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ECONOMIA PARA ENGENHARIA Prezado(a) aluno(a)! Continuando os estudos sobre a evolução do pensamento econômico, nesta aula vamos abordar sobre outras correntes de pensamento econômico, que moldaram a teoria e a prática econômica ao longo da história. A Escola Psicológica Austríaca, fundada por Carl Menger no século XIX, enfatiza a importância da ação individual e da subjetividade na determinação do valor econômico, desafiando as abordagens mais tradicionais que priorizavam aspectos quantitativos. O Marxismo, com suas críticas ao capitalismo e foco nas relações de classe, trouxe uma perspectiva alternativa que questiona a distribuição de riqueza e poder na sociedade. Por fim, a Fisiocracia destacou-se como uma das primeiras escolas de pensamento econômico, enfatizando o papel da agricultura como fonte primária de riqueza e defendendo uma abordagem naturalista para a economia, dentre outras Escolas que serão detalhadas durante esta aula. Essas correntes não apenas refletem diferentes visões sobre como a economia funciona, mas também influenciam políticas públicas e debates contemporâneos sobre desenvolvimento econômico e justiça social. Citations: [1] https://www.institutoliberal.org.br/blog/entenda-diferencas-entre-a- escola-austriaca-e-a-escola-de-chicago-de-economia/ [2] https://mises.org.br/article/688/as-raizes-escolasticas-da-escola- AULA 03 – ESCOLA DE LAUSANNE O MARXISMO A FISIOCRACIA 3 ESCOLA PSICOLÓGICA AUSTRÍACA OU ESCOLA DE VIENA E A TEORIA DA UTILIDADE MARGINAL Karl Menger foi o principal cientista da escola psicológica, que ganhou destaque a partir de 1870. Em 1871, ele desenvolveu uma teoria do valor de troca fundamentada no princípio da utilidade marginal, uma ideia que foi simultaneamente abordada pelo economista inglês Stanley Jevons em 1871 e pelo francês Léon Walras em 1874. Apesar de não serem amplamente divulgadas no mundo ocidental devido à barreira da língua, as obras de Menger formaram a base dos estudos teóricos que se desenvolveram na Alemanha e na Áustria. Entre seus seguidores, destacaram-se Friedrich von Wieser e Eugen Böhm-Bawerk, que realizaram importantes contribuições, especialmente nas áreas da teoria do capital e da taxa de juros. A revolução mengeriana representou, fundamentalmente, uma mudança no foco dos estudos econômicos: ao invés de se concentrar na riqueza e na forma como é produzida, distribuída e consumida, típica dos autores clássicos, Menger direcionou sua análise para as necessidades humanas, sua satisfação e a avaliação subjetiva dos bens. Ele observou que os indivíduos possuem escalas de preferência que surgem de diversos motivos. Além disso, notou que os bens desejados pelos consumidores frequentemente têm uma oferta inferior à demanda, levando cada pessoa a classificar seus desejos conforme a importância que lhes atribui (VASCONCELLOS, 2023). Com base no estudo das escalas de preferência de um indivíduo em relação a diversos bens, considerando as limitações impostas pela natureza, o confronto entre as preferências dos agentes econômicos e outros fatores, Menger buscou reconstruir a atividade econômica. Ele superou a abordagem dos clássicos, que se restringiam ao estudo dos problemas de preços em uma economia de troca e acreditavam que o valor dos bens era determinado pela quantidade de trabalho incorporada a eles. Menger propôs uma teoria do valor que explicasse a importância subjetiva atribuída pelos indivíduos aos bens, fundamentando o valor na utilidade de um bem que existe em quantidade limitada (noção de margem) e em sua capacidade de satisfazer as necessidades dos agentes econômicos. Outra figura de destaque na Escola de Viena, foi Böhm-Bawerk, que atuou como professor e foi ministro das Finanças da Áustria em três ocasiões. Com uma abordagem formal e dedutiva, ele se dedicou a analisar a natureza do capital e seu papel no processo produtivo. Böhm-Bawerk buscou conciliar duas visões opostas: as desvantagens da restrição ao consumo e as vantagens das futuras expansões da produção, fundamentando-se na teoria subjetiva do valor. Ele acreditava que o homem econômico, motivado pelo desejo de maximizar a utilidade, tende a supervalorizar as necessidades imediatas e subestimar a intensidade dos desejos futuros. Isso leva à necessidade de compensar a poupança atual com o pagamento de juros, uma vez que essa poupança representa o sacrifício de satisfações presentes. 