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A CLÍNICA EM WINNICOTT 
AULA 2 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Profª Simone Freitas 
 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
A relação do bebê com a sua mãe foi o interesse principal de Winnicott. 
Foi com base em suas primeiras descobertas a respeito da qualidade dessa 
relação que avançou para outros campos da sua pesquisa. 
Por meio desse encontro primordial, uma disponibilidade natural e 
espontânea do bebê humano em direção à saúde, tal como o autor propõe, 
encontrará na mãe suficientemente boa as condições para o seu 
desenvolvimento, e assim fará um percurso de uma dependência absoluta para 
uma dependência relativa, rumo à independência. 
Algumas funções são atribuídas à mãe para que o exercício da 
maternagem, incluindo as inevitáveis e necessárias falhas, possa resultar em um 
desenvolvimento psicoemocional satisfatório do seu bebê. 
Ele destaca que a influência mais importante sobre a vida de uma criança 
é a soma das ações e reações impensadas da mãe e do seu entorno, ou seja, 
não são as ações refletidas que têm os principais efeitos. 
Nesse ponto, Winnicott advertirá médicos e enfermeiros quanto ao 
cuidado em relação às mães, ao instruí-las demais e ao corrigi-las demais. O 
ponto de partida de uma mãe nos cuidados dispensados ao seu bebê é a 
identificação que terá com ele, por ter em si a experiência de um dia ter sido 
bebê. Esse é o seu saber. 
Com o objetivo de tornar a teoria desse autor ainda mais compreensível, 
trataremos nesta etapa dos conceitos de mãe ambiente, mãe suficientemente 
boa, as funções a ela atribuídas (holding, handling e apresentação de 
objeto) e preocupação materna primária. 
TEMA 1 – PREMATURIDADE DO FILHOTE HUMANO 
Ao contrário do que acontece com todo o reino animal, os bebês humanos, 
destinados a se tornarem seres de linguagem, não vêm ao mundo equipados 
com um conjunto de instintos que lhes indique como ingressar na vida. São 
humanos de primeira viagem. O mesmo aparato instintivo também inexiste nas 
mulheres adultas. Como explicar que os bebês, apesar desse déficit instintivo 
relativo a eles mesmos e a suas mães, consigam sobreviver? 
Winnicott, de modo generoso, tranquiliza as mães propondo que possam 
confiar em seu ofício de cuidar do seu bebê, as advertindo sobre uma qualidade 
 
 
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muito modesta e essencial para o exercício da maturidade: o bom senso. Com 
isso, o autor pretende afastar a mãe de uma busca onipotente de ser “tudo” para 
seu bebê, agindo tal como se fossem excelentes performistas. No lugar disso, o 
bom senso indicará que tudo o que o bebê necessita, e tudo o que é possível à 
sua mãe é que ela seja boa… o suficiente. 
Uma mãe amadora, diante do seu bebê e das manifestações de 
desconforto, pode até pensar em recorrer a especialistas de bebês, já que ela 
se encontra em uma sociedade tecnocientífica, na qual a eficiência tecnológica 
oferece a esperança de que seja possível aprender o que quer que seja sem 
errar. As mães de maior poder aquisitivo se cercam de enfermeiras, cuidadoras, 
babás experientes para manusear e alimentar o seu recém-nascido. 
No caso dessas mães, é inestimável o valor das pequenas lições para 
resolver problemas simples transmitidos por outras mães, tais como uma troca 
de fraldas, facilitar a chegada do sono ou simplesmente alimentar o bebê. Às 
vezes, essa sabedoria vem da mãe daquela mãe, ou de outras mulheres 
próximas, já veteranas nas artes da maternagem. 
Na atualidade, muitas vezes as pessoas desconfiam cada vez mais do 
valor da experiência transmitida entre sujeitos que compartilham destinos 
semelhantes, só se sentindo seguras quando substituem tais saberes peculiares 
por inovações científicas e tecnológicas ou discursos da moda. 
A ousadia de Winnicott (atual até hoje) consiste na ajuda que oferece às 
mães para que confiem nas pequenas singularidades, até nos pequenos defeitos 
como partes indissociáveis do que os filhotes precisam para inaugurar sua 
vidinha no mundo. Ao atentar para o surgimento dos mínimos potenciais 
adaptativos do bebê, a mãe o ajuda a desenvolvê-los, de acordo com o que ele 
tem a oferecer no momento e com a fase do desenvolvimento em que ele se 
encontra. 
Assim como as chamadas “doenças da infância” contribuem para o 
fortalecimento da resistência do corpo saudável, os pequenos erros das “mães 
suficientemente boas” contribuem para o robustecimento psíquico e emocional 
dos seus filhos. 
A insatisfação, a sensação de desprazer são as primeiras notícias que 
chegam ao bebê, horas ou dias após o nascimento, da separação do corpo 
materno. É quando o bebê “descobre” que nasceu. 
 
