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HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA AULA 3 Profª Dayane Rúbila Lobo Hessmann 2 CONVERSA INICIAL Como diz o título de uma obra clássica (Huxley, 2014), um admirável mundo novo se abriu após o final da Primeira Guerra Mundial. Duas décadas separaram a Primeira da Segunda Guerra, em um período que foi marcado pela reconstrução da Europa, pelo surgimento de totalitarismos, pela crise de 1929 e pelo acirramento de conflitos, fatos que contribuíram significativamente para a eclosão da Segunda Guerra Mundial. Assim, nesta etapa interessa-nos compreender o nazifascismo, bem como os motivos e desdobramentos da crise de 1929. Ademais, enfocaremos a Segunda Guerra Mundial e, consequentemente, a Guerra Fria. TEMA 1 – UM MUNDO ENTREGUERRAS A Primeira Guerra Mundial causou profundas mudanças em todas as esferas do mundo ocidental. Suas marcas foram sentidas por muito tempo e seus desdobramentos geraram inúmeras transformações para o mundo e principalmente para a Europa. O dito velho mundo, que até o século XIX foi o grande protagonista global, perdeu sua hegemonia, pois encontrava-se devastado, abalado territorial, política, econômica e emocionalmente. Nesse novo cenário, os Estados Unidos, que ganharam relevância ao término da Primeira Guerra, se consolidaram como uma grande potência, destacando-se como o epicentro do capitalismo mundial. Na conjuntura de crise europeia pós- guerra, os EUA emprestaram dinheiro para os países europeus se reestabelecerem. Com a crise europeia, os norte-americanos aproveitaram para assumir a liderança das exportações de todo o mundo, o que carretou um veloz crescimento industrial e um acentuado consumismo interno, nos países. Tal prosperidade econômica propiciou uma política de crédito bancário livre do controle estatal, levando milhares de pessoas a aplicarem sua renda no mercado de ações, em busca de enriquecerem de maneira fácil. Porém, passada quase uma década do final da Primeira Guerra, no final da década de 1920, os países europeus estavam recuperando sua capacidade de produção industrial e agrícola, o que gerou uma significativa redução das importações. Assim, uma crise de superprodução rapidamente chegou aos EUA. Com a quebra da Bolsa de Valores de Nova York, em 1929, as ações das empresas perderam quase 3 todo o seu valor, levando milhares de pessoas, que haviam investido dinheiro nelas, à falência. Muitas fábricas, comércios e bancos entraram em colapso e faliram. A quebra da Bolsa de Nova York teve reflexos imediatamente, uma vez que, logo em seguida, o número de desempregados cresceu expressivamente, gerando pobreza e miséria. Além da questão financeira, a crise gerou também significativos problemas psicológicos, vide o crescimento do alcoolismo e muitos casos de suicídio. Figura 1 – Uma mãe migrante e seus filhos, durante a Grande Depressão Crédito: Dorothea Lange/CC-PD. 4 Diante desse panorama de profunda recessão, os norte-americanos suspenderam as importações e cortaram os empréstimos aos países europeus, o que, por sua vez, desencadeou também uma crise na Europa e em outros países americanos e até mesmo na Ásia. O historiador René Rémond (1974, p. 71) ressalta que essa crise, quase que mundial, acarretou importantes consequências políticas, pois a opinião pública perdeu a confiança nas instituições democráticas capitalistas, bem como afetou a concepção de liberalismo econômico, levando os governos a intervirem na economia. Cabe destacar, todavia, que a União Soviética saiu intacta dessa crise. Ou seja: enquanto o capitalismo fracassava, o socialismo prosperava. O contexto intitulado entreguerras ainda foi palco do surgimento do fascismo italiano. A Itália perdeu cerca de 2 milhões de homens na Grande Guerra, isso lhe gerando um trauma coletivo. Somou-se a isso uma grave crise econômica, que acarretou, por sua vez, uma intensa crise social. Ou seja, no início da década de 1920, a Itália encontrava-se com sérios problemas. Nessa conjuntura de crise, os movimentos de esquerda cresceram, o que causava pavor na burguesia italiana, temerosa de que algo similar à Revolução Russa acontecesse ali. Ainda sobre esSe cenário, é conveniente lembrar que A Alemanha foi considerada culpada pela Primeira Guerra e, por isso, foRA penalizada. Assim, perdeu 13,5% do seu território, foi obrigada a pagar uma indenização aos países vitoriosos e, ainda, teve seu Exército e Marinha limitados e sua força aérea suprimida. As exigências do Tratado de Versalhes acarretaram um significativo impacto econômico e moral à população alemã. Além do luto da perda de quase 2 milhões de homens e 4 milhões de feridos e inválidos, os alemães ainda precisavam lidar com o sentimento da derrota e, sobretudo, com o da humilhação imposta pelo acordo de paz. O exorbitante gasto na indenização do Tratado de Versalhes gerou uma profunda crise econômica no país, com crescimento exorbitante da dívida externa da Alemanha. Somou-se a isso o desemprego, o que acarretou um empobrecimento de boa parte da sociedade alemã. Foi nesse contexto de densa fragilidade da população que nasceu o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, o Partido Nazista, em 1919. Portanto, foi diante desse momento de incertezas e vulnerabilidades que surgiram o fascismo italiano e o nazismo alemão, os quais estudaremos com mais profundidade no próximo tópico. 