3.1 Escola de Cambridge Seu principal representante, Alfred Marshall, foi professor de Economia Política na Universidade de Cambridge e exerceu uma enorme influência sobre gerações de pensadores econômicos, elevando a escola que leva o nome da sua universidade a uma posição de destaque. Sua obra, Principles of Economics (primeira edição em 1890), foi considerada por Keynes como o marco inicial da era moderna da ciência econômica britânica. Marshall via a economia como o estudo da humanidade nas atividades cotidianas, entendendo-a como uma ciência do comportamento humano, em vez de uma mera ciência da riqueza. Para ele, o objetivo das contribuições teóricas deveria ser a clarificação de problemas práticos, uma posição que contrasta fortemente com a de Walras. Ele se esforçou para tornar suas análises acessíveis ao grande público, adotando um estilo simples e claro. Ao contrário de seus contemporâneos neoclássicos, evitou o uso de exposições matemáticas. A complexidade do sistema econômico e a variedade de motivos que influenciam o comportamento humano, levaram Marshall a desenvolver técnicas para o estudo sistemático da economia. Ele buscou simplificar a análise ao reduzir o número de variáveis a proporções gerenciáveis e criar um método para mensurar comportamentos. Utilizando o método dedutivo ou abstrato, separou uma variável ou um setor da economia de cada vez, partindo do pressuposto de que seu comportamento não teria uma influência significativa sobre o restante da atividade econômica (princípio da desprezibilidade dos efeitos indiretos). Isso não implica que a parte da economia não analisada permaneça inalterada, mas sugere que, se o pequeno setor em questão for afetado por uma mudança externa, sua adaptação resultará em um impacto desprezível sobre o restante da economia. A dificuldade em medir as motivações humanas, que representam um desafio para a investigação científica, decorre do fato de que nem todas as motivações são mensuráveis. Isso levou Marshall a observar que uma grande parte da vida humana é direcionada para a obtenção de ganho econômico, permitindo que as motivações sejam avaliadas por meio de um denominador comum: a moeda. No entanto, ele notou que a aplicação desse denominador a indivíduos pode não ser válida, recomendando seu uso em relação a grandes grupos ou organismos sociais, onde a quantidade de indivíduos é suficiente para nivelar as diferenças de renda. Assim, o estudo dos preços, tanto de bens quanto de fatores, tornou-se a principal área de investigação de Marshall, com o objetivo de identificar as regularidades da atividade econômica. Ele se tornou famoso por seu exemplo de aplicação da metodologia dedutiva ou abstrata, para investigar a interação entre as forças de oferta e demanda, explicando assim o surgimento do preço de equilíbrio. 3.2 Escola matemática ou escola de Lausanne e a teoria do equilíbrio geral Esta escola foi fundada pelo francês Léon Walras, que atuou como professor de Economia na Faculdade de Direito de Lausanne de 1870 a 1892, sendo sucedido por Vilfredo Pareto. A análise do equilíbrio geral representa uma abordagem alternativa à metodologia utilizada por Marshall para determinar o preço. Cournot já havia reconhecido a importância de considerar todo o sistema econômicopara encontrar soluções completas para problemas relacionados a partes desse sistema. No entanto, foi Walras quem desenvolveu um sistema matemático para demonstrar o equilíbrio geral, destacando a interdependência de todos os preços dentro do sistema econômico, além das relações entre micro e macroeconomia. Ele mostrou que as atividades das unidades de produção (famílias, empresas) não podem ser compreendidas de forma isolada ou separadas da economia como um todo. Ele buscou distinguir entre economia pura e economia aplicada, argumentando que o status da economia como ciência pura não deveria ser comprometido por interesses que tentassem alinhar as teorias aos problemas dos negócios públicos. Enquanto os autores da Escola de Lausanne se concentraram na busca pelo equilíbrio geral, Marshall e seus discípulos da Escola de Cambridge focaram na determinação do preço de um bem ou fator analisado individualmente. 