque a legítima defesa se aplica apenas a agressões humanas. Já o estado de necessidade é invocado quando há um perigo iminente causado por algo que não seja uma ação humana direta, como um animal atacando espontaneamente. Se o ataque do animal for ordenado por uma pessoa, nesse cenário, pode ser considerado legítima defesa. O instituto da legítima defesa é inerente à condição humana. Desde o nascimento, é natural ao ser humano o comportamento de defesa diante de uma agressão injusta. A defesa é uma faculdade visceralmente ligada à pessoa, como um direito natural derivado da necessidade de autopreservação, independente de regulamentação. Reconhecida como um direito natural, a legítima defesa sempre foi aceita por praticamente todos os sistemas jurídicos, mesmo que muitas vezes não prevista expressamente em lei, constituindo a causa de exclusão da ilicitude mais remota ao longo da história das civilizações. O Estado, ao assumir a função jurisdicional, proibiu a autotutela e a justiça pelas próprias mãos, mas não pode estar presente em todos os lugares ao mesmo tempo. Assim, autoriza os indivíduos a defenderem seus direitos na ausência de agentes estatais, pois seria injusto exigir a submissão imediata a um ato ilícito para somente depois buscar reparação judicial. O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para VINICIUS - 02406393240, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título, a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal. 6 de 9faculdade.grancursosonline.com.br Professor(a): Leo Castro A legítima defesa é uma causa de exclusão da ilicitude, como previsto no artigo 23, II, do Código Penal, tornando lícito o fato típico praticado em legítima defesa. Seu conceito decorre do artigo 25, caput, e envolve repelir injusta agressão, atual ou iminente, a direito próprio ou alheio, usando moderadamente os meios necessários. Para configurar a legítima defesa, são exigidos os seguintes requisitos cumulativos: agressão injusta, atual ou iminente, contra direito próprio ou alheio, reação com os meios necessários e uso moderado desses meios. A agressão, definida como ação ou omissão humana consciente e voluntária que lesa ou expõe a perigo de lesão um bem jurídico, deve ser injusta, ou seja, de natureza ilícita. A agressão pode ser dolosa ou culposa e deve ser atual, ocorrendo no momento da defesa, ou iminente, prestes a ocorrer. A defesa de direitos pode abranger bens jurídicos próprios ou de terceiros, incluindo a proteção de pessoas jurídicas e do feto, refletindo a solidariedade humana. A reação deve utilizar os meios necessários disponíveis no momento e ser moderada, proporcional à agressão. O artigo 25, parágrafo único, introduzido pela Lei n. 13.964/2019, especifica que o agente de segurança pública que repele agressão ou risco de agressão a vítima mantida refém durante a prática de crimes está emlegítima defesa, desde que observados os requisitos do caput. Esta inclusão visa proporcionar maior segurança jurídica aos agentes de segurança pública, embora seja considerada redundante por já estar implícita na legítima defesa. A legítima defesa, embora objetiva, requer a vontade de defender-se. Entretanto, a legítima defesa não se aplica no contexto de desafios, duelos ou convites para a luta, em que os contendores respondem pelos crimes praticados.. A legítima defesa pode ser classificada de várias formas: quanto à forma de reação (agressiva ou defensiva), à titularidade do bem jurídico protegido (própria ou de terceiro) e ao aspecto subjetivo de quem se defende (real, putativa ou subjetiva). A legítima defesa da honra, em especial no contexto de infidelidade conjugal, é rejeitada como tese jurídica válida, sendo considerada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal por contrariar princípios de dignidade humana e igualdade de gênero. A legítima defesa presumida não é admitida, pois a tipicidade serve apenas como indício da ilicitude, e o ônus da prova recai sobre quem alega a excludente. A legítima defesa sucessiva ocorre quando alguém reage contra o excesso de legítima defesa, sendo possível repelir uma agressão injusta resultante de um excesso. O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para VINICIUS - 02406393240, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título, a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal. 7 de 9faculdade.grancursosonline.com.br Professor(a): Leo Castro É admissível a legítima defesa contra uma multidão e contra pessoa jurídica, uma vez que a atuação envolve seres humanos. Nas relações familiares, a legítima defesa é cabível contra agressões imoderadas e excessivas entre pais e filhos ou cônjuges. Em casos de erro na execução (aberratio ictus), em que a legítima defesa atinge uma pessoa inocente, a justificativa ainda se aplica, desde que todos os requisitos estejam presentes. A legítima defesa de terceiro pode ocorrer com ou sem o consentimento do ofendido, dependendo da natureza do bem jurídico. Quando indisponível, o consentimento é desnecessário; quando disponível, é necessário, se possível. A diferença entre estado de necessidade e legítima defesa reside na origem do perigo: na legítima defesa, o perigo provém de uma agressão ilícita humana; no estado de necessidade, pode ser originário da natureza ou de seres irracionais. Ambos podem coexistir em situações em que uma mesma pessoa pratica um fato típico para repelir uma agressão e, ao mesmo tempo, proteger um bem jurídico ameaçado. Por fim, a legítima defesa não é admissível em relação a agressões recíprocas ou contra outras excludentes reais, como o estado de necessidade real. Na desobediência civil, que é a resistência à atividade estatal considerada abusiva, a legítima defesa não se configura, pois a lesão a bens jurídicos mediante condutas típicas não pode ser tolerada. Considerações Finais da Aula A ilicitude deve ser entendida como a contrariedade entre um fato típico e o ordenamento jurídico, resultando em uma conduta que lesiona ou expõe a perigo bens jurídicos penalmente protegidos. A ilicitude não surge exclusivamente do direito penal, mas de toda a ordem jurídica, podendo ser