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A CLÍNICA EM WINNICOTT AULA 2 Profª Simone Freitas 2 CONVERSA INICIAL A relação do bebê com a sua mãe foi o interesse principal de Winnicott. Foi com base em suas primeiras descobertas a respeito da qualidade dessa relação que avançou para outros campos da sua pesquisa. Por meio desse encontro primordial, uma disponibilidade natural e espontânea do bebê humano em direção à saúde, tal como o autor propõe, encontrará na mãe suficientemente boa as condições para o seu desenvolvimento, e assim fará um percurso de uma dependência absoluta para uma dependência relativa, rumo à independência. Algumas funções são atribuídas à mãe para que o exercício da maternagem, incluindo as inevitáveis e necessárias falhas, possa resultar em um desenvolvimento psicoemocional satisfatório do seu bebê. Ele destaca que a influência mais importante sobre a vida de uma criança é a soma das ações e reações impensadas da mãe e do seu entorno, ou seja, não são as ações refletidas que têm os principais efeitos. Nesse ponto, Winnicott advertirá médicos e enfermeiros quanto ao cuidado em relação às mães, ao instruí-las demais e ao corrigi-las demais. O ponto de partida de uma mãe nos cuidados dispensados ao seu bebê é a identificação que terá com ele, por ter em si a experiência de um dia ter sido bebê. Esse é o seu saber. Com o objetivo de tornar a teoria desse autor ainda mais compreensível, trataremos nesta etapa dos conceitos de mãe ambiente, mãe suficientemente boa, as funções a ela atribuídas (holding, handling e apresentação de objeto) e preocupação materna primária. TEMA 1 – PREMATURIDADE DO FILHOTE HUMANO Ao contrário do que acontece com todo o reino animal, os bebês humanos, destinados a se tornarem seres de linguagem, não vêm ao mundo equipados com um conjunto de instintos que lhes indique como ingressar na vida. São humanos de primeira viagem. O mesmo aparato instintivo também inexiste nas mulheres adultas. Como explicar que os bebês, apesar desse déficit instintivo relativo a eles mesmos e a suas mães, consigam sobreviver? Winnicott, de modo generoso, tranquiliza as mães propondo que possam confiar em seu ofício de cuidar do seu bebê, as advertindo sobre uma qualidade 3 muito modesta e essencial para o exercício da maturidade: o bom senso. Com isso, o autor pretende afastar a mãe de uma busca onipotente de ser “tudo” para seu bebê, agindo tal como se fossem excelentes performistas. No lugar disso, o bom senso indicará que tudo o que o bebê necessita, e tudo o que é possível à sua mãe é que ela seja boa… o suficiente. Uma mãe amadora, diante do seu bebê e das manifestações de desconforto, pode até pensar em recorrer a especialistas de bebês, já que ela se encontra em uma sociedade tecnocientífica, na qual a eficiência tecnológica oferece a esperança de que seja possível aprender o que quer que seja sem errar. As mães de maior poder aquisitivo se cercam de enfermeiras, cuidadoras, babás experientes para manusear e alimentar o seu recém-nascido. No caso dessas mães, é inestimável o valor das pequenas lições para resolver problemas simples transmitidos por outras mães, tais como uma troca de fraldas, facilitar a chegada do sono ou simplesmente alimentar o bebê. Às vezes, essa sabedoria vem da mãe daquela mãe, ou de outras mulheres próximas, já veteranas nas artes da maternagem. Na atualidade, muitas vezes as pessoas desconfiam cada vez mais do valor da experiência transmitida entre sujeitos que compartilham destinos semelhantes, só se sentindo seguras quando substituem tais saberes peculiares por inovações científicas e tecnológicas ou discursos da moda. A ousadia de Winnicott (atual até hoje) consiste na ajuda que oferece às mães para que confiem nas pequenas singularidades, até nos pequenos defeitos como partes indissociáveis do que os filhotes precisam para inaugurar sua vidinha no mundo. Ao atentar para o surgimento dos mínimos potenciais adaptativos do bebê, a mãe o ajuda a desenvolvê-los, de acordo com o que ele tem a oferecer no momento e com a fase do desenvolvimento em que ele se encontra. Assim como as chamadas “doenças da infância” contribuem para o fortalecimento da resistência do corpo saudável, os pequenos erros das “mães suficientemente boas” contribuem para o robustecimento psíquico e emocional dos seus filhos. A insatisfação, a sensação de desprazer são as primeiras notícias que chegam ao bebê, horas ou dias após o nascimento, da separação do corpo materno. É quando o bebê “descobre” que nasceu. 