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FUNDAMENTOS DO SERVIÇO SOCIAL: QUESTÃO SOCIAL NOS ANOS 60-80 CAPÍTULO 5 - A PRÁTICA PROFISSIONAL DO SERVIÇO SOCIAL NO CONTEXTO DO POPULISMO (1961-1964) Micaela Alves Rocha da Costa 84 Objetivos do capítulo Ao final deste capítulo, você será capaz de: • Contextualizar o serviço social brasileiro em diferentes períodos. • Compreender a particularidade da atividade profissional. • Conhecer as principais bandeiras de luta dos profissionais no período. Tópicos de estudo • A prática profissional. • Principais acontecimentos do período democrático-popular. • Emergência de uma nova prática profissional. • Movimentos sociais no governo de Jânio Quadros. • Movimento de Educação de Base (MEB). • Movimento de cultura popular. • Liga camponesa e sindicatos rurais. • Serviço social e o Estado. • O assistente social como funcionário do Estado. • Objeto profissional do Assistente social. • Deslocamento do eixo do indivíduo para o da comunidade. • O Desenvolvimento de comunidade (DC). • A metodologia do DC no Brasil. • DC no Brasil: caráter político, crítico e clássico. Contextualizando o cenário A prática profissional do serviço social brasileiro tem sido construída coletivamente desde o século XX, contando com a contribuição de diversos sujeitos, organizações e instituições: a Igreja Católica, os movimentos sociais, o Estado, o empresariado, entre outros. Durante sua consolidação enquanto profissão, inúmeras transformações aconteceram no que se refere a teoria e a prática do/a assistente social. Neste capítulo, vamos nos debruçar sobre importante metodologia adotada pela profissão, o desenvolvimento de comunidade, que trouxe mudanças significativas para o serviço social, erodindo as bases tradicionais da profissão e inaugurando um novo período para a categoria. Diante disso, surge a seguinte questão: qual a contribuição da metodologia de desenvolvimento de caso para a profissão, no contexto desenvolvimentista? 5.1 A prática profissional A história do serviço social brasileiro traz em seu bojo complexa construção histórica, com muitas transformações no que se refere ao trato com as expressões da questão social. Com gênese de origem e de influência religiosa, a profissão iniciou seu legado na década de 1930 no Brasil, pautada em um viés tradicional e conservador. Contudo, com o desenvolvimento da economia, da política e das relações sociais, essa influência foi questionada e deu início a um período histórico com uma nova prática profissional pautada em outras análises, com contribuição • • • • • • • • • • • • • • • • • 85 de diferentes influências. Neste capítulo, entenderemos um pouco mais da conjuntura do populismo e as transformações gestadas no âmbito do serviço social. 5.1.1 Principais acontecimentos do período democrático-popular Para entender as transformações que imbricaram no âmbito profissional, é de fundamental importância compreender o contexto da época. Acompanhe clicando a seguir: • Período democrático-popular Foi na década de 1960, que uma série de acontecimentos configuraram o período denominado democrático-popular, cujas principais expressões foram a luta de classes e as mobilizações populares. Ambas se colocavam contra o processo de internacionalização da econômica brasileira. • Significativas mudanças no contexto Já no período que vai de 1961 a 1964, o contexto governamental brasileiro passou por significativas mudanças. Em 1961, o presidente Jânio Quadros foi eleito, mas renunciou à presidência, por não conseguir administrar a grave crise política pela qual o país passava. Quem assumiu o governo foi o vice dele, João Goulart, popularmente conhecido como Jango. • Governo de João Goulart O governo de João Goulart durou até abril de 1964, quando foi deposto pelo golpe militar, iniciando a ditadura no país. Durante o período em que foi presidente, Jango administrou diversas ações políticas que o aproximaram, mesmo com limites, das reivindicações da classe trabalhadora. O momento foi de sentimento populista fomentado junto à população. O contexto em que Jango assumiu o governo foi marcado pela continuidade da crise econômica repercutindo sobre a população, mobilizando diversos movimentos sociais e organizações na reivindicação de mudanças de caráter popular e por divergências entre os representantes políticos. As ações de Jango, para enfrentar a situação financeira do país, tiveram como referência a criação do Plano (1963-1965). Esse objetivava “[...] o combate ao surtoTrienal de Desenvolvimento Econômico-Social inflacionário com uma política de desenvolvimento que permitisse ao país retomar as taxas de crescimento” (TOLEDO, 2004, p.16). • • • PAUSA PARA REFLETIR Com base na conjuntura política e econômica do Brasil na década de 1960, quais as principais dificuldades que a classe trabalhadora enfrentava em seu cotidiano? 86 Fonte: © skyfish / / Shutterstock. Embora o governo empenhasse esforços no sucesso do Plano, este não foi alcançado, ocasionando a permanência da população em dívidas e a insatisfação de empresários da classe dominante. Por outro lado, Jango promoveu a discussão da importância das reformas de base (na área agrária, política, fiscal, etc.), na tentativa de trazer melhorias para trabalhadores. Além disso, o presidente também consolidou relação mais próxima com o governo norte-americano, para manter a satisfação dos setores dominantes da sociedade. Para tanto, [...] Como reconhecia o Plano, as reformas eram indispensáveis a fim de que o capitalismo industrial brasileiro pudesse alcançar um novo patamar de desenvolvimento. Concomitantemente, os setores da esquerda nacionalista erigiam as reformas como condições indispensáveis à ampliação e fortalecimento da democracia política no país (TOLEDO, 2004, p.17). Com um grande apelo à população, o governo de Jango conseguiu garantir legitimidade frente ao contexto econômico instável, com a pauta das reformas de base e, com isso, ganhou adeptos e apoiadores de diversos setores. Esse contexto mudou consideravelmente o cenário político e permite o surgimento de movimentos sociais em várias áreas, conforme observaremos mais a frente. 5.1.2 Emergência de uma nova prática profissional Com um complexo contexto político na realidade brasileira que configurava a intensa industrialização do país e o início da polarização das classes sociais, o serviço social também passou a receber influências norte-americanas, no que concerne ao âmbito profissional. De acordo com Andrade (2008, p. 275), [...] A América do Norte passou a ser o novo “empório” de ideias, a nova referência de modelos e ações, inclusive no sistema de bem-estar-social. Este fato, inevitavelmente, atingiu também o Serviço Social brasileiro, que buscou, no correlato norte-americano, desde o suporte filosófico, as teorias do conhecimento que dessem conta, principalmente, de responder as necessidades, até um suporte teórico-científico e técnico para a prática profissional. 87 Esta relação de proximidade entre Brasil e EUA inaugurou um novo período profissional provocando diversas mudanças no modo de pensar e no o agir do serviço social, inserido na realidade brasileira em expansão com o desenvolvimentismo. De acordo com Iamamoto e Carvalho (2006, p. 241), o desenvolvimentismo “[...] visa a uma integração mais dinâmica no sistema capitalista”. No Brasil, essa ideologia se expressou com tensionamentos, devido ao estágio de subdesenvolvimento e economia dependente. Fonte: © Rawpixel.com / / Shutterstock. Conforme apontam Moro e Marques (2011), a contradição entre as mobilizações da classe trabalhadora e do projeto reformista possibilitaram ao serviço social brasileiro o repensar pautado na autocrítica e no questionamento do humanismo cristão presente desde a gênese profissional. Com estas novas reflexões dentro do bojo profissional, a erosão do serviço social tradicional e o surgimento de nova proposta para a prática profissional determinaram o processo de modernização da profissão que se expressou na formação, na prática profissionale na expansão de técnicas utilizadas. Para tanto, O serviço social sofre a influência macrossocietária do período, de profundas mudanças econômicas, sociais, políticas e ideoculturais, oriundas do exaurimento do padrão rígido de acumulação capitalista e das consequentes respostas que lhe são dadas pelo movimento das classes sociais em confronto (MORO, MARQUES, 2011, p.17). Essas transformações profissionais impactaram, igualmente, o fazer profissional nos espaços sócio ocupacionais. De acordo com Iamamoto e Carvalho (2006, p.340), “[....] há, também, um significativo alargamento das funções exercidas por assistentes sociais, em direção a tarefas, por exemplo, de coordenação e planejamento que evidenciam uma evolução no status técnico da profissão”. Neste período, houve a expansão da metodologia de serviço social de comunidade ao qual nos deteremos mais a diante. Para além destas mudanças profissionais, a influência dos movimentos sociais também rebateu sobre a profissão, que incorporou novos elementos para a análise da totalidade e das relações sociais. 