 
4 
O nascimento, além de trazer o bebê ao mundo por nós habitados, 
inaugura nele uma falta. mas não toda de uma só vez. A vivência da fusão com 
o corpo materno nem sempre se rompe imediatamente após o parto. A 
percepção da separação física em relação à mãe, ao se inaugurar, inaugura 
também o desamparo, em razão da percepção da insatisfação – a começar pela 
fome, vivência corporal assustadora e desconhecida para quem até então era 
suprido sem descontinuidade através do cordão umbilical. 
O que fazer diante da angústia expressa no choro do filhote que de 
repente descobre que nasceu? 
TEMA 2 – MÃE SUFICIENTEMENTE BOA 
Winnicott utiliza a expressão “mãe suficientemente boa” para designar 
tudo aquilo que uma mulher precisa ser para o seu bebê. 
Winnicott costumava falar para muitos públicos. Certa feita, ao falar para 
mães, salientou que o seu fazer, o cuidado voltado para seus bebês, elas fazem 
bem, e o fazem bem simplesmente porque toda mãe se dedica à tarefa que tem 
em mãos, ou seja, cuidar de um bebê. Disse que isso é o comum, o ordinário, e 
que é uma exceção um bebê não ser cuidado desde o início por um especialista. 
Uma produtora da BBC de Londres, programa do qual sempre participava, 
entendeu, com base em seus ditos naquela palestra, que a síntese de sua 
explanação seria “A mãe dedicada comum”. 
E assim nasceu esse conceito, que na época não foi bem compreendido 
por alguns teóricos que julgavam ser um psicologismo inocente, constituindo um 
ideal na relação mãe-bebê, e com potencial de culpabilização das mães (o 
fracasso da mãe em sua dedicação ao bebê seria um dos fatores da etiologia do 
autismo). 
Winnicott afirma parecer banal, quando diz que “por dedicada” quer dizer 
apenas dedicada. 
Mais tarde, passa a denominar essa mãe dedicada comum de mãe 
suficientemente boa. Explica que a mãe não precisa ser “boa”, mas apenas 
“suficiente”. Ainda, afirma que entre ser “boa” e ser “suficientemente boa” há uma 
grande diferença. Na segunda opção, evitamos o sentimentalismo e a 
idealização. Winnicott nunca aceitou o sentimentalismo em sua obra por achar 
que ele conduz à ignorância e ao ódio. 
 