4 O nascimento, além de trazer o bebê ao mundo por nós habitados, inaugura nele uma falta. mas não toda de uma só vez. A vivência da fusão com o corpo materno nem sempre se rompe imediatamente após o parto. A percepção da separação física em relação à mãe, ao se inaugurar, inaugura também o desamparo, em razão da percepção da insatisfação – a começar pela fome, vivência corporal assustadora e desconhecida para quem até então era suprido sem descontinuidade através do cordão umbilical. O que fazer diante da angústia expressa no choro do filhote que de repente descobre que nasceu? TEMA 2 – MÃE SUFICIENTEMENTE BOA Winnicott utiliza a expressão “mãe suficientemente boa” para designar tudo aquilo que uma mulher precisa ser para o seu bebê. Winnicott costumava falar para muitos públicos. Certa feita, ao falar para mães, salientou que o seu fazer, o cuidado voltado para seus bebês, elas fazem bem, e o fazem bem simplesmente porque toda mãe se dedica à tarefa que tem em mãos, ou seja, cuidar de um bebê. Disse que isso é o comum, o ordinário, e que é uma exceção um bebê não ser cuidado desde o início por um especialista. Uma produtora da BBC de Londres, programa do qual sempre participava, entendeu, com base em seus ditos naquela palestra, que a síntese de sua explanação seria “A mãe dedicada comum”. E assim nasceu esse conceito, que na época não foi bem compreendido por alguns teóricos que julgavam ser um psicologismo inocente, constituindo um ideal na relação mãe-bebê, e com potencial de culpabilização das mães (o fracasso da mãe em sua dedicação ao bebê seria um dos fatores da etiologia do autismo). Winnicott afirma parecer banal, quando diz que “por dedicada” quer dizer apenas dedicada. Mais tarde, passa a denominar essa mãe dedicada comum de mãe suficientemente boa. Explica que a mãe não precisa ser “boa”, mas apenas “suficiente”. Ainda, afirma que entre ser “boa” e ser “suficientemente boa” há uma grande diferença. Na segunda opção, evitamos o sentimentalismo e a idealização. Winnicott nunca aceitou o sentimentalismo em sua obra por achar que ele conduz à ignorância e ao ódio. 5 Exemplificando, uma mãe que negligencia a alimentação de seu filho é tão “insuficientemente boa” quanto uma outra que o obrigue a alimentar-se todo o tempo. A mãe boa demais, segundo ele, produz um efeito devastador para a criança: ela faz algo pior do que castrar seu filho, pois só lhe dá a escolha entre a fusão e a rejeição total. Uma mãe suficientemente boa é aquela que, além de prover as necessidades do seu bebê, conduzindo-o a um estágio de absoluta dependência para outro de dependência relativa, também falha, e continuamente está a corrigir essas falhas. Com o passar do tempo, o bebê precisa que a mãe falhe ao adaptar-se às suas necessidades. Seria angustiante para a criança continuar se sentindo onipotente, mesmo depois de desenvolver o aparato necessário para lidar com frustrações e eventuais falhas no ambiente. É importante deixar claro que embora de início estejamos falando de coisas muito simples, como é a dedicação de uma mãe às necessidades básicas de um bebê – tais como alimentá-lo, asseá-lo, fazê-lo dormir, aconchegá-lo, oferecer-lhe segurança –, também estamos lidando com questões de importância vital,questões que têm a ver com a constituição dos alicerces da saúde mental que refletem (ou não) a qualidade do encontro do bebê com a sua mãe. A segurança adquirida pela criança dependerá das primeiras etapas vitais. Dependendo de ter (ou não) suas necessidades atendidas, uma série de traços e patologias poderão se desenvolver. No entanto, o aspecto mais notável na teoria de Winnicott é o fato de que não é esperado que as mães sejam perfeitas. Ao contrário disso, o autor, com surpreendente originalidade afirma que “o bebê precisa que a mãe falhe ao adaptar-se” – o espaço vazio ou desconforto provocado por tais falhas será preenchido aos poucos, na atividade mental da criança, pela atividade da fantasia. Assim, a