88 5.2 Movimentos sociais no governo de Jânio Quadros No período do governo de Jango, a reorganização da classe trabalhadora possibilitou o surgimento e a expansão de inúmeros movimentos sociais. Com as medidas que visavam as reformas de base, a relação entre os movimentos sociais e o governo ganharam mais proximidade e maior tensionamento de interesses junto à setores da classe dominante. Dentre as inúmeras bandeiras de luta presentes nesse período, destacaremos o protagonismo de três movimentos sociais fundamentais para a luta política e para a proximidade com o serviço social: o movimento de educação de , o e a , representando os sindicatos rurais da época.base movimento de cultura popular liga camponesa 5.2.1 Movimento de educação de base (MEB) No contexto de diversas transformações políticas e econômicas em efervescência no país e no mundo, que polarizaram os interesses capitalistas e o avanço do comunismo, algumas instituições desempenharam um papel importante para a correlação de forças. Militantes oriundos da Igreja Católica, frente à intensa conjuntura política que possibilitava a mobilização da classe trabalhadora, organizaram-se em torno do movimento de educação de base (MEB). O MEB objetivava a construção de ações no campo da educação com base no método de educação popular, por meio da difusão de escolas radiofônicas. Para tanto, [...] MEB tinha como objetivo não só alfabetizar os pobres, mas conscientizá-los e ajudá-los a tornarem- se agentes de sua própria história” (SCHEFFER, 2013, p. 296). A ampliação das escolas radiofônicas, com apoio da Igreja Católica e do Ministério da Educação, abarcou todas as regiões do país e foi amplamente difundida. Seu funcionamento contava com uma equipe de inúmeros profissionais: professores, locutores de rádio, apoio administrativo, radialistas, etc., que propagavam a educação popular para a classe trabalhadora. DICA A educação popular objetivou a formação de consciência política com o desenvolvimento de conhecimentos. A formação pautada em uma perspectiva crítica e de totalidade possibilita o exercício da reflexão cidadã comprometida com a transformação social. 89 Fonte: © Stokkete / / Shutterstock. Além disso, o MEB tinha como base para a formação política diversas leituras críticas, com base na teoria marxista e nas obras de Paulo Freire, que chegou a influenciar a prática profissional dos assistentes sociais, inspirados pelo método de educação popular. 5.2.2 Movimento de cultura popular (MPC) Paralelo ao surgimento do MEB, o movimento de cultura popular (MPC) foi outra entidade de grande relevância tanto para a organização da classe trabalhadora quanto para o período da época. O movimento de cultura popular era composto por inúmeros sujeitos, como estudantes universitários, artistas e intelectuais e tinha por objetivo, [...] Realizar uma ação comunitária de educação popular, a partir de uma pluralidade de perspectivas, com ênfase na cultura popular, além de formar uma consciência política e social nos trabalhadores, preparando-os para uma efetiva participação na vida política do país (GASPAR, 2019, p. 313). Tendo como berço de seu surgimento a cidade de Recife, o MCP buscou difundir seu objetivo por meio de três departamentos/frentes de atuação, como mostra do fluxograma a seguir. Eixos de atuação do movimento de cultura popular. Clique a seguir e conheça como se dava a organização destas frentes do MPC: 90 Cultura popular c o m o estratégia Estas frentes eram organizadas de modo a levar a cultura popular como estratégia de educação de base, de difusão de conhecimentos populares e formação de pessoal habilitado para tais tarefas. Educação popular A metodologia de educação popular e a influência de Paulo Freire também eram comumente utilizadas no cotidiano do MPC, aproximando cada vez mais a população do movimento. A utilização do rádio A utilização do rádio era bastante comum neste período, o que possibilitou ao MPC a educação de jovens e de adultos e a formação de mais escolas de rádios para a expansão do conhecimento nos bairros carentes. O MPC também fomentou a educação popular amplamente, utilizando tais estratégias e contribuindo para a formação da consciência crítica de vários setores da classe trabalhadora localizadas nos centros urbanos periféricos. A seguir, veremos como se deu a mobilização e a organização dos trabalhadores. 5.2.3 Ligas camponesas e sindicatos rurais No que concerne ao âmbito rural, a mobilização e a organização dos trabalhadores também se deram de forma expansiva. Vamos clicar a seguir e acompanhar como isso aconteceu. Ligas camponesas As ligas camponesas surgiram na década de 1950, na cidade de Galileia, interior de Pernambuco. E, inicialmente tiveram como objetivo a articulação política entre agricultores para enfrentar a luta contra latifundiários os quais utilizavam de medidas repressivas nas disputas de terra. Articulação política Frente à grande dificuldade das articulações no interior, diversos agricultores se encaminharam para a capital, de modo que conseguiram construir alianças políticas com importantes organizações, tais como a articulação do (PCB).Partido Comunista Brasileiro O PCB foi um exemplo destas articulações que contribuiu de forma relevante para a formação política e para a consolidação de movimento mais organizado na luta contra o latifúndio. A bandeira pela reforma agrária se constituiu como uma pauta central para as , bem como para seu trabalho de base.ligas camponesas 91 Fonte: © greenaperture / / Shutterstock. Dentre as maiores conquistas tanto das ligas camponesas quanto dos sindicatos rurais tem-se o reconhecimento e a legitimação de movimentos precursores como o (MST), já que este contribuiu para oMovimento dos Sem Terra surgimento do (GUILHERME, 2012).Serviço Social Rural Todos estes movimentos sociais citados agregaram para o enriquecimento teórico e para a análise da realidade por parte do serviço social, considerando a interlocução com autores críticos, de inspiração marxista (baseados nos preceitos de Karl Marx), bem como para o surgimento de nova prática profissional influenciada por esse processo. ASSISTA O filme conta a história da luta camponesa no Brasil, durante a Cabra Marcado para Morrer década de 1960. Ele mostra as tensões entre os latifundiários e os trabalhadores rurais na luta pela reforma agrária. PAUSA PARA REFLETIR Qual a contribuição teórica dos movimentos sociais no período desenvolvimentista para o processo de politização do serviço social? 92 No tópico as seguir, veremos quais as relações do serviço social com o Estado. 5.3 O serviço social e o Estado A relação do serviço social com o Estado atinge, nesse período histórico, nova fase. A industrialização nos centros urbanos, o desenvolvimento das cidades, a mobilização dos movimentos sociais e a expansão de empresas e programas nacionais, de recorte social exigem a contratação de profissionais paraatender às diversas demandas oriundas nos mais diversos espaços ocupacionais. A transformação da prática profissional, sob a influência das teorias norte-americanas, modificou substancialmente o serviço social brasileiro e toda a categoria profissional. Nos próximos itens, nos debruçaremos sobre como essas mudanças se operaram e qual o legado histórico que elas deixaram para os profissionais e para o serviço social. 5.3.1 O Assistente social como funcionário do Estado Com a crise da economia e a expansão do capital estrangeiro no país, o governo desenvolvimentista de Jango foi responsável por fomentar o crescimento industrial nacional, mesmo em um período de crise política, como enfatizamos. Isso traz implicações para o serviço social, na medida em que expande a demanda por profissionais da área nas instituições públicas, criando novas necessidades por meio de políticas públicas. De acordo com Raichelis (2009, p. 4), [...] Assim sendo, é o próprio Estado o grande impulsionador da profissionalização do assistente social, responsável pela ampliação e constituição de um mercado de trabalho nacional, cada vez mais amplo e diversificado, acompanhando a direção e os rumos do desenvolvimento capitalista na sociedade brasileira. Enquanto agente profissional, capacitado para lidar com as demandas impostas pelas políticas sociais, o assistente social também vivia os tensionamentos em seu cotidiano de trabalho: entre o direcionamento do Estado, sob a lógica do capital, e dos movimentos sociais, que instigados pela política desenvolvimentista e o sentimento populista, exigiam a maior participação da população nas instâncias governamentais. Fonte: © Dmytro Zinkevych / / Shutterstock. 93 Fonte: © Dmytro Zinkevych / / Shutterstock. Com base neste contexto, a profissão recebe influências que se expressam na formação e na prática profissional, agregando novos métodos de trabalho nos diversos espaços sócio ocupacionais, conforme veremos no item a seguir. 