 
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Exemplificando, uma mãe que negligencia a alimentação de seu filho é 
tão “insuficientemente boa” quanto uma outra que o obrigue a alimentar-se todo 
o tempo. A mãe boa demais, segundo ele, produz um efeito devastador para a 
criança: ela faz algo pior do que castrar seu filho, pois só lhe dá a escolha entre 
a fusão e a rejeição total. 
Uma mãe suficientemente boa é aquela que, além de prover as 
necessidades do seu bebê, conduzindo-o a um estágio de absoluta dependência 
para outro de dependência relativa, também falha, e continuamente está a 
corrigir essas falhas. Com o passar do tempo, o bebê precisa que a mãe falhe 
ao adaptar-se às suas necessidades. Seria angustiante para a criança continuar 
se sentindo onipotente, mesmo depois de desenvolver o aparato necessário para 
lidar com frustrações e eventuais falhas no ambiente. 
É importante deixar claro que embora de início estejamos falando de 
coisas muito simples, como é a dedicação de uma mãe às necessidades básicas 
de um bebê – tais como alimentá-lo, asseá-lo, fazê-lo dormir, aconchegá-lo, 
oferecer-lhe segurança –, também estamos lidando com questões de 
importância vital,questões que têm a ver com a constituição dos alicerces da 
saúde mental que refletem (ou não) a qualidade do encontro do bebê com a sua 
mãe. 
A segurança adquirida pela criança dependerá das primeiras etapas 
vitais. Dependendo de ter (ou não) suas necessidades atendidas, uma série de 
traços e patologias poderão se desenvolver. No entanto, o aspecto mais notável 
na teoria de Winnicott é o fato de que não é esperado que as mães sejam 
perfeitas. Ao contrário disso, o autor, com surpreendente originalidade afirma 
que “o bebê precisa que a mãe falhe ao adaptar-se” – o espaço vazio ou 
desconforto provocado por tais falhas será preenchido aos poucos, na atividade 
mental da criança, pela atividade da fantasia. 
Assim, a expressão mãe dedicada comum vai designar um conjunto de 
qualidades e de falhas com as quais, no melhor dos casos, a mulher conta para 
apresentar o mundo ao recém-nascido. 
Ainda que esse recém-nascido seja imaturo diante de um mundo que lhe 
exige tantas adaptações, a mãe suficientemente boa aposta no rápido 
desenvolvimento de seus potenciais, e negará a satisfação de ser 
onipotentemente tudo para o seu filho. Ao notar o surgimento de mínimos 
potenciais adaptativos do seu bebê, ela o ajudará a desenvolvê-los. 
 
 
6 
A mãe um dia foi um bebê e tem em si as memórias dessa vivência. Tem 
também a memória de ter sido cuidada. Por esse motivo, ela torna-se capaz de 
adaptar-se de maneira tão íntima às primeiras necessidades do seu bebê. Dito 
isso, esclarece-se a afirmativa de Winnicott – “A mãe é o bebê e o bebê é a mãe”. 
TEMA 3 – MÃE AMBIENTE 
Como já foi dito anteriormente, o fato de o recém-nascido chegar ao 
mundo equipado de modo insuficiente, portanto, não possuindo recursos 
instintivos para se desenvolver, lhe coloca numa condição de dependência 
absoluta de sua mãe. 
Winnicott descreverá três estágios que descrevem o desenvolvimento 
humano com base nesse estágio inicial, de absoluta dependência: 
• dependência absoluta – ocorre no período do nascimento até por volta 
dos seis meses de idade. Nesse estado, o bebê não tem meios de saber 
sobre o cuidado materno, que em sua maior parte consiste em profilaxia. 
Ele não tem como exercer controle sobre o que é bem ou mal feito, e pode 
apenas beneficiar-se ou sofrer perturbações. Não há separação entre o 
corpo e o meio. Ainda não existe um corpo configurado. 
• dependência relativa – aqui se dá o início da distinção do ser, aparecendo 
entre os seis meses de vida até os dois anos de idade, mais ou menos. 
Nesse estágio, o bebê pode tomar consciência da importância dos 
detalhes dos cuidados maternos, e pode relacioná-los mais e mais a 
impulsos pessoais, e mais adiante, no tratamento psicanalítico, pode 
reproduzi-lo na transferência; 
• rumo à independência – o indivíduo se relaciona com os objetos do mundo 
externo, baseado no princípio da realidade. O bebê desenvolve a 
capacidade de tolerar a ausência dos cuidados. O êxito disso deve-se à 
acumulação de memórias desses cuidados, da projeção de necessidades 
e da introjeção de detalhes da atenção materna, juntamente com o 
desenvolvimento da confiança no ambiente. 
Ao abordar o papel crucial do ambiente no desenvolvimento emocional, 
Winnicott introduziu a noção fundamental de “ambiente suficientemente bom”. 
De acordo com ele, um contexto dessa natureza seria indispensável para a 
constituição de um indivíduo emocionalmente saudável. 
 