expressão mãe dedicada comum vai designar um conjunto de qualidades e de falhas com as quais, no melhor dos casos, a mulher conta para apresentar o mundo ao recém-nascido. Ainda que esse recém-nascido seja imaturo diante de um mundo que lhe exige tantas adaptações, a mãe suficientemente boa aposta no rápido desenvolvimento de seus potenciais, e negará a satisfação de ser onipotentemente tudo para o seu filho. Ao notar o surgimento de mínimos potenciais adaptativos do seu bebê, ela o ajudará a desenvolvê-los. 6 A mãe um dia foi um bebê e tem em si as memórias dessa vivência. Tem também a memória de ter sido cuidada. Por esse motivo, ela torna-se capaz de adaptar-se de maneira tão íntima às primeiras necessidades do seu bebê. Dito isso, esclarece-se a afirmativa de Winnicott – “A mãe é o bebê e o bebê é a mãe”. TEMA 3 – MÃE AMBIENTE Como já foi dito anteriormente, o fato de o recém-nascido chegar ao mundo equipado de modo insuficiente, portanto, não possuindo recursos instintivos para se desenvolver, lhe coloca numa condição de dependência absoluta de sua mãe. Winnicott descreverá três estágios que descrevem o desenvolvimento humano com base nesse estágio inicial, de absoluta dependência: • dependência absoluta – ocorre no período do nascimento até por volta dos seis meses de idade. Nesse estado, o bebê não tem meios de saber sobre o cuidado materno, que em sua maior parte consiste em profilaxia. Ele não tem como exercer controle sobre o que é bem ou mal feito, e pode apenas beneficiar-se ou sofrer perturbações. Não há separação entre o corpo e o meio. Ainda não existe um corpo configurado. • dependência relativa – aqui se dá o início da distinção do ser, aparecendo entre os seis meses de vida até os dois anos de idade, mais ou menos. Nesse estágio, o bebê pode tomar consciência da importância dos detalhes dos cuidados maternos, e pode relacioná-los mais e mais a impulsos pessoais, e mais adiante, no tratamento psicanalítico, pode reproduzi-lo na transferência; • rumo à independência – o indivíduo se relaciona com os objetos do mundo externo, baseado no princípio da realidade. O bebê desenvolve a capacidade de tolerar a ausência dos cuidados. O êxito disso deve-se à acumulação de memórias desses cuidados, da projeção de necessidades e da introjeção de detalhes da atenção materna, juntamente com o desenvolvimento da confiança no ambiente. Ao abordar o papel crucial do ambiente no desenvolvimento emocional, Winnicott introduziu a noção fundamental de “ambiente suficientemente bom”. De acordo com ele, um contexto dessa natureza seria indispensável para a constituição de um indivíduo emocionalmente saudável. 7 A mãe suficientemente boa também é capaz de prover um ambiente suficientemente bom, no entanto, essa responsabilidade não cabe apenas a ela. Vale assinalar que, do ponto de vista winnicottiano, todos nós temos tendências inatas para a conquista dos atributos que constituem a saúde psíquica. No entanto, essas tendências só se atualizam se nos for oferecido um ambiente suficientemente bom. Trata-se de um contexto que facilite a expressão daquilo que já está potencialmente presente no sujeito: um ambiente facilitador. Winnicott foi o primeiro grande teórico da psicanálise a enfatizar o papel do ambiente no desenvolvimento psicoemocional. A função desse ambiente facilitador é a geração de um sentimento de onipotência no bebê, diante de sua dependência absoluta, em que suas necessidades são supridas por meio dos cuidados maternos. Essa ilusão de onipotência vivida pelo bebê é fundamental, pois é com base nessa experiência que vai se formar uma ponte entre o mundo psíquico e o mundo externo. Isso é dado por meio da percepção do bebê de que existem coisas no mundo externo que suprem suas angústias, que consolam, que alimentam, que acarinham e que lhe dão sustentação. Para Winnicott, o bebê que tenha tido uma experiência de onipotência no início da vida será capaz de lidar com as frustrações. Para o desenvolvimento emocional saudável, um ambiente suficientemente bom deve apresentar gradualmente falhas no cumprimento das necessidades do bebê, o que dá início a um processo de desilusão, na fase que Winnicott chama de “dependência relativa”. Por exemplo, quando a mãe