5.3.2 Objeto profissional do assistente social Nas modificações operadas dentro da profissão é fundamental destacar dois elementos neste período: o início da erosão das bases tradicionais da gênese profissional e a incorporação das teorias do serviço social norte- americano. As diversas transformações oriundas do período desenvolvimentista e o estreitamento das relações com os EUA no âmbito econômico trouxeram contribuições para a profissão também. A metodologia de caso e de grupo, utilizada amplamente pela categoria no trabalho profissional, na década de 1940, foi perdendo espaço frente às profundas mudanças do contexto. A forte presença dos movimentos sociais abriu espaço para que o desenvolvimento da técnica de trabalho comunitário fosse incorporado pela categoria profissional. Além disso, a influência teórica do serviço social dos EUA respaldava essa nova cena na conjuntura profissional. Navegue no recurso a seguir e conheça mais sobre essa nova conjuntura. Teorias norte-americanas De acordo com Guilherme (2012), elas tinham como prerrogativas a técnica de emorganização da comunidade situações decorrentes da expansão da forte industrialização nos centros urbanos. Desse modo, a técnica objetivava a estruturação da população em torno de serviços institucionais. No Brasil No Brasil, esse movimento se expressou no âmbito do Estado e reorientou a profissão, de modo que, o “[...] serviço social reaparece modificado, dentro do aparelho de Estado e grandes instituições assistenciais, guardando, contudo, suas características fundamentais” (IAMAMOTO, CARVALHO, 2008, p. 309). Controle do Estado Estas características fundamentais indicavam que, embora a profissão perdesse alguns traços do caráter tradicional, as novas transformações do contexto desenvolvimentista ainda reverberavam por meio de uma prática de controle do Estado sob os sujeitos sociais. A seguir, acompanhe um fluxograma sobre a prática profissional do Serviço Social no contexto desenvolvimentista. CONTEXTO Estas metodologias são utilizadas pela categoria profissional em meados da década de 1950 e entendem a questão social como um problema individual dos sujeitos. 94 Transformações do contexto desenvolvimentista. Assim, com a contribuição teórica da técnica de organização de comunidade e com as transformações operadas no contexto desenvolvimentista, a categoria daria início à reflexão sobre sua prática profissional, incitando um novo período para o serviço social no contexto brasileiro. 5.3.3 Deslocamento do eixo do indivíduo para o da comunidade Conforme observamos até agora, embora as referências tradicionais ainda se expressassem na prática profissional, o questionamento dessas bases teóricas foi fomentado por um conjunto de determinações. Conheça as principais clicando nas abas a seguir: Participação dos movimentos sociais na cena política. Influência de profissionais e teorias norte-americanas. Orientação de instituições políticas internacionais. Cabe destacar que o contexto mundial da época retratava ainda as disputas e os conflitos oriundos da Guerra Fria, entre os Estados Unidos e a União Soviética. Esse tensionamento de forças que colocava em risco as potências econômicas exigiu interferência da (ONU) para garantir a ordem mundial e, deOrganização das Nações Unidas forma sutil, enfraquecer as investidas dos socialistas internacionalmente. De acordo com Guilherme (2012, p.132), [...] A Organização das Nações Unidas, no decorrer dos anos 1950 e 1960, voltou-se a sistematizar e disseminar um modelo de Desenvolvimento de Comunidade que se define como um processo que envolve a integração dos esforços da população aos planos regionais e nacionais de desenvolvimento econômico e social. Com base nesta orientação, o serviço social brasileiro recebeu influências de duas frentes distintas. De um lado, a profissão deixava de utilizar técnicas centradas no indivíduo e começava a receber diversas influências da psicologia, da sociologia com orientação funcionalista, passando a compreender a importância de sua atuação por meio de uma perspectiva de ajustamento dos sujeitos. 95 Fonte: © iQoncept / / Shutterstock. Por outro lado, o contexto de crescente luta dos movimentos sociais no governo de Jango, a difusão da educação popular e a reivindicação de inúmeras reformas de base nas instâncias públicas incidiram sobre a categoria profissional. Essa influência fez com que os/as assistentes sociais ingressassem nos movimentos sociais e passassem a utilizar referenciais teóricos de origem crítica e popular. Assim, [...] É a partir de tais vetores, condicionados por uma conjuntura nacional e internacional desenvolvimentista que supunha novas exigências e atribuições que não mais o caso/grupo, que se gestam através de novos referenciais teórico-metodológicos as possibilidades de uma inicial relação profissional com os movimentos sociais (MORO, MARQUES, 2011, p. 24). Como consequência desta conjuntura histórica, o serviço social brasileiro incorporou a metodologia de desenvolvimento de comunidade em sua prática profissional, inaugurando uma nova fase para a profissão e para a intervenção na realidade social. 5.4 O Desenvolvimento de comunidade (DC) O desenvolvimento de comunidade originou-se em 1920, na Europa e nos Estados Unidos, e tinha como objetivo a dominação e o controle por parte do Estado das contradições sociais, conforme aponta Castro (2011). A disso, as principais potências econômicas começam a utilizar o desenvolvimento de comunidade, produzindo um conteúdo de referência para a área social. A influência dessa metodologia para o serviço social brasileiro chega em um momento tardio, em um forte contexto de aproximação com os movimentos sociais que emergiam, conforme observamos nos itens anteriores. Neste subcapítulo entenderemos a importância dessa contribuição para a profissão e para o contexto da época. 96 5.4.1 A metodologia do DC no Brasil Como já assinalado, a metodologia de desenvolvimento de comunidade emergiu no contexto de expansão industrial e criseeconômica. Porém, na América Latina e no Brasil, a aproximação dela só ocorreu alguns anos depois, no segundo Congresso que ocorreu em 1949, no Rio de Janeiro, as primeiras discussõesPan Americano, sobre o desenvolvimento de comunidade já eram difundidas por alguns profissionais que assinalavam o potencial do método para a profissão. Diante disso, o marco do desenvolvimento de comunidade no Brasil inaugurou relação mais próxima com os movimentos sociais, que encontravam no desenvolvimentismo espaço para ampliar a democracia e reivindicar reformas importantes no âmbito da política estatal. Foi a partir da década de 1950 que o desenvolvimento de comunidade passou ser utilizado como técnica pelos profissionais do serviço social brasileiro. De acordo com Silva (2006, p. 28), [...] Ao DC é conferido um caráter político, crítico e classista, inserindo-se no contexto do desenvolvimento nacional, numa dimensão macrossocietária e em função de mudanças estruturais, fazendo com que as comunidades passem a ser vistas como uma realidade constituída de formas antagônicas regidas por relações sociais de dominação. A proximidade com os movimentos sociais do campo e da cidade com a profissão permitem uma partilha de saberes sobre a vida social que influenciam a profissão em vários sentidos: na aproximação com a luta dos camponeses, na incorporação da educação popular por parte dos profissionais, na contribuição da formação políticas, entre outros. Fonte: © / / Shutterstock. 97 Ao mesmo tempo que essa aproximação por meio da metodologia do desenvolvimento de comunidade possibilitou a contribuição dos movimentos sociais, houve um limite da prática profissional, considerando que ela é funcional ao modo de produção capitalista, e permite ao Estado maior controle e enquadramento dos sujeitos frente ao aprofundamento da desigualdade social, ao aumento da pobreza, ao avanço dos ideais comunistas, etc. Fluxograma sobre o direcionamento da metodologia de Desenvolvimento de Comunidade. Permeada por avanços e retrocessos, a prática profissional se utiliza do Desenvolvimento de Comunidade para trabalhar as contradições da sociabilidade vigente. Para tanto, a categoria profissional da época se distanciou das práticas do serviço social tradicional e incorporou essa nova metodologia, entendendo-a como central para a leitura da realidade e intervenção junto às classes sociais. De acordo com Guilherme (2012, p.134), [...] O Desenvolvimento de Comunidade assume caráter de mecanismo de ação sobre o capital humano, a partir de sua existência comunitária, e estimula o próprio povo a participar do planejamento e da realização de programas destinados a elevar o padrão de suas vidas por meio de esforços somados entre o povo e o governo. Com as mobilizações sociais em emergência, as demandas para a profissão aumentaram tanto no campo, como na cidade. A aproximação da categoria com leituras críticas fomentou a consciência política de seu fazer profissional, bem como reverberou em toda a formação profissional. A implementação das bases que, posteriormente consolidará o movimento de reconceituação, é fruto deste período histórico para a profissão. 