 
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A mãe suficientemente boa também é capaz de prover um ambiente 
suficientemente bom, no entanto, essa responsabilidade não cabe apenas a ela. 
Vale assinalar que, do ponto de vista winnicottiano, todos nós temos 
tendências inatas para a conquista dos atributos que constituem a saúde 
psíquica. No entanto, essas tendências só se atualizam se nos for oferecido um 
ambiente suficientemente bom. 
Trata-se de um contexto que facilite a expressão daquilo que já está 
potencialmente presente no sujeito: um ambiente facilitador. 
Winnicott foi o primeiro grande teórico da psicanálise a enfatizar o papel 
do ambiente no desenvolvimento psicoemocional. A função desse ambiente 
facilitador é a geração de um sentimento de onipotência no bebê, diante de sua 
dependência absoluta, em que suas necessidades são supridas por meio dos 
cuidados maternos. Essa ilusão de onipotência vivida pelo bebê é fundamental, 
pois é com base nessa experiência que vai se formar uma ponte entre o mundo 
psíquico e o mundo externo. Isso é dado por meio da percepção do bebê de que 
existem coisas no mundo externo que suprem suas angústias, que consolam, 
que alimentam, que acarinham e que lhe dão sustentação. 
Para Winnicott, o bebê que tenha tido uma experiência de onipotência no 
início da vida será capaz de lidar com as frustrações. 
Para o desenvolvimento emocional saudável, um ambiente 
suficientemente bom deve apresentar gradualmente falhas no cumprimento das 
necessidades do bebê, o que dá início a um processo de desilusão, na fase que 
Winnicott chama de “dependência relativa”. Por exemplo, quando a mãe vai 
gradualmente gerando alternâncias entre presenças e ausências, o bebê já 
começa a suportar suas pequenas ausências porque vai encontrando no 
caminho objetos transicionais – conceito que retomaremos adiante. 
Para Winnicott, o ser humano é um ser potencialmente criativo, trazendo 
em si uma tendência inata para se integrar e amadurecer, numa condição direta 
de dependência de um ambiente que ofereça as condições para que essas 
potencialidades se realizem. 
O ambiente é representado pela mãe – a mãe ambiente – que de modo 
empático e sensível, e também por estar identificada com o seu bebê, como se 
colocasse em seu lugar, adapta-se aos seus vários estágios de 
desenvolvimento, e responde de modo suficiente às suas necessidades. 
 
 
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TEMA 4 – HOLDING, HANDLING E APRESENTAÇÃO DE OBJETO: FUNÇÕES 
MATERNAS 
Para que o bebê seja capaz de começar a desenvolver-se, a tornar-se um 
ser, a encontrar o mundo que conhecemos, a tornar-se consistente e a 
encontrar-se a si mesmo, os seguintes aspectos da mãe surgem como 
vitalmente importantes. 
Ela existe e prossegue existindo. Ela vive, cheira, respira, seu coração 
bate. Ela está ali para ser sentida de todos os modos possíveis. 
Ela ama de um modo físico, proporciona contato, calor corporal, 
movimento e quietude, de acordo com as necessidades do bebê. 
Ela fornece a possibilidade de o bebê fazer a transição entre o estado 
tranquilo e o estado de excitação, por exemplo, evitando surgir de repente com 
o alimento a exigir a resposta do bebê. 
Ela providencia alimento aceitável nos momentos adequados. 
No início, ela permite que o bebê domine, estando disposta (visto que o 
bebê está tão perto de ser uma parte de si mesma) a manter-se de prontidão 
para responder-lhe. 
Ela vai introduzindo pouco a pouco, e cuidadosamente, o mundo externo 
compartilhado de acordo com as necessidades do bebê. 
Ela protege o bebê de sustos e coincidências (por exemplo, uma porta 
que bate no momento em que o bebê pega o seio), tentando manter a situação 
física e emocional suficientemente simples para que o bebê consiga entender, e 
ainda assim, rica o bastante para atender às suas crescentes capacidades. 
Ela fornece continuidade. Há uma certa repetição, um ritmo conhecido 
pelo bebê, e assim ele não viverá tensões causadas por alterações bruscas nos 
cuidados que recebe. 
Ser carregado, ser virado, ser deitado e, naturalmente, ser alimentado se 
constituem como as primeiras funções essenciais do ambiente: o holding (o 
“sustentar”), o handling (o “manejar”) e o object presenting (a “apresentação de 
objeto). 
Todos os aspectos da mãe que foram citados se realizam nessas funções, 
no dia a dia com os seus bebês, de modo espontâneo. 
 