vai gradualmente gerando alternâncias entre presenças e ausências, o bebê já começa a suportar suas pequenas ausências porque vai encontrando no caminho objetos transicionais – conceito que retomaremos adiante. Para Winnicott, o ser humano é um ser potencialmente criativo, trazendo em si uma tendência inata para se integrar e amadurecer, numa condição direta de dependência de um ambiente que ofereça as condições para que essas potencialidades se realizem. O ambiente é representado pela mãe – a mãe ambiente – que de modo empático e sensível, e também por estar identificada com o seu bebê, como se colocasse em seu lugar, adapta-se aos seus vários estágios de desenvolvimento, e responde de modo suficiente às suas necessidades. 8 TEMA 4 – HOLDING, HANDLING E APRESENTAÇÃO DE OBJETO: FUNÇÕES MATERNAS Para que o bebê seja capaz de começar a desenvolver-se, a tornar-se um ser, a encontrar o mundo que conhecemos, a tornar-se consistente e a encontrar-se a si mesmo, os seguintes aspectos da mãe surgem como vitalmente importantes. Ela existe e prossegue existindo. Ela vive, cheira, respira, seu coração bate. Ela está ali para ser sentida de todos os modos possíveis. Ela ama de um modo físico, proporciona contato, calor corporal, movimento e quietude, de acordo com as necessidades do bebê. Ela fornece a possibilidade de o bebê fazer a transição entre o estado tranquilo e o estado de excitação, por exemplo, evitando surgir de repente com o alimento a exigir a resposta do bebê. Ela providencia alimento aceitável nos momentos adequados. No início, ela permite que o bebê domine, estando disposta (visto que o bebê está tão perto de ser uma parte de si mesma) a manter-se de prontidão para responder-lhe. Ela vai introduzindo pouco a pouco, e cuidadosamente, o mundo externo compartilhado de acordo com as necessidades do bebê. Ela protege o bebê de sustos e coincidências (por exemplo, uma porta que bate no momento em que o bebê pega o seio), tentando manter a situação física e emocional suficientemente simples para que o bebê consiga entender, e ainda assim, rica o bastante para atender às suas crescentes capacidades. Ela fornece continuidade. Há uma certa repetição, um ritmo conhecido pelo bebê, e assim ele não viverá tensões causadas por alterações bruscas nos cuidados que recebe. Ser carregado, ser virado, ser deitado e, naturalmente, ser alimentado se constituem como as primeiras funções essenciais do ambiente: o holding (o “sustentar”), o handling (o “manejar”) e o object presenting (a “apresentação de objeto). Todos os aspectos da mãe que foram citados se realizam nessas funções, no dia a dia com os seus bebês, de modo espontâneo. 9 4.1 Holding Pode ser traduzido tanto por “pegar, “sustentar” ou “carregar”. Trata-se de um ato não apenas físico, como também psíquico. Pode-sedizer que a mãe tem o seu filho “na cabeça”. Ela fantasia o seu filho. A depressão pós-parto constitui um impedimento para um holding bem realizado. Se a mãe consegue apenas garantir a continuidade do holding físico, mas não há com o seu bebê um envolvimento emocional, psíquico, há consequências para a criança, caso não haja alguém que faça essa função. A mãe ambiente é quem, por intermédio do holding, oferece ao bebê uma experiência de continência, de contorno corporal e físico, fazendo-lhe bordas que o ajudarão, aos poucos, a distinguir-se do mundo externo, ou seja, a diferenciar o “eu” de um “não eu”. 4.2 Handling A segunda função essencial do ambiente (mãe ambiente) é o “handling”. Traduzido como “manejo”, esse termo deriva de hand (“mão”). Trata-se da maneira como a mãe maneja o corpo do seu filho durante os cuidados que lhe dedica: o aleitamento, a higiene, a troca de fraldas, o vestir, o carinho físico, ou seja, tudo aquilo que está envolvido no contato “pele com pele”. Não há técnica, mas sim um saber próprio da mãe, sua maneira de cuidar do seu bebê, incluindo corpo e psique ao mesmo tempo. Através do handling, as bordas do corpo são experienciadas, fazendo com que o bebê comece a se distinguir do ambiente. Nesse momento, o bebê tem uma experiência corporal de fragmentação, de uma não integração e a mãe se vê integrada, como uma pessoa inteira. Ela olha o seu bebê e o vê à sua imagem, como uma pessoa integral. E o que o bebê vê no olhar da mãe pela maneira de ser manuseado é o dom de viver essa totalidade que ela lhe dá. Winnicott observa que é por esse meio que ocorre o processo de “personalização”. Isto é, do “alojamento da psique no corpo”. Podemos observar pessoas ao nosso redor que parecem habitar plenamente seus corpos, e outras que parecem estar em um corpo emprestado, como se não o habitassem verdadeiramente. 