5 TEMA 2 – OS TOTALITARISMOS Uma consequência da grave crise econômica e política do período pós- Primeira Guerra foi o desenvolvimento de Estados totalitários. Em que pese as particularidades de cada caso, em geral eles possuem características em comum, tais como serem: • avessos à democracia, ao liberalismo econômico e ao socialismo; • não aceitarem ideias de igualdade, de luta de classe, nem ideias internacionalistas; • nacionalistas; • extremamente bélicos; • defenderem a resolução armada de conflitos; • acreditarem num Estado forte e na necessidade de haver uma liderança determinada ao alcance de seus objetivos. Benito Mussolini (1883-1945) criou, em 1919, um grupo paramilitar chamado Fasci Italiani di Combattimento, cujo intuito era combater os socialistas. Com um forte discurso nacionalista, seus integrantes faziam uso da violência para reprimir os ditos inimigos. Esse grupo, que cresceu de forma rápida e espantosamente, recebeu o apoio de ex-soldados da Primeira Guerra, da burguesia e da Igreja Católica, temerosos com o possível avanço socialista. Saiba mais Fascismo vem de fascio, termo italiano que significa feixe e remete a fasces, palavra latina usada na época dos romanos para designar um machado amarrado com um feixe de varetas. Na época do Império Romano, o fascio era utilizado para abrir caminhos para a passagem dos magistrados. Assim, o fascio era atrelado à ideia de poder e autoridade. Esse objeto foi retomado e usado por Mussolini como símbolo do fascismo italiano. 6 Figura 2 – Emblema do Partido Nacional Fascista Crédito: NsMn/CC-PD. Em 1921, esse grupo se tornou um partido de extrema direita, o Partido Fascista Italiano, tendo Mussolini como o grande líder do partido. Os fascistas prometiam reestabelecer a ordem social, gerar um crescimento econômico e conquistar novos territórios, afirmando que a Itália, tal como já havia sido no período da Roma Antiga, se tornaria um grande e poderoso império, novamente. Para tanto, defendiam um Estado centralizador e autoritário. Em 1922, os fascistas organizaram a Marcha sobre Roma, uma grande manifestação cujo objetivo era pressionar e conquistar a tomada do poder à força. Devido à grande pressão, o rei italiano Vitor Emanuel III (1869-1847) convidou Mussolini para se tornar o primeiro-ministro italiano. A partir de então, os fascistas passaram a controlar o Estado. Hannah Arendt(2009), em As origens do totalitarismo, de 1951, destaca que o fascismo italiano inaugurou uma nova e inédita forma de governo, o totalitarismo. Nessa esteira, o historiador Robert Paxton (2007, p. 68) afirma que 7 Fascismo [...] era uma invenção nova, criada a partir do zero para a era da política das massas. Ele tentava apelar sobretudo às emoções, pelos rituais, de cerimônias cuidadosamente encenadas e de retórica intensamente carregada. [...] o fascismo não se baseia de forma explícita num sistema filosófico complexo, e sim no sentimento popular. A propaganda foi um dos pilares de sustentação do fascismo. Frases como Mussolini tem sempre razão eram repetidas em todos os lugares, nos jornais, nas escolas, nos prédios públicos, nas rádios. Além disso, os ideais do fascismo, como pátria, família e trabalho, eram constantemente divulgados. O intuito era convencer e receber a aprovação da população. Figura 3 – Benito Mussolini dirigindo-se à multidão, em 1938 Crédito: Shawshots/Alamy/Fotoarena. O militarismo era utilizado como instrumento para disciplinar e organizar toda a sociedade. Além disso, o fascismo tinha como características: ódio à razão e aversão aos intelectuais, aos artistas e aos cientistas; uso de força e violência; forte propaganda; culto à personalidade; censura; oposição e perseguição aos ditos inimigos políticos: socialistas, anarquistas e sindicalistas; presença de um partido único; extremo controle da população; catolicismo como religião oficial do Estado; visão imperialista. Quase dez anos depois da promoção do fascismo italiano, inaugurava-se na Alemanha um regime similar: o nazismo. Como vimos anteriormente, o 8 nazismo surgiu num contexto de profunda crise social, econômica e emocional da população alemã, tal como salienta a historiadora Jeanine Poock de Almeida Drumond (2017, p. 29): Após a derrota na Primeira Guerra Mundial em 1918 pelas forças aliadas (França, Grã-Bretanha, Itália e Estados Unidos), a Alemanha estava arrasada e humilhada e seu exército em retirada. Suas fábricas estavam paralisadas, suas cidades invadidas por soldados e operários insuflados pela revolução comunista. A conjuntura da Europa havia mudado, pois em função de acordos firmados em 1919 surgiram novos países: Polônia, Tchecoslováquia, Áustria, Hungria e países bálticos. Em questões territoriais a Alemanha foi muito prejudicada com esses acordos, pois perdeu parte do território para Tchecoslováquia onde viviam cerca de três milhões de cidadãos de origem alemã. Além disso, o território polonês se formou dividindo a Alemanha pelo “corredor polonês”. O Tratado