5.4.2 DC no Brasil: caráter político, crítico e clássico A metodologia de desenvolvimento de comunidade no serviço social brasileiro assumiu um caráter que se diferencia dos métodos anteriormente usados (serviço social de caso e de grupo). De acordo com Moro e Marques (2011, p.24) “[...] o Desenvolvimento de Comunidade no Brasil, aliado a uma política governamental de bases populista e reformista, cria os determinantes para proposições que ultrapassem a esfera modernizadora e acrítica”. Desse modo, podemos auferir que o método DC trouxe como contribuição principal a participação dos movimentos sociais e contribuições teóricas que alargaram o horizonte metodológico da prática profissional. 98 As contribuições do desenvolvimento de comunidade. Acima, é possível visualizar o fluxograma com as contribuições do desenvolvimento de comunidade. Embora as contribuições teóricas do desenvolvimento de comunidade para o serviço social brasileiro tenham modificado a prática profissional, é importante ressaltar que o tensionamento entre os limites da análise funcionalista e a criticidade dos movimentos sociais permaneciam atravessados na profissão. Segundo Guilherme (2012, p.135) [...] as práticas e as produções teóricas do Desenvolvimento de Comunidade, realizadas durante o período de 1960-1964, registram, de um lado, os postulados funcionalistas de integração social e, de outro, intensos movimentos de participação que idealizavam mudanças sociais. A contribuição dos movimentos sociais para a profissão foi suspensa a partir de 1964, com o golpe militar, o que provocou uma nova fase para toda a sociedade e para o serviço social. Houve perda dos direitos políticos e a instalação de medidas de controle, censura e perseguição para muitos, inclusive a classe trabalhadora. Assim, toda a contribuição realizada pelo desenvolvimento de comunidade foi refreada pelo fechamento do regime, contudo, a experiência oferecida nesse período histórico construiu bases sólidas para o futuro da profissão e para a transformação de seu referencial teórico-metodológico. Proposta de atividade Agora é a hora de recapitular tudo o que você aprendeu nesse capítulo! Elabore um destacandomapa conceitual as principais ideias abordadas ao longo do capítulo. Ao produzir mapa considere as leituras básicas e complementares realizadas. Dicas: comece com um termo ou expressão principal, em seguida, conecte-o às palavras de ligação, para dar sentido ao texto. Por exemplo: na década de durante o o método de 1960, período desenvolvimentista, Desenvolvimento de Comunidade... Recapitulando A metodologia de desenvolvimento de comunidade foi um importante saldo do período desenvolvimentista para o serviço social e para a renovação da profissão. Isto possibilitou o enriquecimento teórico com a influência de outros países e a aproximação com os movimentos sociais. 99 Conforme observamos neste capítulo, a prática profissional na década de 1960 foi atravessada por um contexto histórico de intensa mudança, promovida pela crise política e econômica do governo de Jango, provocando o serviço social brasileiro diante de uma conjuntura complexa. O aprofundamento da desigualdade social, os altos índices inflacionários e o crescente endividamento da população implicaram no tensionamento entre as classes sociais e na reivindicação de reformas de base, por parte da classe trabalhadora ao governo. É importante destacar que se gestava forte sentimento populista entre a classe trabalhadora, o que incentivava ainda mais a luta por melhorias. Esse movimento despertou na população a organização dos movimentos sociais que lutavam por melhorias nas mais diversas áreas. Conforme vimos no capítulo, o movimento de educação de base, o movimento de cultura popular, as ligas camponesas e os sindicatos rurais conquistaram legitimidade e espaço na cena política brasileira, além de contribuir com a profissão com referenciais teóricos críticos e de base popular. Também nos debruçamos sobre a profissão, no que concerne a sua atuação sob os moldes do Estado no contexto desenvolvimentista, e destacamos o processo de influência e incorporação das teóricas norte americanas. Estas permitiram a erosão de algumas bases tradicionais do serviço social brasileiro e deslocaram a intervenção profissional pautada no individuo para a comunidade. Nesse sentido, destacamos o surgimento da metodologia de desenvolvimento de comunidade, que promoveu mudanças substanciais na formação e no exercício profissional, contribuindo para a correlação de forças entre a classe trabalhadora e o governo. Embora o desenvolvimento de comunidade apresente orientação funcionalista, a metodologia contribuiu significativamente para a interlocução com o popular e para a profissão. O diálogo e intercâmbio com os movimentos sociais, em detrimento da democracia, foi suspenso com ogolpe militar em 1964, o qual retirou dos direitos políticos sociedade e limitou a atuação profissional junto à população. Dessa maneira, o fechamento do regime encerrou o período populista da mais abrupta forma. Referências ANDRADE, M. A. R. A. O Metodologismo e o Desenvolvimentismo no Serviço Social brasileiro-1947 a 1961. Revista , Franca, v. 17, n. 1, p. 268-299, 2008. Disponível em: . Acesso: 22/ 05/2019./index.php/SSR/article/viewFile/13/78 CASTRO, M. M. 12. ed. São Paulo: Cortez, 2011.História do Serviço Social na América Latina. CABRA Marcado para Morrer. Direção: Coutinho, E. Rio de Janeiro: Mapa Filmes, 1984. (119 min), son., col. GASPAR, L. . Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife.Movimento de Cultura Popular Disponível em: . Acesso em: 21/05/2019.http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/ GUILHERME, R. C. Desenvolvimento de Comunidade e o Serviço Social: entre o conformismo e a crítica. , Ponta Grossa, 12(1): 131-141, 2012. Disponível em: . Acesso em: 23/05/2019./emancipacao IAMAMOTO, M. V.; CARVALHO, R. 39. ed. São Paulo: Cortez, 2013.Relações Sociais e Serviço Social no Brasil. MORO, M. D.; MARQUES, M. G. A Relação do Serviço Social com os Movimentos Sociais na Contemporaneidade. , Brasília (DF), ano 11, n. 21, p.13-47, jan./jun. 2011. Disponível em: . Acesso em: Acesso: 22/ 05/2019./temporalis/article/view/2185 RAICHELIS, R. O Trabalho do Assistente Social na Esfera Estatal. In: CFESS/ ABEPSS. Direitos Sociais e Brasília: CFESS/Abepss, 2009.Competências Profissionais, 100 https://periodicos.franca.unesp.br/index.php/SSR/article/viewFile/13/78 https://periodicos.franca.unesp.br/index.php/SSR/article/viewFile/13/78 http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/ http://www.revistas2.uepg.br/index.php/emancipacao http://www.revistas2.uepg.br/index.php/emancipacao http://periodicos.ufes.br/temporalis/article/view/2185 http://periodicos.ufes.br/temporalis/article/view/2185 SCHEFFER, G. Pedaços do Tempo: Legado de Paulo Freire no Serviço Social. (Porto Revista Textos & Contextos Alegre), v. 12, n. 1, p. 292 - 311, jan./jun. 2013. Disponível em: . Acesso em: 23/05/2019./article/viewFile/14152/10741 SILVA, M. O. S. Resgate Teórico-Metodológico do Projeto Profissional de Ruptura. 3.O Serviço Social e o Popular: ed. São Paulo: Cortez, 2011. TOLEDO, C. N. 1964: O golpe Contra as Reformas e a Democracia. , São Paulo, v. 24,Revista Brasileira de História n. 47, p.13-28, 2004. Disponível em: . Acesso em: 22/05/2019.http://www.scielo.br/pdf/rbh/v24n47/a02v2447.pdf 101 http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/fass/article/viewFile/14152/10741 http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/fass/article/viewFile/14152/10741 http://www.scielo.br/pdf/rbh/v24n47/a02v2447.pdf FUNDAMENTOS DO SERVIÇO SOCIAL: QUESTÃO SOCIAL NOS ANOS 60-80 CAPÍTULO 6 - O SERVIÇO SOCIAL NO CONTEXTO DA DITADURA MILITAR (1964-1985) Flávio José Souza Silva 102 Objetivos do capítulo Ao final deste capítulo, você será capaz de: • Estudar a realidade da intervenção profissional em uma realidade adversa. • Constatar quando a ausência de processos democráticos prejudica ações profissionais. • Descrever práticas focais e pontuais desenvolvidas no período em questão. Tópicos de estudo • Ditadura militar e serviço social. • O regime militar e o impacto sobre os profissionais. • O cerceamento à liberdade dos profissionais do serviço social. • Possibilidades de atuação profissional. • Requisição do profissional do serviço social no período. • As principais atividades desenvolvidas por assistentes sociais. • Políticas sociais e atuação profissional. • Primeiro Plano Nacional de Desenvolvimento (I PND). • Projeto Rondon e Centros