10 Aqui, falhou uma espécie de “coesão psicossomática”, citado por Winnicott para explicar como acontece (ou não) o alojamento da psique no corpo. Esses primeiros cuidados (holding e handling) possibilitam ao indivíduo habitar no seu corpo, e traçar e reconhecer seus limites, deixando, aos poucos, a experiência corporal de “disformidade”, passando a partir de então a integrar uma experiência psicossomática. 4.3 Apresentação de objeto A terceira função que compete à mãe suficientemente boa é a apresentação de objeto ou apresentação de mundo, que consiste em oferecer objetos substitutivos de satisfação. Relaciona-se com a realidade externa. Diz respeito ao momento em que a mãe já inicia um processo de disfusionamento com o seu bebê. É quando ela já se volta para outros interesses, começa a falhar em suas respostas de adaptação às necessidades dele, como uma mãe suficientemente boa. Com isso, ela oferece ao seu bebê a possibilidade de encontrar substitutos de si mesma na externalidade, que são os objetos de satisfação externa. É fundamental para o avanço da fase da dependência absoluta para a dependência relativa, uma vez que possibilita o interesse, a curiosidade e a busca de objetos de satisfação para além da mãe. Assim, ela vai apresentando o mundo ao seu bebê, em pequenas doses, ao passo que possibilita a ilusão inicial (onipotência) de que quem criou aquilo foi o bebê. Segundo Winnicott, essa adaptação é o que oportunizará o estabelecimento das relações objetais. Winnicott afirma que o bebê desenvolve a expectativa vaga que se origina em uma necessidade não formulada. A mãe, ao se adaptar às suas necessidades, apresenta um objeto que satisfaz às necessidades dele, de modo que começa a necessitar exatamente do que ela lhe apresenta. Desse modo, o bebê começa a se sentir confiante em ser capaz de criar objetos e criar o mundo real. A mãe proporciona ao bebê um breve período em que a onipotência é um fato de experiência, garantida pela função desempenhada pela ilusão. 11 TEMA 5 – PREOCUPAÇÃO MATERNA PRIMÁRIA É esperado de qualquer bebê que, durante o seu desenvolvimento, três operações devam acontecer: 1. o bebê deve fazer contato com a realidade; 2. a personalidade do bebê deve tornar-se integrada, e a integração deve tornar-se estável; 3. o bebê deve passar a sentir-se vivendo dentro do seu corpo, e que no início não é sentido por ele como algo tão significativo quanto é para nós. Três coisas: contato com a realidade, integração e percepção do corpo. Segundo Winnicott, é o ego da mãe que possibilitará ao bebê não ser aniquilado ou devastado pela violência de suas experiências pulsionais, e viver experiências de ajuntar, integrar. A mãe fornece uma adaptação suficientemente boa às necessidades do seu bebê, que são a princípio corporais e transformadas com o tempo em necessidades psicológicas. Winnicott cria esse conceito de “preocupação materna primária” descrevendo-o como um estado de “loucura” (também é chamado de “loucura materna primária”), que é um estado muito especial, uma espécie de hipersensibilidade que a mãe sente diante das necessidades do seu bebê, e assim, por meio dos cuidados a ele dedicados, proporciona-lhe o alívio de suas angústias. Esse conceito se caracteriza por um estado de fusão emocional da mãe com o seu bebê. Ela é o bebê e o bebê é a mãe. Esse estado peculiar possibilita à mãe, por estar identificada com o seu bebê, proporcionar, bem próximo da “hora certa”, aquilo que é necessário a ele. Trata-se, pois, de uma disposição psíquica que oportuniza à mãe estar “mais ou menos” adaptada. Essa disposição começa nas últimas semanas do período da gestação e continua até algumas semanas ou meses após o nascimento. Os estudos da fisiologia humana evidenciam que o hormônio ocitocina desempenha um papel essencial, por desenvolver