de Versalhes imposto à Alemanha, firmado na ocasião do encontro dos países vitoriosos, considerou-a a grande responsável pela guerra. Assim, foi nessa conjuntura que surgiu o Partido dos Trabalhadores Alemães (DAP), em janeiro de 1919. Adolf Hitler, um jovem entusiasta, não foi o fundador do partido, porém, em pouco tempo, se tornou uma figura bastante relevante dele. Em fevereiro de 1920, o então DAP teve seu nome modificado para Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (Nsdap). No seu programa, o partido apresentava características marcadamente de extrema direita: nacionalista, autoritário e intolerante. Saiba mais Em 1932, o líder nazista disse: “Socialismo é a ciência de lidar com o bem comum. Comunismo não é socialismo. Marxismo não é socialismo. Os marxistas roubaram o termo e confundiram seu significado. Eu irei tomar o socialismo dos socialistas”. Cabe destacar que, no contexto do final da Primeira Guerra Mundial, a palavra socialismo estava na moda e atraía os trabalhadores. Hitler se aproveitou dessa popularidade e também da própria estética socialista, ao usar a cor vermelha, por exemplo, em panfletos e cartazes, para conquistar grupos de esquerda e trabalhadores. Em 1922, Hitler alcançou o posto de liderança no Partido Nazista. Em 1923, Hitler tentou dar um golpe, todavia fracassado. Por conta disso, acusado de traidor da pátria, ele foi preso e, nos oito meses em que ficou na cadeia, ele escreveu Mein Kampf, livro-base do nazismo. Nessa obra, Hitler conceituou todos os ideais nazistas, como o nacionalismo exacerbado, o antissemitismo, o antiliberalismo, o anticomunismo e a pretensa supremacia da raça ariana. 9 Figura 4 – Retrato de Adolf Hitler, 1938 Crédito: Elzbieta Sekowska/Shutterstock. Devido à forte pressão popular, em 1933 Hitler foi convidado pelo presidente alemão para assumir o cargo público mais alto do posto executivo, de chanceler, isto é, chefe do governo alemão. Em 1934, o presidente faleceu e 10 Hitler então se declarou Führer: chefe do Partido Nazista Alemão, chefe do Estado alemão e o grande líder da população, tudo isso com o apoio do Parlamento. Em seguida, foi realizado um plebiscito para a aceitação ou não de Hitler para o cargo, cujo resultado foi de 89,9% de aprovação da sociedade alemã. Conforme Hannah Arendt (2009), o governo nazista, juntamente com o fascismo italiano e o stalinismo soviético, se configura um governo totalitário, que se trata de um sistema de governo singular e específico ao século XX. Ademais, devemos salientar quem embora com traços em comum, esses regimes pertencem a espectros ideológicos diferentes. O nazismo se estabeleceu como um governo totalitário na medida em que centralizou todos os poderes políticos e administrativos, não permitindo a existência de outros grupos ou partidos políticos. Nele, além disso, havia um controle total da vida pública e privada da população, a qual devia lealdade total, irrestrita e incondicional ao Partido Nazista. A propaganda e o terror foram os pilares do governo totalitário; mais que censura, havia um monopólio da verdade. Norbert Elias, Zygmunt Bauman, Hannah Arendt (2009) e tantos outros pesquisadores da área das ciências humanas já se debruçaram sobre a temática nazista, buscando explicar como os nazistas chegaram de maneira tão rápida ao poder e como obtiveram tão facilmente o apoio da população. Certamente, a crise de 1929 e o discurso de salvação da economia contribuíram para a popularização de Hitler, mas a economia não foi o único motivo que nos ajuda a compreender esse fenômeno. Hitler soube valer-se de características da história do povo alemão. Maria Luiza Tucci Carneiro (2000) alega que Hitler soube se aproveitar do histórico do povo alemão especialmente no que diz respeito ao ódio aos judeus. A historiadora ressalta que o ódio aos judeus na sociedade alemã vinha de longa data, de modo que o antissemitismo não foi uma invenção de Hitler. Assim, desde 1933, quando Hitler assumiu o poder, os judeus já passaram a viver sob um regime de terror, com ataques físicos e psicológicos. A propaganda antissemita transformou os judeus em verdadeiros bodes expiatórios, num símbolo do mal, num inimigo em comum, que precisava ser destruído. Tudo de ruim que já havia acontecido a Alemanha era culpa dos judeus, que seriam verdadeiras “pragas” a serem eliminadas daquela nação. Paralelemente a isso, se intensificava a ideia de que a população germânica formava a raça ariana: uma raça pura, superior e escolhida. É 11 importante salientar que a ideia da raça ariana se tratava de uma classificação ideológica e não científica. Em 1935 foram promulgadas as Leis de Nuremberg, que oficializaram a perseguição sistemática aos judeus e os transformaram em inimigo número 1 do regime nazista. Milhares de judeus foram presos pelo crime de serem judeus, bem como tiveram seus bens (negócios, comércios, joias, carros, obras de arte) confiscados pelos nazistas. Iniciou-se assim a segregação dos judeus da sociedade alemã, pois a partir daquele momento eles estavam proibidos de frequentar qualquer lugar público, como praças, museus, piscinas, parques, escolas, restaurantes. Numericamente, os judeus foramos