Sociais Urbanos (CSU’s). • A política de integração social. • Legião Brasileira de Assistência (LBA); • Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor (FUNABEM). Contextualizando o cenário A gênese do serviço social na realidade brasileira deu-se durante o processo de industrialização, na década de 1910, mas se aprofundou a partir do momento que fora intitulado de , na década de 1930. Éindustrialização pesada no contexto social-político-econômico-cultural de externalização da questão social que a profissão surge na era dos monopólios. O tratamento conferido durante meados da década de 1930 sobre a Era Vargas, objetivou em uma nova forma do Estado burguês lidar com às expressões da questão social, permitindo, assim, que o serviço social pudesse legitimar-se e institucionalizar-se enquanto profissão em nossa realidade, sobretudo, na década de 1940. Ao passo que o Estado modificou a forma de intervenção dele sobre a questão social, a prática profissional do serviço social, de viés conservador, começou a ser questionada e exigiu-se que a profissão passasse por revisões para que pudesse adequar o fazer profissional às novas configurações da questão social a partir de novos pressupostos teórico-metodológicos. Iniciou-se, portanto, a erosão do serviço social que desembocou em um outro processo, o de renovação do serviço social brasileiro, que estava em sintonia com o Movimento de Reconceituação do Serviço Social na América Latina. Com a implementação do golpe militar, em 1º de abril de 1964, os pressupostos progressistas contidos no Movimento de Reconceituação, pelo contexto sócio-político brasileiro, foram abandonados. Porém, o movimento de Renovação continuou e se expressou em três vertentes: a modernização conservadora, que fora o norte do fazer profissional durante toda a primeira fase da ditadura; a reatualização conservadora, • • • • • • • • • • • • • • • 103 localizada em alguns espaços acadêmicos, a partir de meados da década de 1970; e a intenção de ruptura, em sintonia com a abertura democrática, na década de 1980. Diante desse cenário, surge a seguinte reflexão: qual a importância de partir da apreensão da profissão enquanto um produto histórico das relações sociais capitalistas? 6.1 Ditadura militar e o serviço social A instauração da ditadura militar brasileira marcou a suspensão e um ataque frontal às liberdades individuais, políticas e sociais durante toda a sua duração. Como se sabe, o regime fora marcado pelo autoritarismo, pelo arbítrio, pela censura, pela tortura e a violência que estruturam um modelo de Estado adotado, patrocinado e estimulado pelo imperialismo estadunidense. Isso, em um contexto internacional balizado pelas disputas ideológicas da Guerra Fria. Neste sentido, o contexto social, político, econômico e, sobretudo, cultural foram atingidos por esta nova conjuntura que acabara de ser implementada, por meio de um golpe de Estado. Sendo assim, todas as profissões, em menor ou maior grau, tiveram que ser orientadas para atender aos interesses impostos por um novo modelo de Estado que buscava, em sua primeira fase, reafirmar-se enquanto necessário. Fonte: © rob zs / / Shutterstock. O serviço social era uma profissão que já estava inserida na realidade brasileira desde a década de 1910, sendo institucionalizada e legitimada na década de 1940. A partir de 1950, a prática profissional, caracterizada pelo serviço social tradicional, começou a ser questionada, iniciando um processo de erosão (NETTO, 2011). ESCLARECIMENTO A Guerra Fria foi um momento histórico caracterizado por disputas ideológicas e políticas sem o confronto armado, entre Estados Unidos e a extinta União Soviética. 104 O processo de erosão do Serviço Social tradicional brasileiro repercutiu na possibilidade de se repensar a formação e prática profissional. Em sintonia com o Movimento de Reconceituação Latino-Americana, o serviço social brasileiro viu a possibilidade de se atualizar a partir de pressupostos progressistas. Porém, com a implementação do golpe militar e a suspensão da democracia, tais referências tiveram que serabandonadas pelos profissionais. Apesar do abandono aos pressupostos contidos no Movimento de Reconceituação, de caráter progressista e antagônico ao momento sócio-político que o país vivenciara, iniciou-se, no Brasil, um processo nacional possibilitando a renovação da profissão, superando, assim, as práticas contidas no serviço social tradicional, desembocando em três vertentes. A seguir, iremos discutir um pouco cerca dos impactos do regime militar sobre a profissão. 6.1.1 O regime militar e o Impacto sobre os profissionais O processo de erosão do serviço social tradicional tornou-se consequência concreta, em um contexto marcado por novas expressões da questão social, em um quadro político em que o Estado reconfigurou as suas ações sobre as novas formas da questão social. Assim, a partir dessas modificações, exigiu-se da profissão às novasadequações problemáticas emergentes. Foi a partir desta materialidade que, no interior da profissão, iniciou-se um movimento questionador da importação de teorias estrangeiras as quais davam ao serviço social tradicional. Isto tensionou a profissãocorpo pela procura de conhecimentos próprios em sintonia com as particularidades da América Latina. Foi neste bojo que, segundo Netto (2011), o Movimento de Reconceituação desenvolveu-se. ESCLARECIMENTO O processo de erosão do serviço social tradicional aconteceu, no período do regime militar no Brasil, assim como em toda América Latina, no tocante à crítica às teorias e os métodos importados, sobretudo do Estados Unidos e da Europa. 105 Fonte: © Vahe 3D / / Shutterstock. Mesmo com a implementação do golpe militar, em 1964, no Brasil, o marco inicial do Movimento de Reconceituação foi o 1º Seminário Regional Latino-Americano de Serviço Social, realizado em Porto Alegre, em 1965. Como já sinalizamos, a direção deste movimento era pautada em ideias e ideais progressistas, antagônicos para um cenário ditatorial. Sendo assim, foram abandonados. A erosão do serviço social tradicional permitiu à profissão o encontro com o pluralismo de ideias, possibilitando o questionamento de suas bases confessionais e doutrinárias. No entanto, com a implementação do regime ditatorial, o progressismo que caracterizava o Movimento de Reconceituação foi abandonado, ao mesmo tempo que permitiu à profissão iniciar um processo de Renovação restrito à realidade brasileira (NETTO, 2011). No próximo tópico, versaremos sobre o cerceamento da liberdade dos profissionais do serviço social dissidentes ao regime militar brasileiro. CURIOSIDADE A importância deste seminário regional foi tamanha que, a partir dele, fundou-se a Associação Latino-Americana de Escolas de Serviço Social (ALAETS), sendo esta responsável pela articulação de profissionais pela reconceituação. 106 6.1.2 O cerceamento à liberdade dos profissionais do serviço social Para apreendermos a expansão das expressões objetivas da ditadura militar sobre a profissão, segundo Netto (2011, p. 117), é importante que possamos captar “as relações entre o movimento global do ciclo autocrático burguês e o Serviço Social”, a fim de que possamos localizar estas novas condições e sincronizá-las à dinâmica e ao significado histórico da autocracia burguesa brasileira. Foi a partir da valorosa contribuição de Netto (2011) que podemos captar o trato repressivo do regime ditatorial aos profissionais do Serviço Social, seja estes docentes, profissionais inseridos nas mais variadas políticas e estudantes. A para esta repressão, que se objetiva da marginalização até o exílio, seria a inquietaçãojustificação com o regime e a divulgação do pensamento dissidente. Fonte: © Holli / / Shutterstock. O regime ditatorial brasileiro não se detinha apenas à marginalização e ao exílio do pensamento dissidente, mas também, realizava prisões e torturas. Netto (2011) chama atenção para o caso do professor Vicente de Paula Faleiros, perseguido por duas ditaduras da América Latina: a chilena, seu país de origem e a brasileira. O mesmo autor também sinaliza a longa lista de profissionais, docentes e discentes que foram perseguidos e silenciados pelo regime (inclusive o próprio José Paulo Netto e Marilda Iamamoto). Ao mesmo passo que havia perseguição e cerceamento da liberdade aos profissionais dissidentes do serviço social, pois estes expressavam publicamente o seu descontentamento com o regime ditatorial, também havia a PAUSA PARA REFLETIR Por que a conjuntura social-política-econômica-cultural influiu sobre a profissão? 107 conversão: parcela de profissionais que constituíam um bloco homogêneo em sintonia com as diretrizes do regime. A esta vertente do processo de renovação profissional, Netto (2011) intitulou de modernização conservadora. A seguir apresentaremos as características da atuação profissional durante este período, com destaque para as suas possibilidades. 