sentimentos de empatia da mãe por seu bebê e também por favorecer o estabelecimento do vínculo e do apego entre ambos, além de ser essencial para o momento do parto e também durante o período de amamentação. No entanto, só esse hormônio não bastaria para se estabelecer na mãe esse estado alterado. Se as suas condições psíquicas estão favoráveis nesse 12 período, ela estará profundamente envolvida com o seu bebê e com os cuidados voltados para os bem-estar dele, por meio de uma forte identificação com a criança, como se fosse capaz de colocar-se em sua pele, e é isso que lhe possibilita ir ao encontro das necessidades do seu filho (Dethiville; Laura, 2013, p. 57). Durante a gestação, a mãe experimenta no seu corpo as transformações e o feto que se desenvolve dentro dela, assim como as transformações físicas. Entretanto, além dessas sensações somáticas, estão em curso também as sensações de natureza psíquica. Uma nova identidade se constrói. O “ser mãe” mobilizará num nível inconsciente suas representações acerca da maternidade desde a sua própria mãe até a sua vivência de ter sido, um dia, um bebê. Ao mesmo tempo, concebe imaginariamente um bebê em seu psiquismo: atribui-lhe uma fisionomia, um jeito de ser, um temperamento próprio. Na proximidade do nascimento, como se estivesse se preparando para a chegada do bebê real, ela vai se desfazendo daquela imagem idealizada, renunciando aquele bebê. No entanto, o bebê imaginado nunca desaparece completamente, e frequentemente é ele que o bebê encontra no olhar da sua mãe. A gravidez implica vivências muito diferentes. Há o que se chama inicialmente de gestação, período durante o qual a mãe experimenta o feto que se desenvolve dentro dela. Algumas circunstâncias podem impedir que a mãe desenvolva essa preocupação materna, dificultando que ela “contraia” essa “doença normal”, a loucura materna primária. Ao fazer contato com memórias inconscientes da sua vida de bebê, se viveu dificuldades naquele seu momento de vida, isso tende a se refletir em seu encontro com o bebê. Além disso, outro obstáculo é se o ambiente não ofereceusustentação suficiente para essa mãe. A ênfase dada por Winnicott à importância das relações primitivas mãe– bebê “quase” deixa de fora o pai. Poucas vezes a figura paterna é citada em sua obra, e o faz insistindo no seu papel continente. Assim, temos a mãe a sustentar o seu bebê, e o pai a sustentar toda a situação. Winnicott fala ainda de uma forte identificação masculina quando os interesses maternos estão mais distantes da maternagem, podendo a mãe até lutar contra esse estado de muita entrega, não tendo vontade de ser o “ambiente” para o seu bebê, podendo até sentir-se invadida por ele, como uma intrusão a lhe ameaçar. 13 Uma gravidez que se sucede a outra, dentro de um intervalo muito curto de tempo, pode gerar na mãe uma grande dificuldade em preparar, ou disponibilizar o seu aparelho psíquico para um novo bebê. A mãe pode se angustiar diante de um sentimento de impotência em viver de um lado uma fusão que ainda não acabou com uma criança de poucos meses, e do outro, a vinda de outro filho, ainda que querido a essa mãe. A mãe com o seu bebê formam uma unidade. Assim, ela lhe auxilia a se integrar. Se isso não acontece, ele fica num estado de não integração. Um corpo com partes soltas, como consequência de falhas ambientais importantes que dificultarão a integração do self, o estabelecimento da psique no corpo e as relações de objeto. Até aqui, vimos a grande importância dada a essa condição psíquica da mãe, a preocupação materna primária. Se é preocupante quando a mãe não consegue entregar-se a esse estado, não menos preocupante é a impossibilidade de ela ver-se “curada” dessa doença necessária. Que consequências isso terá para o bebê? Para Winnicott, a mãe precisa gozar de boa saúde psíquica para atingir esse estado, e dele se curar, quando a criança atinge o estágio de dependência relativa e a libera. Há um duplo movimento em jogo nessa inter-relação: uma mãe que se cura e uma criança que a libera. Exemplificando, se um bebê morresse antes desse período por morte súbita, morte no berço, a mãe poderia estar em grande perigo, vivendo um estado patológico importante. Inversamente, se a mãe não