inimigos mais penalizados durante o governo nazista, porém eles não foram os únicos. Homossexuais, negros, ciganos, testemunhas de Jeová, inimigos políticos (comunistas, socialistas, sindicalistas, anarquistas ou qualquer pessoa contra o Partido Nazista), pessoas com problemas físicos e mentais também foram classificados como seres racialmente inferiores e, portanto, passíveis de eliminação. Além do antissemitismo, da crença na superioridade da raça ariana, o nazismo também se caracterizou pela defesa do espaço vital, isto é, pelo domínio de um vasto território para que os alemães puros pudessem viver e se desenvolver plenamente, livres das raças inferiores. Portanto, nitidamente, havia uma pretensão de dominar o mundo, expandir o nazismo para além das fronteiras alemãs, o que ficará visível na Segunda Guerra Mundial. Por fim, não tem como falar sobre nazismo sem abordar os campos de concentração, que foram, infelizmente, uma marca registrada do governo nazista. Os alemães construíram tais campos com diferentes desígnios: havia campos de trânsito, campos para prisioneiros de guerra, campos para prisioneiros civis e, depois, campos de trabalho e de extermínio. Os campos de concentração foram fundamentais para a economia de guerra alemã, na medida em que toda a logística necessária para a guerra era produzida com mão de obra escrava. Além disso, os alemães vendiam essa mão de obra escrava para outras empresas interessadas. 12 Figura 5 – Prisioneiro tendo a cabeça raspada no campo de concentração de Sachsenhausen, Alemanha, 1942 . Crédito: Acervo Museu do Holocausto. Ademais, os campos de concentração eram também laboratórios de experimentos onde tudo era possível. Tanto assim que a indústria farmacêutica realizou muitos experimentos utilizando os prisioneiros como cobaias. Os 13 campos eram lugares de violência gratuita, onde todos os abusos e absurdos inimagináveis poderiam acontecer. A partir de 1942, os nazistas começaram a executar seus inimigos, especialmente os judeus, em larga escala, de uma maneira rápida, barata e lucrativa. Para tanto, desenvolveram as câmaras de gás como método para assassinar centenas pessoas ao mesmo tempo, poupando derramamento de sangue e economizando em balas. Depois, os corpos das vítimas eram retirados por prisioneiros saudáveis, para aproveitar o que deles fosse possível, antes de incinerá-los. Todo esse processo foi denominado indústria da morte. TEMA 3 – COMEÇA O SEGUNDO ATO: UMA GUERRA, VÁRIAS RAZÕES Segundo o historiador Eric Hobsbawm (1995, p. 51-52), a Segunda Guerra consolidou a definição de guerra moderna, ou seja, uma guerra total, a envolver uma quantidade de arsenal bélico inimaginável, muita organização e administração, milhares de soldados e que transforma, direta ou diretamente, a vida de todos os países envolvidos. Tratou-se essa de uma guerra de massas, que envolveu não somente os combatentes, mas também toda a população civil mundial. O historiador Williams da Silva Gonçalves (2000) afirma que, até fins da década de 1950, havia um consenso, na historiografia, de que Adolf Hitler foi o grande responsável pela Segunda Guerra Mundial. Nesse consenso, havia duas correntes interpretativas: a liberal, cujo enfoque se dava na questão do totalitarismo desumano e antidemocrático; e a marxista, que privilegiava a abordagem do imperialismo capitalista, cruel e agressivo. Em 1961, o historiador britânico Alan John Percival Taylor (1991) lançou The Origen Of the Second War, no qual questionava a visão historiográfica da época. Para Taylor (1991), Hitler deu continuidade a uma estratégia política que já havia sido definida anteriormente, de tal modo que o povo alemão também deveria ganhar sua parcela de responsabilidade pelos acontecimentos. Taylor (1991) abriu uma nova possibilidade de se pensar a Segunda Guerra, que não parou por aí. Seja como for, o debate não se encerrou e a pergunta sobre o porquê da guerra continua a ser feita. Para nós, parece razoável afirmar que não há uma resposta objetiva para esta pergunta. A guerra foi um resultado perverso de uma conjunção de fatores. Dentre esses fatores, 14 a devastadora crise econômica de 1929 desempenhou um papel central. (Gonçalves, 2000, p. 168) A Alemanha, que teve sua economia totalmente devastada durante a Primeira Guerra e sofreu muito com a crise de 1929, adotou, após a ascensão de Hitler, uma política belicosa e expansionista. Algo muito parecido aconteceu na Itália de Mussolini. Como resultado, teremos a união dessas duas nações e o início da Segunda Guerra. Sobre isso, o historiador Pedro Tota (2006, p. 360) destaca que é “[...] interessante notar que o mesmo fenômeno acontecia na Itália e no Japão sob os governos de ministros militaristas. Ambos os países, cada um a seu modo, modernizaram a indústria pesada e construíram armas, aviões e navios para suas respectivas Forças Armadas.” Os interesses expansionistas da Alemanha, da Itália e do Japão (o Eixo) são importantes para se compreender a Segunda Guerra Mundial. O Japão foi pioneiro na expansão territorial ao invadir a Manchúria, uma província chinesa, em 1931. Logo depois, avançou sobre a China, chegando a Xangai. Em 1935, Mussolini autorizou a