3.3 O marxismo Karl Marx é o principal representante do movimento que leva seu nome. Ele se opôs aos processos analíticos dos economistas clássicos e às suas conclusões, fundamentando-se no que Lenin considerou a maior criação da humanidade no século XIX: a filosofia alemã, a economia política inglesa e o socialismo francês. Marx criticou a doutrina populacional de Malthus, argumentando que as diferenças entre os diversos estágios da evolução econômica e seus modos de produção são fundamentais. Ele afirmava que uma mudança no sistema produtivo poderia transformar uma aparente escassez populacional em um excedente demográfico (VASCONCELLOS, 2023). Marx concentrou-se em épocas históricas específicas, contestando os casos hipotéticos apresentados pelos clássicos, como Adam Smith, que discutiu um estágio "primitivo e rude" da sociedade. Ele criticou as construções abstratas que não levavam em conta a dinâmica interna do processo histórico nem as leis econômicas próprias de cada estágio histórico. Além de se envolver em disputas metodológicas com o classicismo, Marx reformulou a análise do valor, embora tenha utilizado diversos elementos da teoria do valor-trabalho clássica, especialmente de Ricardo. Ele desenvolveu conceitos que se tornaram amplamente conhecidos, como mais-valia, capital variável, capital constante e exército de reserva industrial, além de analisar a acumulação de capital, a distribuição da renda e as crises econômicas. Marx afirmava que o valor da força de trabalho é determinado, assim como o de qualquer outra mercadoria, pelo tempo de trabalho necessário para sua produção. Ele desenvolveu argumentos para demonstrar que esse valor se baseia nos insumos necessários à subsistência dos trabalhadores e em seu treinamento. No entanto, as condições de produção do sistema capitalista forçam os trabalhadores a vender mais tempo de trabalho do que o necessário para produzir valores equivalentes às suas necessidades básicas. Assim, os trabalhadores são obrigados a aceitar as condições impostas pelos empregadores, pois não têm fontes alternativas de renda. Dessa forma, seu dia de trabalho é composto pelo tempo necessário para produzir valores que atendem às suas exigências de manutenção e por um tempo excedente. O valor gerado pelo tempo de trabalho excedente é apropriado pelos detentores dos meios de produção – os capitalistas –, o que Marx chamou de mais-valia. Por sua própria natureza, o capitalismo tende a acentuar a separação entre as classes sociais. Com o avanço tecnológico, um número crescente de trabalhadores é rebaixado em suas habilidades, passando a realizar operações de rotina e tarefas repetitivas. Além disso, a substituição de trabalhadores por máquinas aumenta o exército de reserva de desempregados – uma consequência do modo de produção capitalista, que mantém o poder nas mãos dos capitalistas e assegura uma abundante oferta de trabalho a salários de subsistência. Ademais, entre os próprios capitalistas, a difusão das máquinas e a dinâmica do sistema fazem com que pequenos empresários ou aqueles com menos recursos desapareçam, tornando-se também dependentes dos proprietários dos meios de produção. Além disso, a existência do exército de reserva industrial também explica a tendência dos salários a se manterem no nível de subsistência: os capitalistas podem recorrer à mão de obra desempregada para substituir aqueles que buscam salários mais altos. Muitos autores afirmam que a contribuição de Marx à análise econômica é uma extensão da escola clássica, elaborada de forma engenhosa. Outros contestam essa visão veementemente, insistindo que a análise separada das diversas teorias marxistas compromete a unidade do marxismo, que abrange um conjunto de Filosofia, Sociologia, História e Economia. Por fim, alguns acusam os economistas burgueses de um complô do silêncio em relação à obra de Marx, devido à sua sociologia da revolução, que defende a derrubada violenta da ordem capitalista. 3.4 A escola clássica Embora a maioria dos autores tenha considerado Adam Smith como o apologista da emergente classe industrial capitalista, é importante destacar que sua simpatia frequentemente se voltava para os operários e trabalhadores rurais, opondo-se aos privilégios e à proteção estatal que sustentavam o sistema mercantil. O caráter otimista de Smith se destacou em relação aos mercantilistas que o precederam e a Malthus, que o sucedeu. Ele acreditava no egoísmo inato dos seres humanos e na harmonia natural de seus interesses: cada indivíduo se esforça, em busca de seu próprio benefício, para encontrar a aplicação mais vantajosa para seu capital, o que, por sua vez, o leva a preferir opções que também beneficiem a sociedade. O constante e incessante esforço de cada pessoa para melhorar sua condição é frequentemente suficientemente poderoso para manter o progresso natural das coisas em direção à melhoria, mesmo diante da extravagância