 
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4.1 Holding 
Pode ser traduzido tanto por “pegar, “sustentar” ou “carregar”. Trata-se de 
um ato não apenas físico, como também psíquico. Pode-sedizer que a mãe tem 
o seu filho “na cabeça”. Ela fantasia o seu filho. 
A depressão pós-parto constitui um impedimento para um holding bem 
realizado. Se a mãe consegue apenas garantir a continuidade do holding físico, 
mas não há com o seu bebê um envolvimento emocional, psíquico, há 
consequências para a criança, caso não haja alguém que faça essa função. 
A mãe ambiente é quem, por intermédio do holding, oferece ao bebê uma 
experiência de continência, de contorno corporal e físico, fazendo-lhe bordas que 
o ajudarão, aos poucos, a distinguir-se do mundo externo, ou seja, a diferenciar 
o “eu” de um “não eu”. 
4.2 Handling 
A segunda função essencial do ambiente (mãe ambiente) é o “handling”. 
Traduzido como “manejo”, esse termo deriva de hand (“mão”). Trata-se da 
maneira como a mãe maneja o corpo do seu filho durante os cuidados que lhe 
dedica: o aleitamento, a higiene, a troca de fraldas, o vestir, o carinho físico, ou 
seja, tudo aquilo que está envolvido no contato “pele com pele”. 
Não há técnica, mas sim um saber próprio da mãe, sua maneira de cuidar 
do seu bebê, incluindo corpo e psique ao mesmo tempo. 
Através do handling, as bordas do corpo são experienciadas, fazendo com 
que o bebê comece a se distinguir do ambiente. 
Nesse momento, o bebê tem uma experiência corporal de fragmentação, 
de uma não integração e a mãe se vê integrada, como uma pessoa inteira. Ela 
olha o seu bebê e o vê à sua imagem, como uma pessoa integral. E o que o 
bebê vê no olhar da mãe pela maneira de ser manuseado é o dom de viver essa 
totalidade que ela lhe dá. 
Winnicott observa que é por esse meio que ocorre o processo de 
“personalização”. Isto é, do “alojamento da psique no corpo”. 
Podemos observar pessoas ao nosso redor que parecem habitar 
plenamente seus corpos, e outras que parecem estar em um corpo emprestado, 
como se não o habitassem verdadeiramente. 
 
 
10 
Aqui, falhou uma espécie de “coesão psicossomática”, citado por 
Winnicott para explicar como acontece (ou não) o alojamento da psique no corpo. 
Esses primeiros cuidados (holding e handling) possibilitam ao indivíduo 
habitar no seu corpo, e traçar e reconhecer seus limites, deixando, aos poucos, 
a experiência corporal de “disformidade”, passando a partir de então a integrar 
uma experiência psicossomática. 
4.3 Apresentação de objeto 
A terceira função que compete à mãe suficientemente boa é a 
apresentação de objeto ou apresentação de mundo, que consiste em oferecer 
objetos substitutivos de satisfação. Relaciona-se com a realidade externa. Diz 
respeito ao momento em que a mãe já inicia um processo de disfusionamento 
com o seu bebê. É quando ela já se volta para outros interesses, começa a falhar 
em suas respostas de adaptação às necessidades dele, como uma mãe 
suficientemente boa. Com isso, ela oferece ao seu bebê a possibilidade de 
encontrar substitutos de si mesma na externalidade, que são os objetos de 
satisfação externa. 
É fundamental para o avanço da fase da dependência absoluta para a 
dependência relativa, uma vez que possibilita o interesse, a curiosidade e a 
busca de objetos de satisfação para além da mãe. 
Assim, ela vai apresentando o mundo ao seu bebê, em pequenas doses, 
ao passo que possibilita a ilusão inicial (onipotência) de que quem criou aquilo 
foi o bebê. Segundo Winnicott, essa adaptação é o que oportunizará o 
estabelecimento das relações objetais. 
Winnicott afirma que o bebê desenvolve a expectativa vaga que se origina 
em uma necessidade não formulada. A mãe, ao se adaptar às suas 
necessidades, apresenta um objeto que satisfaz às necessidades dele, de modo 
que começa a necessitar exatamente do que ela lhe apresenta. Desse modo, o 
bebê começa a se sentir confiante em ser capaz de criar objetos e criar o mundo 
real. A mãe proporciona ao bebê um breve período em que a onipotência é um 
fato de experiência, garantida pela função desempenhada pela ilusão. 
 