invasão da Etiópia, na África. Em 1938, a Alemanha anexou a Áustria e passou a reivindicar algumas regiões da Tchecoslováquia. A anexação alemã da Áustria marcou uma quebra significativa da ordem internacional do período após a Primeira Guerra Mundial. Apenas seis meses depois, a Alemanha nazista forjou uma crise nos Sudetos, que era uma região da Tchecoslováquia. Em setembro de 1938, líderes da Itália, da França e da Grã-Bretanha se encontraram com Hitler em Munique para discutir a questão. Eles aplacaram Hitler ao ceder aquela região à Alemanha nazista, sob a condição de que o resto da Tchecoslováquia permanecesse intocado. Em março de 1939, a Alemanha nazista quebrou este acordo e ocupou as terras tchecas, incluindo sua capital, Praga. (Agressão, 2022) Vale lembrar que, ao final da Primeira Guerra Mundial, com o Tratado de Versalhes, a Alemanha fora obrigada a transferir uma faixa de terra, à Polônia, que garantia ao país acesso ao Mar Báltico. Essa faixa de terra ficou conhecida como corredor polonês. Em março de 1939, a Alemanha pediu a devolução de parte desse território, o que foi recusado pelos poloneses. A partir disso, Hitler resolveu invadir a Polônia. Em 1º de setembro de 1939 Hitler ordenou a invasão da Polônia, utilizando a estratégia chamada blitzkrieg, isto é, guerra-relâmpago, que consistia em pegar o inimigo de surpresa, atacando por todas as frentes, por terra, por mar e pelo ar. No decorrer da Segunda Guerra, essa estratégia foi bastante explorada. A invasão da Polônia foi um ato de agressão e expansão territorial, sinalizando o estopim para o início da Segunda Guerra Mundial. 15 Figura 6 – Tropas alemãs desfilam em Varsóvia, depois da rendição da Polônia Crédito: World History Archive/Alamy/Fotoarena. Diante dessa invasão, a França e a Grã-Bretanha tiveram que se posicionar, pois tinham um compromisso de ajuda aos poloneses caso a Alemanha os ameaçasse. Desse modo, formaram o bloco chamado de Aliados, que mais tarde contaria com a união de outros países. O conflito pode ser dividido em três etapas, a primeira marcada por um rápido avanço do Eixo, a segunda marcada pelo início das derrotas do Eixo e a terceira na qual se destaca a entrada dos EUA na guerra, como veremos a seguir. Nos primeiros anos da guerra, os nazistas obtiveram êxito, pois contavam com uma excelente força aérea (Luftwaffe) e com um exército bem equipado e muito bem treinado. Em abril de 1940, o exército alemão invadiu a Dinamarca e a Noruega e, no mês seguinte, conquistaram a Holanda, a Bélgica e Luxemburgo, abrindo caminho para seu próximoalvo: a França. As tropas nazistas conseguiram dominar a França sem muito esforço e com pouca 16 resistência. Depois da França, o plano dos nazistas era dominar a Inglaterra. A força aérea alemã começou a bombardear fortemente as terras inglesas, contudo encontraram resistência da força aérea inglesa, a Royal Air Force (RAF). Após essa tentativa frustrada, mas com boa parte da Europa Ocidental sucumbida, Hitler voltou sua atenção à Europa Oriental, rompendo definitivamente o pacto de não agressão antes estabelecido com a União Soviética. O Pacto Germano-Soviético foi um acordo assinado pela Alemanha nazista e pela União Soviética no dia 23 de agosto de 1939. Ele foi negociado pelo ministro de relações exteriores alemão, Joachim von Ribbentrop, e pelo ministro de relações exteriores soviético, Vyacheslav Molotov. Popularmente chamado de Pacto Nazi-Soviético ou Pacto Molotov-Ribbentrop, também é conhecido como Pacto Hitler- Stalin. O Pacto Germano-Soviético possuía duas versões, uma pública e uma secreta. A parte pública era um pacto de não agressão em que cada signatário prometia não atacar o outro. Além disso, o Pacto também estabelecia que, caso uma das duas potências fosse atacada por um terceiro país, o outro signatário não forneceria assistência de qualquer tipo para o país atacador. Cada um ainda concordou em não participar de tratados com outras potências que, direta ou indiretamente, prejudicassem o outro. O acordo de não-agressão deveria durar dez anos e seria automaticamente renovado por cinco anos adicionais caso nenhum dos signatários quisesse rescindi-lo. A parte secreta do acordo era um protocolo que estabelecia as respectivas esferas de influência soviética e alemã na Europa Oriental. Esse protocolo reconhecia a Estônia, Letônia e Bessarábia como estando dentro da área de influência soviética. Os signatários concordaram em dividir a Polônia seguindo as linhas dos rios Narev, Vistula e San. (Pacto, 2022) As tropas nazistas elaboraram o plano chamado de Operação Barbarossa, cujo objetivo era dominar a URSS. Em junho de 1941, com milhares blindados, canhões, aviões e mais de 3 milhões de soldados, os alemães iniciaram a invasão à URSS: em menos de um mês, os nazistas percorreram quase 800 km em território soviético e, inicialmente, obtiveram um saldo bastante positivo. Foi nesse momento que a União Soviética entrou no conflito, ao lado dos Aliados. Para se defender, Stalin usou da estratégia da terra arrasada, ou seja, destruir as plantações e a infraestrutura local que pudessem ser úteis ao inimigo. O fator climático foi essencial para tirar a invencibilidade alemã, pois o rigoroso inverno soviético, com temperaturas abaixo dos 40 graus negativos, foi um grande desafio para os nazistas. Hitler imaginou que as forças nazistas conseguiriam fácil e rapidamente dominar a URSS, mas não foi isso que aconteceu. 