6.2 As possibilidades de atuação profissional Neste contexto sócio-histórico, abriu-se um leque de possibilidades ao serviço social, em comparação ao fazer profissional alicerçado no tradicionalismo que marcou a gênese da profissão. No entanto, como bem pontua Cardoso (2013), a prática profissional, naquele momento, por meio da vertente da renovação, denominada de modernização conservadora, foi funcional à ditadura e buscou modernizar e trazer cientificidade para a formação e exercício profissional. Mas, conserva muitos aspectos presentes na categoria desde a sua gênese, tais como o tratamento moralizante e de responsabilização individual sobre as expressões da questão social. Assim, é perceptível a congruência e a funcionalidade que profissão tomou nesse momento, ao ser peça-chave para os interesses do regime, sobretudo no que se refere à condução e à aplicabilidade das políticas públicas (NETTO, 2011). Percebe-se, portanto, o aprofundamento do conservadorismo e do tradicionalismo que marcaram a origem da profissão, em um tratamento moralizante sobre a questão social (CARDOSO, 2013). Mas é importante destacar: apesar de a vertente apontar para modernização conservadora do fazer profissional, em total sintonia com os ditames do regime militar, foi nesse momento que a profissão adentrou em espaços os quais possibilitaram o contato com pluralismo e o repensar profissional. A seguir, trabalharemos com a requisição profissional do período. CURIOSIDADE Em 2016, durante o 15º Congresso Brasileiro de Assistente Sociais (CBAS), em Olinda (PE), o Conselho Federal de Serviço Social (CFESS) inaugurou a exposição de painéis do projeto: Serviço Social, Memórias e Resistências Contra a Ditadura Militar Brasileira. PAUSA PARA REFLETIR Mesmo a categoria profissional rompendo com o tradicionalismo, houve continuidade do conservadorismo. Porém, quais as possibilidades que a modernização conservadora trouxe à profissão? 108 6.2.1 Requisição do profissional do serviço social no período Com os processos inaugurados por meio da implementação do regime ditatorial, sobretudo, com anunciado , a requisição profissional por assistentes sociais aumentou significativamente, instaurando,milagre econômico assim, um “mercado nacional de trabalho, macroscópico e consolidado” à profissão na realidade brasileira (NETTO, 2011, p. 119). Fonte: © quinky / / Shutterstock. O , como se sabe, reorientou progressivamente a política social, vinculando-a ao sistemamilagre econômico produtivo. O objetivo disso foi o de acentuar as distorções entre a produção e consumo para que, assim, fosse possível atingir melhores índices no crescimento econômico. Isto fazia crer, portanto, que o desenvolvimento social era consequência automática do crescimento econômico. É a partir desta reorientação que a “(...) prestação de serviços sociais (educação, saúde, habitação, assistência e etc.) passa a contribuir para a reprodução e maior produtividade da força de trabalho” (SILVA, 2011, p. 51). Temos, portanto, no período, uma política social centralizada, focalizada e clientelista. À categoria profissional dos assistentes sociais cabia, portanto, a operacionalização diretae terminal destas políticas (NETTO, 2011). 109 A requisição profissional, como podemos constatar, aumentou significativamente. Em contraste, os assistentes sociais eram requeridos para lidar com operacionalização terminal e direta de políticas sociais, ou seja, sem ter espaço para refletir sobre o porquê do fazer profissional. Assim, notamos os traços de continuidade com o serviço social tradicional, embora se afirmasse que a categoria profissional havia passado pelo processo de modernização naquele momento. A seguir, analisaremos as principais atividades desenvolvidas por esses profissionais durante o período. 6.2.2 As principais atividades desenvolvidas por assistentes sociais O modelo de Estado instaurado com o golpe militar orientou o conjunto das profissões a atender aos interesses impostos pelo regime, no tocante à uma nova atuação frente às expressões da questão social. Neste sentido, o serviço social também teve a sua prática profissional reorientada para atender e dar respostas, às necessidades que o Estado militar demandava. Fonte: © Everett Historical / /Shutterstock. Neste sentido, a atuação profissional, durante o regime militar, dava-se em três espaços ocupacionais. Clique na interação para conhecer esses espaços. PAUSA PARA REFLETIR Quais as mediações que são responsáveis para o questionamento da prática profissional do serviço social? 110 Estado Respondendo às expressões da questão social coercitiva, tecnocrática e meritocraticamente, conforme a demanda econômica do capital. Multinacionais As quais necessitavam de profissionais preparados para lidar com o aparato burocrático e que pudessem intervir diretamente na relação capital e o trabalho. Filantropia privada Muito se expandiu diante do aprofundamento da questão social, decorrente do processo de urbanização da população brasileira (CARDOSO, 2013; NETTO, 2011). A atuação profissional, portanto, passou por estas alterações enquanto resultado direto de uma revisão do papel profissional (CARDOSO, 2013), tendo em vista o surgimento de um novo padrão de exigências ao serviço social brasileiro. Assim, as principais atividades desenvolvidas pelos assistentes sociais eram as de possibilitar o desenvolvimento dos indivíduos, mas procurando a integração e a harmonização das relações sociais. Desse modo, o serviço social, por meio do diagnóstico do problema social, deveria procurar a sua solução imediata a fim de possibilitar não apenas a resolução, mas impedir conflitos e permear a harmonização e a integração das relações sociais, conflitantes, tendo em vista a expansão da industrialização. A seguir, veremos as políticas sociais e atuação profissional, especificamente. 6.3 Políticas sociais e atuação profissional Como já sinalizamos, um dos espaços sócio-ocupacionais em que o serviço social, no período da ditadura militar brasileira, obteve expansão de sua atuação profissional foi no Estado. Também vimos que este ditatorial era orientado por três direções no enfretamento às expressões da questão social: a coerção, a tecnocracia e a meritocracia. Sendo assim, a atuação profissional, nas políticas públicas desenvolvidas pelo Estado brasileiro, também foi orientada por estas direções. Vejamos a seguinte sistematização, para melhor fixação deste conteúdo. 111 Direções no enfrentamento às expressões da questão social Veja que esta orientação, contida nas diretrizes que formulariam as políticas públicas pelo Estado ditatorial, trazia consigo a compreensão sobre a questão social, enquanto problemas individuais, desajustes e patologias a serem corrigidas e tratadas pela atuação profissional do serviço social. Percebe-se que, mesmo havendo uma ruptura com a atuação do serviço social tradicional, esta não acontece definitivamente, trazendo, nessa fase, traços de continuidade. Logo, essa perspectiva modernizadora (mas também moralizadora), remete a profissão a responder às expressões da questão social com “(...) ações pontuais de enquadramento e ajustamento dos indivíduos, (...), propondo, assim, ao Serviço Social, uma intervenção corretiva e preventiva” (CARDOSO, 2013, p. 139). A seguir analisaremos o primeiro Plano Nacional de Desenvolvimento. 6.3.1 Primeiro Plano Nacional de Desenvolvimento (I PNP) O Primeiro Plano Nacional de Desenvolvimento (I PNP) foi organizado pelo ministro do Planejamento João Paulo dos Reis Velloso, no governo do presidente militar Emílio Garrastazu Médici (1969-1974). A orientação principal do I PNP era inserir o Brasil entre as nações desenvolvidas no espaço de tempo de apenas uma geração. O I PNP estava em sintonia com os princípios traçados no Programa de Metas e Bases apresentado em 1970. 112 Fonte: © Creative Stock Studio / / Shutterstock. Vejamos a seguinte sistematização, a fim de melhor fixar o conteúdo sobre a construção do I PND. 113 Primeiro Plano Nacional de Desenvolvimento Algumas metas foram traçadas pelo I PND, para que, assim, fosse possível alcançar a finalidade de colocar o Brasil entre as nações desenvolvidas, sendo elas: de duplicar a renda per capita do país até 1980; de elevar o crescimento do produto interno bruto (PIB) até 1974, com base numa taxa anual entre 8% e 10%. Se fosse possível um crescimento tão vertiginoso assim, o Brasil conseguiria controlar as taxas de inflação e aumentaria a oferta por emprego, chegando em até 3,2% em 1974. Assim, portanto, a aposta contida no I PND era consolidar o desenvolvimento industrial no Brasil, aprofundando processos de modernização, mas que não rompiam, como já se sabe, com a estrutura desigual do nosso país. A seguir, iremos conhecer o projeto Rondon e os Centros Sociais Urbanos (CSU’s). 