 
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TEMA 5 – PREOCUPAÇÃO MATERNA PRIMÁRIA 
É esperado de qualquer bebê que, durante o seu desenvolvimento, três 
operações devam acontecer: 
1. o bebê deve fazer contato com a realidade; 
2. a personalidade do bebê deve tornar-se integrada, e a integração deve 
tornar-se estável; 
3. o bebê deve passar a sentir-se vivendo dentro do seu corpo, e que no 
início não é sentido por ele como algo tão significativo quanto é para nós. 
Três coisas: contato com a realidade, integração e percepção do corpo. 
Segundo Winnicott, é o ego da mãe que possibilitará ao bebê não ser 
aniquilado ou devastado pela violência de suas experiências pulsionais, e 
viver experiências de ajuntar, integrar. A mãe fornece uma adaptação 
suficientemente boa às necessidades do seu bebê, que são a princípio 
corporais e transformadas com o tempo em necessidades psicológicas. 
Winnicott cria esse conceito de “preocupação materna primária” 
descrevendo-o como um estado de “loucura” (também é chamado de “loucura 
materna primária”), que é um estado muito especial, uma espécie de 
hipersensibilidade que a mãe sente diante das necessidades do seu bebê, e 
assim, por meio dos cuidados a ele dedicados, proporciona-lhe o alívio de suas 
angústias. 
Esse conceito se caracteriza por um estado de fusão emocional da mãe 
com o seu bebê. Ela é o bebê e o bebê é a mãe. 
Esse estado peculiar possibilita à mãe, por estar identificada com o seu 
bebê, proporcionar, bem próximo da “hora certa”, aquilo que é necessário a ele. 
Trata-se, pois, de uma disposição psíquica que oportuniza à mãe estar “mais ou 
menos” adaptada. Essa disposição começa nas últimas semanas do período da 
gestação e continua até algumas semanas ou meses após o nascimento. 
Os estudos da fisiologia humana evidenciam que o hormônio ocitocina 
desempenha um papel essencial, por desenvolver sentimentos de empatia da 
mãe por seu bebê e também por favorecer o estabelecimento do vínculo e do 
apego entre ambos, além de ser essencial para o momento do parto e também 
durante o período de amamentação. 
No entanto, só esse hormônio não bastaria para se estabelecer na mãe 
esse estado alterado. Se as suas condições psíquicas estão favoráveis nesse 
 