conseguisse abandonar esse estado particular e mantivesse a criança nesse período de ilusão além do necessário, também não lhe possibilitaria elaborar um estado psíquico pessoal, um “espaço potencial”, no qual o outro não sabe tudo dela. Por fim, Winnicott constata existir espaço para todo tipo de mãe nesse planeta. Nenhuma delas (para sorte dos bebês) será perfeita. Assim, como cada mãe é muito boa em uma ou outra atividade de cuidados com seu bebê, cada uma delas será ruim em outras. Haverá falhas durante esse percurso. O espaço vazio ou o desconforto provocado por tais falhas será preenchido aos poucos na atividade mental da criança, pela atividade da fantasia. Se essa tese sobre o estado especial da mãe normal e sua recuperação parecer aceitável, poderemos passar a examinar mais detidamente o estado correspondente do bebê. 14 O bebê apresenta: • uma constituição; • tendências inatas ao desenvolvimento; • motilidade e sensibilidade; • instintos, eles próprios engajados na tendência ao desenvolvimento. A mãe que desenvolve esse estado ao qual chamamos de “preocupação materna primária” fornece um contexto para que a constituição da criança comece a se manifestar, para que as tendências do desenvolvimento comecem a desdobrar-se. NA PRÁTICA Traremos aqui um breve relato que fez parte dos estudos de casos clínicos de Winnicott. Uma mulher que adotou um bebê de seis semanas percebe que ele reage bem ao contato humano, ao carinho e aos cuidados que envolvem segurá-lo e manuseá-lo. Mesmo com apenas seis semanas de vida, ela nota que ele já traz consigo um padrão adquirido de experiências anteriores, um padrão que se relaciona apenas com a alimentação. Para fazer com que o bebê se alimentasse, a mãe precisava colocá-lo no chão ou em cima de uma mesa bem firme, e sem nenhum tipo de contato físico, segurar a mamadeira para que ele começasse a reagir, sugando o líquido. Esse padrão alimentar anormal persistiu e se incorporou na personalidade da criança, deixando bastante nítido que essa experiência inicial de alimentação impessoal teve um efeito que não resultou benéfico. O que podemos extrair desse caso? Diante da enorme riqueza relacionada à experiência da amamentação, temos um bebê acordado, alerta e absolutamente engajado naquela circunstância, naquele encontro com a sua mãe. Na experiência precocemente vivida por esse bebê que foi institucionalizado, portanto, tendo-lhe faltado uma presença materna, ainda que substituta, que lhe aninhasse no colo enquanto lhe fosse oferecida uma mamadeira, podemos observar uma falha ambiental que trouxe como consequência imediata sua impossibilidade de suportar o toque físico do outro – nesse caso, a sua mãe adotiva. 15 Apesar de Winnicott não se referir quanto à evolução desse caso, podemos pensar que essa criança tenda a desenvolver dificuldades afetivas com outras pessoas. FINALIZANDO Pela observação dos temas trazidos, fica evidenciada a ênfase que o autor dará à influência do ambiente no desenvolvimento da criança. Winnicott foi o primeiro grande teórico da psicanálise a enfatizar o papel do ambiente no desenvolvimento psicológico. Ele verificou em sua clínica com crianças a influência evidente que as atitudes das mães exercem sobre seus bebês. Ao abordar o papel crucial do ambiente no desenvolvimento infantil, introduz a noção fundamental de “ambiente suficientemente bom”, afirmando que um contexto dessa natureza seria indispensável para a constituição de um indivíduo emocionalmente saudável. Assim, ele estabelece uma equivalência entre “mãe” e “ambiente, postulando o conceito “mãe-ambiente”, e com isso, lhe atribui um papel vital na vida do seu bebê. Podemos concluir, diante dos conteúdos expostos nesta etapa, que se a mãe proporciona uma adaptação suficientemente boa às necessidades do bebê, a vida dele é perturbada muito pouco por reações a intrusões (falhas ambientais). Caso contrário, quando as falhas maternas provocam excesso de reações por parte do bebê, que tenta se defender dessas intrusões, podem provocar nele uma interrupção no seu sentimento de continuidade (o “continuar a ser” do bebê) e uma ameaça de aniquilamento. 16 REFERÊNCIAS DETHIVILLE, L. Donald W. Winnicott: uma nova abordagem. Campinas: Ed. Armazém do Ipê, 2013.