6.3.2 Projeto Rondon e Centros Sociais Urbanos (CSU’s) O projeto Rondon foi fomentado por meio de uma iniciativa particular de uma equipe composta por 30 estudantes universitários e dois (2) professores universitários, que pertenciam às faculdades do antigo estado da Guanabara, no ano de 1967. A proposta era levá-los para vivenciarem a realidade da zona da mata amazônica e o Estado escolhido, para tanto, foi o de Rondônia. Em 1968, por meio do decreto n. 62.927, de 28 de junho de 1968, criou-se o GT (grupo de trabalho), subordinado ao Ministério do Interior, responsável pela institucionalização do projeto. 114 Em 1970, o GT foi transformado em um Órgão Autônomo da Administração Direta, por meio do decreto n. 67.505, de novembro de 1970 e já em 1975, por meio da lei n. 6.310, foi instituída a Fundação Rondon, ativa até hoje. Houve modificações, em relação à estrutura administrativa do projeto, no entanto, os objetivos continuam sendo os seguintes. Clique nos ícones e confira. Contribuir para o desenvolvimento. Fortalecimento da cidadania do estudante universitário. Desenvolvimento sustentável. O bem-estar social e a qualidade de vida nas comunidades carentes, usando as habilidades universitárias. Ou seja, a proposta do projeto é unir as , adquiridas em sala de aula, com ohabilidades universitárias melhoramento da qualidade de vidada população. Para melhor apreensão dos dados trazidos, vejamos a seguinte sistematização sobre o surgimento, desenvolvimento e institucionalização do projeto Rondon: Desenvolvimento e institucionalização do projeto Rondon 115 Desenvolvimento e institucionalização do projeto Rondon Acima, vemos quais foram os principais objetivos do desenvolvimento e da institucionalização do projeto Rondon. Já a construção dos Centros Sociais Urbanos (CSU’s) datam da metade da década de 1975, a qual se deu por meio do decreto presidencial de n. 75.922, de julho daquele ano. A finalidade dos centros era o de promover a integração social nas cidades, por meio do desenvolvimento de atividades comunitárias nos campos da educação, cultura e desporto, da saúde e nutrição, do trabalho, previdência e assistência social e da recreação e lazer (BRASIL, 1975). O presidente do Brasil, no período da construção do CSU, era Ernest Geisel (1974-1979). Naquele momento, a ditadura militar adentrou o segundo momentodo tratamento das expressões da questão social, sofrendo um giro, indo do tratamento policialesco à percepção da integração social. Assim, tanto o projeto Rondon, quanto a construção dos CSU’s, atentaram à lógica da reorientação das políticas públicas, em fase da proposta de integração social. Ambas, portanto, fizeram parte do desenvolvimento de estratégias elaboradas pelo regime ditatorial, que tentou reconstruir consensos e se perpetuar. A seguir, iremos nos apropriar melhor dos pressupostos dessa diretriz da política social assumida nos governos militares. 6.4 A Política de integração social A política de integração social fez parte da segunda fase da ditadura militar brasileira, no momento em que o regime reorientava a ação sobre as expressões da questão social. Assim, passou-se de um tratamento meramente policialesco, para uma lógica de harmonização e apaziguamento dos conflitos resultantes das relações sociais antagônicas capitalistas. Neste sentido, ao passo que o regime percebeu a limitação do tratamento pela força, reorientou e construiu mecanismos que possibilitassem a supressão destes conflitos. Assim, as expressões da questão social foram tratadas como problemas individualizados dos sujeitos sociais que, por meio da matriz de pensamento positivista- funcionalista, puderam ser diagnosticados e cuidados. Fonte: © Viktoria Kurpas / / Shutterstock. 116 Cabe, portanto, ao serviço social, criar mecanismos, por meio da atuação profissional, captar os problemas sociais, mas também resolvê-los a fim de possibilitar a integração e harmonização. A seguir, iremos trabalhar com a Legião Brasileira de Assistência, a fim de conhecer melhor esta instituição. 6.4.1 Legião Brasileira de Assistência (LBA) A Legião Brasileira de Assistência (LBA) foi a primeira grande instituição nacional de assistência social no país (IAMAMOTO; CARVALHO, 2011), sendo organizada em decorrência da participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial. O objetivo dela, como é resgatado pelos autores citados é o de “de promover as necessidades das famílias cujos os chefes haviam sido mobilizados, e, ainda, prestar decidido concurso ao governo em tudo que se relaciona ao esforço da guerra” (Idem, 2011, p. 265). Assim sendo, o surgimento da LBA teve importante papel: o de mobilizar a opinião pública em torno do apoio da participação do Brasil na Segunda Grande Guerra. Isto foi promovido pelo governo da época que também orientou a população a apoiar o governo militar. Neste sentido, esta instituição funcionaria na construção de consensos, seja no apoio à guerra, seja no respaldo ao regime ditatorial brasileiro, nos anos seguintes à sua construção. A LBA, após a sua primeira campanha assistencial de nível nacional, “(...) foi de grande importância para implantação e institucionalização do serviço social, contribuindo em diversos níveis para a organização, expansão e interiorização” (IAMAMOTO; CARVALHO, 2011, p. 267) da profissão, no tocante à consolidação e à expansão do ensino especializado e do aumento do número de trabalhadores sociais. A seguir, para melhor sistematização do conteúdo, vejamos a seguinte sistematização: A LBV No esquema cima, observamos os papéis fundamentais da LBA à época de sua criação. A atuação profissional do serviço social, nessa instituição, manteve o padrão preexistente à época, no que se refere ao “(...) e , as visitas domiciliares e entrevistas continuam sendo o fundamento do inquérito pesquisa social serviço (IMAMOTO; CARVALHO, 2011, p. 267 – itálicos do original).social de casos individuais 117 Por fim, a seguir, iremos conhecer a Fundação Nacional de Bem-Estar do Menor. 6.4.2 Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor (FUNABEM) A Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor (FUNABEM) foi criada pelo decreto de n. 4.513 de 1964, com o objetivo de formular e implementar a Política Nacional de Bem-Estar do Menor. Também deveria promover assistência em sintonia com os princípios constantes em documentos internacionais, por exemplo, a Declaração Universal da Criança, promulgada em 1959. A assistência prestada pela FUNABEM possuía o foco no princípio do bem-estar, voltando-se à intervenção no processo de marginalização da vida social, seja esta acometida pela criança, adolescente ou família. Ou seja, a finalidade era a de possibilitar a integração social, por meio de ações geradoras da conscientização, do amparo e do auxílio. Portanto, para esta fundação, a assistência ao menor só se realizaria por intermédio da família. A FUNABEM, pautava-se na , destinada à criança e aos adolescentes pobres,cultura da institucionalização principalmente os dos grupos considerados perigosos. Isto se dava por intermédio do confinamento no complexo institucional que estrutura a Fundação. Como já vimos, a proposta das políticas de integração social era a de detectar a e elaborar a a fim de permitir a harmonização desta relação conflitante.situação-problema solução Neste caso, internava-se o problema no intuito de solucioná-lo. Durante o regime ditatorial brasileiro, a FUNABEM funcionou como um instrumento de legitimação de um sistema que não teria como se manter apenas pelo uso da força, da coerção e do autoritarismo. Neste sentido, o tratamento dos governos militares aos menores carentes foi uma característica marcante na conquista de consensos e da formação da opinião pública, justificando, inclusive, abusos dos direitos humanos destas pessoas. Proposta de atividade Agora é a hora de recapitular tudo o que você aprendeu nesse capítulo! Elabore um mapa conceitual, destacando as principais ideias abordadas ao longo do capítulo. Ao produzir seu mapa conceitual, procure destacar os elementos mais centrais, considerando as leituras básicas e complementares realizadas. Recapitulando Neste capítulo, trabalhamos com a temática que envolve o serviço social no contexto da ditadura militar brasileira. Buscamos, assim, discutir a inserção da profissão em um contexto social-histórico-político-cultural caracterizado PAUSA PARA REFLETIR Qual a sintonia entre a FUNABEM e as políticas de integração social promulgadas pelo regime ditatorial brasileiro? 