 
12 
período, ela estará profundamente envolvida com o seu bebê e com os cuidados 
voltados para os bem-estar dele, por meio de uma forte identificação com a 
criança, como se fosse capaz de colocar-se em sua pele, e é isso que lhe 
possibilita ir ao encontro das necessidades do seu filho (Dethiville; Laura, 2013, 
p. 57). 
Durante a gestação, a mãe experimenta no seu corpo as transformações 
e o feto que se desenvolve dentro dela, assim como as transformações físicas. 
Entretanto, além dessas sensações somáticas, estão em curso também as 
sensações de natureza psíquica. Uma nova identidade se constrói. O “ser mãe” 
mobilizará num nível inconsciente suas representações acerca da maternidade 
desde a sua própria mãe até a sua vivência de ter sido, um dia, um bebê. Ao 
mesmo tempo, concebe imaginariamente um bebê em seu psiquismo: atribui-lhe 
uma fisionomia, um jeito de ser, um temperamento próprio. Na proximidade do 
nascimento, como se estivesse se preparando para a chegada do bebê real, ela 
vai se desfazendo daquela imagem idealizada, renunciando aquele bebê. No 
entanto, o bebê imaginado nunca desaparece completamente, e frequentemente 
é ele que o bebê encontra no olhar da sua mãe. 
A gravidez implica vivências muito diferentes. Há o que se chama 
inicialmente de gestação, período durante o qual a mãe experimenta o feto que 
se desenvolve dentro dela. 
Algumas circunstâncias podem impedir que a mãe desenvolva essa 
preocupação materna, dificultando que ela “contraia” essa “doença normal”, a 
loucura materna primária. Ao fazer contato com memórias inconscientes da sua 
vida de bebê, se viveu dificuldades naquele seu momento de vida, isso tende a 
se refletir em seu encontro com o bebê. Além disso, outro obstáculo é se o 
ambiente não ofereceusustentação suficiente para essa mãe. 
A ênfase dada por Winnicott à importância das relações primitivas mãe– 
bebê “quase” deixa de fora o pai. Poucas vezes a figura paterna é citada em sua 
obra, e o faz insistindo no seu papel continente. Assim, temos a mãe a sustentar 
o seu bebê, e o pai a sustentar toda a situação. 
Winnicott fala ainda de uma forte identificação masculina quando os 
interesses maternos estão mais distantes da maternagem, podendo a mãe até 
lutar contra esse estado de muita entrega, não tendo vontade de ser o “ambiente” 
para o seu bebê, podendo até sentir-se invadida por ele, como uma intrusão a 
lhe ameaçar. 
 
 
13 
Uma gravidez que se sucede a outra, dentro de um intervalo muito curto 
de tempo, pode gerar na mãe uma grande dificuldade em preparar, ou 
disponibilizar o seu aparelho psíquico para um novo bebê. A mãe pode se 
angustiar diante de um sentimento de impotência em viver de um lado uma fusão 
que ainda não acabou com uma criança de poucos meses, e do outro, a vinda 
de outro filho, ainda que querido a essa mãe. 
A mãe com o seu bebê formam uma unidade. Assim, ela lhe auxilia a se 
integrar. Se isso não acontece, ele fica num estado de não integração. Um corpo 
com partes soltas, como consequência de falhas ambientais importantes que 
dificultarão a integração do self, o estabelecimento da psique no corpo e as 
relações de objeto. 
Até aqui, vimos a grande importância dada a essa condição psíquica da 
mãe, a preocupação materna primária. 
Se é preocupante quando a mãe não consegue entregar-se a esse 
estado, não menos preocupante é a impossibilidade de ela ver-se “curada” dessa 
doença necessária. Que consequências isso terá para o bebê? 
Para Winnicott, a mãe precisa gozar de boa saúde psíquica para atingir 
esse estado, e dele se curar, quando a criança atinge o estágio de dependência 
relativa e a libera. Há um duplo movimento em jogo nessa inter-relação: uma 
mãe que se cura e uma criança que a libera. Exemplificando, se um bebê 
morresse antes desse período por morte súbita, morte no berço, a mãe poderia 
estar em grande perigo, vivendo um estado patológico importante. Inversamente, 
se a mãe não conseguisse abandonar esse estado particular e mantivesse a 
criança nesse período de ilusão além do necessário, também não lhe 
possibilitaria elaborar um estado psíquico pessoal, um “espaço potencial”, no 
qual o outro não sabe tudo dela. 
Por fim, Winnicott constata existir espaço para todo tipo de mãe nesse 
planeta. Nenhuma delas (para sorte dos bebês) será perfeita. Assim, como cada 
mãe é muito boa em uma ou outra atividade de cuidados com seu bebê, cada 
uma delas será ruim em outras. Haverá falhas durante esse percurso. O espaço 
vazio ou o desconforto provocado por tais falhas será preenchido aos poucos na 
atividade mental da criança, pela atividade da fantasia. 
Se essa tese sobre o estado especial da mãe normal e sua recuperação 
parecer aceitável, poderemos passar a examinar mais detidamente o estado 
correspondente do bebê. 
 