17 Figura 7 – Soldados do Exército Vermelho num telhado em Stalingrado, em janeiro de 1943 Crédito: Vintage_Space/Alamy/Fotoarena. O Japão tinha interesses econômicos nas mesmas regiões da Ásia que os Estados Unidos, por isso atacaram a base aeronaval em Pearl Harbor, situada no Havaí, região do Pacífico, matando aproximadamente 2,4 mil soldados americanos e afundando vários navios de guerra. Diante desse fato, os Estados Unidos, que até então estava neutro no conflito, foi obrigado a tomar uma postura, declarando guerra ao Japão e entrando no conflito ao lado dos Aliados, em 7 de dezembro de 1941. Sobre a atuação japonesa na guerra, cabe mencionar a estratégia singular dos pilotos kamikazes, cuja missão era matar e morrer ao mesmo tempo. Isto é, os kamikazes eram pilotos suicidas, que deveriam jogar sua aeronave cheia de explosivos em cima do alvo desejado, geralmente navios porta-aviões. Estima-se que mais de 3 mil pilotos japoneses se suicidaram, nessas missões. A partir de 1943, a Marinha e a Aeronáutica norte-americanas começaram a retomar, paulatinamente, os territórios ocupados pelos japoneses: Ilhas Marshall, Marianas, Filipinas e outras ilhas na região do Pacífico. Paralelamente a isso, na Europa Ocidental, a outra frente da guerra também obteve sucesso. As tropas britânicas e americanas conseguiram expulsar os italianos e alemães do norte da África. Essa vitória facilitou o avanço dos aliados em direção ao norte 18 da Itália e a derrubada de Mussolini. Em 6 de junho de 1944, conhecido como O Dia D, os aliados atacaram a Normandia, norte da França, para retomar o controle da região que estava nas mãos dos nazistas. Após a derrota nazista em solo soviético, o Exército Vermelho iniciou o avanço em direção a Berlim, em abril de 1945. Assim, a Batalha de Berlim foi a última grande batalha entre soviéticos e nazistas. Conquistar Berlim era muito alegórico, pois denotava a queda, em definitivo, de Hitler. Para defender a cidade, Hitler convocou idosos e adolescentes a lutar, mas isso não foi suficiente: o poderoso e temido Exército Alemão sucumbiu. Em menos de um mês, Berlim foi ocupada pelos soviéticos, isso obrigando à rendição alemã. Após a derrocada do Exército Alemão na Batalha de Berlim, Hitler e sua esposa, Eva Braum, cometeram suicídio. Mussolini já havia sido capturado e morto. Ou seja: na Europa, a guerra já tinha, então, chegado ao fim. Não obstante, no Pacífico, ela ainda continuava, pois o Japão se recusava a aceitar a derrota do Eixo. A guerra já tinha se dado por encerrada, a Organização das Nações Unidas (ONU) já havia sido criada e, no Pacífico, o Japão ainda insistia no conflito. Sendo assim, os Estados Unidos decidiram exibir todo o seu poder militar lançando duas bombas atômicas no Japão, nas cidades de Hiroshima e Nagasaki, nos dias 6 e 9 de agosto de 1945, respectivamente. 19 Figura 8 – Nuvens de cogumelo sobre Hiroshima (esquerda) e Nagasaki (direita), após o lançamento das bombas atômicas nas duas cidades, nos dias 6 e 9 de agosto de 1945, respectivamente Crédito: George R. Caron/CC-PD; Charles Levy /CC-PD. As bombas mataram instantaneamente milhares de pessoas – civis e militares –, deixaram milhares de feridos e inválidos devido à radiação e destruíram as duas cidades, levando à rendição total japonesa, dias depois, colocando fim à Segunda Guerra Mundial. TEMA 4 – UM MUNDO BIPOLAR A Guerra Fria, como ficou conhecida a disputa pela hegemonia mundial entre os Estados Unidos e a União Soviética, começou mesmo antes do fim efetivo da Segunda Guerra Mundial, pois, nas conferências realizadas entre os países vencedores para tratar dos acordos e negociações referentes ao pós- guerra, já se observavam fortes tensões e discordâncias entre ambos os países. O historiador Eric Hobsbawm (1995) salienta que a União Soviética era economicamente e militarmente mais precária que os Estados Unidos, de modo que não oferecia um perigo real para uma possível supremacia mundial daqueles, mas que [...] a histeria em Washington não se baseava, claro, num raciocínio realista. Em termos reais, o poder americano, ao contrário do seu prestígio, continuava decisivamente maior que o soviético. Quanto às 20 economias e tecnologias dos dois campos, a superioridade ocidental [...] superava qualquer cálculo. (Hobsbawm, 1995, p. 243-244) Desse modo, Hobsbawm (1995) defende a ideia de que foi a histeria dos Estados Unidos, a crença de que o capitalismo estava ameaçado que deram origem à Guerra Fria. Como mencionamos anteriormente, a Guerra Fria foi o nome dado à disputa entre duas superpotências, EUA e URSS. Todavia, essa não se concretizou num enfrentamento direto entre os países, mas numa rivalidade ideológica, armamentista e espacial. Logo após o fim da Segunda Guerra, os Estados Unidos se comprometeram a prestar ajuda a todo e qualquer país que precisasse conter o avanço comunista. Essefato deu início à Doutrina Truman, que se constituiu numa ofensiva