do governo e dos erros administrativos. Ou seja, o conceito de troca: essa ideia, aliada à tendência de acumular mais riqueza e ascender socialmente, leva o trabalhador a economizar, produzir o que a sociedade necessita e enriquecer a comunidade. Os seres humanos têm essa inclinação natural (VASCONCELLOS, 2023). Se o governo se abster de intervir nos assuntos econômicos, a Ordem Natural poderá se manifestar. Contudo, assim como os fisiocratas, Smith não afirmava que essa ordem fosse espontânea; era um objetivo a ser alcançado. Apesar da abundância de exemplos e digressões, A Riqueza das Nações contém o que seu subtítulo promete: uma investigação sobre a natureza e as causas da riqueza das nações. Em termos modernos, o autor busca desenvolver uma teoria do crescimento econômico. A principal explicação de Smith para o desenvolvimento econômico está nas primeiras páginas de sua obra: a divisão do trabalho – uma expressão que, embora pareça simples, é usada por ele em dois sentidos distintos, que podem ser entendidos nos tempos modernos como a especialização da força de trabalho, que acompanha o progresso econômico, e a alocação da força de trabalho em diversas áreas de emprego. Ao destacar o mercado como regulador da divisão do trabalho, Smith fez uma distinção entre valor de uso e valor de troca, atribuindo relevância econômica apenas ao último. Ele considerou o valor como algo distinto do preço, afirmando que o trabalho é a medida do valor. Analisou a distribuição da renda ao discutir os três componentes do preço natural: salários, lucros e rendas da terra. A partir dos problemas relacionados ao valor e à distribuição da renda, Smith avançou para a análise dos mecanismos de mudança econômica e dos fatores que influenciam a alocação da força de trabalho entre empregos produtivos e improdutivos. O modelo teórico de desenvolvimento econômico de Smith estava intimamente ligado à sua política econômica: ao criticar o padrão mercantilistade regulamentação estatal e controle, ele defendia a ideia de que a concorrência maximiza o desenvolvimento econômico e que os benefícios desse crescimento seriam compartilhados por toda a sociedade. De maneira geral, os críticos de Smith argumentam que sua obra não é original, exceto pela organização dos temas e pela forma de apresentação. No entanto, reconhecem que ele selecionou exemplos tão significativos que sua importância perdura até hoje, conseguindo combinar materiais históricos e analíticos de maneira excepcionalmente eficaz (VASCONCELLOS, 2023). Seus admiradores, por outro lado, consideram A Riqueza das Nações uma notável conquista intelectual, que oferece uma visão abrangente do progresso econômico dentro de um tratamento teórico desvinculado de interesses particulares, ao contrário de seus predecessores. Entre seus discípulos, destacam-se Malthus, Ricardo, Stuart Mill e Say (representante francês da escola clássica), todos com contribuições significativas para a construção da ciência econômica. Em geral, eles buscaram esclarecer certos pontos ambíguos ou inconsistentes na obra de Smith. Thomas Robert Malthus dedicou-se a precisar a terminologia teórica em Definitions in Political Economy e a analisar empiricamente a Economia, reconhecendo, no entanto, a fragilidade dos fundamentos empíricos de muitas proposições amplamente aceitas, bem como as deficiências dos dados estatísticos. Ele ganhou notoriedade com a obra An Essay on the Principle of Population, publicada anonimamente na primeira edição (1798), cuja recepção calorosa o levou a preparar mais seis edições (a última em 1826). Malthus também escreveu diversos panfletos e artigos sobre temas contemporâneos, além de sua maior obra teórica – The Principles of Political Economy Considered with a View to Their Practical Application. A lei da população de Malthus (1909, p. 6) desenvolveu um aspecto que Smith deixara incompleto: [...] a potência da população é infinitamente maior do que a potência da terra na produção de subsistência para o homem. A população, quando não controlada, cresce a uma taxa geométrica. A subsistência só cresce a uma taxa aritmética. Um ligeiro conhecimento dos números mostrará a imensidão da primeira potência em relação à segunda. Os fatos, no entanto, demonstraram que Malthus subestimou tanto o ritmo quanto o impacto do progresso tecnológico. Além disso, ele não conseguiu prever a revolução agrícola que transformaria radicalmente a oferta de alimentos, nem as técnicas de controle da fertilidade humana. Em relação às propriedades