neutralizada por permissões legais. A análise da ilicitude é posterior à tipicidade, e sua existência depende da ausência de justificativas para a conduta praticada. O estado de necessidade, como causa de exclusão da ilicitude, requer a presença de um perigo atual, inevitável e não provocado voluntariamente pelo agente. Este instituto permite o sacrifício de um bem jurídico para proteger outro, desde que a ação seja proporcional e razoável. A complexidade do estado de necessidade e suas diferentes classificações demandam uma análise cuidadosa dos casos concretos para garantir a aplicação correta da lei e a justiça nas decisões. A legítima defesa, por sua vez, é um direito natural e fundamental reconhecido em todos os sistemas jurídicos, permitindo a reação contra uma agressão injusta atual ou iminente. Para configurar a legítima defesa, é necessário que a reação seja proporcional e moderada, utilizando os meios necessários disponíveis no momento. A aplicação da legítima defesa em diversos contextos, como a proteção de terceiros e a resposta a erros na execução, demonstra sua importância e a necessidade de interpretações judiciais criteriosas para assegurar a justiça e a proteção dos direitos individuais. O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para VINICIUS - 02406393240, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título, a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal. 8 de 9faculdade.grancursosonline.com.br Professor(a): Leo Castro Material Complementar A Sociedade da Neve 2023, Juan Antonio Bayona. A Sociedade da Neve é um drama poderoso que mergulha os espectadores na angustian- te história de sobrevivência dos passageiros de um avião que caiu nos Andes. Baseado em eventos reais, o filme acompanha o grupo de sobreviventes enquanto enfrentam condições extremas e a terrível escassez de alimentos, forçando-os a tomar decisões desesperadas. Ao unir forças e contar uns com os outros, eles são compelidos a con- frontar a moralidade e a ética de suas ações, caracterizando um estado de necessidade. A trama desafia o público a refletir sobre os limites da resistência humana e a com- plexidade das escolhas feitas em situações extremas. Com atuações intensas de Enzo Vogrincic, Agustín Pardella e Matías Recalt, A Sociedade da Neve não é apenas uma história de sobrevivência, mas um exame profundo da natureza humana diante do desespero. Referências BITENCOURT, C. R. Tratado de Direito Penal: Parte Geral. 18. ed. São Paulo: Saraiva, 2014 BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 5 out. 1988. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/ constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 20 ago. 2024. BRASIL. Decreto-lei n. 2.848, de 7 de dezembro de 1940. Código Penal. Diário Oficial da União: seção 1, dez. 1940. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto- -lei/del2848compilado.htm. Acesso em: 20 ago. 2024. BRASIL. Lei n. 13.964, de 24 de dezembro de 2019. Aperfeiçoa a legislação penal e proces- sual penal. Diário Oficial da União: Brasília, DF, 24 dez. 2019. Disponível em: https://www. planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2019/lei/L13964.htm. Acesso em: 7 nov. 2024. CAPEZ, F. Curso de direito penal, v. 1: parte geral: arts. 1º a 120. São Paulo: Saraiva Jur, 2024. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/books/9788553622696. Acesso em: 20 ago. 2024. GRECO, R. Curso de direito penal, v. 1: artigos 1º a 120 do Código Penal. Rio de Ja- neiro: Atlas, 2024. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/ books/9786559775798. Acesso em: 20 ago. 2024. O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para VINICIUS - 02406393240, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título, a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del2848compilado.htm https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del2848compilado.htm https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2019/lei/L13964.htm https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2019/lei/L13964.htm https://integrada.minhabiblioteca.com.br/books/9788553622696 https://integrada.minhabiblioteca.com.br/books/9786559775798 https://integrada.minhabiblioteca.com.br/books/9786559775798 9 de 9faculdade.grancursosonline.com.br Professor(a): Leo Castro NUCCI, G. de S. Curso dedireito penal, v. 1: parte geral, arts. 1º a 120 do Código Penal. Rio de Janeiro: Forense, 2024. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/ books/9786559649228. Acesso em: 20 ago. 2024. TOLEDO, F. de A. Princípios básicos de Direito Penal. 11. ed. São Paulo: Saraiva, 2014. ZAFFARONI, E. R.; PIERANGELI, J. H. Manual de Direito Penal Brasileiro: Parte Geral. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2013. O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para VINICIUS - 02406393240, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título, a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal. https://integrada.minhabiblioteca.com.br/books/9786559649228 https://integrada.minhabiblioteca.com.br/books/9786559649228 Aplicação da Lei Penal Princípios do Direito Penal Fato Típico e Excludentes Ilicitude e suas Excludentes Culpabilidade e suas Excludentesdireito penal, v. 1: parte geral, arts. 1º a 120 do Código Penal. Rio de Janeiro: Forense, 2024. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/ books/9786559649228. Acesso em: 20 ago. 2024. TOLEDO, F. de A. Princípios básicos de Direito Penal. 11. ed. São Paulo: Saraiva, 2014. ZAFFARONI, E. R.; PIERANGELI, J. H. Manual de Direito Penal Brasileiro: Parte Geral. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2013. O conteúdo deste livro eletrônico é licenciado para VINICIUS - 02406393240, vedada, por quaisquer meios e a qualquer título, a sua reprodução, cópia, divulgação ou distribuição, sujeitando-se aos infratores à responsabilização civil e criminal. https://integrada.minhabiblioteca.com.br/books/9786559649228 https://integrada.minhabiblioteca.com.br/books/9786559649228 Aplicação da Lei Penal Princípios do Direito Penal Fato Típico e Excludentes Ilicitude e suas Excludentes Culpabilidade e suas Excludentes