americana contra a expansão do comunismo no mundo. Além disso, os EUA lançaram o Plano Marshall, que objetivava a recuperação europeia por meio de empréstimos a baixíssimos juros, aos países arruinados pela Segunda Guerra. Nesse contexto, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) foi criada e consistia numa aliança militar permanente, contra a dita ameaça soviética, que reunia os Estados Unidos, os países da Europa Ocidental e o Canadá. Em contrapartida, a URSS criou o Comitê de Informações dos Partidos Comunistas e Operários (Cominform), com o intuito de coordenar e controlar as ações dos partidos comunistas da Europa Oriental. Ademais, reuniu os países socialistas do Leste Europeu e criou o Pacto de Varsóvia, uma aliança militar cuja finalidade era a autoproteção. Cabe lembrar que foi a Alemanha Nazista que deu o pontapé inicial da Segunda Guerra Mundial, além de ser responsável por milhões de mortes no conflito e nos campos de concentração. Sendo assim, ao fim do conflito, em 1945, os Aliados decidiram dividir a Alemanha e Berlim em quatro zonas de ocupação sob o comando de franceses, ingleses, americanos e soviéticos. Ressalta-se, ainda, que Stalin nutria uma grande desconfiança em relação aos alemães, sobretudo a partir do Cerco de Berlim, que criara inúmeros bolsões de resistência nazista na Alemanha e em outras regiões da Europa. Ademais, Stalin estava obstinado a dominar Berlim, para concretizar sua vingança contra os nazistas, que, durante a guerra, haviam destruído alguns territórios soviéticos. Somado a isso, Stalin almejava controlar os alemães de perto, para sondar se não havia, em território alemão, a construção de armas atômicas. 21 Figura 9 – As zonas de Berlim, por responsáveis pela sua ocupação externa Crédito: Jefferson Schnaider. Em 1949, a cidade de Berlim ficou dividida assim: o seu lado oeste ficou sob o domínio dos países capitalistas, enquanto o seu lado leste, comandado pelos soviéticos. No seu lado oeste surgiu a República Federal da Alemanha (RFA); já no seu lado oeste, foi criada a República Democrática Alemã (RDA). Apesar de haver bastante tensão entre as partes, inicialmente a população alemã podia circular livremente pelos dois territórios. Porém, em 1961, a URSS decidiu construir uma barreira física para impedir a passagem das pessoas entre os lados: o famoso Muro de Berlim. O Muro de Berlim acabou se tornando o grande símbolo da Guerra Fria, na medida em que uma única cidade fora dividida entre a ideologia capitalista e a ideologia socialista. Durante 28 anos (1961- 1989), ele dividiu não somente um território, mas separou inúmeras famílias. 22 Figura 10 – Localização do Muro de Berlim em frente ao Portão de Brandemburgo, em 1961 Crédito: DPA Picture Alliance/Alamy/Fotoarena. O Muro de Berlim era composto por centenas de torres de vigilância, redes metálicas eletrificadas, cães ferozes, fossos e guardas de fronteira com licença para matar quem tentasse ultrapassar as fronteiras ali estabelecidas. O muro perpassava toda a capital, com aproximadamente 155 km de extensão e pouco mais de 3 metros de altura. Muitas pessoas tentaram fugir e foram mortas tentando cruzar a fronteira: calcula-se que mais de 1 centena de pessoas morreram tentando atravessar os limites do muro. A corrida armamentista foi outra marca da Guerra Fria: EUA e URSS investiram pesado na indústria bélica, buscando produzir novas tecnologias e possuir armas sofisticadas e altamente destrutivas. A ideia era se armar para se proteger de um possível ataque do inimigo, formando um círculo vicioso de fabricação de armas. A corrida armamentista também se atrelava a uma estratégia de dominação de outros lugares, na qual se realizavam alianças regionais para instalação de bases militares de ambos os países, em diversos lugares do mundo. A União Soviética procurara, rapidamente, se igualar, em 23 poderio, ao seu oponente, sobretudo, em relação a armas nucleares, para não ficar em desvantagem, gerando o famoso equilíbrio do terror. Ou seja: ambos os países tinham armamentos igualmente potentes, portanto, ao mesmo tempo, nenhum dos dois queria iniciar o ataque, pois cada um sabia do risco de destruição em massa diante do armamento que ambos possuíam. A disputa entre EUA e URSS, durante a Guerra Fria, ultrapassou os limites terrestres, pois eles competiram até no espaço. Afinal, conquistar o espaço se traduzia em sinônimo de força, poder, inteligência, tecnologia e desenvolvimento. Em outubro de 1957, os soviéticos lançaram o primeiro satélite artificial ao espaço, o Sputnik. Meses depois, em novembro, lançaram o Sputnik 2, com uma novidade: a presença de uma cachorrinha a bordo da espaçonave – Laika foi o primeiro ser vivo lançado num voo espacial. Tratava-se de um teste para verificar os padrões de segurança necessários para mandar, futuramente, um ser humano ao espaço. Então, em abril de 1961, os soviéticos enviaram o primeiro homem ao espaço, quando o astronauta Yuri Gagarin tripulou a nave espacial Vostok I, num voo orbital de 108 minutos. Gagarin ganhou grande projeção internacional, estrelando a capa de várias revistas. Em contrapartida, no dia 20 de julho de 1969, os EUA surpreenderam o mundo mandando homens para a Lua: a missão Apollo 11 levou os astronautas Neil Armstrong, Edwin Buzz Aldrin e Michael Collins ao solo lunar. Esse episódio foi amplamente televisionado, se transformando num verdadeiro espetáculo. 