 
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O bebê apresenta: 
• uma constituição; 
• tendências inatas ao desenvolvimento; 
• motilidade e sensibilidade; 
• instintos, eles próprios engajados na tendência ao desenvolvimento. 
A mãe que desenvolve esse estado ao qual chamamos de “preocupação 
materna primária” fornece um contexto para que a constituição da criança 
comece a se manifestar, para que as tendências do desenvolvimento comecem 
a desdobrar-se. 
NA PRÁTICA 
Traremos aqui um breve relato que fez parte dos estudos de casos 
clínicos de Winnicott. 
Uma mulher que adotou um bebê de seis semanas percebe que ele reage 
bem ao contato humano, ao carinho e aos cuidados que envolvem segurá-lo e 
manuseá-lo. Mesmo com apenas seis semanas de vida, ela nota que ele já traz 
consigo um padrão adquirido de experiências anteriores, um padrão que se 
relaciona apenas com a alimentação. Para fazer com que o bebê se alimentasse, 
a mãe precisava colocá-lo no chão ou em cima de uma mesa bem firme, e sem 
nenhum tipo de contato físico, segurar a mamadeira para que ele começasse a 
reagir, sugando o líquido. Esse padrão alimentar anormal persistiu e se 
incorporou na personalidade da criança, deixando bastante nítido que essa 
experiência inicial de alimentação impessoal teve um efeito que não resultou 
benéfico. 
O que podemos extrair desse caso? Diante da enorme riqueza 
relacionada à experiência da amamentação, temos um bebê acordado, alerta e 
absolutamente engajado naquela circunstância, naquele encontro com a sua 
mãe. 
Na experiência precocemente vivida por esse bebê que foi 
institucionalizado, portanto, tendo-lhe faltado uma presença materna, ainda que 
substituta, que lhe aninhasse no colo enquanto lhe fosse oferecida uma 
mamadeira, podemos observar uma falha ambiental que trouxe como 
consequência imediata sua impossibilidade de suportar o toque físico do outro – 
nesse caso, a sua mãe adotiva. 
 
 
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Apesar de Winnicott não se referir quanto à evolução desse caso, 
podemos pensar que essa criança tenda a desenvolver dificuldades afetivas com 
outras pessoas. 
FINALIZANDO 
Pela observação dos temas trazidos, fica evidenciada a ênfase que o 
autor dará à influência do ambiente no desenvolvimento da criança. 
Winnicott foi o primeiro grande teórico da psicanálise a enfatizar o papel 
do ambiente no desenvolvimento psicológico. Ele verificou em sua clínica com 
crianças a influência evidente que as atitudes das mães exercem sobre seus 
bebês. 
Ao abordar o papel crucial do ambiente no desenvolvimento infantil, 
introduz a noção fundamental de “ambiente suficientemente bom”, afirmando 
que um contexto dessa natureza seria indispensável para a constituição de um 
indivíduo emocionalmente saudável. 
Assim, ele estabelece uma equivalência entre “mãe” e “ambiente, 
postulando o conceito “mãe-ambiente”, e com isso, lhe atribui um papel vital na 
vida do seu bebê. 
Podemos concluir, diante dos conteúdos expostos nesta etapa, que se a 
mãe proporciona uma adaptação suficientemente boa às necessidades do bebê, 
a vida dele é perturbada muito pouco por reações a intrusões (falhas ambientais). 
Caso contrário, quando as falhas maternas provocam excesso de reações por 
parte do bebê, que tenta se defender dessas intrusões, podem provocar nele 
uma interrupção no seu sentimento de continuidade (o “continuar a ser” do bebê) 
e uma ameaça de aniquilamento. 
 
 
 
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REFERÊNCIAS 
DETHIVILLE, L. Donald W. Winnicott: uma nova abordagem. Campinas: Ed. 
Armazém do Ipê, 2013.

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