autorreguladoras dos mercados, Malthus se afastou de seus contemporâneos e apresentou contribuições que foram posteriormente desenvolvidas por James Mill e Say. David Ricardo trabalhou na mesma linha de Malthus, buscando expandir a tradição iniciada por Smith. No entanto, ao contrário de Smith e Malthus, que usaram muitos exemplos ilustrativos, Ricardo, com sua abordagem lógica rigorosa, era mais direto e formal. Ele construiu um sistema abstrato em que suas conclusões decorrem de axiomas. O interesse de Ricardo pela teorização econômica surgiu em sua meia-idade, após ter acumulado riqueza como especialista em títulos governamentais e banqueiro. Incentivado por James Mill, ele se dedicou à redação dos Principles of Political Economy and Taxation, publicado em 1817. Nas duas primeiras edições, Ricardo demonstrou otimismo em relação às consequências sociais do maquinismo, mas na terceira edição revisou sua posição, concluindo que as máquinas poderiam causar desemprego tecnológico e deteriorar as condições de vida dos trabalhadores. Essa visão contrastava com a crença de Smith na harmonia de interesses entre as diversas classes sociais e se tornaria um tema central na obra de Marx (VASCONCELLOS, 2023). Ricardo elucidou as interconexões entre a expansão econômica e a distribuição da renda, abordando os problemas do comércio internacional e defendendo o livre- cambismo. No entanto, como observou Leachman, grandes ideias frequentemente resultam em consequências inesperadas: Ricardo jamais teria imaginado que suas teorias inspirariam socialistas ricardianos, como William Thompson, John Gray, Thomas Hodgskin, John Francis Bray, Charles Hall e outros, que incorporaram elementos utópicos (a construção de uma comunidade baseada na bondade e na racionalidade humanas) à crença em uma Economia e Psicologia científicas. John Stuart Mill, filho do economista James Mill, buscou sistematizar e consolidar a análise clássica iniciada por Adam Smith. No entanto, ao fazê-lo, ele modificou algumas premissas, tornando-se conhecido na história do pensamento econômico como um revisionista. Mill introduziu preocupações com a justiça social na Economia, o que lhe rendeu o título de clássico de transição entre sua escola e as reações socialistas. A reinterpretação das leis que regem a atividade econômica, especialmente no que diz respeito à distribuição da renda, talvez represente a modificação mais significativa que Mill fez em relação à tradição clássica. Jean Baptiste Say, jornalista, industrial, parlamentar e professor de Economia no Collège de France, foi o principal representante francês da escola clássica. Ele revisitou a obra de Smith para corrigi-la e complementá-la em vários aspectos, resultando em seu Cours d’Économie politique. Say deu especial atenção ao empresário e ao lucro, subordinando o problema das trocas à produção, o que levou à sua famosa concepção de que "a oferta cria a demanda equivalente", conhecida como Lei de Say. Stuart Mill e Marx estavam preocupados com as consequências sociais da industrialização em sua época, especialmente em relação ao baixo padrão de vida da crescente classe trabalhadora, que vivia em favelas urbanas e carecia das mais básicas condições sanitárias. Eles também se opuseram à longa jornada de trabalho, aos salários baixos e à ausência de legislação trabalhista e previdenciária. No entanto, se o sucesso da industrialização fosse avaliado pelo crescimento da produção, pelo aumento do comércio internacional ou pela acumulação de capital produtivo, esse sucesso seria inegável. Esse contraste evidenciava para ambos que o sistema de distribuição de renda não estava funcionando adequadamente na economia capitalista em expansão. Além disso, o crescimento industrial parecia estar associado a instabilidades econômicas que ocorriam com uma regularidade impressionante. Tanto Stuart Mill quanto Marx perceberam que o instrumental teórico legado pelos economistas clássicos não era adequado, pois se baseava na suposição de uma "harmonia de interesses" e na ordem natural e providencial, que não se confirmavam na prática (HUNT, 2000). Ambos os autores, no entanto, discordaram quanto à solução para os problemas sociais. Stuart Mill argumentou que a distribuição da renda era suscetível à intervenção humana e defendeu políticas voltadas para o bem-estar geral, especialmente em favor da classe trabalhadora. Em contrapartida, Marx criticou Mill por tentar conciliar a economia política do capital com as demandas do proletariado, entendido como a classe "sem propriedade" ou que possui apenas sua força de trabalho, enfatizando que essas exigências não podiam mais ser ignoradas. 