24 Figura 11 – Os Estados Unidos e a chegada do homem à Lua, em 1969 Crédito: Nasa/Neil A. Armstrong/CCPD. Existem muitos filmes de espionagem sobre a Guerra Fria e isso não é à toa, pois a espionagem foi um elemento central naquela época. Os americanos tinham a Agência Central de Inteligência (CIA); já os soviéticos, o seu Comitê de Segurança do Estado (KGB). Esses órgãos atuavam, secretamente, dentro e fora dos seus respectivos países, com espiões espalhados pelo mundo todo com o objetivo de buscar informações de relevância nacional. Havia uma vigilância não somente dos considerados suspeitos, mas de toda a população mundo afora. A partir de 1950, o então senador norte-americano Joseph McCarthy liderou uma verdadeira caça aos comunistas: foi presidente do Comitê de Atividades Antiamericanas do Senado e perseguiu inúmeros políticos, jornalistas, intelectuais e artistas por suspeita de serem comunistas. Esse 25 período de intensa perseguição foi chamado de macartismo. A disputa também se deu por meio da propaganda, que foi amplamente utilizada pelos dois países, com uma dupla função: traçar uma imagem negativa do inimigo; e, ao mesmo tempo, exaltar a ideologia defendida. Ainda que ambos os governos demonizassem seu adversário, o historiador Eric Hobsbawm (1995, p. 232) destaca que a presença do anticomunismo nos EUA era muito maior do que a presença do antiamericanismo na URSS, uma vez que a democracia americana precisava eleger seus políticos e a criação de um perigoso inimigo externo era útil e conveniente, pois angariava votos. Em 1989, o Muro de Berlim foi derrubado. Sua queda pode ser explicada devido à crise econômica e administrativa da URSS. Dois anos depois, em 1991, a Guerra Fria chegou ao fim com a desintegração da União Soviética, marcando a vitória do capitalismo e uma nova reconfiguração geográfica, com a criação de novos países. Entretanto, o fim da Guerra Fria não colocou fim ao perigo das armas nucleares, pois ogivas nucleares ainda existem até hoje. NA PRÁTICA Discussões recentes apontam que podemos estar diante de uma nova Guerra Fria, agora protagonizada pelos Estados Unidos e pela China. Busque artigos, textos e reportagens sobre essa temática e elabore um flashcard destacando seus aspectos mais relevantes.FINALIZANDO Ao final da Primeira Guerra Mundial, os países envolvidos não saíram satisfeitos do conflito, restando um clima de revanche no ar. Nesse contexto entreguerras surgiu, ainda, o nazifascismo. Embora o fascismo italiano e o nazismo alemão tenham muitos traços em comum – Mussolini também perseguiu ferozmente seus opositores –, é preciso salientar que apenas no nazismo ocorreu o genocídio de judeus e outros inimigos do governo. As ideias nazistas, infelizmente, não se encerraram com a morte de Adolf Hitler. Mesmo tantos anos após o fim do governo nazista alemão, o neonazismo ainda se faz presente em diferentes sociedades, em vários lugares do mundo. A grave crise econômica de 1929, somada aos problemas ainda existentes da Primeira Guerra, levaram à eclosão da Segunda Guerra Mundial. 26 Esse foi o conflito mais traumático da história: deixou um saldo de 60 milhões de mortos e mais de 20 milhões de mutilados. Milhares de crianças perderam suas famílias, e muitas cidades foram destruídas. A Segunda Guerra envolveu, de maneira direta ou indireta, todos os países do globo. Após o seu fim, um novo conflito surgiu: um mundo bipolarizado entre Estados Unidos e União Soviética, em uma disputa, entre o capitalismo e o socialismo, que pautou a metade do século XX. 27 REFERÊNCIAS AGRESSÃO territorial nazista: a Anschluss. Enciclopédia do Holocausto, 11 jul. 2022. Disponível em: . Acesso em: 20 set. 2022. ARENDT, H. O totalitarismo no poder. In: _____. As origens do totalitarismo. São Paulo: Civilização Brasileira, 2009. CARNEIRO, M. L. T. Holocausto: crime contra a humanidade. São Paulo: Ática, 2000. COGGIOLA, O. Segunda Guerra Mundial: um balanço histórico. São Paulo: Xamã, 1995. (Série Eventos). DRUMOND, J. P. de A. O nazismo na percepção dos apoiadores de Hitler: um estudo sobre as cartas enviadas ao Nsdap e ao Estado Nazista (1925-1939). 269 f. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 2017. GONÇALVES, W. da S. A Segunda Guerra Mundial. In REIS FILHO, D. A.; FERREIRA, J.; ZENHA, C. (Org.). O século XX: o tempo das dúvidas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000. (Coleção História, v. 3). p. 35-64. HOBSBAWM, E. Era dos extremos: o breve século XX (1914-1991). São Paulo: Companhia das Letras, 1995. HUXLEY, A. Admirável mundo novo. Rio de Janeiro: Biblioteca Azul, 2014. PACTO Germano-Soviético. Enciclopédia do Holocausto, 11 jul. 2022. Disponível em: . Acesso em: 20 set. 2022. PAXTON, R. O. A anatomia do fascismo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2007. RÉMOND, R. O século XX: de 1914 aos nossos dias. São Paulo: Editora Cultrix, 1974. TAYLOR, A. J. P. 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