118 pelo autoritarismo, pela censura, pela tortura e pela violação dos direitos humanos, civis e políticos. É importante ressaltarmos a necessidade de partirmos da apreensão social e histórica sobre a profissão, tendo em vista que esta é um produto das relações sociais capitalistas. A partir de tal pressuposto de apreensão do real, podemos captar as mediações que implicam em práticas profissionais em sintonia com a conjuntura social-política-econômica-cultural do regime ditatorial, como uma determinação social. Apesar de tratarmos este momento enquanto , paralelamente, não significou amodernizador ruptura total com o projeto conservador que marca a gênese do serviço social. Pelo contrário, o que podemos analisar é ruptura, mas, também, a continuidade de traços presentes no serviço social tradicional. Durante o regime ditatorial, a realidade exigiu da profissão novas técnicas e capacidades teóricas para intervir junto às expressões da questão social, e foi abrindo espaço para que a profissão também pudesse questionar sobre o porquê do seu fazer profissional. A ação meramente policialesca do regime estava mostrando a sua ineficiência, exigindo novas formas de atuação. Foi assim que as políticas de integração social surgiram e aqui se encaixa a FUNABEM, totalmente em sintonia com a construção de consensos pela ditadura. Referências BRASIL. Lei n. 75.922, de 1º. julho de 1975. . Portal da Câmara dos Deputados. Brasília, DF, 1º. jul. 1975.Decreto Disponível em: . Acesso em: 11/07/2019.publicacaooriginal-1-pe.html CARDOSO, P. F. G. : os Diferentes Caminhos do Serviço Social no Brasil. Campinas:Ética e Projetos Profissionais Papel Social, 2013. IAMAMOTO, M. V.; CARVALHO, R. : Esboço de uma InterpretaçãoRelações Sociais e Serviço Social no Brasil Histórico-Metodológica.35. ed. São Paulo: Cortez, 2011. NETTO, J. P. : uma Análise do Serviço Social no Brasil pós-64. 16. ed. São Paulo: Cortez,Ditadura e Serviço Social 2011. SILVA, M. O. S. Resgate Teórico-Metodológico do Projeto Profissional de Ruptura. 7.O Serviço Social e o Popular: ed. São Paulo: Cortez, 2011. 119 https://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1970-1979/decreto-75922-1-julho-1975-424462-publicacaooriginal-1-pe.html https://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1970-1979/decreto-75922-1-julho-1975-424462-publicacaooriginal-1-pe.html FSSQSA_C01-C06 FSSQSA_C01-C04 FSSQSA_C01-C02 FSSQSA_C0 FSSQSA_C01 Compreenda seu livro: Metodologia Compreenda seu livro: Percurso Boxes Apresentação da disciplina A autoria Micaela Alves Rocha da Costa Flávio José Souza Silva Objetivos do capítulo Tópicos de estudo Contextualizando o cenário 1.1 Transformações societárias e os impactos nas relações sociais 1.1.1 Revolução Industrial e as mudanças nas relações de trabalho 1.1.2 O processo de instauração do capitalismo industrial 1.1.3 A pauperização da classe trabalhadora 1.1.4 As relações contraditórias entre capital e trabalho no capitalismo 1.2 Concepções sobre a questão social do ponto de vista da Igreja 1.2.1 Influência do pensamento religioso na manutenção da estrutura social 1.2.2 Ação social da Igreja e as encíclicas papais 1.3 Processo de politização das contradições capitalistas e reconhecimento da questão social 1.3.1 A organização política dos trabalhadores 1.3.2 A influência dos intelectuais ligados à crítica social 1.3.3 O reconhecimento da questão social pela classe trabalhadora 1.4 A questão social na contemporaneidade e suas expressões na sociedade brasileira 1.4.1 Definição de questão social A questão social é inerente ao modo de produção capitalista No Brasil, a questão social apresenta características próprias 1.4.2 Principais expressões da questão social na atualidade Proposta de atividade Recapitulando Referências FSSQSA_C02 Objetivos do capítulo Tópicos de estudo Contextualizando o cenário 2.1 Período democrático popular e a questão social 2.1.1 Jânio Quadros (1961) 2.1.2 João Goulart (1961-1964) (SANTOS, 2012) 2.2 A questão social e a primeira fase da ditadura militar 2.2.1 As principais reivindicações da classe trabalhadora 2.2.2 As propostas de enfrentamento das manifestações 2.3 A segunda fase da ditadura militar e o controle sobre a questão social 2.3.1 Políticas sociais desenvolvidas no período 2.3.2 Movimentos sociais no final da década de 1970 2.3.3 A questão indígena no período da ditadura militar 2.4 Questão social e a política de austeridade militar a política de austeridade militar 2.4.1 Principais índices sociais do período 2.4.2 20 anos de ditadura militar e o acirramento das expressões da questão social Proposta de atividade Recapitulando Referências FSSQSA_C03 Objetivos do capítulo Tópicos de estudo Contextualizando o cenário 3. Capitalismo dependente e a autocracia burguesa 3.1.1 Sistema econômico brasileiro e a dependência econômica 3.1.2 Elites brasileiras e o desenvolvimento econômico 3.2 Golpe militar (1964) 3.2.1 EUA e a contrarrevolução 3.2.2 Brasil subdesenvolvido e dependente 3.3 Autocracia burguesa e o modelo dos monopólios 3.3.1 Manutenção do esquema de acumulação capitalista 3.3.2 Funcionalidade política e econômica do Estado e a burguesia A primeira fase, de 1964 a 1968 A segunda fase, em 1968 A terceira e última fase, no final do ciclo da autocracia burguesa, em 1974 3.4 Autocracia burguesa e o mundo da cultura 3.4.1 Enquadramento do sistema educacional 3.4.2. Política cultural da ditadura 3.4.3 Controle e censura Proposta de atividade Recapitulando Referências FSSQSA_C04 Objetivos do capítulo Tópicos de estudo Contextualizando o cenário 4.1 Política econômica do período militar 4.1.1 Resultados econômicos do período ditatorial 4.1.2 Inflação e poder de compra 4.1.3 O milagre econômico 4.1.4 Fundo Monetário Internacional (FMI) 4.2 Indicadores sociais do período 4.2.1 Taxas de natalidade e de mortalidade 4.2.2 Analfabetismo e evasão escolar 4.2.3 Saneamento básico 4.2.4 Taxas de empregabilidade 4.3 As políticas sociais e o trato com a questão social 4.3.1 Política de Habitação (BNH) 4.3.2 Políticas voltadas à infância e à juventude 4.3.3 A política de saúde 4.4 Ditadura militar e a crise do petróleo 4.4.1 Programa de energias brasileiro 4.4.2 Programa nacional do álcool (Proácool) 4.4.3 Fortalecimento da Petrobrás Proposta de atividade Recapitulando Referências FSSQSA_C05 Objetivos do capítulo Tópicos de estudo Contextualizando o cenário 5. 1 A prática profissional 5.1.1 Principais acontecimentos do período democrático-popular Período democrático-popular Significativas mudanças no contexto Governo de João Goulart 5.1.2 Emergência de uma nova prática profissional 5.2 Movimentos sociais no governo de Jânio Quadros 5.2.1 Movimento de educação de base (MEB) 5.2.2 Movimento de cultura popular (MPC) 5.2.3 Ligas camponesas e sindicatos rurais 5.3 O serviço social e o Estado 5.3.1 O Assistente social como funcionário do Estado 5.3.2 Objeto profissional do assistente social 5.3.3 Deslocamento do eixo do indivíduo para o da comunidade 5.4 O Desenvolvimento de comunidade (DC) 5.4.1 A metodologia do DC no Brasil 5.4.2 DC no Brasil: caráter político, crítico e clássico Proposta de atividade Recapitulando Referências FSSQSA_C06 Objetivos do capítulo Tópicos de estudo Contextualizando o cenário 6.1 Ditadura militar e o serviço social 6.1.1 O regime militar e o Impacto sobre os profissionais 6.1.2 O cerceamento à liberdade dos profissionais do serviço social 6.2 As possibilidades de atuação profissional 6.2.1 Requisição do profissional do serviço social no período 6.2.2 As principais atividades desenvolvidas por assistentes sociais 6.3 Políticas sociais e atuação profissional 6.3.1 Primeiro Plano Nacional de Desenvolvimento (I PNP) 6.3.2 Projeto Rondon e Centros Sociais Urbanos (CSU’s) 6.4 A Política de integração social 6.4.1 Legião Brasileira de Assistência (LBA) 6.4.2 Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor (FUNABEM) Proposta de atividade Recapitulando Referências FSSQSA_C07 Objetivos do capítulo Tópicos de estudo Contextualizando o cenário 7. 1 A transição democrática e o saldo dos governos militares 7.1.1 A crise e a falência dos Estados 7.1.2 A inexistência de condições de intervenção profissional 7.1.3 Situação econômica do período 7.2 Reorganização do serviço social 7.2.1 O Serviço social e movimentos sociais 7.2.2 A Assembleia Nacional Constituinte e a possibilidade de participação popular 7. 3 O serviço social no contexto da constituição cidadã 7.3.1 Seguridade social 7.3.2 Saúde universal 7.3.3 Previdência contributiva 7.3.4 A assistência social ganha status de política pública Proposta de atividade Recapitulando Referências FSSQSA_C08 Objetivos do capítulo Tópicos de estudo Contextualizando o cenário 8.1 Espaço institucional e espaço profissional 8.1.1 Espaço sócio-político das instituições sociais 8.1.2 As alternativas de ação em espaços públicos e privado 8.2 Participação e poder 8.2.1 Formas de participação utilizadas na época 8.2.2 O processo de planejamento e consulta popular 8.3 Estratégias e táticas utilizados pelos profissionais 8.3.1 Estratégias de grupos populares e o movimento operário Trabalhadores e movimentos sociais Classe dominante 8.3.2 As mobilizações e as relações de forças 8.4 Os centros sociais urbanos e a prática profissional 8.4.1 A expansão capitalista e a integração social 8.4.2 As relações de poder e o relacionamento do/a assistente social com a população Proposta de atividade Recapitulando Referências Blank Page Blank Page Blank Page Blank Page Blank Page Blank Page Blank Page