3.5 A fisiocracia A fisiocracia, um movimento que não existia em 1750, conquistou a atenção de Paris e Versalhes entre 1760 e 1770, mas já estava esquecida por volta de 1780, exceto por alguns economistas, como observou Schumpeter. Considerada por muitos como mais uma "seita" de filósofos-economistas do que uma escola econômica propriamente dita, surgiu e desapareceu rapidamente, em torno do doutor Quesnay, médico da corte e protegido de Madame Pompadour. Sua posição garantiu, por um tempo, um status privilegiado para a fisiocracia na vida intelectual da alta sociedadefrancesa (HUNT, 2000). Justo e honesto, pedante e doutrinador, leal à sua protetora e resistente às tentações do ambiente da corte, Quesnay poderia ser descrito, na expressão de Schumpeter, como um maçante respeitável. Entre seus discípulos, destacaram-se: o marquês de Mirabeau, autor de várias obras, especialmente Philosophie, considerado um importante manual de ortodoxia fisiocrática, e L’Ami, que traz reflexões sobre o quadro econômico de Quesnay; Paul Mercier de la Rivière, descrito como “impulsivo e grosseiro”, que escreveu outro importante manual fisiocrático – L’ordre naturel et essentiel des sociétés politiques; G. F. Le Trosne, advogado que se interessou mais pelas relações entre o sistema fisiocrático e o Direito Natural; o padre Nicolas Baudeau, que se converteu ao "credo" fisiocrático após uma forte oposição, tornando-se um dos seus mais eficazes propagadores; Pierre S. Dupont de Nemours, talvez o mais inteligente do grupo, que, segundo Schumpeter, possuía o talento brilhante de um pianista, mas não de um compositor, e que reuniu e comentou as obras dos fisiocratas, especialmente as de Quesnay; Turgot, intendente de Limoges e ministro de Luís XVI, que teve a oportunidade de aplicar as ideias econômicas de sua escola; e Karl Friedrich Margrave de Baden, posteriormente grão-duque de Baden, um dos políticos mais capazes de sua época, que fez várias tentativas para implementar a fisiocracia em seu principado. Os fisiocratas conquistaram um público atento entre os nobres da corte e os governantes da época, como Catarina da Rússia, Gustavo III da Suécia, Estanislau da Polônia, José II da Áustria, entre outros, que tentaram implementar algumas de suas máximas sobre um bom governo. A fisiocracia se estabeleceu, principalmente, como uma doutrina da ordem natural: o universo é regido por leis naturais, absolutas, imutáveis e universais, desejadas pela providência divina para a felicidade da humanidade. Os seres humanos, por meio da razão, podem descobrir essa ordem. Alguns autores consideram as teorias de Quesnay sobre o Estado e a sociedade meras reformulações da doutrina escolástica, que atendiam aos interesses dos nobres e da sociedade. Alguns até destacam uma certa tendência teológica no pensamento de Quesnay, no entanto, a maioria concorda em reconhecer a natureza puramente analítica ou científica de sua obra econômica. Precursor em diversos campos, Quesnay destacou-se na formulação de princípios de filosofia social utilitarista, resumidos na expressão obter a máxima satisfação com um mínimo de esforço. No âmbito do harmonismo, que seria desenvolvido no século XIX, ele reconheceu o antagonismo de classes, mas acreditava na compatibilidade universal ou na complementaridade dos interesses pessoais em uma sociedade competitiva. Em relação à teoria do capital, Quesnay afirmava que os empresários agrícolas deveriam iniciar suas atividades devidamente equipados, ou seja, com um capital – no sentido de riqueza acumulada – antes de começar a produção; no entanto, ele não analisou a formação e o comportamento do capital monetário e do capital real (HUNT, 2000). Em 1764, Adam Smith, então professor de Filosofia Moral na Universidade de Glasgow, teve a oportunidade de se encontrar com Quesnay, Turgot e outros fisiocratas durante uma visita à França. Doze anos depois, ele se tornaria o líder da escola clássica, que, junto com a escola fisiocrática, marcaria o início da fase verdadeiramente científica da Economia. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS HUNT, E. K.; Serman, H. J. História do pensamento econômico. Petrópolis: Vozes, 2000. MALTHUS, Thomas Robert. An essay on the principle of population. Nova York: Macmillan. p. 6.1909. VASCONCELLOS, M. A S; GARCIA, M. E. Fundamentos de Economia.7. ed. São Paulo: SaraivaUni, 2023. .